quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Jorge Luis Borges e a Contabilidade Social



Querido diário:

Nestes dias em que vemos mais uma assacada do governo estadual contra a sobrevivência da FEE, nada melhor que fazer reflexões sobre áreas em que ela é insubstituível. Neste caso, muita coisa existe além de meu conhecimento, mas este me permite falar em:

.a contabilidade social regional (cálculo do valor adicionado, cálculo da matriz de insumo-produto e, num futuro próximo, cálculo da matriz de contabilidade social).]
.b demografia
.c tudo no nível estadual, sub-regional e municipal.

Pois tenho dado olhadas em

O Pensamento Vivo de Jorge Luis Borges,

um livrinho de 1987 da Editora Martim Claret, de São Paulo e o que vou citar está na página 117, com o Pensamento n. 98, in fine:

Cada um de nós é, de alguma forma, 
todos os homens que morreram antes. 
Não apenas os de nosso sangue.




Com isto, podemos afirmar que 

V = f(Pop),

o que já fiz aqui.

Até transcrevo a parte relevante:

[...] às 20h23min de 26/jul/2015, domingo, desejo corrigir aquela equação lá de cima dizendo que

VA = f(OT)
ou seja, o valor adicionado é função da oferta total

por

VA = g(Pop)

ou seja, o valor adicionado é função da sociedade, ou melhor, da população. Aqui mostrei um cálculo elementar do coeficiente de determinação entre essas variáveis em um cross section mundial do ano de 2014 (e aproximados) e encontrei o animador número de 0,61 para 181 países. Para quem não sabe, as variações na população explicam 61% das variações no valor adicionado. Claro que não temos aí uma prova, mas não conseguimos negá-la. Entusiasmado, já acrescentei que então somos forçados a concluir que a sociedade é que causa o valor adicionado

Então parece óbvio que Jorge Luis Borges sabia mesmo mais economia que o governador José Sartori ou o presidente Michel F. Temer. Mas tem mais ainda algo. Todos somos herdeiros de tudo, não apenas do meio-ambiente. Além disso, esta frase nos acorda para algo óbvio: se somos todos descendentes da macaca Sally, então, rigorosamente falando, somos todos parentes.

DdAB

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Gigante Terteão e o Ludopédio


Querido diário:

Eu ia citar direitinho onde li a frase que segue, mas perdi o momento, embora não seja difícil para um detetive achá-la. Adianto que é do futebol do jornal que, carinhosamente, designo como Zero Herra, dadas as poucas (muitas) e boas (péssimas) que vejo com frequência, especialmente, quando se fala de um conteúdo "de direita". Futebol? Já andaram corrigindo minha fala, dizendo que "futebol" é anglicismo e que o certo é dizermos "ludopédio".

Frase prometida:

Se protegerá para escapar em contra-ataque.

Esta questão do clube jogar no contra-ataque já me deu dor de cabeça para entender, no tempo em que o São Paulo Futebol Clube (oslt) usava a tática. Eu pensava: se é contra-ataque, nunca ataca, sempre contra-ataca, mas isto não dá muito futuro, pois o bom mesmo é o ataque-ataque. Seja como for, parece que a realidade tangível da objetividade concreta mostrou meu erro. O São Paulo foi campeão.

Sabe quem sabe que, volta e meia, tiro onda de esmerado estudante de nível de ensino médio, fazendo reflexões sobre a língua portuguesa, especialmente, achando erros desabotinados no jornal Zero Hora, que -como acentuei- costumo chamar de Zero Herra, por isso mesmo. Também sabe quem sabe que tenho meu consultor particular sobre estes assuntos, o prof. Conrado de Abreu Chagas, dono de meu marcador de temas intitulado "Conradianas". Este material, mesmo chamando-se "Conradianas" não tem o aval de meu querido mestre. Que pensará ele, by the way? Penso eu que ele sente certo orgulho em ter-me ensinado algumas coisas importantes. A mais contundente delas, devo admitir -agora com indisfarçado orgulho- é que entendi que não falamos aquele português que nos foi ensinado na escola. Nada daquele "nóis pega os peche", o português castiço que o próprio Bill Gates veio a intitular em seu editor de textos como português brasileiro.

