segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Deflacionamento, Inflacionamento, Extrapolação e Retropolação


Querido diário:

Tudo começou sei lá onde. Mas talvez possamos fixar, para fins desta postagem, que começou em 1975, quando fui aluno do prof. Aaron Dehter no curso de mestrado do hoje chamado PPGE/UFRGS. Ele ensinava macroeconomia de estabilização (o modelo IS-LM e aqueles estudos tradicionais da demanda agregada, essencialmente, o consumo e o investimento). E, nas primeiras aulas, falou nas contas nacionais (que eu já conhecia por trabalhar na Fundação de Economia e Estatística nesta área de calcular a versão estadual) e no problema provocado em cifras monetárias pela inflação. E falou em extrapolação. Primeiro pensei ser bafo. Depois vi que o termo veio a ser incorporado por todo mundo e nem sei de onde veio. Veio de Aaron, mas como é que chegou a ele? Nem me interessa saber. O que aprendi é que existem simetrias:

Deflacionamento - retropolação: pega um valor do presente e o leva para o passado, retirando o efeito da inflação. O deflacionamento usa um índice de preços e a retropolação usa um índice de quantidades.
Inflacionamento - extrapolação: agora pega um valor passado e o deposita no futuro, retirando o efeito da inflação. Também agora o inflacionamento usa um índice de preços e a extrapolação usa o índice de quantidades.

Claro que há o paralelismo:

deflacionamento - inflacionamento
retropolação - extrapolação.

Em continuação, recebi um e-mail muito maneiro de meu querido amigo Rubem Castro. Ele falava sobre os problemas destas comparações a fim de poder estudar o desempenho de uma região do estado formada pela junção de 34 cidades..

Primeiro, há enorme tradição de pesquisa, mesmo no Rio Grande do Sul, sobre a "análise da conjuntura" e a montagem de indicadores para fazê-la. Um exemplo que olho quando preciso é o boletim da USP (tá aqui a edição de agosto:http://downloads.fipe.org.br/publicacoes/bif/bif-agosto.pdf). Eu mesmo escrevi coisas a respeito da análise da conjuntura em diferentes momentos, também tentando criar o que se chamava na época de "indicadores antecedentes". Eles antecediam ou indicavam os rumos da economia: recessão, depressão, retomada, auge. Naquele livro de mesoeconomia (aqui), parece que refiro alguma bibliografia de minha autoria. Lá também vais encontrar um artigo que de fato é meu mesmo(http://revistas.fee.tche.br/index.php/ensaios/article/view/465/702). Vou voltar a falar nele em seguida.

Segundo, vamos ao problema do deflacionamento. Em algum lugar daqueles escritos, eu disse que "valores reais são imaginários", pois tive as primeiras intuições com esse artigo sobre "a participação de partes em todos". E não nego a importância do deflacionamento para certos casos, quando realmente precisamos saber o "verdadeiro valor real" de algumas coisa. Em boa medida, a retirada da inflação é um correlato da correção da taxa de câmbio, garantindo a paridade do poder de compra.

Mas também não nego que "começou a deflacionar, começou a errar"... Portanto minha primeira sugestão é que façamos as comparações concernentes a nossa análise da conjuntura em valores nominais. Como diz András Brody (figura proeminente da economia do insumo-produto), o que importam são as proporções (eu não sabia isto no tempo daquele artigo da FEE de 1984, mas tinha a intuição). E se não der para evitar o deflacionamento, ou seja, se precisamos dos "valores reais", querendo saber o crescimento "verdadeiro", devemos tirar o efeito da inflação. E aí começam os problemas.

Não existe deflator perfeito, apenas o chamado "índice verdadeiro", que é uma idealização baseada nas teorias do consumidor e da produção. E, à medida que estas evoluem/evoluírem, o diabo do índice também deverá receber mudanças. Refiro-me à criação de funções cada vez mais sofisticadas para descrever a demanda ou a produção. Tal é o caso daquelas funções transcendentais logarítmicas que exibem elasticidade de substituição variável. E, como há algum tempo não abro livros sobre o assunto, até os nomes das funções podem ter recebido ajudas ainda mais assustadoras.

Mas há boas aproximações para o índice verdadeiro, teoricamente dadas pelo índice de Divisia, que é aproximado empiricamente pelo índice de Törnqvist. Mas também pela nossa velha conhecida dupla de Laspeyres e Paasche. E também parece que o índice de Fischer (média geométrica entre Laspeyres e Paasche) funciona muito bem.

Tudo isto deve ter presente que, quanto menor a inflação, melhor é o índice. Mas isto é um absurdo, um certo paradoxo, pois -se a inflação é nula- não preciso mesmo de índice nenhum. 

Então que fazer? A solução do clube dos abonados é construir seu próprio índice de preços e seu parceiro índice de quantidades. E se não formos abonados o suficiente? Minha sugestão é que fazermos o deflacionamento com mais de um índice. Por exemplo, o IGP-DI é o mais usado para estes casos, sem dúvida. Mas acho que se pegarmos outros, por exemplo, o deflator implícito do PIB do RGS (que não é perfeito análogo dos índices de VBP), teremos intuições mais profundas sobre a evolução "real" das variáveis de interesse. E penso que esta será uma forma coadjuvante de qualificar aquela análise que sugeri anteriormente de centrar o máximo interesse nas variáveis nominais.

Por exemplo, digamos que nosso interesse sejam as exportações de calçados (velhos tempos...). Teremos, claro, o valor em dólares, mas não acho que isto tenha maior significado, exceto para sabermos a "evolução em dólares". E ainda assim precisaríamos acautelar-nos quanto à inflação americana (corrigir para a paridade do poder de compra)...

Então: pegas a receita das empresas com vendas para o exterior. Comparas com o PIB nominal da região: o IPEA/IBGE/FEE mostram estimativas para os municípios gaúchos. Há defasagem, claro, mas podemos construir com estas estatísticas secundárias de fácil coleta um "indicador composto" que poderá dar a dicas para a estimativa da evolução do PIB municipal (ou de todos os 34 municípios da região). 

Sei que o trabalho é árduo. Mas sempre o achei divertido. E este tipo de "sinuca" me deu muito ódio do mundo (hehehe), mas também ajudou-me a entender melhor meus próprios limites, os limites da ciência econômica e os limites das estatísticas.

DdAB
A imagem é daqui. Cheguei a ela pedindo "nirvana" ao Google Images, pensando que, pela via oriental, chegaríamos a índices de preços mais próximos à natureza...

domingo, 30 de agosto de 2015

O INSS e Dubuffet (e mais...)


Querido diário:

O INSS: acho vergonhoso, infelizmente, não apenas no Brasil que os especialistas em finanças públicas se queixem que o fato de uma grande turma viver mais que duas ou três gerações atrás causa problemas. Acho sublime sugerir que devemos incentivar a longevidade às custas do dinheirinho do tesouro nacional.

Dubuffet: autor da pintura que nos cerca: La vache au nez subtil.

Mais: Campos de Carvalho: Vaca de Nariz Sutil, 4ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2008. Chamado de 4a. edição, sendo a primeira lá de 1961 (o ano que se lê de ponta-cabeça).

Finalmente, na página 30, lê-se a primeira frase do capítulo 3:

Pago a pensão com a pensão que o Estado me paga pelo meu estado.

Ele mesmo diz que o narrador diz ter enviado esta sentença a uma revista, travestindo-a na forma de poema. Eu pensei na seguinte quadrinha:

Pago a pensão
com a pensão
que me paga o Estado
pelo meu estado.

Uma quadrinha, um domingo.

DdAB
P.S. Ouvi dizer que a sra. Merkel acha que a Europa deve receber os migrantes. Eu pensei em 450 milhões de chinestes e 845 milhões de indianos. Nâo que me avexe ver a Europa ocupada, aterrada de gente empilhada. Mas penso que melhor política seria implantar a renda básica em todos os países pobres do mundo, na tentativa de enriquecer a população pobre. E, com isto:

.a. pobre tem menos filho
.b. pobre que tem renda e supermercado locais não migra.

E pensaram que sou de direita: logo eu que sou tão de esquerda que já passei dos 180 graus negativos (isto é, bem longe do eixo dos cossenos à esquerda!)

sábado, 29 de agosto de 2015

Emprego e Dignidade


Querido diário:

Parece óbvio que Marx sabia bem sabidinho que haveria excedentes de mão-de-obra provocados pela revolução tecnológica da qual ele mesmo foi testemunha. Parece óbvio que não conheço tanto de HPE, a ponto de pensar que esta visão de nosso Karl foi original. Adam Smith? William King? Boisguillebert? Sei lá.

E claro que requer novo parágrafo a referência a Keynes, em seu afamado artigo de -não juro- 1928, na Espanha -não juro, mas quase- em que ele falou em "desemprego tecnológico". Também não sei se Marshall, o velho Pigou ou outros contemporâneos já falavam no assunto. O fato é que a validação definitiva, para mim, desta visão dos excedentes perpétuos no mercado de trabalho veio com a leitura do livro de economia do desenvolvimento de Dejbray Ray. Agora acabou.

Eu, de minha parte, há anos percebi que aquela atividade econômica deixada por conta dos papeleiros porto-alegrenses tem tudo a dever ao prefeito da cidade. Como pôde ele e seus ancestrais permitirem esta terceirização perversa da parte do Departamento Municipal de Limpeza Urbana? Uma cidade que tem péssima limpeza urbana e péssimos empregos precários no manejo do lixo merece ser declarada ela mesma lixo: luxurbe et lixorbe.

Mas não é apenas isto, embora -talvez- seja a mesma coisa, veredas diferentes levando ao mesmo chiqueiro. É que, além dos papeleiros, há empregos precários em número extraordinário neste Brasil/2015, destacando-se as empregadas domésticas. Sempre imagino o que seria do Brasil se, por exemplo, minha exemplar cozinheira (R$ 1.000 por mês, algo assim) tivesse um emprego de cozinheira de escola de primeiro grau, ou segundo, ou no Restaurante Universitário da Unipampa, sei lá. Certamente sua prole teria tido maiores oportunidades, ela mesma, teria uma aposentadoria decente, vantagens trabalhistas que não me cabe nem pensar.

Minha estupefação deste sábado diz respeito à incapacidade que o Brasil (e, com ele, os demais países subdesenvolvidos e até mesmo os desenvolvidos) tem de mobilizar de forma digna sua força de trabalho.

