domingo, 31 de agosto de 2014

A Filosofia e a Jornada de Trabalho


Querido diário:
Pelo que entendi da entrevista que deu ao caderno principal de ZH de hoje (pp.8 a 10), Renato Janine Ribeiro é um intelectual-professor aplicado. Talvez desde sempre, desde a infância, desde a alfabetização ou antes dela, talvez filho dileto de uma classe alta ou média paulista. Doutor pela USP, distingue-se pela filosofia política, pelo que entendi.

Na condição de filósofo-político, na condição de professor aplicado, intelectual competente, juro que ele terá lido "O Capital", e quem sabe os economistas clássicos? Juro? Claro que juro. Por quê o faço? Faço-o pois há dois trechos na entrevista que transcreverei.

Interregno: sempre que ouço falar em investimentos para criar "emprego e renda", ferve-me o sangue. Ou quer-se dizer que cria-se renda mais que proporcionalmente à criação do emprego, ou se pensa que o negócio mesmo é a promoção de setores de baixa produtividade na economia. Apenas uma imaginação diabólica ou mesmo ignorante é que desejará pautar a rota de crescimento de uma economia pela involução tecnológica que levaria à expansão do emprego a uma taxa inferior à da expansão da renda. Produtividade alta significa preço baixo, ergo, competitividade alta. O que fez o verdadeiro milagre agroindustrial brasileiro contemporâneo foi precisamente o estonteante aumento da produtividade do trabalho, com a qual o setor compensa mesmo a criminosa taxa de câmbio que os governantes insistem em manter como elemento do chamado tripé macroeconômico (cambial chamado de variável, o equilíbrio fiscal/monetário e as metas de inflação).

Diz o prof. Ribeiro, que o entrevistador chama de Janine:

Hoje existem, por exemplo, condições técnicas para reduzir consideravelmente o tempo de trabalho das pessoas. E os governos poderiam estimular esse avanço, que, além de combater o desemprego, impulsionaria um mercado gigantesco voltado ao lazer. As empresas obtiveram um ganho de produtividade enorme com as máquinas e com a informática. Nas últimas décadas, em praticamente todos os setores, a produção cresceu de duas a três vezes, mas a carga horária permaneceu igual - e o reflexo sobre os salários não foi tão grande. Se, em vez de cinco dias por semana, as pessoas trabalhassem quatro, o que é perfeitamente viável na maioria dos setores, haveria um aumento de 50% no tempo de lazer semanal. Afinal, seriam três dias de folga e não dois, como hoje.

[...]

Os funcionários iriam precisar de teatro, de cinema, de música, de opções de lazer criativo. Não pense que o Faustão daria conta. Teríamos uma sociedade na qual a cultura, o lazer e a atividade física representariam um mercado muito robusto, o que seria bom tanto para os trabalhadores quanto para os investidores. Ricardo Semler (sócio-majoritário do Grupo Semco, reconhecido mundialmente pela moderna gestão empresarial) me disse que, dentro da carga horária atual, a produtividade dos funcionários cai pela metade nos últimos 20% do horário de trabalho. Quer dizer, se as pessoas trabalhassem quatro dias na semana, e não cinco, não haveria perda de produtividade de um dia inteiro e sim de apenas meio dia. Some-se isso ao ganho inestimável na qualidade de vida dos funcionários e a queda na produção seria bem pequena.

Ligue-se isto com o explosivo argumento de Thomas Piketty (aqui) e se terá a base para a luta pela conscientização não apenas "dos eleitores" mas principalmente dos economistas despidos de formação adequada, inclusive a primeira aula da faculdade em que se estabelece a diferença entre o custo privado e o custo social. Ele, Janine, fala em cinco dias de trabalho, não fala em horas de trabalho. Podemos pensar que ele renega totalmente a vergonha da "constituição cidadã" que fixou em 44 horas semanais a jornada de trabalho do sofrido país. Cidadã assim só mesmo no mundo oníricos dos irresponsáveis!

DdAB
P.S.: reduzir a jornada de trabalho significa o que Karl Marx chamava de reduzir a mais-valia absoluta. E David Harvey, no guia para a leitura do primeiro volume d'O Capital, deixa muito claro que, no mundo atual -pace Piketty-, até a mais-valia absoluta tem aumentado. Não é difícil imaginarmos pessoas semelhantes a nós que -como nós- trabalham mais hoje do que há 20 anos.

sábado, 30 de agosto de 2014

Ulysses: a verdadeira história da invenção do guaraná com laranja


Querido diário:

O marcador desta postagem, sendo "Escritos" e não "Besteirol" já é bastante suspeito, como o é o restante e a moral da história da esfuziante invenção do guaraná com laranja, com ou sem gelo. Tudo ocorreu mais ou menos assim, como contou-me um presidiário que se acoitara nas hostes dos cargos em comissão da prefeitura local.

Por volta dos tempos em que começaram a namorar, Severino e Severiana bebiam suco de laranja, a fruta ubíqua, como tal, abundante e, por isso mesmo, baratíssima ou até mesmo grátis. Severiana, para tristeza geral da família, teve um problema dentário muito sério, o que fez seu dentista, o dr. Darci Geraldo da Costa Vielmo, a encaminhá-la a tratamento em Porto Alegre, na Galeria Di Primio Beck. Assim que a dor de dente, adequadamente tratada, serenou, Severiana saiu a passear com sua prima Virtude (em grego, ἀρετή, areté). Foram comer torradas ("americanas", constava no cardápio de então) na Confeitaria Ryan, fazendo-se acompanhar de coca-cola adoçada com açúcar, que naqueles tempos ainda não haviam inventado os refrigerantes diet.

Só que a prima Virtude sempre pedia para colocarem uma rodela de limão em sua coca-cola, pois ela, ao ler "Ulysses", de James Joyce, percebeu que Buck Mulligan portava, juntamente ao espelho sobre o qual jazia um aparelho de gilete, um copo de coca-cola com gelo e limão. Como sofriam da garganta, Malachi e Virtude não usavam o gelo, o que criava um mistério adicional: para quem seria aquele drink, Stephen ou Leopold?

Ao ver aquele encaminhamento para o copo de coca-cola, Severiana começou a fazer o mesmo, ainda em Porto Alegre. Voltando a Jaguari, ela reencontrou Severino e foram comer torradas com coca-cola, mas só havia uma gelada e veio, ao invés da segunda garrafa da bebida americana, um guaraná da Brahma. Severiana colocou sua rodela de limão, Severino fez o mesmo, não gostou e ela sugeriu que ele usasse uma rodela de laranja. Ele o fez e estava inventado o novo blim-blim-blim que até hoje é usado em praticamente todas as naves do Império Galáctico.

DdAB
Imagem é de um blogdojj.com.br algo assim, que não consegui acessar, pois o acesso à foto foi-me dado pelo Google.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Paralaxe Psico-Sócio-Político-Econômica


Querido diário:

Por alguma razão, a página central do Caderno Vestibular de ZH de hoje tem o poema "Reclame" de Chacal [Chacal?]:

Se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
... ou transforme o mundo.

ótica olho vivo
agradece a preferência

Gostei da recomendação de mudar o mundo. E de usar lentes para aceitar/aguentar o que vemos, transformando em algo mais consentâneo com nossas crenças e desejos. O bom mesmo é irmos usando lentes enquanto vamos mudando, controlando a paralaxe por meio de um otimismímetro.

Pelo título da postagem, já abri a discussão sobre o número concebível de mundos existentes. Aliás, Richard Rorty quer que pensemos nos mundos que não podem ser pensados. Mas, dos existentes, o psicológico descreve a saudade que sinto do cachorro transformado em mercadoria por um ladrão, a alegria com o sucesso que Marina tem feito como candidata (sócio-político) e sua sugestão de dar autonomia ao Banco Central, como econômico.

DdAB
Aquele aparelho lá em cima (daqui) parece um otimismímetro, mas não é.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Que Nota Você Dá a Esta Postagem?