No passado mais remoto do que menos, tive muito contato com o pessoal da editoria da FEE e basta ler meus textos lá revisados para saber quão português brasileiro culto aquilo é. No passado mais recente, envolvi-me com as editorias das Editoras Saraiva e Bookman/Grupo A e, por exemplo, desta vez aprendi a descolar o verbo (descliticizar, talvez dissesse nosso professor Conrado) em certas formas de locução que não consigo analisar adequadamente. Mas no que segue darei um ou dois exemplos que me são mais ditados pelo ouvido do que pela reflexão. Este "que me são" já é uma prova de que ainda os arcaísmos habitam em minh'alma... Acho que a Bookman não deixou nenhum quemessão lá no livro de mesoeconomia/contabilidade social... E se eu dissesse "que são-me"? Acho que ficaria ainda mais português europeu. E a solução? Acho que a mais elegante seria dizer "que são para mim".

Todos sabemos que, há uns 20 anos, lancei o movimento "Me Faz Próclise Te Chamo de Castelhano", o MeFa. Naquele tempo, eu não tivera a sorte de conhecer o brilho do prof. Conrado, pois -depois de tê-lo conhecido- abortei o MeFa, ou pele menos, reduzi-lhe a importância. E, se aquela argumentação não tivesse caído em terreno fértil, as dúvidas desapareceriam ao ouvirmos o presidente postiço Michel Fora Temer falar em algo como "ter-te-ão". No português falado, parece que isto se origina mesmo de um pedante, ou vários pedantes falam como se escreve, prova de pedantismo. É que aprendi com Stephen Pinker que "a gente escreve como lê e não como fala". Então é óbvio que posso falar "me faz próclise", mas escrever esta forma apenas como citação literal a uma fala" E já fui generalizando que língua é oral, não existe língua escrita, aquela coisa de fonema e fonético (eu ou Chomsky?). 

Ter-me-ia, temer-nos-ão, ter-te-ão. E entra na história o Gigante Terteão. Agora estamos falando não do senhor Fora Temer, mas de Graciliano Ramos, no livro "Infância". Ele aprendeu as primeiras letras no início do século XX, algo assim, pois nasceu em 1892. E aquele "ter-te-ão" estava lá em seus livros. Ainda mais: ele já estava estupefato com a necessidade de aprender quatro alfabetos:

.a TER-TE-ÃO (em maiúsculas, ou versais, ou caixa-alta, dependendo de quem fala)
.b ter-te-ão (em letra de forma minúscula, caixa baixa)
.c as maiúsculas manuscritas (lá em cima, com a fonte Segoe Script e a seguir a bandeira americana)
.d. as minúsculas manuscritas (idem).



É muita coisa para o menino cujo depoimento, já adulto, foi dado para -segundo a memória dita- deixar marcada a educação dada a sua infância pela cultura nordestina. Sem esquecer a injustiça que lhe foi infligida pelo próprio pai por causa de um cinturão perdido, ou melhor, negligenciado pelo coroa. Especialmente no caso (evitável dos quatro alfabetos) já temos tortura suficiente para impingir sobre uma criança analfabeta. Eu jamais iria escrever, como o jornalista de Zero Hora, "Se protegerá para escapar...", Vejo-me dizendo, falando assim. Mas porém todavia contudo entretanto: eu jamais escreveria a frase iniciando-a com pronome átono. São quase 70 anos estudando e escrevendo essas coisas. E que faria eu por escrito, que escreveria eu? "Vai proteger-se para escapar...", "Irá proteger-se para escapar..." ou talvez, na linha da Saraiva/Bookman, "Vai se proteger para escapar".

E quem invocaria o gigante Terteão? Acho que ninguém, ninguém fora o sr. Michel Fora Temer. Fora Temer!

DdAB
P. S. The quick brown fox jumps over the lazy dog: a ágil raposa cinzenta salta sobre o cão preguiçoso. Não é a metáfora para o povo e Temer? É a frase, uma das primeiras tentativas, de escrever com todas as letras do alfabeto agora novamente em vigor no Brasil.

