sábado, 31 de janeiro de 2015

O Mundo é um Multimundo


Querido diário:

Aécio deixou crescer a barba. Um mundo. Achei-o mais parecido com Lula, o que há de credenciá-lo para suceder Dilma e conquistar os votos dos eleitores nordestinos. Outro mundo. Já são dois. No estilo proletário, na foto, Aécio aparece sem gravata. Terceiro.

Quarto mundo: um cidadão brasileiro possivelmente em dia com suas obrigações eleitorais e tributárias:

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
   Parece que novamente, com a ajuda da mídia, o governo do Estado vai tentar extinguir órgãos públicos, sociedades de economia mista etc., para com o dinheiro das mesmas dar cobertura aos investimentos privados. Incentivos e anistias fiscais continuam. Nada muda. Extingue-se ou privatiza-se uma empresa pública em benefício de empresas privadas, através de empréstimos a fundo perdido, ou se terceirizam os serviços.
   Qual a diferença entre o público e o privado? No primeiro caso, desperdício e cabide de empregos; no segundo, serviços e produtos superfaturados e roubalheira desenfreada. Qual é melhor? Nenhum, porque no EStado e no Brasil a má administração e o mau gerenciamento são a tônica. O dinheiro público aqui é usado para cobertura e enriquecimento escusos.
JOSÉ MIGUEL BITTENCOURT
Técnico industrial - Viamão
(Carta do leitor de Zero Hora de 30/jan/2015, página 6)

Quinto: já faz agora parte do quinto mundo, ou até mais o artigo na seção de Artigos, da página 33:

O LUGAR DA EDUCAÇÃO
Rejane de Oliveira
Ex-presidente do CPERGS
O sistema capitalista, para sobreviver, precisa subordinar a educação aos seus interesses. Sua pretensão é garantir a aceitação passiva do sistema que explora o trabalho. O papel da educação é libertar o ser humano do determinismo neoliberal, desenvolver uma alternativa de sociedade igualitária e emancipadora.

E por aí vai. Não consegui ler o resto, pois achei que tinha bebido já na primeira frase. E suei frio ao achar que alguma coisa da terceira era de minha própria autoria. Explico: pouca gente se dá conta de que considerar que o capitalismo precisa de algo (ar, água???) para sobreviver é uma imagem, uma figura de retórica, pois sistemas não precisam sobreviver, menos ainda de algo que os faça sobreviver, além daquelas coisas de "reprodução ampliada". No caso, a educação. Antropocentrismo que suscita a questão: e qual sistema moderno não precisaria? O socialismo realizado precisou e até mesmo, penso, os gregos e egípcios também sobreviveram graças à educação. Ou, pelo menos, a ela deveram melhorias em seu padrão de vida. É fumeta.

Na sentença final fiquei ainda mais contrafeito, nesta linha de esculturas e pirâmides. Então aqueles gregos que viam na educação um compromisso da cidadania que estava nascendo lá com eles não viam que o papel da educação é libertar o ser humano do determinismo neoliberal?

O pior é que o restante da frase poderia ser minha: precisamos desenvolver uma alternativa às sociedades contemporâneas baseados em princípios de igualitarismo e emancipacionismo. Só bebendo. Quero dizer, só jejuando, que não há mais água à vontade...  Bem entendo que uma sociedade igualitária tem contornos muito mais social-democratas que neo-liberais. Agora, cá entre nós, esta mistureba de conceitos e concepções, ideologia e preconceito da ex-presidenta do CPERGS é fumeta. Ela ainda não se deu conta de que ajudou a destruir ou manter no nadir o sistema educacional estadual. Só com um parágrafo a profa. Rejane de Oliveira deixou à mostra mais uns 30 mundos, pelo menos.

Ela conclui o artigo: "Caberá a nós, educadores, colocar a educação em primeiro lugar... lutando." E pensei: uma greve, que tal uma greve? Não foram as greves que fizeram com que a matação de aula fosse institucionalizada abaixo do Rio Pelotas?

DdAB
Tirei a imagem daqui.
P.S. de 1/fev/2015 às 10h30min: esqueci de fazer uma citação não sei de quem, da mesma página do carimbadíssimo jornal, na coluna Política +, assinada por Rosane de Oliveira. Pois então. Desde que comecei a ouvir falar de Aécio Neves e suas funções juntamente a seu tio Tancredo -que não chegou a ser presidente do Brasil- considerei-o um play-boy. Nem sabia que naquele tempo ele já era um executivo de porte, exercendo funções na Caixa Econômica Federal, segundo o difamaram durante a campanha eleitoral do ano passado. E daí? Pois daí saem cobras e lagartos, não é mesmo? Mas tem pior. Ou ele ("o tucano") ou a jornalista disseram o seguinte, como legenda para a foto com barba: "[...] o tucano deixou claro que o PSDB mira a criação de quatro CPIs para desgastar a presidente Dilma Rousseff." Pois então, pois entões: que beleza, hein? Desgastar o piloto da nave? Isto não seria sabotagem?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Água!


Querido diário:

Um tempo difícil é o que vivemos. Também pudera! Milhares de gerações de governantes omitindo-se de cumprir suas funções convencionais. O curto prazismo é uma realidade brasileira há muitos anos. Infelizmente para nós associamos o planejamento com os anos da ditadura. Mas nós é força de expressão, pois quem assim pensa mesmo são precisamente os homens cujas opiniões e convicções definem o que se deve fazer com o dinheiro público. E eles, naturalmente, querem-no para si. Costumo dizer que, no dia em que o orçamento universal entrar em vigor praticamente de modo instantâneo a corrupção será destruída.

Faltar água não é nada surpreendente neste mundo contemporâneo. Parece que, na sociedade igualitária, haveria empregos para a grande fração de populações em situação de carência para, digamos, cuidar do reflorestamento das margens dos rios. Haveria uma rede hídrica para transportes e, como tal, sabida desde os gregos antigos, a propriedade dos vasos comunicantes.