Querido diário:

O título da postagem é um tanto enganador, concedo. É que, na capa do Segundo Caderno da ZH de hoje, tem um artigo que fala no livro "A Colaboração", de autoria de Ben Urwand, em que se "[...] conta

Então segue a postagem:

Título:
Julgando a Expressão dos Gostos e Preferências de Adolf Hitler

Texto:
"Os filmes ganhavam de Hitler uma avaliação peculiar [que o Planeta 23 organizou como]

(  ) bom
(  ) bonito e emocionante
(  ) ruim
(  ) extraordinariamente ruim
(  ) repulsivo
(  ) a mais poderosa das porcarias
(  ) desligado por ordem do Führer.

Comentário:
O negão era imbuído de sentimentos humanos, como argumentou Hannah Arendt (que conheço do filme...). E como poderia deixar de sê-lo? Ninguém perde a condição humana, por mais malévolos que sejam seus desígnios. No caso de Hitler, o mau venceu o bom por 5 x 2, não é mesmo?

DdAB
Imagem daqui. Aquela corda bamba entre o positivo e o negativo mostra quase o caso do austríaco com mania de grandeza: faltam cerca de cinco para o bem e a distância do mal é de apenas dois, um troço destes.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Renovação no PMDB Gaúcho


Querido diário:

Hoje desde a capa de meu jornal Zero Hora, vê-se a notícia alvissareira: depois da saída do candidato ao senado o deputado Beto Albuquerque, a vaga foi preenchida pelo senador Pedro Simon, assim, ficando candidato à reeleição.

Diz-nos a Wikipedia,

Pedro Jorge Simon (Caxias do Sul, 31 de janeiro de 1930) é um advogado, professor universitário e político brasileiro. É atualmente senador pelo estado do Rio Grande do Sul, filiado ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro(PMDB). Em entrevista gravada pelo programa Dossiê da Globonews no mês de maio de 2013, que foi exibida julho do mesmo ano, ao ser questionado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, se iria disputar um novo mandato nas eleições do senado federal em 2014, Pedro anunciou que se retira das disputas eleitorais, quando finda seu mandato em dezembro de 2014, ao completar 85 anos de idade.

85? Oito décadas e meia? Renovação? Retira-se das disputas eleitorais? Por curiosidade, no outro dia, eu lera um drops em algum lugar informando que o doutor Luquese, cardiologista famoso, o proibiu de viajar numa campanha eleitoral. Pensei que poderia ser o dentista (aqui). Só pode ser ironia de alguma mente diabólica.

DdAB
A imagem, que editei ligeiramente, veio daqui.

sábado, 23 de agosto de 2014

Marina, Aécio e a Zero Herra


Querido diário:

Na página 10 do jornal Zero Hora de ontem, lê-se no corpo principal da notícia o seguinte trecho:

Segundo o Datafolha, [... Marina] está tecnicamente empatada com Aécio no primeiro turno (o tucano tem 21% e a ex-senadora, 20% e com Dilma no segundo (47% a 43% para a ex-ministra). E levantamentos internos das siglas indicam que, na próxima sondagem, os números de Marina podem ser ainda melhores.

E, na mesma página, o primeiro drops do grande box diz:

Até então considerado o principal adversário de Dilma Rousseff na disputa presidencial, Aéco Neves segue estável nas pesquisas, mas corre o risco de ficar de fora do segundo turno. Segundo o Datafolha, há empate técnico entre Marina (21%) e Aécio (20%).

[Esta última cifra também é referida no site localizável aqui].

E o Planeta 23 tem opinião a respeito?

.a. lamenta a morte de Eduardo Campos,
.b. festeja a entrada de Marina Silva e Beto Albuquerque na disputa presidencial,
.c. vê com curiosidade as consequências da saída de Beto Albuquerque à disputa na vaga do senado do Rio Grande do Sul
.d. vê com intensa curiosidade a resposta que será dada na eleição nacional. Estou achando que Aécio pode ficar fora: se pensarmos no teorema do eleitor mediano, Aécio o captura varrendo pela direita, Dilma pela esquerda e Marina varre para os dois lados a partir dos dois quartis intermediários.

DdAB
Imagem daqui.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Hereditariedade Política


Querido diário:

Em primeiro lugar, sabemos que a sra. Ana Arraes (aqui), mãe do finado econ. Eduardo Campos (aqui), foi nomeada em 2011 ministra do tribunal de contas da união, com vigorosa e decisiva influência (cito de memória) de seu filho, deputado, ministro e governador.

Segundo: Eduardo, como sabemos, era neto de Miguel Arraes, ou seja, Ana é filha de um ex-governador e mãe de outro. A Wikipedia que remeto à consulta contradiz-se, pois no verbete de Ana fala em advogada e, no de Eduardo, em economista (parece que foi as duas coisas).

Terceiro: diz-se agora que Renata, viúva de Eduardo, pode ser candidata a vice-presidente da república pela coalizão Marina-PSB.

Quarto, o filho mais velho de Eduardo e Renata já foi cogitado para ingressar na política. A filha mais velha chama-se Maria Eduarda. Segue-a o sr. João Henrique que já foi cogitado para ser candidato à presidência da república, mas a idade não o permite. Ou não foi o João Henrique, mas o segundo varão dos (de Andrade Lima) Campos, o sr. Pedro Henrique.

Quinto, no Rio Grande do Sul, cujas façanhas empolgam a toda a Terra, os Mendes Ribeiro, os Pedro Simons, os Genros (Luciana e Tarso), e por aí vai. Por falar nesta turma, a página 8 de Zero Hora de hoje tem o seguinte trecho:

Hoje, o PMDB [gaúcho, digo eu] está dividido em três alas: uma que marchará com Marina, outra que apoia a candidatura oficial de Dilma Rousseff e do vice Michel Temer, e uma terceira que prefere o tucano Aécio Neves.

Sem ironia (100 ironias?), penso que existem famílias superdotadas para o exercício da política. E que existem partidos superdotados para a incoerência. Partidos? Um que se divide em três: eu disse excessivamente-partidos, não é mesmo?

DdAB
A imagem é da Wikipedia (aqui).
Meu mal-estar com o tipo de política representado pela importância da hereditariedade, especialmente desta exemplar família, a ausência de partidos decentes, o voto obrigatório, o voto proporcional, a ausência de parlamentarismo, os magotes de cargos em comissão, encontra-se registrado aqui e aqui.

domingo, 17 de agosto de 2014

O Processo Eleitoral...


Querido diário:

Acabo de ler a Carta Capital da próxima quarta-feira. Na página 26, há um artigo de Marcos Coimbra cujo título é "As eleições e a mídia". Ele chega ao final argumentando:

Está mais que na hora de discutir a interferência dessa mídia no processo eleitoral e, por extensão, na democracia brasileira.

Eu sempre penso: por que será que não existe uma imprensa verdadeiramente de esquerda no Brasil? Será o poder de monopólio que barra a entrada de novas empresas no mercado? Questão econômica que talvez não deva ser excessivamente levada a sério, quero dizer, que não necessita de maior regulamentação que a lei garante: não pode dumping no preço do jornal ou do anúncio na TV, não pode manobras ilegais de sonegar papel ou promover quebra de veículos de outrem. Não pode descumprir a legislação anti-monopólio em vigor do país.

E o lado relacionado ao controle de opiniões severas emitidas injustamente contra os oficiais governamentais? Também para esta há regulamentações específicas: não pode caluniar, difamar, etc.

E que mais? Aí, meu chapa, sobra apenas o autoritarismo: nova lei de imprensa é tão desnecessária quanto a lei que proíbe bater em mulher, proíbe discriminação contra gays, proíbe rachas automobilísticos, proíbe o uso de dinheiros públicos.

O que me parece faltar realmente, inclusive para punir os abusos da imprensa privada, é um poder judiciário decente. A impunidade é a mãe de todos os crimes. E a imprensa não deve ser controlada além dos problemas de monopólio e calúnia!

