quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os Juros de Direita e os Ladrões de Esquerda


Querido diário:

Será que os próprios juros, esta atividade tão festejada com fogueiras na Idade Média, têm este poder de ser classificados como de direita ou de esquerda? [1]

Estou refletindo sobre este -sem trocadilho- candente assunto por causa de nova elevação nesta sagrada taxa pelo assim chamado Governo Dilma. Dizem que Dilma -minha ex-estagiária, por assim dizer- é honesta. Claro que não duvido, pois eu jamais teria dado tabelas a serem montadas por uma estagiária desonesta. Mas seu governo não é lá este padrão de moralidade, como bem sabemos. Eu mesmo andei declarando preferir nas eleições que passaram feito um rojão "de dois pila" votar em ladrões de esquerda, em prejuízo do voto nos ladrões de direita. [2]

Ontem o Conselho Monetário Nacional, ou quem lá seja, elevou a taxa de juros da economia para módicos 13,25%, numa sequência de cinco meses e récord de seis anos (tudo segundo a capa de Zero Hora, fonte fidedigna para assuntos de direita).

O que fico a perguntar-me é como é que pôde este governo que andei pensando por alguns anos poderia ser atrelado à defesa dos interesses populares dar tanta burrada:

.a. perdeu o controle da macroeconomia, do quarteto macroeconômico (juros, câmbio, salário e déficit público) e

.b. ao tentar novo ajuste apela, inapelavelmente, para medidas de direita.

Para mim, o verdadeiro problema brasileiro não é propriamente a política macroeconômica e o retrato da incompetência governamental mas o descalabro do descalabrizado poder judiciário. Mas parece que os acontecimentos enveredaram por tal rumo que parece que a solução que envolve todas as demais soluções é a criação de um novo partido político.

Tenho falado nos bares que frequento no

Partido Zero

de cor vermelha, sem foice e martelo, sem estrela, talvez apenas com um símbolo de zero, ou melhor, dois zeros, quero dizer, com o símbolo de infinito. O Partido Zero colocar-se-á constantemente a partir do zero. Isto é, organizar para desorganizar. Desorganizar para organizar em nível mais elevado, mais nobre. [3]

DdAB
[1] Ver esta postagem aqui em que deixo claro haver esta opção -direta ou esquerda- praticamente para tudo, até para a marca de nosso chiclé balão.
[2] Aqui.
[3] De onde veio o nome Partido Zero? Daqui.
E a imagem veio daqui.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Seguros Generalizados e a Sociedade Justa


Querido diário:

Tenho pensado em um requisito para vencer as objeções que volta e meia são feitas contra o conceito de sociedade justa trazido ao debate por John Rawls. Ele falou em "véu de ignorância", ou seja, todos hão de escolher posições na sociedade pós-mudança. Mas ninguém sabe qual posição caberá a si.

Neste caso, como poderei afastar a incerteza de que a pura sorte poderá levar-me a uma posição indesejável? Como não sei onde vou parar, faço um seguro para garantir que terei uma posição confortável. A própria seguradora vai incumbir-se de criar algum mecanismo em que indivíduos poderão trocar de posições. Por exemplo, cai-me a posição de motorista de ambulância e para outro alguém a de cirurgião cerebral. Dependendo de nossas habilidades estarem invertidas, trocamos e ficaremos felizes. Claro que eu ganharei mais que ele, dado oitavo item do conceito de sociedade justa de David Harvey.

DdAB
Imagem: pensei que com um touro daqueles só mesmo com uma seguradora de confiança...
P.S.: conceito de sociedade justa de John Rawls:
.a. maior liberdade compatível com a dos demais
.b. os cargos públicos serão abertos a todos e a desigualdade será gerida de modo a beneficiar os menos favorecidos
P.S.S: conceito de sociedade justa de David Harvey:
1. Desigualdade intrínseca: todos têm direito ao resultado do esforço produtivo, independentemente da contribuição
2. Critério de avaliação dos bens e serviços: valorização em termos de oferta e demanda
3. Necessidade: todos têm direito a igual benefício
4. Direitos herdados: reivindicações relativas à propriedade herdada devem ser relativizadas, pois, por exemplo, o nascimento em uma família abastada pode ser atribuído apenas à sorte
5. Mérito: a remuneração associa‑se ao mérito; por exemplo, estivador e cirurgião querem maior recompensa do que ascensorista e açougueiro
6. Contribuição ao bem comum: quem mais beneficia aos outros pode clamar por mais recompensa
7. Contribuição produtiva efetiva: quem gera mais resultado ganha mais do que quem gera menos
8. Esforços e sacrifícios: quanto maior o esforço, maior a recompensa. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Mujica e Friedman na mesma Igreja


Querido diário:

Bem, não é igreja, senão que mosteiro, ou melhor, Monastério (aqui). LeoMon manda-nos para o link daqui. E aqui lemos as declarações do próprio presidente Mujica:

Curiosamente, eu que não sou neoliberal acho que a melhor fundamentação [... (para a lei) uruguaya de regulamentação da produção e consumo de maconha...] que encontrei é a de (Milton) Friedman (economista americano). Digo isso raramente, mas não tenho preconceito. Acho que é preciso roubar o mercado deles (dos narcotraficantes).
[colchetes meus e parênteses do original do site.]

No outro dia, discutindo a questão da renda básica universal, um amigo meu confundiu-me de tal maneira induzindo-me a responder a pergunta retórica sobre se Milton Friedman era de esquerda, com o quê eu assenti. É casca! Mas que assenti lá isso o fiz mesmo. Que posso dizer? Acho que o homem produziu coisas muito interessantes, como é o caso da própria renda básica, o imposto de renda negativo. E também da NAIRU: a ideia central é dele! Quer mais? O artigo sobre a metodologia da economia positiva. Quer mais? Acho que ainda haverá algo!

E por que ele é conhecido como economista de direita? Bem, aqui deixo por conta de Júlio Cortazar, ou melhor, faço a analogia que Cortazar fez com Jorge Luiz Borges e que citei aqui mas reproduzo aqui:

Já me aconteceu dar-me na cabeça perder uma noite em San Martín e Corrientes ou num café de Saint-Germain-des-Prés, tendo-me entretido a ouvir alguns escritores e leitores argentinos embarcados nessa corrente que pensam "comprometida" e que consiste grosso modo em ser autêntico (?), em enfrentar a realidade (?), em acabar com os bizantinismos borgeanos (resolvendo hipocritamente o problema da sua inferioridade face ao melhor de Borges através da falácia usual de se valerem das suas tristes aberrações políticas ou sociais para diminuir uma obra que nada tem a ver com elas). 

