sábado, 5 de agosto de 2017

Sobre a Falsa Consciência do Condutor. E sobre como transformá-la


Querido diário:

No outro dia, um motorista de táxi porto-alegrense sugeriu que a única saída para a marginalidade do Brasil é matar essa macacada. Comecei contra-argumentando que tem posições diferentes sobre o tema, como é o caso dos igualitaristas, meio em que me posiciono.

Aduzi (ele indagou o que é isto) que, por ser igualitarista e ver na social-democracia o regime político para alcançar a sociedade igualitária, a sociedade justa, é que procuro modelar as possibilidades de conversão da sociedade brasileira deste enorme espaço de desigualdade e exclusão em terra de sol e mel. Confrontei-o indagando se ele acha mesmo que as instituições que presidem a vida social brasileira têm alguma chance de acabar com a corrupção na política e na administração pública, que a Bolívia e Noruega são modelos de sociedade justa?

Aduzi (a esta altura, ele já ficou sabendo o que é) que a questão hoje em dia, quando o espectro ideológico deixou mais claras as posições de direita e as de esquerda, é, também nós, deixarmos claro o que entendemos com uma e outra. Indaguei se ele se posiciona sempre do lado anti-pobre, sugerindo que, por suas roupas, pela profissão de jornada de 14 horas diárias, pelas oportunidades educacionais que dá a seus filhos, ele não pode ter nada em comum com a classe alta, apenas -talvez- esse ódio aos pobres, ainda que criminosos, coisa -aliás- que se vê em outras balizas- da classe alta (ao deitar esta falação, deixei-o mudo e ele confessou não gostar de frases com mais de quatro ou cinco palavras).

Argumentei que quem hoje considera legítimo levar Lula à cadeia está pouco se lixado para a trajetória  de transição desta sociedade em que viveu Pedro Pedreiro àquele mundo por ele sonhado, pelos boias-frias, pelos severinos, e por tantos outros casos de dramas narrados pela sensibilidade social de incontáveis artistas. Pergunto-me em primeiro lugar se a desigualdade não o incomoda. E, em seguida, que tipo de medida, que tipo de presidente da república pode mobilizar a classe baixa para fortalecê-lo a dar-lhe combate.

Por fim, já considerando-o de meu lado, dirigi-me àqueles que pensam que a atual distribuição da renda é justa, lembro que elas ajudam a formar uma estrutura de preços relativos que, aliados ao protecionismo no comércio exterior brasileiro, os leva a pagar cinco vezes mais por um vidro de Tabasco comparado a um molho de pimenta nacional e uma estrutura tributária de corar farinha de frade de pedra. Em outras palavras, a distribuição de renda escandalosamente enviesada contra o pobre no Brasil tem enorme responsabilidade sobre a estrutura dos preços relativos que, mais uma vez, coloca o maior peso é mesmo sobre os pobres.

Já acolherado com o motorista, ambos referimos que pensar que a saída encontra-se em rebentar o capitalismo e erigir o socialismo, parece tão artificial quanto o esperanto. Se a língua de laboratório não funcionou, tanto é que sua penetração como segunda língua no mundo inteiro é discretíssima, o socialismo até hoje não foi definido adequadamente, sendo que as experiências realizadas pela humanidade na URSS, na Albânia, em Cuba, na China, nos bolivarianos, é um horror. Fico mesmo é com a genial expressão de Gerônimo Machado: "não queremos socialismo, apenas reformas democráticas que conduzam a ele".

Já senhor da situação, o MdT indagou, retoricamente, "se não dá socialismo, então faz o quê?", fazendo-me lembrar que, de sua parte, no capitalismo, dado que o mercado de trabalho nunca gerará empregos em intensidade suficiente, a saída é o emprego público.

E, depois de ter lido alguns de meus livros, aduziu que, além disso, as transferências institucionais tendem a alcançar valores maiores que o PIB nas sociedades mais ricas, permitindo-nos pensar que transferências dos governos às famílias pobres poderão, num just like that de fazer inveja aos maiores mágicos, torná-las ricas. Com este raciocínio, o endiabrado motorista sorriu, satisfeito. Já fechando a conta da corrida, ele disse ter pensado, estar prestes a aliar-se à visão de minha turma sobre a reforma da previdência: retém as pessoas e não as incetiva a sair, o oposto do que é desejável socialmente. Eu anuí (ainda que, antes da corrida, ele não conhecesse a palavra, mas, depois dela, sorrisse satisfeito ao ouvi-la de mim).

DdAB

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