quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Zero Hora e o Igualitarismo


Querido diário:

Todos sabem que, desde que Américo Pisca-Pisca reformou a natureza, tenho o maior respeito pelos jornais em papel, destacando Zero Hora, que leio diariamente com galhardia. Pois numa notável prova de mudança em sua linha editorial, na página 4 do exemplar de hoje lemos uma nota de extraordinário conteúdo igualitarista.

Pra bom leitor, meia palavra basta. E para leitores outstanding traços coloridinhos sobre o papel também bastam. É precisamente este o caso a que devo agora recorrer: meu nome tá escritinho no final do cabeçalho em que mal-lemos o "Entre Leitores". Meu nome, o impecável diretor do Planeta 23. Pois então. Lá vai o início do assunto.

Na edição dos dias 17 e 18 do mês em que a primavera começa a correr (e nós para o inexorável fim-de-ano), a mesma seção (nomeadamente, "Leitor") de ZH publicou um comentário:

CAMELÔS
   Seguidamente, leio aqui no espaço do leitor críticas sobre a atuação dos camelôs nas ruas de Porto Alegre. Acho que as ruas devem permanecer livres para os pedestres, mas temos que levar em conta que os camelôs são seres humanos e que necessitam de dinheiro para viver. Não seria pior se eles estivessem assaltando os pedestres ou invadindo as nossas residências?
JORGE G. COUTO
Professor aposentado - Porto Alegre

No domingo que nos foge, aproveitei a emoção que tomou conta de meu coração e garrei de escrever para essa mesma seção:

ENTRE LEITORES
   Humanitário e criterioso o comentário do prof. Jorge G. Couto na ZH de 16 e 17/set sobre "a atuação de camelôs" em Porto Alegre. Dada a absoluta incapacidade do mercado em trabalho de absorver esses excedentes populacionais, a solução advirá da criação da oferta de uma colocação que lhes propicie renda e condições tão atraentes que as retirem da informalidade. O único agente capaz de resolver este problema é o governo, designado na literatura igualitarista como empregador de última instância. Bem ao contrário do que vemos recitado pelas cartilhas da atualidade.

DUILIO DE AVILA BERNI
Professor aposentado - Porto Alegre 

Baseando-me nas lições do "Ulysses", de James Joyce (ver dezenas de postagens com o tema), para quem já há escritas mais de dois milhões e meia de vezes mais conteúdo que a publicação original de 1922, meu texto é um tanto maior que o comentário do colega professor Jorge.

Costumo referir-me com frequência a este jornal, que escolhi para demarcar minha agenda d'"O que vai pelo mundo" (título de um jornal cinematográfico de minha adolescência). O mundo, desde que o acompanho, vai de mal-a-pior. E, no imediato pós-adolescência, caiu-me a ficha da causa das mazelas que me afligiam: a desigualdade. Talvez a religiosidade da família, a precípua doutrinação que recebi de um primo, minha própria observação de meu estilo de vida comparado com o de amigos mais pobres, de meu estilo de vida comparado com o dos mais ricos (com quem sempre tive contato superficial, não por falta de vontade, mas por falta de roupas adequadas, hehehe), talvez por tudo isto e sua mistura e sua inequação é que me tornei um jovem igualitarista.

Ao convencer o jornal Zero Hora de que este é o caminho da redenção mundial, espero que ela comece a alardear, asap, a implantação gradativa do governo mundial para lidar com:

.a a deterioração ambiental
.b o tráfico de armas
.c o tráfico de drogas
.d o tráfico de pessoas
.e o tráfico de dinheiro

Nem falo na explosão demográfica que me parece há de fenecer precisamente ao se implantarem os projetos de renda básica (incondicional) e renda de atração ao serviço municipal, quando novos contingentes de trabalhadores recusados terminantemente pelo mercado de trabalho poderão associar-se à geleia geral do trabalho social e acabar com a folga dos deterioradores do meio-ambiente e dos traficantes de armas, drogas, pessoas e dinheiro.

DdAB

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Igualitarismo e Dinamismo: três equações


Querido diário:

Por que o estado deveria investir seus recursos na promoção da indústria e não no combate à desigualdade? Espacialmente vamos considerar que indústria gera desigualdade, mas educação pode gerar homogenização das oportunidades educacionais, elevação da capacidade empresarial, essas coisas, e como tal indústria atomizada (incluindo o agronegócio), agricultura de precisão ou ecológica e serviços de todo o tipo. Neste caso, podemos clamar, gritar, ulular, que devemos tirar o foco da indústria, abençoar o fato de que é nosso papel como reformadores da sociedade propugnar em favor do gasto governamental na educação, em detrimento da indústria. Reformadores? Refiro um dos agentes da política, conforme a taxonomia que aprendi com o prof. Jorge Vianna Monteiro. E que desejo reformar? Não apenas a estonteante desigualdade que perpassa a sociedade brasileira, mas também esta praga também característica das sociedades mundiais. E, claro, penso nos instrumentos que minha formação de economista político levou-me a dominar.

Então vejamos minhas três regularidades empíricas igualitárias:

Equação 1
Quem gera o valor adicionado é a sociedade:

VAdic = f(População)

Ou seja, o valor é gerado pela sociedade, o que nos deixa afinados com a proposição divulgada por David Harvey para a consagração da sociedade justa: todos terão direito a uma fração do excedente, mesmo que não tenham contribuído para sua produção (bebês, doentes, etc., que pode ser lida na íntegra nesta postagem aqui, em seu P.S.). Postulo que, quanto maior a população, maior será o valor adicionado. Uma variante pode ser tomada como VAdic = g(VBP), dizendo que, quanto maior o valor da produção, maior o valor adicionado. E claro que, mais claramente, VBP = h(Emprego), quanto maior o emprego, maior o valor da produção. Peguei um cross section mundial checando aquele VAdic = f(População) e encontrei um coeficiente de determinação de r^2=0,63 para 181 países (aqui). Alto pra burro! E iria aumentar, conforme lembrou-me o prof. Adalmir Marquetti, se inseríssemos a localização regional e outros fatores relevantes concernentes aos países que entraram no cálculo da regressão.

Equação 2
O setor privado não é capaz de gerar emprego para todos. Uma sociedade não é redutível apenas ao funcionamento do mercado em geral e ao mercado de trabalho, em particular. Ela -sociedade- agrega preferências sociais por meio de diversas instituições, as mais facilmente identificáveis sendo o mercado, o estado e a comunidade. Então de onde virá o emprego para aqueles desprezados pelo mercado de trabalho? Do estado e da comunidade. No primeiro caso, temos a equação 2:

Desigualdade = D(Emprego público)

Aqui minha intuição me levou a prever uma relação inversa: quanto maior o emprego público, menor será a desigualdade. Também aqui peguei um cross section mundial, não fui capaz de calcular o coeficiente de correlação, por razões da aposentadoria, mas o prof. Adalmir Marquetti (a quem não pedi para fazê-lo) teve a gentileza de montar o gráfico e dizer que poderíamos melhorar este modelo ao colocarmos mais dados do lado da explicação (ou seja, emprego público). Olhando aquele gráfico (aqui), tá na cara a relação inversa, declarando-me devedor do coeficiente de correlação para os leitores compulsivos. Ou lanço-lhes um desafio para fazê-lo... No caso, além das funções tradicionais do setor público, devemos pensar nele -talvez até elevando a qualidade desses atendimentos tradicionais- como empregador de última instância, cabendo referir nesta linha a criação da renda básica e do serviço municipal. E ainda temos aquela novidade dos fake jobs que refiro ali no meu segundo post scriptum.

Equação 3
Se queremos mais valor adicionado e mais emprego, devemos cultivar o igualitarismo:

Dinamismo = j(Igualitarismo)

Na equação 3, tomamos a renda per capita, calculamos seu logaritmo neperiano, o que nos dá sua taxa de crescimento instantânea e correlacionamos com o índice de Gini. O dinamismo é dado pelo crescimento do PIB entre dois períodos, ao passo que o igualitarismo é uma situação em determinado período. Então a taxa de crescimento instantânea, à medida em que o intervalo de tempo vai-se reduzindo, tende ao logaritmo do número. O coeficiente de correlação não deu lá essas coisas para uma amostra de 154 países: r = -0,23, ou seja, um r x r = r^2 = +0,05, ou meros 5% (sabes como ler este número? Ele informa que as variações no nível de igualitarismo em torno de sua média explicam cinco por cento das variações no nível do dinamismo em torno de sua média). É pouco, mas já sabemos a receita do prof. Adalmir: iria melhorar se inseríssemos a região do país, seu grau de educação, a idade média da população e outros indicadores do desenvolvimento econômico.

Moraleja: o mundo tá explodindo em violência, na maior parte gerada pela desigualdade, no sentido direto e no indireto. No direto, podemos dizer que muita gente que se torna bandido o faz por querer apropriar-se de uma fração maior do valor adicionado que lhe é reservada por meios legais (sentimento que vi ser definido como pleonexia). Falo, claro, da corrupção dos políticos, mas também de bandidos como Fernandinho Beira-Mar, Marcola, Seco, e outros de meu conhecimento por meio da imprensa. No indireto, temos aquela roda da fortuna: se há emprego para professores, os filhos dos professores poderão visitar o Beto Carreiro e o motorista do ônibus que os leva pode pagar um curso de clarinete para seu filho. E o professor de clarinete leva seu filho ao dentista, que manda sua mãe fazer fisioterapia, cuja profissional passará férias em Brasília e cercanias. A turma das cercanias, fornecendo refeições para turistas, e a faxineira da dona do bistrô vai mandar sua filha também estudar clarinete e casar com o filho do motorista do ônibus e gerar hijitos que terão que ser levados ao pediatra que é casado com uma neurologista, a quem deu um anel de brilhantes de presente, e assim por diante.

