quarta-feira, 29 de junho de 2016

My Brazil


Querido diáro:

Primeiramente fora Temer! Volta e meia evoco que a primeira constituição da república trazia o nome de Estados Unidos do Brazil. Nunca me dera conta até ler na própria constituição (fisicamente falando, páginas cheiráveis) de 1891 no Latin American Center em Oxford. Pois então: é mesmo Brazil com z. E mais vagamente lembro a professora Iracema de Alencar no Colégio Júlio de Castilhos comemorando que chegáramos à grafia correta, pois, se o pau da madeira é brasil, então os constituintes daquele tempo queriam mesmo dizer Brasil e não Brazil. E carrego até o eco de uma canção que não resgatei dizendo "quem te conhece jamais esquece Brasil é com s", lembra?

Em compensação, alguns meses atrás já falei na constatação da fraude, da empulhação que me impingiram desde menino: acreditar que o Brasil teria um futuro luzidio e que eu mesmo poderia ver o país da ordem e progresso ainda em meu horizonte de vida. E, não o fiz por vingança, eu assim que pude passei a passar a empulhação uma geração adiante, alunos, amigos, familiares.

Há mais de 50 anos posso dizer que me interesso pelo que hoje poderia chamar de "economia do desenvolvimento", desde a leitura dos jornais locais, interessando-me pelos do Rio e São Paulo em seguida, as revistas mais técnicas, como a Civilização Brasileira, os jornais nanicos, Movimento e Opinião, essas coisas.

Em verdadeira compensação, li estupefato que o político-réu Eduardo Cunha visitou o presidente-interino (como chamam os benévolos) Michel Temer para tratar da sucessão do próprio Temer, ou seja, o presidente da câmara dos deputados. Parece que ambos, Temer e Cunha, acham que o réu não voltará à linha sucessória. Uma fraude para os meninos que esperam o desenvolvimento econômico ainda em sua geração.

Hoje sabemos que um golpe no desenvolvimento econômico é causado pela tibieza das instituições, pela manutenção dos contratos, tudo falado e volta-e-meia esquecido. Fala-se como se fosse caminho pavimentado para o progresso mais uma vez golpear o "direito adquirido" da classe trabalhadora de trabalhar até algum tempinho razoável antes do passamento.

Hoje vivemos novamente uma crise institucional maiúscula, como já testemunhei outras. Compartilho, com amigos, políticos (que o inferno os trague) e outros pensadores da realidade em que vivem, a sensação de que, caso o parlamentarismo tivesse nascido com aquela constituição de 1891, crises do porte da atual ter-se-iam (como diria o próprio inelegível Temer) resolvido com a dissolução do governo (isto é, comando do executivo, composição eletiva do legislativo e até -já vou acrescentando agora- algumas demissões também no poder judiciário).

Mas a verdadeira responsável pelo caos instalado no Brasil, o caos institucional é a impunidade e a leniência do poder judiciário que autorizou estas situação esdrúxula de termos um presidente da república inelegível para outros cargos públicos em virtude (virtude?) da prática de crime eleitoral, seu amigo Eduardo já sendo declarado réu, como eu falei antes. Mais milhares de deputados e senadores com processos de diferentes graus de periculosidade. O fim da picada.

DdAB
A imagem do Brazil veio da Wikipedia (aqui).

sábado, 25 de junho de 2016

My Britain


Querido diário:

Quando, em 1974-7, eu sonhava em cursar pós-graduação no exterior, percebi que necessitava de três requisitos: o mestrado local, a língua estrangeira e a bolsa de estudos. Negligenciei a língua, estava, em julho de 1977, defendendo a dissertação do hoje chamado PPGE/UFRGS e pedi aceite a milhares de universidades da França, Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. Dessas miríades de formulários de pedidos de bolsa e de aceite na universidade, além das cartas de recomendação, uma boa meia dúzia de instituições ofereceu-me a vaga para estudar ou mestrado ou diretamente doutorado de língua inglesa. Não lembro de ter sido aceito na França, que tinha a extraordinária vantagem de oferecer o ensino gratuito mesmo para estrangeiros.

De todo esse esforço, resultou a concessão da bolsa do Conselho Britânico e o aceite (independente, mas endossado por ele) na University of Sussex. Escolhi Sussex, pois ouvia falar tratar-se de uma das "universidades vermelhas" criadas pelo trabalhismo dos anos 1950. Fui admitido para o doutorado, mas entrei na trilha do mestrado (M. A. in economics of industry) e dele não saí, quero dizer, no meio do caminho, baixaram-me saudades do Brasil, que não consegui por lá segurar-me e, tendo feito uma dissertação, ganhei o segundo mestrado, ou seja, sou mestre e master of arts. Era outubro de 1978 e vim olhar de perto o que estava acontecendo no Brasil. Derrota, claro, hoje bem vejo, mas não foi letal, pois apenas fingi (para mim mesmo) que o sonho do doutorado estava sepultado.

Não é que, em janeiro de 1988, por indicação de um dos irmãos Fiori, professor da Faculdade Bartlett em Londres, consegui uma entrevista com meu futuro ídolo, o mr. Andrew Glyn, hoje falecido, que recebeu-me em sua sala no Corpus Christi College, em Oxford? A entrevista estava marcada para as 11h00 a.m. e, por medo de atrasar-me na viagem de trem Paddington-Oxford, devo ter chegado lá em torno das cinco ou seis da madrugada de um dia ultra frio e chuvosinho. Por razões de puro medo de sei lá o quê, ao invés de pegar um táxi da estação de trens até a Merton Street. Ao avistar o college, tranquilizei-me um tanto, mas o stress voltou sobre como eu iria passar o tempo. Creio que seriam, digamos, 10h00 a.m. e fui fazer um reconhecimento absoluto do local, não lembro como é que consegui entrar, parece que o porter avisou o Andrew que um tresloucado perguntava por ele. Por minha sorte, ele não tinha compromissos aquela hora e me recebeu.

Foi uma entrevista-prova de paciência para ele, pois meu inglês -que nunca fora de primeira classe- estava um tanto enferrujado, ainda que eu tivesse lido muita coisa nesses dez anos entre a volta de Sussex e a chegada a Londres naquele janeiro. Pilhas de literatura sobre economia (organização) industrial e até alguns romances, que não sou de ferro. Mas ele, claro, foi muito amável e indagou o que eu queria estudar e eu disse sabe-se lá o quê, o que não o impediu de sinalizar que poderia considerar ser meu orientador do doutorado, se durante os primeiros meses de 1988 eu fizesse um projeto interessante.

