sábado, 29 de abril de 2017

Zero Burra e a Interpretação de Textos


Querido diário:

Ontem, a greve geral foi um sucesso. Mas tem gente que fez mediações. Lendo uma destas, da jornalista Rosane de Oliveira em seção na página 9 de Zero Hora de hoje, entendi que uma das razões que me leva a ler o jornal e a cronista é sua capacidade de manter-se durante um bom tempo no mundo das contradições insolúveis. Vejamos:

Tópico frasal, falando da greve de ontem:

Nem o sucesso alardeado pelas centrais sindicais, nem o fracasso apregoado pelo governo de Michel Temer.

Início do parágrafo seguinte:

   A greve geral contra as reformas trabalhista e previdenciária foi a maior desde a redemocratização do Brasil.

Hai-kai interrogativo
Que mais posso dizer?
É sem-vergonhice?
Ou apenas burrice?

A moral da história é que aprendi a conviver com estes atropelos à lógica praticados por um jornal intrinsecamente atuando pela direita.

DdAB
P.S. Eu começara escrevendo isto, e mudei de lugar agora, 14h01:
Ante-ontem, ouvi na TV, incauto, "outra barbaridade", como disseram "Os Mirins". Os juízes do supremo declararam que eles próprios, médicos, economistas e outros podem desobedecer (e quem não o fazia até três dias atrás?) a regra que estabelece um teto de recebimentos em dinheiro para os funcionários públicos. Como os juízes já desobedeciam esse teto, com uma legislação do imposto de renda vergonhosa (por exemplo, bolsa de estudos não é considerada "provento de qualquer natureza", não há grandes novidades. Mas qual a justificativa daquele anteontem? É que o juiz e outros apaniguados podem acumular seu cargo regiamente recompensado com o de professor. E haverá milhares de outros tipos de acumulação permitida. Se se não houver milhões, novas leis permissivas serão criadas, a fim de que nada mude. Ou seja, agora, um juiz que também é professor pode por mais razões ainda receber acima do teto.

P.S.S. E olha esta montagem que retirei do mural de Elvis Santos no Facebook, ironizando que a grande imprensa nacional considerou o assunto de segunda importância:


P.S.S.S. Uns comentários no Facebook:
Elisabete Otero Continuo admirando tua tolerância com este pseudo jornal, me ajuda a rir .
Duilio De Avila Berni Para mim, Betty, esta de hoje foi uma das melhores. Mas tem mais: aquele jornalista da página 2 (Túlio Milman) escreveu longamente sobre sua tese de que a greve de ontem (a maior desde a redemocratização, segundo a colega dele) foi contra Lula.
Elisabete Otero Seria uma competição de asneiras ? os prêmios devem ser muito bons.
Maria Lucia Sampaio eu li, rsrsrsrs
Vera Goldim Fantástico!
Duilio De Avila Berni Querida!
Corina Dick Dondo, te adoro!
Duilio De Avila Berni Querida!
Glaucia Michel de Oliva Juro que não entendi o Milman ????????

Duilio De Avila Berni Oiee, Gláucia: na página 2 do jornal correspondente a 29 e 30 de abril, situa-se o "Informe Especial", de responsabilidade de Tulio Millman. Seu artigo de fundo de hoje intitula-se "A greve, na verdade, também foi contra Lula". Trata-se de um desabotinado ataque contra o ex-presidente Lula, sustentando que "nada disto começou agora". Ao contrário "tudo" (tudo o quê?) começou com Lula. Nem consigo comentar, nem vale a pena. Fosse o jornalista (como houve tantos outros que foram) meu aluno em cursos de introdução à economia, eu teria que dar-lhe nota de reprovação. Até uma cacofonia (tradução apressada de commodities boom) tem na linha de tiro do radical de direita.

sábado, 22 de abril de 2017

Silviano, Graciliano e o Tirano


Querido diário:

Claro que tudo mundo sabe coisas sobre a Inconfidência Mineira, título politicamente incorreto, ainda mais que a banda que clamava pela independência de Brazil pra cá e Portugal pra lá foi a corrente vencedora. E o que falo nem tem a ver com o dia de ontem, dia do proto-mártir da independência. É que, tempos atrás, li o fascinante livro de Silviano Santiago sobre Machado de Assis, uma biografia forjada (e isto é elogio, uma conquista do autor). E ainda não falei que acabei de ler

SANTIAGO, Silviano ((2013, 1981) Em liberdade. Rio de Janeiro: Rocco.