DdAB
P.S. A imagem lá de cima veio da busca que fiz no Google com a expressão "paraíso". Trata-se, pelo que entendo, de duas senhoras peladas enjoying themselves ao banhar-se e discutir o que seria daquela foto na exposição do Santander Cultural.

P.S.S. Sobre essa ideia da equação 2, nos informando que o emprego público renega a desigualdade, vi um artigo citado num livro que me deixou (deixaram...) doido. O livro endoidante (e a referência endoidante lá na página 420):
SHARMA, Ruchir (2016) The rise and fall of nations; ten rules of change in the pos-crisis world. London: Penguin.
O artigo sideral (aqui):
ALDERMAN, Liz (2015) In Europe. Fake jobs can have real benefits. New York Times. May, 29.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dia 22 de maio de 1988


Querido diário:

No dia 22 de maio de 1988, quase 30 anos atrás, se é que as regras da matemática ainda não mudaram, como o fez a acentuação gráfica daqueles tempos, tive a intuição que andou, andou e terminou na dualidade renda básica-salário mínimo:


Teoria sobre o mercado de trabalho. Começa com um leque de 100 vezes e vem reduzindo em um por ano. Nenhum funcionário público pode, sob nenhum título, nem mesmo herança, ganhar mais de 100 pisos salariais mensais.

É óbvio que qualquer funcionário público devia ganhar o mesmo salário: a regulamentação tem que vir daqui para o setor privado e não vice-versa. Como já escrevi antes, se o diferencial com relação ao setor privado for muito grande, ninguém fica no público. Logo, não teremos no setor público engenheiros, médicos, etc. que tenham como objetivo na vida enriquecer.

Naquele tempo, eu não lera o livro de Debraj Ray lá de nossa portada. Minha intuição recebeu um tratamento mais refinado, pois ele fala em nivelamento do consumo per capita. E eu, desde então, passei a amaldiçoar as sociedades que têm enormes desvios entre o mais frugal e o mais opíparo dos consumidores. A receita é pura social-democracia: aumenta o salário indireto com educação, saúde, segurança, moradia, transporte, alimentação barata (bens públicos e de mérito) e também aumenta o imposto de renda, com a alíquota máxima alcançando noventa e nove ponto nove da renda.

DdAB

domingo, 10 de setembro de 2017

Os Grandes Números e a Empatia


Querido diário:

Praticamente em toda minha vida mantive aberta a janelinha da chamada leitura literária. Volta e meia leio novidades (por exemplo, li o livro que inspirou o filme Tubarão), outras tantas leio velharias (por exemplo, As Aventuras de Gulliver) e outras tantas leio um negócio que promete e que leva-me a lavar meus burros n'água. Tal foi o caso de

LEE, Krys (2016) How I became a North Korean. London: Faber & Faber.

Trata-se de uma novela de 240 páginas, uma chatice, tudo acontecendo na fronteira entre a Coreia do Norte e a China, a turma querendo se mandar, mas também dentro da China a vida não é fácil para migrantes. Pois não é que li uma sentença que me deixou pensativo sobre a natureza humana, nossa natural empatia e seu esmaecimento quando os números de objetos de nossa solidariedade começam a aumentar. Que digo? Que não simpatizo com milhares de mendigos, mas que simpatizo com unzinho? Melhor abandonar meus dizeres e ver o que diz a autora (páginas 97 e 98, tudo com minha tradução). Uma migrante faminta vê, numa birosca, a metade de um prato de massa e o pede à dona do empreendimento do lado chinês:

"Queria apenas alguma coisa -qualquer coisa- para comer e então irei embora." 
Os olhos da mulher encontraram os meus e deixaram de ser amistosos. 
"Você veio do outro lado do rio?", ela indagou. 
Qualquer que fosse a amabilidade anterior em seu rosto, com esta, desvaneceu-se. 
"O que sobrou, qualquer coisa".
"Essa gente...", a mulher escandiu, e novamente fui impactada pelo sentimento de que não mais era uma pessoa, mas uma entre montes e montes.

Claro que estou citando uma situação limítrofe em que minha própria empatia leva a que me solidarize com a faminta. Mas não posso deixar de entender o mal-estar da empresária. Tanta gente passando, tanto problema com seu próprio governo, tanto golpe, tanta desilusão, tanto desamparo. É gente demais, havia gente demais.

Falei que esta postagem tá marcada como economia política, o que me permite dizer que não vejo saída para a humanidade que não seja a implantação imediata do serviço municipal, com rendimentos modestos mas crescentes destinados a reduzir a migração ocorrida por problemas políticos ou econômicos. Por contraste, a migração dos tradicionais e tomara que eternos viajantes humanos deve até ser incentivada, reduzindo-se gradativamente, até a eliminação absoluta, das fronteiras nacionais.

Vivemos neste mundo de crescente globalização econômica, especialmente a financeira. Por que não começar também a globalização da força de trabalho, sua mobilidade total?

DdAB
Tá lá naquela imagem o que a negadinha chamava de "Dear Leader".

sábado, 9 de setembro de 2017

Desigualdade e Revolução Livreira


Querido diário:

Coloquei este material no Facebook.

Roberto Rocha, e haveria alguém mais qualificado para dar-me dicas impressionantes?, chamou-me a atenção para um projeto que me tomará muitas e muitas horas pelos anos e anos que tenho pela frente. Trata-se do CORE (Curriculum Open-access Resources in Economics), uma rede de ensino de introdução à economia formada por centenas de brilhantes professores do mundo inteiro. Pouco sei sobre tudo, tudo é imenso, monumental. Mas pensei que, se ainda não houver um grupo de brasileiros/portugueses traduzindo o livro para fazê-lo chegar às novas gerações privadas da fluência na língua inglesa, bem que eu gostaria de participar, traduzindo um ou dois capítulos. Claro que estou fazendo uma conclamação pública para que alguém de minhas cercanias absorva a coordenação do projeto. Claro que, além do próprio Roberto, pensei no Adalmir Marquetti, no Antônio Albano de Freitas, no Christian Velloso Kuhn, no Luciano M. Braga e no Vladimir Lautert. E fiquei pensando em mais e mais gente que acredito que poderíamos ter esta tradução prontinha antes do final do ano.
http://www.core-econ.org/about-our-ebook/
[Um grande orgulho para nós, brasileiros é termos a foto na capa do livro, n'est ce pas?]
DdAB
Acabo de descobrir que aquela foto que botei no blog em 4 de dezembro de 2008 é de autoria de Tuca Vieira e veio daqui: http://www.tucavieira.com.br/A-foto-da-favela-de-Paraisopolis. A imagem que nos frontispicia veio daquela postagem. Como sabemos, não posso provar que fui atraído por aquela foro naquele tempo, pois o algoritmo do blog permite mudar coisas nas postagens. Por exemplo, uma prova de que nem tudo o que está naquela postagem por lá sempre esteve é que aquela consigna da "Liberdade, igualdade e... as estrelas" é muito mais recente. Naquele tempo, se bem lembro, o topo do blog tinha o texto seguinte: "Espaço de um estudioso de Economia Política (Economia do Desenvolvimento e Economia de Empresas). Planetas com 23 horas? É, seu habitante perde uma hora inteirinha em ginástica..."

E vejo também a partir do site dx fotógrafx, como elx diz, a foto foi feita para a Folha de São Paulo, e foi reproduzida por umx comentadorx da matéria lá deles:

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Dá de Tudo, Dá no PT: dá até Palocci


Querido diário:

Andei andando no alheamento por um ou dois dias e foi o que bastou para ver tudo mudado novamente. Ou melhor, como aprendi com Diego da Silva, nada mudou. O sr. Rodrigo Janot dá-nos excelente lição do preço que vaidosos pagam para associar a promoção de sua figura pública com os deveres de um funcionário público. Os holofotes cegam, se não me evado de 1 lugar comum.

Ninguém precisa ser muito arguto para entender que este denuncismo em véspera do dia da independência e de conclusão do mandato de procurador geral é puro exibicionismo. Por que apenas agora, nas vésperas de sua saída do cargo, por que novamente Lula e Dilma? E as malas de dinheiro do sr. Geddel Vieira Lima? Não foi a ele que outro político de igual envergadura designou como agatunado? Isto há mais de 250 anos.

E nosso combativo Antônio Palocci? Foi mandado pra cadeia e lá decidiu entregar o jogo. Ia entregar os bancos, os banqueiros, os políticos que mandaram no Banco Central. Esqueceu. Entregou o Lula, vou te contar. Acho que este foi o preço que o PT pagou por ser um partido que decidiu abarcar o mundo das massas, deixando de lado sua ideologia. Sinceramente, ver um cara do porte dentro da hierarquia partidária de Antônio Palocci transformar-se num delator, num traíra, é de cortar o coração de quem já acreditou que o Partido dos Trabalhadores poderia ter uma gosma de possibilidades de mudança. O que ficou, instead, é a gosma geral. Em minha opinião, isto é o fim-da-picada.