Falarem em racionamento de água e energia elétrica é a maior vergonha que se pode esperar. O pior é que parece que tanto a esquerda quanto a direita consideram que a responsabilidade por este tipo de carência é responsabilidade do outro lado. Para mim, por considerar que o sistema político brasileiro está falido, é óbvio: todo político é responsável por estes crimes!

DdAB
P.S.: minha exclamação "Só bebendo!" está revogada, hehehe.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Varoufakis e o Futuro da Esquerda


Querido diário:

.a. achei que, em linhas gerais, a crítica de Marta Suplicy ao status quo brasileiro tinha tudo a ver, conforme referi no e-mail de ontem, en passant, como diria elle-mêmme (que gosta ou gostou de um francesinho...);

.b. hoje Zero Hora tem um artigo em tom de petardo contra a vergonha que o brasileiro contemporâneo sente por sua impotência ao lidar com um estamento vergonhosamente escandaloso que domina a política nos três poderes que constituem a república (aqui está o link para a crônica de hoje de autoria de Martha Medeiros, na página 6 do jornal);

.c. o mesmíssimo jornal (página 14) tem a notícia do primeiro sobrenome do título desta postagem: Varoufakis. Yanis Varoufakis, que conheço desde o livro que já vou referir, mas antes refiro

.c.bis usei o livro enquanto professor do mestrado em economia da PUCRS há quase dez anos, que por lá fiquem... Para alegrar a moçada, costumava referir-me a ele como H&V, o que denotava carinho, pois muito amei:

HARGREAVES-HEAP & VAROUFAKIS, Yanis (1995) Game theory; a critical introduction. Nova York: Routledge.

.d. e a notícia do jornal diz que Varoufakis tornou-se ministro das finanças da Grécia, com a ascenção ao poder do PSOL-grego (hehehe). Muito vibrei com a vitória da esquerda, seja ela qual for, afinal, não acabei votando na Dilma? Ladrões de esquerda valem mais que ladrões de direita, eu disse. Mas, espero, na Grécia não haverá ladroagens.

.e. além de mostrar na imagem de hoje que Varoufakis e seu blog constam há tempos de meus preferidos de lapela, lembro que naquele hai-kai referi que temos as luzes do bairro Liberdade. Pois é de liberdade, de economia e política que tratamos por aqui.

.f. entendi que esta vitória da esquerda na Grécia é o prenúncio de uma espécie de "volta a si" das populações mundiais que se deixaram envolver por já quase 50 anos de liberalismo. E uso a palavra em  substituição a "neo-liberalismo". A liberdade, como diz o bairro, é bom, mas liberalismo implicando desmantelamento do estado de bem-estar só pode dar problema. Duvido que os gregos sejam tão açodados a ponto de querer negociações com o exército islâmico, mas entendo que chegou a hora de se pensar na teoria econômica: qual é a política econômica que leva ao emprego/desemprego, pib crescente/decrescente e inflação/estabilidade.

.g. e metê-la em ação.

.h. hoje Yanis Varoufakis diz em seu blog: Finance Ministry slows blogging down but ends it not. No outro dia, ele anunciava que iria candidatar-se a deputado. O jornal que às vezes chamo de Zero Herra esqueceu de dizer naquela notícia se ele foi eleito!

DdAB
P.S. No processo vim a ver que ainda não adquiri a edição tão modificada que os autores alteraram até o subtítulo: Game theory; a critical text. Gostei, pois tínhamos meu Teoria dos jogos; jogos de estratégia, estratégia decisória, teoria da decisão e passamos a ter, meu com Brena Fernandez, Teoria dos Jogos; crenças, desejos, escolhas. Como bem sabemos, fala-se mais em "psicologia", sem esquecer as "ciências empresariais", cá em nosso caso. No de H&V, se bem me expresso, só sei que nada sei (ou, como diz o Google Tradutor: Απλά ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα. Cada uma!).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

As Manifestações e a Democracia


Querido diário:

Posso provar a existência do livro

NOVAES, Adauto (org.). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

E que dele faz parte o seguinte capítulo:

LAFER, Celso. A mentira: um capítulo das relações entre a ética e a política.

No capítulo de Lafer, lemos a seguinte bomba:

   Porque a democracia se baseia no princípio da confiança e da boa-fé, e não no medo, ela sucumbe quando a esfera do público perde transparência e se vê permeada pelo segredo e pela mentira, que é o que ocorre quando a palavra esconde e engana, ao invés de revelar, conforme determina o princípio ético da veracidade.
   O que converte governados engagés em enragés, gerando a violência, observa Hannah Arendt, é a hipocrisia da mentira dos governantes. Da mesma maneira, é a mentira dos governantes que gera o ceticismo e a impotência dos governados, que não têm base para agir sem os alicerces da verdade dos fatos. É por isso que a mentira pública, da mesma maneira que o segredo como exceção ao princípio da transparência do poder, requer um controle, ainda que a posteriori, de natureza pública, na dupla acepção de comum e de visível.

Claro que não se fala no Brasil, mas aparentemente é absolutamente o Brasil. Nesta linha de espinafrar o status quo, estarreci-me também com isto aqui, da Marta Suplicy (de onde também saiu a imagem lá de cima). O que me diz respeito é que prevejo mais quebra-quebra em 2015 e, em especial, os afamados black blocs. E acho que é bem esta questão dos engagés versus os enragés. E, claro, há os afamados termocéfalos (de que se falava no Chile e os tempos de Salvador Allende) no Brasil, que não mais conseguem ver na via pacífica a solução para o descalabro. De minha parte penso na assembleia nacional constituinte. Mas não me engano que o Brasil possa fazer algo decente nesta linha. Minha esperança é a assembleia constituinte mundial, para a formação do governo mundial.

