domingo, 28 de junho de 2015

Matriz de Contabilidade Social: uma aula que já devia ter rolado

(Estas duas são farinha do mesmo saco, com diferenças um tanto óbvias na forma de articular as diferentes contas; veja-se o ponto de contato nos pagamentos dos fatores e no bloco B33)

Querido diário:

Como sutilmente diz o subtítulo desta postagem, vou fazer uma exposição didática da matriz de contabilidade social. As imagens não estão lá grande coisa. Mas podemos vê-la com mais qualidade na página 27 e na Tabela 3.5 da página 107 de:

BÊRNI, Duilio de Avila e LAUTERT, Vladimir (orgs.). Mesoeconomia; Lições de Contabilidade Social. A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Porto Alegre: BookMan, 2011.

E decidi fazer aqui, para o presente e para futuras referências, e mesmo para as milhares de vezes em que falei nela e apenas remeti para outras coordenadas. A frase que vou dizer agora infelizmente não é de minha autoria, mas não lembro de onde veio: qualquer modelo econômico que desrespeite verdades contábeis é um lixo. A matriz de contabilidade social MaCS é uma peça da mesoeconomia que abarca as identidades básicas da macroeconomia. A postagem que pode ser lida ao se clicar aqui mostra o primo irmão da MaCS, nomeadamente, a versão completa do fluxo circular da renda. Então comecemos.

O painel (a) da figura bem lá de cima é a estilização de um empate num jogo da velha. O 'x' jogou cinco vezes e o '0' jogou quatro. Mas aquele empate é muito sabido, pois mostra os cinco blocos que serão avançados no painel (b). Mas para falar amplamente deles, os cinco blocos destes dois 'boxes', precisamos saber um monte de coisas.

Primeiro, precisamos saber que, no afã de agregar preferências sociais, a sociedade se articula em torno de muitas organizações políticas, sociais, econômicas, culturais, religiosas, sindicais, tantas, tantas. Das organizações econômicas, destacam-se três: os produtores de mercadorias (nas sociedades não monetárias, podemos falar em produtores de bens e serviços não mercantis), os locatários dos fatores de produção e as instituições. Por que 'locatários'? Pois os fatores de produção, como a capacidade de trabalho de um carpinteiro e as habilidades aplainativas uma enxó, não são intrínsecas aos membros da família de Bina (e Dino e mais outros, se for o caso). As famílias de fato detêm a propriedade dessas habilidades, mas não levam as pessoas ou as máquinas ao mercado para vendê-las (lógico que não estamos falando no mundo escravista ou num mundo em que a enxó foi comprada na ferragem da esquina). O que as famílias levam ao mercado são as habilidades, ou melhor, os serviços dos fatores e as/os alugam. Por isto, alocam os serviços dos fatores por períodos determinados. No fim do expediente, Bina e Dino voltam a casa com seu dinheirinho debaixo do braço. E quem  são as instituições? São as famílias propriamente, o governo e as empresas nacionais ou estrangeiras que absorvem a produção.

Então já falamos nos agentes, os produtores, os fatores e as instituições. E podemos avançar falando que essas três organizações relacionam-se por meio da ação em três mercados: o mercado de bens (e serviços), o mercado dos (serviços dos) fatores e o mercado dos arranjos institucionais (inclusive os monetários). E quem atua no mercado de bens? Os produtores ofertam esses bens e serviços e as instituições os adquirem. E no mercado de fatores? As famílias ofertam os serviços dos fatores (e mais o governo e as empresas nacionais e estrangeiras) e as empresas os contratam. E o mercado dos arranjos institucionais? Nele as instituições ofertam os tais arranjos (lei, ordem, propriedade privada, dia feriado, etc.) e os fatores pagam-nas enviando a renda que obtiveram no mercado de fatores.

Lá naquele painel (b) vemos três números dentro do quadro: 600, 1.000 e 200. E vemos nas margens precisamente aqueles três grupos de agentes: produtores, fatores e instituições. Então aquela tabelinha está permitindo-nos ler cada cifra, digamos, aqueles D$ 600 como o dinheiro que os produtores pagaram a si próprios na compra de mercadorias.

Tá na cara que o produtor que produziu milho não vendeu o milho para si próprio, mas para um padeiro ou um criador de suínos. E aqueles D$ 1.000 postados sob os D$ 600. Ele está dizendo agora que os produtores pagaram D$ 1.000 aos fatores de produção. E por que teriam pago? Pois contrataram os serviços desses fatores, nomeadamente, trabalho e capital. Então torna-se claro que estamos falando em 'contas', os lançamentos da contabilidade que orientaram a construção da MaCS, ou seja, dando-lhes forma de matriz.

E, por convenção contábil, escrevemos as receitas, créditos ou vendas nas linhas e reservamos as colunas para registrar as despesas, débitos ou compras. Tal foi o caso das vendas dos D$ 1.000 pelos serviços dos fatores aos compradores que, no caso, foram os produtores. Aprendi com um aluno que esta contabilidade usada pelos economistas é o que os contadores chamam de "contabilidade bancária" (e pouco ou nada mais sei...).

E que dizer daquele conjunto de D$$ 1.000, D$ 1.000 e D$ 1.000? Bem sabemos que 1.000 = 1.000 = 1.000 e, para não ficarmos nesta trivialidade, diremos que eles estão mostrando as três óticas de cálculo do valor adicionado, no caso, o produto, a renda e a despesa. Então, o valor adicionado é diferente entre a distância entre mim e a tela, que tem duas óticas de mensuração: a distância que minha mão percorre até alcançar a tela e a distância que a mão da tela percorre até me alcançar. Pode-se dizer que o valor adicionado é criado pela sociedade, o produto é gerado pelos produtores, a renda é apropriada pelos fatores e a despesa é absorvida pelas instituições.

Então que é mesmo que dizem daqueles D$ 1.000 do que acabamos de chamar de despesa final exibidos na penúltima célula da primeira linha do painel (b)? Foram as receitas dos produtores ao vender aquela quantia às instituições, ou seja, a despesa das instituições. E de que se compõem essas compras feitas pelas instituições? As famílias compram bens de consumo, o governo compra bens de consumo do governo, e as empresas nacionais compram bens de capital (a enxó) e também compram bens importados, ao mesmo tempo em que têm parte de sua produção vendida ao estrangeiro. Claro que aqueles D$ 1.600 do final da primeira linha representam as vendas que os produtores fizeram para si próprios (os 600) e para a demanda final (as famílias, o governo e as empresas absorvedoras da produção).

Com os D$ 1.600 estamos descrevendo a composição do valor da demanda total (a intermediaria, os $ 600 e a final, os $ 1.000) da economia. E vemos sua transposta também tendo como total os $ 600 que se constituem a oferta total feita pelos mesmíssimos produtores: $ 600 para si próprios e $ 1.000 de pagamento pelo aluguel dos serviços dos fatores de produção que criaram o valor adicionado aqui medido pela ótica do produto. Se esta maravilhosa igualdade entre oferta total e demanda total aconteceu ontem, falamos que estes sistema testemunhou seu equilíbrio realizado (ou ex post). Não nos deve surpreender que tenha havido este tipo de equilíbrio, pois para cada compra sempre haverá uma venda, ou então não houve compra, não é mesmo? Esta é a dualidade básica das economias monetárias.

E se prevemos que amanhã as vendas também serão de $ 1.000? Neste caso, as compras também serão $ 1.000, né? E estarão indicando os níveis das variáveis ao qual ocorre equilíbrio planejado (ex ante). E parece óbvio que os produtores têm o maior interesse em adivinhar este nível de produção em que venderão tudo o que produziram, não formando estoques indesejados.

Pois então. Temos identificados os agentes econômicos (produtores, fatores e instituições), os mercados em que eles atuam (de bens e serviços, de serviços dos fatores e de arranjos institucionais), sabemos quem oferta bens e serviços (os produtores) e quem os demanda (as instituições), quem oferta serviços dos fatores (as instituições) e quem os demanda (os produtores) e quem oferta arranjos institucionais (as instituições) e quem os demanda (os fatores). Mundo idílico em que tudo transita pelo mercado. Mas não precisaria ser assim, pois poderíamos inserir entre os produtores o setor de produção doméstica, entre os fatores o trabalho informal e entre as instituições o trabalho voluntário informal, essas coisas.

Muita coisa do que dissemos ao comentar o painel (b) daquela figura lá de cima está resumida precisamente no painel (c). Em cada célula vemos a descrição da variável macroeconômica que nela se insere, aqueles R$ 1.000, R$ 600 ou R$ 100. É bom termos bem claro o que consta em cada célula, ainda que um tanto ilegível...

E aquela matriz de contabilidade social mais completa postada logo abaixo dos três painéis cujos conteúdos já examinamos? Ali as deficiências da resolução de meus desenhos deixa as coisas mais complicadinhas. Mas, mesmo assim, vemos alguns traços básicos já retratados nos painéis anteriores.

Por exemplo, aqueles produtores, fatores e instituições dos painéis (b) e (c) estão bem lá no lugar deles. Só que, agora, vemos algumas subdivisões. Desde o painel (a) eu estava com vontade de me referir a eles como "blocos" e designá-los por B11 (que não se pronuncia bê-onze, mas bê-um-um), quando estive falando das vendas (nas linhas) que os produtores fizeram a si próprios (sinalizando as compras nas colunas). E que diabos de vendas são estas? São as matérias primas utilizadas pelo sistema. Costumam chamá-las de insumos intermediários, contrastando com os insumos primários. Os intermediários são produzidos pelo próprio sistema, ao passo que os primários já estavam disponíveis antes da rodada produtiva iniciar.