Daí desse "interessante", já pintou uma das frases proverbiais que aprendi com ele "interesting questions and tentative answers". Pois então. Quando cheguei para estudar com ele, em janeiro de 1989, ele deu-me dicas sobre morar em Oxford, comprar a inefável bicicleta com cestinha e alguns passeios em torno da ring road da cidade. E depois me ajudou extraordinariamente durante os trabalhos, volta e meia fazendo elogios (escassos) e críticas (rotineiras), mas eu sentia que, no dia em que ele dissesse que eu poderia apresentar a tese, esta seria aceita. E assim foi.

Pois então. Melhor que eu fala a Wikipedia como "Background" no verbete dele:

Glyn was born in Tetsworth, Oxfordshire. He was the son of John Glyn, the 6th Baron Wolverton, of th Williams & Glyn's Bank banking dynasty. He attended Eton and went on to study economics at Oxford University before becoming a government economist from 1964 to 1966. He was appointed to a fellowship in economics at Corpus Christi where he worked for the rest on his life.

Eton, Oxford, parecia eu mesmo, como o colégio das freiras de Jaguari e o Julinho em Porto Alegre, não é mesmo? Pois era ele um sétimo barão e eu não sabia? Até hoje não sei se ele renunciou ao cargo ou se o cargo foi entregue a seu filho mais velho (do primeiro casamento). Coisas que fiquei sabendo apenas depois da morte de Andrew, nos obituários escritos por amigos diletos. Ele nunca falou nisto comigo, era brincalhão, mas muito objetivo e mesmo as investidas que eu dava no ramo da psicanálise ou da epistemologia, ele descartava de má vontade. No que diz respeito à ascendência pelo baronato, um colega (também orientando dele), talvez leitor mais atento d'O Capital chamou-me a atenção para o sobrenome de Andrew como um banqueiro citado. Nunca tive coragem de comentar com ele.

Pois era pois então. Agora também. Andrew foi trotskysta durante muitos anos, dizendo-me a certa altura ter sido convertido à social-democracia -talvez nos anos 1980- por Bob Rowthorn. Mas não deixou de ser "marxista", pelo menos usando os instrumentos analíticos do marxismo para forjar sua visão do mundo atual. Em outras palavras, um revolucionário que parece-me ter abdicado do caminho da revolução para levar o proletariado à redenção.

Pois então, finalmente. Em novembro de 1992, meus últimos dias de Oxford antes da tese (que finalizou-se apenas em fevereiro de 1994), testemunhei (pela TV) um incêndio ocorrido no Castelo de Windsor, algo que chocou os ingleses de maneira que não posse descrever. Em uma reunião de supervisão de Andrew, fiz um comentário que aquele sofrimento enorme poderia ter sido abrandado se não houvesse mais monarquia. Pimba: falei em corda em casa de enforcado, como agora sei de sua origem nobre. Ele, claro, disse algo na linha de "pensando melhor, o bom mesmo é deixar como está".

Revolucioários e conservadores. Plebe rude e nobreza. Desiguais e combinados. E agora esses brits decidem sair da União Europeia. Só bebendo!

DdAB

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Aviões Brasileiros e a Lei da Gravidade


Querido diário:

Já falei aqui sobre a maior imponência da lei da oferta e procura sobre a lei da gravidade. Transportando três bilhões de pessoas por ano (praticamente cada terráqueo faz meia viagem aérea por ano), encarapitam-se pelos céus quase 350 mil neguinhos por hora: 3.000.000.000/365x24. Em compensação, hoje li na página 5 do caderno Logística, do Jornal do Comércio, que em 2014 117,2 milhões de passageiros singraram os ares do Brasil em voos locais e rumo/retorno ao exterior.

117,2 milhões divididos por aqueles 365 x 24 dão-nos 13.379 neguinhos encarapitados nos ares protegidos pela constelação do Cruzeiro do Sul a cada hora. Ou seja, agora no ar temos 26 aviões enormes carregando essa macacada.

A lei da gravidade puxa para baixo mas a lei da oferta e procura alça aquela turma aos ares e lá os mantém.

DdAB
Imagem daqui. Cai ou não cai? Havia equilíbrio? Era estável? A lei da gravidade não é de jogar fora...

terça-feira, 21 de junho de 2016

Fred e o Gol de Mão: é o Meireles, minha gente

Querido diário:

Há instantes, botei esta catilinária (chalaçaria?) no Facebook:

Primeiramente, Fora Temer. Por não aguentar o excesso de conteúdo direitista no jornal Zero Hora, passei a ler o Jornal do Comércio há poucas semanas. Não que ele seja de esquerda, by the way. Então tenho algumas novidades neste mundo da economia política (ou melhor, business and politics).
No jornal de ontem, página 2, lê-se:
Sou candidato a fazer um bom trabalho no Ministério da Fazenda e corrigir essa trajetória fiscal que temos desde a Constituinte. Conseguindo fazer isso, estarei realizado profissionalmente.
Era o Meireles. Li, reli, tornei a ler e reler, digitei, quase regurgitei, que está na moda. Depois de uns bons goles de cachaça (que a temperatura local bem que ajuda), fiquei a analisar o dito do nosso Fred, comemorando o gol do estilo mexicano.
Primeiramente: bom trabalho no ministério da fazenda, hum, hum, pensei cá com meu copo. Segundo: corrigir o que quer que seja que estava na constituição da república. Hum, hum hum, o copo balbuciou, pensando que o velhinho estava pensando ser ele próprio a reificação (personificação?) do poder constituinte. Um homem que vale pelos atuais 513 + a malta de senadores, pensamos a garrafa, o copo e eu, em surdo uníssono. Terceiro: sobre a realização profissional, eu até que me contentaria com menos, por exemplo, arruinar o Programa Bolsa Família. Chega.
Ok. E que foi que me fez exclamar lá em riba (de 'ribamar'?) aquele 'fora temer'? O governo interino está se dando ares de realmente querendo reescrever toda a história do Brasil, agora como farsa. Por exemplo, já pulo para a última página do Jornal do Comércio de hoje. Há um 'drops' anunciando que "O governo do presidente interino Michel Temer pretende fazer alterações na Lei das Licitações..." Gelei novamente, que a cachaça não esquenta for good. Um governo com um ministério dominado por acusados de corrupção e até assassinato mudar a lei das licitações vem coisa. Mas logo abaixo fala no ministério criado precisamente para lidar com este tipo de "recurso" (hahaha). É a criação do Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle, que já vi Chalaças aqui mesmo no Fb tentar batizá-lo com a sigla de TRA-FI-CO. Rimou com o ministério da justiça, regido regiamente pelo ministro que andou defendendo traficantes, aliás, todos temos direito a um bom advogado, não era isto?
Basta? No 'drops' seguinte fala-se que o tribunal de contas da união "lançou o aplicativo móvel [... com o qual] o cidadão poderá [...] contribuir [...] com a fiscalização dos recursos públicos [...]."
Como disse Louis Armstrong, "then I said to myself 'what a wonderful world'".