P.S.S. O [gigante] Terteão está na página 99 do livro "Infância", da Editora Record, sem data, mas um ISBN: 85-01-15407-5. E a frase é: "Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém."

sábado, 19 de novembro de 2016

Nova Ameaça à Sobrevivência da FEE


Querido diário:

Acabo de ligar o Fb e vi os avisos de alerta de Roberto Rocha e Fernando Lara, chamando a atenção para o documento cujo link darei em instantes (aqui). Já não sei qual argumento é de quem. Vou transcrever um trecho que presumo ser de Fernando e fazer um breve comentário:

[O] núcleo duro do governo parece bem pouco sensível para argumentos como os que estão expostos nesse documento aqui compartilhado [aqui também]. O raciocínio para justificar a extinção é o simplório e equivocado 'gasta mais do que arrecada'. Desconsidera a produção de análises e estatísticas como bem público e ignora os trabalhos técnicos e assessorias que são prestadas a outros órgãos e secretarias que, se fossem contratados, custariam muito mais.

Sobre o "gasta mais do que arrecada": é um pensamento primário, divorciado de qualquer avaliação mais elaborada. É de, presumo, economistas que fugiram da escola e, portanto, nunca ouviram falar em análise de custo-benefício. Se eles tivessem falado que os custos são maiores que os benefícios, ainda assim teríamos que procurar no documento do governo exatamente qual teria sido a metodologia para avaliá-los.

E chegamos ao final da sentença que selecionei: quando ele falou em "assessorias e consultorias", caiu-me a ficha: é a privatização, é a maldita ideologia de considerar que a teoria da escolha social, a teoria da escolha pública, a filosofia política, a filosofia moral e a economia política são ramos do conhecimento humano subordinado à regra básica de uma balança em que o peso do lado esquerdo deve corresponder ao do lado direito. Que o débito deve ser igual ao crédito (sem superávit ou déficit, algo impossível de acontecer em qualquer ambiente em que "a despesa é fixada e a receita é estimada".

Então temos que falar em lobbies, em cargos em comissão, em qualificação técnica dos governantes e seus assessores. Parece óbvio que, num passado remoto, um tanto fora de nossos horizontes de vida pregressos, o governo brasileiro teve quadros funcionais qualificados. Não garanto que tenham sido os militares que os destruíram, o fato concreto é que, no espaço de vida que posso testemunhar, com as cassações de funcionários e outras práticas ditatoriais e, sobretudo, depois da redemocratização, o poder foi assaltado por ladrões de todos os tipos e o número de "cargos em comissão" nos governos federal, estadual e municipal cresceram escandalosamente.

A FEE se orgulha de não ter "cargos em comissão" em sua administração. E talvez seja esta uma das razões de sua condenação à morte, o que vem ocorrendo desde sua criação. Só que, em geral, o bom-senso tem vencido e as sanhas que se tornam dominantes dizem respeito mesmo à concorrência que a FEE faz à "iniciativa privada", consultores de diversos calibres que é impossível que tenham um quadro técnico mais sofisticado que aquele que conta com quase 40 doutores.

Na condição de sócio-fundador da FEE, não posso revelar-me mais escandalizado com a magnitude dessa assacada contra a liberdade de informação, de formas capazes de qualificar a informação e sobretudo de tornar-se cada vez mais um verdadeiro portal de transparência da administração estadual. Esta frase era para terminar, mas -ao escrevê-la- asssalta-me mais uma hipótese para a proposta da assessoria do governador em querer fechá-la. É que o PIB que a FEE calcula deve ser interpretado por aquela turma como ofensa pessoal a seus anseios ( oníricos, dado o grau de treinamento que parecem exibir no domínio de técnicas de administração pública) de aperfeiçoar a administração estadual e induzir o crescimento do setor privado.

Então fecho o texto pensando que deveríamos observar o grau de correlação entre a economia andar mal e as iniciativas vampirescas de exaurir o sangue bom que existe neste projeto modernizante de 43 anos! Informação é poder e aí já vem Bacon dizendo o que está em jogo neste momento.

DdAB
Não sabemos se aquele velhinho e de boné ali da foto sou eu. Maior ironia ainda é que a metade geométrica do prédio ostenta uma bandeira do Rio Grande do Sul, um estado que vê seus interesses perenes e intergeracionais serem malbaratatos por oportunistas, governantes e seus acólitos.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Breve Balanço da Relevância do Conceito de Equilíbrio


Querido diário:

Balanço. Em inglês esta palavra é o que significamos ao dizer "equilíbrio", em português. A ideia de balanço nos é aproximada pela mais comezinha presença física de uma balança "de feira", do tempo antigo, em que havia pesos em um dos pratos e a mercadoria a ser adquirida, digamos, tomates, na outra.