DdAB
P.S. e de onde tirei isto? Daqui:
ARRUDA, Maria Lúcia de & MARTINS, Maria Helena Pires (2009) Filosofando; introdução à filosofia. 4ed. São Paulo: Moderna.
O texto citado está na página 273.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Hai-Kai n. 94


Querido diário:

O hai-kai n. 94 de MILLÔR diz;

MULATAS NA PISTA,
PERCO A VONTADE
DE SER RACISTA.

O Planeta 23, um tanto perplexo, respondeu:

De ver racistas
Rola perplexo
O abolicionista.

DdAB
Imagem daqui. Tirei o link: achei que o maior antídoto ao racismo é a liberdade.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Dá Da


Querido diário:

Tenho uma revelação revolucionária. A palavra existe. Mas será por isto que escrevemos com acento? E o hífen, será que faz mesmo falta? Por exemplo, na margem de um livro que comprei barato e estou lendo, posso escrever

pa
la
vra.

Se ponho os hífens

pa-
la-
vra,

não melhora a compreensão nem em um milésimo. Ou seja, o hífen é pura redundância. Da mesma forma,, quem é que não sabe que eu posso dizer:

.a. dá-me o livro da capa verde

.b. da-me o livro da capa verde

entendo em ambos os casos que se trata do verbo dar. E por que não omitir o acento?

A entropia ainda pode comprometer o universo, pelo que sei. E entropia é informação redundante. Logo o hífen e o acento agudo no verbo dar são comprometedores!

DdAB
Imagem daqui. E aquele "alguém" da imagem poderia ser "alguem", não é mesmo?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Mais sobre a Renda e a Riqueza


Querido diário:

Ainda tá na moda falar dos escandalosos números mostrados por Thomas Piketty em seu afamado livro. E surgiram novos dados, desta vez com um relatório envolvendo a Oxfam, como sabemos, uma ONG da Banbury Rd. em Oxford. Se é que não se mudou desde a última vez que por lá pintei.

E decidi comparar os escandalosos números da distribuição da riqueza mundial com os escandalosos números da distribuição da renda do Brasil. Comparar de que forma? Usando o índice de Gini que mensura a desigualdade.

Brasil: os 10% mais ricos detêm 50% da renda capturada pelas famílias como resultado da chamada distribuição primária (não confundir com a renda e o PIB que são dados pela soma da remuneração dos empregados mais excedente operacional mais impostos indiretos líquidos de subsídios).

Planeta 24 (isto é, o concorrente que tem dias de 24 horas, nomeadamente o Terceiro Planeta de Sol): os 1% mais ricos detêm 50% da riqueza mundial (ações, casas, praias, joias, automóveis, whatever).

Então os índices de Gini do Brasil (renda) e do mundo (riqueza) mostram os valores, respectivamente, de 0,40 e 0,49. Lembremos que:

.a. o índice de Gini tradicional do Brasil tem o valor de 0,55, tendo oscilado entre 0,50 (em 1960) e até 0,60 (tempos da inflação alta). E por que esta diferença? Por causa do número de estratos, pois costuma-se calcular o Gini ou para toda a população ou para dados agrupados dela em decis.

.b. a desigualdade na distribuição da riqueza no Brasil não tem estudos realmente confiáveis.

DdAB
Essa daquele drinque ali chamar-se Gini até agora não entendi. E tem sabor limão!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coisas de Família


Querido diário:

Olha o que achei. Este Berni's Inn's, ou o que seja, é o logo de um restaurante que, precisamente nos tempos em que eu morei em Oxford, fechou. Ou melhor, era uma rede inglesa e a casa oxfordiana quebrou. Era uma empresa familiar que passou a desprender-se. Em meu caso, não fui convidado nem para garçom.

DdAB

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Petrobrás, Privatizações e Precificações


Querido diário:

Naquele tempo, tem um trecho de um artigo de Stanley Fischer, o macroeconomista com ideias estranhas sobre a sociedade, que pode ser útil para colocarmos parâmetros naquela asserção que eu sempre fiz ao lecionar Introdução à Economia. Ao invés de falar sobre "o que produzir" - canhões ou manteiga - como primeira questão fundamental da economia, eu falava em uma rede que distribui alimentos e outra que distribui gasolina. Em outras palavras, pelo menos tão cedo quanto dez anos antes do artigo de Fischer sobre privatizações, eu manifestava meu descontentamento com a inversão de prioridades observada na economia brasileira.

Pois então. O artigo de Stanley Fischer carrega o nome de "Privatization in East European Transformation" e apareceu no NBER Working Paper No. 3703 de maio de 1991. Diz-nos ele, ao falar sobre as privatizações, como observamos no título, do Leste da Europa daqueles tempos:

Small firms are being privatized by sale very rapidly. The strategy then turns to larger industrial firms, which are to be corporatized as soon as possible, moved out of the shelter of the ministries that now in principle control them, and put under the direction of corporate boards; at the next stage the intention is to distribute shares, through sale or free transfer, to some combination of current workers in the firms, current management, mutual funds, holding companies, banks, insurance companies, pension funds, citizens, and the government.

E que tem a ver a Petrobrás com isto? Tem porque tem! Volta e meia, sugiro que a ONU ou alguma outra organização de respeito reúna todos os ativos dos governos mundiais (para não falar em outras propriedades, como as próprias repartições públicas, os mares, as posses selenitas), envolva-os em um pacote de capital, divida em ações atribuindo uma a cada terráqueo nascido ou por nascer, intransferível e que lhe ofereça rendimentos certos, inclusive dando-lhe (ao proprietário) o direito de alugá-la a terceiros por prazos de no máximo um ano, com direito a renovações (ainda não sei se pode incontáveis renovações ou apenas um número fixo).

E os meninos de rua? Terão milhões de curadores interessados em meter a mão em sua fortuna.

DdAB
Imagem aqui. Pedi "crianças norueguesas" e veio esta linda imagem de crianças na Nova Zelândia mostrando uma "bicicleta" ecologicamente correta, que vai crescendo com a criança! Não era para expandirmos este tipo de criança e ecologia para brasileiros e africanos? Os demais sul-americanos? A turma dos lower 1% dos USA?