Trata-se agora de um diário fictício atribuído a Graciliano Ramos, correspondendo aos três primeiros meses de vida após sua libertação. Dizem que Silviano escreve melhor que Graciliano, afirmação que mantenho sub judice, mas que o trabalho é impressionante, lá isto é. E, de quebra, levou-me a ler -no futuro próximo- e reler o próprio Graciliano. Alíás, já motivado por Silviano Santiago, acabei de ler a biografia do velho Graça escrita por Dênis de Moraes. A vontade que bate na gente é de ler mais coisas, outras biografias, depoimentos, entrevistas, as outras obras que até por irresponsável decidira não ler.

Ok, vou transcrever um longo parágrafo, vivendo esse clima do 21 de abril (aliás hoje comemora-se o descobrimento do Brazil, a invasão do Brazil pelos portugueses), o clima da inconfidência, o clima do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles, que adquiri lá na terra que seria a capital da província. Então, estamos falando do autor Silviano, da personagem Graciliano e de minha referência oblíqua ao senhor Michel (Fora) Temer, que entra, superestimando suas maldades e invocações, o tirano que carreguei no título. O texto evoca, também, coisas de Curitiba...

Estamos na página 227. Copio:

   Não gosto de coisas secretas em matéria de política. Cláudio [Manuel da Costa, preso no levante da inconfidência, falecido aos 4/jul/1789 e até hoje há polêmica se foi ou não assassinado, com tentativa por parte das autoridades de falar em suicídio] atualizando arbítrio para os dias presentes e o caso Vladimir Herzog] não quis que a rebelião traída continuasse em segredo. eis a sua grande audácia. O segredo, no quadro político, só ajuda à situação. De duas maneiras, pelo menos. Como os movimentos da oposição não são do conhecimento do país, a situação pode sempre forjar planos falsos, é claro) que são comunicados à população em geral, para aterrorizá-la contra o inimigo e mantê-la em estado de alerta. Feito isso, exige plenos poderes para o governo. deem-me plenos poderes, ou o país vira uma anarquia. Diante desse dilema, a população, já amedrontada com as manobras malévolas descritas no plano falso, não tem alternativa: aceita, quando não pede, o regime de exceção. Por outro lado, como os membros da oposição não declaram as suas ideias à luz do dia, quando chega o momento da confrontação, ninguém mais sabe quem é quem, e vê-lse o espetáculo desloador do martírio d da fraqueza humana. Uns poucos são punidos com a prisão, ou com a morte, e muitos se desdizem, medrosos diante da violência e da perseguição. Resultado final: as forças oposicionistas se desmantelam, como se fossem compostas de soldadinhos de chumbo sobre a mesa. Não se chega nem mesmo ao momento da confrontação. A oposição se autodestrói, emaranhada nas cordas do segredo.

Veja só, parece hoje, parece o Brasil de hoje e de ontem e, como é o caso, de ante-ontem. Parece a Argentina da Guerra das Malvinas, parece a Venezuela de hoje, parece aquele carinha da Síria, parece tanta gente que, se cada um dos envolvidos adquirissem um livro de Santiago, este faria um estrondoso sucesso de vendas...

DdAB
E a capa do "Em Liberdade" tá aqui:
E as "Memórias do Cárcere" aqui:
... que talvez seja a primeira edição, José Olympio, quatro volumes. De minha parte, li, no final da adolescência, a segunda ou terceira edição, da própria Editora José Olympio ou do Clube do Livro. Há menos de dez anos, reli, agora em edição ou do Círculo do Livro ou de algum outro círculo editorial. Um dia, volto a esta postagem (de meu estúdio, que estou digitando tudo isto em chez moi) e arrumo estas lacunas.

terça-feira, 18 de abril de 2017

História das Decomposições Matemáticas









m
m/v
r =
=






c + v
c/v + v/v







Querido diário:

Imagino que este título de postagem é um dos mais ambiciosos que já digitei. Na verdade, achei algo novo relativamente a meu nível de conhecimento: o velho Kalecki. E o que não é tão novo? Meu finado orientador, Andrew Glyn, é famoso por ter feito uma decomposição da taxa da lucros, na linha em que o próprio Marx fez lá n'O Capital. Vamos ao Marx:

Definindo a taxa de lucro como a razão entre a mais-valia (m) e o capital empregado (c + v, respectivamente, capital fixo e capital variável), temos a decomposição: a taxa de lucro passou a ser uma função da razão entre a taxa de exploração da força de trabalho (m/v) e a composição orgânica do capital (c/v).