Abaixo deste bloco B11, temos o bloco B21 (ou seja, segunda linha e primeira coluna). Nele estão apontadas as vendas dos fatores aos produtores, ou seja, os serviços dos fatores trabalho e capital. Na linguagem do IBGE, fala-se em "Remuneração dos empregados" (RE) e "Excedente operacional bruto" (EOB). Em outras configurações da MaCS, neste bloco também seriam postados os impostos indiretos líquidos de subsídios (II-Su) e as importações (M). Assim, o bloco B21 da matriz modificada tem o PIB

PIB = RE + EOB + II-Su + M.

Na configuração que temos lá em cima, estas componentes II-Su e M estão postadas no bloco B13, ou seja, na terceira coluna da primeira linha. Mas ainda nã ovou falar nele, pois eu queria que todo mundo decorasse aquela encrenca das três óticas do valor adicionado na ordem produto-renda-despesa. O bloco B13 é o da despesa, né? E o já examinado B21 é o do produto, né? Então onde está a ótica do valor adicionado ainda não falada? Está no bloco B32, ou seja, na terceira linha, segunda coluna. Este comovente pedido prende-se ao fato de que, quando desenharmos o modelo completo fluxo circular da renda, veremos precisamente estes três pólos irradiadores da atividade econômica. Então: produto, renda e despesa são as três óticas de cálculo do valor adicionado. O produto é gerado pelos produtores, a renda é apropriada pelos fatores e a despesa é absorvida pelas instituições. Decora aí, sô.

Vejamos alguns lançamentos contábeis da tabela mais de baixo, que difere na forma da construção da anterior. Consideremos a primeira linha. A primeira cifra é 48,7, representando as vendas que a Agropecuária faz para si própria. A seguinte, ao logo da linha, é mais interessante: a Agropecuária vende 146,1 para a Indústria. A interseção entre a segunda linha e terceira coluna diz que a Indústria vendeu 234,1 para os Serviços (digamos, câmaras frigoríficas, táxis). E assim por diante.

No bloco B31, a sexta linha da tabela também tem detalhes maravilhosos. Em seu total de 319,5, temos a receita das famílias pobres e sua composição. Estas ganham 251,6 de salários e lucros de 30,0 (talvez resultantes de atividades de pequeno comércio, algum auto-emprego, etc.). Pulando para o bloco B33, temos as informações mais interessantes, ainda compondo a receita das famílias pobres. O valor de 6,0 representa a primeira das diversas transações interinstitucionais, análoga às transações do bloco B11, que tem as transações interindustriais. E que ela representa? Por exemplo, pais pobres ajudando filhos pobres ou filhos pobres dando uma mesada para os pais pobres. Mais adiante, romanceando um pouco, seria os filhos que "enricaram" ajudando com 5,6 os pais que permaneceram na roça. E que fazem aqueles 26,2 creditados às famílias pobres e debitados ao Governo? Possivelmente são auxílio desemprego, bolsa família, pensões e aposentadorias, as transferências governamentais. O total da receita dos pobres é de 319,5.

Olhando em conjunto essa mesma linha das famílias pobres com toda a coluna, vemos que elas adquiriram bens e serviços da Agropecuária no valor de 33,0, outros 130,0 da Indústria e mais 184,8 dos Serviços. E aqueles 40,0? Dinheirama em que o Governo meteu a mão, tipo aquele imposto de renda que mesmo quem ganha uma pensãozinha do INSS do Brasil de hoje paga, pois não há senso de progressividade neste tipo de tributação. E os impostos que os pobres pagam sobre suas comidinhas? Não estão discriminados nesta MaCS, pois aquelas cifras da arrecadação de impostos indiretos líquidos de subsídios do bloco B31 não individualiza os destinos dos recolhimentos setoriais. Mas claro que o Governo sabe isto, por outras vias e se orgulha de fazer os pobres pagarem mais, proporcionalmente a sua renda do que os ricos... Voltando à crua realidade dos números, sem paixões distributivistas, percebemos que a poupança dos pobres é negativa, ou seja, eles estão subsidiando a poupança dos ricos, não é isto? Por fim, aquela receita de 319,5 foi identicamente igual ao valor que lemos no final da coluna em que se detalha a despesa das famílias pobres.

DdAB

Governo dos Homens e Administração das Coisas


Querido diário:
Dedicado ao Comentador Teixeira

Nesta postagem daqui, recebi um comentário que me fez ficar pensando se devia ou não expressar minha verdadeira opinião. Aqui falei algo e recebi como resposta que, quando surgisse a oportunidade, eu deveria falar a respeito, não mais que destinado a acicatar a discussão. Com charmosa modéstia, o Comentador Teixeira disse: Se aparecer a oportunidade, comente mesmo. Assim vou buscando entender o muito que não sei." Não sei se também soa como charmosa minha perfeita crença que o mesmo acontece comigo. Já andei falando em uma dessas minhas já quase 2000 postagens numa frase (motto) que li (aqui, com o doce comentário de Maria da Paz) numa velha revista Ciência Hoje: viver como se fosse morrer amanhã, estudar como se não fosse morrer nunca. (E agora mesmo acabei de ver que milhares de pessoas disseram esta frase, até jogador de futebol).

Teixeira falou sobre as preocupações dos neo-liberais em, entre outras coisas, quererem implantar o estado mínimo. Reconheço que poderia eu aqui estar distorcendo o contexto em que este comentário foi tecido (ou interpretado). E, se não cheguei no ponto relevante, peço clemência por deixá-lo de lado, tomando-o apenas como escusa para falar mais sobre minha visão relativa ao tempo presente. Baseada, claro, naquilo que considero ser um futuro decente.

Eu, sempre com minhas dúvidas sobre se me acham de esquerda, fiquei preocupado, pois considero que nós, da extrema esquerda, queremos mesmo o estado mínimo, na verdade, queremos é o estado nulo, pois queremos destruí-lo e criar um tipo de sociedade em que a presença do estado será desnecessária. Nunca fui de ler muito sobre esta visão, embora, em minha tenra adolescência, eu tenha lido "O Estado e a Revolução", do velho Lênin. E lembro do exemplo que ele deu sobre um velhote sisudo apartando a briga de dois garotos levados: não precisa de polícia nem estado, nem nada. O cidadão responsável substitui, com enormes vantagens, o aparato repressivo governamental. Mas isto é bem diferente daquele "estado mínimo" que quer mesmo é submeter as classes populares e que usa todos os mecanismos de que dispõe (autoritariamente ou não) para fazer a distribuição da renda pender para o capital, em detrimento do restante da sociedade (trabalhadores empregados e desempregados e indivíduos alheios ao mercado de trabalho, como os doces velhinhos aposentados).

Depois tem a frase que também volta e meia me retorna à lembrança e que usei no título da postagem. Sempre pensei ser de Marx, mas nunca achei a referência. Dando uma olhadinha aqui e ali no próprio blog, vi que referi a Saint-Simon, um dos "socialistas utópicos" daqueles tempos. E escrevi :

[...] claro que quero substituir o governo dos homens pela administração das coisas, mas não deste jeito reacionário, preocupado em reduzir os impostinhos dos burguesinhos! por fim, se é que é para ter impostos e não prejudicar a alocação de recursos (ou seja, no mercado dos fatores), devemos retirá-los do bloco B21 da matriz de contabilidade social, ou seja, isentar os produtores. mas não podemos isentar as instituições, que -de acordo com esta conceptualização- são as proprietárias dos serviços dos fatores levados aos mercados de fatores (trabalho e capital). ou seja, cobrar impostos indiretos causa distorções alocativas. cobrar impostos diretos gera outras distorções que não são de interesse para a discussão. [aquele negócio de afetar a "capacidade de trabalhar" é um dos maiores lixos culturais da história da ciência econômica!].

Há vários dias comecei esta postagem e a falta de tempo e inspiração levou-me a jogá-la para frente, o que me deixa frente a ela agora. Neste meio tempo, ouvi falar do Fórum 21 (alguma coisa aqui), uma tentativa de articular os intelectuais de esquerda do Brasil. E sei que a sucursal porto-alegrense está em vias de vir à luz. Neste clima, criei a imagem de que ando tão, mas tão à esquerda dessa turma que até já me evadi do círculo trigonométrico de raio unitário. Confesso ao Comentador Teixeira e outros leitores do blog que, volta e meia, sinto-me acossado pelo medo de ser tachado de liberal (ver comentário do prof. Vanderlei à postagem que fiz aqui, um rapaz que disse absolutamente isto).

Ao ler há poucos instantes os comentários (entre os quais está o de cujus, vi o de Maria da Paz, feliz com o epíteto de "esquerda troglodita" para uma turma que bem conheço. Por exemplo, tem gente que quer a regulamentação da imprensa, discussão que me parece fora de foco neste momento em que o Brasil tem tanto problema requerendo a atuação de um governo decente. Tenho em mente os pais e avós dos meninos de rua e sua prole!; tenho em mente a impunidade, os altos vencimentos dos juízes, a roubalheira generalizada, a falta de motivação de um número expressivo de funcionários públicos, tanta coisa para um governo que fica extemporâneo pensar que este pode ainda liderar o setor produtivo do país), pensei novamente naquela imagem de que a turma do lado esquerdo do círculo trigonométrico não é a minha. Teremos, talvez, alguns pontos em comuns, talvez a defesa da democracia. Nem sei se temos em comum a defesa da liberdade como valor humano supremo.