No mundo econômico, da feira livre e dos tomates, dos acres e das mãos, existe uma dualidade básica do espaço das mercadorias: as compras foram iguais às vendas ontem em todos os mercados. Gerou-se um vetor de preços, algo mais concreto que a própria concretude da realidade tangível... Não é temerário afirmarmos que pelo menos alguns, talvez todos, esses preços do equilíbrio de ontem fossem indesejados. Mas a questão se impõe: houve um vetor de preços, então por que não basearmos nossas adivinhações do vetor de amanhã na informação hoje colhida sobre ontem?

DdAB
Ali nos encimando, uma balança de Roberval.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Mais Quebra-Pau. Mas Lá vem Tite.


Querido diário:

Era "Fora Dilma"?

Porto Alegre amanheceu conflagrada por várias manifestações em vários pontos. São "os irresponsáveis da esquerda". Só não consigo deixar de pensar no irresponsável do Aécio e dos milhares de outros até mais irresponsáveis que não esperavam que a ruptura institucional que provocaram pudesse ser acollhida pacificamente.

Já faz muito tempo que deveríamos ter aprendido a lição que rupturas institucionais têm custo elevadíssimo. O problema todo foi que os opositores da presidenta Dilma não tinham a menor credibilidade para avocar a si a tarefa de pacificar o país. Cheguei a sugerir que muitos dos "da massa" pensavam que iria sucedê-la -ao vê-la derrubada- o próprio Papa Francisco. Burrinhos. E até agora tento achar um nome que poderia ter entrado na via da pacificação. No passado cogitou-se de Sílvio Santos e, nessa linha, no desespero, pensei em Luis Fernando Verissimo.

Vivemos (verbo viver, presente e pretérito perfeito do indicativo) um bruta dum impasse institucional. Ontem a seleção brasileira "fez bonito". Dizem haver um plano para cassar o mandato de Temer em 2017 e, com isto, termos eleições indiretas, pelo escandaloso congresso eleito em 2014. O Papa Francisco não será candidato. Fernando Henrique já foi cogitado. Dilma também. Hoje cogito de Leandro Karnal e do treinador Títi.

DdABPost Scriptum: transcrito do Facebook.
Mais um: Achei genial a publicação em Zero Hora de ontem (aqui):

Paulo Antônio Dias Fagan: o que Donald Trump representa?
Engenheiro

   Tenho visto muitos comentários sobre a derrocada da dita esquerda mundo afora, mas será que os interesses são iguais em todos os países? Será que esquerda e direita são iguais mundo afora?
   Vejamos. Nos Estados Unidos, a direita, ou a extrema-direita de Donald Trump, defende o fechamento de fronteiras e a nacionalização de produtos, inclusive com sanções a estrangeiros e possível quebra de contratos de livre-comércio com alguns países. Já no Brasil, a direita defende justamente o contrário, com a abertura completa ao capital estrangeiro, pautada pelo neoliberalismo, e é acusada pela esquerda de entreguista.
   Parece-me que se Trump fosse candidato à presidência do Brasil, estaria defendendo a exploração do pré-sal por empresas nacionais. Não aceitaria a interferência estrangeira sobre áreas estratégicas, como água, energia e mineração. Defenderia a boa regulação desses mercados por agências fortes, não manipuláveis politicamente para atender a interesses políticos do momento, como acontece no Brasil.
   Será Donald Trump de esquerda? Ou será que os americanos estão tanto à nossa frente que já perceberam que o tal neoliberalismo só funciona com forte regulação independente e com empresas nacionais de grande porte financeiro, evitando evasão de divisas e gerando empregos no próprio país? Seria esta percepção evoluída que elegeu Donald Trump?
   Será que Trump, presidente do Brasil, imploraria por investimentos em infraestrutura, por exemplo, com todo o fornecimento de produtos produzidos fora do país e talvez até com mão de obra externa, gerando empregos nos países sedes das empresas investidoras e perpetuando o desemprego aqui? Entenderia ele que isso é solução para nós?
   Por fim, a pergunta mais importante: a vitória de Trump e de seu discurso nacionalista, sem falar no Brexit, estaria mostrando ao mundo que o neoliberalismo sem restrições a empresas e capital estrangeiros defendido no Brasil estaria acabado, como aconteceu com o comunismo anos atrás?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Noves de Novembros