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Renda Básica Universal: documento antigo



Querido diário:
Escrevi esta encrenca que segue há dez anos. Vejamos o que reeditarei e o que ficará intocado. Mas há frio em minha barriga: será que publiquei isto em outro de meus blogs?

Houve um "impacto financeiro" de medidas anunciadas pelo Poder Legislativo da ordem de R$ 30 bilhões, dado o chamado “efeito cascata”. Ganha o juiz, ganha o deputado federal, ganha o estadual, o vereador municipal, seus assessores, e por aí vai. Os tribunais brasileiros dizem que não se pode reduzir vencimentos de funcionários públicos, pois qualquer conquista salarial é “direito adquirido”. A isto, ouvi Bresser Pereira, certa vez, dizer na televisão: “Privilégio não é direito adquirido.”

Ora, R$ 30 bilhões (a preços de 2005) financiam praticamente todos os 10 milhões de emprego oferecidos pelo Presidente Lula, ainda em seu programa de governo. Estes bilhões poderão ser destinados aos contra-cheques de governadores, deputados, delegados, vereadores, vice-delegados, secretários de assessores de vereadores, juízes, desembargadores, secretários de adjuntos de desembargadores, ascensoristas dos poderes legislativo e judiciário e tutti quanti. 30 bilhões constituem mais da metade do superávit primário conquistado a tão alto custo pelo Sr. Palocci e pela disciplina fiscal de milhares de prefeitos, os governadores e os ministros, para cessar de listar os gastadores que tiveram seus ímpetos refreados pela "sanha arrecadatória", como dizem alguns.

Pensemos agora no “custo de oportunidade” desse montante. Com o salário mínimo do ano passado e seu PIB, este gasto representaria menos de 40% do superávit fiscal que foi alcançado. Com menos do que todo o valor do superávit fiscal, pagar-se-ia mensalmente o salário mínimo esses 20 milhões de atuais detentores de “empregos precários”. Sufocaríamos a bolsa-escola, a bolsa-família, abono do gás, abono do transporte urbano dos velhos, o Fome Zero e as frentes de trabalho nordestinas. Contracheques do Tesouro Nacional começariam a ser emitidos diretamente para os indivíduos, que não poderiam disfarçar sua posição, ganhando duplamente etc. Ou seja, a corrupção nestas formas assistencialistas seria banida. Claro que, em meu exemplo, um emprego neste “Serviço Municipal”, estes trabalhadores ingressariam em suas funções despidos de qualquer bem de capital. Mas podemos pensar em apenas 5 milhões empregos, caso em que cada integrante do "Serviço Municipal" terá R$ 780 por mês para comprar insumos, contratar parentes, essas coisas relevantes da vida moderna.

Supondo que ambos os gastos sejam absolutamente impostergáveis para toda a eternidade, ainda assim, poderíamos pensar em financiar meus 20 milhões de empregos com uma elevação da alíquota do imposto de renda. Por exemplo, nada mais do que elevar o atual imposto cobrado aos 10% mais ricos do país em menos de 10%. Mas sabemos que existe um feitiço contra o uso da expressão "imposto de renda" no Brasil. A elite econômica (incluindo mesmo alguns de nós, professores ou jornalistas), ou seja os 10% mais ricos, seriam os perdedores muito claramente estabelecidos, o que evita que o assunto deixe de ser tratado de modo sobrenatural.

O que estranho é que haveria dois grupos de ganhadores muito evidentes com esta medida, com poder de fogo para exigir a reforma fiscal. Em primeiro lugar, trata-se dos governadores dos estados. Caso o imposto de renda fosse elevado radicalmente, com alíquotas bem pesadas para quem ganha mais de, digamos, 50 salários mínimos, os cofres dos governos estaduais seriam recompensados pelos pagamentos dos altos salários, pois o imposto de renda recolhido pelo Tesouro Estaduais nos estados fica.

O segundo grupo é constituído pelos empresários. Estes vivem queixando-se (cobertos de razão) de que seus clientes gozam de baixíssimo poder aquisitivo, pois os preços que vendedores cobram estão infectados por elevadíssima carga tributária. Obviamente, eles estão falando dos impostos que infectam preços das mercadorias que vendem, ou seja, dos impostos indiretos. O cliente paga, o empresário vende menos, mas deve recolher o imposto, ou seja, é chefe de uma exatoriazinha estadual.

Na medida em que os impostos indiretos são altamente regressivos, os empresários poderiam fazer uma cruzada em favor de sua substituição pelos impostos diretos, ou seja, deveriam clamar por uma reforma tributária mais assemelhada à dos países capitalistas avançados. Não é temerário afirmar que esta mudança alavancaria suas vendas ao ponto de lhes gerarem lucros capazes de fazê-los parar de se incomodar com o imposto de renda.

Mas o feitiço é mais forte do que argumentação racional. Parece que o único jeito de termos uma sociedade igualitária no Brasil é todos virarmos assaltantes.

DdAB
Imagem daqui. O cartão vermelho é, naturalmente, para o índice de Gini do Brasil. Mas aproveito e o traslado para os dados que vi divulgados ontem pela ONU e Oxfam: os 1% mais ricos do mundo têm um patrimônio que vai igualar em breve o valor dos 99% mais pobres.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Salário Mínimo como Salvador do Exagero Redutor de Custos


Querido diário:

Mexendo no mouse do computador, caí no portal de economia e negócios da Wikipedia. Parece que eu olhava temas relacionados com a regra de Taylor. De lá tirei a seguinte sentença, que se atribui a Frederick Taylor:

Não é o empregador que paga os salários: é o cliente.

E fiquei pensando na riqueza macroeconômica desta sentença. Sabendo que o cliente é que paga os salários da empresa, esta também saberá que, quanto menores forem estas despesas, menores serão seus custos e menores poderão ser seus preços. Se as demais empresas fizerem o mesmo, teremos preços baixos por todo o sistema.