DdAB
Imagem aqui. Para desempregados brasileiros, parece um desfile de moda.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A CPMF, o ICMS, o IPVA, o PT, o PMDB e a TrageBrás


Querido diário:

O PMDB nos tempos priscos recebeu de minha parte certa credibilidade. Até que comecei a conhecer gente com o dr. Prisco Viana, o dr. Jader Barbalho, o dr. Orestes Quércia, e outros doutores. Aí achei que deveria migrar minhas simpatias ao PT, que me parecia o melhor caminho para alcançar a social-democracia no Brasil. Aí surgiu essa plêiade formada por doutores de igual qualidade e também me desiludi dele. Mas não poderia negá-lo, nem mesmo sufocar minhas ilusões sobre possibilidades de que o bom pode emergir do mau. E também me desiludi.

Para não falar naquelas imagens de que nada foi feito para acabar com "A Hora do Brasil", programa de rádio ou com a proibição do aborto, já denunciei a manutenção dos juros de 3% a. a. na remuneração dos depósitos do FGTS. Parece que agora novo doutor peemedebista levará a que se aumente este valor para 6%, o mesmo valor da caderneta de poupança. É o mau fazendo o bem...

Mais ainda para denegrir, a meus olhos, a imagem de social-democracia trazida pelo PT: depois de vários anos, pelo menos durante o primeiro governo Dilma, a bolsa escola deveria ter sido transformada na renda básica. De aplicação seletiva, ela poderia ter começado com as mulheres detentoras do benefício temporário. Depois, as mulheres que receberam e cessaram de receber a bolsa família. Depois, digamos, as mulheres das regiões mais pobres do país. Depois, as das demais regiões, depois, as ricas, depois os pobres, culminando com o pagamento para o doutor Eduardo Suplicy, proponente da lei 10.835 (aqui).

E que dizer do ICMS? Parece a solução trivial quando um governante do RGS pensa estar em dificuldades de caixa, como é o caso do dr. José Ivo Sartori, atual detentor do Palácio Piratini. E que fazem os impostos indiretos? Distorcem a alocação de recursos de maneira perversa, desagradável, um breve contra a eficiência. A grande questão é por que o governo não deixa de pensar no ICMS para fazer finanças e sim recorre ao IPVA que, claro, distorce os preços relativos, mas em favor de causa nobre: penalizando os usuários de transporte rodoviário tenderão a induzi-los a usar menos. "Mas não pode!"

Pior ainda é que, se houvesse um imposto de renda progressivo decente especialmente sobre a macacada republicana que ganha mais de -digamos- R$ 10 mil por mês, ficaria um montante enorme no RGS e amenizaria a penúria alegada pelos governantes. E por que o PMDB no poder local não intima o nacional e seu aliado PT para mudar o imposto de renda, dando-lhe maior caráter social-democrata? Acho que é porque se veem participando da TrageBrás!

DdAB

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Uma Olhadinha na Crise


Querido diário:

Dá uma olhadinha aqui:

ALIÁS
   Diante da gravidade da crise, não dá para entender a lerdeza do governo em colocar à venda prédios públicos e terrenos que o Estado não utiliza. Por que não vender o que já está com os documentos em dia?

É a Rosane de Oliveira, na página 10 de Zero Hora de hoje. Espero que meu leitor tenha pensado, ao ler o título da postagem, algo como: "da Hungria, da Grécia, da Síria, da.., incluindo, claro, a de Collor de Mello, a do Grêmio e, naturalmente, a do "Estado", com aquela inicial maiúscula, em respeito ao dr. Antonio Augusto Borges de Medeiros, claro.

E eu costumo dizer que, em um país -e estado- com tão escandalosa distribuição de renda, mais um acinte contra o igualitarismo é vender os próprios públicos. Quem vai comprar? Precisamente aqueles funcionários públicos que passaram a ganhar D$ 1.000 ou algo assim por mês? Ou os juízes que mantiveram seus D$ 30 mil?

Tenho pensado e sugerido que estas "privatizações" deveriam ser feitas por meio de uma ação pública redistributiva: montar um fundo de ações de tudo o que é propriedade governamental e distribuir uma ação a cada brasileiro nascido ou a nascer, sem possibilidade de venda (mas pode recusar-se a receber, claro) e que garantiria subsídios com o uso do bem. Por exemplo, os terrenos poderiam ser alugados para hortas urbanas. Os prédios, para abrigar meninos de rua.

E que dizer de segmentos deficitários, como a CEE ou a CESA (é esta?)? Se não for comprovada má gestão, gestão fraudulenta (por exemplo, diretores organizam o prejuízo precisamente para ser privatizada), essas coisas? Aí fecha mesmo. E se for uma casa, derruba e faz mais praça pública ou horta urbana!

DdAB
Imagem daqui.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Indústria: Leontief = Keynes


Querido diário:

Hoje em dia, diferentemente daquele tempo em que uma autoridade disse que "hoje todos somos keynesianos", pelo menos os formuladores de política econômica global e nacional levam jeito de não o serem. Mas eu sou, sempre fui (quando entendi do que se falava) e sempre serei (a menos que deixe de entender a terceira pessoa gramatical...).

E costumo dizer que a turma que considera com seriedade a lei de Say, no sentido de que é a elevação da oferta industrial que gera o crescimento econômico, seria tachada por Keynes de "clássica". Eu mesmo, já me declarei clássico nesse sentido (antes de esposar a neo-heterodoxia), pois fui um acólito das ideias cepalinas, durante os anos em que assisti às aulas do curso de graduação em economia.

E hoje, deixando de lado o saudosismo, quero dizer mais uma coisa sobre um dos erros dos acólitos do próprio keynesianismo que, mesmo cientes da roubada criada pela lei de Say, não diferenciam bem valor da produção de valor adicionado. Não sei se Say sabia disto, Keynes e Leontief, sim, bem o sabiam.

Quando a turma do fetichismo da indústria sugere que, por exemplo, o BNDES, meta dinheiro nos setores de maiores linkages, um keynesiano refinado há de dizer-lhes que gastar D$ 1 em bens finais (investimento, o que seja), gerará D$ 1 de PIB, pois o valor adicionado tem três óticas de cálculo, todas dando precisamente o resultado final. É como se eu olhasse para o rio que descansa em frente a minha casa da janela da direita, da janela da esquerda ou do telhado e visse precisamente o mesmo riachinho, trechos dele. Sempre que alguém se banha nele uma vez, mede-se este feito por três óticas: produto, renda e despesa.

Moral da história, se o PIB (líquido de importações) aumenta D$ 1, então a renda aumenta D$ 1 e a despesa aumenta (líquida de importações) também D$ 1. Então que significa dizer que elevou-se a demanda final em uma unidade? Que o PIB elevar-se-á precisamente neste montante (sem trocadilho com relação ao rio que pode banhar a gente apenas uma vez, mas que pode ser observado por vários ângulos).

E qual é a psicanálise disto? É que os leontiefianos apressados juram (com razão) que o gasto de D$ 1 na demanda final gera mais de D$ 1 de valor da produção. Corretísismo. Só que, por não terem refletido o suficiente sobre estas peculiaridades (propriedades) de um sistema econômico que usa insumos (e qual não usaria, qual economia monetária não o faria?), eles pensam que é um grande ganho criar demanda final no valor D$ 1 usando insumos, digamos de D$ 0,1. Claro que o valor da produção é D$ 1,1, mas P = Y = D, isto é, o produto, a renda e a despesa (despidos de importações) geram o mesmo valorzinho de D$ 1.

No primeiro dia da faculdade, aprendi o que quer dizer aquele "multiplicador keynesiano". E nunca mais esqueci. E tem gente que:

.a. não aprendeu
.b. aprendeu, mas esqueceu.

E a Dilma? Também foi aluna da mesma faculdade...

DdAB
P. S. das 14h00 deste mesmo dia. A coluna de Marta Sfredo na página 19 de Zero Hora de hoje diz, referindo conjeturas de terceiros sobre a crise chinesa: "... surge a seguinte [interrogação... ], impensável semanas atrás: teria o governo chinês perdido o controle da economia relevante mais centralizado do planeta?" Que posso dizer? Terei escrito inspirado nela, eu, logo eu, que a lera logo de manhã cedinho? O quem me ocorreu há muito tempo é que o Japão, lutando com aquela estagnação escabelada, deveria ter seguido Rosa Luxemburgo e "dar saída aos excedentes" e -mais na linha do vocabulário dela- "mercados externos", por exemplo, investindo na África!

P.S.S. e já que estou evocativo de velhos autores, vou falar de velhos abobados. O primeiro foi a república islâmica do Irã: ao invadir a embaixada americana no governo Carter, inviabilizou-o politicamente e -pimba- os americanos elegeram Reagan, um dos malfeitores associados à emergência do neo-liberalismo e, como tal, o presente desemprego da Europa. Ou melhor, este foi o segundo, pois o primeiro insight que tive a respeito disto (aqui) foi o caso da explosão do carro (y él dentro) do presidente da Espanha no regime franquista. Foi isto que ajudou a restaurar a monarquia, se bem calculo!

Imagem: eu é que a inventei...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Bastidores do Erro


Querido diário:

Uma palpitante questão para mim, desde que Carla (pronuncia-se 'Carlá') Bruni (pronuncia-se 'Bruní') casou-se com Nicholas (pronuncia-se 'Nicolá') Sarkozy (pronuncia-se 'Sarcozí'), vivo na maior apreensão sobre quantos anos duraria aquele casamento. Pois não é que parece que eles seguem juntos? Mas minha apreensão aumentou quando comecei a ouvir falar que la Bruni viria a cantar em Porto Alegre.

Há tempos que entendi, na linha dos mendigos de Campos de Carvalho que ouvem rádios a pilha não porque eles os tenham alcançado, mas porque os radinhos é que os aculturaram, não é que Porto Alegre tenha alcançado o circuito do show bizz internacional, mas o contrário: a mercantilização das performing arts é que chegaram nesta província tão metida a besta e com tão pouco a oferecer em matéria de longevidade, padrão de vida, trato do meio ambiente, trato do leite, trato das crianças, e por aí vai.

Segue-se logicamente que Carla Bruni estará cantando esta noite no Teatro Bourbon Country (esta postagem por pouco não sai direto em inglês, hehehe). E diz o afamado jornal Zero Hora e deixou meu coração em sobressalto, pois diz a capa do 2o. Caderno algo sobre "beleza e glamour, a ex-primeira-dama da França..." Gelei, pois pensei: então largou o Sarcozi. E, em seguida,

Aos 47 anos, ela vem pela primeira vez ao Brasil mostrar seu quarto CD, Little French songs (2013). Carla estará acompanhada do tecladista Cyril Barbessol e do guitarrista Taofik Farah - mas, ao que tudo indica, não do marido, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, com quem é casada desde 2008.

