terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Indústria: luta entre o mar e o rochedo


Querido diário:

Oieeee! Prometi e ainda vou cumprir uma postagem sobre a produção privada de serviços prisionais. Mas hoje achei conveniente acicatar meus amigos neo-desenvolvimentistas. Já vou explicando: o mar é, digamos, a China e o rochedo, os USA (ou o contrário). A imagem é para colocar o Brasil entre eles, pois vou falar de uma revista brasileira, dois economistas brasileiros e o fetiche da indústria incorporado pela corja de Donald Trump.

Tudo começou no sábado, quando li -como o faço regularmente- a Carta Capital datada da quarta-feira do meio da semana seguinte. Esta, por exemplo, foi datada como 1/fev/2017. E caí assim nas páginas 22 a 25, um artigão de Gabriel Galípolo e Luiz Gonzaga Beluzzo, intitulado "Protecionismo, o retorno". Protecionismo? Juro que, em torno da crise financeira de 2008, participei de um programa na TV falando das perspectivas. Eu sugeri que o mundo não iria acabar, que a economia iria naufragar e reemergir, mas que a recuperação contaria com três traços inapagáveis: protecionismo, inflação e desemprego. Parece que não me dei conta, naquele tempo, que o protecionismo poderia assumir o papel de mar e rochedo nos Estados Unidos, desde que fosse eleita uma WP (very weird person), esse mister Trump.

Pois bem, não sei direito se Galípolo (GG) e Beluzzo (LGB) são favoráveis a politicas protecionistas para promover o crescimento econômico nacional ou mundial, isto é, não ficou claro para mim o que o artigo deseja. Vou fazer diversas citações, endereçando-lhe comentários que me parecem acicates... Eles -autores- fazem uma espécie de resenha bibliográfica do livro "Death by China", de Peter Navarro, professor da Universidade da Califórnia (campus de where?) e que foi "recentemente nomeado diretor do National Trade Council por Donald Trump [...]". Então tá:

GG e LGB:
   "Navarro fulmina: 'Se você deseja descobrir o que não é o livre-comércio, tente ler qualquer um dos livros-texto de economia que nossas crianças [sic] estudam nas faculdades hoje em dia. Seus olhos vão rolar, sua cabeça vai girar e seu estômago vai torcer pelo divórcio desses textos com a realidade da arena do comércio global'."

DdAB:
Pois não entendi bem: o modelo de livre-comércio está nos livros-texto. O mundo real não está nos livros-texto. Em seu estágio atual, o comércio mundial nada tem de livre-comércio. Dado meu ideal de governo mundial, comércio mundial, fim das fronteiras nacionais, posso dizer que os modelos de livre-comércio estão logicamente corretos, as conclusões seguem-se às premissas, essas coisas. Quem está errado é o comércio mundial, claro. Mas não quero dizer que a teoria é melhor que o mundo em todos os casos, que 'na prática a teoria é outra', aquelas sandices de quem não sabe exatamente qual é o papel da teoria na tentativa feita por seres humanos de "capturar" o mundo. Quero dizer que o mundo é que está errado? Que cada ação protecionista gera distorções impactantes no próprio país que a implantou. Monopólios são perversos, diz a teoria, e a turma do Brasil, embora não saiba, boa parte não o saiba, sofre com isto. Basta evocarmos as ações dos oligopólios da telefonia, da energia elétrica, os monopólios da água e esgoto, os lucros extraordinários dos bancos e de grandes conglomerados econômicos nacionais.

E que isto tem a ver com o rochedo, ou o que seja, da China? Em minha compreensão dos últimos 70 anos do desenvolvimento mundial, a China é uma invenção de Henry Kissinger, lá no governo Richard Nixon, no país que, no caso, faz o papel de mar (parece que é o mar da China que bate nos rochedos da América do Norte, nas demais Américas, na Europa, e em tudo o mais). E como se deu aquele comércio lá nos anos 1970? Claro que aquilo não era livre-comércio, pois estavam óbvias as intenções americanas de ajudar os chineses a estabilizar sua economia, tão combalida pelos atropelos daquele comunismo oriental (grande salto para a frente e revolução cultural). Ou seja, comprar cestinhas de palha ou leõezinhos de cerâmica não configura propriamente ameaça ao poderio industrial americano.

O problema é que, mesmo comprando cestinhas e leõezinhos, os americanos passaram a avalizar as condições de dumping social vigente na China. Como desdobramento daquelas aberturinhas comerciais, o novo salto desenvolvimentista agora nos anos 1980 seguiu avalizando o dumping social, mantendo-se até hoje. As condições de trabalho na China são compatíveis com uma exploração extraordinária de sua força-de-trabalho. Além disso, como GG e LGB referem, as taxas de câmbio predatórias adotadas pelos chineses não são nada afinadas com o livre-comércio, mas o problema foi de quem negociou com eles, ou seja, todo mundo, claro. Até hoje.

Há algum tempo ouvi alguém dizendo que, uma vez que a importação chinesa destruiu a economia industrial da Holanda, a competição seria desleal, pois os chineses adoram trabalhar 70 ou mais horas por semana, enquanto que os holandeses prezam seu ociozinho. E a resposta foi: pois então não há um comércio justo, dadas as diferenças culturais tão extraordinárias.

Por que falei que o livre comércio é ótimo em teoria e o mundo não o pratica, pois sempre haverá um país caroneiro, tirando vantagem de algum outro, fechando sua economia, especialmente naqueles produtos em que suas vantagens comparativas são, er..., desvantagens? Falei porque aquela citação do prof. Navarro, no mesmo parágrafo, termina dizendo:

'[...] enquanto o livre-comércio é ótimo em teoria, ele raramente existe no mundo real."