Querido diário:

Escrevi lá no Facebook:

Pato? Donald?
[tá na hora da virada]
{Viraremos como os berlinenses fizeram no 9/nov/1989}

Acrescentei aquele trecho {...} depois de ter recebido a visita de várixs amigxs. E fiz o arquivo com o Pato Donald com o nome de "perdemos", homenageando futuras frentes como o movimento espanhol "Podemos". Uma hipótese otimista de tudo isto, de pato da FIERGS e Donald Trump no Esteites, é que sobreviveremos o suficiente para fazer a virada.

Ainda acalento uma tênue esperança de que o "establishment" segure os ímpetos paranoicos/psicopáticos/narcisistas do futuro presidente americano.

DdAB
P.S. Como sabemos, sou economista e não psicólogo, o que me fez vacilar na CDD do mr. Trump.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mais Dados para a Prestação de Contas das Eleições Municipais

(Legenda: decifra-me ou devoro-te)

Querido diário:

Dei-me conta de que os eleitores do voto em candidato mais o branco mais o nulo mais a abstenção demarcam o mesmo voto do mesmo homem que bate na mulher, que briga no trânsito, que rouba no supermercado, da mulher que apanha do marido, que esbofeteia o filho. Que tem razões para distinguir-se nos três maiores fatores indutores do ódio à humanidade:

.a exercício físico.
.b dieta para emagrecer.
.c. estudar.

Há quem pratique o trio e muitos inclusive mentem que os apreciam.

Uma fração de nós fracassou rotunda, completa e insofismavelmente no uso de nossa habilidade de convencimento. Talvez nossas receitas nem sejam as melhores. Mas como é que vamos sabê-lo?

Desde que ouvi falar na teoria da grande conspiração, fiquei atribuindo a ela tudo o que foi explicação com a qual não concordo ou não estou preparado para entender. Claro que, por isso mesmo, tenho sido resistente em aceitar que existe um complô entre os juízes, promotores, policiais e jornalistas e seus mandantes que tem sido responsável por tudo aquilo que nos desagrada, enquanto esquerdistas. E agora também me parece que a devastadora derrota do PT na eleição municipal e a assustadora vitória do PSDB não precisam de mais explicações que a assunção de que o problema foi mesmo aritmético: votos de menos para cá e votos de mais para lá.

Claro que podemos dizer que foi o eleitor analfabeto, idiota, reacionário, ignorante da teoria da escolha pública, alienado, ignorante do trio c+v+m, ignorante do conceito de sociedade justa, e tudo o mais que nos possa ocorrer que deu a vitória às forças anti-populares. Mas isto não me satisfaz, em absoluto. Talvez por levar a sério a teoria da escolha racional (com moderação), a leitura (obviamente pessoal) de Marx e Engels, daquela turma da filosofia analítica e da continental, dos franceses, dos americanos de esquerda é que tento fazer modelos que talvez os cientistas políticos mais aquerenciados com os métodos quantitativos têm levado à prática.

Anos atrás, li um livro de introdução à ciência política (ou era um artigo numa revista técnica?) que dava uma equação que me parecia emergir de um livro de macroeconomia e não de onde veio. Para quem sabe ler em português, podemos escrever:

P = f(i, w, c),

que se deixa ler como: a inflação é uma função da taxa de juros, da taxa de salários e da taxa de câmbio. Mesmo agora, ao reler o que acabo de escrever, digo para mim mesmo: é pura macroeconomia. Mas, se o cientista político fez uma teoria econômica, por que não posso simetrizar e fazer uma teoria política? Pois então. Pensei em apelar para uma regressão logística, isto é, uma forma de usar métodos quantitavos para lidar com dados qualitativos. E talvez os cientistas políticos já o façam, sendo apenas meu desconhecimento da fronteira da pesquisa na área que me impede em absoluto de saber onde andam os resultados. Pois bem. Então escrevi o seguinte modelo (que pode ser designado como modelo teórico):

V = v(J, H, C),

em que V é a probabilidade de vitória do candidato selecionado, J é seu grau de juventude, isto é, sua idade cronológica (e já poderíamos começar a sofisticar o modelo, por exemplo, combinando a idade cronológica com o número de anos que se dedica à política partidária, etc.), H é o grau de honestidade do candidato (mensurado de alguma forma racional) e C é seu grau de carisma (também mensurado por meio de um índice pertinente).