Por exemplo, acho que trabalhar é um sacrifício e quando a turma pede "emprego e renda" tremo nas bases. Quem quer emprego podendo ter renda? Haverá muita gente querendo, claro. Mas devemos entender que muito emprego é inimigo da produtividade (pela própria definição de produtividade do trabalho, ou seja, PIB por trabalhador) e, além disto, a sociedade não gosta de desperdiçar horas de vida. Pelo menos foi isto que disse Marx. E aí tem mais coisas da esquerda trigonométrica: tem gente que até hoje não leu ou não entendeu os volumes 2 e 3 do Capital. Aliás, nem o volume 1, pois terá sabido apenas da seção 2.

Admito que tenho outros problemas a resolver para criticar mais acremente a tentativa de romper com o sistema. E isto tem a ver com os conceitos de fetichismo e alienação. Um dia prestarei contas de estudos que ainda farei sobre estes dois temas. Enquanto isto, vou querendo mesmo a maior participação dos "trabalhadores independentes livremente associados" nas economias monetárias. E vou querendo do estado a provisão (com produção pelo mercado sempre que possível) de bens públicos e bens de mérito. Em outra postagem (aqui) já falei sobre minha concepção de inserção crescente de bens de mérito como de oferta gratuita pelo setor privado (com provisão pública e universal, obviamente). Meu comovente exemplo é que o whisky de 13 anos terá provisão pública apenas depois que a bebida com 12, 11, dez, etc. seja acessível a todos. Para não falar em garrafas PET e as autênticas chinelas havaianas...

E vou dizendo mais. Aquele negócio de incentivar a indústria que a turma do círculo trigonométrico tanto deseja não me parece nem keynesiano nem marxista. Será então o quê? Não é keynesiano, pois no modelo do economista britânico quem manda é a demanda, ou seja, tudo é determinado pela demanda final. E a transposição para o modelo de insumo-produto é tão velha quanto myself, com um artigo de Richard Goodwin. Não é marxista, pois todo mundo que leu a primeira frase do volume 1 sabe que "a riqueza das sociedades humanas em que rege o modo de produção capitalista é dada por uma imensa acumulação de mercadorias". E, claro, depois aprendemos que mercadoria é apenas aquilo que foi vendido. Isto significa que, para incentivar a produção de mercadorias (o que Marx e alguns seguidores contemporâneos não querem; eu quero reformas que conduzam ao socialismo, mas nada de socialismo hoje), devemos incentivar que as produzidas ontem deem o salto mortal hoje!

Hoje é domingo. Vou parar por aqui. Deixo claro que meter mais governo para mandar nos homens é fria (ver mais aqui), onde há um ideário parcialmente fora do círculo trigonométrico, mas assentado sobre o eixo dos cossenos, à esquerda. E a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, como privatizar, como socializar? Vou parar por aqui.

DdAB
P.S. Minha próxima postagem será uma exposição da Matriz de Contabilidade Social, a que tanto me refiro e creio nunca tê-la exposto didaticamente. Fiz e faço e farei propaganda do livro em que ela é feita em picadinho, mas aqui no blog terei a oportunidade de reescrever todo o blim-blim-blim quase dez anos depois de ter comedo a envolver-me naquela encrenca de quase seis anos de duração, ou seja, acabou há precisos quatro anos quando o livro saiu:
BÊRNI, Duilio de Avila e LAUTERT, Vladimir (orgs.). Mesoeconomia; Lições de Contabilidade Social. A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Porto Alegre: BookMan, 2011.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Promover a Indústria 5


Querido diário:

Fiquei (e ficarei) alguns dias sem postar sobre o autor que vimos consultando desde aqui. Falou-nos ele em pelo menos oito razões para louvarmos a indústria como indutora do desenvolvimento econômico:

There are powerful empirical and theoretical arguments in favour of industrialisation as the main engine of growth in economic development. The arguments can be summarised as follows:

5. The manufacturing sector offers special opportunities for economies of scale, which are less available in agriculture or services.

Parece, pelos últimos estudos que fiz das economias de escala, que -nos dias que correm- fala-se muito mais em economias de tamanho e, com ele, escopo, ou seja, essencialmente, uma empresa grande é uma empresa diversificada. Este tipo de raciocínio manda-nos direto para... o setor serviços. Em especial, estamos falando no setor de intermediação financeira. Aquele meu sempre citado artigo de James Clifton e a visão de que a grande empresa (e a pequena não seria?) um banco sempre escaneando o mercado em busca de oportunidades lucrativas.

Ao encontrá-las, a empresa abandona o ramo de menor lucro com a mesma facilidade com que encontra condições de gerência para o outro negócio. Não se nega a importância da experiência, dos ganhos ao longo dos anos vividos em certos negócios. Não se nega o que -parece-me- Porter fala no primeiro mandamento como "conheça o ambiente de negócios". Ainda assim, o poder do tamanho se deve mais à diversificação do que ao aproveitamento de economias de escala na produção. Aliás, um expressivo número de indústrias tem retornos constantes à escala, não é mesmo?

Além disto, hoje em dia falar que a agricultura não tem o mesmo vigor nas economias de escala da produção é negar a escandalosa concentração de terras em todo o Brasil. Mas aqui vale-nos pensar naquela "agricultura de precisão", em que precisamente o tamanho é que faz a festa. E, na agricultura, terrinhas para soja, terrinhas para boi, terrinhas para a mandioca e assim por diante...

E nos serviços? Haverá maior prova do rompimento com as economias de escala tecnológicas que as vendas pela internet, o home-banking, essas coisas?

DdAB
Imagem daqui. Que será do queijo muzzarela Claf daqui a 20 anos? Duas hipóteses: uma é quebrar, outra é crescer e ainda tem uma que escondi: é ficar precisamente do mesmo tamanho, ou crescer, cair, crescer, cair de novo, etc. até ter o tamanho de 2015 em pleno 2035. E que será das outras milhares de queijarias que funcionam com honestidade e as que são fraudadoras do bem-estar público? A última descoberta não tem nem dez dias (aqui). E estou certo de que a equipe da Claf é uma das mais idôneas e criativas do pedaço, ergo deve ter um queijinho de primeira classe. Mas não nego que há outras famílias que abrigam ladrões, fraudadores e psicopatas.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Salário Mínimo e Salário Industrial



Querido diário:

Sangrar o governo é uma legenda que, se cumprida à risca, sangra o país inteiro. Usar o salário mínimo para indexar outras remunerações é uma aparente forma de beneficiar frações da população. A indexação da economia viveu seus dias de glória, induziu o aval de um ciclo inflacionário de mais de 30 anos e teve certo ocaso com o Plano Real, 21 anos atrás. Por outro lado, vincular o salário mínimo ao pagamento dos aposentados foi uma forma de esbulho. Nesse período, houve trabalhadores que acreditaram no poder indestrutível da indexação e que iriam receber um, dois, cinco, 10 “salários” por mês.

Por uma tradicional definição da macroeconomia, o salário mínimo é o principal instrumento de que o governo dispõe para regular o funcionamento do mercado de trabalho. Para ter efetividade, seu valor deve ser maior que o salário que vigoraria como resultado da livre negociação, em outras palavras, que vigoraria dado o excedente de oferta de mão de obra.

Uma vez que essa referência tornou-se uma espécie de número índice, ele perdeu a função de remunerar adequadamente os trabalhadores empregados. Ao contrário, sua função passou a ser assombrada pelo impacto causado por aumentos no orçamento público e pela responsabilidade fiscal (sem ironia...) de reduzir o déficit público.

Acicatado para esse brete, o salário mínimo, além daquelas funções, também perdeu o próprio nome: ele não é mais salário, pois os proventos de aposentado não são salário. Mas, se o desvario legislativo nacional insiste em assim chamá-lo, a solução é inventar um conceito correlato, criando o salário industrial. Com este, chega-se a uma cifra que causadora de uma falsa escassez de oferta de mão de obra e transforme o acicate em instrumento de pressão sobre as empresas para elevarem sua produtividade.

Sem ganhos substantivos de produtividade, a economia brasileira não dispõe de mecanismos endógenos para combater a própria inflação que corrói as aposentadorias e pensões. Mas não é apenas isto, pois a estagnação da produtividade é o sinônimo da estagnação econômica e, como tal, de ganhos generalizados no poder de compra da sociedade. Se o PIB do Brasil não crescesse a taxas rastejantes, os aposentados bem poderiam perder participação na renda nacional, mas terem um poder de compra bastante superior ao que vigora atualmente.

Claro que triplicar as pensões aos aposentados, multiplicar por mil as remunerações dos juízes e cargos em comissão é uma forma de malhar o governo, mas é, com este malho, uma forma de ajudar a forjar as maldades desta sucursal do inferno.

Se a motivação fosse mesmo beneficiar a população trabalhadora, não seria o caso de reduzir aqueles 75 anos de idade requeridos à aposentadoria? Não seria o caso de, em média, conceder aposentadoria apenas aos finados, que -aos 75- já estarão mortos há mais de dois anos. E a média dos homens lhes dá cinco anos de caixão...

Ao mostrar estas reflexões a nosso tradicional menino de rua, este apenas balbuciou que, neste ambiente, ninguém pensa no salário das professorinhas e, como tal, ninguém acha que ele mereça tratamento digno. Anuí.