Que posso dizer? Tenho muito medo de que me qualifiquem como neo-liberal, claro, pois sou liberal, ou melhor, meu ideal supremo para a humanidade é a liberdade. Penso mesmo que a sociedade libertária é dominante, pois há espaço também para quem quiser se vender como escravo (mas nem teria alguém para comprar, pois liberdade dificulta a posse de escravos). E o Friedman? Também lancei minhas catilinárias contra Jorge Luis Borges aqui. E aqui:


O seu [dele, Borges] maior acto de ingenuidade política foi, talvez, o que se registrou quando aceitou o convite do general Pinochet para almoçar com ele na sua residência de Santiago do Chile.

Quer dizer, tem gente que é reacionária e faz cada uma. No caso, Friedman também fez, pelo que se diz. Teria apoiado muito acremente o golpe do Chile. Mas e daí? Não devemos valorizar sua genial contribuição, que é a do imposto de renda negativo? E o resto do programa, câmbio livre, mobilidade de capitais, essas coisas, tudo é perfeitamente compatível com um mundo melhor em que impere uma renda básica universal de tamanho decente.

DdAB
Imagem daqui. Não sei se é montagem...

sábado, 25 de abril de 2015

Tipos de Idiotas


Querido diário:

-Quem não sabe que, um tanto idiota, não lembro quem me falou naquele negócio dos dois idiotas sobre o empréstimo de livros?

-Aquele negócio do que empresta e do que devolve? Então são três mesmo...

-Então quem seria mais idiota, o arquiteto que mal sabe desenhar um ovo ou a abelha que faz hexágonos com perfeição milimétrica?

-Estás citando "A Ideologia Alemã"?

-Claro. E tu, estás pensando em Nick Hornby?

-Sim. "Era exatamente o tipo de idiota que só consegue entender uma coisa depois de tê-la feito".

DdAB
P.S. Esta frase de Nick Hornby acabei de lê-la na página 49 da Carta Capital datada da próxima quarta-feira. Terei sido claro? A abelha constrói sem desenhar, o arquiteto desenha para construir, ainda que mediocremente. E o idiota hornbyano precisa ver para crer, ver para pensar, ver para entender. Ou seria tudo exatamente ao contrário, tudo simétrico, tudo inverso, tudo mineral?

P.S.S. Nick Hornby nasceu em Maidenhead (aqui), cidadezinha à beira do Rio Tâmisa, entre Oxford e Londres. Acredito que todos os brasileiros deveriam ter o direito constitucional de ir Tâmisa abaixo de barco, parando e bebendo uma pint de cerveja a cada pub localizado na orla.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Il Sorpasso: China e USA


Querido diário:

Sabemos todos os que nos andamos envolvendo nas leituras da economia do desenvolvimento que "il sorpasso" designa o otimismo italiano e talvez de muito mais gente com a perspectiva de sua economia ultrapassar em tamanho do PIB a economia britânica.

Não lembro bem como isto evoluiu. O que deve ter acontecido é que a expectativa italiana também tinha a ver com as magnitudes dos PIBs dos dois países no tempo em que não se faziam as comparações com exação, isto é, corrigindo a taxa de câmbio pelo índice de paridade do poder de compra dos dois países.

Por curiosidade, a situação de hoje é a seguinte:

Itália: PIB/2014/PPP: US$ 2 066 bilhões
Reino Unido: PIB/2014/PPP: US$ 2 548 bilhões

Novo parágrafo: das próprias reflexões da revista Economist sobre o paradoxo coreano, cuja economia crescia mais aceleradamente que a média mundial e ela mesma perdia posição em sua participação no total mundial, comecei a derivar a expectativa de que a economia da China se tornaria a maior economia do mundo em 2012. Ao ver novas cifras de comparação há alguns anos, pensei que haveria alguma sutileza no cálculo do PIB chinês em PPP, pois sua economia nunca estava chegando nem perto da americana. Mas talvez os cálculos tenham sido refeitos ou algum outro mistério foi deflagrado, de sorte que agora temos a seguinte situação:

Estimativa para 2012
China: $15.25 trillion
USA: $16.68 trillion

Estimativa para 2013
China: $16.42 trillion
USA: $17.05 trillion

Estimativa para 2014
China: $17.63 trillion
USA: $17.46 trillion

Em outras palavras, il sorpasso deu-se precisamente no ano de 2014, de acordo com as estimativas disponíveis na internet. Claro que em 2015, tudo poderia voltar ao que era dantes. Mas não creio, pois se tudo correr bem no mundo a China crescerá 7-8% e os USA crescerão lá seus 2-4%.

DdAB
Imagem: aqui. A imagem é do tempo da igualdade: um jogo de futebol em que o escore foi  China1 x USA 1. Futebol feminino, claro. Se o jogo econômico fosse em PIBs, teríamos em 2014: China 1,01 e 1,00 USA.

P.S. de 28/maio/2015: Aqui está a primeira postagem sobre o tema das magnitudes relativas dos PIBs americano e chinês.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Ulysses: tem ou não tem "y"?


Querido diário:

Quem me lê com certa assiduidade bem sabe que me declaro especialista na primeira sentença de "Ulysses", obra magna do século XX, de autoria de James Joyce, um nome com "y", aliás, dois nomes, nomeadamente, "Ulysses" e "Joyce", não é mesmo? Só faltava agora Duylyo, só aí mais dois outros.

A primeira frase, como sabemos é:

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.

Por questões diversas que explico tudinho quando bebo, traduzo-a agora como:

Sobranceiro, o fornido Buck Mulligan transitou pelo hall da escada, cabendo ao observador independente anunciar em sua mão uma bacia de barbear em que boiava sobre uma camada de espuma um espelho e, cruzada sobre ele, uma navalha.

De onde me veio a petulância para fazer este tipo de tradução e ainda assim declarar-me um blogueiro digno? É que a obra magna de Joyce dá o que falar mesmo. No presente contexto, lendo a tradução portuguesa da encrenca, percebi que tem outro "y" fazendo parte da história, para alegria de comentadores de meu porte (ou seja, comentadores apenas da primeira frase da referida opus magnum).

Vejamos. Vemos o mundo da tradução portuguesa (desconsiderando aquelas de Houaiss publicada no além mar:

JOYCE, James (2014) Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.

Vemos na página 10 desta:
"Quanto tempo vai ficar Haines nesta torre?".
Na página 24, vem o pobrema:
"Pararam, enquanto Haynes examinava a torre e dizia por fim: [...]"