DdAB
O Jerry Adriani ali de cima é o Tomasso Buschetta.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Mercado-estado-comunidade: mais novidades


Querido diário:

Em torno das 11h00 da manhã de hoje, Jorge Maia Ussan apresentou lá no Facebook a seguinte citação em seu mural:
"Porque essa falsa separação entre o mercado e o Estado precisa ser dissolvida. Não haveria mercados se não houvesse Estados. Não haveria capitalismo se não houvesse Estado. Não haveria Apple, nem Google, se não houvesse Estado. E, de forma similar, não haveria Estado se não houvesse empresários privados, não haveria Estado se não houvesse empresas privadas. Precisamos dissolver esta falsa divisão."
Yanis Varoufakis. Via Tarson Núñez

Li alguns comentários interessantes e decidi entrar na conversa. Lá publiquei o que agora reproduzo com modificações menores.
Yanis Varoufakis é um de meus amados pensadores contemporâneos. Conheci-o na condição de co-autor de um livro introdutório à teoria dos jogos. E tenho lido mais dele e sobre ele desde sua unção ao ministério das finanças. Parece-me óbvio que ele "não se demitiu", num sentido de que cansou do trabalho, mas que entendeu a derrota e certamente iria ser demitido por imposição dos negociadores da dívida grega.
Agora, por outro lado, parece-me que a citação está incompleta, pois -aprendi com Samuel Bowles, se é que não nasci sabendo como todos os envolvidos nesta postagem- que existe um tripé (e não uma dupla) como principais elementos de agregação das preferências sociais: mercado-estado-comunidade. E que nenhum deles poderia expandir-se na ausência dos demais. Para quem não está familiarizado com o tema, lembro que partidos políticos são mistos de estado-comunidade e que sindicatos são apenas comunidade. E que mercados são passíveis de falhas na produção de bens públicos que, se a provisão não fosse assumida pela comunidade ou pelo estado, a vida civilizada como a conhecemos (fartura aqui e fome acolá) não seria possível.
O que agora vou falar (e já falei antes) não lembro de ter lido em outro lugar (talvez esteja errado, sei lá, é antropologia econômica, tema de que fujo aceleradamente). Imagino que a ordem de aparecimento destas instâncias de agregação de preferência sejam: primeiro, a comunidade (da horda à cidade), mercado (a troca direta e o dinheiro) e apenas então o estado (a polícia, o banco central). Naturalmente antes do estado havia simplesmente "administração pública".
E costumo dizer (antigamente não entendia nem pensava nisto) especialmente para aqueles que ainda desejam o socialismo hoje (e não reformas democráticas que conduzam a ele, amanhã) que não podemos pensar em instaurar um sistema econômico de cima para baixo, como seria o caso de exigirmos que o povo falasse esperanto. Um sistema econômico, a exemplo de uma língua, é um construto social. A língua pode surgir em semanas, mas o sistema econômico leva séculos para desenvolver-se amplamente.
Por outro lado, para abarcar o que vemos no Brasil e, principalmente, nos países capitalistas avançados não é bem capitalismo mas uma outra formação econômico-social que uniu de forma ainda mais íntima o trio mercado-estado-comunidade. E aquele capitalismo pré-dominância-financeira costumo dizer que acabou há mais de 15 dias. 
A imagem lá de cima achei-a ao buscar no Google Images a expressão mercado-estado-comunidade. Fiquei extasiado e vou olhar tudo com mais atenção. Talvez faça um remendo no texto. Um conserto que vou fazendo desde já é que, em minha visão, as "organizações" econômicas são três: produtores, fatores e instituições. Logo elas não estão "dentro" do mercado. E desde nosso cursinho de introdução à economia, as instâncias que absorvem a produção contam-se em três: famílias (consumidores), governo (consumidor), empresas exportadoras e importadoras e empresas domésticas (investidoras). Daí é que Keynes e sua turma inventaram que Y = C + G + (X-M) + I, ou seja, o valor adicionado, quando mensurado pela ótica da despesa é dado pela soma do consumo das famílias mais o consumo do governo, mais o saldo verificado no balanço das transações correntes mais o investimento.

DdAB
A imagem veio daqui. Achei-a tão interessante que decidi olhar o blog assim que terminei a postagem. Voltei agora para cá e remeto também para a primeira que está aqui.

P.S. gente: esta postagem está de azar, aqui no blog e também esteve lá no Facebook, até que a deletei e enviei para cá. Para dar uma ideia da ordem dos erros, falei em X - M como importação e importação, quando -obviamente- X é exportação e M, sim, é importação. Além disso, falei que X-M é o saldo do balanço de pagamentos, quando bem sabemos tratar-se do saldo do balanço das transações correntes (desde que X e M sejam importações de bens e serviços-exceto-os-prestados-pelos-fatores-de-produção).
P.S.S. no segunda postagem a que referi anteriormente, baixa-se o sarrafo na minha idolatrada tríade mercado-estado-comunidade, usando, ao que parece, o conhecimento desenvolvido por Immanuel Walernstein. Não o li o suficiente para saber de que e onde se fala.

sábado, 19 de agosto de 2017

Eleições: top-down e bottom-up


Querido diário:

Como sabemos, a verticalidade mundial pode ser compreendida ou de-baixo-para-cima ou de-cima-para-baixo. O rapaz, com seu top-down, fez o elefante montar seu bottom-up, algo assim.

De-baixo-para-cima: estamos falando do bottom-up, que consiste em considerar que a falsa consciência dos indivíduos impede-os de reagir às forças centrípetas da desigualdade. E como é que impede cada um de nós, cada unzinho? A falsa consciência leva-nos a assumir posições que, caso pudéssemos usufruir das vantagens residentes em posições alternativas, não mais escolheríamos retornar à situação original. E se todos agíssemos "como um único homem"? Teríamos o mundo regido pela igualdade.

De-cima-para-baixo: agora falamos do top-down, quando a elite que, por motivos atribuíveis a seu egoísmo, concentra todo poder e riqueza em suas mãos e força-nos a votar nos candidatos que ela deseja, candidatos que vão defendê-la, defender sua ideologia, defender suas conquistas, defender seus privilégios.

As variáveis macroeconômicas, bem sabemos, surgem pela ação bottom-up, mas depois de constituídas operam top-down, acachapando o indivíduo. Já na busca de significado da vida é o contrário, conforme Nagel, nas páginas 102-103:

É claro que a sua [do leitor] existência tem importância para outras pessoas - seus pais e outros que se interessam por você-, mas, no todo, nem a vida delas tem sentido, de modo que, em última análise, não faz diferença que se importem com você. Você se importa com elas e elas se importam com você, e isso talvez dê à sua vida um sentimento de importância, mas o que estão fazendo é apenas lamber-se uns aos outros, por assim dizer. Toda pessoa, dado que existe, tem necessidades e interesses que tornam certas coisas e pessoas da sua vida importantes para ela. Mas o todo não importa.

O caso das eleições é claramente bottom-up: um votinho aqui, outro ali, um terceiro acolá, dão a vitória a certos candidatos. No caso, mais que nunca, afirma-se o postulado de Valadares (perde eleição quem não acumula votos). Isto é, uma eleição valoriza (ou desvaloriza, sei lá) a abordagem bottom-up. Em outras palavras, nossos programas de esquerda sistematicamente perdem eleições, chegando no caso das prefeituras ao vexame de 2017, por falta de votos. Se não inventarmos um feitiço top-down que não seja apenas esbravejar o imperialismo, o capitalismo, os bancos, nunca alcançaremos o sucesso bottom-up, o da vitória nas urnas.

DdAB

sábado, 12 de agosto de 2017

Sobre o Ronco Humano e Adjacências


Querido diário:

Tenho a impressão que, mais que os homens, as mulheres gostam de dormir... com seus homens. Na velha Inglaterra, a velha Agatha Christie tinha personagens formadas por casais que dormiam em quartos separados. Já registrei casais, também, dormindo em camas separadas no mesmo quarto. E não estou falando em causa própria, apenas filosofando, pois o Facebook em seu "sobre" mim registra que sou casado. Ora, "sobre", em espanhol, quer dizer "envelope", querendo implicar -presumo- tratar-se de um papel que se sobrepõe à carta propriamente dita, algo que encobre a verdadeira mensagem, algo de reduzido poder informacional que esconde a informação oferecida

E que se encontra encoberto nessas relações matrimoniais, encoberto embaixo das cobertas? Maslow fala claramente nas necessidades básicas do ser humano. Parece que o texto que segue é de minha autoria (não posso conferir agora):

a) necessidades fisiológicas (metabólicas),
b) necessidades materiais superiores (segurança e estabilidade),
c) necessidades sociais (reconhecimento e afeição derivados de se pertencer a um grupo), e
d) necessidades superiores (evolução pessoal ligada à busca da verdade e significado da vida).

Em particular, as necessidades metabólicas colocam em cena as operações catabólicas chamadas de número 1 e número 2.

Mas é daí que começa minha tentativa de filosofar sobre temas mundanos. Dei-me conta de que o ronco é o número 3. Mas rapidamente passei a viabilizar a contagem de outros sons corporais inferiores que designei como número 4. Então batizei o espirro como número 5, o estalar de ossos como o número 6, o bocejo sonoro como número 7, e veio a tosse, a eructação, e assim por diante.