DdAB
Imagem daqui. Minha questão com a ilustração é saber quem está manipulando o digitador: o que quer a imprensa controlada ou o que quer a imprensa livre?

sábado, 16 de agosto de 2014

"O Crime dos Impostos Indiretos"


Querido diário:
Costumo dizer que escrevo muito, envio a Zero Hora, que publica pouco. Hoje, ela estampa o seguinte artigo em sua página 22 (e no site, como inferimos do recorte que vemos aqui:

O CRIME DOS IMPOSTOS INDIRETOS
Duilio de Avila Berni - economista

No norte da Europa, trabalhadores participam do PIB com quase 70%. Por contraste, no Brasil, chega-se a 55%, cabendo mais 10% a impostos indiretos (líquidos de subsídios). Um imposto indireto, como o ICMS e o IPI, é pago pelo comprador e recolhido ao governo pelo vendedor. Uma vez que os produtores também compram insumos, as articulações setoriais da economia brasileira ocorrem de tal maneira que aqueles 10% quase duplicam quando incorporados às relações interindustriais. Por isto, sem impostos indiretos, os preços da economia cairiam em cerca de 20%. Nem se precisaria de tanto, pois bens de demérito, como o cigarro, têm nos impostos indiretos um freio estabelecido “pela sociedade” a seu consumo.

Sem os impostos indiretos, portanto, haveria um ganho de renda parcialmente transferido à classe trabalhadora que poderia ser pensado como um “salário-eficiência”, e responsável por expressivos ganhos de produtividade: se a empresa paga bem, então ela pode exigir mais. Mas haveria ganho numa reforma tributária que zerasse aquelas alíquotas estratosféricas que incidem sobre o consumo de energia elétrica e telefonia, livros e remédios. Tal ganho seria a mudança dos preços relativos intersetoriais, sinalizando com mais precisão para a existência de excedentes de oferta e de procura das diferentes mercadorias, inclusive as importadas. Ainda assim, com menor arrecadação, o governo não poderia pagar bem a seus juízes e políticos, às professorinhas e policiais. Não poderia gastar em saúde, em educação, em segurança pública, os bens públicos ou semipúblicos que sinalizam a existência de uma sociedade equilibrada.


Hoje, o Brasil vive dois desequilíbrios, o da infecção de custos provocada pelos impostos indiretos e o da discrepância dos salários e ordenados de juízes e policiais. Como resolver? Trocando os impostos indiretos pelos diretos, como o Imposto de Renda, o das grandes fortunas e o da transmissão intergerações. Podemos prever esse tipo de mudança para o próximo quadriênio? Probabilidade quase nula!

Pensei, antes de enviar: este final um tanto anarquista pode responsabilizar-se pela recusa da publicação na Opinião ZH. Tenho dito por aqui: quem pensa que as eleições vão encaminhar as reformas de que o Brasil precisa há milhares de anos tem a probabilidade nula de ver-se atendido. Até agora fui incapaz de localizar os programas das coalizões partidárias que disputam as eleições. Hoje, relacionando-se com o passamento de Eduardo Campos, o jornal fala que seu partido quererá um compromisso de Marina da Silva -a fim de sagrá-la como candidata ao primeiro cargo- com o programa de governo feito por ele. Pensei: e eu que nunca vi mais gordo?

DdAB
A imagem e o artigo estão aqui. Os cálculos resultam da matriz de insumo-produto do Brasil de 2009 (disponível no site de Joaquim Guilhoto aqui) processada por mim.

P.S.: mal escrevi o parágrafo acrescentado ao marronzinho do artigo, comecei a campear na internet alguma coisa nesta linha. Sem ironia, publico uma manchete que mostra o peso enorme de "tomar seu santo nome em vão":

"Se Deus quiser Campos será presidente", diz Marina
Marina Silva inicia seu discurso com agradecimentos. Entre as pessoas citadas estão Eduardo Campos: "Se Deus quiser será o próximo presidente do pais", disse.
Fonte: aqui.

P.S.S.: achei o plano de Aécio Neves aqui.
P.S.S.S: e o da Dilma aqui.
P.S.S.S.S.: vou fazer o que posso e dar meu parecer aqui.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Duas Sabedorias


Querido diário:

O Velho Bota é de botar no pedestal, com seus 94 anos. Vive numa clínica geriátrica e já fez uma namorada naquele ambiente. E mandou-nos o recado: "no final, tudo dá certo". Final, ele, 94? Já é a primeira lição para encararmos a vida.

Ao ouvir esta lição de vida de quem realmente é mestre no métier, pensei em centenas de milhares de coisas, culminando com música: Beatles. Lá do disco Abbey Road, o final é "The End". Canção maravilhosa com a letra curtinha: "And in the end, the love you take is equal to the love you make". Parece que não poderia deixar de dar certo, com estas regras e corolários.

DdAB

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Três Notícias: 2 x 1


Querido diário:

Selecionei para comentar e vou fazê-lo três notícias de Zero Hora de hoje. O escore de 2x1 é que o baixo astral vence com dois gols contra o alto astral que fez um golzinho apenas.

Página 9 - baixo astral n.1 :: Em 2007, a Polícia Federal desencadeou uma operação policial para investigar uma quadrilha que "desviava verba destinada à compra de merenda escolar em Canoas." O sr. Eliseu Padilha, então deputado, depois apenas suplente desta sinecura e finalmente deputado novamente, lídimo representante da política brasileira contemporânea fora investigado. Bem lembro. O baixo astral é que nada se disse sobre a inocência dele -afinal, a suspeita da polícia poderia ter sido infundada. Mas não foi isto o que ocorreu. O deputado Eliseu Padilha, portanto, não foi inocentado, mas não será julgado, pois o ministro do STF "considerou a investigação nula por ter sido realizada fora do Supremo". Só bebendo. Mas já avisei: este sistema judiciário brasileiro é uma piada. Depois dei a sugestão: se houve ilegalidade da parte dos funcionários públicos encarregados da investigação, afinal não eram merendas de crianças?, as provas não poderiam ser declaradas inexistentes, mas os funcionários é que deveriam ser punidos por praticarem ilegalidades. Não me parece sensato, mesmo que o caso não fosse de merendas, esquecer as provas! Só bebendo.

Página 18 - baixo astral n.2 :: Entrou na moda as consultoras, no caso agora a do afamado Luis Paulo
Rosemberg, diz que Dilma tem maior probabilidade relativamente aos demais de se eleger, quando -diz ZH- "o cenário mais provável seria a 'continuidade da mediocridade'. O que me parece interessante é o seguinte. Lá para os clientes da consultoria, a opinião de seus contratados deve ser importante. Mas -associando esta ação à da do Banco Santander- o que fica é a sensação de que a própria Zero Hora tem interesse em ver publicadas as ofensas ao governo feitas nesta época de caça aos votos. Diz o jornal que a consultora diz algo assim: que Dilma "vai dispor de muito mais tempo do que os outros para 'alertar' a classe baixa de que a elite está tentando anular suas conquistas e trazer de volta um passado de dificuldades." Segue-se que devemos indagar: afinal, vai ou não vai? afinal, a elite quer ou não quer a manutenção do status quo?

Página 26 - alto astral :: anuncia-se que "Brasileiro conquista 'Nobel' da matemática". Eu já ouvira falar desta Medalha Fields, ambicionada pelos matemáticos ambiciosos com idade inferior a 40 anos. A medalha brasileira foi ganha por Artur Avila (parente afastado?), um carioca. Além desta medalha, houve mais dois rapazes e uma garota premiados. O alto astral são algumas declarações publicadas pelo jornal feitas pelo brasileiro: "Se eu estou envolvido em um projeto que está indo muito bem, trabalho o tempo todo. Agora, se estou meio perdido, o que acontece na maior parte do tempo, deixo a coisa rolar até aparecer alguma coisa, enquanto isso me ocupo com as atividades do dia a dia." Fiquei muito feliz, pois também me acontece algo assim: boa capacidade de trabalho de vez em quando e baixo nível de concentração most of the time. Só bebendo: champanha pelo parente e cachaça por mim mesmo...