E que ocorreu entre a decomposição de Marx e a de Glyn? A decomposição de Michal Kalecki. Então, no artigo que cito na versão em espanhol

KALECKI, Michal (1935) Un ensayo teorico sobre el ciclo económico. Revue d'Économie Politique. Mar-Abr.

Como sabemos, hoje esta revista de escol da academia francesa publica majoritariamente -se não 100%- em inglês. Mas naqueles tempos duvido que publicasse em espanhol, de sorte que devemos ter presente que estou citando uma versão do original (que talvez seja em inglês, em polonês, em francês, sabe-se lá. Só olhando. E olha que por olhar pode ser que este exemplar da revista tenha vivido e ainda viva em Porto Alegre.)

E quê que disse Kalecki|? Disse que:

.a se fizermos B valer como lucro bruto
.b e também K como o estoque de capital
.c e P como o PIB

então a taxa de lucro B/K pode ser decomposta como












B
B
P
r =
=
x






K
P
K









ou seja, temos uma visão política e outra tecnológica da taxa de lucro: a participação dos lucros no PIB e a relação produto/capital.

Em resumo, o mundo das decomposições de identidades é insondável em todas as suas possibilidades de aplicação.

DdAB

sábado, 15 de abril de 2017

Popper e a Lei de Murphy

Querido blog:

No outro dia, meu sobrinho, o futuro doutor Arthur Abegg, problematizou de modo interessante a lei de Murphy. O assunto começou quando lhe relatei um experimento de teste que vi na TV. A Universidade de Warwick (em Coventry) é famosa pela especialização em matemática. E talvez também seja hiper-desejosa de ser aclamada como tal. Isso explicaria a razão que os levou a fazer um teste da lei de Murphy que me pareceu muito criativo.

A proposição mais usual para ilustrar a abrangência e validade da lei é

"se o pão com manteiga deitar-se ao chão, é certo que a manteiga ficará do lado de baixo".

Pois foram selecionados 100 estudantes de matemática (e imagino também ciências afins) e postados ao longo dois lados de uma mesa. Cada estudante controlava uma fatia de pão com manteiga. Ao sinal do professor-chefe-do-experimento, todos fizeram tombar suas fatias de pão. A expectativa era que, se 50% caíssem com a manteiga para baixo, o teste seria inconclusivo, pois os outros 50% estariam caindo com a manteiga para cima. A fim de não desqualificar o  teste da lei, é conveniente termos em mente o que é uma variação puramente aleatória: se fosse 51-49 ou 52-48, mas não 79-21, por exemplo, ainda assim a lei seria declarada como tendo resultado inconclusivo, pois poderia ter sido apenas a sorte/azar que fez aquele quinquagésima fatia de pão inclinar-se para o lado "errado", mas, na última hora, cair para o lado "certo". Mas, para saber se a conclusão do experimento é válida, podemos usar distribuição de probabilidade qui-quadrado e testar se tudo está nos conformes. Pode ser que, digamos, 58-42 dê validade à lei ou a seu descarte, como suporte estatístico superando a variação aleatória.

No caso da turma de Warwick, o teste deu inconclusivo, ou seja, nem aceitou nem rejeitou a lei de Murphy. Então entrou na história o Arthur. Agora não se tratava mais de testar se cai mais manteiga para baixo ou para cima, mas de testar o poder preditivo da própria lei de Murphy. Então qual é o teste? A lei funciona ou não funciona? Aí é que entra a encrenca: se é para funcionar, então o teste de sua validade deve falhar, mas -se falhar- então a lei deveria estar prevendo o acerto, o que iria levar-nos a dizer que a lei falhou, caso em que ela estaria prevendo o que deveria, ad nauseam. E, se prevê o contrário do contrário do contrário do que esperamos, ou seja, a lei funciona, talvez o que estejamos testemunhando é apenas o "espírito de porco" da lei, que deveria fracassar no teste.

Com isto, também temos um problema para a aceitação pacífica dos testes de Karl Popper no sentido de validarmos como científicas apenas as teorias que não podem ser falsificadas. Mas, no caso, o que teríamos seria a aceitação ou recusa da lei. Não podendo fazê-lo, Popper recomenda dizermos que a lei de Murphy não estaria escudada em uma teoria científica.