DdAB

sábado, 18 de junho de 2016

Política e Educação: há um link no meio do caminho


Querido diário:

Estou revigorando meu poder de crítica ao projeto de esquerda que vimos naufragar. Digo 'vimos', pois -de minha parte- nada fiz para salvá-lo, além de escrever, escrever, escrever. Cheguei a participar, há priscas eras, de um "grupo de economistas do PT" em Porto Alegre - para petistas e ampliações (meu caso). Mas daquele grupo, poucos foram os guindados a ter opiniões ouvidas, sendo o próprio grupo dissolvido.

Hoje acho que o que um governo de esquerda deve fazer no Brasil é parar tudo e começar a gastar em educação: uma cruzada nacional contra a ignorância, como aquelas em casos de catástrofes nacionais. É uma catástrofe, na realidade, termos uma população tão rala em capital humano. E precisamos elevar suas qualificações se é que desejamos decência.

DdAB
P.S. Tenho começado a substituir a ideia de que a panaceia brasileira é a educação por algo mais realístico e básico, o saneamento básico. Como é que poderíamos ter escolas, como temos milhões de moradias, sem esgoto?
P.S.S. Fontes de quem não desconfio juraram-me ter visto dando entrada no Governo Temer um abaixo assinado dos mosquitos aedes Egypti contra a transformação dos "aterros sanitários" em geradores de energia elétrica. Ou seja, pela manutenção das prioridades orçamentárias para fins alheios tanto à educação quanto ao saneamento básico.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Indústria, Linkages e Equilíbrio


Querido diário:

Sempre me pareceu curioso que um subconjunto de economistas heterodoxos:

.a. preza em excesso o conceito de linkages originário da matriz de insumo-produto

.b. despreza o conceito de equilíbrio.

Acho que a explicação é que eles não estudaram profundamente o conceito de multiplicado keynesiano (ensinado no primeiro curso de introdução à economia a que foram submetidos). Lembra do modelo?

.a. definimos uma função consumo C = f(Y), ou seja, temos uma equação de comportamento dizendo que o consumo é uma função da renda

.b. definimos a função "demada de bens" (entre aspas, pois ela não é desenhada no plano (renda, preços), mas no plano (DB demanda de bens, OB oferta de bens); para ser demanda de bens, ela teria que ter a demanda final no eixo horizontal e o preço da demanda final no eixo vertical, claro) DB = C + I. (neste modelinho elementar, a demanda de bens é composta por demanda de consumo e demanda de investimento).

.c. definimos a condição de equilíbrio do modelo: YB = DB, a demanda de bens é igual à oferta de bens

.d. e se não aceitarmos que o mercado está em equilíbrio em alguma combinação entre OB e DB e um certo nível de preços omitido neste modelinho simples que estou começando a complicar? O modelo é rico o suficiente para permitir, por exemplo, calcularmos alguma coisa supondo, por exemplo, que a demanda é 10% maior que a oferta, ou seja, aquele YB = DB mudaria para 1,1 x YB = DB. Mas tem gente que acha que mesmo esta concessãozinha para o desequilíbrio não é válida. Esqueçamo-los.

.e. expressando a função consumo em um modelo empírico, temos, por exemplo,

C = a + b x Y, ou seja, o consumo é uma função linear da renda (e imaginamos que a e b são maiores que zero(mas a até pode ser menor que zero ou igual a zero),

.f. então a função demanda final é DB = C + I = a + b x Y + I

.g. chegamos àquela condição de equilíbrio que era YB = DB torna-se

Y = a + I + b x Y

e nada perdemos em generalidade ao trocar YB ou DB por Y, pois queremos é este Y que iguale YB e DB.

.h. reunindo os termos em Y e isolando, temos

Y - b x Y = a + I

e

(1 - b) x Y = a + I

e finalmente

Y = (a + I)/(1 - b).

Ou seja, determinamos um valor de Y que depende dos valores dos parâmetros a e b e também do nível de investimento I.

E agora é que vem o mal-entendido de muita gente. Tem gente que pensa que, quanto maior o valor de b, melhor para a economia, pois maior será o valor de Y. Puro erro, pois o que a equação está dizendo é que, para retornar ao equilíbrio, a economia precisa gerar renda (oferta de bens) para atender à nova elevação da demanda (de bens) compatível com este novo b. Ou seja, uma economia com um b muito elevado será muito mais instável que uma de b menor. Mas aí tem a viajação do paradoxo da parcimônia, que -se a população é meio excessivamente frugal- o estímulo na renda provocado pelo aumento da demanda é reduzido.

Pois bem, depois de tudo isto, que temos a ver com o modelo de insumo-produto? Precisamente a mesma coisa. Só que, ao invés de um multiplicadorzão para toda a economia, temos um multiplicadorzinho para cada setor da economia.

Então, no modelo de insumo-produto, fizemos a mesma viagem de variar a demanda final, a fim de determinar os linkages dos setores, ou seja, imaginamos que a demanda de cada setor varia de uma unidade e calculamos em quanto aumenta a oferta (no caso do modelo, vemos diretamente não o valor adicionado, mas o valor da produção).

E também tem aquela viajação de primeiro semestre da faculdade de economia sobre a "multiplicação dos depósitos bancários", a mesma, mesmíssima coisa. Só que, se o banco oferece mais crédito, se não houver demanda, não haverá multiplicador nenhum atuando no mundo real.

DdAB
Imagem daqui. Fui informado (e ainda não testei) que esta garrafa não precisa de armário: fica parada no ar em qualquer lugar da casa que a gente deseje, inclusive flutua dentro da frigidaire.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Romeu e Julieta in Brazil (Temer versus Érico)


Querido diário:

Dupla surpresa:

Primeira
"Marcela, esta passagem está no 'Romeo and Juliet' ou fora?"
"Fora, Temer."
Segunda
A passagem citada pelo mau cidadão foi retirada da página 61 da edição Globo de "O Senhor Embaixador", de Érico Veríssimo (a primeira edição é de 1965) e mostra que, enquanto confiarmos o destino do país, especialmente o dos pobres do país, a este tipo de gente, nosso destino é sermos assaltados ou virarmos assaltantes. É Temer? É Cunha? É Bolsonaro?
"Você mandou retirar os crucifixos de todas as escolas públicas, aboliu delas o hábito da oração matinal, e eliminou o ensino de religião de seu currículo. Transformou também uma universidade secular num ninho de livres-pensadores, de comunistas e pragmatistas. Nâo só permitiu como também encorajou e quase tornou obrigatório o ensino da teoria evolucionista nas escolas secundárias e até nas primárias."