Pois era isto mesmo: se todo mundo praticasse o livre-comércio, todo mundo sairia ganhando, se todo mundo aproveitasse suas vantagens comparativas e por elas ordenasse o comércio, todos estariam melhor. Isto não quer dizer que o mundo está destruindo a teoria, ao contrário, podemos dizer que as políticas comerciais protecionistas estão destruindo o livre-comércio, ora.

E por que GG e LGB citaram o prof. Navarro? O texto de GG e LGB deu um pulinho e chegamos à oposição que Navarro faz

"[...] ao consenso de especialistas [...] que advogam a inevitabilidade da perda de importância da manufatura na economia americana, cuja prosperidade repousaria na expansão do setor de serviços.
   "O setor de manufaturas engendra a criação de muito  mais empregos do que o setor de serviços. Conforme estimativas apresentadas no livro, para cada dólar gerado na manufatura, a economia americana cria quase 1 dólar e meio em serviços correlatos, como construção, financiamento, varejo e transportes."

DdAB
Então vamos. Serviços não pode liderar o crescimento? Lembram do "efeito Excel", um recurso retórico que inventei há uma década? Quantos pêssegos da Vila Nova ou cavalos dos haras de Belém Novo são produzidos por ano? E qual a participação da agropecuária no PIB municipal de Porto Alegre? Zero, zereta. Óbvio que, quando dividimos o PIB agropecuário pelo total, há um número significativo que fica fora da célula do Excel que escolhemos para fazer o cálculo, por exemplo, 0,01%, que lemos como 0,0%.. E isto não nega a existência de pêssegos. Nos Estados Unidos, ainda não se chegou a zero, mas tende para lá. Também tenho argumentado que os transportes (lua de mel nos anéis de Saturno) e saúde (viver 250 mil anos) terão possibilidades de crescimento suficientes para engendrar crescimento econômico pelo resto da eternidade (ok, ok, digamos que apenas uns 500 anos, quando estaremos todos mortos...). E tem mais: as finanças, os intermediários financeiros. Estes também podem garantir crescimento eterno, pois são cada vez mais envolventes. Mesmo que eles não gerem uma fração expressiva de valor diretamente, os seguros, os cassinos-bolsas-de-valores, essas coisas vão crescer com a renda e gerar renda eles próprios.

A indústria chinesa cresce precisamente pelas medidas protecionistas dos rapazes de Pequim, a começar com a taxa de câmbio, seguindo-se com a pirataria e andando tanto que já chega a aparecer alguma iniciativa legítima, como -dizem- há inovações importantes na indústria de armazenagem de energia solar. Claro que não estou defendendo Trump e já seria humilhação suficiente se eu viesse a saber que ele andou lendo meu blog, pois volta e meia estou falando nisto: livre comércio não é comerciar com a China nos moldes atuais.

Depois, preciso repetir a frase absurda: "O setor de manufaturas engendra a criação de muito  mais empregos do que o setor de serviços." O quê? Estamos falando em termos absolutos ou relativos? Estamos falando nos Estados Unidos ou no Paraguay? Estamos falando que os empregos industriais são induzidos pelo quê/1 e os serviços pelo quê/2? Vejamos um novo parágrafo meu:

Produtividade é PIB por trabalhador e a questão é saber se os empregos que os rapazes dizem ser gerados na indústria 'over and above' os dos serviços são mais produtivos. Se são, geram menos empregos por unidade de produto, ou são menos produtivos. E somos forçados a pensar, sob o ponto de vista da sociedade, pois somos economistas políticos, em conceitos como custo social e custo privado, em ganhos sociais devidos ao lazer, essas coisas. Para a sociedade, quanto mais produtivo é o setor, menos emprego ele gera e tanto melhor, pois indica-se menos horas de trabalho para a sociedade, a fim de alcançar o mesmo nível de produto. Quando se fala em "gerar emprego e renda", o que se está incentivando é a forma de distribuição do produto (e da renda) convencional que tem apenas -eu disse apenas- ligeira relação com a produção, o produto marginal do trabalho, etc. Se não estamos no caso de rever as regras da distribuição, é que o atraso geral do consenso dos "economistas convencionais" é marcante. Está na hora de rever substantivamente as regras distributivas, começando pela implantação da renda básica universal e induzir a redução das diferenças no consumo per capita em todo o planeta (um programa de 20 anos, mas que deve começar um dia e não apenas ser jogado para diante, como é o caso do livre-comércio, que tem gente que acha que devemos rumar a ele, mas não começar a transição hoje e sim daqui a 200 anos).

Ademais, repito outra encrenca: "Conforme estimativas apresentadas no livro, para cada dólar gerado na manufatura, a economia americana cria quase 1 dólar e meio em serviços correlatos, como construção, financiamento, varejo e transportes." Parece-me que aqui o equívoco do novo diretor do NTC é não entender suficientemente se está falando no produto ou na produção. Claro que, se for na produção, o argumento não tem o menor interesse, pois o que nos atrai é o aumento no produto. e, se for no produto, para cada aumento de $1, corresponderá o aumento de $1 no resto do sistema. Ou não estamos falando de requisitos diretos e indiretos, o que seria um erro metodológico escabelado. Insisto: o que interessa é a expansão de valor adicionado (produto, renda, despesa) e não da produção (valor adicionado mais insumos, inclusive importados). Mais valor da produção por unidade de produto é menor eficiência no uso dos insumos intermediários.

GG e LGB prosseguem:
   "Empregos na manufatura também pagam mais em média, particularmente para mulheres e minorias. Esse poder de compra adicional proporciona um estímulo vital para o resto da economia. Não é coincidência que, quando as fábricas fecham, os centros de varejo, consultórios, hotéis e restaurantes que cresceram em volta delas também desaparecem. Quando as fábricas se vão, as receitas tributárias de estados e municípios caem, e os empregos e serviços públicos são cortados. Uma forte base manufatureira é vital para estimular a inovação tecnológica necessária para impulsionar a economia a longo prazo. A indústria representa dois terços de toda pesquisa e desenvolvimento privado nos Estados Unidos. 'Quando essa manufatura parte para a China, leva suas despesas com pesquisas e desenvolvimento com ela - e a capacidade da América de inovar!', afirma Navarro."