Parece óbvio que estes sons não são emitidos exclusivamente quando dormimos acompanhados. Mas para a maioria deles revela-se preferível que fiquemos sozinhos. Ainda assim, se, em dormindo acompanhados, podemos minimizar o prejuízo com algumas medidas simples. Uma diz respeito à questão de usarmos a mesma coberta ou cobertas separadas, como o fazem os alemães com seus acolchoados de solteiro, mesmo ocupando a mesma cama de casal. As outras referi anteriormente: camas separadas, quartos separados. E posso acrescentar bairros ou cidades separados, navios separados, um navio e uma espaçonave, sei lá.

DdAB

sábado, 5 de agosto de 2017

Sobre a Falsa Consciência do Condutor. E sobre como transformá-la


Querido diário:

No outro dia, um motorista de táxi porto-alegrense sugeriu que a única saída para a marginalidade do Brasil é matar essa macacada. Comecei contra-argumentando que tem posições diferentes sobre o tema, como é o caso dos igualitaristas, meio em que me posiciono.

Aduzi (ele indagou o que é isto) que, por ser igualitarista e ver na social-democracia o regime político para alcançar a sociedade igualitária, a sociedade justa, é que procuro modelar as possibilidades de conversão da sociedade brasileira deste enorme espaço de desigualdade e exclusão em terra de sol e mel. Confrontei-o indagando se ele acha mesmo que as instituições que presidem a vida social brasileira têm alguma chance de acabar com a corrupção na política e na administração pública, que a Bolívia e Noruega são modelos de sociedade justa?

Aduzi (a esta altura, ele já ficou sabendo o que é) que a questão hoje em dia, quando o espectro ideológico deixou mais claras as posições de direita e as de esquerda, é, também nós, deixarmos claro o que entendemos com uma e outra. Indaguei se ele se posiciona sempre do lado anti-pobre, sugerindo que, por suas roupas, pela profissão de jornada de 14 horas diárias, pelas oportunidades educacionais que dá a seus filhos, ele não pode ter nada em comum com a classe alta, apenas -talvez- esse ódio aos pobres, ainda que criminosos, coisa -aliás- que se vê em outras balizas- da classe alta (ao deitar esta falação, deixei-o mudo e ele confessou não gostar de frases com mais de quatro ou cinco palavras).

Argumentei que quem hoje considera legítimo levar Lula à cadeia está pouco se lixado para a trajetória  de transição desta sociedade em que viveu Pedro Pedreiro àquele mundo por ele sonhado, pelos boias-frias, pelos severinos, e por tantos outros casos de dramas narrados pela sensibilidade social de incontáveis artistas. Pergunto-me em primeiro lugar se a desigualdade não o incomoda. E, em seguida, que tipo de medida, que tipo de presidente da república pode mobilizar a classe baixa para fortalecê-lo a dar-lhe combate.

Por fim, já considerando-o de meu lado, dirigi-me àqueles que pensam que a atual distribuição da renda é justa, lembro que elas ajudam a formar uma estrutura de preços relativos que, aliados ao protecionismo no comércio exterior brasileiro, os leva a pagar cinco vezes mais por um vidro de Tabasco comparado a um molho de pimenta nacional e uma estrutura tributária de corar farinha de frade de pedra. Em outras palavras, a distribuição de renda escandalosamente enviesada contra o pobre no Brasil tem enorme responsabilidade sobre a estrutura dos preços relativos que, mais uma vez, coloca o maior peso é mesmo sobre os pobres.

Já acolherado com o motorista, ambos referimos que pensar que a saída encontra-se em rebentar o capitalismo e erigir o socialismo, parece tão artificial quanto o esperanto. Se a língua de laboratório não funcionou, tanto é que sua penetração como segunda língua no mundo inteiro é discretíssima, o socialismo até hoje não foi definido adequadamente, sendo que as experiências realizadas pela humanidade na URSS, na Albânia, em Cuba, na China, nos bolivarianos, é um horror. Fico mesmo é com a genial expressão de Gerônimo Machado: "não queremos socialismo, apenas reformas democráticas que conduzam a ele".

Já senhor da situação, o MdT indagou, retoricamente, "se não dá socialismo, então faz o quê?", fazendo-me lembrar que, de sua parte, no capitalismo, dado que o mercado de trabalho nunca gerará empregos em intensidade suficiente, a saída é o emprego público.

E, depois de ter lido alguns de meus livros, aduziu que, além disso, as transferências institucionais tendem a alcançar valores maiores que o PIB nas sociedades mais ricas, permitindo-nos pensar que transferências dos governos às famílias pobres poderão, num just like that de fazer inveja aos maiores mágicos, torná-las ricas. Com este raciocínio, o endiabrado motorista sorriu, satisfeito. Já fechando a conta da corrida, ele disse ter pensado, estar prestes a aliar-se à visão de minha turma sobre a reforma da previdência: retém as pessoas e não as incetiva a sair, o oposto do que é desejável socialmente. Eu anuí (ainda que, antes da corrida, ele não conhecesse a palavra, mas, depois dela, sorrisse satisfeito ao ouvi-la de mim).

DdAB

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Analogias Grotescas: Temer e Maduro


Querido diário:

Bem entendo que o Brasil está de luto com a derrota (totalmente previsível) do encaminhamento do pedido de impeachment de Michel Temer. E também entendo razoavelmente que a Venezuela está dirigida pelo mesmo tipo de político, excessivamente auto-interessado. E ambos sendo escravos de um grupo de "percevejos de gabinete" acostumados a beber o sangue do povo.

E que têm eles, Temer e Maduro, em comum? A espantosa incapacidade de formar um consenso mínimo em torno de objetivos nacionais. Por isso mesmo é que achei que a frase do dia, e talvez frase para durar até a posse do novo presidente da república eleito pelo voto popular (com todas as restrições impostas pelo sistema eleitoral brasileiro), é de autoria de Rudolf Virchow, escrita em 1848:

Politics is nothing but medicine on a grand scale.

Sabe quem é Rudolph Virchow? Leia aqui.

E de onde tirei esta pérola que é o antônimo das habilidades da dupla Temer-Maduro? Daqui:

STUCLKER, David & BASU, Sanjay (2013) The body economic; why austerity kills. London: Allen Lane. p. v [cinco romano].

DdAB
Imagem: os dois vilões da semana. E que sei eu de Rudolph Virchow? Que era um polonês que fez a carreira principalmente em Berlim e uma clínica que leva seu nome localizava-se perto de minha casa, durante o pós-doutorado que lá fiz há 10 anos.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Economia Brasileira Vista de Fora: Herr Sangmeister


Querido diário:

No dia 29 de julho recém ido, falei sobre uma conferência dada por Luiz Paulo Veloso Lucas, engenheiro do BNDES, em 17 de setembro de 1987, quando ele discursou sobre a construção de cenários macroeconômicos para a economia brasileira. 30 anos! Claro que não posso querer cobrar-lhe acuidade nos resultados, nem era essa minha motivação. O que achei interessante de ser trazido à consideração dos leitores deste Planeta 23 era o tipo de meta-visão, a ideologia, as premissas nem mesmo referidas que faziam parte daquele consenso de que o Brasil precisava mesmo era de industrialização.

Hoje, revolvendo aquela mesmíssima pilha de papeis que trouxe novamente à luz aquelas considerações sobre o Brasil, encontrei outra conferência a que assisti naqueles tempos turbulentos (para mim, para o resto do mundo). Estamos agora no dia 29 de setembro de 1987. Trata-se agora de um acadêmico alemão, falando no PPGE/Economia/UFRGS. Farei pequenas edições no texto de meu manuscrito:

Economia Brasileira Vista de Fora: modelo de uma crise ou crise de um modelo
Prof. Hartmut Sangmeister, bacharel pela Universidade de Berlim (?) e PhD pela de Heidelberg.

Três temas:
.a atual situação do Brasil
.b anotações sobre os problemas estruturais
.c consequências do endividamento externo para o futuro processo de desenvolvimento econômico.

Desde o início da crise, passou-se a descrer das possibilidades de desenvolvimento. Nunca se definiu claramente o que é desenvolvimento. Pragmaticamente, registra-se que apenas com novos créditos é que se poderá superar a crise. O que mostra-se com clareza é o fracasso do modelo que, nos anos 1950 e 1960, apareceu em escala mundial como um fenômeno ímpar. Entre 1970 e 1980, o PIB cresceu a 8,4% a.a., só superado pelo Equador e pelo Paraguay. Os países industrializados cresceram a 3,2%. Foi por isto que se falou em "milagre brasileiro".

Em 1982, o Brasil respondia por 10% do PIB dos países em desenvolvimento, com 3,2% da população e era a 10a. maior economia do mundo. Hoje o "milagre" está superado e chegou a hora de pagar a conta, ainda que milhões de pessoas vivam na pobreza absoluta.

Nos sistemas de mercado, só se produzem bens para os quais há procura efetiva. Logo, no Brasil, se produzem duráveis menos essenciais: TV, automóvel, poucas pessoas com salários elevados. Esta indústria enfrentou efeitos imitativos, publicidade e cria efeitos-preços.

Durante o Plano Cruzado, corria-se para adquirir TV, ao invés de feijão. Medidas de fomento na indústria de bens de capital tiveram lugar em setores da segurança nacional, como os armamentos e a engenharia nuclear. Mas havia o problema da competitividade internacional das exportações. 

Houve transferência interindustrial do capital pelo estado ao desincentivar o setor agrícola. Antes se considerava moderno apenas o setor industrial.

O golpe de 1964 dificultou e agora não sai uma boa reforma agrária. A participação do capital estrangeiro supõe que este tomará para si uma quota-parte dos lucros. O PIB crescendo menos do que o juro da dívida. Desvalorizar a moeda a uma taxa superior à inflação e arrocho salarial. Os riscos de tal terapia são incalculáveis. Teoricamente também isto não é pacífico que daria certo.