DdAB
P.S. Imagem daqui. Original do Facebook.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Carta Aberta ao Senador Cristovam Buarque:


Querido diário:
[pelo que entendi estamos na moda das cartas abertas e eu tentei comunicar-me pela página do senado e falhou. então decidi fazer esta mensagem pública]

[Querido senador]:

Acompanho seu trabalho desde os anos 1980. E hoje faço-lhe um apelo para votar pela absolvição da presidenta Dilma no processo de impeachment. Lembro que seu voto anterior não era para mais que permitir que a investigação avançasse. A questão não é se "impeachment é golpe", mas se "Dilma praticou crime". Estou certo de que a resposta é "não".

Minha argumentação está aqui, se o sr. quiser dar-me a honra de olhar aqui.

DdAB
P.S. compartilhado com o Facebook. 32

sábado, 11 de junho de 2016

Esquerda, Esquerda, Como Ser Assim?


Querido diário:

Estou revigorando meu poder de crítica ao projeto de esquerda que vimos naufragar. Digo 'vimos', pois -de minha parte- nada fiz para salvá-lo, além de escrever, escrever, escrever. Cheguei a participar, há priscas eras, de um "grupo de economistas do PT" em Porto Alegre - para petistas e ampliações (meu caso).

Mas daquele grupo, poucos foram os guindados a ter opiniões ouvidas, sendo o próprio grupo dissolvido. Não nego -sem inveja- que alguns colegas foram convocados para posições tanto no ciclo do PT no governo municipal quanto nos correspondentes estadual e federal, tudo muito merecido. Mas o que não foi merecido liga-se ao destino dos ideais igualitaristas, em boa medida deixados de lado por se pensar que o programa Bolsa Família era o máximo aceito pela sociedade.

Hoje acho que o que um governo de esquerda deve fazer no Brasil é parar tudo e começar a gastar em educação: uma cruzada nacional contra a ignorância, como aquelas em casos de catástrofes nacionais. É uma catástrofe, na realidade, termos uma população tão rala em capital humano. E precisamos elevar suas qualificações se é que desejamos decência.

E, sem o mesmo romantismo, gastar em saneamento básico, uma carência tão vergonhosa deste país e agora tão visível com a proliferação das doenças do lixo transmitidas pelo mosquito que viceja nos dejetos.

DdAB

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Formação do Preço: pode teorizar?


Querido diário:

Claro que pode. Tá cheio de teorias sobre tudo. Nossa percepção da realidade, ainda que sejamos realistas, é "nossa", ou seja, não haverá percepção da realidade se não houvermos nós. Isto não impede que a realidade siga altaneira sem nós, heheheh.

Em compensação, vou falar sobre três teorias da formação do preço. É mais que simplesmente querer dizer que eu entendo a realidade. Estou dizendo que estou buscando explicações para os fenômenos que observo em meu dia-a-dia, tem preço para o quiabo, tem preço para a aguardente, tem preço para a bíblia, e assim por diante.

Obviamente, estamos falando de dois mundos: o mundo em que podemos entender a formação do preço na indústria (conjunto de atividades homogêneas ou sob o ponto de vista dos compradores como sob o ponto de vista dos vendedores) e que difere da formação do preço da empresa. Parece óbvio que a formação do preço na indústria resulta da interação entre as curvas de oferta e procura. E o segundo mundo: o processo decisório da empresa em que ela decide-se ou por seguir o preço que vê no mercado ou rebelar-se contra ele e formar seu próprio preço, se puder, claro.

Primeira teoria
É simples:
q = f(p), q - a quantidade- é uma função de p - preço, com p e q variando inversamente
ou, com a mesma postulada variação inversa,
p = g(q)
Claro que f e g são funções inversas.
Se q = 3 - 2 x p, então p = 1,5 - 0,5 x q.

Nestes casos, temos a mesma equação expressa de duas formas, sendo elas constituídas por duas variáveis. Assim, de sorte a determinarmos p precisamos conhecer q. Falta, no nível do mercado, uma equação. Os modelos tradicionais buscam mais informação como a função de custos ou apenas maximizam as vendas, ou maximizam o lucro, dando menos destaque à curva de oferta de mercado.

Segunda teoria
Agora falamos da teoria do mark-up (também chamada de "custo mais margem":
p = (1 + M) x CVMd,
onde, além de p designando o preço, M é a margem adicionada ao custo variável médio CMVd. Agora temos uma equação com três variáveis (p, M e CVMd), logo, para determinarmos p, precisamos conhecer os valores de M e de CVMd. E de onde vem CVMd? Da contabilidade da empresa. E de onde surge o valor de M? Da "tradição da indústria", como dizem os livros e o afamado artigo de Hall & Hitch. (HALL R. L.,HITCH, C. J. A teoria dos preços e o comportamento empresarial. Clássicos da literatura econômica. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1988.)

Terceira teoria
Eu demorei a entender, mas quando o fiz (lendo principalmente o artigo de Franco Modigliani - MODIGLIANI, F. (1958). New Developments on the Oligopoly Front. Journal of Political Economy.V. 66 Jun.) tinha lido os dois criadores independentes BAIN, J. (1956). Barriers to New Competition. Harvard Univsersity: Cambridge, USA e SYLOS-LABINI, P. (1984). Oligopólio e Progresso Técnico. Forense : Rio de Janeiro.

O assunto começa quando montamos uma figura que permite assinalarmos o preço que vigoraria num mercado de concorrência pura, contrastando-o com o que vigoraria no mercado controlado por um monopolista. 

Temos ali as curvas de receita média RMd e receita marginal RMg e uma curva de custo médio de longo prazo refletindo rendimentos decrescentes à escala (que a viagem toda ocorre no longo prazo, não é isto?), com sua correspondente curva de custo marginal. Aquela partezinha que diz que ambos são iguais é apenas o trecho horizontal, não é mesmo?

Pois então. pM é o preço que o monopolista maximizador de lucros (ou seja, produzindo no ponto em que RMg = CMg) escolhe. pC é o preço que vigoraria em concorrência (onde RMd = CMd e também RMg = CMg). Entre estes dois extremos deve localizar-se o pO, ou seja, o preço que o oligopolista cobraria/cobrará.

A equação do modelo é simples, embora ligeiramente assustadora:
onde po é o preço que vigora para a empresa que participa de um oligopólio, pc é o preço que ela enfrentaria caso estivesse em um mercado de concorrência pura, x é a empresa da menor escala eficiente possível, E é a elasticidade preço da procura pelo produto vendido pela empresa e qc é o nível de produção compatível com a oferta de uma empresa em um mercado de concorrência pura.