O que pode ser dito, com certeza, é que as duas edições eletrônicas de minha posse (uma em txt e outra em PDF) não registram nenhum "haynes", o que me leva a pensar que teria sido um erro de Joyce que nem ele mesmo registrou ou deu-se conta. E que foi capturado mediunicamente pelo tradutor a serviço da Relógio D'Água.

Aí garrei de conferir no Houaiss:

JOYCE, James (2003) Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Tradução de Antônio Houaiss.

O pernóstico velhinho tem na página 10:
"Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?"
Para o brasileiro, tudo soa assim, na página 28:
"Pararam enquanto Haines examinava a torre e dissesse por fim: [...]."

Mas porém. Aquele "dissesse" de Houaiss não paga a qualidade do "dizia" da Relógio D'Água. E a história nunca deverá terminar.

Em resumo, dizemos e disséssemos, diríamos, que Joyce tem "y", Ulysses tem "y", Duilio não tem "y" e Haines tampouco se escreve com "y".

DdAB
Imagem aqui. Selecionei-a em homenagem ao Blooms Day, nomeadamente, o 16 de junho (de 1904), aquelas coisas.

domingo, 19 de abril de 2015

A Reforma da Carta


Querido diário:

Já vi que não me entendo com uma boa parte da turma. Leio, e nem sempre discordo, Carta Capital (afetivamente chamada de Capital dos Carta...). Na próxima quarta-feira, circulará seu número 846 cuja página 17 estampa o artigo "A Reforma Política", de autoria de Marcos Coimbra, articulista tradicional. Página garantida.

Ele está criticando a intenção de alguns (diz que o PSDB) de, na proposta de reforma política, inserirem o voto distrital. Eu gelei, pois acho que precisamente no voto proporcional é que reside uma das fraquezas do sistema eleitoral vigente:

Por razões não muito claras, a oposição escolheu o voto distrital como pedra angular da reforma política. De uns anos para cá, os próceres tucanos e os representantes do novo conservadorismo no Congresso lutam por sua adoção no Brasil.

Não são muito claras? Como assim? Não era para escolher o melhor sistema? Ou será que a situação está pensando que, com o voto distrital, seria prejudicada eleitoralmente nos próximos certames? Ou será que estamos frente a opiniões peculiares, descoladas de, digamos, teoria (dos jogos...)?

E tem mais:

O voto proporcional é muito mais favorável à representação das correntes minoritárias, à expressão ideológica e ao fortalecimento dos partidos políticos. Por meio dele, elegem-se parlamentares com plataformas menos paroquiais, com propostas que vão além da defesa dos interesses da localidade onde reside o eleitor.

Pensei, claro, naquele velho "Os Dois Brasis" de Jacques Lambert: não podemos estar olhando o mesmo país, o mesmo sistema eleitoral. Eu diria praticamente tudo ao contrário:

O voto proporcional é muito mias favorável à representação das correntes de jogadores de futebol, de padres milenaristas, de policiais fascistas, à expressão religiosa e ao enfraquecimento dos partidos políticos. Por meio dele, elegem-se parlamentares com plataformas descoladas de qualquer pregação partidária ou compromissos comunitários, com propostas que vão além da defesa dos interesses da localidade onde reside o eleitor, deixando o vínculo entre o eleitor e seu representante esmaecido ao ponto de levar o político a rir de qualquer cobrança.

E que mais? Uma vez que é no parlamento que podem surgir as verdadeiras lideranças, um parlamento composto por maus políticos, despreparados ou desonestos, vê expulsa precisamente a turma da qual esperamos algo para mudar o desvão institucional brasileiro. É a Lei de Gresham dos sistemas bimetálicos: a moeda má expulsa a boa do mercado.

E mais: um parlamento que não disputa o mesmo eleitorado é muito mais fácil de alcançar soluções cooperativas do que aquele caracterizado pela busca generalizada pela simpatia do eleitor e seu voto. As emendas de obras locais, descoladas de planos de desenvolvimento, são precisamente fruto do tipo de sistema eleitoral que vemos e que Marcos Coimbra defende com ardor.

E mais ainda: ele diz ser tendência dos países avançados voltar ao voto proporcional, o que não me parece verdadeiro. Penso que a esquerda neles está mais interessada na democracia direta, o que nada tem a ver com voto distrital ou proporcional.

DdAB
Imagem aqui.

sábado, 18 de abril de 2015

Vida na Esquerda: definição


Querido diário:

Quinta-feira que passou, falei sobre minhas diferenças com aqueles classificados de carteirinha como neo-liberais. Tinha em mente a postagem que faço agora. Com efeito, andei envolvendo-me em umas discussões sobre o que é ser "de esquerda". Tem gente que diz que este tipo de diferença desapareceu: todo mundo é igual perante o dinheiro. Eu argumentei que, entre ladrões de direita e ladrões de esquerda, andei votando nos de esquerda. Claro que precisamos definir, et pour cause, o que é esquerda. Precisamos (os de esquerda) construir um projeto igualitarista para a sociedade mundial do século XXI.

Minha visão original é que esquerda significa igualitarismo (a rigor, a definição de Rawls para isto: liberdade em primeiro lugar). No outro dia (terás visto aqui no blog?), li um artigo cujo autor falava em "empatia", acho que faz parte. Ser de esquerda é ter empatia pelo ser humano, pelas minorias e mesmo pelas maiorias, claro. E nutrir este celebérrimo sentimento especialmente com relação aos menos aquinhoados. Isto significa que ser de esquerda tem um significado fortemente assente sobre a eliminação da desigualdade econômica, mas que vai além dela. 

Por falar em "econômica", para fins econômicos, entendo que a sociedade agrega preferências por meio de "organizações", das quais destacam-se três


mercado - estado - comunidade

sabendo-se que cada uma delas apresenta suas falhas que impedem o funcionamento pleno sob o ponto de vista da racionalidade e da eficiência. Isto significa que, em boa medida, uma sociedade de esquerda terá como base a concepção de que o PIB (ou melhor, o consumo per capita) deve ter um movimento ascendente.

Não chega a passar um mês sem que eu cite a definição de sociedade justa criada por John Rawls: a maior liberdade compatível com a dos demais, empregos públicos abertos a todos e manejo da desigualdade beneficiando os menos aquinhoados. Isto resolve o problema da sociedade justa, não o da esquerda... Mas lhe dá certo alento: uma sociedade de esquerda não pode ser injusta, não é mesmo?