Em compensação, a página 6 do caderno principal deste mesmíssimo exemplar fala: "Sarkozy e Carla na Capital", mostrando uma foto da concorrida dupla com a não menos socializada dupla Cláudio e Rosângela Zaffari, que os receberam chez eux para uma janta (dizem em Jaguari) com "um grupo de empresários".

Pela lógica, ou é ex-primeira dama ou não. Ou Sarkozy está aqui ou não.

DdAB
Imagem: aqui. E parece que o nome do 'vivente buenacho'  (bon vivant) é mesmo Nicolas e não Nicholas.

sábado, 22 de agosto de 2015

País Doido, Tempo Doido


Querido diário:

Como sabemos, estamos no verão em Porto Alegre, reduzindo nossa distância com relação aos lançamentos de moda no hemisfério norte, que também estão precisamente na estação estival. Aquele jacarandá dali de cima não pode ser mais verão no inverno, não é mesmo?

DdAB

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ceticismo Sacudido


Querido diário:

Acabo de ver na televisão que o afamado ministro do tribunal de justiça, bacharel Gilmar Mendes, deu parecer favorável ao direito individual de portar seu baseado. Tenho sido levado a crer que este velhinho é um empedernido conservador, o que muito me surpreende, dadas as oportunidades de treinamento e vivência no exterior que ele desfrutou durante os anos de formação de sua vida. Vejamos como o resto daquela horda de nababos votará. Se é que votará...

E por que meu ceticismo sacudiu-se? Pois pouco ou nada espero dessa turma dos "salários" de R$ 40 mil. Volta e meia sugiro fechar esses poderes esdrúxulos e substituí-los por convênios com empresas júniores de universidades reputadas internacionalmente.

DdAB
Imagem daqui.

domingo, 16 de agosto de 2015

Manifestações e Governo: sou contra!


Querido diário:
Hoje é um dia estranho: inverno, temperatura de outono, jeito de outono, desvios para a temperatura de verão. Pela terceira ou quarta vez, visitantes nossos tiveram seus automóveis saqueados por ficarem expostos ao ambiente em que todos temos direito de ir e vir: Rua Visconde do Herval, 334/350 em Porto Alegre, cidade cuja prefeitura é incorporada pelo sr. José Fortunatti. Bem que li críticas tachando-o de Furtonate. Alguém, contrariado com a distribuição da renda na cidade, parou ao lado da viatura, violou fechaduras, fechamentos e roubou coisas várias, de computadores a pneus.

Hoje é um dia estranho: tem um movimento nacional de protesto contra o governo. Sou-lhes antagonista, ao governo e ao movimento, pois do primeiro nada espero e do segundo tampouco. O governo, em minha opinião, não poderia estar mais afastado de algo decente. A presidenta Dilma, que desde a posse no primeiro mantado, falava em não compactuar com os 'mal-feitos', não consegue distanciar-se de seus amigos ladrões. A imagem lá de cima é daqui.

O movimento contra ela clama por coisas que não desejo, por achar que não resolverão o problema brasileiro, seja ele qual for, exceto conduzir Aécio Neves, o Aecinho, à presidência da república em uma eleição conduzida pelo presidente do Brasil, senhor Eduardo Cunha. Como? 

Se Dilma e Temer forem impichados (o verbo está ganhando as páginas dos jornais que leio), Cunha assume e, no devido tempo (devido? quanto?), chamará novas eleições: Aécio se inscreve e ganha. Cara, é muita conjetura. Se ficar no governo apenas o vice-presidente Temer, não espero nada. Se houver constituinte, nada espero. Não espero nada de nada, nadica de absolutamente nada. Ainda ontem ouvi dizer que, desta vez (a outra foi em 1964), estamos preparados para resistir à bala a qualquer tentativa de golpe de estado. Tendo aprendido com Zorro o posicionamento da dúvida sistemática, fiquei indagando "nós, quem, cara pálida?". Não espero nada.

Mas, no outro dia, falava eu em indicações de Rosana Pinheiro-Machado, que nos sugerir "botar o pé no barro". Discutir política, participar de movimentos sociais. Neste caso, mudo tudo: espero, desejo, penso estar dando uma contribuição, uma gota naquele mar de desesperança que delineei há instantes.

Tenho amigos que foram às manifestações. Eu mesmo iria, a fim de encontrar a turma e depois meter umas biritas no bar da estação.

E no jornal de hoje (Zero Hora, n'est ce pas?), há dois artigos também localizáveis na internet. Gostei deles, pois falam de centenas de coisas que eu mesmo nunca pensei em bloco. Antonio Prata banca o Heminguay e escreve sobre "Por quem batem as panelas". E parece que não é aquele final de "elas batem por ti". Talvez seja ofensa: "elas batem por causa de nossa burrice". Estou dentro: na crítica ativa e passiva, isto é, também me declaro meridianamente burro, com tudo aquilo de nada muda e pé no barro.

Moisés Mendes escreveu "O Trump verde-amarelo". E dá uma definição de direita interessante: "Debocha de negros, gays, mulheres e mexicanos. [...] E diz que John McCain, que já foi candidato do partido e é sobrevivente da guerra do Vietnã, não pode ser exaltado como herói, porque foi capturado pelos vietcongues. Trump não gosta de soldados que tenham sido capturados."

E tem mais: "[...] se alguém a seu lado [nas manifestações hoje ocorridas] disser, com absoluta convicção, que o Brasil é um país iluminado por ter se livrados dos velhos conceitos de esquerda e direita, que aqui tudo se confunde e se mistura, você pode então ter certeza de que essa pessoa é de direita." 

DdAB
OS ARTIGOS INTEGRALMENTE REPRODUZIDOS

ANTONIO PRATA - Por quem as panelas batem
Temos toda a razão de bater panelas quando a presidente aparece na TV dizendo que a culpa por nossa pindaíba é da crise internacional. Mas por que não batemos panelas quando Eduardo Cunha, o líder dos 'black blocs' brasileiros, vândalo que faz política com pedras, bombas e coquetéis molotov, vai em rede nacional dizer que trabalha 'para o povo', 'sempre atento à governabilidade do país'?.

Temos toda a razão de bater panelas contra a corrupção da Petrobras. Mas por que não batemos panelas contra o mensalão mineiro ou o cartel do metrô paulistano? Por que não batemos panelas contra a compra de votos para a reeleição do FHC? Por acaso pagar apoio na Câmara é mais grave do que pagar emenda na Constituição?.

Temos toda a razão de bater panelas contra o retrocesso econômico de 2015. Mas como podemos não bater panelas contra o anel de pobreza que desde sempre engloba as metrópoles brasileiras, essa Faixa de Gaza de tijolo aparente, essa Cabul de laje batida onde se amontoa boa parte da população?

Temos tora razão debater panelas quando o governo se cala diante dos descalabros venezuelanos e da ditadura cubana. Mas por que não batemos panelas diante do fato de nosso principal parceiro comercial ser a China, maior ditadura do planeta? O tofu que alimenta aquela tirania é feito com a nossa soja, e os fazendeiros, ruralistas e empresários que acusam a 'venezuelização' do Brasil são os mesmos que lucram com o dinheiro comunista. Ninguém bate woks por causa disso?

Temos toda a razão de bater panelas contra o estelionato eleitoral do PT. Mas por que não batemos panelas contra o estelionato eleitoral do PSDB, que elege repetidamente um governador tipo 'gerente', prometendo 'e-fi-ci-ên-ci-a' em cada sílaba, mas coloca São Paulo à beira do 'co-lap-so-hí-dri-co'". Um cristão cuja polícia, não raro, participa de grupos de extermínio, na periferia. Esta semana, foram 19 chacinados em Osasco e Barueri. Imagina se fosse no Iguatemi? E o estelionato das UPPs, no Rio, que prometem paz, mas torturam um cidadão até a morte e somem com o corpo? 'Não, isso não! Me mata, mas não faz isso comigo!', gritava o Amarildo, segundo um policial que testemunhou a barbárie, dentro de um contêiner. Como pose a nossa maior preocupação em relação ao Rio, hoje, ser com a qualidade das águas para as Olimpíadas de 2016? Cadê o Amarildo? Cadê as panelas?

Temos toda a razão de sair pra rua, neste domingo, para protestar contra a incompetência, a corrupção e a burrice do governo. Mas porque não sair pra rua para protestar contra a incompetência, a corrupção e a burrice do país, como um todo? Um país que mata seus jovens, sonega impostos, polui, compra carteira de motorista, licença ambiental, alvará, dirige pelo acostamento, estupra, espanca e esfaqueia mulher (mas retira a discussão de gênero do currículo escolar), um país onde os negros correspondem a 15% dos alunos universitários e a 67% da população carcerária.

Este ódio cego, esta parcialidade hipócrita, este bombardeio cirúrgico que pretende eliminar o PT -- e só o PT -- para 'libertar o Brasil', empoderando Renan Calheiros e Eduardo Cunha, não é o desabrochar da consciência cívica, é mais um fruto da nossa incompetência, mais uma vitória da corrupção; palmas para a nossa burrice.