Faltou algo? Claro que sim. Ainda ficamos com a formação do preço nas firmas que vendem mais de um produto. E também firmas que, mesmo vendendo um produto único, discriminam preços entre consumidores ou entre áreas geográficas.

DdAB
P.S. Parece que estou aprendendo a diferença entre iteração e interação. Lá em cima, com interação, queria dizer mesmo "ação recíproca": um excesso de oferta faz o preço cair, e se cair muito gera um excesso de demanda que o faz subir, que se subir muito levará a novo excesso de oferta que o fará cair. Até sabe-se lá onde, mas muitas vezes levando ao equilíbrio.
ITERAÇÃO
 1. Ato de iterar; repetição.
 2. Álg.  Inform. Processo de resolução (de uma equação, de um problema) mediante uma seqüência finita de operações em que o objeto de cada uma é o resultado da que a precede.
INTERAÇÃO
 1. Ação que se exerce mutuamente entre duas ou mais coisas, ou duas ou mais pessoas; ação recíproca: &  &  
 2. Fís.  Ação mútua entre duas partículas ou dois corpos.
 3. Fís.  Força que duas partículas exercem uma sobre a outra, quando estão suficientemente próximas.

P.S.S. No outro dia que falei em morte, pena de morte, coloquei aquela espantosa pintura de Goya. Hoje, ao falar em preço, achei que não haveria nada mais natural do que mostrar uma foto de Gauguin, por suas vinculações com o sistema financeiro.

P.S.S.S. As imagens (exceto o pintor) vêm do inesgotável livro:


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Novas Diferenças: Um e A


Querido diário:

Quem leu os livros elementares de teoria da escolha pública bem sabe a diferença entre produção e provisão de bens e serviços pelo setor público. Aliás, depois de ler esta frase, todo mundo terá buscado de seu baú de intuições a diferença e terá visto que há uma obviedade: para prover não precisa produzir. Ou seja, quando compro o almoço da família, o produtor é o vendedor e eu sou o provedor.

Ok. Neste caso, os libertários querem estado mínimo, sempre sendo requisitados a dizer como será a tributação para financiar este minúsculo estado mínimo, que deverá incidir em gastos, a fim de prover seus parcos, mas vitais, serviços.

Ok, ok. Os militantes da Esquerda Um querem a provisão e a produção.

Ok, ok, ok. O elemento mais elevado da evolução planetária, os amantes da Esquerda A, queremos a provisão e não mais que isto. Por exemplo, no Brasil, é preciso que se crie xilindró para todos, com urgência. Todos os meliantes, bem entendido. A Esquerda A não vê nenhuma razão que impeça associações comunitárias ou de mercado de fazerem a produção destes serviços (de detenção de réprobos) que serão providos pelo governo. E, considerando que os ínclitos produtores (comunitários ou mercantis) podem ser agatunados, faz parte das atribuições indelegáveis do setor público supervisioná-los: cabe ao setor público a geração de informação e a fiscalização. Inclusive de si próprio, que ele também está cheio de agatunados.

DdAB
Ceiazinha para frugívoros daqui.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

As Aposentadorias e o Uso Ideológico da Aritmética

Razão entre a População em Idade Ativa e a de 65 Anos de Idade ou Mais.

Querido diário:

Uns tempos atrás (aqui), fiz simulações sobre o futuro da população brasileira, ou melhor, dos velhos. Um país sem velhos não pode existir, pela simples razão de que os incentivos a que os jovens se tornem velhos são incontornáveis. Simetricamente, caso os jovens sejam ameaçados de desaparecimento físico ao chegarem à velhice, dificilmente devotar-se-ão a uma vida de trabalho e estudo: cai tudo na cachaça tão cedo quanto possível.

Segue-se logicamente que eu estava olhando o blog de Leonardo Monastério (aqui) e -olha daqui, olha dali- cheguei neste blog aqui, assinado por Mansueto Almeida. É que Mansueto assumiu um cargo no ministério da fazenda antes daqueles aumentos generalizados para os funcionários públicos e a criação dos 14 mil novos cargos. Ainda estou sem saber se Mansueto pediu demissão do novo emprego. Tudo isto é superinteressante, pois leva-me a pensar precisamente no oposto da lição ("moraleja", diriam os hermanos) intentada pelo autor lá do blog: o país tava falido, mas agora está ainda mais...

abcz
17 DE MAIO DE 2016 POR MANSUETO
A aritmética previdenciária: é difícil entender?

Dois gráficos mostram porque nós brasileiros precisamos nos preocupar com a previdência. Precisamos debater a questão de forma séria e desapaixonada. Uma das piores coisas que pode acontecer a um país é “demonizar” o debate, ou seja, as pessoas se recusarem a debater determinados temas.

As pessoas têm o direito de pensar diferente, propor soluções diferentes, etc. Mas vamos debater a questão previdenciária porque o processo de envelhecimento da população brasileira será muito rápido e, hoje, o Brasil já gasta com previdência (inclusive LOAS/BPC) mais de 12% do seu PIB.


Pensei: "Aritmética? Isto é comigo." Se hoje gasta-se 12% do PIB (ou seja, 12/100), se o PIB dobrar e a previdência estacionar (isto é, 12/200), esses 12% caem para 6%, não é mesmo? Lancei-me com maior arrojo a estas simulações científicas. Então, se aqueles 12 passarem a, digamos, 30, mas o PIB subir para 300, mesmo assim, não alcançamos aqueles temidos 12%. 

Olimpicamente, dei-me conta de que o problema da previdência é apenas manifestação do ódio dos privatistas contra os estatistas, um troço destes. E tem mais.

O gráfico pictórico lá de cima informa que hoje são necessários oito trabalhadores para sustentar um velho. E que, em 2040, quatro trabalhadores sustentarão um velho. Em outras palavras:

em 2015, oito trabalhadores sustentavam um aposentado
em 2040, quatro trabalhadores é que o sustentarão.

Também podemos pensar que aqueles mesmíssimos oito trabalhadores precisarão agora sustentar dois aposentados e não mais um.

Digamos que o PIB de 2015 seja de D$ 8, o que, considerando oito trabalhadores, evidencia uma produtividade do trabalho de D$ 1/trabalhador. E um PIB per capita de 8/12

Agora, se nesses 25 anos, a produtividade do trabalho dobrar, então teremos os mesmos D$ 8 de PIB sendo gerados por apenas quatro trabalhadores. E aqueles outros quatro trabalhadores gerarão mais D$ 8. Isto significa que o PIB será de D$ 16, para ser repartido entre 10 pessoas (oito trabalhadores mais dois aposentados).

