sábado, 29 de julho de 2017

Cenários econômicos há 30 anos


Querido diário:
No que segue, farei a transcrição de umas folhas de caderno pautado que localizei remexendo em antigos brinquedos. Trata-se de notas sobre uma conferência dada por Luiz Paulo Veloso Lucas, engenheiro do BNDES, em 17 de setembro de 1987. Minha motivação em trazê-lo ao público (minhas notas de então com edições menores agora) é vermos que um ciclo de vida inteirinho passou sob meus olhos sem que eu me desse conta dos delírios de grandeza dos formuladores de políticas públicas brasileiros. Fazem, fiz, o elogio da indústria como expressão da salvação nacional, quando ele sempre foi ligado ao binômio agricultura-serviços. Em particular, as notas terminam reproduzindo um apelo dramático do apresentador: "o processo de crescimento precisa endogenizar-se, com progresso técnico". Até hoje digo: tem que ter educação.

Apresentador: Enéas de Souza às 14h31.

HISTÓRIA DOS CENÁRIOS
O DEPLAN/BNDES faz cenários desde 1984, como planejamento estratégico, o que tem mudado a forma do BNDES operar. A análise de projetos no Brasil tem três fases com inovação tecnológica e como instrumento de gestão. Na década de 1970, começou a ação por programas, com a ação setorial. Na terceira etapa, começou o planejamento estratégico da análise macroeconômica integrada.
Em 1984, surgiu o I Plano Estratégico Trienal, do qual os cenários são o filho mais famoso. Consideram esgotado, desde 1984, o crescimento por substituição de importações (consumo corrente, consumo de duráveis, insumos, bens de capital e tecnologia). Busca-se pensr o futuro de forma organizada: futuros possíveis (n), futuros prováveis (n - k), futuros desejáveis (n - k - pi).

O CENÁRIO ATÉ 1990
a) da retomada do crescimento a taxas históricas. Eram as pessoas do BNDES e o jornalista Aloísio Biondi. Depois chegou a esta tese o prof. Antonio Barros de Castro, que chamou de reajuste estrutural.
Em 1985, fizeram revisão, chegando a
b) cenário de ajustamento - continuidade da política contracionista, crescimento menor que as taxas históricas, mas superávits comerciais. Em 1985, cenário com crescimento de 10-12% a.a., quando surgiriam gargalos setoriais profundos. Falava-se em uma usina de otimismo, mas os dados são de que o país saiu da crise com um impulso exportador, que dinamizou a economia.
As dificuldades do cruzado são conjunturais. Hoje estamos diante de um terceiro ciclo juglariano (14 a 15 anos). A partir de 1986, monitoramento dos futuros possíveis. Virou rotina.

CENÁRIO INDUSTRIAL (metodologia)
Pensa-se simultaneamente todas as variáveis que influem: tudo o que determina a realidade macroeconômica, industrial, etc. Variáveis chave do cenário, cujo comportamento futuro deve ser projetado articuladamente. Não é um modelo de consistência [eq. geral computável?], mas sim um estudo simultâneo de um número de variáveis, quantificáveis ou não. Após saber o que houve na realidade, indaga quais as macro teorias que costuram o ocorrido. O modelo tem 260 variáveis quantificáveis do sistema macroeconômico.
A desagregação do produto industrial se dá de forma muito livre. Não é matriz de insumo-produto. É uma espécie de banco de testes.

RESULTADOS DO EXERCÍCIO
Ano 2000 - cenários intermediários entre o otimismo e o pessimismo. Trata-se de estudos que dizem o que deve ser feito hoje para chegar lá no futuro planejado.

CENÁRIO A
Integração competitiva do Brasil no mundo desenvolvido
:: relações comerciais, econômicas, financeiras, políticas, diplomáticas, militares.

CENÁRIO B
Fechamento e manutenção da dependência ao sistema financeiro internacional SFI. Congelamento do status quo do Brasil frene aos países desenvolvidos, com dependência ao SFI.

Crescimento do PIB mundial em 2,5%, crescimento do comércio mundial, 4,0% (com o ingresso dos países socialistas).

O SFI é a primeira variável crítica: o mundo vive grave desequilíbrio, observado pelo déficit comercial dos USA com o Japão e a Alemanha, déficit no orçamento do tesouro. A projeção do déficit é de US$ 1,0 trilhão no ano 2000. O desequilíbrio é negociado, relançando o Japão e a Alemanha e diversificando os investimentos desses países no Terceiro Mundo.
A solução é os EUA abrirem mão da hegemonia. A segunda solução é ter os juros de 2,9% reais, não mais taxas reais negativas. Em caso da ocorrência de uma crise internacional, cresceremos menos.
A segunda variável crítica é o petróleo. Com o controle das corporações da evolução energética, o petróleo é o grande recorte. terá, por isto, preço crescente de US$ 30 por barril.
No final do cenário internacional, os países centrais ficam em setores intensivos em conhecimento, abrindo aos demais as indústrias tradicionais.

CENÁRIO MACROECONÔMICO
1984 - as exportações crescem 40% e aparece um mega-superávit na balança comercial. Pensava-se que era fruto da recessão. Mas é fruto da maturidade do parque industrial, pois só pode exportar se tem condições minimamente competitivas. Hoje 60% da exportação é de manufaturas.
Mas este ciclo se esgotou, com a lógica da substituição de importações. Mesmo assim, o país importou US$ 2,0 bilhões de fármacos.

A CAMINHO DA MATURIDADE
a. vetor horizontal: ampliação da base produtiva para o mercado interno, com 15 milhões de trabalhadores no mercado informal,
b. vetor vertical: implantação de setores de tecnologia de ponta e modernização da base produtiva
c. terceiro vetor: integração com o mercado mundial.
O processo de crescimento precisa se endogenizar com o progresso técnico.

Pensam no PIB crescendo a 7%. Precisamos este ano de US$ 4,0 bilhões e depois nada mais, se ficar com o coeficiente de abertura das exportações pelo PIB de 9%, querendo apenas a Libor a 7% e um spread de 0,8% à la México. Isto corresponde em 1987 a 2,8% do PIB como superávit. E aí na década de 1990...
Na exportação produto-a-produto, temos superávits que no ano 2000 o país é superavitário em divisas, o que pode permitir importar mais até bens de consumo.

A QUESTÃO SOCIAL
A urbanização nos países centrais é de 80%.
Ano-urbanização%-taxa de crescimento%
1950-31-2,3
1960-36-3,0
1970-45-2,9
1975-56-2,5
1980-68-2,3
1986-75-2,1
Formação de cinturões de miséria urbana.

DUAS TAREFAS
Um novo ciclo de investimento em insumos básicos e infraestrutura, principalmente energia. em 1991-92 faltará energia independentemente do investimento de hoje. Ativar o quarto plano siderúrgico, não-ferrosos, zinco, cobre, Caraíba, papel e celulose, química e petroquímica.

[fim da transcrição]
DdAB
Imagem: pedi ao Google Images "assunto angelical". Veio, entre as primeiras sugestões, esta imagem de pura pirraça.

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