Se bem que nesta cláusula das formas de lidar com a desigualdade já comece a transparecer o que vim a qualificar como "de esquerda": igualitarismo. Claro que é preciso adicionar aquela cláusula da liberdade e talvez até uma cláusula de que queremos a sociedade igualitária com renda per capita crescente. Em outras palavras, queremos ver reduzidas diferenças no consumo per capita que deverá ser crescente ao longo do tempo, descontando o blim-blim-blim do ciclo econômico. Ou melhor, de tudo faremos para combater o movimento cíclico extremado que poderia levar o consumo per capita a sofrer choques temporários, contra arrestando o investimento.

Ser de esquerda não implica a obrigatoriedade de apoio a um projeto socialista. Tenho citado Gerônimo Machado que sustenta que não queremos o socialismo hoje, mas as políticas (pessoais, sociais e governamentais) que levam a ele. Com efeito, a definição de sociedade justa de David Harvey (aqui) ajuda a resolver a parada. 

Na aba do blog, apresento minha equação de salvação da humanidade:

.a. mente quieta com três horas de aula por dia
.b. coluna ereta com exercícios físicos
.c. coração tranquilo com trabalho comunitário

Lá na aba, falo naquela Brigada Ambiental Mundial, pois preocupa-me muito mais o clube dos desvalidos do Congo do que da Bélgica, os do Paraguay do que os da Suécia, os do nordeste do que os do sul do Brasil. E talvez, se parar de beber, possa escrever um livro que se intitulará "Dois Subornos", um para incentivar a negadinha a ficar em casa (renda básica) e outro para incentivá-la a sair de casa (salário mínimo). Ou seja, algo como a renda básica prá um lado e o salário mínimo prô outro. Em outras palavras, quem não pode (ou não quer) ambicionar posições confortáveis no mercado de trabalho ganha a renda básica universal que nunca será apenas uma migalha. Ser-lhe-á paga uma grana que não faça seu consumo ser muito inferior ao dos mais bem aquinhoados.

E que mais ajuda a montar a sociedade igualitária? Certamente coisas que muita gente da esquerda EE (isto é, esquerda equivocada) discorda: fim do estado nacional. Isto significa, por exemplo, a existência de um banco central mundial (já existe o proto-banco, o BIS), de busca de uma moeda mundial, de livre-cambismo, justiça administrada pela Corte Internacional de Haia (aquelas coisas...), um blim-blim-blim com poder de polícia, aquelas coisas.

Então, que é mesmo ser de esquerda?

:: ser de esquerda
. é ser internacionalista e não nacionalista (logo falar em políticas protecionistas é heresia),
. é ser pela paz e não pela guerra,
. é desprezar as teorias da grande conspiração,
. é ouvir com bonomia os discursos de organizações econômicas alternativas a o capitalismo, como dinheiro paralelo, as cooperativas de produtores, Mondragon, economia solidária, (na linha de não contrariar louco...),
. é querer reformas democráticas que conduzam ao socialismo,
. é ser igualitarista,
. é ser favorável ao crescimento econômico (pois acredita que as necessidades humanas são ilimitadas e que liberdade é o conhecimento das necessidades),
. é ter estado mínimo (substituir o governo dos homens pela administração das coisas),
. é apoiar a formação do governo mundial (com a provisão de bens públicos e meritórios),
. é apoiar um sistema político que comporte o voto secreto universal distrital facultativo,
. é considerar que experiências como a implantação do esperanto enquanto língua universal e o socialismo como sistema econômico obrigatório é bucha.
. é reger as finanças públicas pelo princípio do orçamento universal, amparado pelo princípio da hierarquia das necessidades criado por Abraham Maslow,
. é cobrar imposto de renda progressivo sobre os rendimentos do trabalho e rendimento proporcional aos rendimentos do capital. Ou seja, trabalhador paga imposto de renda progressivo, empresa paga imposto de renda proporcional, mas o lucro distribuído a pessoas físicas paga imposto de renda progressivo adicional àquele já recolhido pela empresa.

DdAB

P.S. Este negócio todo é uma encrenca inominável. Pouco falei de Rawls, e falar mais levaria a Amartya Sen e fatalmente a Martha Nussbaum, Hannah Arendt, e o negócio não iria parar mais. Mas dei um passo adiante e olhei http://en.wikipedia.org/wiki/Giorgio_Agamben.

P.S.S. Sempre que falo em Rawls também penso no conceito de sociedade justa expresso por David Harvey aquiaqui e aqui. Em tempo, em meu blog, além destes links, há milhares de outras postagens falando em sociedade justa.

APÊNDICE
Comecei falando neste site aqui, que me foi passado pelo meu finado amigo e colega, o prof. Jesiel de Marco Gomes.

Andava eu neste nível de atividade mental, quando me deparei, na aba do blog, com a postagem daqui.

.a: http://ventosueste.blogspot.com.br/2014/11/esquerda-direita-e-o-rendimento-basico.html

E fui mandado para .c., mas antes deveria ler
.b: http://www.adamsmith.org/blog/welfare-pensions/we-need-a-negative-income-tax-not-a-living-wage/

.c: http://stumblingandmumbling.typepad.com/stumbling_and_mumbling/2013/01/marxism-freedom.html

Aí, já caí em

.d: http://stumblingandmumbling.typepad.com/stumbling_and_mumbling/2014/11/basic-income-left-right.html

.e: http://en.wikipedia.org/wiki/Libertarian_Marxism

E aí aproveitei e olhei:
http://en.wikipedia.org/wiki/Communitarianism

E o pior é que não sei o que fica faltando... O primeiro ponto é não pensar no Brasil, ou se o fizer não esquecer a Africa.

DdAB

Imagem: pois bem: se você puder ler aquela encrenca então saberá que ser de esquerda não é nada do que diz aquele articulista, ao contrário. Ele confunde Brasil e PT com o mundo e todos os tempos. No outro dia, reclamei da falta da piada do dia no jornal Zero Hora. Pois hoje há uma lá (O cliente reclama ao garçom que o frango veio com uma perna mais curta. O garçom indaga se o cliente quer comer ou dançar). Mas marcou-me o dia ler esta diatribe do "jornalista diplomado" Diego Casagrande. Tivesse eu recursos ilimitados, oferecer-lhe-ia R$ um milhão para ele assistir a um curso de teoria da escolha pública.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Problemas com Zero Hora...