Mas perderemos os salários eficiência, ou seja, paga bem para ganhar mais dedicação e produtividade. E perdemos um razoável volume de dinheiro à disposição das famílias dos detentores de salários.

Então, no balanço, salários muito baixos significam também baixo poder aquisitivo por parte das famílias.

E não é isto o que ocorre na China? E não foi isto o que contagiou a Alemanha, que reduziu salários e elevou a jornada de trabalho?

Não é preciso maior refinamento de raciocínio para entendermos que existirá um nível mínimo de salários compatível com o estágio sócio-político-econômico de um país. Um padrão de consumo considerado decente, enfim.

DdAB
A imagem é daqui e achei muito apropriada para o contra-contra-exemplo. É inconcebível que deputados ganhem "salários" dezenas de vezes maiores que os de seus eleitores.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Hai-Kai n. 93


Querido diário:

O hai-kai n. 93 não deve ser confundido com o livro "O 93", de Victor Hugo, que li em tenra infância e pouco ou nada lembro. Parece que tinha algo a ver com a revolução francesa... E seus nobres. Ergo era 1793, não é isto?

MILLÔR

NA SUA IDADE,
EU NEM PENSAVA
EM SER MARQUÊS DE SADE

Planeta 23 em uma variante variantíssima:

Indagou-me à la Sade:
Haverá altruísmo
Até na maldade?

DdAB
Imagem: aqui. Deneuve? Só pode ser altruísmo!

sábado, 17 de janeiro de 2015

Hai-Kai n. 92


Querido diário:

Não digo que tenha escrito hoje, mas neste sábado li que MILLÔR disse:

A ARANHA É QUE É BACANA
COM SUA GEOMETRIA
EUCLIDIANA

Respondeu, ainda no sábado, o Planeta 23:

Euclidiana verdade
Todas as paradas
São mil ruas da cidade.

DdAB
A maravilhosa composição euclidiana parecendo o contrário veio daqui.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Brasil e Mèxico: leve comparação


Querido diário:

Andei sendo embatucado por comparações entre o Brasil e o México que me voltam à mente ao ter lido no jornal de hoje que o sr. Henrique Meirelles -ex-presidente do Bank of Boston e do Bank Central do Brazil- está sendo cogitado pelo governo para assumir a presidência da Petrobrás. A questão é o entreguismo e a hipocrisia. Há tempos envolvi-me em um trabalho que analisava os efeitos do Nafta para a economia mexicana. E entendi que foram razoavelmente favoráveis. Não atualizei o trabalho nem vou fazê-lo, mas comparo com dados do Google:

Brasil
GDP (PPP)2014 estimate
 - Total$3.073 trillion[4] (7th)
 - Per capita$15,153[4] (77th)

México
GDP (PPP)2014 estimate
 - Total$2.143 trillion[6] (11th)
 - Per capita$17,925[6] (65th)

Se a memória não falha, no início dos anos 1950, havia completa assimetria: o Brasil era extraordinariamente maior em PIB total e per capita. O per capita já está superado pelo México e o total reduziu a diferença. Foi o Nafta? Que seria de nós com a ALCA?

DdAB
Ao pedir ao Google Images "te gustan las flores", achei entre outras relíquias a que publico acima e que tirei daqui. É Amsterdão?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Monsanto, Starbuck E Por Aí Vai...


Querido diário:

Por sempre ter sido considerado estranho, decidi confrontar o que me parece representar a realidade econômica do Brasil contemporâneo da forma como capturei no trabalho que fiz em coautoria com o prof. Joal de Azambuja Rosa (disponível aqui e aqui) e até além dela, como salienta o primeiro daqueles dois "aquis". Em minha visão, exposta em diversas postagens aqui neste blog, aquela ideologia industrializante que tomou conta dos países subdesenvolvidos latino-americanos em resposta ao famoso artigo de Raúl Prebish distorceu a alocação de recursos em tudo que é canto, especialmente dizendo-nos respeito o que ocorreu no Brasil.

Em minha visão (que não está no texto com Joal), a única explicação para a enorme concentração da renda ocorrida entre, digamos, 1950 e 1970 foi essencialmente causada pelo "esforço industrializante", levando com ela a enorme participação do governo no PIB e a duplamente escandalosa distorção nos preços relativos intersetoriais.

E sempre falei que, com tanto café, levei duas surpresas em minha vida recente. A primeira foi que a Starbucks não é uma empresa brasileira. Segunda: não fomos capazes nem de imitar a iniciativa americana e tentar abrir uma rede de cafeterias worldwide, isto é, especialmente na China. "Não fomos"? Eu, claro, não fui, não sou empresário, não sou assessor ou consultor de empresas.

E nossa Monsanto? Seria a Embrapa? E que foi feito dela? E que a ideologia industrializante pode ter com isto? Tudo. Aqui só se pensa em indústria, só se pensa em Jean Baptiste Say: a oferta cria a própria demanda.

DdAB
Imagem daqui. Não lembro quem me sugeriu que deveríamos ter a "Universidade da Mandioca". E claro que também a da madeira, a da cana de açúcar, e por aí vai. Sem falar na química das cobras e dos lagartos. Mas o neo-desenvolvimentismo vai impedir. Aqui, querem eles, apenas indústrias e tatus.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Hai-Kai n. 91


Querido diário:

No hai-kai n. 91, MILLÔR diz:

É IMPUDICO
SÓ TER FORTUNA
O RICO.

O Planeta 23, afamado igualitarista, sai pela tangente:

O rico filho
nunca tira o pé
de nenhum trilho.

DdAB
A imagem é daqui.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Hai-Kai n. 90


Querido diário:

Disse MILLÔR lá em seu 90o. hai-kai:

VÊ-SE, PELO TRAJAR,
QUE SEU ESTADO CIVIL
É MILITAR.

Planeta 23:

É militar
o pai da moça
sem par.