Olha o quadro: em 2015 o PIB era D$ 8, com emprego de oito trabalhadores, produtividade do trabalho de D$ 1/trabalhador e renda per capita de D$ 0,89. Se a produtividade do trabalho crescer menos de 3% a.a. nesses 25 anos, os oito trabalhadores agora produzem D$ 16, a produtividade dobra e a renda per capita passa a D$ 1,6. This is arithmetics. This is entertainment.

Moral da história: ou dá um jeito de fazer a turma viver menos ou dá um jeito de fazer os capitalistas dobrarem a produtividade do trabalho em um quarto de século (não esquecendo que, na China, ela dobra em oito ou nove anos).

Mas tem mais moral para a história: essa macacada que considera que é o trabalhador que paga as aposentadorias acredita, de maneira ingênua, na teoria do valor trabalho. A maneira sofisticada de entender quem gera valor adicionado (ou seja, não estamos falando de "valor", mas de "valor adicionado") é apelar para a equação quantitativa da moeda
MV = PQ
e entender que quem gera o valor adicionado é basicamente a oferta monetária MV. Se emite muito, tem inflação, se emite pouco tem deflação. Se emite nos trinques, tem crescimento de Q com estabilidade de P.

DdAB
P.S. Tá aqui o segundo gráfico de que fala Mansueto:

P.S.S. Aqui não explorei o fato de que o custo de oportunidade do emprego de um velho é o emprego (talvez apenas uma fração própria) de um jovem. Troquei algumas ideias com amiga/o/s no Facebook e coloco aqui apenas um comentário meu: E tenho um complemento, um comentário que fiz no site de Marcelo De Oliveira Passos, tendo a ver com a contribuição de Eliane Sant'Ana (aqui editadinho):Quem está interessado no tema, especialmente a questão do velho deslocando empregos dos jovens, recomendo dar uma olhada no livro de microeconomia de Samuel Bowles (velhinho, mas que troca por dois mais jovens... e que tem em inglês, italiano e espanhol, estas duas últimas disponíveis na internet) a literatura sobre "Why firms don't sell jobs". No caso, imagino que um belo mercado ausente é o que permitiria ao jovem comprar o emprego do velho. Ou uma renda básica -como a que acaba de ser aprovada por apenas 1/4 dos suíços- para todos.

P.S.S.S.: coloco agora (0h48min de 11/jun/2016 todos os comentários) do Facebook:
Comentários
Ricardo Holz Infelizmente, nao tenho mais esperanca no INSS :'(
Ricardo Holz Nao para a minha hora da aposentadoria pelo menos
Duilio De Avila Berni Sabes, Ricardo, que sou defensor da renda básica universal. E, com ela, também se resolve boa parte do problema das aposentadorias. Neste caso, o mínimo com que poderias contar se Eduardo Suplicy fosse o presidente, seria esse valor. Serias ainda convidado a fazer algum segurinho, algum plano de previdência completamente dissociado da perspectiva de se deixarem os velhinhos morrerem de fome
Dejalme Andreoli Meu colega. Tudo isto é para sobrar dinheiro para aumentar os ganhos dos especuladores financeiros. Isto faz com que ós , economistas deveriamos ,atualizar os conteudos da teoria econômica que é ensinada em nossas faculdades.
Duilio De Avila Berni E o que me deixa doido, Dejalme, é que tem gente que fugiu daquela aula de divulgadores kantianos que diferencia proposições positivas das normativas. Parece óbvio que o carinha que citei no blog, ao dizer 
"Uma das piores coisas que pode acontecer a umpaís é 'demonizar' o debate [sobre o déficit da previdência], ou seja, as pessoas se recusarem a debater determinados temas." Eu acho que essa turma privatista não consegue entender que o velho esquema de financiar gastos previdenciários com "poupança" fracassou sem remissão há muitos anos. [Editei daqui para baixo:] Temos a elevação da idade média da população como virtude da modernidade:
.a. viver mais é bom, é utilitarista, mas é bom,
.b. o mundo moderno cria uma solução automática para a elevação da longevidade: a estrondosa diferença de produtividade entre a geração atual e a futura.
Duilio De Avila Berni E tenho um complemento, um comentário que fiz no site de Marcelo De Oliveira Passos, tendo a ver com a contribuição de Eliane Sant'Ana (aqui editadinho):
Quem está interessado no tema, especialmente a questão do velho deslocando empregos dos jovens, recomendo dar uma olhada no livro de microeconomia de Samuel Bowles (velhinho, mas que troca por dois mais jovens... e que tem em inglês, italiano e espanhol, estas duas últimas disponíveis na internet) a literatura sobre "Why firms don't sell jobs". No caso, imagino que um belo mercado ausente é o que permitiria ao jovem comprar o emprego do velho. Ou uma renda básica -como a que acaba de ser aprovada por apenas 1/4 dos suíços- para todos.
http://press.princeton.edu/titles/7610.html


Bowles, S.: Microeconomics: Behavior, Institutions, and Evolution. (eBook and…
Luiz Gustavo Ferreira Ramos Simplesmente perfeito... Acho que vou te procurar para apreender um pouco mais sobre isso... Importante visão para combater aqueles que pregam que a previdência está quebrada ou vai quebrar...
Ricardo Holz Acho q meus 3 anos de experiencia em previdencia privada nao valeram de nada mesmo...
Duilio De Avila Berni Gustavo e Ricardo: somos obrigados a refletir sobre isto. A maior longevidade do brasileiro deve ser saudada com alegria. E também devemos louvar a possibilidade de termos uma economia dinâmica cujos ganhos de produtividade permitam que a geração presente (lá do futuro) produza para si e para seus ascendentes (como tem orgulho de produzir para os descendentes).
Resumo: a morte dos velhinhos não deve ser vista como solução para o problema previdenciário, pois o aumento da produtividade garante maior nível de vida para todos.
Duilio De Avila Berni Quando os arautos do conservadorismo reclamam que o aumento da longevidade da turma criará problemas na previdência, eu fico pensando o que os impede de pensar em resolver os problemas:
.a. da educação, este sim respondendo pela possibilidade de elevar a produtividade ao longo das gerações e
.b. criar mecanismos distributivos da demanda final da economia, de sorte a garantir taxas de investimento que viabilizem os aumentos na produtividade.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Confusões Semânticas de Baixo Teor Econômico


Querido diário:

Lá se vão algumas poucas semanas que coloquei na minha lista de leituras matinais o "Jornal do Comércio" de Porto Alegre. E hoje na página 3, que tem a coluna "Começo de Conversa", assinada por Fernando Albrecht, vemos um exemplo de problemas conceituas, talvez não...

Diz o colunista:
DESACELERAÇÃO na queda do PIB trimestral se deveu -também- ao aumento nos gastos do governo.

Fiz um quadrinho que tem na primeira parte definições e na segunda, um exemplo numérico.