DdAB:
Costumo dizer que mais vale a implantação de um supermercado em Santana do Livramento do que uma fábrica local de aviões a jato. Mania de industrializar o não-industrializável! E quando os centros de varejo, consultórios, hotéis e restaurantes fecham, chancelando estonteante desemprego, seus fornecedores industriais também fecharão, não é mesmo? Receitas tributárias: estamos pensando que o mais supremo ideal humano é o governo arrecadar os impostos indiretos do setor industrial, ou -ao contrário- guiar-se pelo princípio da capacidade de pagar e conduzir suas receitas (plano de 20 anos) a repousarem no imposto de renda, no imposto sobre a riqueza e no imposto sobre as heranças? Eu acho que imposto indireto é baixaria, a não ser que seja aplicado sobre bens de demérito. Mas como dizer que um refrigerador, um compressor de ar daqueles que zumbem no consultório de nossos dentistas, uma broca daquelas que emitem aquele som que amamos no mesmo local, e tantas outras mercadorias são bens de demérito? Até aceito que a cachaça, o cigarro, o automóvel o sejam, mas mas mas.

A base industrial serve para incentivar as atividades de P&D? Claro, só que elas não são "industriais" e sim "serviços", serviços prestados às empresas, alguns deles dentro delas e tantos outros fora, independentes, alheios a elas. Ou seja, a pesquisa e desenvolvimento é feita fora da indústria. E, aprendi com Reinaldo Gonçalves, o Brasil gasta montes em P&D, só que nos países centrais, pois a compra das empresas estrangeiras localizadas no Brasil. O Brasil quer autonomia de P&D? Então tem que gastar mais em educação, centros tecnológicos, universidades, essas coisas. Ok, sigamos com GG e LGB.

GG e LGB
   "Outra razão para defender a base manufatureira está associada à forte relação entre grandes empresas que ofertam produtos finais, como Boing, Caterpillar e General Motors e o resto da cadeia produtiva. A manutenção das empresas de indústria pesada é importante, porque toda uma gama de outras companhias, grandes e pequenas, depende desses negócios. Portanto, quando grandes companhias levam suas fábricas para outros países, a perda de empregos não está confinada àquela empresa. Por essas razões, os empregos na manufatura são vitais à prosperidade de longo prazo, nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e em todo o mundo. Tentar estimular economias sem uma base manufatureira pode resultar em vazamento desse estímulo, pois a maior parte do que é consumido é importada."

DdAB
Tá na cara que GG e LGB estão falando numa concepção de economia mundial constituída por unidades autárquicas. Estão falando em baixo nível de comércio mundial, e que isto seria bom, que o protecionismo seria bom. Não há melhor exemplo de ação de caroneiros dos países que protegem as importações e conseguem que os demais se abram a suas exportações. E sabemos que um jogo desta natureza não tem equilíbrio interessante, pois pode levar a uma série infinita de retaliações de parte a parte. E não é isto o que os Estados Unidos vão fazer? E não deveriam ter feito há mais tempo, mas poderiam começar amanhã, novas políticas comerciais justas e equânimes?

O que acho engraçado é que os três (autores da resenha e do livro) não são capazes de conceber um pais sem indústria, mas nem falam no que acontece num país como o Brasil, carente de escolas, esgotos e prisões. Queremos reformismo, atuação do governo? Como sabemos, gastar em formação de engenheiros pode levar à produção de tratores, mas a produção de tratores, até ontem, não tinha gerado nenhum engenheiro. Sigamos.

GG e LGB
   "Navarro inculpa 'oito práticas comerciais injustas' chinesas pela queda na participação da manufatura no produto doméstico de 25 para 10%, cabendo protagonismo para a taxa de câmbio, 'espertamente manipulada', que equivale a uma tarifa uniforme de importação e um subsídio à exportação. 'Se o dinheiro é a raiz de todo o mal, então a manipulação chinesa da sua moeda, o yuan, é a raiz central de tudo de errado na relação comercial entre Estados Unidos e China."

DdAB
Não falei? Os chineses têm sido caroneiros do comércio mundial, especialmente com os países desenvolvidos, com esse câmbio denunciado pelo prof. Navarro, e -óbvio- com o escandaloso dumping social, além das práticas de apropriação indébita de marcas e patentes, inclusive de bolsas de senhoras de crocodilo, aquelas coisas. Agora, não podemos incriminar os livros-texto por ensinarem modelos de livre-comércio, pois apenas neste caso é que poderemos entender e avaliar as distorções introduzidas por essas práticas chinesas no comércio mundial. Se é para reformar, vou antecipando, devemos pensar naqueles avisos de John Maynard Keynes no afamado artigo "As Possibilidades Econômicas de nossos Netos", em que alerta para os limites do comércio mundial se aterem ao mínimo indispensável, indicado pelas vantagens comparativas e, no caso dos serviços financeiros, esconjurá-los.

De minha parte, doutrinado pela beleza da teoria ricardiana das vantagens comparativas e suas extensões, considero que o governo mundial precisa de uma base de relações comerciais, além das que já existem no tráfico de armas, drogas, escravos e poluições.

GG e LGB
   "Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pel economista Thomas Piketty revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a dos 1% mais rico aumentou 300%.

DdAB
Pois não é que não é? Como é que os Estados Unidos, onde -nos últimos 30 anos- a indústria caiu de 25% para 10% na geração do PIB, permitiu esse crescimento de 300% na renda dos mais ricos? A verità é que, nesses 30 anos, o PIB americano mais que duplicou, quase 3% ao ano. E precisa ser mais estudada essa relação de exploração: os americanos nos exploram e são explorados pelos chineses. Estes passaram a abrir fronts de exploração também no Brasil. O Brasil precisa de aviões ou supermercados? Engenheiros ou tratores? Endemias ou esgotos? E que fazer com a renda dos ricos, destruir ou redistribuir? Parece que precisamos de uma comunidade forte para não ser roubada nem pelos políticos nem pelos chineses e gastar mais em educação, segurança, esgoto, essas coisas, esses bens públicos ou de mérito.