DdAB
Imagem da Wikipedia daqui.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Sobre Cachimbos, Rosas e... a renda básica universal


Querido diário:

Em pleno domingo, postando sobre economia política? Claro. Em outro domingo, falei em cachimbos (aqui), e o ambiente nem era tão calmo assim.. E hoje falo no caderno Donna da inefável Zero Hora. E tem a ver com a inefabilidade dos domingos, o relax do herói da semana, seus sonhos e ambições, sua maneira de ver o mundo,

Então na página 10 deste caderno tido como feminino temos o artigo "Comer para emagrecer", de Jane E. Brody, do The New York Times. Agora é moda comer vegetais e frutas para alcançar o emagrecimento. Não sei se são experimentos controlados, ensaios clínicos randomizados, aquelas coisas. Mas nem sem se tem diretamente a ver com a dieta. Ou tem.

Primeiro: o governo está dando subsídios para a negadinha adquirir comida saudável. E mais ainda o governo -diz a página 11 do mesmo artigo- dá US$ 325 "ao mês para alimentar a família de cinco pessoas". E tem gente que não gosta do programa Bolsa Família. E tem gente que não exige com greves e passeatas o cumprimento da lei 10.835/2004, que institui a renda básica da cidadania.

DdAB

P.S. Como sabe meu leitor, andei me vangloriando de ter inventado umas piadas. Se bem lembro (não lembro das piadas, mas do filosofar que elas suscitaram), eram piadas-colorário de outras existentes. A que segue, se a tanto me atrevo a afirmar, inventei-a hoje mesmo:

Uma senhora visitava seu otorrinolaringologista, amigo, amigo de seu marido e ela, amiga da esposa do esculápio. Conversando durante a consulta, a intimidade fraterna é tanta, riem, falam dos cônjuges, fazem planos e ela indaga a ele: "Que tal jantarmos juntos?". Rapidamente ele responde: "Acho mais seguro irmos direto a um motel".

P.S.S. O original desta piada é assim mesmo. Nem pensei numa versão homofóbica, em que seria uma amiga consultando a médica dileta. Ou um amigo e seu amicíssimo. Ou um judeu, um padre, um aleijado, um negro, um chinês, um muçulmano... É: não estou alheio à tragédia francesa. E minha opinião nem precisou ser narrada, pois consta daqui, o maravilhoso site de Rosana Pinheiro-Machado (que tá na aba da direita de meu blog). A guria não é vermelha apenas no nome!

sábado, 10 de janeiro de 2015

Solidariedade Egoísta


Querido diário:

O que deveria induzir a sociedade a, por exemplo, cuidar do déficit de atenção de um menino de rua? Ou, que seja, um velho de rua, ou o que quer que seja? O caderno Vida de Zero Hora de hoje, página 8, fala que um adulto com déficit de atenção tem os seguintes sinais:

. falta de foco,
. atrasos frequentes,
. rotina desorganizada
. dificuldade de manter relacionamentos,
. ansiedade e estresse,
. problemas ao dirigir,
. perda de prazos,
. dificuldade sociais e
. incapacidade de relaxar.

Fiquei compadecido dessa turma de abandonados pela vida e pela sociedade. E fiquei imaginando -com base no conceito de custo de oportunidade- o que seria da vida do menino de rua se o governo que elegemos para cuidar de nossos interesses lhe desse umas quatro ou cinco ritalinas por dia. Quase todos os itens me preocupam, mas pode alterar até minha existência, por exemplo, sua dificuldade de manter relacionamentos (por exemplo, passar a assaltar-me, ao invés de colher as migalhas que lhes deito), dificuldades sociais (não pedir desculpas ao esbarrar em minha bolsa), etc.

Meu exemplo é quase sempre o mesmo: quanto eu pagaria a ele a fim de que ele cuidasse bem de seus bisnetos e, com isto, evitasse que o tetraneto do prefeito seja assassinado daqui a uns 50 anos. E quanto o governo deveria pagar por isto? Não tem mercado para isto e, parece, nem a comunidade nem o estado pensam que esta é uma troca passível de aliviar dores e mortes do mundo.

DdAB
Imagem aqui.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Policiais à Paisana


Querido diário:

Há anos li alguns livros de Gladstone Mársico, entre eles o avolumado "Cogumelos de Outono". E penso não ter lido o "Gatos à Paisana", que -se li bem o que dele se fala/falou- aludia a uma turma de interioranos que foi ao restaurante Fasano em Sampa. Era isto? E policiais à paisana? É uma daquelas crases que deixa a gente afrancesada e antigramatical. Meu "à paisana" quer dizer "à moda paisana", à moda não-militar. Então há dois tipos de traje, hoje em dia, o civil e o militar.

Pois bem, o prefeito de Porto Alegre, na página 20 de Zero Hora, sancionou a lei que permite que os policiais à paisana ("sem farda", disse o jornalista Carlos Ismael Moreira) usem os transportes coletivos da cidade sem pagar a tarifa. Lanche grátis, puro lanche grátis.

Mas o que preocupa é a razão que levou à criação desta benesse. No tempo da discussão da lei, ouvi que o principal motivo da medida é impedir que o policial à militar seja identificado como tal pelos senhores assaltantes e o mate. Todos temos direito à vida, até o assaltante, que -comigo- é contrário à pena de morte. Mas o que choca é a institucionalização do reconhecimento que os assaltantes têm o direito legal de assaltar transportes coletivos em Porto Alegre e que a turma é que deve-se camuflar como objeto indefeso (e sem dinheiro, algo assim). Claro que todos queríamos o mesmo benefício, tanto é que:

O presidente da Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar (Abamf), Leonel Lucas, também lamentou os vetos:
-O ladrão não está vendo se a pessoa no ônibus é soldado, sargento ou tenente. Elevê um policial fardado e ponto.