MOISÉS MENDES - O Trump Verde-AmareloSão reais as chances de Donald Trump apresentar-se como o mais autêntico candidato republicano da direita, em todos os tempos, nas eleições americanas do ano que vem. Trump pode estar dizendo: chega de intermediários.
Até bem pouco, um sujeito como ele seria apenas o candidato exótico dos reacionários. Hoje, não. O bilionário é a mais recente aberração da democracia, com possibilidades concretas de sucesso nas prévias republicanas.
Você pode se perguntar sobre o porquê de não termos algo equivalente aqui. O capitalismo brasileiro não produziu uma assombração de rico-celebridade como Trump, talvez porque estejamos em estágio inferior.
Trump é qualquer um dos Bush elevado ao quadrado. Debocha de negros, gays, mulheres e mexicanos. Considera um republicano como Jeb Bush, o terceiro deles a aspirar à presidência, um fraco. E diz que John McCain, que já foi candidato do partido e é sobrevivente da guerra do Vietnã, não pode ser exaltado como herói, porque foi capturado pelos vietcongues. Trump não gosta de soldados que tenham sido capturados.
Quem um dia será o nosso Trump? Aqui, por mais que a esquerda se esforce, é difícil enquadrar adversários à direita como sendo de direita. Você não sabe ao certo o que possam ser os três pretendentes do PSDB ao governo, mas sabe que de direita eles não são.
Nem Alckmin, sempre citado como o mais conservador deles, tem posturas que possam ser enquadradas como de direita. Serra seria o social-democrata sobrevivente, das raízes do PSDB, mas até onde? E Aécio é Aécio. Até os mineiros pensam que ele é carioca. Se não sabem direito nem que é mineiro, quem apostaria nas orientações ideológicas de Aécio?
O nosso Trump ainda está por surgir. Você pode dizer que Levy Fidelix é o Trump que a extrema-direita brasileira merece, mas Fidelix é pobre e nem cabelo tem, quanto mais topete.
O que se sabe é que existe uma esquerda no Brasil, com muitas variações (PT, PC do B, PSOL, PSTU, PCO, parte do PV), mas não se encontra um agrupamento organizado de direita, mesmo que exista mercado. Talvez porque a nossa direita seja muito recatada para chegar ao ponto de oferecer lastro eleitoral como os que foram dados a um Trump, um Berlusconi, um Le Pen.
E, em meio a isso tudo, a esquerda que ainda sustenta o Planalto é tentada a concluir que só a direita volta às ruas, pela terceira vez este ano, para que o governo seja derrubado por um golpe improvável, ou pelo impeachment cada vez mais distante, ou pelo cansaço, ou por uma tragédia.
Não é bem assim. Neste domingo, um amigo, um parente, um colega seu irá participar da passeata, mas você não poderá dizer que ele é de direita só porque se alinha à classe média que pretende antecipar o fim do mandato de Dilma.
Mas se alguém ao seu lado disser, com absoluta convicção, que o Brasil é um país iluminado por ter se livrado dos velhos conceitos de esquerda e direita, que aqui tudo se confunde e se mistura, você pode então ter certeza de que essa pessoa é de direita.
Não há nada desabonador nisso, ao contrário do que pensa o próprio sujeito que é de direita e até classifica os outros como de esquerda, mas se nega a ser de direita.
Esse é o eleitor que viu o projeto de Eduardo Cunha se esfarelar e continua à espera de um Trump nacional com um topete mais glamoroso que o do Bolsonaro. O Trump sonhado por ele pode surgir em uma passeata como a deste domingo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Holismo Parcial


Querido diário:

Sabemos todos que criei há anos a filosofia do holismo parcial (aqui o primeiro registro). Vou  falar sobre ela após uma série de prolegômenos. Prolegômenos? Aprendi esta palavra enquanto estive lendo o livro

CAMPOS DE CARVALHO (1964) O púcaro búlgaro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. [E vi na internet que tem uma reedição recente da Saraiva].

Em compensação, também sabemos que sou especialista na primeira sentença do Ulysses, obra magna de James Joyce:

Suntuoso, o gordacho Buck Mulligan acercou-se do alto da escada portando em sua mão direita um vaso de barbear atrolhado de espuma, mas não a ponto de esconder um espelhinho entrecruzado sobre uma navalha aberta o suficiente para cortar o minguinho de Stephen, se ele por lá o colocasse.

Pois então. Dias atrás:

.a. fiz aqui uma lista dos livros de leitura literária que estou lendo e

.b. tem livros de não-ficção que leio volta e meia, outros releio, e -outros ainda- tomo a liberdade de mentir que li, lia, lera, leria, leio ou lerei.

Levando em consideração apenas este item .b. (o que já é uma prova de que o holismo esclarecido (ou seja, o holismo parcial) desta postagem já a divide em duas partes. Pelo menos, duas), no devido tempo, deveremos inferir que estou afanosamente tentando especializar-me em 'introdução à filosofia'. Depois de haver-me havido com muitas e muitas tantas outras obras um tanto introdutórias, vim a tomar "gosto" tátil e ocular, fazendo leitura de contato, com:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires (2009) Filosofando; introdução à filosofia. São Paulo: Moderna.

CHAUÍ, Marilena (2012) Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática.

COTRIM, Gilberto e FERNANDES, Mirna (2010). Fundamentos de filosofia. São Paulo: Saraiva. [Saraiva? Saraivíssima, a mesma de nossos conhecidos livros de metodologia e técnicas de pesquisa e de teoria dos jogos].

FEITOSA, Charles (2004) Explicando a filosofia com arte. Rio de Janeiro: Ediouro.

Sem negar que meu preferido é o de Aranha e Martins (2009), refiro-me precisamente à página 334 de Cotrim e Fernandes (2010), onde podemos ler o seguinte parágrafo inteirinho:

   Nas novas abordagens [sobre epistemologia, um troço destes] desenvolvidas nas últimas décadas, o todo tende a ser entendido como sistema, isto é, como estrutura organizada de elementos inter-relacionados. Para ser adequadamente compreendido, o todo não pode ser dividido, isolando suas partes. As partes devem ser entendidas conjuntamente nas relações que estabelecem entre si, sempre tendo como referência o todo. Essa tendência é conhecida, de modo genérico, como holismo (do grego holos, 'total, inteiro, completo'). [Destaques no original]

Ao ler este parágrafo, principalmente seu início, lembrei que um dia daqueles lá no clube do antanho, consegui encadear algumas ideias que me vinham sendo passadas desde a mais tenra inserção como estudante da ciência econômica (que digo?), que iniciaram com 'sistema'. Era sistema para cá, sistema para lá. Até havia um livro de introdução à economia do francês Raymond Barre, se bem lembro um monte de quatro volumes e que ele -Rain Man- era financista, uma chatice, que tinha, ele -agora- livro um capítulo sobre sistemas econômicos comparados, umas coisas assim que -se bem lembro- chegava a elaborar algumas coisas mais sobre o conceito de -se bem lembro- 'sistema'.

E na mesma época, entrou também em meu vocabulário a palavra modelo. E não saiu mais até hoje. Volta e meia jogo por aqui algum modelo matemático, como o já famoso

VA = f(Pop),

em que VA é o valor adicionado pela população em determinado período e Pop é, lógico, a população. Lá naquele livro de contabilidade social da editora Grupo A (devidamente Bookman), fala-se que existem modelos teóricos, como o acima, modelos empíricos, como VA = a + b x Pop e modelos experimentais, como VA = 0,2 + 0,3 x Pop.

E um modelo gráfico é o que hoje nos encima, pois não é difícil inferirmos que ações repetidas geram processos, processos repetidos geram estruturas, estruturas repetidas geram sistemas e sistemas (aprendemos agora) repetidos (ou integrados, se é que o holismo convencional permite e foi por isto que nós, da filosofia introdutória, criamos o holismo parcial, nomeadamente, para permitir que sistemas se repitam e se integrem, como o sistema econômico e o sistema de tráfico de influências no congresso nacional.

Em outras palavras, fim.

DdAB
Note o perspicaz leitor que estou usando praticamente todos os marcadores de postagem que já concebi neste blog. Este diagrama de Ven (que usualmente vemos em formato de elipses) recebeu críticas acerbas de integrantes radicais da escola filosófica do holismo convencional (que não gostam de ser assim designados).

Percebemos que ele não tem áreas esmaecidas entre cada "capítulo" (odeiam a palavra capítulo, pois tudo é uno) do "quarteto" (odeiam quartetos, pois tudo é uno) da figura (odeiam a palavra "figura", pois tudo é uno). E odeiam pontos, pois ponto significa que algo está terminando e, pelo holismo radical, nada termina, tampouco algo começa, tudo o que temos é tudo. E ponto, para eles, só o aleph.

E, um dia, eu disse 'o aleph borgeano' e eles já reclamaram, pois aleph -alegam- não é de ninguém, é de todos nós, do hole. Então tive que voltar ao dicionário para entender a diferença, em inglês, entre hole e whole, tarefa de nível avançado para um professor de economia política que tenta especializar-se em introdução à filosofia.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

40.000 Juízes


Querido diário:

Não posso deixar de registrar a grande notícia de capa de jornais de hoje: os juízes estão clamando por um aumento, levando seus parcos rendimentos, descontadas aquelas questões do auxílio moradia, auxílio creche, viagens de primeira classe para cônjuges, e tudo o mais, a R$ 40.000,00.

Ao ler o título da postagem, distraí-me, não lembrando que eu mesmo a escrevera e cheguei a pensar ser tudo um probleminha de universos paralelos e, como tal, a cifra avantajada queria dizer que iriam contratar mais 40 mil juízes.

E não posso deixar de expressar minha opinião sobre este tipo de iniciativa: cara de pau irremovível!

DdAB
Imagem de, talvez, um futuro juiz aqui.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Marx e o Agribusiness


Querido diário:

No outro dia, falei nas dezenas de livros de leitura literária que estou lendo/fazendo. Nem referi, nem costumo fazê-lo, as centenas de "economia", os milhares de "filosofia", os milhões de "cultura geral" e os bilhões de estrelas do universo conhecido, digo, de astronomia e astrofísica. Um mundo milionário.

Segue-se logicamente (digo-o por homenagem brincalhona à profa. Brena Fernandez que hoje cruza o Equador. 'Logicamente?', indagaria ela, curiosa.) que estou lendo

HARVEY, David (2013) Para entender O Capital; Livros II e III. Rio de Janeiro: BoiTempo. (Título original: A Companion to Marx's Capital, Volume II. Tradução de Rubens Enderle).

Em compensação, na página 263, Harvey está falando do tempo de produção do capital. Isto é, como diria Stephen Hymer, coisas que ocorrem no recesso da fábrica e, segundo Marx, onde a entrada é proibida exceto para os negócios.

A agricultura é, como seria de esperar, a esfera em que é mais difícil reduzir os tempos de produção, e isso tem implicações para o capital e, mais ainda, para o trabalho. Marx cita longamente Kirchhof, que enfatiza os diversos impactos dessas distinções sobre o capital e o trabalho. Para esse autor, a sazonalidade das possibilidades de trabalho na agricultura é um grande problema. Na Rússia, por exemplo, o trabalho agrícola é possível apenas em 130 a 150 dias no ano, o que acarretaria sérios problemas, não fosse a produção organizada nas aldeias, com 'tecelões, curtidores, sapateiros, serralheiros, cuteleiros etc.' A 'unificação da agricultura com a indústria subsidiária rural' foi uma maneira eficiente de lidar com essa estrutura naturalmente sazonal.

Quem é esse Kirchhof? Ver nota 1. E que mais? Parece óbvio que, como disse o próprio Marx,

No capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra.