Que é mesmo que quero dizer? De certa forma, alio-me aos reformistas, só que entendo que, em geral, eles querem mais participação do estado no setor industrial. Já concedi que aceito-a nos esgotos, mas devemos caprichar mesmo é na educação. E, reformista por reformista, penso que dá menos trabalho incentivar o consumo (o supermercado) do que a produção (a fábrica de aviões a jato). Quer dar uma olhada num traço muito louco daqueles que não entendem que, invertendo o lugar comum, importar é o que exporta? Cristina Kirchner disse esperar que a Argentina não importe nem um prego: http://19duilio47.blogspot.com.br/2011/12/kirchner-x-prebish.html. Neste caso, para que iriam enviar-nos bifes de boi e pãezinhos de trigo? E qual o limite para o comércio, para não ficarmos de boca aberta (duplo sentido evitado), esperando comida do resto do mundo, sem exportarmos nada? Tem pouco país burro, claro, e a chave da inteligência é o binômio taxa de juros-taxa de câmbio, que devem permitir um saldo no balanço de transações correntes que, a médio prazo, seja nulo (claro que nem a economia doméstica nem o governo nem o setor externo devem pensar que só terão superávit em seus balanços, o que é proibido pelas relações contábeis da macroeconomia).

Que fazer? Lutar pelo  governo mundial. E, se a língua oficial for o inglês, seguir rugindo: education, education, education.
DdAB

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sem pé nem cabeça:


Querido diário:


Não é todo dia que refiro-me a Zero Hora, o principal jornal nanico de Porto Alegre, como Zero Herra. Na realidade vejo mais erros do que anuncio em minhas redes sociais. Mas hoje há algo imperdível, como aquele, daquela vez, em que o título falava em morte por tiro na serra, a notícia detalhando um caso de três facadas na barriga...
Hoje na página 24 (Segurança), lemos:
;'Violência | Corpo na Capital, cabeça em Viamão
Um corpo sem a cabeça foi encontrado no bairro Guanabara, em Viamão, na Região Metropolitana, por volta das 9h de ontem. Perto das 14h, no bairro Mário Quintana, na zona norte da Capital, uma cabeça foi achada. A Polícia Civil investiga o caso. se for a mesma pessoa, esse é o segundo caso de decapitalção na Região Metropolitana neste ano."
Mas nem tudo é tragédia em minha leitura matinal. Na página 44, temos a Piada do dia:
"-No prédio onde moro, não tem o 13o. andar.
-Por que não? O dono do prédio é supersticioso?
-Não, é que o prédio vai apenas até o oitavo andar."
DdAB
P.S. Ali temos as sete ou setenta vezes sete cabeças da Hidra de Lerna.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Q = q(p) ou P = p(q)?


Querido diário:

Antes de tudo, olhemos esta imagem ali de antes do "querido diário". Lá no P.S.S. explico tudo. Por enquanto, vejamos este gráfico cartesiano:

Primeiro, a figura que nos encima foi obtida procurando q = f(p) no Google/Images, originando-se de um site russo. Como tal, nada mais posso dizer sobre o tema da escolha da ilustração. O fato é que faz o maior sentido: no eixo horizontal, a variável Q (para nós, q). Que é uma variável? É todo o que varia, como a quantidade de batatas consumida por um cidadão russo no inverno passado, o número de litros de vodka que o mesmo comensal bebeu, a quantidade de doses de whisky vendidas na feira do abstêmio esclarecido, o número de viagens de ônibus da linha 47 por semana, e por aí vai... No eixo vertical, temos a variável P, ou seja, P seria o preço da batata, da vodka, etc. E que são aqueles componentes do trio Q*, P* e E*?

Bem assim. Sendo Q* assente no eixo dos QQs, deve ser a quantidade de vodka de que andei falando. Assim P* corresponde a diferentes preços que a vodka pode assumir. E o ponto E*, localizado na interseção entre duas curvas, significa que, naquele ponto -e em nenhum outro do gráfico- as duas curvas se interceptam. Sendo D a curva de demanda, descendente da esquerda para a direita e S a curva de oferta, ascendente da esquerda para a direita, poderemos dizer que este gráfico representa uma simplificadíssima visão do mercado de vodka.

Ou seja, dissemos que

q = q(p)

mas colocamos no gráfico

p = p(q).

Então entra a página 54 do estonteantemene criativo livro:

BÊRNI, Duilio de Avila (org.) Técnicas de Pesquisa em Economia: transformando curiosidade em conhecimento. São Paulo: Saraiva, 2002, vemos uma referência ao velho livro de microeconomia de Levenson e Solon informando:

“Deve-se esta convenção [de escrever q = f(p) mas desenhar p = g(q)] a Alfred Marshall, notável economista inglês que, em usa exposição sobre a oferta, considerou a quantidade como sendo a variável ajustada pela empresa como reação a dados preços de mercado. Definiu, em seguida, a procura em termos do preço de procura (o preço que as pessoas estavam dispostas a pagar por uma dada quantidade como uma variável dependente), parte para harmonizar com seu tratamento da oferta e parte porque identificava o preço como a satisfação subjetiva (utilidade) que o consumidor recebe de uma dada quantidade.”

Mas o assunto não para. Quando estudei e/ou lecionei microeconomia, falava-se que a função utilidade do consumidor era função da quantidade do bem (dos bens, então q é um vetor) que ele consumia:

U = U(q)

e depois começou-se falar na utilidade indireta, dado que, se é verdade que a quantidade é uma função do preço, então um troço que é função da quantidade que é função do preço naturalmente é função do preço itself:

U = V(p)

DdAB
P.S. E tem aquele velho livro de microeconomia de autoria de Henderson e Quandt que dá todo tratamento de cima a baixo como P = P(q). esta idiossincrasia o fez único, mas um único esquisito.