Então, devidamente calibrado, o modelo poderia dar-nos os seguintes parâmetros que inserimos no que podemos chamar de modelo empírico:

V =  a * J + b * H + c * C.

Ou seja, se conhecermos a, b e c e também J, H e C, teremos determinado a probabilidade de vitória do candidato que desejarmos. Há dois tratamentos para chegarmos ao valor de V. O primeiro e mais usual é um tipo de equacionamento que parte das variáveis J, H e C e, por meio das tais técnicas da regressão logística, determina os parâmetros a, b e c. E, uma vez que disponhamos desses parâmetros a, b e c obtidos para o caso geral, quando formos informados, por exemplo, do J, do H e do C de Raul Pont, poderemos "adivinhar" sua probabilidade de vitória na eleição porto-alegrense. Ora, se o modelo teórico é consentâneo, então aqueles 18% que Raul alcançou devem-se a baixos valores que ele exibia para as três variáveis que selecionei para ilustrar meu ponto. Dada a baixaria implícita nesse resultado, se eu fosse o presidente da Associação Porto-Alegrense da Esquerda Esclarecida, iria recomendar a Raul Pont que se mantivesse em low profile e recomendasse a pessoas de sua confiança, portadoras de valores de J, H e C mais palatáveis, sob o ponto de vista do eleitor mediano, que assumissem seu lugar. Se um partido -seguiriam minhas recomendações- não tem ninguém em condições de alcançar um valor V decente, não se candidate, apoie algum outro candidato também vinculado a nossa associação, que pode fazer papel menos ridículo num certame de baixa seriedade, mas elevadas consequências para o cotidiano de todos nós, destacando os menos aquinhoados.

O segundo tratamento a ser dado a nossa equação

V =  a * J + b * H + c * C

consiste em aceitar como dados os valores de V, a, b e c e, com eles, fazer estimativas (no mínimo, adivinhações de bar e, numa hipótese mais séria, de grupos focais) precisamente para J, H e C. A isto se chama de calibração e sua importância está associada à possibilidade de "vetarmos" candidatos que não alcançam valores críticos para as três variáveis, sendo plausível pensarmos que teriam candidaturas fadadas à derrota.

Como é fácil falar, não é mesmo? Se este tipo de encaminhamento para os fenômenos políticos tem algo a ver, poderemos evitar futuros vexames, como os que nos fizeram pagar as candidaturas de Jandira no Rio de Janeiro, Raul e Luciana em Porto Alegre e por aí vai a lista. Enorme lista.

DdAB
Imagem: a pergunta da Esfinge ("decifra-me ou devoro-te") é a maior representante da estupefação atual do Brasil. Com dificuldades criadas por "aquilo que não se pode falar".

P.S. Para quem não é acolherado com estas tecnicalidades, ficou claro que estou falando de dois métodos para determinar valores numéricos para modelos matemáticos/estatísticos? Naquele modelo lá de cima (isto é, V =  a * J + b * H + c * C), os valores de a, b e c podem ser obtidos por meio da estimação feita por métodos paramétricos ou não-paramétricos. Mas, uma vez conhecidos os valores desses, assim chamados, parâmetros, podemos usá-los para determinar valores de J, H e C, técnica que se chama de calibração.

P.S.S. E dei esta introdução no Facebook: Não consigo me desligar da derrota eleitoral da esquerda. No outro dia, recomendei a todos nós mais estudo. Creio que me baseava naquele cavalo cujo nome agoram e foge (sem escoiçear, por sinal) da "Fazenda Modelo", que -a qualquer revés- usava seu mantra: "Trabalharei mais ainda". Uma vez que alguns amigos dizem que nunca trabalhei ("também trabalhas ou só dás aula?"), minha solução é estudar mais ainda...