DdAB
No pódio, a Medalha Fields retirada da internet, mas meio malhada.
P.S.: acabo de saber que Eduardo Campos morreu em um acidente de avião. Fico triste. Como não pensar em eleições? E, acrescento 12 horas depois da postagem, no Dia do Economista? "Agosto, mês de desgosto", diz um refrão gaúcho.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sherlock Holmes, Fu Manchu e outros


Querido diário:

No outro dia, olhava eu o livro "O Resto é Silêncio", de Érico Veríssimo, escrito lá por 1935 ou 1938, agora não lembro (ou era "O Senhor Embaixador", lá de 1965?). A certa altura havia uma referência a Fu Manchu. Empaquei, comecei a pensar em quem seria esta ilustre figura que me ressemblava a algum imperador chinês, à la Gengis Kahn, sabe-se -la. Pois bem, olhei a Wikipedia (em inglês aqui) e achei. Se as minhas aproximações cronológicas não estão erradas, Fu Manchu pontificava como personagem de ficção bem no tempo em que Érico escrevia ou embalava "O Resto é Silêncio". Ao descobrir que Fu Manchu era um fictional character, passei a lembrar de outros.

O mais famoso deles, que virou um mito mundual é, naturalmente, Sherlock Holmes e, naturalmente, herói do bem. Contrasta com ele seu inimigo figadal, o dr. Moriarty. Moriarty rima com Fu Manchu na linha de herói do mal. E do bem, ainda lembro de outros, como o famoso Hércule Poirot, de Agatha Christie, o inspetor Maigret, de George Simenon, e Arsène Lupin, o ladrão de casaca. E mesmo um Herlock Sholmes que juro ter lido. E também Émile Gaboriau, o criador do detetive Lecoq. E quadrinhos como O Fantasma-que-anda, o Mandrake, o Flash Gordon, e por aí vai.

É muito herói e vilão. Como sabemos, a política brasileira é infestada do último tipo, não é mesmo?

DdAB
Precisa dizer de onde veio a imagem?

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Furtonati e a Pobreza



Querido diário:

No outro dia, um zelador predial tachou-me de ser um daqueles que não gosta de pobres. Eu tentei argumentar não gostar de pobreza, nem da riqueza, por exemplo, dos políticos, não gostar -em suma- de desigualdade. Ele disse que isto eram apenas desculpas e que a realidade realmente real (tremi ao ouvi-lo dizer isto e cheguei mesmo a pensar que ele teria sido meu aluno num desses malfadados cursos noturnos em que andei enfiado há alguns anos). Entretivemos um final feliz, quando eu esclareci não gostar de pobres, no sentido de considerar que um trabalhador precário deve ser redimido desta condição por meio de um emprego decente.

Empregos decentes para gente de baixo nível de qualificação não podem ser delegados (e eu quase disse 'relegados') ao setor empresarial. O setor empresarial deve ser incentivado a competir estrondosamente na corrida pelos ganhos de produtividade, o que quer dizer menos emprego, menos emprego, menos emprego. Disse-nos Michael Porter que "os custos nunca são suficientemente baixos" e, claro, referia-se a todos os custos, mas bem sabemos há milhares de anos que o mais fácil deles de cortar é o da mão-de-obra. Emprego decente para desqualificado? Apenas no setor público (e não estou fazendo piada com os políticos, estes grandes charlatões nacionais) é que há lugar para gente "em treinamento", com aquela ladainha da aba do blog: três horas de ginástica, mais três de aula e outras três de trabalho comunitário. Nas horas de aula, o que se estuda, basicamente, é português, matemática e empreendedorismo. É uma tentativa singela de Utopia no sentido de permitir ao trabalhador deste, assim chamado, serviço municipal, de deslocar aquela turma, primeiro, para um emprego decente (férias, domingos pagos, assistência médica diferenciada) e depois para a criação de um auto-emprego decente (por contra-exemplo, papeleiro).

Pois foi aí que o zelador enquadrou-me como dos que odeiam pobres. Eu dizia estas coisas: vamos acabar com os papeleiros, pois o DMLU é que deveria pagá-los em empregos decentes.

E o prefeito Fortunati, que alguns eleitores passaram a designar como Fortonati? Quem mais, se não o prefeito, deveria tentar encaminhar os moradores da Av. Borges de Medeiros, debaixo do viaduto, ao deus-dará? Quem é que tem a responsabilidade de dar tratamento decente aos pobres? Quem odeia os pobres, o que quer vê-los fora das ruas (empregos decentes, moradias decentes, etcéteras decentes)? Quem são os amigos do povo, enfim?

DdAB
A foto, tirada com celular baratinho, é de minha autoria. E posso dizer que vemos (não digo que vi na hora) lá adiante um gari, ou seja, um trabalhador em serviço de baixos requerimentos de qualificação, mas que detém um emprego decente, emprego este de provisão pública. O gari, juro, não pede dinheiro (uns poucos o fazem, actually, mas são desincentivados a persistir na mendicância disfarçada nos trajes de trabalhador organizado), tem direito a repouso semanal remunerado, férias anuais, dias feriados com féria, aposentadoria, etc.

domingo, 10 de agosto de 2014

Comim: é nóis contra a desigualdade


Querido diário:
Lembra que Flávio Comim escreveu há dias um artigo em Zero Hora que comentei aqui? E que ele fez uma avassaladora réplica, que publicou aqui? E que seu blog principal acaba de mudar-se para aqui? E que eu fiquei, de certa forma, compelido/desafiado a fazer uma tréplica aqui no Planeta 23? E que eu nunca fiz? Que poderia eu dizer? Dizer que a respostas avassaladoras de aplicação e carinho nada há a dizer, a não ser aplicação e carinho!

Mas muito mais disse ele. Não para mim apenas, mas para todo o leitor de Zero Hora de hoje, no recentemente criado Caderno PrOA, página 4 (eu quis colocá-lo aqui como anexo, mas não o localizei online). O artigo do caderno PrOA se intitula "A desigualdade segundo Piketty" (que se pronuncia 'piqueti', oxítona, pois neguinho é francês e provavelmente conhecido de Comim). [E tem mesmo aquele 'des' em vermelho].

No artigo, o prof. Flávio Comim faz uma resenha do livro de Thomas Piketty, o já famoso Le Capital au 21ème Siècle. Não vou resenhar o livro nem, menos ainda, a resenha. O que acho é que o que ele escreveu (ele, ambos, Comim e Piketty), Comim dando as ideias centrais do livro de Piketty ao leitor de Zero Hora e seu séquito.

Sobre o duplo sentido que leio no título (Das Kapital, de Karl Heinrich, e capital enquanto fundo de valor monetário), ocorre-me denunciar, com um sorrisinho de mofa, outra resenha, escrita por um campineiro, que li em alguma daquelas Cartas Capitais que me obrigo a ler com a regularidade de um parvo. Diz este último resenhista que há um pecado capital -sem trocadilho bíblico- é que Piketty não incorpora a sua investigação o lado da produção, mas apenas o da distribuição. [Ver Anexo I mais abaixo]. Com arrogante ironia, ao ler aquilo, dei-me conta de que Piketty não tratou de outras dimensões importantes, como a independência do banco central, a cerâmica marajoara e o rebaixamento do Grêmio há alguns anos. Primeiro, pensemos no Ricardo citado no citado anexo. Segundo, pensemos que o valor adicionado tem três dimensões: produto (geração), renda (apropriação) e despesa (absorção). Então não falou nem em produção nem em absorção. E por que falaria em todas as coisas? Pudor e discrição para não magoar a torcida do Grêmio?