P.S.S. E aqui fui buscar a referência bibliográfica do livro da Saraiva e regozijo-me em encontrar o livro da Editora GangeS de 1998, meus tempos de UFSC. Trata-se da edição zero-bis do que viria a ser posteriormente editado pela Editora Saraiva.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Destruição do Mercado de Drogas Ilegais

(vídeo do Youtube. Vejamos até quando vai durar aqui)

Querido diário:

Sigo devendo falar mais sobre as prisões e o mercado de retenção de cidadãos criminosos. Mas quero falar um aspecto não excessivamente alardeado sobre as espantosas virtudes do mercado (de bens regulares, de mérito ou de demérito, o que exclui obviamente os bens públicos) para tratar de pilhas de necessidades sociais. Obviamente há mercados atuantes com diferentes graus de eficiência na provisão de cachaça, café, assassinatos, crack, cocaína, tortura, pedofilia, sabe-se lá o quê mais).
Então: li no caderno PrOA do jornal Zero Hora deste fim-de-semana o extraordinário artigo de Gilse Elisa Rodrigues e Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, de título "Na Terra dos Homens sem Cabeça". E fiquei pensando Na tristeza da curta sentença final: "E vai piorar". Claro que lembrei de "Profissionalismo é Isso Aí", pois "domingo numa solenidade uma autoridade me abraçou: bati-lhe a carteira, nem notou, levou meu relógio e eu nem vi. Já não há mais lugar pra amador."
Mas pensei em outra abordagem para o problema que tem uma pequena dificuldade, pois necessita -para ter sucesso- da criação de uma pirâmide de corregedorias para a polícia, a polícia da polícia, a polícia da polícia da polícia, a polícia etc. A solução é acabar com o mercado. Sabemos haver duas maneiras importantes de acabar com esta milenar instituição social: baixa o cacete nos consumidores ou produtores ou -mais civilizado- distribui gratuitamente o bem ou serviço cujo mercado deseja-se eliminar. Tá claro?, cria salas de consumo geridas por enfermeiras e quem quiser "uma viagem" terá que fazê-lo 'indoors".
Pelos conhecimentos que muita gente já nasceu dominando e tantos outros aprenderam no primeiro dia de aula do curso de economia, qualquer indivíduo vivendo o drama de um consumo compulsivo preferirá o bem distribuído gratuitamente. Se as otoridades acharem que estou propagandeando drogas, darei maiores explicações.

DdAB
A imagem que segue retirei-a do Facebook de Rodrigo Ghiringheli de Azevedo, com a seguinte legenda: "Sem palavras. Embarcou no avião errado e terminou cercado pelos abutres."


abcz
e aqui o Renan Calheiros, também réu:

abcz

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Teori e Tomás


Querido diário:

Cada vez que alguém morre, vai-se um tanto minha fantasia de imortalidade e outro tanto os anseios de alguns de alcançá-la. Nós, da utopia, não nos conformamos: queremos imortalidade. em geral, um país ou um império tem vida mais longa que uma pessoa (o império soviético durou de 1917 a 1991), mas quando país e pessoa associam-se numa complicada relação de crime e castigo fica a estupefação da morte do indivíduo. O mundo e o Brasil vivem dias difíceis. Hoje, por coincidência organizada, toma posse o pirado presidente americano. Ontem faleceu no mar, numa queda de avião, o ministro do supremo tribunal Teori Zavascki encarregado, como li há pouco no Facebook de julgar dezenas de políticos, inclusive o presidente da república, o mal-afamado Michel F. Temer.

Nesse espírito de luto e preocupação, estava lendo o breve anti-racionalista construído por Thomas Hobbes com sua imersão na filosofia da linguagem, mas -como é mais provável- caí em seguida em sua filosofia política. E decidi transcrever algo:

   [...] na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória.
   A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança, e a terceira, a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para defendê-los; e os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome. 
   Com isto se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida. Portanto a noção de tempo [itálico no original] deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do mesmo modo que  quanto à natureza do clima. Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo temo restante é de paz.
   Portanto tudo aquilo que é válido pra um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas  pelo mar; não a construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não a sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.

Nem me ocorre selecionar uma imagem para este pessimismo todo!

DdAB
Fonte: Hobbes. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Coleção Os Pensadores), páginas 76-77.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

De que Servem os Visionários


Querido diário:

Não pensemos que desisti de falar sobre privatizações de prisões, de hospitais, de pontes, estradas, arrecadação de impostos, tudo. Mas hoje quero falar de coisas diversas. Primeiro: há pelo menos 30 anos, tinha a incumbência de ler o romance:

SVEVO, Italo. A consciência de Zeno.

Fi-lo (diria o sr. F. Temer) numa edição de 2003 da Folha de São Paulo, com tradução de Ivo Barroso. O original em italiano é de 1938.

Segundo: naquele ano, já estávamos (eu, hein?) acostumados à teoria da relatividade, o cubismo (?), o keynesianismo, e tudo aquilo, inclusive a Guerra Civil Espanhola e os primeiros signos da, assim chamada, II Guerra Mundial.

Terceiro: vou transcrever os cinco parágrafos finais do livro, páginas 382-383 em minha edição. Ergo quem não leu pode ler igual, que -em boa medida- isto pouco ou nada tem a ver com a trama geral da história, a não ser que pensemos que estas reflexões do aluno/amigo de James Joyce (aliás, pelo que leio do 'Ulysses', em minha imaginação, o Svevo é a cara de Leopold Boom) têm a ver diretamente com a psicanálise, objeto indireto de todo o livro. Quer dizer, não é bem isto... Vejo previsões de tudo o que aconteceu no mundo desde então: desde as lesões por esforço repetitivo da classe trabalhadora, à degradação do meio-ambiente, com destruição de espécies animais e vegetais, a bomba atômica, e por aí vai. Tudo e até mais nos cinco parágrafos.