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Desigualdade Brasileira em 2036


Querido diário:

Esses 20 anos que nos separam de 2036 não acenam com enormes possibilidades de mudança na desigualdade entre os indivíduos (ou suas famílias). A desigualdade exibe, como sabemos, várias dimensões, como as verificadas na saúde, na educação, na moradia, na nutrição, na escolarização, no aprisionamento (paro de citar, mas basta pensar mais um pouco, a fim de ampliá-la, ou fazer desdobramentos, como é o caso da saúde, com promoção, reparação, etc.).

Como avaliar? Em qualquer das dimensões por meio das quais a desigualdade se expressa, quem é mais saudável, pobre ou rico? educado, pobre ou rico? bem instalado, pobre ou rico? bem nutrido, pobre ou rico? etc.

A desigualdade econômica dirá respeito à renda (to be true, receita) ou à riqueza, e costuma ser medida por meio do índice de Gini (variando de zero a um, diz que o zero é a igualdade perfeita e o um é a desigualdade absoluta). Boa parte da determinação da renda depende do reconhecimento no mercado de fatores de produção da importância da contribuição do indivíduo (e outra boa parte depende do poder de monopólio que o proprietário do fator exerce sobre o sistema, destacando o poder da classe capitalista sobre a classe trabalhadora). Por exemplo, um médico e um açougueiro contribuem para a formação do produto social, costumando-se atribuir ao médico mais méritos na hora de avaliar-lhes os esforços relativos.

Além da renda, a desigualdade pode ser atenuada ou expandida em resposta à importância de outros mecanismos alheios ao mercado de fatores de produção. Trata-se, no caso, de transferências realizadas entre os indivíduos (mesadas, donativos) ou da ação do governo (dando ajuda ou tributando os rendimentos dos indivíduos). O governo ainda pode atuar sobre a desigualdade (além da renda) por meio do direcionamento do gasto público (educação, saúde, etc.) ou imiscuindo-se na provisão de bens ou serviços que ali no início estavam configurando as dimensões da desigualdade. Por exemplo, se pobre mora em casas menores que a dos ricos, o governo pode dar-lhes acesso ao crédito para ampliá-las.

Por falar em crédito, o acesso ao crédito para essa reforma da moradia, ou para pagar uma viagem de estudos, ou para -principalmente- favorecer o indivíduo a criar seu próprio emprego (empreendedorismo) é outra forma importantíssima de combater a desigualdade e incentivar a mobilidade.

Então, além da renda, as transferências familiares ou governamentais podem ampliar as diferenças de rendimentos entre os indivíduos. Por exemplo, os juízes ganham lá seus vencimentos regulamentares que são complementados com o auxílio moradia. Ouço agora dizer que eles (alguns, claro) um auxílio de R$ 7.500 para complementar a educação de seus petizes. E por aí vai.

Tudo indica que aquela PEC 241, que pensa substituir a lei do orçamento com uma legislação mais potente (mudança constitucional) deve mexer estonteantemente com a magnitude de qualquer índice de Gini que queira avaliar a desigualdade naquelas dimensões a que referi lá em cima. Por exemplo, o número de quartos das casas dos pobres ou dos ricos, a área de suas respectivas cozinhas, o número de cáries dos filhos, e por aí vai. Qual é o problema com a lei do orçamento? É que ela nunca foi cumprida. E com essa escandalosa PEC? Pecado, claro, pecado contra qualquer iniciativa de reduzir a desigualdade com essas medidas palmares de que falei. Mas o otimismo não nos deve abandonar de modo absoluto, pois a probabilidade de que esta farsa criada pela "área econômica" do atual governo ("o orçamento público deve ser gerido como a economia familiar: ningúem gasta mais do que ganha", um verdadeiro atentado a qualquer manual de introdução à economia) não dure nem um dia no mandato do sucessor de Michel Temer.

Fico estupefato ao imaginar que esses governantes usurpadores pensam que, com este tipo de medida, estão criando boa vontade nos "investidores". Como se alguém "do ramo" fosse acreditar que as aleivosias criadas por esses falsos profetas merecem algum grau de seriedade.

DdAB
A imagem é da cobra Apófis, signo egípcio do caos, que deve colidir com a terra, precisamente quando as despesas públicas abandonariam o caos. A boa notícia é que a Terra pode ser varrida até antes do caos ser implantado definitivamente no Brasil.