Fiquei pensando no medo que todos cultivamos neste país. Até o jogador da seleção que levou aqueles 7x1 que o dia de ante-ontem homenageou sentou-se num peniquinho (em formato de bola de futebol?), por recusar-se (por razões óbvias) a cobrar um pênalti numa daquelas finais de jogo enervante. Pode?

DdAB
E a imagem veio do site Mercado Livre.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Einstein e Leontief: nefelibatas?


Querido diário:

Por aqui, andei postando sobre a maior imponência da lei da oferta e da procura relativamente à lei da gravidade. Ontem eu mesmo ouvi na TV (já não lembro se era TV em língua portuguesa ou outra língua ainda mais arrevesada. Que ouvi? Que em 2014, 3,3 bilhões de pessoas foram transportadas em aviões em todo o planeta.

Isto significa que os cálculos daquele dia devem ser ligeiramente refeitos: 376.712 pessoas a cada hora encontram-se encarapitadas em aviões. É um monte!

E Einstein? Ele disse que E = m * c^2. E Leontief? Este disse que x = B * f. Qual é mais importante? Leontief fala em entropia? Einstein fala em entropia? Quem sustenta os aviões com seus 376.712 passageiros? A lei da oferta e procura, claro.

DdAB
E antes que acabe o dia, deixo registrada a imagem maravilhosa, a ironia rebelde de algum brasileiro de moral elevadíssimo. Sete de janeiro: os inesquecíveis sete para a Alemanha contra um para o Brasil.

P.S. de 12/jan/2015: os números são, de acordo com a fonte citada: 3,3 bilhões em 2014 por contraste a 141 milhões em 1964. Cresceu mais que jerivá!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Esquerda Caviar. Ou era Pão e Rosas?


Querido diário:

Vemos em minha lapela há muito tempo o link do site Vento Sueste (aqui), de Portugal. E volta e meia vejo-o e acompanho as reflexões locais e as importadas. Hoje importo a que deu título a minha postagem (aqui) e logo aqui depois destes dois pontos:

Vento Sueste

Wednesday, December 31, 2014


Esquerda caviar?

Uma passagem de "Um Piano nas Barricadas: Autonomia operária (1973-1979)", de Marcello Tarì:
Em Milão os colectivos autónomos começam a mover-se num terreno mais ofensivo no que toca às auto-reduções e a levar a cabo expropriações nos supermercados.

A história dos exproprios milaneses – a partir do que ocorreu nos supermercados de Quarto Oggiaro e da Via Padova em 1974 – é magistralmente evocada emInsurrezione, o romance auto-biográfico de Paolo Pozzi, à época chefe de redacção de “Rosso”, que, para além da narrativa divertida, permite também apreciar os seus aspectos “técnicos”: enquanto a maioria dos expropriadores roubava as mercadorias, um grupo ocupava-se a cortar a linha telefónica da loja e outro permanecia do lado de fora, armado comcocktails molotov para o caso de se aproximarem viaturas da polícia e de ser necessário cobrir a saída dos companheiros (Paolo Pozzi, Insurrezione, DeriveApprodi, Roma, 2007). Mas a autonomia não roubava apenas massa, carne e azeite, como pretendiam os marxistas-leninistas, mas também whisky, caviar, salmão e todas as mercadorias de luxo que, segundo uma moral partilhada também pelos grupos, não faziam ou não deveriam fazer parte da vida proletária. Os exproprios, a “reapropriação” no sentido praticado pelos autónomos, não eram simplesmente acções de alto significado político-social, aludiam a uma riqueza finalmente partilhada, a uma necessidade que era destruída na satisfação de um desejo, a um tomar pela força parte daquela outra força que o capital te roubava cada dia; e à noite, depois da expropriação, fazia-se a festa partilhando o caviar e o champanhe francês: apropriavam-se as mercadorias para aniquilar o seu maléfico poder simbólico.
Que digo eu? Nem sei bem tudo, nem lembrarei de tudo. Nem sei onde foi a primeira vez que aprendi sobre "Esquerda Caviar". Mas posso evocar escritos (jornal ou blog) de Rosana Pinheiro-Machado (aqui). Parece haver gente que acha não apenas que pobre não tem direito de viajar de avião, mas principalmente que não tem direito a qualquer diversão decente (uso o adjetivo para eliminar as novelas da TV), como é o caso do caviar, do whisky, do pão italiano ou das rosas de Caymmi.

E eu achava que houvera ouvido (!!!) Woody Guthrie cantar um certo "Bread and Roses". Olhei onde pude e nada achei, mas -na busca- achei o site daqui, juntando o movimento atual e o centenário do "iconic trobadour". Então, se não ouvi o Woody Guthrie, quem terei ouvido? Carole King? Hilary Clinton? Achei Judy Collins aqui. E também, para escutar, aqui, que não sei quanto tempo durará grátis. No capitalismo, tudo vira mercadoria. Por que, então, as canções de esquerda não o fariam?

Pois bem, é 2015, ainda não estou bem acostumado com a ideia. E nem sei se errarei o primeiro cheque, este arcaísmo bancário. O que sei é registrar minha preocupação com a desigualdade Costumo jurar que é certo que, na sociedade igualitária, tudo dará certo. E, para nela chegar, faz-se necessário apenas obter maioria parlamentar, criar um governo mundial decente e mandar ver com gastos regressivos e impostos progressivos. É muita social-democracia, mas juro que funciona.

E por que isto não acontecerá? Porque, no capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra, como volta e meia escrevo por aqui, como é o caso daqui. A falsa consciência, o complô da imprensa. As ilusões de meus irmãos, a alienação. Meu próprio coração e minha própria alienação.