Nenhuma delas é mais ou menos importante do que a outra, nenhuma delas vive sem a outra. Ademais, a distribuição secundária tenderá a ser até mais importante do que a primária na sociedade do século XXII. Mas existe ainda algo até mais interessante do que apenas ladear Piketty a Marx, a saber, ver o maravilhoso livro de David Harvey, um marxista da boa cepa:

HARVEY, David (2013) Para entender O Capital. Rio de Janeiro: BoiTempo. Titulo original: A companion to Marx's Capital. Tradução de Rubens Enderle (que, para tristeza dos estudiosos do tema, que chegaram muito antes dele, traduziu "surplus" por "mais valor").

Além do conceito de justiça que vemos de David Harvey (no Anexo II a seguir), o autor deste livro é enfático em deixar claro que não poderemos esperar uma sociedade justa e ecologicamente saudável sob a égide do sistema capitalista. Em outras palavras, vejo "no mercado" uma ânsia pela expressão de uma visão autenticamente de esquerda -marxista ou assemelhada- para o século XXI, depois de tantos anos de neoliberalismo, de deslocamento da classe trabalhadora dos países da Europa e Estados Unidos a uma posição de inferioridade na barganha pela distribuição primária da renda. Qual é a causa do enfraquecimento? É o fortalecimento da China. E qual a causa da causa? A penetração do capitalismo mundial (europeu e americano) nas sociedades chinesa e indiana. E todos os demais tigres asiáticos e, futuramente, a África e -quem nos dera- também a América Latina.

E se ladearmos a visão de Piketty sobre o futuro com a minha? Parece óbvio que aí passamos a falar na salvação. Reforma ou revolução? Sou da Paz, meu chapa, quero reforma. Reformas democráticas que conduzam ao socialismo. Depois, daqui a muitos-muitos-muitos anos, veremos o que é mesmo que socialismo significa.

Para o que nos diz respeito no mundo mundano, no mundo de hoje, devemos pensar numa reforma na linha da Tobin tax, o imposto propalado por James Tobin sobre transações financeiras a ser aplicado nos países pobres. Que diz a aba deste blog? Diz o seguinte: que eu sou

proponente da criação de uma Brigada Ambiental Mundial voltada à ocupação da mão-de-obra prestadora de cuidados pessoais e ambientais com: _1 três horas de ginástica por dia (para manter a coluna ereta), _2 três horas de aula por dia (para manter a mente quieta) e _3 três horas de trabalho comunitário por dia (para manter o coração tranquilo). Ao apontar o sentido correto da evolução planetária como vinculado à esquerda, sinalizo a sociedade igualitária e, como tal, o emprego. 

E por que o emprego? Por um lado, vivo dizendo que, dado o nível do produto, quanto menos emprego, melhor, mais lazer, mais produtividade e menores preços das mercadorias. E por outro, vivo sugerindo que devemos educar nossos bimbos, devemos tratar bem nossos presos, devemos manter nossas estradas em boas condições, devemos ajardinar nossas ruas, cuidar da mata ciliar, tudo isto, tudo de bom. E por quê? Pois professores, assistentes sociais, cozinheiros, motoristas, e tantas outras ocupações que se vinculam à prestação destes serviços dão os empregos que -otherwise- deixam a mente desocupada. Como sabemos, este é o caso em que se situa a oficina do diabo.

DdAB
A imagem é daqui. Por 40 anos (mais ou menos 1942 a 1982), vemos o que Andrew Glyn chamaria de um profit squeeze. E depois aquela elevação estonteante a combinar by and large com os milagres da nova Ásia. Quem deu vida nova ao capitalismo? O comunismo chinês. E terá mais? Claro, o que Glyn mostra no livro "Capitalism Unleashed" que o "capitalismo" está cada vez tomando mais conta das atividades governamentais: terceirização de tudo, inclusive presídios, arrecadação de impostos, segurança pública, que a água e o transporte urbano já o está há muito tempo.

ANEXO I
Definição de economia política: aqui postei o seguinte, referindo-é à "nota de rodapé da p.4, ele/Keynes diz que, numa carta de 9/out/1820 a Thomas Malthus, David Ricardo disse: 'Political Economy you think is an enquiry into the nature and causes of wealth - I think it should be called an enquiry into the laws which determine the division of the produce of industry amongst the classes who concur in its formation.'"

ANEXO II

ANEXO III
De acordo com Joan Robinson e John Eatwell (1973), as principais questões cuja resposta é objeto da ciência (filosofia) econômica são oito:
1. de onde provém a riqueza material?
2. de onde se originam o excedente e o lucro?
3. a exemplo do trabalho, o capital também cria riqueza, ou os lucros são meramente retirados da riqueza gerada pelo trabalho?
4. haverá algum princípio associado aos valores das mercadorias que expliquem as variações erráticas em seus preços?
5. qual é o papel do dinheiro numa economia?
6. qual é a relação do rendimento monetário dos indivíduos com a riqueza total da sociedade?
7. existe justiça social num contexto em que algumas famílias vivem em extravagante suntuosidade, contrastando com aquelas que mal conseguem alimentar seus filhos?
8. existe algum mecanismo endógeno ao funcionamento do sistema que garanta um nível de procura capaz de manter homens e máquinas plenamente ocupados?

ANEXO IV
As fontes dos Anexos II e III estão neste livro:
Mesoeconomia; Lições de Contabilidade Social: A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Duilio de Avila Bêrni; Vladimir Lautert (e colaboradores). Páginas 65 e 74.
abcz

sábado, 9 de agosto de 2014

Eu, um Petralha?


Querido diário:

Declaro-me de uma esquerda não truculenta, uma esquerda refinada, contra violência, contra guerra: sou da Paz! E agora pensei que, ao declarar publicamente que votarei de cima a baixo na macacada do PT e, especialmente, dado o que falarei em seguida, pessoas desavisadas ou indeterminadas poderão pensar que estou na esquerda deste partido, logo eu que não pertenço a seitas de nenhuma natureza. E que pertenço a uma esquerda tão, mas tão refinada que talvez apenas eu mesmo é que seja o bloco central dela.

E por que digo isto? Duas notícias, uma de meu jornal ZH e outra da internet que me deu acesso a uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, deixam-me perplexo, defendendo o status quo.

No jornal Zero Hora, às folhas tantas, fala-se em um escândalo originário de um computador do Palácio do Planalto que mexeu no verbete "Miriam Leitão" da Wikipedia. Como sabemos que o computador que originou a mudança é mesmo do Planalto, da Presidência da República? Porque o IP é de lá. E quem é que mexe na Wikipedia deixando público seu IP? Apenas amadores! Un agent provocateur, diria um letrado.

O jornal O Estado de São Paulo apresenta uma pesquisa de opinião sobre resultados eleitorais: Aécio tem 70% das intenções dos eleitores. Aparentemente teremos um governo PSDB com maioria estrondosa parlamentar, não precisando nem mesmo do puxa-saquismo do PMDB ou do PP. Fonte? Margem de erro? Talvez os autores jurem que a margem de erro é nula, pois trata-se de sua análise das tendências baseada, a análise, em fatos dificilmente reprodutíveis por outros pesquisadores, desta vez, pesquisadores de mais bom-senso. Esta edificante notícia vem a reboque daquela história que um economista do banco Santander disse que o Brasil vai quebrar e o presidente do banco que não pode dar colher ao conselho de acionistas demitiu o visionário. Agora o wishful thinking (diria talvez o mesmo letrado) daquela negadinha é que tomara que Aécio ganhe. E eu? Eu quero que a Dilma, o Tarso, o Olívio, essa macacada toda ganhe. Mas tenho dito não esperar nada "das urnas". O que espero mesmo é que situação da guerra intestina que vivemos ainda há de se deteriorar muito mais, vidas ceifadas, atos de vandalismo, aquelas coisas, até que surja uma liderança decente e encaminhe uma reforma política. Tomara que esta reforma seja decente. A constituição de 1988 caducou de maneira estrondosa e horripilante.