Então pareceria mesmo óbvio que a produção agrícola cada vez se tornasse mais comandada pela mercantilização de todas as relações sociais.

E somos levados ao final do livro de David Harvey, quando ele fala no que sempre considerei um dos mais escandalosos mal-entendidos da história da filosofia ocidental, ou melhor, da economia política. Parece que a primeira e óbvia e pré-capitalista solução foi mesmo usar o tempo que não pode ser aplicado sobre as lavouras (neve e até o excesso de calor nos trópicos) para a prática de tarefas domésticas, como as citadas. É o início do agribusiness, que não tem  pinta de que vai acabar tão cedo. Inovações tanto de processos quanto de produtos.

Primeiro, no livro "Viagem na Irrealidade Cotidiana", Umberto Eco fala nas ovelhas capitalistas, isto é, ovelhas de focinho preto que foram sendo selecionadas ao longo de certo tempo e geraram uma "raça" de ovelhas de focinho branco, ou seja, um pelame de focinho não dissonante daquele do resto do corpo do pobre animal. Mais fácil de tosar, mais fácil de juntar a lã, aquelas coisas. Esta ovelha é um produto novo.

Segundo, o simpático livro

MAETERLINCK, Maurice (2002) A vida das abelhas. São Paulo: Martin Claret.

diz em sua página 18:

   Em poucos anos, quebrou-se a rotina da apicultura. A capacidade e a fecundidade das colmeias acham-se triplicadas. Estabelecem-se por toda a parte cortiços vastos e produtivos. Desde esse momento, findou o inútil morticíio das cidades mais laboriosas e a odiosa e contraproducente selação, que era consequência disso mesmo.
   O homem tornou-se realmente o senhor das abelhas, senhor furtivo e ignorado, que dirige tudo sem dar ordens, e é obedecido sem ser reconhecido.
   Repara as injustiças do ano.
   Reúne as repúblicas inimigas. Distribui igualmente as riquezas. Aumenta ou restringe os nascimentos. Regula a fecundidade da rainha. [...] Despoja, cinco ou seis vezes seguidamente, do fruto do seu trabalho as irmãs do bom convento, infatigável, sem as melindrar, sem as desanimar e sem as empobrecer.

Em poucos anos, tudo isto foi virando mercadoria. E é impossível visualizarmos um limite "natural" ao aumento da produtividade do trabalho (humano), com inovações que vêm em ondas, determinando novos processos e novos produtos. Meu exemplo brasileiro mais constante é que a soja tropical foi um produto encomendado. E entregue no devido tempo. E hoje enriquece uma turma de agricultores do centro-oeste.

De quebra, naquela lição da exploração da abelha pelo homem, vemos uma dica para acabar com a desenfreada reprodução humana que, hoje, foi relegada apenas aos pobres. Na Nigéria, no Brasil, no etc.

E isto é só? Claro que não, voltemos a David Harvey. Estamos agora na página final dos capítulos, esperando apenas para ler as reflexões que sucederam (no local pertinente) sua linda introdução. Estamos nos comentários de Harvey sobre o volume 2. E na seção superfinal (p.360-362) intitulada "A possibilidade de um planejamento socialista racional", o próprio Marx está falando na 'sociedade comunista'. Harvey, no início da página 361:

   Ele também afirma, no capítulo 49 do Livro III (escrito antes dos principais estudos teóricos dos anos 1870, mas no qual os esquemas de reprodução fazem uma breve aparição), que 'mesmo depois que o modo de produção capitalista é abolido, embora a produção social permaneça, continua a prevalecer a determinação do valor no sentido de que a regulação do tempo de trabalho e a distribuição do trabalho social entre os vários grupos de produção tornam-se mais essenciais que nunca, assim como sua contabilidade'(C3, 991). A implicação é que Marx pensava que os esquemas tinham um papel importante no desenvolvimento do planejamento socialista nacional.

Dali a pouco, nesta mesma página, David Harvey fala mais sobre a organização do trabalho na sociedade pós-capitalista (usando meu termo agora e não o dele). E na página seguinte, temos o que me pareceu o maior mal-entendido de todos os tempos, inclusive na origem do estalinismo:

No exemplo aritmético de Marx, toda a expansão é movida por mudanças no setor I. Disso deriva a visão, já mencionada, de que o planejamento econômico e desenvolvimentista deveria concentra investimentos na produção de bens de capital e meios de produção, e só mais tarde, cuidar da produção de bens de consumo. O modelo socialista de desenvolvimento adotou esta convenção ao pé da letra. [...]
   Não há absolutamente nenhuma razão para qu o setor II dependa do setor I. Essa ideia surgiu em consequência de uma escolha arbitrária de Marx e do caráter desigual das relações entre os dois setores que surgiu do impacto de um grau maior de entesouramento no setor I em relação ao setor II. O desafio da transição socialista seria, é claro, eliminar essa diferença. Com isso, seria plenamente e possível inverter a relação e pôr o setor I a serviço do setor II. Sob relações sociais capitalistas isso seria impossível, como disse Marx, porque o objetivo do capital é acumular capital, e não satisfazer as necessidades físicas e de consumo das massas. Num mundo socialista/comunista, porém, objetivo seria exatamente o inverso.

Primeiro: o final não me agrada. Não creio que esta primazia do setor II seja apanágio do socialismo. Por que o seria? Segundo, os tempos de rotação do capital cada vez mais convergem ao uso dos capitais financeiros, a mercadoria fica mais e mais distante do recesso da fábrica, inclusive por meio da produção de signos e subjetividade (esta expressão também não é originalmente minha, ainda que, neste momento, nem lembre de onde me veio, talvez Félix Guattari).

Terceiro: se é que podemos pensar em um setor de agribusiness como tenho descrito aqui (e daqui a pouco, teremos a indústria dos minerais não-metálicos fazendo canequinhas para usar nas cafeterias), estamos jogando no lixo aquelas prescrições de que o Brasil contemporâneo precisa porque precisa porque precisa reindustrializar. Insisto: o Brasil precisa é gastar em educação, talvez colado ao gasto no sistema judiciário (policiais e juízes).

DdAB
Imagem daqui. Tu viu o que eu tenho dito? De uma banana podemos fazer até uma lâmpada maravilhosa e chamar nosso Aladim para dela extrairmos pão e rosas, telefones e fisioterapia, trens e lanchonetes. E tu sabe que, durante minhas estadas um tanto conturbadas pela Europa, nunca de núncaras vi banana maçã, só estas da foto da lâmpada de Aladim?

Nota 1: aquele nome de Kirchhoff não está na Wikipedia em inglês. Mas está aqui, presumo, pela idade, pela profissão. Em minha edição do segundo volume do Capital em alemão, na Literaturzveizeichnis, em plena página 527, lemos:
KIRCHHOF, Friedrich: Handbuch der landwirthschftlichen Betriebslehre. E por aí vai.
Nota 2: eu ima emendar como final da postagem uma diatribe contra o Anselm Jappe, mas decidi apenas fazer o registro nesta altura. A questão é se o capitalismo que hoje vivemos tem mesmo ou não possibilidade de vida longa. Digo que sim, digo que o agribusiness pode jogar o Brasil para frente, se não for, como tem sido, estragado pelos adoradores da indústria.
JAPPE, Anselm (2011) As aventuras da mercadoria; para uma nova crítica do valor. Lisboa: Antígona. Tradução de José Miranda Justo.

domingo, 9 de agosto de 2015

Tudo pelos 49% mais Pobres


Querido diário:

A razão da nossa crise não é psicológica, é política e econômica, é óbvio. O Congresso é uma das instituições consideradas menos digna de confiança pela população. O Congresso se autonomizou com relação ao Executivo e passou a buscar uma pauta de temas que aparentemente fazem parte do imaginário pelo qual a opinião pública se move neste momento: maioridade penal, questões relativas ao mandato presidencial. O Congresso está adotando medidas populistas que não necessariamente vão ter efeito positivo a médio e a longo prazo.

Pois é: estamos referindo trechos de dois autores diferentes cujos artigos constam do caderno PrOA de Zero Hora de hoje. Um psicanalista, Mário Corso e um cientista político, José Álvaro Moisés. A primeira é do primeiro e a segunda é do segundo. Fui claro?

Quem quer aprender não se avexa de buscar associações. Mas vou centrar-me no psicanalista, duas ou três frases dele.

Quando eu era criança, o Brasil considerava-se pobre, de terceiro mundo, subdesenvolvido. Nada mudou essencialmente, as grandes reformas nunca foram feitas, mas passamos a considerar-nos ricos. Nossa exigência peremptória de instituições públicas melhores ignora o tempo, o investimento e a lenta construção que benesses como a saúde pública, a segurança e a educação de um povo requerem.. Poucos parecem se dar conta que a saída passa por gerar mais riquezas, inventar novas coisas, aprimorar as instituições, participar mais da vida pública e não apenas reclamar. A atual posição política do eleitor assemelha-se mais a uma queixa misturada à afirmação de que não temos responsabilidade pelo que acontece. A falha é sempre dos outros.
[...]
É importante lembrar que propostas totalitárias - cujo ápice foi o nazismo, mas também vale para Mussolini, Franco e Salazar, que levaram o mundo ao caos no século passado -, tiveram como combustível o abalo narcísico de povos economicamente arruinados. Temos que cuidar uns dos outros, admitir nossos problemas antes que a sedução da arrogância o faça.

Eu, primeiro, fiquei pensando no que pensa um adulto que sobreviveu à infância na rua, na cadeia, fora da escola, de mãe alcoólatra e pai desconhecido. Depois passei a pensar em quão longe estamos daquele tempo em que víamos tempo de sobre para tirarmos o Brasil do atraso em uma geração. Depois passou para duas gerações. Agora penso que a  tarefa é para mais duas ou três gerações.

Cuidar uns dos outros exige que eu trate bem meu vizinho, que o cumprimente no elevador, mas também exige que eu invente maneiras de me fazer ouvir politicamente, que eu faça saber aos políticos, todos eles, os apaniguados e os que tentam rebeliões condenadas ao fracasso, que eles fazem parte do mesmo drama que matou agricultor sem terra, que escravizou trabalhadores do cacau e da cana de açúcar.