Fala-se no exterior que a discussão da política econômica é assunto nacional e não de economistas. Indaga-se por que o Brasil retardou tanto a tomada de medidas. E por que declarou a moratória unilateral.

O acréscimo no rendimento interno é errôneo supor que o mero problema de liquidez de curto prazo é causado pela retração dos fluxos de capital a curto prazo. A atual crise é sobretudo o sintoma da evolução desestruturada estruturalmente e que pode ocorrer em todo Terceiro Mundo. O crescimento miseralizante e não desenvolvimento econômico e social.

Temos 19 milhões de adultos analfabetos. 7 milhões de crianças sem escola. 20 milhões sem água e legiões de desempregados, com trabalhos ilegais e perigosos.

Exigem os credores e o FMI não debelar a pobreza, mas sim a retirada do estado. Mas aí há problemas, pois a UFRGS tem 7 mil funcionários para 16 mil alunos, ao passo que Heidelberg tem 900 funcionários e 30 mil alunos.

O Brasil é uma das mais destacadas vítimas da crença na tecnocracia, que é produzir u aparelho industrial europeu ou americano, buscando uma política alocativa.

PERGUNTAS:
Roberto Morais: qual a conexão lógica entre os problemas estruturais do Brasil e o endividamento externo?
HS: os petrodólares facilitaram o endividamento externo.

Yeda Crusius: a questão que HS colocou é a conceituação de desenvolvimento. Nos anos 1950 e 1960, quando se fez a mudança estrutural, havia tanto a ser feito que não havia apenas uma alternativa. Temos um ciclo internacional em que nossa perda de autonomia se deu quando começávamos nova política industrial. Se não através da indústria (emprego, renda e forma como estes dois elementos econômicos nos transformam). Não temos nova gestalt, logo não á outra alternativa senão uma política industrial?
HS: Não basta apenas ter vontade. Há muitos planos bonitos. Desde os anos 1950 até três anos atrás, o Brasil sempre foi importador de poupanças. Só agora começou a exportá-la.

João Rogério Sanson: o processo de desenvolvimento tem junto um processo político. Bruno Frei e outros. Ciclos. Os tenentes já queriam a modernização do país. E o problema do processo de urbanização. Não houve na Alemanha concentração urbana acelerada, pois a industrialização levou 100 anos para ocorrer.

Fim das anotações

DdAB
Ao falar em tempos turbulentos, em 1987, para mim e para o resto do mundo, dei-me conta de que o ciclo que tem explodido em uma crise a cada 10 anos desde, pelo menos, que a memória garante, esse ano, está por estourar novamente. Juro que esse novo estouro vai ocorrer no máximo até o final de 2019. E que dele resultarão, se as políticas neoliberais ainda estiverem hegemônicas principalmente na Europa, três consequências: mais inflação, mais protecionismo e mais desemprego.

P.S. a imagem selecionei-a por causa desse rodapé um tanto catastrofista. Os radicais de um vídeo no YouTube pegam muito mais pesado que eu: acham que é o próprio planeta que vai acabar. Eu, moderado refinado, penso que nem o capitalismo acaba com este tipo de crise. Aliás, já faz muito tempo que a própria crise virou mercadoria, como diria o velho Marx.

domingo, 30 de julho de 2017

Esquerda: GGN e Chavismo

Querido diário:
Neste domingo, eu nem ia escrever nada aqui neste blog, estava brincando assistematicamente aqui e ali. E, naquele ali, fui dar uma olhada no site do Jornal GGN, um dos que selecionei como representativos da esquerda brasileira.

Todos sabem que me declaro esquerdista e, ao mesmo tempo, e por isso mesmo, descontente quando vejo burradas praticadas por meus colegas, para nem referir as minhas próprias. Pois do GGN só posso dizer que diabos de esquerda e jornalismo de esquerda são esses que, na parte superior da diagonal principal daquele retângulo que colhi de dentro de seu site (aqui), fala na queda do emprego e produção da indústria e, na parte inferior dessa mesmíssima diagonal, aponta para produção crescendo e emprego cadente?

Por falar em esquerda, vi uma chamada para as eleições da constituinte venezuelana (aqui). Informa-se que a esquerda brasileira "poupa Maduro de críticas e apóia constituinte". Pensei: é mesmo um país dualista: quantas esquerdas há, pelo menos duas, não é mesmo? Penso que um cara como Temer e outro como Maduro são animais do mesmo porte. Indivíduos que não se deram conta de sua incapacidade de conduzir pacificamente seus governos para algo decente.

A CNI é uma tragédia, Temer é uma tragédia, esses partidos que apoiam as eleições venezuelanas são outra e eu mesmo me declaro um tragédio, que não me conformo com nada disso.
DdAB
Seguiram-se algumas considerações:
Marcelo De Oliveira Passos: Outro ótimo texto, Duilio De Avila Berni.
Duilio De Avila Berni: Conheces minha auto-crítica, Marcelo: de iludido por parentes e professores sobre o "modelo de desenvolvimento correto", passei a iludir outros parentes e alunos com a mesma balela. Até que caiu-me a ficha: o problema é a desigualdade e jamais teremos dinamismo numa sociedade tão desabotinadamente desigual.
Duilio De Avila Berni: E mais ainda: aqueles que cultuam o fetiche da industrialização nunca aprenderam a diferença entre produção e produto e (nem sei o que é pior) pensam que "inovação" é um produto da indústria e não dos serviços.
Duilio De Avila Berni: Agora mesmo estava lendo uma revista feminina e vi propaganda de biquínis brasileiros na Austrália. Parece que estas "vantagens comparativas cultivadas" nunca foram cultivadas... Os biquínis, as sandálias havaianas felizmente chegaram ao mundo. E por que não fomos nós que inventamos a distribuição de café em grão na Europa? E a Starbuck? E uma rede de madeira de taquara? E outra de pedras semi-preciosas?
Marcelo De Oliveira: Passos Sim. Li em algum lugar algo como uma saca de café de 60 Kg custa R$ 460,00 e 50 cápsulas de Nespresso sai por mais de R$ 100,00. Só que uma saca dá para fazer, chuto eu, mais de 500 cápsulas. Ou seja, na aritmética de padeiro, R$ 10.000,00 de receita por cada saca comprada. É como dizia o Brizola: "são as perdas internacionais...", hehe.

sábado, 29 de julho de 2017

Cenários econômicos há 30 anos


Querido diário:
No que segue, farei a transcrição de umas folhas de caderno pautado que localizei remexendo em antigos brinquedos. Trata-se de notas sobre uma conferência dada por Luiz Paulo Veloso Lucas, engenheiro do BNDES, em 17 de setembro de 1987. Minha motivação em trazê-lo ao público (minhas notas de então com edições menores agora) é vermos que um ciclo de vida inteirinho passou sob meus olhos sem que eu me desse conta dos delírios de grandeza dos formuladores de políticas públicas brasileiros. Fazem, fiz, o elogio da indústria como expressão da salvação nacional, quando ele sempre foi ligado ao binômio agricultura-serviços. Em particular, as notas terminam reproduzindo um apelo dramático do apresentador: "o processo de crescimento precisa endogenizar-se, com progresso técnico". Até hoje digo: tem que ter educação.

Apresentador: Enéas de Souza às 14h31.

HISTÓRIA DOS CENÁRIOS
O DEPLAN/BNDES faz cenários desde 1984, como planejamento estratégico, o que tem mudado a forma do BNDES operar. A análise de projetos no Brasil tem três fases com inovação tecnológica e como instrumento de gestão. Na década de 1970, começou a ação por programas, com a ação setorial. Na terceira etapa, começou o planejamento estratégico da análise macroeconômica integrada.
Em 1984, surgiu o I Plano Estratégico Trienal, do qual os cenários são o filho mais famoso. Consideram esgotado, desde 1984, o crescimento por substituição de importações (consumo corrente, consumo de duráveis, insumos, bens de capital e tecnologia). Busca-se pensr o futuro de forma organizada: futuros possíveis (n), futuros prováveis (n - k), futuros desejáveis (n - k - pi).

O CENÁRIO ATÉ 1990
a) da retomada do crescimento a taxas históricas. Eram as pessoas do BNDES e o jornalista Aloísio Biondi. Depois chegou a esta tese o prof. Antonio Barros de Castro, que chamou de reajuste estrutural.
Em 1985, fizeram revisão, chegando a
b) cenário de ajustamento - continuidade da política contracionista, crescimento menor que as taxas históricas, mas superávits comerciais. Em 1985, cenário com crescimento de 10-12% a.a., quando surgiriam gargalos setoriais profundos. Falava-se em uma usina de otimismo, mas os dados são de que o país saiu da crise com um impulso exportador, que dinamizou a economia.
As dificuldades do cruzado são conjunturais. Hoje estamos diante de um terceiro ciclo juglariano (14 a 15 anos). A partir de 1986, monitoramento dos futuros possíveis. Virou rotina.

CENÁRIO INDUSTRIAL (metodologia)
Pensa-se simultaneamente todas as variáveis que influem: tudo o que determina a realidade macroeconômica, industrial, etc. Variáveis chave do cenário, cujo comportamento futuro deve ser projetado articuladamente. Não é um modelo de consistência [eq. geral computável?], mas sim um estudo simultâneo de um número de variáveis, quantificáveis ou não. Após saber o que houve na realidade, indaga quais as macro teorias que costuram o ocorrido. O modelo tem 260 variáveis quantificáveis do sistema macroeconômico.
A desagregação do produto industrial se dá de forma muito livre. Não é matriz de insumo-produto. É uma espécie de banco de testes.