E que negócio é este de estarmos vendo um Planeta 23 "petralha"? É mera aparência: não estou defendendo o governo, em absoluto. Apenas começo a divertir-me com as tiradas destas eleições do próximo mês de outubro. Nunca desejei tanto o início da primavera: apenas duas semanas depois do equinócio, a propaganda política acabará: tomara que a Dilma vença já no primeiro turno! Só bebendo!

DdAB
Pois obtive a imagem daqui ao pedir "leão de raça bebendo o quinto copo de cachaça". Logo eu, um velhinho bem comportado que fica quebrando a cabeça para saber por que o diabo do Brasil não cresce decentemente, logo o Brasil que tem uma enorme lacuna de trabalho decente, que tem uma informalidade de dar vontade de beber, que tem uma produtividade do trabalho seis vezes menor do que a americana e que, em poucos anos, terá a renda per capita menor que a da China. Pode?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Metodologia Econômica e Martin Bronfenbrenner


Querido diário:

Na dissertação de mestrado que escrevi para o atual Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS (defendida em julho/1977), fui orientado pelo prof. Antonio Carlos Fraquelli. Ele, na época, gostava muito do artigo:

BRONFENBRENNER, Martin (1973) Introducción a la metodologia economica para lectores de pretensiones intelectuales medias. In: KRUPP, Sherman Roy ed. La estructura de la ciencia economica. Madrid: Aguillar, 1973. p.5-29.

Na época em que li o artigo pela primeira vez, penso ter apreendido algumas coisas, mas juro hoje que certamente o material era mais rico do que minha maturidade intelectual dos 30 anos de idade permitiu perceber à época. Poucos anos depois (menos de cinco ou dez), passei a lecionar introdução à economia e -pimba!- já fui logo colocando na roda alguma coisa da visão de Bronfenbrenner. Hoje compartilho minhas notas de então sobre as seções iniciais do artigo. Lá vai:

I DEFINIÇÃO DE ECONOMIA
   Não existe nenhuma definição satisfatória de economia ou ciência econômica. Para ser satisfatória, deveria vincular economia com:

ciências empresariais
história
política
direito
psicologia
sociologia
engenharia
geografia
etc.

Há definições desesperadas, como a de Jacob Viner ("economia é o que fazem os economistas"). E a da filha do autor ("economia é onde papai desenha essas linhas e escreve esses números"). Ele próprio utiliza provisoriamente a definição de Lionnel Robbins modificada por Oskar Lange: economia é o estudo sistemático do ajuste social à escassez de bens e recursos e da administração de bens e recursos escassos.

Define-se escassez de um bem como a condição de que, ao preço nulo, a demanda exceder a oferta. O ar, por exemplo, não é escasso, pois nada pagamos para respirar à vontade.

Nem todos dizem que a escassez é inevitável. Comunistas, tecnocratas e outros críticos "maximalistas" dizem que se pode agir sobre a oferta com maiores avanços tecnológicos e sobre a demanda, não a inflando com técnicas de promoção de vendas, que não haja gastos de defesa e que todos dediquem cursos períodos de trabalho à comunidade, todos os bens e serviços podem tornar-se gratuitos em pouco tempo.

II A ADMINISTRAÇÃO DA ESCASSEZ
   Há três respostas diferentes para as questões fundamentais da economia
[usando o formato que aprendi com os alunos, temos:
1. o que, quanto produzir;
2. como produzir e
3. para quem produzir]
:: primeira resposta - na sociedade primitiva quem responde é o costume
:: segunda resposta - no capitalismo, é o mercado
:: terceira resposta - no socialismo é a planificação.

Para avaliar o desempenho dos sistemas econômicos que resolvem seu problema da escassez por meio do costume, mercado e planificação, há seis critérios:

:: quatro são econômicos:
.a. nível de vida
.b. taxa de crescimento do nível de vida
.c. equidade na distribuição da renda e da riqueza
.d. estabilidade do nível de vida quanto pressões descendentes

:: dois são quase-econômicos
.e. compatibilidade do sistema econômico com as liberdades civis
.f. compatibilidade do sistema econômico quanto à saúde física e mental dos cidadãos.

Quanto aos critérios .e e .f: um sistema baseado no trabalho escravo viola o critério das liberdades civis. Um sistema que sacrifique a segurança industrial em benefício do aumento da produtividade viola o critério da saúde física e mental.

III ECONOMIA POSITIVA E ECONOMIA NORMATIVA
   Economia positiva - propõe-se a dizer como as coisas são.
Economia normativa: diz como as coisas devem ser.

A questão é: estas podem ser "científicas" ou "objetivas"? Examinando a Figura 1 (lá de cima) podemos transformar a questão em: os economistas podem, enquanto economistas e não como cidadãos interessados, fazer recomendações de implementação de política econômica?

Um possível acordo entre o sim e o não é que os economistas, ao fazerem suas recomendações, deveriam distinguir perfeitamente entre as bases positivas e as normativas que fundamentam suas posições, visto que sua competência profissional (se existe) se concentra no lado positivo. E ainda, quanto ao caráter normativo cedeu relativamente ao ideal, a fim de que a medida proposta possa ser implementada politicamente.

IV A ECONOMIA COMO CIÊNCIA
   A economia, tanto positiva como normativa, é uma ciência? Depende da definição de ciência. Então ela o é, tal como a medicina ou a meteorologia.

Entendendo ciência como um "corpo organizado de conhecimentos", há uma parte da economia positiva que é, mas se entendermos ciência como enfatizando os métodos de laboratório ou avaliações quantitativas, comparando resultados previstos com os observados, então a parte "científica" é menor.

Evidentemente a economia não usa métodos de laboratório [hoje em dia, M.B. não diria mais isto...]. Os casos mais estreitos de analogia com as ciências naturais referem-se à astronomia e à meteorologia. Estas, tal como a economia, têm buscado extensivamente apoio na matemática e na estatística, a fim de substituir os métodos de laboratório.

O uso da matemática ganhou aceitação universal em virtude dos resultados quantitativos ou qualitativos que foram alcançados com sua ajuda.

Mas aí surge a questão: os teoremas da economia são "certos" como os da álgebra ou geometria? Neste ponto, devemos diferenciar o que é um modelo e o que é uma teoria. De acordo com Andreas Papandreou:

modelo (é uma simplificação da realidade que) se deduz de as premissas ou axiomas e, neste sentido, pode ser considerado como absolutamente certo, embora o tempo possa fazê-lo deixar de aplicar-se a uma situação concreta. Um modelo econômico que explica uma situação real com seus teoremas pode chamar-se de teoria econômica. [Eu, 40 anos depois, discordo. Falo aqui e ali em: modelo teórico (e.g., q = f(p), modelo empírico (e.g., q = a - bp e modelo experimental (e.g., por exemplo, q = 2 - 0,3p) para uma função demanda elementar].

De fato, na maioria das proposições da teoria econômica, as magnitudes dos valores probabilísticos do poder de explicação dos fenômenos são inferiores aos dos físicos ou astrônomos. Mas isto é só uma diferença de grau.

Sendo ou não científica, a economia é, pelo menos, "objetiva"? Quer dizer, os profissionais da economia se aproximariam dos mesmos resultados partindo dos mesmos dados? Esta aproximação é grande, mas tem possível analogia com os diagnósticos médicos.

A objetividade que a economia possa ter baseia-se em seus aspectos positivos: os fatos, a análise técnica, etc. Não há razão particular para esperar que os juízos de valor básicos do economista ou suas recomendações de política sejam independentes de sua classe social, cultura, grau de desenvolvimento do país, etc.

V EMPIRISMO IMANENTE E DESACORDO PERPÉTUO
VI A CONTROVÉRSIA DE FRIEDMAN
VII A CONTROVÉRSIA DE MYRDALL
VIII TOLERÂNCIA METODOLÓGICA

DdAB
P.S.: vale a pena ver, para o mesmo tema e tratamento correlato, as seguintes postagens deste blog:
.a. Oskar Lange - os prolegômenos (aqui)
.b. Lange: O objeto e métido da economia política I (aqui)
.c. Lange: O objeto da economia política - II (aqui)
.d. Lange: O objeto da economia política - III Parte/final (aqui).