DdAB
Imagem daqui.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Maldições Auto-Infligidas: o PT



Querido diário:

De repente, dei-me conta de que um grande azar para o Brasil e para o PT foi a unção de Eduardo Cunha como prócer e porta-voz da câmara dos deputados para assuntos de direita, de intolerância, de interesses discutíveis e da campanha pelo alto baixo-astral. Parece que uma destas iniciativas do ódio contra o PT e contra a sra. Dilma foi elevar a idade da aposentadoria dos juízes. Claro que, atrás deles, era certo que iria formar-se um trem da alegria daqueles de ligar o Oiapoque ao Chuí (se não caio em lugares comuns).

E daí? Pois daí é que:

.a. foi o presidente Fernando Henrique Cardoso que anuiu com estas proposta dos rapazes preocupados com o déficit previdenciário de elevar a aposentadoria do brasileiro para 75 anos de idade. Só imagino um domador de cavalos, um domador de crianças, um domador de bola de futebol, um domador do que quer que seja trabalhando aos 75. Só pode ser doido quem pensa apenas no déficit governamental, esquecendo as consequências deste tipo de iniciativa para especialmente a produtividade do trabalho.

.b. foi o presidente Lula da Silva que manteve esse despautério etário.

.c. foi a presidenta Dilma que idem, idem.

E são os jovens que ajudam a pagar esta conta. Já com taxas de desemprego significativamente maiores que os "mais velhos", agora mesmo é que não terão vez (ou terão menos vez) nas repartições públicas e nas empresas privadas.

Em parte, por maldade, fico rindo, pensando que esta é uma vingança dos fatos. E em parte, por masoquismo, fico pensando que foi uma vitória das forças do mal.

DdAB
Imagem daqui.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Farsa do PT



Querido diário:

Hoje em dia, em plena era da velocidade, do tudo rápido, do fast food, para ganhar tempo a história já vai se produzindo diretamente na condição de comédia (Marx aqui; Aécio aqui), deixando a tragédia para precisamente os mesmos, digamos, os 70% mais pobres do Brasil. Em compensação, os últimos eventos do mundo político tiveram, por um lado, o 5o. Congresso Nacional do PT ocorrido entre 11 e 13 de junho corrente. E, por outro, as declarações que se sucederam. Tudo começou com a de Lula, na página 8 de Zero Hora de hoje. Cito "Recados, ataques, desabafos" da página 9:

   Precisamos construir, porque hoje a gente só pensa em cargo, só pensa em emprego, só pensa em ser eleito. Ninguém trabalha mais de graça.
   Não sei se o defeito é nosso, se é do governo. Eu acho que o PT perdeu um pouco a utopia.
   O PT precisa voltar a falar para a juventude. O PT está velho. Eu,que sou a figura proeminente do PT, tenho 69 (anos), estou cansado, já estou falando as mesmas coisa que falava em 1980. Fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido (...), colocar gente nova, que pensa diferente, mais ousada.
Os dois parênteses estão no original.

Claro que aí não se resume toda a cultura humana desde a primeira bactéria. Mas não posso deixar de brincar com:

.a. no mínimo desde 1989, fui simpatizante do PT e nunca, nunca de núncaras, fui sequer convidado a entrar no partido. Quando Collor ganhou a eleição, eu, em desagravo, iria filiar-me. Peguei o fusca de minha irmã e fui até a Av. João Pessoa, esquina Rua Sebastião Leão. Não havia vaga para estacionar, o que me levou a mudar de ideia e não filiar-me a nada. Quando ocorreu o plebiscito das armas, achei ridículo fazerem aquela pergunta e me decidi pela desobediência civil e parei de votar, umas duas ou três eleições, se bem conto. Quando, há quatro anos e meio, Dilma quase empatava com Serra na campanha eleitoral, preparei-me para votar no segundo turno, dar minha contribuição àquele projeto em que nem sequer mais acreditava. Pois não aceitaram meu voto. Depois, das as esdrúxulas regras constitucionais brasileiras, queria renovar meu passaporte. Não pude, pois precisava provar ser "em dia" com as obrigações militares e eleitorais, logo eu, um pacifista e desgostoso da política. Tive que pagar uma multa à -assim chamada- justiça eleitoral (também devem ganhar fortunas os juízes...). E depois venho votando nessa malta (ver, por exemplo, aqui e, mais agressivinho, aqui; não que o Raul o seja, mas ele faz parte da farsa há muitos anos).

.b. Na hora não notei, levei um ano ou até quatro para fazê-lo. Quando Olívio Dutra elegeu-se prefeito, acho que ele devia ter feito eleições dentro de todas as repartições municipais para determinar as chefias do programa de trabalho sobre como implementar a lei do orçamento. E não aparelhá-lo com cargos e comissões, indicações e CCs. Claro que ser governo é complicado, mas um partido decente deveria ter um plano decente de tomar o governo e não ser tomado pelos oportunistas. O PT fracassou e bem sei disto há muito tempo.

.c. Eu, que sou uma figura proeminente do Planeta 23, fiquei pensando que talvez esteja mesmo velho para dar soluções como reformador ao futuro do Brasil. Ainda assim, não me contenho! Penso que a saída é fortalecer o poder judiciário, substituindo a atual malta por estudantes de direito vinculados à empresa júnior de alguma universidade de um dos países decentes. Não me lembro se há cidades abandonadas no Brasil, exceto as que jazem sob o leito de certas barragens de produção hidrelétrica. Sugiro mesmo fechar a hidrelétrica, cercar a cidade fluvial, meter todos os criminosos em seu núcleo e fazer uma cerca de arame farpado duplo para impedir os escapamentos. E contratar policiais suecos para administrar a encrenca.

E agora parou a brincadeira: passo a citar uma declaração de Olívio Dutra, meu stalinista preferido. Mas que o homem é bom, não há dúvida. E que está na contramão do PT pelo menos desde que foi apeado do ministério das cidades, ou o que o valha. A rigor, creio firmemente que ele está na contramão há muito mais tempo que este episódio de sua vida. Diz o Bigode (o lá de cima é o original staliniano):

-Que bom que Lula está dizendo isso, mas ele esteve no congresso (nacional do partido, em Salvador no começo do mês) e não foi tão enfático. O PT perdeu uma grande oportunidade de se reavaliar, de dizer para o povo brasileiro que teve gente importante nos seus quadros que errou feio e, em parte, por frouxidão das instâncias partidárias - opinou o ex-governador Olívio Dutra.
Parênteses e itálico do original.

Que digo? Já disse isto mil vezes e acabo de fazê-lo: o partido deixou-se predar, transformando-se em partido de ladrões. E por fim, que não tem fim? Carolina Bahia na página 21, em sua coluna tradicional, tem:

Lula e a água no pescoço
Depois de jogar água fria na fervura dos petistas durante o congresso do partido, agora Lula resolveu atiçar a militância. O que mudou? O presidente da Odebrecht foi preso na Operação Lava-Jato e há o claro temor de que as investigações cheguem ao próprio Lula. Sentindo a água no pescoço, o ex-presidente quer a militância mobilizada e defende, agora, uma revolução no partido. Para Lula, o PT perdeu a utopia e precisa deixar de pensar em cargos e partir para salvar o projeto. Mas quem sempre mandou nos rumos do PT e valorizou a distribuição generosa de cargos foi o próprio Lula. O partido é hoje aquilo que ele ajudou a construir.
O negrito está no original.

A vida é difícil, pois considero o comentário de Olívio como de esquerda e o desta jornalista de direita. E o meu, que sou do extremo da esquerda, tão, tão, tão à esquerda que até já caí fora dos 180 graus negativos do círculo trigonométrico?

DdAB
P. S. Uma vez que boa parte do tom da postagem é de escárnio, nada melhor que concluir com esta imagem:
É o mesmo bigode, né? É a mesma bebida!

domingo, 21 de junho de 2015

A Farsa do Déficit Previdenciário


Querido diário:

Ontem esqueci de dizer que o próprio governo Maduro da Venezuela também é uma farsa, como o foi o do general Chavez, talvez o maior orador que vi em minha vida, durante o Forum Social Mundial de Porto Alegre em um daqueles anos. Vi-o, Chavez, no Estádio Gigantinho aqui no Bairro Menino Deus. E que farsa é esta? A farsa de esquerda que tem também seus dramas em Cuba e Coréia do Norte, essas dinastias comunistas. Logo eu, que me considero mais à esquerda do que permite um círculo trigonométrico de raio orientado e de valor unitário! Farsas, farsas. E esta que denuncio hoje?

Começa com a notícia da revista CartaCapital de 24/jun/2015 (próxima quarta-feira), página 31. Inserida em matéria chamada "Mate o velho?", há uma tabela mostrando as três primeiras colunas da tabela que montei em meu Excel e enquadrei como a imagem de hoje. Claro que eles são solidários com o velho, a quem acham que a sociedade deveria deixar viver o maior tempo possível. Eu também acho, claro. E até costumo dizer que o crescimento do setor terciário é ilimitado, pois é necessária pesquisa para permitir-nos viver um par ou mais de bilhões de anos e viajar para os mais estranhos recortes do universo. Ou seja, viver montes é um desejo legítimo daquela turma que não é burocrata suficiente ao ponto de achar que a "conta da previdência" deve dar lucro.