RESULTADOS DO EXERCÍCIO
Ano 2000 - cenários intermediários entre o otimismo e o pessimismo. Trata-se de estudos que dizem o que deve ser feito hoje para chegar lá no futuro planejado.

CENÁRIO A
Integração competitiva do Brasil no mundo desenvolvido
:: relações comerciais, econômicas, financeiras, políticas, diplomáticas, militares.

CENÁRIO B
Fechamento e manutenção da dependência ao sistema financeiro internacional SFI. Congelamento do status quo do Brasil frene aos países desenvolvidos, com dependência ao SFI.

Crescimento do PIB mundial em 2,5%, crescimento do comércio mundial, 4,0% (com o ingresso dos países socialistas).

O SFI é a primeira variável crítica: o mundo vive grave desequilíbrio, observado pelo déficit comercial dos USA com o Japão e a Alemanha, déficit no orçamento do tesouro. A projeção do déficit é de US$ 1,0 trilhão no ano 2000. O desequilíbrio é negociado, relançando o Japão e a Alemanha e diversificando os investimentos desses países no Terceiro Mundo.
A solução é os EUA abrirem mão da hegemonia. A segunda solução é ter os juros de 2,9% reais, não mais taxas reais negativas. Em caso da ocorrência de uma crise internacional, cresceremos menos.
A segunda variável crítica é o petróleo. Com o controle das corporações da evolução energética, o petróleo é o grande recorte. terá, por isto, preço crescente de US$ 30 por barril.
No final do cenário internacional, os países centrais ficam em setores intensivos em conhecimento, abrindo aos demais as indústrias tradicionais.

CENÁRIO MACROECONÔMICO
1984 - as exportações crescem 40% e aparece um mega-superávit na balança comercial. Pensava-se que era fruto da recessão. Mas é fruto da maturidade do parque industrial, pois só pode exportar se tem condições minimamente competitivas. Hoje 60% da exportação é de manufaturas.
Mas este ciclo se esgotou, com a lógica da substituição de importações. Mesmo assim, o país importou US$ 2,0 bilhões de fármacos.

A CAMINHO DA MATURIDADE
a. vetor horizontal: ampliação da base produtiva para o mercado interno, com 15 milhões de trabalhadores no mercado informal,
b. vetor vertical: implantação de setores de tecnologia de ponta e modernização da base produtiva
c. terceiro vetor: integração com o mercado mundial.
O processo de crescimento precisa se endogenizar com o progresso técnico.

Pensam no PIB crescendo a 7%. Precisamos este ano de US$ 4,0 bilhões e depois nada mais, se ficar com o coeficiente de abertura das exportações pelo PIB de 9%, querendo apenas a Libor a 7% e um spread de 0,8% à la México. Isto corresponde em 1987 a 2,8% do PIB como superávit. E aí na década de 1990...
Na exportação produto-a-produto, temos superávits que no ano 2000 o país é superavitário em divisas, o que pode permitir importar mais até bens de consumo.

A QUESTÃO SOCIAL
A urbanização nos países centrais é de 80%.
Ano-urbanização%-taxa de crescimento%
1950-31-2,3
1960-36-3,0
1970-45-2,9
1975-56-2,5
1980-68-2,3
1986-75-2,1
Formação de cinturões de miséria urbana.

DUAS TAREFAS
Um novo ciclo de investimento em insumos básicos e infraestrutura, principalmente energia. em 1991-92 faltará energia independentemente do investimento de hoje. Ativar o quarto plano siderúrgico, não-ferrosos, zinco, cobre, Caraíba, papel e celulose, química e petroquímica.

[fim da transcrição]
DdAB
Imagem: pedi ao Google Images "assunto angelical". Veio, entre as primeiras sugestões, esta imagem de pura pirraça.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Leo Jaime, Marie Claire e a Renda Básica


Querido diário:

Pois ando lendo a revista Marie Claire, número de julho de 2017. Cheguei na página 78, que ostenta uma seção chamada "Papo de Homem", de autoria de Leo Jaime. Seu artigo, sua coluna, chama-se "Vai vadiar!" Não precisei de mais de duas frases, uma delas, bem brevezinha, para entender que o artista é um gênio. Nessas duas e singelas frases, vejo-o contrário à reforma trabalhista e previdenciária do governo (fora) Temer, favorável a restrições legais ao acesso ao mercado de trabalho:

.a entrada tardia
.b saída precoce
.c mais férias
.d fim-de-semana dilatado
.e mais feriados

E propagandista da renda básica universal, nos moldes em que refiro na lapela deste blog:

Eu adoro férias. A ideia de ganhar dinheiro para não trabalhar por uns dias é muito acolhedora.

Costumo dizer que a renda básica é um elemento para subornar as pessoas a não ingressarem no mercado de trabalho. Mas qualquer sociedade preocupada com a produção e a produtividade deve regular este mercado com um salário mínimo, precisamente para atrair pessoas a nele ingressarem e se manterem e até com entradas e saídas periódicas. Por exemplo, quero tirar férias nos anéis de Saturno (viagem de lua-de-mel), então preciso trabalhar uns dois anos e meio para ganhar os bitcoins adequados à cobertura do seguro generalizado que vai cobrir minhas ações desde o momento da partida até o da volta.

E por aí vai...

DdAB
P.S. Eis a prova que o tempo passa mesmo de trás para frente:

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Thomas Nagel e meu Conceito de Esquerda


Querido diário:

Minha primeira sugestão para quem começa a fazer planos que tentem viabilizar uma união das esquerdas para a eleição de 2018 é a listinha:

.a luta pela implantação do governo mundial
.b voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital
.c república parlamentarista.

Dito isto, cabe-me acrescentar que costumo declarar-me especialista em introdução à filosofia, pois li Aranha e Martins na ordem numérica crescente dos capítulos e Cotrim e Fernandes na ordem decrescente, de frente para trás:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires (2009) Filosofando; introdução à filosofia. 4ed. São Paulo: Moderna.

COTRIM, Gilberto e FERNANDES, Mirna (2010). Fundamentos de filosofia. São Paulo: Saraiva. [Saraiva? Saraivíssima, a mesma de nossos conhecidos livros de metodologia e técnicas de pesquisa e de teoria dos jogos].

Parece que até foi antes disto que li

NAGEL, Thomas (2007) Uma breve introdução à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

Pois não é que Thomas Nagel, na página 91 de seu livrinho diz algo superinteressante sobre o governo mundial? O livrinho consta de nove capítulos, além da introdução (Como sabemos alguma coisa?, Outras mentes, O problema mente-corpo, O significado das palavras, Livre-arbítrio, Certo e errado, Justiça, Morte e O significado da vida). Pois estou falando do último parágrafo do capítulo 8 . Justiça:

Falamos aqui principalmente do problema da justiça social dentro de um certa sociedade. O problema é muito mais difícil quando abordado em escala mundial; primeiro; porque as desigualdades são grandes demais e, segundo, porque não é claro quais soluções são possíveis na ausência de um governo mundial que pudesse arrecadar impostos mundiais e verificar se estão sendo eficientemente utilizados. Não há nenhuma perspectiva de um governo mundial, o que também é bom, pois provavelmente seria um governo horrível em muitos aspectos. Embora o problema da justiça global ainda persista, é difícil saber o que fazer com relação a ele nesse sistema de estados soberanos independentes que temos hoje em dia.

Veja só! Ele diz não haver perspectivas favoráveis à implantação do governo mundial. Pois concordo, acrescentando que esta é precisamente a razão que deve conduzir um país do porte do Brasil a lutar por ele. O governo mundial servirá precisamente para reduzir as desigualdades, beneficiando precisamente os países mais pobres. Penso na África! Naturalmente, precisamos preparar-nos a fim de enfrentar a ameaça tecnocrática. A experiência da União Europeia terá lindas lições a retirarmos para aperfeiçoar a utopia.

Pois se o governo mundial cingisse sua atuação a arrecadar impostos (tipo imposto de Tobin) e a gastar em bens públicos e meritórios (segurança, saneamento; saúde, educação), dando ainda uma renda básica a cada humano maior de 21 anos, não haveria como não pensar que ele seria um sucesso.

Ergo sou pela reforma do estado, pois do jeito como ele funciona no Brasil, o que vemos é a promoção da desigualdade, por exemplo, com um estamento de funcionários públicos recebendo remunerações milionárias. Também tal é o caso da escolha de "campeões nacionais", que vieram a mostrar-se um dos maiores escândalos da economia industrial internacional.

DdAB
Queria pedir ao Google Images uma foto com Thomas Nagel. Por erro de digitação saiu "navel" e peguei esta imagem que pode ajudar-nos a filosofar sobre umbigos e garotas tanquinhas.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Ainda a Prisão de Lula


Querido diário:

Pois ontem aqui neste blog falei contra a prisão de Lula. E recebi  comentários meu mural do Facebook. Um deles marcou-me negativamente. O eminente jaguariense Anor Filipe disse mais ou menos o seguinte:

Todos os corruptos, independente de qualquer partido, cor ou gênero, devem ser punidos pois roubaram dinheiro do Brasil, prejudicando a todos os brasileiros.... Portanto, não podemos e não devemos defender nenhum deles... Não podemos mais passar por idiotas, como eles querem... Chega de sem vergonhices no Brasil.... Basta!