Querido diário:

Sabemos que às vezes, afetivamente, dirijo-me a Zero Hora como "Zero Herra". No outro dia mesmo vi um errinho desses que qualquer jornal de respeito tenta evitar. Eles tentam, claro, concedo-o, mas volta e meia intentam contra a gramática... E hoje?

Uma das boas razões que tenho para ler o concorrido jornal é a piada que agora se deposita na antepenúltima página. Foi lá que li aquela maravilhosa e já transcrita aqui neste circunspecto blog:

-Joãozinho, você reza antes das refeições?
-Não é necessário, professora. Minha mãe é excelente cozinheira.

Boazinha, né mesmo?

Só que hoje não saiu piada nenhuma e o que isto significa é que as piadas mesmo se devem às leituras que fiz do noticiário político.

DdAB
Imagem daqui.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quem é Neoliberal?


Querido diário:

Já andei prometendo para minhas/meus leitores uma definição do que é ser de esquerda. A tarefa tem-sem mostrado mais fácil de anunciar que de implementar. Hoje decidi percorrer um caminho mais simples, certa negação. Agora quero dizer o que e quem é um neoliberal. Olhei na Wikipedia (aqui), deletei pilhas de coisas e fiquei com o seguinte, que retenho em inglês, para não dar na vista...

Fiscal policy : neoliberal é contra uma política fiscal ativa. Eu acho, keynesianamente, que quem manda é a demanda, portanto devemos sempre manter um olho na inflação e outro no movimento cíclico do PIB e mesmo do emprego.

Redirection of public spending from subsidies : até aí estou com eles, pois em geral subsídios implicam corrupção.

Tax reform : tão impactado fiquei com esta reforma tributária que decidi mantê-la: "broadening the tax base and adopting moderate marginal tax rates to encourage innovation and efficiency". Parecem comunistas. Estou com eles. Digo mais: trocar os impostos indiretos (exceto sobre bens de demérito) pelos diretos.

Interest rates e Floating exchange rates : temos que achar um aladim que consiga compatibilizar estas duas "taxas".

Trade liberalization : temos que ir fazendo tratados bilaterais contemplando o livre comércio. Isto exclui por algumas décadas a China. Ou, ao contrário, será apenas quando alguém de respeito falar seriamente com eles que eles acabarão com o dumping social.

Liberalization of the "capital account" : aqui também acho que eles -neoliberais- me odiariam, pois eu penso que esta "liberalization" não pode ser silly e sim clever. Juros e câmbio, além de um impostinho sobre transferências unilaterais, devem ser considerados. Mas sempre lembrando que recomendo a adoção de uma consultoria de uma empresa júnior de alguma universidade norueguesa, algo assim. No Brasil, tem muito ladrão querendo dar palpite sobre tudo.

Privatization of state enterprises : de acordo com o esquema de criação de um fundo nacional de desenvolvimento, dando-se uma cota a cada brasileiro, podendo ser alugada, mas não vendida.

Deregulation : deixo também o que eles disseram: abolition of regulations that impede market entry or restrict competition, except for those justified on safety, environmental and consumer protection grounds, and prudent oversight of financial institutions. E eu? sempre achei que a função do governo é provisão e não produção. E se é para produzir algo, teria que ser informação e fiscalização.

Legal security for property rights : sempre pensei que a propriedade privada deve ser respeita, desde o volume que ocupo dentro do planeta até outras coisas, por exemplo, escovas de dentes para meninos de rua: cada um deve ter a sua.

DdAB
A imagem é daqui. E não sei, não garanto, se a raposa é de direita ou de esquerda. O que sei é que o Brasil nunca, nunca de núncaras, teve gente honesta cuidando dos interesses públicos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Danny Rodrik e o Planeta 23


Querido diário:

Andava eu quebrando a cabeça para dizer algo interessante sobre industrialização precoce do Brasil e não vi que Danny Rodrik estava falando no assunto. Seu ponto de vista é um tanto divergente do meu, acho que ele não lê os blogs vazados em português.

In view of its status as the world’s manufacturing powerhouse, it is surprising to discover that manufacturing’s share of employment is not only low, but seems to have been declining for some time. While Chinese statistics are problematic, it appears that manufacturing employment peaked at around 15% in the mid-1990’s, generally remaining below that level since.

[...]


An immediate consequence is that developing countries are turning into service economies at substantially lower levels of income. When the US, Britain, Germany, and Sweden began to deindustrialize, their per capita incomes had reached $9,000-11,000 (at 1990 prices). In developing countries, by contrast, manufacturing has begun to shrink while per capita incomes have been a fraction of that level: Brazil’s deindustrialization began at $5,000, China’s at $3,000, and India’s at $2,000.

[... e, um tanto contra o Dudu,]

The economic, social, and political consequences of premature deindustrialization have yet to be analyzed in full. On the economic front, it is clear that early deindustrialization impedes growth and delays convergence with the advanced economies. Manufacturing industries are what I have called “escalator industries”: labor productivity in manufacturing has a tendency to converge to the frontier, even in economies where policies, institutions, and geography conspire to retard progress in other sectors of the economy.

[...]

The social and political consequences are less fathomable, but could be equally momentous. Some of the building blocks of durable democracy have been byproducts of sustained industrialization: an organized labor movement, disciplined political parties, and political competition organized around a right-left axis.

Danny Rodrik: aqui. Postado em 14/out/2013.

O que me parece é que those days are gone. E ficarão ainda mais no passado à medida que a globalização aprofundar-se. Ele diz (citei acima?) que Robert Lawrence chamou a atenção para o fato de que a desindustrialização nos países capitalistas avançados foi independente da enorme globalização dos últimos 40 anos (90% da frase é ideia minha...).

Aliás, esta flexibilização das subcontratações que está sendo votada hoje é um sinal dos tempos: o que a classe trabalhadora precisa fazer é descobrir o que a enfraquece e tentar mudar. Não é concebível uma reportagem laudatória como a da carta capital desta semana, considerando que Getúlio Vargas e sua CLT deram algum traço de contribuição positiva para o movimento operário brasileiro. Por exemplo, o sindicato de categoria e não de empresa. Agora é possível que, na nova lei, comece-se a pensar nisto: haverá comunhão de interesses entre os contratados e o subcontratados, não é mesmo?

E que se deve fazer? Penso que é mesmo aprofundar a globalização, abrir a economia, jogar a política pública para produzir capital humano e não capital físico, a não ser aquele induzido (não produzir, mas prover) pelo crescimento dos setores produtores de bens públicos e de mérito.