A penúltima coluna tem a cor vermelha para indicar que apenas um projeto nacional ajustado com os interesses populares poderá gerar uma vida longa e pacífica para todos os brasileiros. É hora de começar a discursar em favor desta visão benévola do futuro. Se a produtividade do trabalho crescerá 5,2 vezes e o "PIB per capita" dos trabalhadores e ex-trabalhadores crescer 3,9 vezes (ver P.S.), qual será mesmo o problema que não meramente distributivo? E quem seria capaz de dizer que aquele estonteante ganho de 5,2 vezes na produtividade do trabalho (estonteante comparado com o da Coreia ou China...) não teve muito a ver precisamente com o esforço dos aposentados, durante seu período de vinculação ao mercado de trabalho?

DdAB

P.S.: A partir de 2014, tudo foi projetado com taxa de 3% a.a., que é até menor que a do período 2000/2013, com seus 3,26% a.a. A taxa aritmética entre 1901 e 2013 é de 4,83% anuais. Recusei-me a projetar com esta, contendo meu otimismo. Do jeito que projetei usando a taxa mais modesta, a produtividade por trabalhador crescerá 5,2 vezes entre 2000 e 2060. Pode dizer que vai faltar dinheiro para pagar essa macacada toda? Contrastando com estas 5,2 vezes mais produtividade por trabalhador, fiz um cálculo também mostrando o PIB por trabalhador ativo ou ex-ativo, isto é, aposentado. E encontrei espantosos 3,9. Quero dizer: esta balela de que vai faltar dinheiro para a previdência tem este suposto idiota de que o INSS deve dar lucro.

P.S.S. Até que ponto estou defendendo interesses pessoais? A solidariedade dos velhinhos? Meus interesses materiais feridos? Sou solidário com os colegas velhinhos, mas duvido que haja um problema sério de sobrevivência para mim, em virtude das vantagens que o sistema me outorgou depois de 41 anos de trabalho.

P.S.S.S. Aqui está minha primeira postagem de uma série de dez em que falo sobre aquele mito vergonhoso de se considerar que bem-estar em Santana do Livramento só é alcançado por meio da produção de aviões a jato naquele local. E fala-se rapidamente naquela "infecção de custos" de William Baumol, algo hoje definitivamente colocado no pretérito. Parece óbvio que a produtividade do trabalho pode crescer infinitamente se houver milhares de condições mantidas constantes e outras inevitavelmente variáveis, pois -por exemplo- o desequilíbrio ambiental pode acabar com aquela população de 230-240 milhões lá de 2060. E também deve-se notar que aqueles 7 trilhões de reais de 2060 (medidos aos preços de 2000, que bem conhecemos, compramos nossas comidinhas e roupinhas com eles) guardarão à indústria uma fração desabotinadamente reduzida.

P.S.S.S.S. E tem ainda o espantoso contrafactual de pensarmos em como seria uma sociedade com uma produtividade do trabalho absolutamente estonteante, digamos que apenas dez indivíduos produzissem todos aqueles sete trilhões de reais? Então eles ficariam com tudo para si e deixariam os demais milhões de trabalhadores no consumo zero? Só idiotas é que pensam que as elevações da produtividade devem fazer as pessoas trabalhar mais e não menos!

P.S.S.S.S.S. E tu viu que a última coluna da tabela tem um "após" ai invés da abreviatura que inventei para aposentado, "apos"? O Bill Gates e seu Excel também será contra os velhinhos?
abcz

sábado, 20 de junho de 2015

A Farsa Venezuelana


Querido diário:

Ando meio desligado, como podemos observar pela escassez daquela encrenca de "postagens diárias ou quase". Mas não posso deixar de registrar por aqui a trapalhada dos senadores metidos a funcionários do executivo (ministério das relações exteriores) que se foram à Venezuela intentando fazer uma investigação policial. Está no jornal há dois ou três dias, mas nunca vira os nomes dos políticos desastrados. Hoje se fala em vários, mas são citados dois ou três nomes, apenas. E os dois que gravei são Aécio Neves e Ronaldo Caiado. Ali na imagem daqui diz algo com que concordo: "É inadmissível o que aconteceu na Venezuela". E digo mais: e não é de hoje. E no Brasil, também, tampouco! Viagem em avião do governo. Esposas também foram? Houve diárias isentas de imposto de renda para todos?

Só bebendo!

DdAB

terça-feira, 16 de junho de 2015

Pirosos Suspirosos


Querido diário:

Por razões que agora não lembro, não lembro se falarei em instantes do volume 1 ou do 2 das memórias de Érico Veríssimo, intituladas "Solo de Clarineta". Seja como for, só há duas possibilidades, ou é volume 1 ou é volume 2. E a página seguramente é a de número 116. Estabelecer a verdade, portanto, não é difícil.

Menos difícil ainda é perceber que lá fiz algumas anotações em um desses exemplares da biografia claramente diversas do outro, mas sinto-me compelido a não compelir-me a examiná-la/s agora. Tudo isto implica que estou postando no marcador "Besteirol", o que muito me apraz.

Então, pois então. Érico fala em algo, alguma coisa, alguma pessoa que andava, vestia, trajava, ou melhor, respirava "suspirosa". Claro que pensei naquele "piroso" do outro dia (aqui). Mas aí pensei que, em meu romance, poderei inventar mais aplicações como esta de "suspirosa", como por exemplo "respirosa" e "capirosa".

Capirosa, como sabemos, é uma palavra que talvez esteja sendo inventada hoje mesmo. E que, claramente, é uma corruptela de "capinar". Dadas as condições de contorno da postagem de hoje, nomeadamente, o marcador Besteirol, acho que tudo encontra-se no melhor dos mundos.

DdAB
A imagem veio daqui, uma interessante postagem sobre a diferença entre kitsch e piroso. O sofá lá de cima realmente parece constituir a melhor definição de dicionário do que é piroso.

P.S. Por falar em besteirol, não sei como chegou-me às retinas a seguinte sentença: "The fundamental belief underlying the whole system [...]". Nem bem li até aquele ponto e completei: "é que é possível evadir-nos do colapso do Sol". Como replicaram: aí mesmo é que a encrenca se tornará pirosa!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Kurz, Schwarz, Marx


Querido diário:

Para mim, Roberto Schwartz é conhecido por meio de um artigo de Leda Paulani. Começa com Fernando Henrique Cardoso, se bem entendo (é que li alguma coisa além dela e mesmo dela não li com tanto afinco), que tem algo como "As ideias e seu lugar" e aí o Schwartz tem "As ideias fora do lugar" e a Paulani com "Ideias sem lugar", raivoso artigo contra a profa. Deirdre McCloskey e seus artigo e livro sobre a retórica na economia.

Eu, ok, volto, quero falar ultra-brevissimamente do livro

KURZ, Robert (1993) O colapso da modernização; da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. 2ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Quero falar rapidissimamente, mas aumentei. A crise derradeira da economia capitalista universal estava mais ou menos, aos olhos do autor, deflagrada e declarada lá por aqueles 1993 do século XX. E agora, claro, andei lendo aquele sr. Anselm Jappe, discípulo de Kurz que fala precisamente o mesmo: não, não era a crise de 1998, nem a de 1987, mas seria -teriam adivinhado eles?- a de 2007-8. Então um, entre as crises derradeiras, houve uma crise resolvida, que o mundo deixou de andar em crise e ainda espera a crise derradeira para finalizar.

Ok. Diz Schwartz na página 11 do livro de Kurz

Pela primeira vez o aumento de produtividade está significando dispensa de trabalhadores também em números absolutos, ou seja, o capital começa a perder a  faculdade de explorar trabalho.

A encrenca está dada: será que agora estamos mesmo vendo a crise final do capitalismo, aquela abordagem de Jappe dizendo que a lei do valor, a mercadoria, o fetichismo e o dinheiro declararam o fim inexorável do capitalismo.

Só posso comentar minha também eterna brincadeira: o capitalismo acabou há mais de 15 dias. Se o fez hoje, pode ser que ainda estivesse vivo em  1993, ano em que a Paz e Terra lançou a segunda edição do livro de Kurz. Será que Marx estava errado? Ou era Jappe? Ou ambos? E a China, que -desde 1993- aumentou seu tamanho em mais de seis vezes? E a Índia, o capitalismo asiático, aquelas coisas todas? A ideia que me foi passada por Andrew Glyn de que as próprias privatizações nos países capitalistas avançados e o montante enorme que ainda resta a ser feito por lá, tudo isto, é atestado de vida para o capitalismo.

É verdade que hoje parece que o emprego nos antigos países capitalistas avançados parece claudicar e mesmo pode ser que fenecer. A distribuição da renda mundial, Picketty, essa turma toda, tudo conta. Eppur si muove, teria dito Galileu quando indagado por um médium o que acharia de reencarnar hoje.

DdAB
Imagem aqui.
P.S. Voltei aqui às 21h00 para dizer que li algo muito interessante na Zero Hora. Página 22, artigo de Moisés Mendes, título "O novo reacionário". Pensei: serei um deles, logo eu que conheço presumivelmente tantos?  Ele diz: "[...] O conservador clássico [...] é duro e inflexível em suas posições e contrapõe-se aos discordantes com respeito e fleuma cerimoniosa. O conservador informa-se sobre o que pretende comentar. [...] O novo reacionário, não. Ele é o ultraconservador agressivo que ultrapassou os limites, porque ele não tem categoria para ser apenas conservador." Acho que o ponto chave que me põe na esquerda do conservador é que, embora tenhamos em comum a busca de informação sobre o que desejamos comentar, é que eu defendo a maior liberdade possível a cada indivíduo compatível com a dos demais e, não menos importante, o igualitarismo.

sábado, 13 de junho de 2015

Gerson, Ibsen e (... nem sei mais o quê...)