DdAB

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Zero Hora versus Zerro Herra


Querido diário:

Leio Zero Hora diariamente. Em parte do que leio, encontro informação nem sempre interpretada ou considerada relevante para basear os pontos de vista correntes entre seus jornalistas. E em outra parte, há mesmo a aplicação do provérbio latino daquele errar é humano.

Então. Tem a página Política +, normalmente assinada por Rosane de Oliveira e hoje, por Carlos Rossling. Pois não é que não é que não vemos inovações para a comemoração do Dia de São Nunca? É, no caso, passaria a ser o dia 31 de abril. Estamos, assim, na página 10 do concorrido jornal. Fraude num dos bancos de propriedade do estado do Rio Grande do Sul, o Badesul: R$ 90 milhões mal empregados.

NÃO FOI ACASO: BANCO CENTRAL MULTA BANRISUL
[...]
   O Badesul tem novo período de incerteza. O mandato da atual direção acaba em 31 de abril. Ao mesmo tempo [...].

É, pois não é que não é que não é não? Em compensação temos o editorial, na página 24. Preocupa o editorialista o rumo da lata do lixo que está tomando a controversa reforma da previdência estabelecida pelo governo (primeiramente, fora) Temer. Começo citando o olímpico finalzinho:

Antes, é preciso sensibilizar a população sobre a necessidade e a urgência das modificações propostas.

Primeiro, tu nunca sabe se estáshw lendo Zero Hora ou Zerro Herra. Segundo, se é mesmo que há informação verdadeira, depois daquele finalzinho apologético, no editorial, consideremos:

.a a reforma prevista alardeava uma economia de R$ 678 billhões em dez anos. E levou um baque de R$ 115 bilhões por causa das emendas que tentam corrigir o mais insuportável de tudo o que foi proposto, sem tanger o centro: aposentadorias milionárias, fraudes espetaculares, falta de conhecimento do funcionamento do mercado de trabalho, um pandemônio, enfim. Usando um conhecido teorema da aritmética, 678 - 115 não pode dar outra coisa que não seja 563 bilhões. Em dez anos, ou seja, com inflação e juros zero, uns R$ 56,3 bilhões por ano.

.b pois bem, que não por bem! O PIB do Brasil em 2016 foi de R$ 6,266 trilhões, conforme informação que colhi neste site aqui: http://www.valor.com.br/brasil/4890204/pib-do-brasil-recua-36-em-2016. Isto significa que a economia a ser feita em 2018 com os cortes naquela reforma vergonhosa prevista para a previdência social, se não aumentarem, representará menos de 0,9% daquele valor, que anda despencando feito rabo de cavalo.

Conclusão: se o PIB não tivesse caído 3,6%, segundo essa mesma fonte, toda a despesa da previdência que está destruindo o Brasil com 0,9% de intolerável prejuízo ainda poderia dar um lucro, se o desarranjo institucional provocado por Aécio Neves, culminando com o impeachment de Dilma e o caos que se prolongou ao governo do presidente (fora) Temer, não tivesse ocorrido. Tibieza institucional não se resolve com abalos institucionais. Esta é a moral da história. E eu já não sei se estava lendo Zero Hora ou Zerro Herra.

DdAB
Já usei esta imagem em outros carnavais. E infaustos natais.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Tolice Industrializante: uma abordagem de insumo-produto


Querido diário:

Andei argumentando que é uma tolice (na linha de Jessé Souza e a inteligência brasileira ficar satisfeita com explicações para o funcionamento da sociedade que não levem em conta em primeiríssimo lugar a enorme desigualdade presente praticamente desde o descobrimento) pensar que o Brasil poderá imitar o esforço de recuperação do peso da indústria na economia despendido pelos países capitalistas avançados, quando a sociedade é tão carente de bens públicos (como a segurança e o saneamento) e de bens de mérito (como a educação e a saúde).

Tomei os dados da matriz de insumo-produto brasileira de 1980, originária de uma base de dados que comecei (com a substantiva ajuda de Joaquim Guilhoto) a montar a partir de minha tese de doutorado e que, neste formato de oito setores, foi usada no melhor paper que fiz in my life (aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-63512006000100004). Na tabela que nos encima, temos três pares de colunas derivado dessa matriz, concernentes a oito setores. O primeiro par mostra a demanda final e a demanda total da situação original. Observemos as cifras do total setorial da demanda final (igual ao total dos insumos primários, ou seja, PIB mais importações ou M) e da demanda total (demanda final/que/também/contempla/as/importações mais os insumos intermediários).