"A vida atual está contaminada até as raízes. O homem usurpou o lugar das árvores e dos animais. Mas o pior está por vir. O triste e ativo animal pode descobrir e pôr a seu serviço outras forças da natureza. Paira no ar uma ameaça deste gênero. Prevê-se uma grande riqueza... no número de homens. Cada metro quadrado será ocupado por ele. Quem se livrará da falta de ar e de espaço? Sufoco só de pensar nisto!
"E infelizmente não é tudo.
"Qualquer esforço de restabelecer a saúde será vão. Esta só poderá pertencer ao animal que conhece apenas o progresso de seu próprio organismo. Desde o momento em que a andorinha compreendeu que para ela não havia outra vida possível senão emigrando, o músculo que move as suas asas engrossou-se, tornando-se a parte mais considerável de seu corpo. A toupeira enterrou-se e todo o seu organismo se conformou a essa necessidade. O cavalo avolumou-se e seus pés se transformaram em cascos. Desconhecemos as transformações por que passaram alguns outros animais, mas elas certamente existiram e nunca lhes puseram em risco a saúde.
 "O homem, porém, este animal de óculos, ao contrário inventou artefatos alheios ao seu corpo. E se há nobreza e valor em quem os inventa, quase sempre faltam a quem os usa. Os artefatos se compram, se vendem, se roubam e o homem se torna cada vez mais astuto e fraco. Compreende-se mesmo que sua astúcia cresça na proporção de sua fraqueza. Suas primeiras máquinas pareciam prolongamentos de seu braço e só podiam ser eficazes em função de suas próprias forças, mas, hoje, o artefato já não guarda nenhuma relação com os membros. E é o artefato que cria a moléstia por abandonar a lei que foi a criadora de tudo o que há na Terra. A lei do mais forte desapareceu e perdemos a seleção salutar. precisávamos de algo melhor do que a psicanálise: sob a lei do possuidor do maior número de artefatos é que prosperam as doenças e os enfermos.
 "Talvez por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, havemos de retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos os outros, no segredo de uma de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo.Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus livre dos parasitos e das enfermidades."

Explosão demográfica: em 2050 a Nigéria será o terceiro país mais populoso do mundo. Que esperar de um planeta sem renda básica da cidadania? Mais migração, mais desespero migratório a qualquer custo. O ar já anda "pra cachorro" há tempos e anuncia-se com cada vez mais alarde a falta dágua.

Nossa saída são as naves espaciais, como as andorinhas que transitam no espaço sublunar. A saída que nos aguarda talvez seja reduzir a natalidade para podermos todos embarcar em tais naves, confrontando-nos com a distopia do filme "Blade Runner", pois lá a classe alta deu no pé, morando muito além do mundo sublunar. Só que, se escaparmos, e nos reencontrarmos em 100 mil anos, ficaremos surpresos com a transformação física dos demais (para não falar dos faladores), asas musculosas, olhos de lince e cascos de escol. Todas serão transformação voluntária (engenharia genética) e involuntária (viver na nave, radiações estranhas, alimentação artificial, sei lá).

Gostei daquela definição de homem, enquanto animal de óculos. Eu mesmo, neste sentido, tornei-me homem há 30 anos, ou seja, era um não-sei-quê até os 40. Aprendi com João Rogério Sanson que óculos, obturações dentárias, implante de platina no braço, coração de metal etc., que podemos designar essas maravilhas científicas como órgãos exo-somáticos, sabendo que 'soma' é corpo numa língua terráquea. Mas não estou totalmente concorde que essa exo-somatização seja malévola, menos ainda quanto à criação de artefatos que substituam a ação humana. Outro italiano, Umberto Eco, definiu (nome da rosa?) a máquina como sendo um macaco da natureza que lhe imita a ação, mas não a forma. 

E depois tem a proposição central do marxismo para a salvação da humanidade e a débacle do capitalismo: substituição de trabalho vivo por trabalho morto. Um tanto hedonista, pois acho melhor capinar com enxada que com as unhas, com trator que com o indicador e o polegar. E viver mais (já pensou em 100.000 anos?), e viajar para mais longe (abandonando o mundo sublunar, por suposto, além do raio de expansão do Sol, quando tudo acabar, exceto as naves humanas e seus amigos animais e plantas).

Máquinas? E ainda tem -esta sim autenticamente- uma frase de Marx que diz que o homem é o único animal que, ao transformar a natureza, transformou sua própria natureza. Criamos navalhas e naves, garrafas e tarrafas, sei lá. Talvez a maior invenção de todas, involuntária, foram as instituições. Sem elas, não teríamos nem tribo, nem mercado, nem estado. Seria a viagem de David Hume, com aquela vida "solitary, poor, nasty, brutish, and short".

Sobre o explosivão: foi Nikita Kruschov que ridicularizou os americanos (foi?, ridicularizou?) que teriam construído bombas de hidrogênio para destruir milhões de Uniões Soviéticas (ironia que ela foi destruída sem bombas, por ter instituições extorsivas, outro dia falo mais sobre isto). E ele redarguiu que fizeram uma única bomba, pois não precisam destruir os Estados Unidos mais que uma vez.

Pois bem. Quem quiser ver como Italo Svevo chegou a essas conclusões pode ler o livro. Pode consultar a Wikipedia italiana e até a inglesa. E até a portuguesa/brasileira.

DdAB

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Leões de Raça: Capital dos Carta e Zero Herra


Querido diário:

Sempre que começo a ler minha Carta Capital, muno-me (!) de uma garrafa de cachaça (garantidamente com baixo volume de ar) e um copo vazio. Que rapidamente encho (até a borda) e ingiro como fazíamos com o "café bebido", lá no clube do antanho.