Querido diário:

Quer relembrar o passado? Clique aqui. Cerca de cinco anos atrás, o padre Gerson Schmidt (ver nota 1) lançou aquela diatribe contra a viadagem (imagem daqui; deveria eu dizer 'leonagem'?) . E hoje lá na página 23 do jornal Zero Hora (aqui e que coloquei como nota 2 a estes escritos), ele volta com "Os abusos da parada gay". Talvez o concorrido sacerdote não faça a defesa do bom tratamento aos meninos de rua, por causa daqueles problemas da cúria romana e aquela encrenca da pedofilia. Talvez ele não faça a defesa do amparo à velhice por não a considerar importante, talvez até pode ser que considere importante, como o preocuparia o tempo de fila de seu rebanho nas agências do SUS. Talvez ele seja um bom homem. Mas ele está preocupado com "alguns participantes da Parada Gay de São Paulo". E confundiu a árvore com a floresta, se bem uso este agora já estabelecido lugar comum. Árvore: os alguns participantes. Floresta: todo o resto da macacada. E como sei disto? O padre manda ver: "Pior é saber, como expressa o repúdio dos bispos católicos das dioceses do Estado de São Paulo, que o evento foi autorizado e patrocinado pelo poder público, que deveria garantir a ordem democrática e os direitos da Constituição brasileira que garantem o respeito à fé e que foram agredidos nessa ocasião."

O artigo do padre, só lendo, o que fiz. As viadagens da parada provavelmente serão acessíveis por meio da internet, YouTube, sei lá (não campeei, por que o faria?). O artigo é que me fez pensar que o padre padece de mal-formação. Para não me alongar na análise daquela peça de ódio e viés de seleção de amostra, cito apenas o que citei: o estado de são paulo não deveria financiar um evento em que alguns participantes pisaram na bola. E como é que o estado de são paulo iria saber se precisamente naquele dia, naquela manifestação, haveria réprobos? O padre Gerson não sabe a diferença entre ex ante e ex post, claro. Mas talvez, pensando melhor, até saiba, o que me leva a pensar que ele é mesmo um homofóbico.

Para acabar de concluir o tema viadagem, não fui olhar homem ou mulher ou ambos pelados, se é que isto rolou na parada gay, mas procurei o nome "padre Gerson Schmidt" na internet e caí aqui. E olha o que o blogueiro atribuiu ao padre (o que não fui conferir, pois este declara-se "um filho de Deus" e, como tal, merece fé pública):

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em nota explicativa, repudia veementemente o ato insano de estupro do padrasto e pede a rigorosa apuração dos fatos, que o culpado seja devidamente punido, de acordo com a justiça. E não concordou, evidentemente, com o desfecho final de eliminar a vida de seres humanos indefesos.

Falava-se da garota pernambucana que engravidou em reação a uma série de estupros. E por que falo nisto? Pois o ato insano do padrasto deve, ao bem ver do blogueiro e do padre citado, ser declarado ato insano, ou seja, deve ser apurado. E punido, de acordo com a justiça. Ok, então a viadagem paulista deve ser apurada, julgada pela justiça ou foi o próprio padre encarregado de fazer o julgamento e exarar seu parecer no jornal?

Eu, que já acordara mesmo com a intenção de encher a cara de cachaça, antes de fazê-lo, li compulsivamente o mesmíssimo jornal que abrigou a diatribe paroquial. Antes até de chegar naquele manual de homofobia, li coisas de corar frade de pedra (como diriam as jornalistas Martha Sfredo e Lurdette Ertel...). Por exemplo, a capa fala que a "[v]olta do imposto do cheque divide governo". Em minha opinião, os que defendem este outro imposto (contribuição) distorcivo deveriam ir para a cadeia e, no xilindró, serem constrangidos a ler um livro sobre a teoria da escolha pública. Depois, já se diz que faltam ciclovias nos municípios e que há municípios que não controlam nem seus limites territoriais e que -na minha opinião- deviam ser fechados. E gente cobrando segurança pública, queixando-se da fraude que é esta reforma política, a fria em que entraram os trabalhadores voluntários da copa da fraude do mundo, dos ganhos escorchantes dos juízes e seu aumento pleiteado e previsto, da prioridade que será dada (será?) a obras nas escolas, olha, vou parando por aqui, pois quero falar e parar na página 10, seção de Rosane de Oliveira.

Diz a consagrada cronista em sua "+ Política" que o deputado estadual Ibsen Pinheiro é um procurador aposentado do ministério público, usufruindo de uma remuneração bruta de R$ 30,4 mil. E que abriu mão do subsídio de R$ 25,3 mil "a que teria direito na Assembleia". Ele informa não receber acima do teto salarial, pois ganha mais R$ 6 mil do Feppa e R$ 12 mil da Câmara". E diz a jornalista que o deputado diz o que segue: "têm natureza privada e são compensatórias pela expropriação legal dos fundos que as originaram."

Como é que ele, com estipêndios mensais chegando aos R$ 50 mil não sentiu falta dos R$ 25,3 mil? E como é que estes mesmíssimos R$ 25,3 mil não contariam para limitar os ganhos da elite? É que eles não são "salário" e sim "subsídio". E que é aquilo de "natureza privada e são compensatórias pela expropriação legal dos fundos que as originaram"? Fundos públicos? Dinheiro público em profusão na mão dos políticos? Dos juízes? Das centenas de apaniguados com as benesses do loteamento do estado? Dos meninos de rua? Das viúvas e da velhice carente? Do SUS? É, não é! E o que não é mais romântico é que é que o imposto de renda sobre R$ 50 mil é a mesma alíquota de 27,5%, a mais alta incidindo sobre toda a macacada bem remunerada.

Este país sem justiça, sem política decente, sem legislativo, executivo, judiciário, bancos, telefônicas decentes teria uma lei do orçamento decente? Claro que não. Uma legislação do imposto de renda decente? Claro que não. O que seria decente? Na visão dos auto-outorgados, nem seus "salários" são decentes, pois eles querem mais e mais aumentos.

E o Planeta 23, esperança de muitos, é decente? Claro que não, pois está cheio de erros de português, matemática, história e geografia, as quatro disciplinas que me foram cobradas quando fiz o exame de admissão ao ginásio no ano de 1959.

DdAB
Nota 1: Observação ad hominem: É que santarrão traz por trás de si (descontar o descaminho para o infame trocadilho) preconceitos, estereótipos e etnocentrismos. Negação e identificação, Freud explica, andam de mãos dadas, ou seja, dois substantivos femininos que já iriam atrair a ira do clube da homofobia.

Nota 2: tá aqui o artigo (publico com autorização da internet):

Artigo| OS ABUSOS DA PARADA GAY

13 de junho de 20150
GERSON SCHMIDT
Padre e jornalista
Não podemos nos calar diante dessas aberrações escandalosas por parte de alguns participantes da Parada Gay de São Paulo. As manifestações infelizes na Parada Gay não podem deixar de serem repudiadas, frente ao desrespeito à fé de milhões de cristãos de nosso país. Houve aí uma clara manifestação e agressão à consciência religiosa de nosso povo e ao símbolo cristão mais preciso de todos os tempos, a cruz de Cristo. Houve também escárnio e banalização de imagens da fé católica, quebrando-as no chão.
O Brasil está indignado por esta atitude inescrupulosa. Está se afrontando a fé cristã. Pior é saber, como expressa o repúdio dos bispos católicos das dioceses do Estado de São Paulo, que o evento foi autorizado e patrocinado pelo poder público, que deveria garantir a ordem democrática e os direitos da Constituição brasileira, que garantem o respeito à fé e que foram agredidos nessa ocasião. O Artigo 208 do Código Penal afirma constituir-se um crime quem escarnecer alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa, impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso ou vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. É claramente o que aconteceu. Há já manifestações nacionais e encaminhamentos para tornar isso crime hediondo.
A profanação dos símbolos religiosos pede de nós, ofendidos, não uma atitude de ódio e revolta, mas um ato de desagravo e oração por todos os manifestantes. Nenhuma Igreja está ensinando a odiar as pessoas. Somos nós acusados de homofóbicos porque defendemos a família. Não se trata aqui de condenar segmentos e impedir democraticamente as manifestações de quaisquer que sejam. O direito de expressão, nessa parada, extrapolou os limites do bom senso e ética. Urge garantir o respeito de quem pensa ou acredita de maneira diversa, não agredindo de maneira tão desproporcional como aconteceu. Há aqui um contrassenso. Querem ser respeitados aqueles que não respeitam. Querem ter direitos, mas afetam e ofendem o direito dos outros. Reivindica-se respeito à opção e liberdade sexual e não se respeita a opção religiosa e a fé mais forte da população brasileira. Não é a forma correta de lutar pelos direitos individuais ou coletivos. É preciso rever quem de fato aqui está agindo com preconceito, desrespeito e intolerância.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Promover a Indústria: item 4


Querido diário:

Desde aqui , estamos buscando analisar os conteúdos substantivos das justificativas da importância do setor industrial na promoção do desenvolvimento econômico. Devemos ter presente que não nego correlações, associações e talvez nem mesmo causações. O que nego é que a política industrial deva ter a chancela do governo e especialmente o custo de oportunidade medido em número de meninos de rua, de adolescentes deseducados e adultos deseducadíssimos. Segue-se com:

There are powerful empirical and theoretical arguments in favour of industrialisation as the main engine of growth in economic development. The arguments can be summarised as follows:

4. Compared to agriculture, the manufacturing sector offers special opportunities for capital accumulation in developing countries. Capital accumulation can be more easily realised in spatially concentrated manufacturing than in spatially dispersed agriculture. This is one of the reasons why the emergence of manufacturing has been so important in growth and development. Capital intensity is high in mining, manufacturing, utilities and transport. It is much lower in agriculture and services. Capital accumulation is one of the aggregate sources of growth. Thus, an increasing share of manufacturing will contribute to aggregate growth.