DdAB
P.S. Esquerda caviar? E que dizer de "esquerda festiva", "porra-louca" e "inocentes úteis"?
P.S.S. às 18h30min, ligou-me um velho amigo e leitor do blog e disse poder provar que eu ouvi este hino cantado por Joan Baez pelo menos em 1972.

domingo, 4 de janeiro de 2015

A Equação da Reta: lições estranhas


Querido diário:

Tudo começou quando indagaram a Dogger o que lhe parecia perceber nas duas mãos de Suzan: ela exibia três dedos em uma e mais três dedos em outra. Ou seja, ela apresentava um número igual de dedos ao compararmos o exposto na mão direita com o que a mão esquerda exibia. Dizendo "quantos dedos há em cada mão?", ela permitiu que se grafasse:

3 = 3

E disse que poderíamos também afirmar, se não soubéssemos bem o que estava na mão direita (mas bem sabíamos que eram três dedos) que:

3 = x.

Ela acrescentou que outra forma de vermos aquele três seria escrever:

5 = x + 2.

(Ou seja, mostrou os cinco dedos de cada mão. Diz-se que ela adicionou dois dedos de cada lado da igualdade, o que fez com que o valor de verdade da expressão fosse mantido.)

Dogger concordou e Suzan disse apenas: "Então façamos agora y = 5". E y foi feito igual a 5:

y = x + 2.

Suzan, agora, disse tratar-se agora de uma equação da linha reta, sendo aqueles velhos números substituídos por variáveis. Assim, por exemplo, já sabemos que, se x = 3, então y = 5, mas não sabíamos que, se x = 11, então y = 13, e assim por diante.

Nesse momento, ela ainda acrescentou que poderíamos pensar em:

y = a * x + b,

quando passamos a chamar x e y de variáveis e também chamar a e b de parâmetros. Lá em cima, aqueles 2, 3 e 5 chamam-se simplesmente de constantes. Suzan ainda chamou a atenção de Dogger para o fato de que, quando estudarmos o capítulo das potências, vamos perceber que todas estas letras, nomeadamente, a, b, x e y, estão elevadas na potência 1. Em particular, uma vez que x e y foram elevados à potência 1, diz-se que esta equação da linha reta também é conhecida como equação linear.

Então, por convenção, as letras do final do alfabeto, digamos, w, x, y e z representam as variáveis. E as letras do início do alfabeto, digamos, a, b, c e d representam os parâmetros.

DdAB

sábado, 3 de janeiro de 2015

Hai-Kai n. 89



Querido diário:

Naquele mundo dos hai-kais que permitiram-nos concluir o glorioso ano "gol da Alemanha 2014", registrei o número 88. Agora, no glorioso ano ímpar de 2015, inicio-o com o hai-kai n. 89. Nele diz-nos

MILLÔR

DIZ PENSAR LIVRE PENSAR
LIVRE-PENSAR
É SÓ PENSAR.

Foi só pensar no bragado
Que vi o carnaval fuleiro
Pulando sobre fevereiro.

Parece que este hai-kai é extemporâneo, pois o carnaval de 2014 aconteceu há muito tempo, ainda que seja verdade que pulou sobre fevereiro, como sabemos. Mas, se quisermos ser rigorosos e exagerados, a sexta-feira de carnaval caiu no 28 de fevereiro. Indago-me agora, um tanto filosoficamente, se haverá possibilidades gregorianas de termos um ano bissexto e o carnaval em abril...

DdAB
Imagem daqui.

P.S. Dias depois, baixou a seguinte variante:

Pulou o carnaval para março?
Ou quem pulou, pulou, pulou
Foi um bragado esparso?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Lei de Say e a Indústria


Querido diário:

Nem sei se foi bem assim: deixar a postagem mais importante do ano para seu primeiro dia de trabalho. Ou foram outras as circunstâncias cercando a "vida social" que temos tido em torno da doença de nosso amado colega Jesiel de Marco Gomes. Hospitalizado que ele está, recebe visitas de amigos/colegas economistas. Sem intenção de irritar o doente, voltei a falar de minhas intuições de que as políticas industriais são intrinsecamente erradas, pois discriminam contra as políticas educacionais, aquelas coisas, inclusive que o lobby dos diretores de escola tem menos eficiência que o lobby dos diretores de indústrias.

Pois lá estavam também os profs. Carlos Mielitz e Ariel Garcez e veio-me a ideia como um raio. Querer "desenvolver a indústria", ou seja, expandir a oferta de bens industriais nacionais (em discriminação aos importados) incide no pecado chamado de lei de Say, segundo a qual a oferta gera sua própria demanda. De minha parte, prefiro pensar que um programa nacional de, digamos, um ônibus por sala de aula é mais importante que qualquer desses incentivos que vêm sendo dados à indústria. A mim parece óbvio que Keynes (e milhares de outros) tinha razão ao sustentar que a demanda é que determina a oferta. E não é isto que faz seu capítulo 3 com aquele modelinho de determinação da renda? E não é isto que faz a matriz de insumo-produto quando resolvida no chamado modelo aberto, ou seja, um modelo em que a demanda final é que determina o nível de produção?

Que posso fazer a respeito? Postar aqui, selecionar as postagens que fiz sobre o tema, organizá-las e metê-las na forma de artigo! Ainda o farei, se não em 2015, pelo menos em um desses anos que nos guarda o futuro.

DdAB
Imagem originária deste site austríaco.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Primeiro de Janeiro: o mundo é duiliesco


Querido diário:

Há tempos referi que, um dia, andando de táxi em Roma, comecei a trovar com o motorista, falei ser brasileiro e italiano e ele indagou meu nome. Ao falar "Duilio", e, por passarmos  por um monumento ou o que seja dos cinco grandes imperadores, ele disse: mas não há nenhum imperador com este nome.

Hoje psicologicamente declaro-me com 68 anos de idade, o que é inverdade, pois completá-los-ei apenas no oito de julho. A long way to go. Por falar em a long way to go, que tal irmos longe a bordo do navio Duilio? Ou apenas montá-lo em casa?

Segue-se logicamente que desejo a todas/os um feliz ano novo. E quanto a perdoar os inimigos? Uma boa estratégia é perdoá-los hoje e depois esquecer deles, inclusive o perdão...

DdAB