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Sentido da Vida no Planeta 23


Querido diário:

.a. vi uma linda frase de Marcelo Gleiser (http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelo_Gleiser) na p. 7 de Zero Hora de 3/ago/2014: 

O sentido da vida é dar sentido à vida.

Penso que é mais ou menos isto o que Abraham Maslow classifica como seu sexto nível de atendimento de necessidades. Isto significa que devemos estabelecer objetivos (artificiais, como não poderia deixar de ser) e cumpri-los ou -justificadamente- mudá-los ou abandoná-los, substituindo-os por outros, ad aeternum.

Tão impactante foi para mim esta frase que fiz um hai-kai num estilo assemelhado ao das trovas que venho entretendo com Millôr Fernandes (já são 75 e chegarei nas 100 do livro da L&PM) e, mais ainda, explorando o conceito de rimas paupérrimas que volta e meio vejo usado (desde Camões a J. L. Borges), nomeadamente, fazer a rima da palavra consigo mesma:

Hai-Kai Independente (do Planeta 23)
O sentido da vida
meu amor, minha vida,
é dar sentido à vida.

Não é uma trova convencional, pois não é um, mas dois versos alheios, e o de minha autoria não é o primeiro, mas o segundo verso do hai-kai. Entusiasmado com isto, decidi dar nomes aos versos dos hai-kais criados em todos os tempos:

primeiro: cabeça
segundo: nó
terceiro: pé

Mal lancei esta proposta em um concurso de trova, fui ameaçado com uma liminar, mudando para

primeiro: cabeça
segundo: tronco
terceiro: membros (especificamente o pé).

Fiquei estupefato com a ameaça da liminar, pois penso perdê-la, dada a incompetência do sistema judiciário nacional [e algum candidato da chapa Dilma-Aécio já falou algo sobre reformá-lo?], pois ouvi falarem em rimas de pé quebrado, contrastando com os versos de pé quebrado. Estes são esses ou aqueles que têm números diferentes para as sílabas comparativamente ao padrão do poema. Sabemos que o hai-kai original tem 5-7-5. Logo especialmente o terceiro do hai-kai modificado está quebradíssimo, por ser longuíssimo.

.b. as páginas 8-9 do carimbadíssimo jornal permitem a criação de outro hai-kai, este mais flagrantemente reconhecido como plágio, pois a frase dele, manchete de duas páginas, era: 

O oposto da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade. 

A primeira consequência que me ocorreu é que devemos praticar a máxima do Planeta 23: perder uma hora diariamente em exercícios físicos, para mantermos a vitalidade, a mobilidade, a flexibilidade, e mesmo força. Mas não me contive e decidi desdobrar a frase genial e fazer dela um hai-kai (de minha autoria..., principalmente o título, de pé quebrado...):

SEMIÓTICA DA IDADE
O oposto da depressão
não é a felicidade
mas a vitalidade.

DdAB
A fonte da ilustração é óbvia. E destoa estrondosamente do sentido filosófico e humanitário da maior parte do conteúdo desta postagem.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Marx e a Primeira Sentença de O Capital


Querido diário:

Seguindo a postagem 
Marx e o Começo de Tudo, falarei hoje sobre as traduções existentes em português, confrontando-as com as feitas pelo Google Translator. Víramos que o Google colocou o original alemão como:

A riqueza das sociedades em que o modo capitalista de produção prevalece aparece como uma "imensa coleção de mercadorias", a mercadoria indivíduo como sua forma elementar. Nossa investigação deve, portanto, começar com a análise de uma mercadoria. 

A primeira, pela ordem cronológica de publicação, é de 1968, publicada pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Reginaldo Sant'Anna:

A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em 'imensa acumulação de mercadorias', e a mercadoria, isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza. Por isso, nossa investigação começa com a análise da mercadoria.

A segunda foi feita por Regis Barbosa e Flávio R. Kothe para a Abril Cultural em 1983:

A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma “imensa coleção de mercadorias”, e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigação começa, portanto, com a análise da mercadoria.

A última das hoje disponíveis foi publicada pela Boitempo no ano de 2013, com tradução de Rubens Enderle, diz:

A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma “enorme coleção de mercadorias”, e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigação começa, por isso, com a análise da mercadoria.

Este Enderle é talvez o melhor tradutor. Mas chama mais-valia de mais-valor! Deve ser sabe-se lá o quê.

DdAB
Imagem: bela foto e site que poderia ser decente, com um artigo que mereceria réplica aqui.

P.S. E como é que estava na tradução francesa revisada por Marx em 1875?  Resposta:

La richesse des sociétés dans lesquelles règne le mode de production capitaliste s’announce comme une “immense accumulation de merchandises”. L’analyse de la merchandise, forme éleméntaire de cette richesse, sera par conséquent le point de départ de nos recherches.

domingo, 3 de agosto de 2014

Renda Básica e Serviço Municipal


Querido diário:
No extraordinário livro organizado por mim e por Vladimir Lautert - Mesoeconomia, da Editora Bookman - a página 107 mostra a Tabela 3.5 que ilustra esta postagem. (Aumentando o tamanho com um click sobre ela, vê-se um pouco melhor; nas linhas, receitas e, nas colunas, despesas.)

Trata-se de uma matriz de contabilidade social, meio caminho andado para o entendimento de muita coisa observada no mundo econômico.

_a a existência de três grupos de agentes econômicos: produtores, fatores e instituições (na verdade, não se trata de 'fatores', mas de 'locatários dos serviços dos fatores de produção');

_b a existência de cinco mercados: insumos produtivos, produto, renda, despesa final e insumos institucionais;

_c em _b já observamos outro conceito: as três óticas de cálculo do valor adicionado: produto, renda e despesa; na linguagem do livro e, mais garantidamente, do blog, o valor adicionado é criado, o produto é gerado, a renda é apropriada e a demanda final é absorvida (ver o último item da postagem);

_d omiti milhares de outros recortes. Mas o que até aqui vimos praticamente já basta, passando agora a examinar a relação entre as transações entre produtores e instituições (demanda final) e as transações levadas a efeito intra-instituições;

_e desejo chamar a atenção para o local onde deve inscrever-se a renda básica (no Brasil, a bolsa-família) nesta matriz. Observemos a sexta linha do quadro: Famílias pobres. Nesta linha encontram-se os créditos, as receitas que lhes cabem. Parte lhes vem como rendimento do trabalho (coluna 6) e outra parte responde a transferências governamentais. Em outras palavras, quem recebe renda básica não é trabalhador, é gente que não tem acesso ao mercado de trabalho, como os doentes ou os aposentados (também recebedores de transferências, se não me faço redundante);

_f e também chamar a atenção para onde inscrevem-se as remunerações de trabalhadores do serviço municipal (ver aba de meu blog, pois falo de uma 'brigada ambiental mundial', chamada por alguns igualitaristas de 'serviço municipal', naquela linha de três horas de trabalho comunitário por dia, mas sem esquecer as horas de estudo e de prática de exercícios físicos, inclusive atletismo, dança e mesmo violoncelos e tubas): onde se inscrevem: quem recebe - quarta linha (rendimentos do trabalho) e quem paga - terceira coluna (setor serviços, subsetor administração pública, algo assim, podendo mesmo ser criado um subsetor de serviços municipais;

_g e agora vem o que me parece muito interessante e tem implicações sobre o futuro do Brasil, esta fraude que serão as eleições de 5 de outubro (agenda vergonhosa) e as possibilidades de se manter a conquista distributiva dos últimos anos (não acabar com o programa bolsa família, mas transformá-lo em duas direções - criar a renda básica, implantada nas regiões carentes, e também criar o serviço municipal, iniciando programas piloto voltados ao treinamento da mão-de-obra hoje carente, educação de adultos, seu encaminhamento para desenvolver suas habilidades empreendedoras no sentido produtivo do termo);

_h e o que é tão interessante? é que a bolsa família ou a renda básica fazem parte do valor adicionado (isto é, apenas a família que recebe a transferência governamental vai ao mercado do produto (demanda final - hífen - consumo das famílias) e adquire os bens e serviços de sua preferência (inclusive aqueles requisitos de Amartya Sen tão bem evocados nas terras do sul nos escritos e pesquisas dos professores Sabino e Comim);

_i mas, ativando o serviço municipal (um regimento da brigada ambiental mundial), aquelas pessoas que participavam da criação do valor adicionado (ver item _c acima) apenas pelo nível da absorção agora passam também a participar de sua geração!