Agora temos algo interessante para a esquerda nacionalista ler e meditar, se é que não foi ela mesma que ditou: "capital accumulation" é coisa de economias capitalistas, não é mesmo? Então esse é um ponto de vista que estaria associado àquelas ideias do Partidão de desenvolver a burguesia nacional.

Mas eu não vejo é porque fazer isto com a indústria e não com escolas, hotéis, prisões, aquela pilha de serviços tão almejados pela população.

Nosso autor, em seguida, vira apolotético. Aliás, nem sei o que custa mais caro, se certos equipamentos da medicina moderna ou uma fábrica de automóveis (também moderna, daquelas que pode ser desmontada em dez dias de trabalho (em meio expediente...).

E ainda bem que diz que a acumulação é uma das fontes do crescimento. Ou seja, há outras. E uma delas é acumular no setor industrial, e umas das outras, é precisamente acumular em diversos subsetores dos Serviços.

Aliás ainda tem mais: este negócio de pensar que a acumulação de capital se dá na indústria é contra aquela visão de Donaldson Brown informando que a General Motors, já em seu tempo, era um banco: escaneava o mercado buscando oportunidades lucrativas para decidir onde meter seus lucros.

Reli tudo. Dei-me conta de que o autor estará falando em acumulação de capital no sentido de capital físico, nada mais esdrúxulo para a economia marxista. Mas, sendo fundo de valor em busca de valorização, vale o que falei. Sendo capital físico, máquinas e equipamentos, a questão não é onde vê-los produzidos, mas - se for o caso - como conseguir dinheiro para importá-los. E voltamos ao tema: divisas são obtidas com exportações. De produtos agropecuários, de tecnologia de ponta, de serviços, como o turismo, a assistência médica, e por aí vai.

Resumo: não me parece que esta justificativa para a promoção da política industrial com fundos governamentais se sustente.

DdAB
Imagem: aqui. Parece que aquela encrenca lá de cima é um hotel em Dubai. Jamais saberei com investigação in loco.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PT É PP, PR, PS ou PU? (sobre a CPMF)


Querido diário:

Como sabemos, PT, PP, PR, PS e ainda o PU são signos, dígrafos, que identificam a natureza brasileira de um avião. Pois estas siglas, quase todas, foram "encampadas" por partidos políticos. O primeiro que me chamava a atenção há tempos e tempos idos era, claro, o PT. Cheguei mesmo a dizer:

PT é Brasil!

Era o entusiasmo, digamos, juvenil. Hoje, arrisco-me a dizer, mesmo antes do final do jogo, que este partido é um dos maiores fracassos que já desaguou por estas bandas. Há heranças tomara que perenes do chamado lulismo, como a bolsa família, arremedo bem-intencionado da renda básica da cidadania.

Mas hoje a página 9 do jornal Zero Hora tem uma manchete de arrepiar:

NOTÍCIAS
POLÍTICA | DEBATE NO PARTIDO
Chapa majoritária do PT propõe volta do imposto sobre cheque

Maior força do PT, a chapa Partido que Muda o Brasil apresentou, na madrugada de ontem, documento que propõe a volta da CPMF, tributo que incide sobre movimentação financeira e que era conhecido como o imposto do cheque.

Esta ideia rolou de madrugada? A única explicação é que a malta já estava alcoolizada no processo de conceber "soluções fenomenais". Aí tomou a palavra o presidente do partido, sr. Rui Falcão:

Somos favoráveis à retomada da contribuição sobre movimentação financeira, um imposto limpo, transparente e não cumulativo, como uma nova fonte de financiamento da saúde pública.

Com a hipótese que eu mesmo levantei sobre tratar-se de deliberações adotadas depois de elevados índices de ingestão de canha, pensei em ir espichando a mão para pegar minha própria garrafa. Ingeri uns goles de coragem e segui lendo:

O repertório neoliberal frente à crise, rebatizado de austeridade fiscal, tem entre seus principais ingredientes redução de salários e direitos, corte dos gastos públicos e salvaguarda estatal dos bancos privados, protecionismo comercial e imposição de novas medidas para a integração subordinada das nações emergentes à ordem econômica mundial.

Pensei, claro, "o que não faz a bebida?" A CPMF é um imposto limpo, transparente e não-cumulativo? Será que esta pérola micro-macroeconômica originou-se de alguma mesa vizinha à da cachaçada a que atribuo este tipo de pensamento? Limpo? Que será um imposto limpo? E transparente? Será que a turma da canha está levando a sério o tal IBPT e a forma que eles inventaram de fazer transparecer a tributação brasileira (forma estupidamente errada, por sinal)? Agora eu mesmo posso dizer que o CPMF é estupidamente cumulativo, claro, pois entra em qualquer transação feita com cheque na economia. E claro que a malta é sabida e não iria deixar apenas por conta dos cheques, jogando as transferências inter-contas na mesma vala, mesmo dentro do mesmo banco. Um horror tributário e estupidez leontiefiana. O que me pergunto volta e meia é quem são os assessores econômicos dos partidos e dos políticos? Essa turma também bebe?

Em seguida, pensei: "leio mais ou bebo mais?" Li:

O documento destaca a necessidade de 'reinvenção do mercado', o que passaria pelo fortalecimento de cadeias produtivas regionais.

Claro que, se eles não tivessem bebido, não teriam escrito e nós não teríamos lido estas pérolas do pensamento das pedras (PT, afinal não era Brasil, mas 'petra', pétreo, como as mulas?). E se eu tampouco tivesse bebido, eu iria tentar ler o documento original, talvez disponível no site do partido ou sei lá onde.

Não o fiz, pois não necessito desta leitura para montar meu modelo de entendimento desta encrenca toda. Entendo que essa turma que se encastelou no poder em torno do lulismo é da mais elevada baixa qualidade enquanto profissionais da ciência econômica. Admito que meu modelo geral de entendimento do desenvolvimento capitalista do Brasil tem um viés contra aquela ideia de que o começo, para salvar a saúde pública, é a CPMF, omitindo-se com relação ao imposto de renda, ele sim detentor das virtudes falsamente atribuídas a esta. E outro viés contra pensar que a "reinvenção do mercado" começa com a organização da burguesia nacional, ou da transformação de frações da classe baixa em média burguesia empresarial.

Eles falam, no jornal, em reforma do estado. Estou dentro: fechamento dos estados, assembleias e senado, fechamento do judiciário, substituindo-o pelo convênio com a empresa júnior de alguma universidade nórdica, aquela xurumela que já estou farto de repetir e ninguém levou a sério.

Hoje em dia minha sensação de fracasso é tão grande que ainda nem sei como é que devemos recomeçar. No outro dia, falei -com enorme esperança- na visão de Rosana Pinheiro-Machado, conclamando-nos todos a botar o pé no barro (aqui e aqui). Estamos na hora de recomeçar. Nem sei bem por onde, ainda. O pé no barro? Enturmar na vida comunitária, fazer grupos de estudo, discutir política, ler os clássicos, aquela prática, prédica, toda.

DdAB
Imagem: daqui. Como cheguei a ele? Procurei: 'pé no barro' e achei imagens tradicionais via Google Images. Aí vi algo interessante que me levou a este Blog da Marcela. E desci uns centímetros e deparei-me com a deliciosa imagem de hoje: se conseguirmos meter o pé no barro com exação, veremos o subsolo, as entranhas, a vida citadina e seus desvios campestres, o Brasil urbano de hoje e da gente tratada como subterrânea.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Ladroagens e Emprego


Querido diário:

Hoje tem uma notícia no jornal Zero Hora, página 8, Rosane de Oliveira, assinalada com "Tensão na Assembleia". E tem algo inacreditável. O deputado Diógenes Basegio (PDT, médico) foi denunciado no domingo na TV de meter a mão no dinheiro da própria assembleia, de seus funcionários e tantas outras escaramuças contra a ordem e os bons costumes. Mas, tenhamos presente, parece que nada destas escaramuças é alheia ao restante do mais alto corpo legislativo do Rio Grande do Sul. Aí o presidente da assembleia, deputado Edson Brum (PMDB) deu uma entrevista, pois foi cobrado pela imprensa a manifestar-se:

[...] sobre a quantidade de assessores a que cada deputado tem direito, Brum disse que não considera o número elevado. Citou Assembleias de outros Estados, que têm número superior de assessores, e disse que não se pode comparar a estrutura com a de parlamentos de países desenvolvidos, como a Alemanha, Japão e Suécia, bem mais enxuta.
-É uma questão cultural -justifica.
   Cada deputado tem direito a nomear nove assessores, que custariam, somados R$ 69,8 mil mensais. Mas os parlamentares podem optar por desdobrar os nove cargos em até 17 vagas com salários menores. Neste caso, o custo total fica em R$ 74.592,48 mensais.
   Os deputados de partidos com apenas um representante podem ter até 21 assessores.

Fiquei pensando na segunda cláusula da sociedade justa conceba (a cláusula, claro, e a sociedade justa, também) de John Rawls:

B.1 Todos os cargos públicos serão abertos a todos
B.2 A desigualdade será manejada em benefício dos menos favorecidos.