DdAB
Imagem daqui. Parece que o título desta postagem é vergonhoso...

domingo, 12 de abril de 2015

Hai-Kai n. 116


Querido diário:

Tudo que reluz é ouro, ou nem tudo... Ergo chegamos ao hai-kai final das trovas com

MILLÔR:

NUNCA ESQUEÇA:
A VIDA
TAMBÉM PERDE A CABEÇA.


Planeta 23

procurando um atalho
perdi a cabeça
pelo baralho.

DdAB
P.S. A ausência de pontuação neste hai-kai, simultaneamente à quebra (novamente) do padrão das trovas, leva-nos a crer que o autor alcançou a ansiada autonomia.

P.S.S. imagem daqui, com o desenho original (colorido?) de John Tenniel.

sábado, 11 de abril de 2015

Hai-Kai n. 115


Querido diário:

Reservei para este fim-de-semana o término de minhas trovas com o imortal

MILLÔR:

O POBRE COM SEU GEMIDO
NEM ACORDA
O PÃO DORMIDO.

Planeta 23:

pão gemido come rico
come pobre, comes tu
e eu acordado fico.

DdAB
Imagem: aqui. Pedi ao Images "pão dormido" e ele deu-me um site interessante, com diversas receitas de aproveitar a sobra. Trata-se de minha homenagem a um prato que comi na quinta-feira e analisei como sendo um bacalhão com picadinho. Um parente do bacalhau às natas, claro.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Privatizações de Direita e de Esquerda


Querido diário:

Depois que a propriedade governamental de empresas provou-se absolutamente permissiva a tudo que é tipo de  falcatrua, inclusive com políticos de ignorância e preparo, respectivamente, infinita e nulo, comandando a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, um monte de empresas que nem posso citar de memória, sob pena de passar o resto da vida falando em nomes e CPFs, depois que ele tornou-se, como disse, passei a pensar em privatizações. Aliás, minha imagem de, digamos, 1982, quando lecionei introdução à economia, eu falava aos alunos que seria mais sensato um governo distribuir alimentos, por contraste àqueles que distribuem gasolina. Tivessem nossos governantes estudado comigo, nesses 30 anos, o Brasil poderia ter deixado esta posição medíocre no mundo das letras e alçar-se a contemplar horizontes mais luzidios.

As experiências do Leste europeu, da transição do socialismo ao capitalismo, também têm seus ensinamentos interessantes.

O problema brasileiro é que, com a atual distribuição da renda, privatizar significa jogar com cartas marcadas: só terá acesso às benesses daquele patrimônio público aquele que já desfruta da posição privilegiada que alcançou na vida. Isto significa, para muitos, o coroamento de roubos e furtos, como é o caso dos políticos e dos juízes, que se arbitram salários nababescos, se é que os nababos sonharam com tanto.

O problema brasileiro, ainda mais, é tão escabelado que o próprio sistema de preços é violentamente distorcido, o que permite que esta distribuição de renda desabotinada siga altaneira.

Qual a solução? Sem pressa, vejamos uma solução a ser implementada gradativamente em 20 anos. Primeiro, monta o fundo nacional de desenvolvimento. Cada brasileiro nato ou naturalizado ganha uma ação cuja propriedade é intransferível, mas o uso pode ser cedido mediante aluguel. Então estaria começando a formar-se o fundo de financiamento da renda básica universal. E quem alugaria as ações da plebe rude? Claro que agentes interessados em controlar as empresas. E quem os fiscalizaria? Bem, agora temos que partir para o modelo aberto: apenas empresas estrangeiras idôneas, pois no Brasil, em 20 anos, as fraudes, falcatruas, golpes, desvios, não terão ainda alcançado solução digna.

DdAB
P. S. na imagem que veio daqui, fica bem clara a hibridização dos maus hábitos. O PSDB, por exemplo, até atrair o PFL para eleger o prof. FHC, era de esquerda, com bons companheiros de esquerda que, por distração, encontram-se a ele associados até hoje. O PT, antes de tomar o poder, antes daquela "Carta aos Brasileiros", era de esquerda. Mas todas as tropelias, até mesmo aquela do Waldomiro Diniz, com dois meses de governo, deixa claro que a fusão com as cores direitistas tinha data marcada. A bebida foi só o que me restou: só bebendo.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Pior que a Petrobrás: pré-assalto em Guabiju


Querido diário:

Guabiju? Já ouvi falar. Nada mais nada menos que
[Do tupi.] S. m. Bras.  S.  Bot. 1. O fruto do guabijueiro. 2. V. guabijueiro.
E, no guabijueiro: árvore silvestre, da família das mirtáceas, que produz o guabiju (Eugenia pungens).

E daí? Daí que também tem Guabiju aqui na Wikipedia. Município do Rio Grande do Sul, 1,6 mil habitantes, emancipado de Nova Prata em 1988. Para uma país pobre, Guabiju não está mal, pois tem renda per capita de R$ 21,3 mil anuais, ou seja, quase R$ 2 mil por pessoa por mês. E daí?

Daí que a página 15 de Zero Hora de hoje mostra seu caso de polícia: "Sargento da BM tenta assaltar agência dos Correios e é preso". BM, para os demais cidadãos planetários, é a Brigada Militar, a força pública estadual. E daí? Passo a resumir.

O sargento [...] ingressou na Brigada Militar em 1986 e trabalha em Guabiju há 1996, algo assim. Solitário, ele organizou o assalto, esquecendo que seria filmado, não tendo presente que a gerente da agência do correio é nervosa e, ao tentar abrir o cofre de onde sairiam os adicionais do sargento, errou o código e o cofre trancou-se. O sargento desistiu do assalto e saiu. As vítimas, imobilizadas com aquelas novas fitinhas de plástico, mas de bocas desobstruídas, pediram ajuda. A ajuda não demorou, pois um soldado morador do mesmo prédio do correio mobilizou-se. E não demorou para encontrar o sargento.

De folga e à paisana, ele teria dito que já sabia do assalto - surpreendendo o soldado - e contou que perseguiu o ladrão por um matagal que fica próximo ao quartel, mas o bandido conseguiu escapar em um carro escuro. [...] Dois PMs iniciaram buscas pela região e localizaram uma bolsa em um galpão atrás do terreno do quartel. Dentro encontraram roupas, máscara, arma, lacres plásticos, uma placa bocal -possivelmente para alterar o timbre de voz - e uma par de tênis. De pronto os PMs reconheceram a bola e o calçado como sendo semelhantes aos que o sargento [...] usava quando ia jogar futebol com os colegas.