_j resumindo o que entendo ser o mais interessante deste contexto: pagar a renda básica significa manter o indivíduo vivo, independentemente das idiossincrasias dele próprio ou do mercado de trabalho; pagar salários a título de prestação de serviços municipais desloca este indivíduo do bloco das transações inter-institucionais e as insere no bloco da geração de valor adicionado (ótica do produto). Prometer isto é ou não é de ganhar eleição?

DdAB
P.S. para mim, mesmo, o que deveria dar vitória a um candidato desse chapa Dilma-Aécio seria prometerem consubstanciadamente uma reforma do sistema judiciário (policiais, juízes, licitações para novas delegacias, juizados e presídios).

Ulysses: Marx e o começo de tudo


Querido diário:

A estas alturas do biênio 2013-2014, tivemos diversas postagens sobre a primeira sentença de Ulysses, de James Joyce, em diversas traduções. O tema poderia render estudos para o resto de nossas existências. Nossa
s? Começa agora a continuação de uma série de postagens falando sobre a primeira sentença de O Capital, de Karl Marx. Iniciemos falando em quem é a verdadeira edição princeps de O Capital. A edição que melhor conheço é a inglesa, com tradução de Ben Fawkes e publicada pela Penguin/Pelican. Chegaremos a ela em breve. Para iniciar, falemos no original em alemão, que não diverge tanto entre uma edição e a princeps. E parece que esta é a tradução francesa, revisada pelo próprio Marx depois de tê-lo feito na edição alemã. Isto dá à tradução de Ben Fawkes certa noção de definitiva.

O começo do Volume 1 deixa-se ler como:

Der Reichtum der Gesellschaften, in welchen kapitalistische Produktionsweise herrscht, erscheint als eine "ungeheure Warensammlung", die einzelne Ware als seine Elementarform. Unsere Untersuchung beginnt daher mit der Analyse der Ware.

Em outras palavras, palavras do Google Tradutor:

A riqueza das sociedades em que o modo capitalista de produção prevalece aparece como uma "imensa coleção de mercadorias", a mercadoria indivíduo como sua forma elementar. Nossa investigação deve, portanto, começar com a análise de uma mercadoria. 

No Volume 2 a primeira sentença é:

Der Kreislaufsprozeß des Kapitals geht vor sich in drei Stadien, welche, nach der Darstellung des ersten Bandes, Folgende Reihe bilden:
Palavras do tradutor do Google:

O processo de circulação de capitais procede em três estágios, que formam após a apresentação do primeiro volume, as seguintes séries:

Para o terceiro volume, fica-nos a primeira sentença como:

Im ersten Buch wurden die Erscheinungen untersucht, die der kapitalistische Produktionprozeß, für sich genommen, darbietet, als unmittelbarer Produktionsprozeß, bei dem noch von allen sekundären  Einwirkungen ihm fremder Umstände abgesehn wurde.

 Na tradução do Google, lemos:

No primeiro livro do fenômeno foram investigados, o processo de produção capitalista, em si, apresenta, como um processo imediato de produção que ainda estranho para ele circunstâncias foi além de todos os efeitos secundários.

O primeiro comentário sobre a escrita em alemão (logo eu falando, eu, que sei não muito mais que isto...) tem a ver com a idiossincrasia desta língua relativamente ao português em grafar os substantivos em maiúsculas. Mas ela não parecerá tão heterodoxa, pois é bem possível que a prática hoje arcaica da língua inglesa de fazer o mesmo será o elogio de sua transposição do saxão para o anglo.
Por exemplo, na Fable of the Bees (The grumbling hive: or, knaves turn'd honest) [aqui tem], Bernard de Mandeville tem em sua primeira sentença

"THE Generality of Moralists and Philosophers have hitherto agreed that there could be no Virtue without Self-denial; but a late Author, who is now much read by Men of Sense, is of a contrary Opinion, and imagines that Men without any Trouble or Violence upon themselves may be naturally Virtuous."

E o trecho a seguir veio daqui:

Na linha do remoque de Mark Twain, tal prática poderia creditar-se àquela dificuldade em encontrarmos o centro de palavras de inúmeras sílabas. Estatística, por exemplo, como acentuou Keynes, deixa-se ler como Wahrscheinlichkeitsrechnung. Cheguei aqui por meio de Robert Skidelsky, na p.178 do v.1 da biografia de John Maynard Keynes que este reclamou: "I wish the German word for Probability hadn't 27 letters", e dá-nos -Skidelsky- o original em alemão, com alta probabilidade de que ele ou eu tenhamos cometido algum erro de ortografia... [O fato é que há 27 letras naquele negócio ali atrás.]

E que dizer do começo falando em mercadoria?

.a. "economia é a ciência que estuda a oferta e a procura". Ok, ok, é exagero, eu bem entendo que o mercado não resolve todos os problemas da vida social (como é dito em Bêrni & Lautert's editores, Mesoeconomia, às folhas tantas). Mas é óbvio que a lei da oferta e procura é o centro do mundo da produção de mercadorias. E é quase tautológico dizer isto.

.b. não há mercadoria individual: ou há duas (que se espelharam uma na outra para viabilizar a troca) ou nenhuma, pois se não houve troca, não houve salto mortal e não houve valor nem a mercadoria que o geraria.

DdAB

A imagem veio do livro que baixei seguindo o link acima referido. E por que Mandeville entrou neste assunto? Apenas por causa das letras maiúsculas em suas iniciais. Por puro azar, a edição de que falamos não tem esta peculiariadade, mas que há vi, ou melhor, que havia, lá isto há vi, ou melhor, há vira... E a há no livro de William Petty.

sábado, 2 de agosto de 2014

Hai-Kai n. 75


Querido diário:

MILLÔR:
COISA RARA:
TEU ESPELHO
TEM MINHA CARA.

Planeta 23:
Tem a minha cara
o que raramente escrevo
na hora escassa e avara.

DdAB
Imagem: aqui. Talvez uma psicanálise prolongada permitisse entendermos as razões que me levaram a selecionar esta imagem.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Problema Humano: muita gente...


Querido diário:

Há quem diga que o problema humano é indescritível e que o problema planetário é o excesso de gente, aquela coisa da capacidade de carga do planeta. Hoje entendo que um planeta em que não há controle demográfico, em que a sociedade não está preparada para financiar a humanização dos filhos dos pobres (falo, claro, da Vila Cruzeiro, mas também da Nigéria, Somália, e por aí vai), a fertilidade excessiva é uma ameaça. E não contente com isto, vim a entender que, no México, esta segue altaneira.

Pois bem. Por um lado, está no folclore familiar, no lado da alemoada, que divertiam-se fazendo bailes em ocasiões especiais. Neles, claro, em terra de colono alemão quem mais comparecia eram colonos alemães. Então, no dia seguinte, um deles que não pudera ir ao baile indagava a outro, que fora: "E aí, havia muita gente?" E o primeiro respondia: "Nada, só alemão."

Por outro lado, ouvi que atribuíram ao Vô Bota a maravilhosa frase, queixando-se talvez da multidão orgiástica:

Muita gente é bom... na guerra.

DdAB
Imagem: aqui.