Nem precisa falar que o item A da lista rawlsiana é que cada um deverá gozar da maior liberdade compatível com a dos demais.

E que concluí destes pensamentos? Várias conclusões:

.a. os estados devem mesmo ser fechados, o que implica a eliminação das assembleias e do senado,

.b. o exemplo do deputado ao citar três países sabidamente igualitários é tragicômico, pois precisamente por lá haverá sociedades mais justas que a brasileira,

.c. o emprego é mesmo a chave da sociedade igualitária, mas não estamos falando de empregos quando mencionamos estes casos de assessores de deputados, vereadores, senadores, prefeitos, governadores, juízes, essa malta de todos os matizes que saqueia os cofres públicos de cima a baixo do combalido e desigualitário Brasil. Arrumar "bocas" para correligionários, parentes e apaniguados (além dos que acabo de citar) não é nem arremedo nem de democracia!

DdAB
Imagem: o deputado parece contrafeito na foto daqui, tendo por pano de fundo os dizeres "20 de setem" querendo dizer o final do segundo decêndio de setembro, quando iniciou-se a famosa rebelião dos farrapos.

Para acabar de concluir, tem uma notinha no final da coluna de Rosane de Oliveira:

SÓ NO BLOG   Em carta à coluna, o presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador José Aquino Flôres de Camargo, explica o pagamento do vale-alimentação, retroativo a junho de 2011, e diz que está apenas cumprindo uma determinação do Conselho Nacional de Justiça. Aquino reclama do 'tom irônico' e do uso da palavra 'deboche' pela coluna.   Confira a íntegra da mensagem do presidente do Tribunal de Justiça em zerohora.com/blogdarosane.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Promover a Indústria: item 3


Querido diário:

Hoje veremos a terceira alegada razão para justificar a relevância da indústria para o desenvolvimento econômico. Diz o autor:

There are powerful empirical and theoretical arguments in favour of industrialisation as the main engine of growth in economic development. The arguments can be summarised as follows:

3. The transfer of resources from manufacturing to services provides a structural change burden in the form of Baumol’s disease. As the share of the service sector increases, aggregate per capita growth will tend to slow down.

O próprio autor em seu já anunciado

SZIRMAI, Adam (2009) Industrialisation as an engine of growth in developing countries. United Nations University - Maastricht Economic and social Research and training centre on Innovation and Technology. Working Paper #2009-010.

concede que o famoso modelo do quinteto musical de Baumol (para elevar a produtividade do trabalho teria que torná-lo um quarteto...) tem validade muito limitada nos dias que correm. A terceira revolução industrial (da informática, seguindo a classificação de Paulo Tigre) elevou a produtividade de todos os setores da economia e, como tal, dos serviços. Além disto os serviços, por serem precisamente intensivos em mão-de-obra deverão gerar mais PIB por unidade de emprego precisamente pelo poder de monopólio exercitado pelos profissionais diferenciados.

O modelo do quinteto (ou cost disease) surgiu, pois Baumol estava preocupado com a crise de endividamento das prefeituras lá nos anos 1970. Claro que haverá esta infecção de custos em qualquer lugar que queiramos dar padrão de vida digna à população, aos menos aquinhoados. Claro que, num modelo de renda básica universal e seu sucedâneo serviço municipal haverá um bolsão de baixa produtividade dentro desse último. Como evitar? A ideia não é evitar e até expandir, concentrando a alta produtividade em outros setores. Este bolsão tem finalidade social e não econômica. E isto nada tem a ver com a superioridade de geração de emprego na indústria. Primeiro, quanto menos emprego em qualquer setor (exceto o serviço municipal), melhor. Segundo, portanto só os iludidos pensam que a indústria tem alguma contribuição séria para dar à questão do emprego.

Agora também o raciocínio das proporções e crescimento também se fazem presentes e pesados: será que a participação da indústria no PIB deveria alcançar os 100%. Isto é o que indica o crescimento ilimitado. Então a questão torna-se "quando parar" e resposta já foi dada pelos países capitalistas avançados: quando  a indústria chegar a uns 35%. E a China? Esta não conta, pois é impossível pensar no modelo chinês como transferível para economias como a brasileira, a haitiana, a congolesa. E o Brasil que chegou nos 35% e recuou para menos de 20%? O interessante é que não foi a agropecuária que ganhou todos esses 15% de diferença. Quem ganhou foram precisamente os serviços.

O que está na hora de fazermos é atender ao desafio de ver como articular um modelo de crescimento baseado nos serviços. Aí, keynesia e leontiefemente, a questão de desloca para o lado da demanda. Penso que a expansão da atividade terciária (educação, saúde, segurança pública) e mesmo industrial-construção é que darão a dinâmica do crescimento.

DdAB
Imagem: esse estonteante desconto de 70% é anunciado por um instituto de beleza que penteou (presumo) a garota lá de cima. Aqui.

domingo, 7 de junho de 2015

É Domingo: cai a ficha da reforma agrária


Querido diário:

Não me é frequente neste blog o tema da reforma agrária, a exemplo daqui. Obviamente não sou alheio ao tema e, nas tentativas que faço de pensar nas consequência da elevação do grau de racionalidade de toda a sociedade, imagino o que teria sido do Brasil se a estrutura agrária não mimetizasse a irracionalidade observada no comportamento quase unânime da turma, da turba, da população, dos vassalos e suseranos, dos burgueses e proletários.

E que ficha me caiu? Foi a ficha depositada em meu mundo mental pelo artigo deste domingo do caderno PrOA de Zero Hora, página 11. O autor é Ruben George Oliven, respeitado antropólogo da cidade. E de quem ouvi falar no ano de 1970, algo assim, elogiado por seu colega de faculdade (na realidade, a faculdade de economia que, na ocasião, eu lutava para vencer) Edson Quintella Martins. E o título do artigo de Oliven é "Eu quero uma casa no campo". Claro que cita, como refere, a canção de Zé Rodrix e Tavito. Em especial, destaco o desencadeante da derrubada da ficha:

   O fato de o Brasil ter sido durante a maior parte de sua história um país com população rural foi responsável pela ideia de que tínhamos uma vocação agrária e que nosso temperamento fora moldado no campo. Mas, a partir dos anos 1950, quando a grande meta nacional era superar o subdesenvolvimento, o campo passou a ser visto como símbolo de atraso. Não só era um lugar de pouco progresso tecnológico, mas o modo de dominação era patriarcal e baseado em grandes latifúndios, muitas vezes pouco produtivos.

E a ficha? Ele fala em superação do subdesenvolvimento. E digo eu que a turma cepalina meteu na parada a ideia de que o governo deveria incentivar a industrialização. Invocaram as razões de que venho falando há dias e seguirei assim, aquelas oito. E o governo incentivou mesmo, provocando distorções de corar escultura de ferro batido. E o governo aproveitou e meteu uma estrutura tributária, especialmente a da reforma de 1967, em que avança sobre uma fatia substantiva do PIB (nada que se compare àqueles despautérios do IBPT - Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, como refiro em 25/maio/2010 aqui, 12/jun/2012 aqui e 18/out/2013 aqui).

E a ficha? A palavra chave é latifúndio. Ao invés da política industrial louvada por toda turma, inclusive meus professores daquela faculdade de economia que referi diagonalmente acima e, aluno atento, eu próprio. Parecia óbvio, a relação dos preços de intercâmbio, o dinamismo, os linkages, os modelos dos países capitalistas avançados (desprezando-se as exceções, dando-se pouca atenção às idiossincrasias lá deles/PCA e sobretudo aquele fato citado lá no começo do artigo de Olivem: apenas em 1970 foi que a população urbana ultrapassou numericamente a população rural), tudo apontava para a importância de se meter o dinheiro público, o crédito, o subsídio, na promoção da indústria. E da indústria que eles decidiram arbitrariamente (a primeira matriz de insumo-produto do Brasil é de 1967, do holandês Willy van Rijckeghen). E entraram as multinacionais, e entraram os bens de consumo durável, aquelas coisas. E a população rural sendo expulsa do campo, mostrando-se redundante nos latifúndios e mesmo no minifúndio, claro.

Então qual foi a ficha que caiu ao ler Ruben Oliven? Foi que aquele delírio industrializante surgiu precisamente como um subterfúgio, um desvio, um disfarce destinado a desviar a atenção do problema agrário, da estrutura agrária, da falta de treinamento da população. Da hierarquia das "necessidades urbanas" pelo automóvel serem mais importantes que as "necessidades rurais" pelo trator.

A ficha, em resumo, é que eu nunca pensara que a insistência de governantes e seus arautos na industrialização nada mais é que um subterfúgio para evadir a questão da propriedade, da propriedade rural.

DdAB
A imagem é daqui. E a que segue é daqui.

P.S. Olha os linkages de tratar bem o sr. Jeca Tatu, dando-lhe o afamado Biotônico Fontoura: indústria da madeira (moirões e parede do alpendre), indústria do mobiliário (cadeira da sra. Tatu), indústria metalúrgica (aquela mão-francesa no alto do alpendre, a/s agulha/s do tricô), indústria têxtil e vestuário (roupas do garoto, do Jeca e da esposa), indústria do calçado (sapatos humanos, galináceos e porcinos). Mais alguma? Tem telha? É minerais não-metálicos. Tem banheiro? Mais. Tem refrigerador, televisão colorida? Tem na favela urbana.