Depois de ter simpatizado com Lúcio Flávio, o passageiro da agonia, Meu nome é Jonny, Butch Cassidy, Bonnie and Clyde, essa turma toda de filmes que dão visões idílicas de desajustados que, no final das contas, não apresentam perigos como os políticos contemporâneos. Na sociedade igualitária, essa turma poderia desde atuar no cinema, filmando as tragédias da vida de terceiros, a fazer roteiros, a serem professores de ensino pré-universitário. Bonnie poderia ser a Gisele Bünchen daqueles tempos, e Sundance Kid poderia ser professor de violino. O sargento poderia ser mesmo sargento, só que ganhando salário decente, em um país decente em que a vida digna não é uma conquista, mas um direito.

DdAB

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Reforma Política: só trocando os políticos


Querido diário:

Sempre que leio ou escuto gente falando que precisamos trocar o governo (não aquele negócio de substituição do governo dos homens pela administração das coisas, bem entendido), grito: por qual?

Meu ceticismo na capacidade desta turma atual (que não larga o osso) trazer a mais mínima e insignificante melhoria para a agenda é absoluto. Por isto, desabotinei-me ao ler a seguinte nota da página 5, "Política +", de Zero Hora de hoje:

REFORMA POLÍTICA
   Os prefeitos do Rio Grande do Sul vão se reunir para discutir e aprovar uma proposta de reforma política.
   A assembleia extraordinária será na segunda-feira em Porto Alegre.
   Até agora, o único ponto de consenso é a coincidência de todas as eleições no mesmo ano. Os prefeitos alegam que uma eleição a cada dois anos atrapalha a gestão em todos os níveis.

Claro que eu pensei que o financiamento público, o voto obrigatório, o voto proporcional, a estrutura partidária, o rateio da administração pública como se fosse o galinheiro lá de casa, e tantas outras querelas, inclusive o cara-durismo dessa turma, seu despreparo em entender o primeiro parágrafo de qualquer curso de teoria da escolha pública, é que são o problema. Se algo de interessante existe no sistema de eleições sistemáticas é precisamente esta assincronia nos mandatos. Quanto mais eleição, melhor para a democracia e pior para os ladrões que se encastelam em cargos os mais variados.

Por isto, anos atrás, ajudei a criar o slogan "abrace a política, sufoque um político".

DdAB
Imagem daqui. Nem sei se recomendo o que, rapidamente, vi, exceto encher os políticos de sapatadas.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Jogos, Aranha e Martins


Querido diário:

As senhoras Aranha e Martins são autoras do livro que li com o maior proveito:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires (2009) Filosofando; introdução à filosofia. 4ed. São Paulo: Moderna.

Na página 301, há algo muito interessante. Estamos no mundo da política, estamos no mundo de Maquiavel. Estamos falando em fortuna e virtù.

[...] para fazer política é preciso compreender o sistema de forças existentes de fato e calcular a alteração do equilíbrio provocada pela interferência de sua própria ação nesse sistema: como vimos, o desafio está em compreender bem a relação fortuna-virtù.

De sua parte, na página 300, temos:

FORTUNA, em sentido com um, significa acúmulo de bens, riqueza. Sua origem é a deusa romana Fortuna, que representa a abundância, ms também é aquela que move a roda da sorte. Especificamente, fortuna significa ocasião, acaso, sorte. Para agir bem, o príncipe não deve deixar escapar a ocasião oportuna. De nada adiantaria ser virtuoso, se o príncipe não soubesse ser precavido ou ousado e aguardar a ocasião propícia, aproveitando o acaso ou a sorte das circunstâncias, como observador atento do curso da história.

VIRTÙ significa virtude, no sentido grego de força, valor, qualidade de lutador e guerreiro viril. Príncipes de virtù são governantes especiais, capazes de realizar grandes obras e provocar mudanças na história. Não se trata, portanto, do príncipe virtuoso, bom e justo, segundo os preceitos da moral cristã, mas sim daquele que tem a capacidade de perceber o jogo de forças da política, para então agir com energia a fim de conquistar e manter o poder.

Parece óbvio que este sentido que está sendo dado ao termo equilíbrio é muito mais sofisticado que o geralmente atribuído pela ciência econômica. O que parece estranho é aquela turma que não faz modelagem, nem a que se associa à maior dualidade da ciência econômica (tudo o que se vende é igual a tudo o que se compra): se foi assim ontem, qual será o nível que devemos ofertar hoje para que não haja nem excedente nem escassez de oferta. Eu disse: oferta. A quantidade de informação que podemos retirar do conhecimento das curvas de oferta e demanda planejadas em um mercado específico, muitos mercados específicos e todos os mercados reunidos (agora estamos na macroeconomia) é estonteante.

DdAB
A imagem saiu daqui.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Nome em Vão


Querido diário:

Quem é mais pecador, o que vive invocando o nome de Deus para qualquer dá-lá-aquela-palha ou o que não o cita nunca, ou quase nunca, como é meu caso? Aquela encrenca de invocar o nome de Deus em vão é um dos mandamentos, o segundo, se bem me parece. E então que dizer do cabo Daciolo, do PSOL do Rio de Janeiro que quer que o Brasil tenha o poder emergindo de Deus e não do povo. Mas já não foi dito que a voz do povo é a voz de Deus? Então, por que usar intermediários?

O que vemos é uma farsa. Cabo? Cabo deputado? Cabo deputado do PSOL? E a turma que o seguiu? Tem seis gaúchos, entre eles -claro- o inefável deputado Otávio Germano, do PP. E os demais gaúchos? Começando com o citado:

:: Otávio Germano (PP)
:: Paulo Pimenta (PT)
:: Dionilso Marcon (PT)
:: Carlos Gomes (PRB)
:: José Stédile (PSB)
:: Luiz Carlos Heinze (PP)
:: Ronaldo Nogueira (PTB)
:: Fernando Marroni (PT)
:: Sérgio Moraes (PTB)

O que é mesmo que ocorreu? Alguns desses luminares assinaram o tal pedido de mudar a constituição da república, ao mesmo tempo que deixavam claro que uma coisa é avalizar o pedido e outra é concordar com ele. Um dos luminares mesmo chegou a dizer que tem um acordo de apoio automático a tudo que é medida de deputados de alguns partidos aliados. Logrolling, né? E nem vão para a cadeia?

Pelo que intuo, na condição de leitor de Zero Hora, aquele prédio em Brasília é um dos maiores circos já montados nesta república. Que fazer? Fechá-lo, cassar seus membros? Obrigar os candidatos a fazer um curso de teoria da escolha pública? Education, education, education.