A verdade é que a própria renda per capita brasileira elevou-se em alguma medida durante meu horizonte de vida. Mas mais verdade ainda é que a penúria que alcança os 49% mais pobres não lhes dá muito espaço para dizer que sua situação melhorou relativamente aos bisavós ou trisavós. E a verdade é que no presente momento não há como deixar de lamentar a falência absoluta do governo, o estrondoso fracasso da oposição parlamentar e a vergonhosa incompetência do poder judiciário. Sem falar, denunciando, os salários estratosféricos que esses senhores se fixaram nos últimos 50 anos. Não creio haver maior vergonha nacional que um funcionário público do porte dos juízes receberem mais de 20 ou 30 vezes o salário mínimo, ou seja, nababos julgando párias.

Por um lado, a saída passa radicalmente por uma nova constituinte, para dar credibilidade política a um novo projeto de país que não dependa tanto de uma estrutura política e de políticas públicas feitas com fins corruptos. Por outro lado, a reforma do poder judiciário em boa medida deve emergir até antes, para viabilizar eleições decentes, esfacelamento do poder econômico e principalmente inviabilizar que surjam partidos cujo objetivo é "sangrar o governo" para fortalecerem posições em futuras eleições.

O momento que vivemos é típico: como é que podemos ver sentido em uma coalizão oposicionista que deseja a mudança do governo já ou sangrá-lo por três anos e meio daqui para frente? Quando não penso em minha garrafa de cachaça (escondida na terceira gaveta da escrivaninha), penso em Tony Blair: education, education, education.

DdAB

sábado, 8 de agosto de 2015

Ulysses: a última sentença


Querido diário:

Como sabe quem me frequenta, declaro-me especialista na primeira sentença de "Ulysses", aquela encrenca de "sobranceiro, o fornido Buck Mulligan chegou-se no alto da escada, portando uma tigela com espuma de barba em que uma navalha se entrecruzava sobre um espelho", mais ou menos a tradução de Antônio Houaiss (rodapé 1).

Na última (e concorrida) postagem daqui) que fiz sobre o assunto, encarreguei-me de começar também a me especializar na segunda sentença, assim traduzida por Houaiss:

Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás da doce brisa da manhã.

E que dirá dela a edição da Relógio D'Água, livraço que pretendo ler todinho?

Um roupão amarelo, descingido, era gentilmente sustido detrás pela suave brisa matinal.

Pois agora começa a encrenca. Última frase? Aquela sem pontuação, aquela infinita, aquele monólogo de Molly Bloom? Aquela, aquele, aquelíssima, aquelemesmo!

Diz-nos Houaiss na página 957 da edição Civilização Brasileira do Rio de Janeiro de 2003:

Trieste-Zurique-Paris, 1914-1921.

Ok, ok, não era bem isto, hehehe. Nem vou falar no resto da turma (Rodapé 2). Ou seja, comecei a disfarçar, a fim de não pagar o que prometi, nomeadamente, citar a última sentença inteira do livro, uma vez que me declaro especialista na primeira e começo meus estudos, voltados a especializar-me na segunda. Mas não esqueci e vejamos o que posso fazer. Iniciemos com Houaiss propriamente.

Ou melhor, propus-me a iniciar com a tradução de Antônio Houaiss e não sei se antes ou apenas agora é que vi que ele não usa qualquer ajuda para dividir o texto em capítulos, os 18 tradicionais capítulos endossados por praticamente toda a tribo. Aparentemente, Houaiss pensa que há apenas três capítulos no "Ulysses", e não 18 capítulos distribuídos em três partes. Talvez -- meu conhecimento não chega a tanto -- o primeiro tradutor para a língua portuguesa tenha-se baseado em alguma das edições em inglês cuja cópia não me foi acessível, como o foram a Penguin e a de Gabler.

Com isto, perdemos uma discussão entre os comentadores. Esta diz respeito à presença ou omissão de um ponto gordo (ou seja, não é um ponto de sinal de pontuação) no final do capítulo 17 (que Houaiss nem tem...). Então, depois do ponto, é aí que começa o capítulo 18, reconhecido como o que expressa o monólogo de Molly. Como sei estas coisas sem ser sabidinho? É que, antes do ponto, tem uma pergunta, naquele capítulo 17 que dizem ser a técnica jesuítica de aprendizado, contendo apenas perguntas e respostas. Então, repito, o capítulo termina com uma pergunta:

Onde?

E depois dela é que vem o ponto gordo. E aí começa o capítulo 18, com um início, como é natural no restante do volume, não indentado e não capitulado. E a primeira palavra, isto é fácil de constatar, é "Sim". Mas isto está longe de formar uma frase, longe prá caramba. Vai lá, Houaiss:

Sim porque ele nunca fez uma coisa como essa antes como pedir pra ter seu desjejum na cama com um par de ovos desde o Hotel City Arms quando ele costumava fingir que estava de cama com voz doente fazendo fita para se fazer interessante para aquela velha bisca da senhora Riordan que ele pensava que tinha ela no bolso e que nunca deixou pra nós nem um vintém tudo pra missas para ela e para alma dela grande miserável que era com medo até de soltar quatro xelins para seu espírito metilado me contando todos os achaques dela com aquela velha de falação dela sobre política e tremores de terra e o fim do mundo que a gente tenha um pouco de distração pelo menos antes Deus ajude o mundo se todas as mulheres fossem como ela contra roupa de banho e decotes é claro que ninguém queria ver ela com isso eu creio que ela era piedosa porque nenhum homem havia de olhar para ela duas vezes eu espero que não vou ser nunca [...]

Parei, é a metodologia, pois parece que, definitivamente, aquele assunto "dele", ou seja, Leopold, deitado, como no tempo do City Arms Hotel, se fazendo de doente, e por aí vai. Então este é o início da última frase, enorme, enormemente enorme, sem pontos, vírgulas, travessões, o que seja, o que fosse.

E como é que o Relógio D'Água traduziu? Pois bem. Pois então. Pois é, pois sim, pois não. Pois apenas agora é que notei que o Relógio D'Água também não usa a subdivisão das três partes em 18 capítulos. Felizmente, ainda não li muito, de sorte que vou marcar tudinho, com base em -- já podemos dizer -- meu amado Garcia Tortosa (da terceira tradução para o espanhol, editora Catedra - Letras Universales). Pois bem. Lá na página 681 do Relógio D'Água, temos aquele

Onde?

que, tecnicamente deve dar por terminado o capítulo 17. Só que o ponto gordo é substituído por um traço horizontal de dois centímetros de extensão. E aí vem aquele "sim", agora indentado, começando o parágrafo a três toques datilográficos da margem:

   Sim porque ele nunca fez uma coisa dessas antes como pedir para tomar o seu pequeno-almoço na cama com dois ovos desde o hotel City Arms quando costumava fingir estar de molho com uma voz de doente armado em lorde para se fazer interessante para aquela velha jarreta da Sra. Riordam que ele pensava que tinha na mão e ela não nos deixou nem um tostão tudo para missas para si própria e a sua alma a maior unhas-de-fome que já existiu na realidade com medo de gastara 4 d com o seu álcool desnaturado a contar-me todos os achaques que tinha sempre a mesma velha conversa sobre política e terramotos e o fum do mundo deixa mas é a gente divertir-se um bocado primeiro Deus nos valha se todas as mulhers fossem do género dela a censurar os fatos de banho e os decotes curtos é claro que ninguém queria que ela os usasse acho que ela era piedosa porque nenhum homem ia olhar para ela duas vezes espero nunca [...]

Desjejum? Pequeno-almoço? Parece-me que, pelo menos em gauchês, diz-se "café da manhã". Mas parece que estou tergiversando (epa, influência literária de Houaiss?. Se fosse pelo dicionário, diria apenas "usando de subterfúgios", "fazendo rodeios"), não estou falando na última sentença? Mas pelo menos ganhamos (o leitor diligente e eu) uma metodologia para chegar no final, antes daquele Trieste-Zurique-Paris e praticar a afamada regressão para trás. A saber, recuar no texto até chegar naquilo que o pensamento de Molly estancaria e nos levaria a pensar que ela estava mudando de assunto. Então vejamos o Houaiss, página 957:

Sims.

Com uma letra 'S' maiúscula no início e outro 's' minúsculo no final. Ou seja, o advérbio virou um substantivo plural. Eita confusão eterna. Então este final, depois de páginas e páginas de monólogo, repete o 'sim' do início do capítulo 18.

E o Relógio D'Água? Naquele pré Trieste-Zurique-Paris, página 730, temos

Yes.

Depois de lê-lo, voltarei ao tema, dizendo qual seria a verdadeira frase derradeira, no sentido de corrigir aquela falta de pontuação, já não sei se de Molly ou de Joyce. Feliz Dia dos Pais domani.

DdAB
Imagem: procurei no Google Images "ponto grosso" e veio "Ponta Grossa". Anuí e editei em meu "Paint".

Rodapé 1: Minha memória já não é mais a mesma do tempo em que eu sabia de cor o famoso 7 x 8 da tabuada. O original, obviamente de um tempo em que a versão Gabler não existia, é:

Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha.

Rodapé 2: Neste blog, entende-se por "resto da turma" os dois exemplares físicos ou os dois eletrônicos de diferentes versões da obra (Penguin e Gabler, ou melhor, parece que, desta minha turma, ninguém traduziu o Gabler integralmente) original e as traduções para o espanhol (três) e português (quatro).
abcz

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

8.372 Tratores


Querido diário:

Todos sabem como contesto meus próprios conhecimentos desenvolvidos nos anos 1970 sobre o fetichismo industrial e seu assemelhado elogio da lei de Say. Aprendi, naqueles anos de estudante de economia, que a indústria seria a panaceia para todos os males do subdesenvolvimento brasileiro. E que, portanto, deveríamos financiar projetos industriais, modernizar a indústria, produzir aviões a jato, automóveis os mais modernos, com bancos de plástico, e por aí vai.

E um dia decidi indagar-me que diabos não teria sido deste indigitado país se, ao invés de políticas industriais, os governantes tivessem optado por desenvolver seu setor agrícola de maneira inovadora. Treinamento, education, education, education. Vender cacau para a Suíça e também chocolate. Vender café para a Alemanha e também cafeterias. Vender borracha para a Malásia e também umas plantationzinhas por lá...

Então dei uma olhada puramente via internet para o ano de 1950, quando o pior poderia ter sido evitado, talvez à custa de uma reforma agrária.

População do país: 52 milhões de habitantes.
População rural: 33 milhões de habitantes.
Número de estabelecimentos agrícolas: 5,2 milhões.
Número de tratores: 8.372.837.283.

Mais de 1.000 tratores em cada propriedade agrícola? Não, claro que não, absolutamente não. O que houve foi um engavetamento numérico: são apenas 8.372 tratores. Até agora duvido que este número seja correto. Só oito mil? Para cinco milhões de propriedades? E se tivéssemos tido mesmo um por cada?