Fiz bem ao antecipar-me ao futuro, lendo a Carta Capital a próxima quarta-feira, página 12, onde vemos o editorial assinado por Mino Carta, o possível dono do capital empatado. Fiquei filosofando sobre o mau jornalismo. Ingeri a "água da vida eterna" (palavras de K. Marx) e engasguei-me com a chamada geral:

Uma encenação de 500 anos chega ao último ato e o resultado é o caos absoluto em que mergulhamos. Neste momento, só é possível prever um desfecho de extrema violência.

Não sei se mais exagerado sou eu (myself) ou o quê, eu com essas minhas anunciadas cachaçadas ou o Mino com seu exagero. A diferença entre nós é que cachaça deve dar aposentadoria por invalidez, ao passo que mau jornalismo deve ser punido com demissão, ou penas mais leves para réus primários. Cara: admito que a encenação tenha mesmo 500 anos, o Brazil sendo regido por aquilo que Acemoglu e Robinson chamam de instituições extrativistas. Ok, é uma encenação de palhaços auto-interessados da maneira predatória.

Último ato? Acho brabo, a encenação vai continuar, encenamos que somos um país decente, seguimos acreditando que há futuro, mas temos um presente de dar dó, com um número crescente de pessoas de bem desejando um futuro melhor para seus filhos... fora do Brasil. Caos absoluto? Entramos no reino das mentiras. Aqui não rege um caos absoluto, temos uma esculhambação de dar dó, mas o povo segue trabalhando, indo e vindo a seus locais de trabalho, os ônibus e metrôs funcionando regularmente, e os bancos, as lanchonetes, a happy hour. Mergulhamos? Acho é que fomos mergulhados. Cada um prevê o que bem entende. Eu prevejo que ganharei a próxima mega-sena da virada. Mino prevê um desfecho de extrema violência. Só se está referindo-se à reforma da previdência, a mais presídios, às vilas da periferia.

Isto é jornalismo, sporca pippa? Em compensação, na página 2 do jornal, a coluna intitulada "Informe Especial" brinda-nos com esta maravilha sociológica:

OMISSÃO CONVENIENTE 2
   Há muito que a falsa divisão entre veranistas ricos e moradores pobres [das praias do Rio Grande do Sul] caiu por terra. Existe hoje uma sólida classe média alta vivendo nas praias: empresários da construção civil, comerciantes, profissionais liberais. Mas essa pseudoluta de classe é conveniente para justificar a incompetência na gestão [ou seja, as prefeituras do litoral].
   Mesmo para os menos favorecidos, o turismo é uma fonte de desenvolvimento que mereceria mais respeito.

Por triste coincidência, andei pela Nova Tramandaí no sábado e minha visão do assunto é de amostra unitária... Dependendo do conceito que podemos usar para classe baixa, não vi ninguém, ao contrário, só vi ricos, ricaços em suas carroças, carrinhos de tração humana e um que outro gordini.

DdAB
P.S. Quer um gole? Clique aqui. E o título tem a ver com isto aqui.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

As Luzes do Agente Decisor


Querido diário:

Volta e meia faltam-me luzes. Por exemplo, para entender os meandros da teoria da escolha social e sua parceira teoria da escolha pública. Em particular, o que faz as pessoas numa democracia representativa escolherem políticos como os brasileiros contemporâneos.

E, mais prosaicamente, hoje faltou-me luz, quando fui ao banheiro, com o intuito de aparar a barba. E aí é que me vieram reflexões, enquanto agente decisor, pois pratiquei uma ação intrigante. O banheiro é banhado (rsrsrs) com luz solar, luz da manhã, como é o caso no instante em que escrevo. Mas, como sabem os que gostam de "una afectada perfecta", a luz perfeita não é favorável do lado da sombra. O homem moderno corrigiu este viés da natureza, no caso, meu lado direito, com luz artificial.

Pois aí é que vem a história: acendi uma luz incidindo de cima para baixo sobre o espelho do banheiro. E, guloso, acendi a luz do próprio teto do banheiro. Vi que a primeira deu uma contribuição substantiva para a iluminação do jeito que a desejava, ao passo que a contribuição marginal da segunda foi modesta. Que fiz? Pensei na conta de luz e desliguei? Claro que não, pois nem pensara no assunto $$$, mas desliguei do mesmo jeito. Pão-durismo com os recursos sociais? Sei lá, acho que é mesmo o elogio do conceito de contribuição marginal, uma das maiores contribuições dos pensadores que viriam a ser designados como economistas, para o processo decisório humano.

DdAB
P.S. recusei-me a usar o marcador Besteirol, ainda que haja procedência...
P.S.S. Imagem daqui. Desnecessário dizer que todo aquele luxo não me é aquerenciado...
P.S.S.S. E tem mais: concluída a postagem, lancei-a no Facebook com os seguintes dizeres:
Another viageichon no blog: reflexões sobre a racionalidade humana e o conceito de contribuição marginal. É que tenho amigos economistas, alguns deles, heureseument, que vêm este tipo de abordagem com incontido desdém e eu, teimoso, insisto que a redenção do poder ao povo precisa deste conceito e, provavelmente, não terá sucesso sem ele.
P.S.S.S.S. Quer dizer, assim que fiz o que acabo de informar, fui à cozinha, descasquei um pêssego e comecei da comê-lo. Lá pelo meio da empreitada, percebi que ainda portava a faca que usara para descascá-lo na mão. E dei-me conta de que julguei o benefício de largá-la e depois lavá-la ou mantê-la na mão, concluir a ingesta da fruta tropical de safra veranil, não valer a pena, o que me levou a retê-la, comê-lo e depois lavá-la. É... É besteirol...