Mais verbas para a educação!
DdAB
Imagem: é um powerpointezito? Veio daqui.
P.S.: sou da campanha "Ateus, saiam do armário", claro, o que não me impede, ao contrário, de ver criticamente o mal-estar que tanto os religiosos themselves quanto os que entenderam mal o que leram nas tábuas da lei de Moisés trazem ao planeta.

domingo, 5 de abril de 2015

Hai-Kai n. 114


Querido diário:

Como já sabemos, el tiempo pasa! E chegamos ao penúltimo hai-kai do livro de Millôr publicado pela Editora L&PM. Neste domingo pascoal, temos:

MILLÔR

TÃO PEQUENO O PIGMEU;
NEM A MÃE SABE
QUE ELE NASCEU.


Planeta 23:

quem é a menor mulher
a da grande Lispector
ou a do inspetor?

DdAB
P.S. parece que neste finalzinho comecei a pirar com esta do inspetor, não é mesmo?
Imagem: é um Rotko do qual tenho cópia em papel em casa (aqui lá...),

Hai-Kai n. 113


Querido diário:

Neste sábado de aleluia, o hai-kai 113 diz com MILLÔR:

O MUNDO AGONIZA.
QUEREM RETIFICAR
A TORRE DE PIZZA!

Planeta 23:

A Torre de Pizza
avisou: Galileu
ainda se eterniza.

DdAB
Fonte da imagem: a pizzaria itself, no município de Canoinhas. Quer falar com eles? E-mail: cristianebeiras@hotmail.com.
P.S. o sábado de aleluia, no momento da publicação da postagem, já virara domingo de páscoa.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Hai-Kai n. 112


Querido diário:

Estamos no mundo das trovas dos hai-kais millorianos:

MILLÔR:

MEU PROTESTO
É SÓ ANDAR COM PESSOAS
QUE DETESTO.

Planeta 23:

O que detesto:
pão com banha:
eu não presto.

DdAB
Imagem daqui. Se até cachorro tem consciência de seus direitos, que dizer da alemoada que gosta do tal pão com banha? E que dizer da influência de James Joyce sobre mim, que coloquei dois pontos duas vezes?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Marx, a Mercadoria e a Macroeconomia


Querido diário:

No livro:

BÊRNI, Duilio de Avila e LAUTERT, Vladimir (orgs.). Mesoeconomia; Lições de Contabilidade Social. A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Porto Alegre: BookMan, 2011.

temos uma espantosamente interessante definição de macroeconomia:

[...] é a parte da teoria econômica que estuda os fatores que se sobrepõem à decisão de cada agente individual e que resultam da agregação dos resultados de inúmeras decisões destes agentes e dos processos de cooperação ou competição que eles encetam em torno de suas iterações.

Nas páginas 46 e 47 do livro:

HARVEY, David. Para entender O Capital. Rio de Janeiro: BoiTempo. Titulo original: A companion to Marx's Capital. Tradução de Rubens Enderle.

lemos algumas passagens interessantes que relacionam a mercadoria individual (e seu valor e seu preço), o agregado de todas as mercadorias (o PIB e seu preço) e o fetichismo associado ao funcionamento das economias monetárias (expressão minha e não do autor).

Primeiro, o que é fetichismo da mercadoria? Por que, sendo o conceito tão importante, a seção que o contém no volume I d'O Capital só entrou neste lugar do capítulo I na segunda edição? Uma resposta tautológica é: porque Marx não estava satisfeito com a ordem de exposição do primeiro. E isto nos lança àquela reflexão moderna sobre o "capítulo inédito". E a resposta mais criativa é que Marx decidiu deixar bem clara sua teoria do valor: os preços exercem o papel de esconder a "relação social determinada entre os próprios homens [... que...] assume, para eles, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas." [Harvey citando Marx]. Quando os valores se transformam em preços é que o fetichismo aparece. Se os valores correspondessem ao que vemos no mercado, nem haveria preços para, por exemplo, obras de arte antigas ou o aluguel da terra, aquelas coisas.

Ao dizer que "As mercadorias são coisas sensíveis-suprassensíveis e sociais" abre-se espaço para pensarmos naquela sobre-imposição de que iniciamos falando e que caracteriza o corpo de conhecimento da teoria econômica que chamamos de macroeconomia:

   [O fetichismo] acontece, diz ele [ou seja, diz Harvey que Marx diz], porque 'os produtores só travam contato social mediante a troca de seus produtos do trabalho', de modo que 'os caracteres especificamente sociais de seus trabalhos privados aparecem apenas no âmbito' da troca mercantil. Em outras palavras, eles não sabem nem podem saber qual é o valor de suas mercadorias antes de levá-la ao mercado e efetivar sua troca.

Costumo pensar que temos aí precisamente esse determinismo do todo sobre suas partes, permitindo-nos entender que, por exemplo, variáveis, como é o caso do preço de todas as mercadorias, emergem da baixo para cima e em cima assumem outro caráter, o caráter social e passam a pressionar as determinações de baixo. E é por isto que, em momentos de maior exaltação, costumo sugerir que quem determina os nível do PIB é o presidente do banco central. Que quero dizer? Que apenas com um estoque de moeda avalizado pelo banco central (e seus múltiplos, para dar conta de relações não monetárias, mas referenciadas aos preços de mercado, como o escambo ou mesmo mercados futuros) é que os preços poderão expressar-se e, como tal, esconder as relações entre valores que respondem fundamentalmente pelos preços relativos.

O valor só se torna objetivo quando ascende do micro ao macro. Não fosse a micro, não haveria a macro. Mas é o macro que dá existência do micro.

E Popper, e como testar? Popper odiava Marx, mas tenho na manga escondido um artigo que tentará convencer o leitor que Marx era um popperiano (e me baseio numa postagem do Bípede Pensante (aqui).

Primeiro, como sabemos que os preços lá de cima influenciam os preços lá de baixo? Basta pensar nos índices de preços e de quantidades. E comparar, por exemplo, a evolução deste, assim, nível geral de preços com a evolução dos preços individuais. Em média (e que é o índice de preços/quantidade, senão uma média?), haverá estrondosamente elevada correlação.

Segundo, como saber que os valores se associam aos preços? Basta correlacionarmos os preços das mercadorias com a produtividade do trabalho dos setores que as produzem. Deveremos observar, em média, que aqueles setores que precisam de menos trabalho para produzir o mesmo PIB terão quedas nos preços.

DdAB
Imagem aqui.