Por cada? Rima com as capas de plástico para os estofamentos dos automóveis produzidos nos anos 1950s. E se fossem capas de couro de porco? Pobres porcos, ricos seriam os agricultores. E não teria fugido na escola e do meio rural, com que o fizeram, asilando-se no lixo urbano.

E os Estados Unidos? Não busquei muito, ou melhor, busquei na internet por alguns instantes e achei. Em 1925, havia 158 mil tratores.

Não pude conter-me e fui procurar o primeiro bar (eram 8h32 da manhã de hoje) que vende cachaça aqui no bairro Menino Deus de Porto Alegre.

DdAB
A imagem veio daqui. E tem a seguinte legenda: Lugar, Carlos Serafini - Vincente Wrzesinski e filho dele. Um dos primeiros tratores. /1950/

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Quantos Livros Estou Lendo: segunda edição


Querido diário:

Em 14 de maio de 2013 (aqui), declarei estar lendo uns 40 livros e, ao vê-los bem contadinhos, documentei apenas 16. E fiquei filosofando sobre Geraldine Chaplin que, em entrevista que li nos velhos tempos, declarou ler dois livros por semana. Ou seja, em dois meses, leria todos estes 16. E eu? Bem, em Três Passos, exigia-se, naquele tempo das exigências escolares, que o estudante de ensino médio lesse 300 páginas por semana. Poderiam ser dois livros de 150 páginas, ou até 300 livros de uma página cada, não é mesmo? Estes parâmetros servem para que eu responda a pergunta retórica que acabo de fazer: "e eu?".

Pois então. [Em ordem alfabética de título, desprezando os artigos a, o, the...]

.a. Antologia Poética, de Vinicius de Moraes. São Paulo: Companhia De Bolso, 2009.
.b. A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão. Porto: Sextante, 2013. [Este título me enganou... Mas tem algo a ver, pois Ulysses --de Homero-- passeou pelo litoral marítimo português. Algumas vezes, quando pratico um "erro de compra", forço-me a ler e, via de regra, colho resultados encantadores. E tem mais: o livro tem uma nota dizendo que não segue acordo ortográfico nenhum! Amei!!!]
.c. Cuentos Completos/1, de Julio Cortázar. Buenos Aires: Punto de Lectura, 2006.
.d. Hombres de Maíz, de Miguel Ángel Asturias. Madrid: Alianza, 2011.
.e. Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006. [Esta edição tem um lindo prefácio de Maria da Glória Bordini, zelosa encarregada da administração dos papéis veríssimos.]
.f. O Irmão Alemão, de Chico Buarque. São Paulo: Companhia Das Letras, 2014.
.g. O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2014. [Tenho o original em espanhol, que me parece duro na queda. Gosto do jeito como os portugueses escrevem, tanto é que estou lendo o "Ulysses" de James Joyce pela segunda vez (leitura de cabo a rabo, eis que a primeira ocorreu apenas com a tradução para o português de Bernardina da Silveira Pinheiro) E nem cogitei de comprar "O Jogo da Amarelinha", com medo que o brinquedo fosse vermos as pedrinhas jogando as crianças.]
.h. The Left Hand of Darnkess, de Ursula LeGuin. London: Orbit, 2006.
.i. Ulysses, de James Joyce. Lisboa: Relógio Dágua, 2014.
.j. Os Pecados da Tribo, de José J. Veiga. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2005.
.k. Os Sete Pecados Capitais, de Otto Lara Rezende e associados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. [Este é dos livros que, volta e meia, dou uma olhada, para ver em qual dos pecados estou-me especializando. Este 'estou-me' é uma homenagem aos livros de padrão Portugal de escrita pronominal].
.l. Trilogia della Fondazione, de Isaac Azimov. Milano: Oscar Mondadori, 2004. [Contém: Prima FondazioneFondazione e Impero e Seconda Fondazione.].

DdAB
Imagem aqui. Não sei o que pedi, mas estava cheios de imagens de cachaça, cangebrina, canjebrina, cangibrina, canjibrina, essas coisas. E também de Michel Temer. Só bebendo!

Apêndice:
Os livros que eu lia em 14 de maio de 2013 e pequeno relato dos fatores supervenientes.
.a. Para cima e não para o norte, Patrícia Portela. 2012. Rio de Janeiro: Leya.
Li todo, de cabo a rabo e realmente é uma variação sobre o Flatland (que li em outras paradas).
.b. Música ao longe, Érico Verísismo. 2006. São Paulo: Companhia das Letras.
Li todo, todinho lá por aqueles tempos mesmo. Desde então firmei o hábito, ou até antes daqueles eventos, de ler Érico Veríssimo no outono. Desde então, digo, li os sete volumes de "O Tempo e o Vento". E, como sabemos, estou lendo agora "Incidente em Antares".
.c. Os ratos, Dyonélio Machado, 2012. 2ed. São Paulo: Planeta do Brasil.
Larguei de mão. Dizem que é uma das obras primas do Rio Grande do Sul. Pensei em minhas primas, e achei que há algo de errado com o livro...
.d. Caravaggio, Leonardo, uma pilha empilhada ao lado do balcão da TV com poucos textos e muitas reproduções de pinturas, pintores. Inclusive Francis Bacon. E, há mais tempo, Mark Rotko. Muito pessoal este item .d., não é mesmo? Li e reli, volta e meia leio e releio e deixo sempre na pilha. E lerei.
.e. Eça de Queirós e o Século XIX, Vianna Moog, 1966. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Amei este livro. Tenho, desde então, tentado obter outros ensaios do velho Vianna Moog. Tem o "Bandeirantes e Pioneiros" que um dia destes desencavo de algum alfarrabista.
.f. O homem que calculava, Malba Tahan, 2004. Rio de Janeiro: Record.
Este livro também volta e meia vejo-o em minhas leituras. Leio daqui e dali e depois de algumas voltas levo-o de volta a sua prateleira, sua morada da qual se afasta cada once-in-a-while para haver-se comigo.
.g. Cycles of time; what came before the Big Bang?, Roger Penrose, 2010. London: Vintage. Este livro de Penrose é intrigante. Primeiro por ser dificílimo, parecendo ficção científica e, em seguida, por até onde entendi, contemplar a possibilidade assustadora (agora, depois não será mais) de sumiço geral. Um pluft-plaft-plum de dar inveja a Raul Seixas, um desaparecimento em regra. Voltarei a ele, assim que tiver coragem, pois não o declarei terminado. Mas tirei-o da pilha de "leituras em andamento".
.h. História de pobres amantes, Vasco Pratolini, 1963. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Esta foi a quarta ou quinta vez que tentei ler este livro lindo velho da velha Civilização Brasileira, com aquelas lidas capas de Eugênio Hirsch.
.i. Obras em colaboração, Jorge Luis Borges, v.1, 2002. c. Lisboa: Teorema. (Este c. local fui eu que inventei agora, não será?). Foi muito criativo aquele c. Lisboa, mas o fato é que não consegui dar-lhe seguimento. Um dia devo retomá-lo.
.j. The rule of war, Aoife Feeney, 2011. Cork: Somerville. Este livro adquiri-o em minha visita a Dublim há milhares de anos. Não consigo passar de uma passada de olhos por onde já os passei e deixo tudo por isso mesmo. E o nome da autora, por ser irlandesa, pode ser pronunciado de maneiras as mais insuspeitas. Podem não acreditar, mas vi (ou penso ter visto) uma placa de trânsito perto do Jardim Botânico local com caracteres extraordinários e que se pronunciava: "O cachorro, da, dona Zizi de, Jaguari". Com vírgulas estranhas. Cada uma!
.k. O livro do caminho perfeito (Tao Té Ching), Lao Tsé, 2006. São Paulo: Pensamento-Cultrix. O caminho perfeito terá que esperar ainda mais por minhas passadas.
.l. Gardel es uruguayo, Carlos Arezo Posada (org.), 2012. Montevideo: De La Plaza. Não li e nem sei se o farei. Saiu da pilha.
.m. The book of imaginary beings, Jorge Luis Borges, 1974. London: England.
Por aqui dei umas olhadas e depois joguei de volta a sua estante de moradia.
.n. A república, Platão, 2004. São Paulo: Martin Claret. Logo eu lendo Platão? Era eu mesmo?
.o. O resto é silêncio, Érico Veríssimo, 1981. Porto Alegre: Globo.
Também li na ocasião. E tenho o compromisso de voltar a lê-lo in due time.
.p. Olhai os lírios do campo, Érico Veríssimo, 2007. São Paulo: Companhia das Letras. Da mesma forma que "O Resto é Silêncio", li, reli e voltarei a reler este "Olhai os Lírios..."

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Divagando com Paris: vida, morte e todo o resto


Querido diário:

Discutindo temas transcendentais com a profa. Paula de Paris durante uma de suas agradáveis (e suarentas) aulas de musculação (51+9144.9146, professora de Pilates e personal trainer), falamos sobre a finalidade da vida. Finalidade da vida? A morte, claro. A vida não finaliza quando a gente nasce, não é mesmo? Mas vida rima com morte de maneira interessante, conforme expressa um pensamento muito maneiro que li naquele tempo em que a revista Ciência Hoje, da SBPC era vendida em bancas. Originou-se ele, pensamento, de uma entrevista, ou algo menos pessoal, que lhes deu -se bem lembro- um médico, professor da Unicamp:



Viver como se fosse morrer amanhã. 
Estudar como se não fosse morrer nunca.

Parece que achamos, sem maiores esforços (a não ser o que despendi adquirindo a revista em um tempo em que o nome da moeda girava mais que as estações do ano), a chave da felicidade: a busca do conhecimento que nos é cedido pela meditação e pelo estudo (rodapé 1).


O começo, nada pode ser mais começo do que o parágrafo inicial de um livro. Selecionei, então, o que consta da página 13 do livro de Cirne-Lima (rodapé 4):


De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido do mundo e de nossa vida? O universo teve um começo? Terá um fim? Há leis que regem o curso do universo? Estas leis valem também para nós? Podemos desobedecer a estas leis? O que acontece quando desobedecemos a elas? Há recompensa e castigo? Há existência após a morte? Pode-se pensar, sem contradição, uma vida eterna, uma existência após a morte? Pode haver um tempo depois que todo tempo acaba? Pode haver um depois após o último e definitivo depois? Afinal, o que somos?