No segundo par de colunas, eu começo o exercício contrafactual. Decidi duplicar a demanda final dos SIUP - serviços industriais de utilidade pública (energia elétrica, água, saneamento e limpeza urbana). Digamos que concentramos esse gasto apenas no saneamento: começando com esgotos, teremos a produção de canos, cimento, tijolos e culminaremos por dar esgoto à população. Uma vez que elevamos a demanda final de 6.594 para 13.188, naturalmente, a demanda final aumentou de 849.886 para 856.480. E com ela também aumentou na mesma cifra o total dos insumos primários (PIB + M).

No terceiro par, tomei o mesmo aumento feito anteriormente sobre a demanda final, ou seja, aqueles 6594, mas joguei-o sobre o setor de bens de produção. Imagino que, no material de transportes (ali inserido), a turma do fetichismo industrial vai começando com aqueles aviões invisíveis que devem render uma grana nos mercados mundiais de armas. Com este aumento de despesa, serão necessários alguns canos, pouco cimento, muitos eletro-eletrônicos, mas finalmente praticamente nenhum metro linear de esgoto (na verdade, há menos de 200 unidades da quantidade monetária de demanda induzida sobre os SIUP)...

Nosso gap escatológico com relação aos grandes países industrializados do mundo seguirá precisamente o mesmo, neste segundo caso. Uma vez que a demanda final elevou-se naqueles 6.594, obviamente os insumos primários (PIB + M) também o fazem precisamente nesse montante. O que aumentou com essa investida sobre a indústria pesada foram os insumos intermediários. E pra que elevá-los, se o PIB é o mesmo do resultante do gasto em esgotos? Esgotos, como sabemos, têm muito mais importância para manter saudável uma população do que aviões para lançar gases sobre populações civis.

A moral da história formulo-a agora em outros termos: para que gastar em bens de produção, pensando em resolver um problema de esgotos, com o aumento do "emprego e renda" se podemos gastar diretamente no SIUP e, com isto, ter esgotos e até menor uso de insumos intermediários? É fetichismo, minha gente.

DdAB
(Edições feitas às 10h32min de 6/abr/2017).

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Capital dos Carta e a Tolice Industrializante


Querido diário:

Nos tempos em que eu exercia o magistério em sala de aula, era mais certo que o crescimento das crianças ou que a soberania popular em transformar a linguagem que eu desse como exemplo de bem de demérito a maconha. Desfeitos certos mal-entendidos, eu podia rugir a consigna que desenhei para a ocasião: "Adoro drogas", mas esclarecia que meu programa de legalização da encrenca deveria ser implantado passo-a-passo em um desenvolvimento de 20 anos. Hoje, mudei minha compreensão sobre o tema: em 20 anos, o governo absorverá a oferta (provisão) de todos os tipos de droga. Quem quer crack deve procurar o governo, as enfermeiras das salas de consumo criadas para a ocasião. Cocaína, idem, lança-perfume, santo daime, sei lá que mais. Com oferta grátis, é impossível surgirem concorrentes de respeito. Acaba-se o tráfico.

Em tempos recentes, na condição de aposentado que não vê jeito de jogar bocha ou fazer palavras cruzadas convencionais ou diretas, li:

SOUZA, Jessé (2015) A tolice da inteligência brasileira; ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa.

Emocionei-me quase às lágrimas, pois era isso o  que eu queria dizer: o verdadeiro problema do Brasil é a desigualdade e é simples tolice achar que o problema é o patrimonialismo, a cordialidade, a casa e a rua, sei lá. Exemplo meu: a violência que hoje vivemos neste país é fruto da desigualdade (não há emprego nos setores de formação de capital humano) e não será resolvido, a não ser com mais emprego (sistema judiciário, educação, saúde, aquelas coisas).

Tolice é não entender que a desigualdade atua como um aríete contra as instituições. E que dizer, então, dessa louvação nacional ao fetiche industrializante? Tá na Carta Capital -que, carinhosamente, designo como Capital dos Carta e que faz parte da mesma penitência que jurei pagar ao ler Zerro Herra-, com o título de "O debate interditado; política industrial. Principal resposta do mundo à crise, a dinamização da indústria não é um tema importante no Brasil".

Pois é, pois não é que não é mesmo? Estamos nas páginas 32 a 35 do número 946, de 5 de abril, quarta-feira vindoura. Fala-se na preocupação que países tão díspares quanto:

.a Reino Unido
.b Holanda
.c França
.d Itália
.e Estados Unidos
.f China
.g Índia

estão super-atentos às ameaças à indústria:

   Novas estratégias para a indústria são a reação mais importante da recuperação após a crise de 2008, gerada por políticas que entregaram ao mercado e ao sistema financeiro a condução da economia e se encarregaram de desqualificar a manufatura, apesar de não existir nação avançada sem indústria desenvolvida.