A este desabafo, redarguí, colocando agora algumas edições no texto que lá joguei:

A sentença do juiz Moro, um abobado que nem sabe português, diz "[...] considerando que a prisão cautelar de um ex-presidente não deixa de envolver certos traumas, a prudência recomenda que se aguarde o julgamento pela corte de apelação antes de se extrair as consequências próprias da condenação." Sabe português? E aquela voz passiva sintética que o garoto não soube expressar? E isso diminui a validade da sentença? Se fosse apenas isto, já seria o caso de lançarem-lhe uma reprimenda: com o que ganham os juízes devem exibir sentenças que não atentem contra a língua pátria. Mas ao mesmo tempo pensar que esse juiz tem isenção para julgar Lula (como sabemos, 'juiz moro' é oximoro, hahaha) é saber se Lula está incluído na tua chamada a "todos os corruptos". 

Olha aqui o que diz uma coroa sobre as chamadas provas usadas pelo juiz Moro:

"[Fernanda Carneiro] observa que a ausência de provas 'cabais' é da natureza dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. [Diz ela:] Não há um contrato assinado pelo ex-presidente dizendo que realmente era o proprietário. Então tem de se levar em conta uma série de provas que, isoladas, poderiam ser consideradas circunstanciais, mas, no conjunto, têm uma força muito maior. Esses crimes são praticados justamente com o intuito de esconder a propriedade do recurso, o que torna muito difícil que haja uma prova definitiva que esgote o assunto."

Sigo eu, DdAB. Então há ausência de provas cabais. O que parece ter sido julgado é a possibilidade de impedir Lula de voltar a presidir o Brasil formulando políticas públicas em benefício dos menos aquinhoados. Ao reclamar da visão de direita sustentada por muitos brasileiros de boa vontade, tenho presente que Lula pode voltar a contribuir substantivamente para a redução da escandalosa desigualdade que caracteriza o Brasil há séculos.


Quem leu a encrenca do Facebook ainda pode beneficiar-se de um argumento que se encontrava escondido em minha mente no momento em que revelei meu sofrimento com os absurdos praticados contra o maior político de todos os tempos. Que, lembremos, tinha como presidente do Banco Central o atual ministro da fazenda, só que conduzido a rédea curta, a fim de impedi-lo de fazer as tropelias que hoje vemos. E que Pedro Fonseca denunciou na Zero Hora de ontem: qualquer estudante de faculdade de economia sabe que, com capacidade ociosa, com recessão, com depressão, políticas públicas adequadas são de elevar o gasto público ou reduzir a tributação. No caso, digo eu, para que não role déficit dessas medidas, deve-se substituir os impostos indiretos pelos diretos. Em outras palavras, com Lula, Meireles estaria precisamente fazendo as políticas que Roosevelt implementou na Grande Depressão de 1929-1933 nos Estados Unidos muito loucos.

Então meu ponto agora é que nem sempre nossas críticas devem ser feitas em momentos em que poderiam enfraquecer nossos aliados. E meu ponto tem duas ilustrações. Mas antes dela vou contar uma piada. É uma espécie de oração a ser recitada pelos membros do Partido Comunista, talvez criada por Lênin:

.a se o partido está certo e você também, fique com o partido
.b. se o partido está certo e você errado, fique com o partido
.c se o partido errado e você errado, fique com o partido
.d se o partido está errado e você certo, fique com o partido.

À primeira ilustração cito de memória. Li (você adivinhou: em Zero Hora) alguns anos atrás que Sérgio Faraco, depois de voltar de sua mal-sucedida experiência de estudante (de quê?) na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou, escreveu o livro "Lágrimas na Chuva", desancando o que testemunhou de influência do socialismo real sobre a vida comunitária daquela macacada metedora de trago. Pois Faraco procurou Érico Veríssimo e mostrou os originais do livro. Érico, em plena ditadura militar, disse apenas que aquele não seria um bom momento para levantar críticas ao lado esquerdista do planeta. Faraco aquiesceu e publicou o livro apenas quando a ditadura sumiu do mapa.

E a segunda li no próprio (impróprio) Karl Popper e cito verbatim da página 55 do livro

POPPER, Karl (2008) Busca inacabada; autobiografia intelectual. Lisboa: Esfera do caos.

   Precisei de alguns anos de estudo antes de me sentir confiante em relação a ter captado o núcleo do argumento marxiano. Consiste numa profecia histórica, combinada com um apelo implícito à seguinte lei moral: Ajuda a que ocorra o inevitável! Mesmo nessa altura não tinha intenções de publicar a minha crítica de Marx, porque o antimarxismo na Áustria era pior que o marxismo: dado que os sociais-democratas eram marxistas, o antimarxismo era praticamente idêntico a esses movimentos autoritários que mais tarde foram apelidados de fascistas. [...]

É como se, durante nossa ditadura militar, neguinho começasse a criticar, digamos, Pedro Simon, por ver nele problemas enquanto líder político. Ou hoje fortalecer o capitão Bolsonaro: militar, não, muito obrigado! Nem sempre nossas críticas devem ser feitas em momentos em que elas poderiam enfraquecer nossos aliados. Concluo repetindo:

Nem sempre nossas críticas devem ser feitas 
em momentos em que poderiam enfraquecer nossos aliados.

DdAB
[Citações retiradas da publicação de ontem em minha página do Facebook e da página 12 do jornal Zero Hora de hoje. E tomara que eu não tenha feito nenhum erro de português, hahahaha).]
E não fica charmoso eu dizer que sou contra os contra-Lula?
E tem este trecho da nota do PSOL, que retirei do mural do Fb de Rodrigo Ghiringhelli:

No caso da condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro, no processo referente ao chamado triplex, consideramos que a ação penal é frágil em termos de materialidade e provas, reforçando a tese do arbítrio e da ação persecutória que se materializou na condução coercitiva de Lula e na divulgação ilegal de áudio contendo diálogo entre Dilma e o ex-presidente, procedimento duramente repreendido pelo então Ministro do STF Teori Zavaski.
abcz

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lula e Pedro Pedreiro


Querido diário:

Primeiro foi o Antônio que me indagou, quando lhe sugeri que a solução seria uma assembleia nacional constituinte, "pra quê, Duilio?". Depois foi o Diego, quando, voltar de viagem, disse-lhe: "Piorou, né?", pois em minha ausência estouraram mais alguns escândalos. Ele, de boa vontade, sem intenção de contrariar-me ou polemizar, apenas balbuciou: "Tá tudo igual".

Que digo hoje, quando Lula foi condenado a nove anos de prisão? Esperando a loto, esperando a morte...

Agora tornou-se inesquecível para mim a frase atribuída a Benedito Valadares sobre derrotas eleitorais: faltaram votos. A verità é que vimos sendo derrotados em tudo que é tipo de eleição. Eleger Lula ou Dilma com aquele tipo de regras constitucionais de regulamentação da administração pública é o fim da picada: não serve pra nada.

Ok, ok, serve para algo. Mas o que faltou mesmo foram votos em um programa que conseguisse comover a maioria dos eleitores. Enquanto não o tivermos, não adianta chorar. Felizmente, muitos de meus amigos do Facebook é que não serão convidados a pagar a conta. Estamos entre os 6% mais ricos. Azar dos 94%.

Esperando o trem. Amanhã, parece, carece de esperar também.

DdAB

terça-feira, 11 de julho de 2017

Delfim Netto e a Apologia da Burrice


Querido diário:

Quando decidi expandir meu já imoderado consumo de bebida para o nível escandaloso, ainda não lera o artigo "O Estado não cria recursos", de autoria de Antonio Delfim Netto e publicado na revista Carta Capital de 5 de julho do ano corrente, aparecendo na página 38. E agora, antes de lançar-me ao consumo desenfreado desse importante item de meu orçamento caseiro, decidi fazer alguns comentários, menos com a intenção que chegue ao conhecimento do autor, mas na esperança de que possa suscitar alguma curiosidade de meu leitor sobre ideologia. Minha e do ex-ministro e ex-deputado da república. A minha ideologia, minha filosofia política, é igualitarista. A de Delfim Netto é neo-liberal.

Diz ele, abrindo o artigo:

A maior ilusão de uma 'esquerda primitiva' é que o Estado é magico e que, através de seu poder incumbente transitório, pode criar recursos. Nada é mais falso. E nada tem consequências mais deletérias sobre o processo de construção de uma sociedade civilizada, onde devem coexistir: 1. A plena liberdade de iniciativa. 2. A relativa igualdade de oportunidades, sob a coordenação de um Estado forte. 3. Um Estado forte, constitucionalmente limitado, capaz de controlar a organização da economia (difusa em toda a atividade social) para obter eficiência produtiva que permita a todo cidadão gozar os dois valores anteriores.
   É preciso insistir: o máximo que o Estado pode fazer é redistribuir, não sem antes consumir uma parte.