A. conceitos: o PIB é uma das três óticas de cálculo do valor adicionado ("colheita menos sementes"), sendo as demais designadas como da renda e da despesa. Ou seja, aumentos ou reduções no gasto do governo afetam, claro, o valor adicionado, mas apenas quando o mensuramos obedecendo a ótica da despesa. E não há dúvida de que, ao fazê-lo, as duas demais óticas de cálculo reagem cada uma lá à sua maneira.

B. No exemplo, nem falamos no PIB ou na renda, mas temos como dado que no ano zero havia 100 unidades de valor adicionado. Estas reduziram-se em 5% entre o ano zero e o ano primeiro. Não sabemos e não interessa para a avaliação da sentença em courier qual era a composição da despesa no ano zero. Mas no ano primeiro bem sabemos. Em particular, o gasto do governo em meu exemplo elevou-se, mas não podemos dizer que foi isto que provocou a queda de mais 2% com relação àqueles 5% do ano primeiro.

DdAB

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Estupro, Aborto e Pena de Morte


Querido diário:

Alguns anos atrás, meus leitores ouviam-me (?)  falar (?) em Samuel Bowles e seu livro de microeconomia, que me parece uma das mais lavradas joias do escrínio econômico (!). Em compensação, ainda mais atrás, eu produzi tessituras e urdiduras ainda mais estonteantes relativamente a Umberto Eco e as três ou quatro obras de sua autoria que li. Destaco:

ECO, Umberto (1984) Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Tê-lo-ei lido (eu, hein?) na primavera de 1985 ou -who knows?- no verão de 1986. O fato é que o coroa virou-me a cabeça. Nem sei bem o que eu queria, ao lê-lo, talvez virar antropólogo, semiólogo, sei-lá-lôgo... De onde veio ele? Minha colega Maria Lucrécia Callandro cedeu-mo (!) e tanto anotei nele que implorei a ela por reciclagem, transformando o empréstimo em doação, com o quê ela acedeu. Doce professora. Para dizer o mínimo do livro, foi ali que se deu meu contato inicial com o tema dos hologramas, da holografia, coisa que até hoje me extasia.

Pois então. Também já falei declarar-me incapaz de ler todos os livros do mundo, mas ainda não tendo perdido as esperanças de reler todos os que já li. No caso, volta e meia, mexo daqui e dali em minha biblioteca. Pois então é que, ao mexer para cima e para baixo nesta " Irrealidade", caí agora no capítulo "Diálogo sobre a pena capital", das páginas 156 a 161.

O diálogo é uma ficção, dupla, múltipla, ficção entre Umberto Eco e Renzo Tramaglino. Na primeira vez que aparece este nome, o bondoso tradutor colocou um rodapé:

Renzo Tramaglino, protagonista da obra-prima de Alessandro Manzoni, Os Noivos, cuja ação se passa no século XVII. Lucia, filha de Agnese, é sua noiva, cobiçada por D. Rodrigo, poderoso do lugar, e raptada pelo Griso, seu assecla. Dr. Desmancha-rolos é o rábula a quem Renzo recorre para resolver uma questão de direito.

Ou seja, estamos inferindo rapto, estupro e ódio. Tudo exalando o pútrido hálito da morte. Iria eu fazer um resumo. Decidi a transcrição literal

DIÁLOGO SOBRE A PENA CAPITAL

ECO: Vejo que anda preocupado, Renzo Tramaglino. O que atormenta a sua existência já tão tranquila agora, na paz da lei e da ordem? Quem sabe Lucia, tocada pelos novos anseios ditos "feministas", lhe nega os prazeres do tálamo, assumindo o próprio direito à não-procriação? Ou Agnese aplicando beijos demasiado intensos na bochecha dos seus filhos escava-lhes impropriamente o inconsciente, tornando-os indolentes e mother oriented? Ou será o Desmancha-rolos que, falando de convergências paralelas prejudica a sua capacidade de intervir na coisa pública? Ou D. Rodrigo, que, impondo a taxa máxima sobre a renda, obriga-o a pagar impostos superiores àqueles do Inominado, o qual transfere dinheiro para as terras de Bérgamo?

RENZO: 
O que me deixa preocupado, cortês visitante, é o Griso. Este organizou agora bandos de malfeitores iguais a ele, e, com a proteção de desonestos atravessadores, continua raptando donzelas só para arrancar com isso polpudos resgates e, ao obtê-los, mata-as barbaramente. E, onde os honestos juntam suas fortunas, ele intervém, com o rosto coberto por uma meia, r rouba, e saqueia, e faz novos reféns, atemorizando as cidades, hoje teatro de crimes desvairados, enquanto os cidadãos ficam tremendo e os esbirros, imponentes, não conseguem frear esse aumento de delitos, e os bens, os honestos se perguntam aflitos onde iremos parar.

E eu, que sou até jovial e pacato, eu, que comungava com as teses de um grande destas terras, o Beccaria, o qual demonstrara de uma vez por todas que o Estado não poderia ensinar a não matar através do homicídio legal, eu estou aflito. E me pergunto se não se deve restaurar a pena de morte pra tais crimes odiosos, para proteger o cidadão indefeso e para advertir os que quisessem lhe fazer mal.

ECO:
Entendo você, Renzo. É humano que diante de atrozes vicissitudes que roubam jovenzinhas aos amados genitores pareça natural o pensamento da vingança e da defesa a todo custo. Eu também sou pai e, frequentemente, pergunto a mim mesmo o que faria se, morto meu filho por raptores desconhecidos, viesse a por as mãos no culpado antes da polícia.

RENZO:
E o que faria, então?

ECO:
Logo de saída, iria querer matá-lo. Mas frearia o meu impulso, achando muito mais tranquilizantes para minha dor exasperada uma longa tortura. Eu o levaria a um lugar seguro e começaria a trabalhar seus testículos. Depois as unhas, enfiando varetas de bambu, como dizem que faziam povos orientais cruéis. Depois arrancaria suas orelhas e supliciaria sua cabeça com fios elétricos desencapados. E, após esse banho de horror e de sangue, teria a impressão de que a minha dor, se não aplacada, estaria saciada em sua ferocidade. E me abandonaria ao meu destino, sabendo que nunca mais minha mente poderia readquirir a paz e o equilíbrio de antes.

RENZO:
Está vendo, então...

ECO:
Sim, mas logo me entregaria aos guardas, para que me algemassem e me dessem punição exemplar. Porque eu teria mesmo assim cometido um crime ao tirar a vida de um homem, coisa que não se deve fazer. Seria justificação minha o fato de que entre a dor de um pai enlutado e a insânia há pouca diferença e entraria com um pedido de indulgência parcial. Mas nunca poderia pedir que o Estado me substituísse, mesmo porque o Estado não tem paixões pra satisfazer, mas deve apenas reiterar o fato de que tirar uma vida é, em  qualquer caso, um mal. E, portanto, o Estado não poderia tirar uma vida para ensinar que é errado tirar a vida.