Quando li este paragrafinho fiquei pensando: começa tudo de novo: quem causa e quem segue o ímpeto desenvolvimentista? Costumo citar um trecho do livro "Mesoeconomia; lições de contabilidade social", (orgs. Bêrni & Lautert) da Editora Bookman, 2011, páginas 314-315:

Quando nossa preocupação diz respeito às condições de vida de uma população, passamos a falar em desenvolvimento econômico, um processo de transformação da sociedade envolvendo nações, economias, alianças políticas, instituições, grupos e indivíduos. Este processo envolve transformações na família, na empresa rural ou urbana, iniciando na comunidade local e culminando com a transformação global planetária. Como tal, o desenvolvimento econômico difere substancialmente do simples crescimento, que pode ocorrer em segmentos específicos, como regiões ou setores institucionais e econômicos. Assim, o crescimento, por um processo quantitativo, pode promover transformações que, ainda que modificando a estrutura econômica, criam obstáculos à emergência do desenvolvimento econômico, caso inviabilizem ou excluam transformações em uma ou mais das áreas recém‑citadas. Neste sentido, podemos definir o desenvolvimento econômico como o crescimento econômico, dado pelo aumento do PIB per capita, acompanhado pela melhoria do padrão de vida da população e por alterações fundamentais na estrutura econômica. Portanto, ele envolve, além do crescimento econômico, a melhoria dos indicadores sociais como a redução do analfabetismo, a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, o aumento da disponibilidade dos serviços de saúde, a diminuição do déficit habitacional, o aumento da disponibilidade das redes de saneamento básico, etc.

Citei? Agora vou recitar, para tentar espantar o fantasma fetichista, o santo padroeiro da tolice, os adoradores da indústria:

a melhoria dos indicadores sociais como a redução do analfabetismo, a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, o aumento da disponibilidade dos serviços de saúde, a diminuição do déficit habitacional, o aumento da disponibilidade das redes de saneamento básico, etc. 

Quem comanda quem? É o trator que produz o engenheiro ou é este último que produz o trator? Em outras palavras, quem vem primeiro, o capital humano formando instituições sólidas ou o desenvolvimento econômico? Ou seja, parece constituir completa insanidade dizer que o Brasil pode dar os mesmos passos que os cinco primeiros países listados. Para podermos pensar em ações assemelhadas, precisaríamos ter, no Brasi,l o PIB per capita parecido, a melhoria do padrão de vida. E alterações fundamentais na estrutura econômica. Parece que, dada a confluência da divisão internacional do trabalho dos dias que correm, o Brasil deveria pensar em impulsionar seu crescimento por meio de sua agroindústria e dos serviços formadores de capital humano. Melhorar seus indicadores sociais, como a erradicação do analfabetismo, quedas ainda maiores na mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida, mais serviços de saúde, redução do déficit habitacional, água e esgoto.

E que podemos esperar da inteligência brasileira? Postura arraigada sobre o fetiche industrializante.

DdAB
P.S. e num ioiô de dar gosto, escrevi isto lá e voltei pra cá e colei aqui e vou voltar lá e depois retornar pra cá, ad nauseam:
Minhas leituras de "estar mais ou menos ao par do que ocorre no mundo" são o jornal Zero Hora e a revista semanal Carta Capital. Tantas e tão frequentes são as 'aprontações' de ambos que costumo designá-los, respectivamente, por Zerro Herra e Capital dos Carta, neste caso, dada a propriedade e dominância do jornal. Pois, ao ler a revista de Mino Carta, deparei-me com uma catilinária contra a política econômica do Brasil não por criticar a desigualdade (ver Jessé Souza), mas por requerer mais ação para recuperarmos o "parque industrial". Imagino que, depois de recuperado parque, a turma iria sugerir mais gastos em bens públicos (segurança, saneamento) e meritórios (educação, saúde).
E que fiz? Fiz esta postagem, pois -ao ler a encrenca- dei-me conta de que os adoradores da indústria tanto citam os paradigmas dos países industrializados- veio-me à telha novo argumento: como é que esperam que o Brasil tenha o mesmo dinamismo industrial dos países ricos, quando é pobre, analfabeto, vive no lodo, essas coisas?