Primeiro devemos filosofar sobre a expressão "esquerda primitiva". Como bem sabemos, a esquerda se divide em primitiva e cerebral, à qual pertenço. Em boa medida, desqualifico-me para falar em nome da primitiva. Ainda assim, como sabemos, a mentira tem pernas curtas e rapidamente veremos traços da ideologia do autor tentando impingir-nos seus valores de maneira enrustida. Naturalmente a esquerda cerebral temos muito claro que nada é mais falso do que dizer que nada é mais falso que negar que o estado é incapaz de criar recursos. Indago-me, por exemplo, o que Delfim pensa sobre seu processo de construção de uma sociedade civilizada sem referir em primeiro lugar a educação. E que nome daríamos aos recursos empregados na construção de uma escola, com suas salas de aula, seus recursos audiovisuais, suas escadarias, seu centro esportivo, seu salão de atos, seu teatro, sua biblioteca, seus ônibus de transportes de alunos?

Com isto, já acabamos com o título que a revista que costumo designar como "Capital dos Carta" avalizou na publicação de seu cronista habitual. O estado não cria recursos, exceto tudo o que acabo de referir, tribunais de justiça, todos os bens públicos e meritórios que podemos imaginar, quando de provisão pública. Epa, esqueci de definir "recurso". Ora, digitei "dicio recursos" no Google e vi: "Faculdades, dotes: os recursos oratórios de Vieira.Bens materiais; posses: homem de recursos.Condição de riqueza, de produção de desenvolvimento econômico: país de imensos recursos."

Até o padre Vieira entrou na roda. Dotes é bom, mas tem mais, bens materiais. Então uma operação de remoção de um cálculo renal não é um recurso? Desasnar um vivente? Vamos adiante: país de imensos recursos. Ah, então podemos pensar em recursos materiais e humanos. Um neguinho que sai sobranceiro da cirurgia que lhe restituiu um rim lampeiro (para rimar), aumentou seu capital humano, não é mesmo? E a piscina aumentou o capital físico da escola, tampouco é mesmo? Cada uma desse Delfim.

Aprendi com William Baumol que podemos classificar as atividades empreendedoras como produtivas, rent-seeking ou destrutivas. O estado, diz Delfim, só se dedica às rent-seeking, ou seja, que apenas transferem a renda (o produto) criado por outrem. No mundo mundano em que habito, vejo o estado aqui e na China exercendo essas três atividades: produz, redistribui e destrói. Se produz, redistribui ou destrói, então cria, redistribui ou destrói, sô. E por que o rapaz disse este tipo de impropério?

No primeiro ano do governo Temer, o Brasil tomou conhecimento de tais dificuldades e, com a organização de um parlamentarismo de 'ocasião', ele produziu a aprovação de um número substancial de medidas micro e macroeconômicas, cujos efeitos se farão sentir no futuro. Infelizmente, os recentes eventos políticos diminuíram a capacidade do governo de prosseguir com as duas reformas fundamentais que estão encaminhadas: a trabalhista e a da Previdência.

Então a exceção de governo que produz é o velho (fora) Temer e produziu algo, algo rent-seeker, algo destrutivo, sei lá. Mas isto não é nada: efeitos que se farão sentir no futuro não são sentidos no presente. E até hoje está para ser provado que as medidas que (fora) Temer fez aprovar trarão algum benefício, por exemplo, para atenuar a desabotinada desigualdade que destruiu a sociedade brasileira precisamente porque arautos do "estado mínimo" vetam regularmente a ampliação do emprego público. E não digo naqueles ridículos 6,5 mil policiais. Para o Rio Grande do Sul, desde 1994, recomendo a contratação de um milhão de espécimes para receber treinamento mínimo de cidadania. Entre eles, deverão ser educados novos pacientes de hospitais psiquiátricos, mas também atendentes psiquiátricos, guardas de rua, motoristas, e por aí vai. E, por puro acaso, Delfim acha maravilhosos os teores das reformas trabalhista e da previdência tal como encontram-se em votação no congresso nacional. Por favor.

   [...] Quanto à reforma da Previdência, sua maior oposição vem do alto escalão do funcionalismo federal, que se apropriou do poder em Brasília. Trata-se de uma 'elite extrativista' [e aqui Delfim se refere, imagino, a Acemoglu e Robinson, por contraste a minha citação de Baumol] que 'conquistou' no grito direitos 'mal' adquiridos, desde 1988 [...]

Pensei ser de bom-tom, de minha parte, dizer que é vergonhoso que uma reforma da previdência que conta com a simpatia do articulista exiba simultaneamente tantos senões levantados pelo... articulista. Quero dizer, benesses como as do próprio articulista e minhas, aposentadorias benévolas, não foram tocadas. E milhares de exceções encontram-se excluídas do alcance do projeto que Delfim defende. É óbvio que o país precisa de uma reforma trabalhista e outra da previdência. E parece-me igualmente óbvio que a reforma econômica que deveria iniciar o rosário de queixumes do governo (fora) Temer seria mesmo a reforma tributária e não essas duas.

Mas é ainda mais óbvio que estas reformas do governo (fora) Temer são peças de escárnio, peças para cumprir um receituário ditado por algum íncubo que tem acólitos apenas do porte do Delfim, do Henrique Meirelles e de outros arautos que desconhecem que um item importante para avaliar o que quer que seja de ação governamental e comunitária no Brasil requer a pergunta: o que será da desigualdade após a implantação dessas medidas?

DdAB
Imagem: Delfim me puxando.

domingo, 9 de julho de 2017

Economistas Pecuários



Queridas amigos, amigos, amidalites, Itie, e tutti quanti:

70 anos. Dia 8, ontem. Hoje 70+1/365, fração própria. Na fração imprópria, temos aproximadamente 70,003. Quando chegar no 70,999, pimba, novas festividades, ad aeternum, se tanto.

Zero Hora, sempre Zero Hora. Às vezes dá suas dentros. Neste fim-de-semana, a edição era bem certinha: dia 8, sábado, o aniversário, domingo, 9, a comilança. E o que li na página 2 do caderno Campo e Lavoura? Li:

A cadeia produtiva da carne entrou em desequilíbrio, com oferta maior do que a demanda.
(Alberto Werneck de Figueiredo, diretor técnico da Sociedade Nacional de Agricultura)

Em outras palavras, o sr. Alberto não apenas acredita em equilíbrio como também o faz com relação a desequilíbrio. No outro dia, falávamos sobre o salário mínimo, situação em que a demanda por trabalho é cortada num ponto que a faz significativamente menor que a oferta. Por isso mesmo o salário mínimo sobrepõe-se ao salário de mercado. Só existe um 'pobrema' na fala do sr. Alberto e em minha maneira de expressar a encrenca. Lá naquele primeiro semestre da faculdade de economia, bons professores levam seus alunos a entender que a lei da oferta e procura é algo mais imponente que a própria lei da gravidade.

Neste afã, eles ensinam aos alunos que a dualidade básica do mundo econômico é que as compras, no dia de meu aniversário,, olhando para as escritas das firmas hoje de manhã, foram identicamente iguais às vendas. E os mais sabidinhos sugerem que, no entorno daquele par (quantidade, preço), havia uma "banda" de oferta e outra "banda" de procura, dentro da qual -provavelmente (eu disse 'provavelmente' e não tratar-se do 11o. mandamento das tábuas de Moisés)- encontravam-se as verdadeiras curvas de oferta e procura imaginadas pelos agregados de produtores e consumidores. E aí entra a encrenca: o neófito é obrigado, sob pena de reprovação e opróbrio, saber diferenciar "demanda de quantidade demandada" e "oferta de quantidade ofertada". Então o sr. Alberto estava, claramente, falando nas quantidades ofertada e demandada, o que implica que, em sua visão, as curvas originais não foram afetadas. Nem por aquela baixaria de vermos na TV carnes mal-processadas. A propósito, isto é que dá o governo, num just like that de fazer inveja ao estalar dos dedos anular e polegar (imagem lá de cima distorcida, hehehe), querer lançar-se a eleger (eu disse "eleger"???) campeões nacionais, em detrimento do combate à feroz desigualdade, responsável, inclusive pelos subornos praticados sistematicamente pelos vencedores, fora Temer, e tudo o mais.

E foi só isto do sr. Alberto o que li? Não. Também li:

No espaço ao lado da seção "Entre aspas", que quotou o sr. Alberto, vemos o "Campo responde". Primeiro pensei: o campo deve ter dito sim à reforma agrária de cunho social, tentando fixar  turma ao campo e até tentando atrair citadinos à capina e a tudo aquilo. Pois não era isso:

É comum a ovelha rejeitar cordeiros gêmeos ou trigêmeos? O que fazer para evitar o problema?
Responde: dra. Norma Centeno Rodrigues, médica veterinária especializada em bem-estar animal.

Um dos maiores problemas em partos duplos ou triplos é a rejeição de um dos cordeiros pela mãe.  [...] A adoção de um cordeiro órfão ou do terceiro cordeiro de parto triplo é difícil, requer dedicação do criador e nem sempre dá resultados.

Eu fiquei pensando: parece a ovelha capitalista de que nos falou Umberto Eco em um dos ensaios do livro "Viagem na Irrealidade Cotidiana", um dos livros que mais me influenciou quando eu tinha cerca de 40 anos de idade. E também Keynes naquele amado "Possibilidades econômicas para nossos netos", em que ele fala que o criador de gatos cuida da gata parturiente não por ela, mas pelos gatinhos e, na verdade, nem pelos gatinhos, mas pelos filhos e netos dos gatinhos.

No capitalismo, concluo, fechando as festividades dos 70 anos, lembrando que "no capitalismo, tudo vira mercadoria". E quem se arvora a dizer que teorizar sobre o conceito de equilíbrio é irrelevante vive em um planeta diferente do meu, em que -repito- a lei da oferta e procura é mais imponente que a lei da gravidade.

DdAB