Mais um adendo: não sei por que fatores laplaceanos, caí nesta postagem, um errinho perfeitamente justificável para um velhinho que já aprendeu três maneiras de escrever neste inferno da academia brasileira de letras. Olha o que escrevi ali no P.S.S.:
É que tenho amigos economistas, alguns deles, heureseument, que vêm este tipo de abordagem com incontido desdém e eu, teimoso, insisto que a redenção do poder ao povo precisa deste conceito e, provavelmente, não terá sucesso sem ele.
E facilmente vi que aquele "vêm" é "veem", sem o acento, ou seja, se eu ia escrever "vêem", estaria domodé, do mesmo jeito.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Divertida Aplicação da Língua Portuguesa


Querido diário:

Sigo preparando uma postagem que já se faz enorme sobre o que é esquerda e direita na parada da privatização das prisões. Mas Salvatore Santagada divulgou o texto que segue que tem apenas um correlato na teoria das três metades.

Português é uma das línguas mais difíceis do mundo.
Meia, Meia, Meia, Meia ou Meia?
Na recepção do salão de convenções, Fortaleza:
- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição no Congresso.
- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.
- Da África, né?
- Sim, sim, da África.
- Pronto, tem palestra agora na sala meia oito.
- Desculpe, qual sala?
- Meia oito.
- Podes escrever?
- Sessenta e oito, assim, veja: 68.
- Entendi, meia é seis.
- Isso mesmo, meia é seis. Mas, não vá embora, só mais uma informação: A organização cobra uma pequena taxa se quiser ficar com o material. Quer encomendar?
- Quanto pago?
- Dez reais. Mas, estrangeiros e estudantes pagam meia.
- Hmmm! que bom. Aqui está: seis reais.
- Não, não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
- Pago meia? Cinco? Meia é cinco?
- Isso, meia é cinco.
- Tá bom, meia é cinco.
- Não se atrase, a palestra é às 9 e meia.
- Então, já começou há quinze minutos. São nove e vinte.
- Não, não, ainda faltam dez minutos. Só começa às 9 e meia.
- Pensei que fosse às 9:05, pois meia não é cinco? Pode escrever a hora que começa?
- 9 e meia, assim, veja: 9:30
- Entendi, meia é trinta.
- Isso, 9:30... Mais uma coisa, aqui o folder de um hotel com preço especial para congressista... Já está hospedado?
- Sim, na casa de amigos.
- Em que bairro?
- No Trinta Bocas.
- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?
- Isso mesmo, no bairro Meia Boca.
- O bairro não é meia boca, é um bairro nobre.
- Então deve ser cinco bocas.
- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim por causa do encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
- Acabou?
- Não, senhor... é proibido entrar de sandálias. Coloque uma meia e um sapato...

DdAB

domingo, 8 de janeiro de 2017

As Prisões, a Social-Democracia e Carolina Bahia


Querido diário:

Aqui temos um -email que enviei a Carolina Bahia, assinante de uma página no jornal Zero Hora, com título de RBS Brasília. Estamos hoje -e ontem, o dia da capa do jornal- na página 12. Comecei dizendo [aqui com pequenas edições e uma inserção enorme]:

Tenho uma propaganda igualitarista a fazer a partir de tua própria observação [cujo parágrafo cito integralmente, sabendo-se que, da sentença 'mas o que esperar...', volta e meia relembro a frase que Brena Fernandez colocou em nosso livro de teoria dos jogos. Platão falando sobre justiça:
'Sustentamos que, se um estado deve evitar a maior de todas as pragas - quero dizer, a guerra civil, embora desintegração civil fosse um termo mais adequado - a pobreza e a riqueza extremas não deveriam ser toleradas em qualquer segmento do corpo de cidadãos, porque ambas levam a estes dois desastres. Esta é a razão que faz com que o legislador deva anunciar os limites razoáveis da riqueza e da pobreza. O limite inferior da pobreza deve ser o valor das terras (holding). O legislador usará a propriedade como unidade de medida e autorizará um homem a possuir duas, três,
e até quatro vezes seu valor.'
que tirei daqui]:

"Segurança pública é multidisciplinar, não se faz apenas com presídios. Educação, saúde, presença do Estado na periferia, combate à corrupção e policiais valorizados, além de presídios seguros, integram um pacote de sucesso em várias partes do mundo. Mas o que esperar de situações em que representantes do judiciário e da política se envolvem com facções criminosas? Sim, muitas vezes é de perder a esperança."

Entendo que este é mesmo um programa social-democrata, por si só, igualitarista. Uma vez que a chave do igualitarismo é o emprego, quando um policial é contratado, especialmente, se for retirado do crime comum (ou mesmo do organizado, por que não?), há o baque da "redução de quadros" e ao mesmo tempo o baque provocado pelo aumento da repressão. E o filho do policial pode estudar, digamos, oboé. E o professor de oboé poderá ter seu filho estudando mandarim, e assim por diante...

End of file, digo, fim do e-mail. Não podemos deixar de reconhecer que eu poderia ter me estendido pilhas, falando montanhas de coisas que domino e que acho úteis para serem relembradas quando falamos em igualitarismo e social-democracia.

DdAB
A imagem é de minha autoria, quero dizer, é do cantor Tony Platão, tudo explicadinho na postagem de 2009 que referi lá nos colchetes.

P.S. Esqueci de fazer (faço-o agora, 18h13min do mesmo domingo) aquele troca-troca que aprendi com Stephen Hymer lá naquele artigo sobre Robinson Crusoé. A frase de Carolina Bahia deixa-se ler, ao trocarmos segurança pública por educação, como:

Educação pública é multidisciplinar, não se faz apenas com escolas. Segurança pública, saúde, presença do Estado na periferia, combate à corrupção e policiais valorizados, além de presídios seguros, integram um pacote de sucesso em várias partes do mundo. 

Ou saúde:

Saúde pública é multidisciplinar, não se faz apenas com hospitais. Segurança pública, educação, presença do Estado na periferia, combate à corrupção e policiais valorizados, além de presídios seguros, integram um pacote de sucesso em várias partes do mundo. 

E assim por diante.