RENZO:
Conheço esses argumentos. O retorno da pena de morte é pedido por indivíduos suspeitos que exigem a ordem como terror pra poderem reinstaurar o período da prepotência. Mas, dias atrás, li num dos mais importantes jornais da região um longo e pacato artigo de um severo filósofo que, após avaliar as questões em causa, pergunta de si para si, com sutis preterições, se não é lícito, diante de crimes tão graves, restaurar com a autoridade do Estado o direito à aplicação de penas supremas, para a tranquilidade e proteção do cidadão. De fato, a pena de morte tem pelo menos um valor de intimidação, pois incute medo em outros delinquentes enquanto os cárceres de hoje, locais de amenas reeducação e fáceis evasões, já não conseguem deter a mão homicida de ninguém.

ECO:
Esses raciocínios chegaram aos meus ouvidos. E têm o jeito de persuadir todo mundo. Mas você talvez não conheça um outro filósofo que muito ensinou a todos nós e também aos filósofos que clamam pela volta da pena capital. Foi um certo Kant, que lembrou que os homens devem sempre ser usados como fins e não como meios...

RENZO:
Sublime prescrição.

ECO: 
Então, se eu mato Fulano para dar um aviso a Sicrano, não estou por acaso usando Fulano como meio para avisar Sicrano, para defender todos os demais das possíveis vontades de Sicrano? E se é lícito que eu use Fulano como missiva para Sicrano, por que não seria lícito usar Samuel para produzir sabão para Adolf?

RENZO:
Mas há uma diferença. Fulano cometeu um crime e é justo que seja punido com pena igual, não por vingança, mas por justiça equitativa. Samuel é inocente. Fulano não.

ECO: 
Mas então você não pensa mais que fulano deva ser morto para atemorizar Sicrano, mas simplesmente que Fulano deve sofrer na proporção do sofrimento causado.

RENZO:
As duas coisas ao mesmo tempo. Estou autorizado a usar Fulano como meio pra que, tornado indigno de ser considerado um fim em si mesmo, a sua morte sirva para evitar outras e todos saibam que se sofre aquilo que se faz sofrer.O Estado é a garantia dos cidadãos através da severa balança das leis. E se para garantir a segurança parece útil a abstrata, rigorosa e sublime pena de talião, seja bem-vinda, porque contém germes de antiga sabedoria. O talião do Estado não é vingança, é geometria.

ECO: 
Não desprezo a sabedoria antiga.Agora diga-me, ó Renzo: uma vez que você tem essa visão severa e super-humana da lei, e admite que a morte aplicada pelo Estado não é assassínio, mas distribuição equitativa, se o Estado o escolhesse, por sorteio ou rodízio, para aplicar a morte em quem matou, aceitaria?

RENZO:
Não posso dizer que não. E minha alma estaria tranquila. Quem quer que sustente a pena capital deve declarar-se pronto a aplicá-la, se pedido pela comunidade.

ECO:
Agora diga-me, não há outros delitos tão odiosos e terríveis quanto o homicídio? O que diria de quem, em vez de matar o seu menino, praticasse nele, com violência desumana, atos de sodomia, transformando-o para sempre num desequilibrado mental?

RENZO:
Seria um crime igual, se não pior.

ECO:
E se o princípio de talião do Estado fosse válido, não se deveria, com os abalizamentos da lei, praticar nele, e violentamente, sodomia?

RENZO:
Agora que me levou a pensar nisso, claro que sim.

ECO:
E se o Estado lhe pedisse, por rodízio ou sorteio, que aplicasse nele a violência sodomítica, assumiria tal empresa?

RENZO: 
Ah, não! Não sou um maníaco sexual!

ECO:
Por quê? Por acaso você é um maníaco homicida?

RENZO:
Não me confunda. Digo que esse segundo gesto me causaria mal-estar e repugnância.

ECO:
E por quê? Por acaso o primeiro lhe daria prazer e sádica alegria?

RENZO:
Não me faça dizer o que eu não disse. É que matando não prejudico a mim mesmo, ao passo que, praticando um ato que me repugna, só sentiria enfado e dor. O Estado não pode pretender que, para punir um malfeitor, eu tenha que sofrer.

ECO:
Ou seja, está dizendo que não quer ser usado como meio.

RENZO:
É claro que não!

ECO:
No entanto usaria um homem vivo, ministrando-lhe a morte, como meio de intimidar outros homens.

RENZO:
Sim, mas ele, por ter cometido o mal, é menos homem que os outros... Ou não?

ECO:
Não. E inquieta-me o fato de que os que estão dispostos a considerar esse sujeito menos homem, ao contrário, lutem contra as práticas abortivas, dizendo que um homem é sempre um homem mesmo quando não passa da proposta de um feto. Não estão eles em contradição?

RENZO:
Você me confunde as ideias. E a legítima defesa?

ECO:
Ela vê frente a frente dois homens, um dos quais tenta reduzir o outro a um meio e o segundo deve evitar o abuso. Se possível, sem matar o outro, mas, se necessário, impedindo o outro de praticar o mal. E, nesse caso, entre o direito do inocente e o direito do culpado, o primeiro prevalece.

Mas o Estado que executa o culpado não o impede de cometer o ato e simplesmente, repito, usa-o como puro meio. E, uma vez que se usa um homem como meio, admitindo que há homens menos homens que os outros, cai a própria essência do contrato sobre o qual se rege o Estado. E, com efeito, a questão do aborto não indaga se é lícito matar um homem, mas se um feto é um homem e se, proposta informe no fundo do útero, já está submetido às leis do contrato social ou não é propriedade do ventre materno.

Mas um homicídio, inserido no contrato social, é um homem para todos os efeitos. E, se o considerar menos homem que os demais, amanhã você poderá considerar menos homens os que ousam defender a pena de morte e até propor a morte deles para arrancar os outros de tais insanos propósitos.

RENZO:
Mas que devo fazer então?

ECO:
Pergunte a si mesmo se D. Rodrigo, em seu palacete, não controla a máfia de atravessadores, transferindo dobrões para Bérgamo e encorajando o Griso a arrecadar dinheiro por meio de homicídios.

RENZO:
Mas mesmo que viesse a descobri-lo?

ECO:
Você entenderia que Griso no patíbulo não garante a vida de seus filhos, porque não atemorizaria nem um pouco D. Rodrigo.

RENZO:
E o que o atemorizaria?

ECO:
O tiranicídio. Mas esta é uma outra conversa.

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