Se me não faltarem os camonianos engenho e arte, em particular, força de impulsão e imaginação criativa, pretendo -como tenho anunciado a agentes decisórios próximos- escrever, no devido tempo, "um depoimento sobre meu tempo". Não quero dizer ter deixado que outros passassem em branco, sem registro, apenas assinalados por feixes de neutrinos que perpassam muitos dos bares que frequentei na tentativa de expandir minha compreensão do mundo e, como tal, qualificar o agora já famoso depoimento.

Tudo indica que, se isto vier a acontecer, que iniciarei, que o capítulo inicial terá algo como "O Significado da Vida" para título, que me cheira até a um filme do grupo Monty Python (rodapé 2). Se tivesse que pagar royalties a alguém por usar este título para o capítulo inicial de tão escabelado depoimento, creio que deveria buscar os herdeiros dos filósofos gregos que, naturalmente, terão indagado esta questão em sua tenra infância. A mensagem central será: se na hora da morte nos acorre o desejo de sentir a empatia de outros, próximos ou profissionais, também devemos fazer com que este sentimento tome conta de nossa vida, voltando-se a terceiros, que vivam bem, que sejam felizes.


Não é de hoje que penso neste assunto da "finalidade da vida". Por exemplo, lembro de, em eras passadas, ter duas reflexões sobre o assunto, uma mais direta que a outra. Uma minha, outra de uma das irmãs.

De minha parte, caiu-me para escrever uma composição naqueles tempos do Colégio Estadual Júlio de Caudilhos, era o ano de 1965. O tema era


Ao morrermos só levaremos o que houvermos dado

Não lembro bem o que escrevi, claro, mas lembro de ter saboreado o jogo entre darmos e assim mesmo carregarmos. Claro que o primeiro item, levar algo conosco depois de descoberto o memento mori, é arriscado, mas se dermos, se formos altruístas, se exercermos empatia sobre os outros, poderemos ter um final mais feliz que o do avarento.

Pois minha irmã, estudante do Colégio Estadual Pio XII, naqueles tempos, tomou contato com a reflexão sobre nascer, viver e morrer (para o espiritismo, o pensamento completo era nascer, viver, morrer, renascer ainda, tal é a lei):

Quando nasceste, tu choravas e todos os demais sorriam. Faze de tua vida um espetáculo em que, durante tua morte, todos chorem e apenas tu sorrias.

Freud, que não era qualquer um, tem as seguintes reflexões que me foram passadas há anos (olhar aqui), ao ler Moacyr Scliar no caderno "Donna", página 6, de Zero Hora de 1st de novembro de 2009, domingo. Era o dia de finados. Falava-se sobre morte, finados e Freud:

E aí a pergunta emerge: o que podemos dizer a nós mesmos para afastar o espectro que teimosamente nos persegue? Numa entrevista dada ao jornalista americano George S. Viereck, disse Sigmund Freud: 

'Vivi mais de 70 anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas: a companhia de minha mulher, meus filhos, o por-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?'.

Eu mesmo disse o seguinte (mas, ao ler ali em baixo aquilo de 'palidez final', fiquei em dúvida se é mesmo texto de minha autoria): Estava Freud mentindo a si próprio? Estava desempenhando o papel que o mundo (ao menos o mundo psicanalítico) esperava dele, o papel de supremo guru? Pode ser. Não sabemos o que terá ele pensado, ou sentido, no momento do derradeiro suspiro, da palidez final. O que podemos fazer é falar ou escrever, é transformar nossa ansiedade em palavras.

E acho que, nestes quase seis anos, alcancei a compreensão de outras coisas mais relevantes sobre o tema. Um livro que se tornou importantíssimo para mim e que já li duas ou três vezes, cada vez com mais proveito (rodapé 3) é este de Yalom. Em sua página 17, lemos:

[...] Em meu trabalho clínico cheguei à conclusão de que uma pessoa pode reprimir não apenas a sexualidade, mas também todas as suas características humanas e em especial a sua natureza finita.

E isto liga com o resumo que fiz no final do livro, na página 212, com certas ediçõezinhas de minha parte:

Se entendermos nossa finitude, iremos:

.a. saborear o simples prazer de existir (dar sentido à vida)
.b. intensificar nossa compaixão por nós mesmos e pelos outros.

E na página 16 tínhamos: não ter consideração pelos outros [isto é, ser malvado] é uma forma de aplacar o pavor da morte. Por isto é que devemos ser bondosos, desenvolver empatia com relação a pessoas próximas e mesmo as distantes. Mas a questão é: como aplacar?  Talvez o primeiro pensamento de elevação do astral venha mesmo desta frase de Yalom:

Achatar [é um termo dele!] a racionalidade, excluindo nossa reflexão sobre o tema da morte, provoca o encolhimento de nossa vida interior.

E, na página 25, fala de uma paciente que sofria muito com o medo da morte aos cinco anos de idade, quando uma noite especialmente difícil procurou a mãe que lhe disse:

Você tem uma longa vida pela frente e não faz sentido pensar sobre isto agora. Quando você estiver muito velha e se aproximando da morte, estará em paz ou doente, e em nenhum dos dois casos a morte vai ser mal recebida.

Não é de agora que ando metido no tema, pois fiz dois conjuntos de teoremas sobre a idade. O primeiro é de um único princípio:

Nunca fui tão velho quanto hoje.

E o segundo se decompõe em três proposições auto-evidentes:

.a. é certo que vou morrer,
.b. é certo de que será de alguma causa,
.c. é certo que ficarei furioso.

E por aqui, um tanto redundante, mas com certas novidades, escrevi:

.a. a inevitabilidade da morte : é certo que vamos morrer (fora o “será de algo” e “ficarei injuriado”),
.b. a liberdade de viver como desejamos: esta é mais fácil - apenas falta dinheiro e depois faltará saúde,
.c. condição fundamental de solidão: disto, nem se fala. ninguém jamais dará a outrem toda a atenção desejada,
.d. ausência de significado ou sentido óbvio para a vida: isto repete o primeiro. 

Mas talvez seja por estas portas que se atravessa a religião, o oculto, essas coisas. Ateu como se declara no livro, há outra frase interessante do próprio Yalom sobre si mesmo na página 164. Indagado por um paciente sobre como lida com a morte, respondeu:

Tenho meus surtos das três da manhã com angústia de morrer também, mas acontecem muito menos agora, e, conforme envelheço, encarar a morte tem tido alguns resultados positivos. Sinto mais intensidade em minha vida. A morte me faz viver mais cada momento, valorizando e apreciando o puro prazer de estar consciente, de estar vivo.

Mas ainda tem mais Yalom (página 112). Sempre tendo presente que vencer a angústia/consciência da morte próxima ou longínqua é o melhor incentivo para procurarmos viver uma vida produtiva. Uma paciente terminal, em um grupo de pares, inconformou-se com a falta de perspectiva daquela gente. Ela deu-se conta de que a finalidade da vida pode ter uma forma de aproximação útil:

Decidi que há, apesar de tudo, uma coisa que ainda posso oferecer. Posso oferecer um exemplo de como morrer. Posso servir de exemplo para os meus filhos e amigos ao enfrentar a morte com coragem e dignidade.

Mudando de Yalom para Thomas Nagel [rodapé 5], no final do livro, no capítulo que fala da teleologia humana (a finalidade de nossas vidas):

[...] vou retornar às dimensões menores da vida humana. Mesmo que a vida como um todo não tenha sentido, talvez não haja motivo para nos preocupar. Talvez possamos reconhecer isso e simplesmente seguir como antes. O truque é manter os olhos no que está à sua frente e deixar que as justificativas se esgotem na sua vida e na vida das pessoas que estão ligadas a você. Se um dia chegar a indagar: ‘Mas qual é o sentido de estar vivo, afinal?’ – seja você um estudante, um garçom ou qualquer outra coisa – responda: ‘Não há sentido algum. Não faria diferença se eu não existisse, ou se não me importasse com nada. Mas eu existo e me importo. E isso é tudo.

Acho que isto fecha mesmo com aquelas outras reflexões sobre "o sentido da vida é dar significado à vida". Na finalidade última, dei-me conta, de acordo com o depoimento num grupo terapêutico de Yalom de uma velha senhora eneagenária com câncer terminal, que o importante, naquele caso, é ter uma morte digna, diz ela: "para dar um bom exemplo aos amigos e parentes".

Sei que isto não é tudo... Mas acho que também entra na parada o "otimismo construído": precisamos acreditar que estas racionalizações nos ajudam a viver bem. E precisamos viver bem para dar razão às racionalizações! Não quero amarelar na hora H, não quero apequenar-me em momento tão solene de minha vida, quero deixar --disse a velha senhora-- um bom exemplo aos amigos e parentes. Nesta linha também tenho o depoimento da tia que me foi transmitido pela dra. Carmen Daudt: "quero fechar com chave de ouro o livro de minha vida." Também quero. O fato é que eu existo e me importo com o que fui e como deixarei de ser. E isso é tudo.

DdAB

Imagem: ver finalzinho da nota de rodapé (1), mas não consegui alcançar a página original, embora tudo estivesse prometido aqui.

Rodapés:

(1) Coloquei esta frase ipsis litteris no Google e vieram 411.000 entradas. Natural, claro, mas o que me surpreendeu é que, já nas primeiras entradas, são citados -pela ordem de importância e charme- este blog, James Dean e Mahatma Gandhi. Pois então. Depois de dar uma olhadas nas fontes da frase charmosa, pedi as imagens correspondentes. Esta que vemos lá em cima estava entre as primeiras. Selecionei-a, pois parece-me uma foto de campeões. Não é qualquer um que consegue ver tanta simetria, tanta linha, tanta vida, tanto sonho, tanta vida, tanta harmonia, tanta vida. Tanta vida. E capturar tudo em 25cm^2 de papel.

(2) Não sou 100% inteirado da obra do grupo de performances nonsense britânico/britânicas, mas achei a referência a este título de filme aqui.


(3) YALOM, Irvin D. (2008) De frente para o sol; como superar o terror da morte. Rio de Janeiro: Agir. 

(4) CIRNE-LIMA, Carlos Roberto  (2003) Dialética para principiantes. 3ed. São Leopoldo: Unisinos. [De acordo com Eduardo Grijó, esta é uma introdução à filosofia, dando conta do recado até a era de ouro. E o livro de Richard Rorty's "A filosofia e o espelho da natureza" seria o da filosofia do século XX.


(5) NAGEL, Thomas (2007) Uma breve introdução à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.