sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ulysses: site, esquete e supercenário


Querido diário:

No outro dia,
nem o lia
mas sabia...

Isto é um hai-kai que decidi fazer em homenagem à realidade tangível da concretude do mundo palpável. Em outras palavras, não gosto de ser redundante e, assim, livro-me de explicar direitinho como foi que vim a parar neste site aqui. O fato tangível é que são dois alentos rememorados pela figura:

:: nossa familiar "Stately, plump Buck Mulligan".

:: agora a misteriosa: "ineluctable modality of the visible". [que se lê, ao ampiar a imagem de John Coulthart, despregando-se do olho direito do sr. Joyce].

Dizem pela própria internet que se trata da primeira sentença (abertura) do terceiro capítulo - "Proteu" -, de acordo com a numeração da tradução de Bernardina, na página 65:

Inelutável modalidade do visível: ao menos isso se não mais, pensei através dos meus olhos.

Por diletantismo, fui ao Google Tradutor e encontrei precisamente esta tradução para a primeira parte: "inelutável modalidade do visível", não que a Bernardina o tenha usado. As interpretações são as mais variadas. Eu já comecei, quando li, a indagar-me "quem pensou". E anotei: Stephen, e agora não conferi se foi ele mesmo ou alguma outra personagem menos vistosa. Como saberei? Ontem, falei que gostaria de galgar a eternidade para poder saber quem inventou os dois pontos repetidos na mesma sentença. E, se pudesse galgar duas eternidades, certamente tentaria saber tudo o que já foi escrito pelos comentadores.

DdAB
P.S.: não esqueçamos que já prometi ler o próprio "Ulysses" em todas as traduções que puder encontrar, reservando para nova reencarnação a leitura diligente do original em inglês, daquela que talvez nunca venha a ser declarada uma edição prínceps.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ulysses: Joyce é o inventor dos dois pontos


Querido diário:

Uma das coisas que mais me chateia por não ser eterno é que eu gostaria de estudar todos os documentos já escritos pela humanidade, de sorte a saber quem inventou este negócio de dois pontos. Por exemplo, na frase "Sobre dois pontos, tenho dois pontos: o primeiro such and such e o segundo... E aí já entram três pontos. Nossa imagem de hoje (fonte óbvia) alegoriza dois pontos. E podia alegorizar mais, se eu buscasse com mais afinco. Alegorizo com Grande Sertão: Veredas. E se não fossem veredas, qual seria o detalhamento? Acho que Guimarães Rosa marcou mesmo época, pois até eu andei metendo dois pontos em dezenas de títulos de artigos científicos e postagens mundanas. Como é o caso destas milhares em que comento, do jeito que melhor posso, o Ulysses (que, no livro da Bernardina ainda se escreve sem o 'y', que fora banido e readmitido à língua portuguesa).

E que diz Joyce sobre o assunto, na tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, página 751?

Que afinidades especiais lhe pareceram existir entre a lua e a mulher? Sua antiguidade em preceder e sobreviver a sucessivas gerações telúricas: sua predominância noturna: sua dependência satélica: seu reflexo luminar: sua constância sob todas as suas fases, erguendo-se e pondo-se em suas horas indicadas, ficando cheia e sumindo: a invencibilidade forçada de seu aspecto: sua resposta indeterminada à interrogação inafirmativa: sua força sobre as águas efluentes e refluentes: seu poder de enamorar, mortificar, investir com beleza, tornar insano, incitar e auxiliar a delinquência: a inescrutabilidade tranquila de seu rosto: a terribilidade de sua isolada dominante implacável resplendente propinquidade: seus presságios de tempestade e de calmaria: a estimulação de sua luz, seu movimento e sua presença: a advertência de suas crateras, de seus mares áridos, de seu silêncio: seu esplendor, quando visível: sua atração, quando invisível.

Contei 31 pontos: 30 duplos e um ponto final. Quantos "dois pontos"? (31 - 1)/2 = 15. Ou seja, na mesma sentença, 15 vezes Joyce usou o recurso de dar uma explicação com dois pontos. Nunca passei de um par, em meus escritos, salvo por engano. E isto me leva a arrecadar mais evidência no sentido de fortalecer a hipótese de que Ulysses não é um romance, mas o borrador de dez.

DdAB
P.S.: fora o seguinte:
GUIMARÃES ROSA, João (2001) Manuelzão e Migulim. 11a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Em seu iniciozinho, na página 27 desta edição,  diz-se:

De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutúm, tinha dito: -"É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre..."

Então os dois pontos verticais -ou melhor, duas duplas de dois- apareceram também no velho Guima provavelmente no original do 'Corpo de Baile", lá em plenos meados dos anos 1950s, desde quando a escrita brasileira já foi escrachada por duas mudanças ortográficas. Pode? Só bebendo, claro.

DdAB
P.S.: aquilo de dupla de dois é bastante controverso. Eu mesmo faço uma dupla unitária comigo mesmo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ulysses: conjeturas sobre pudins


Querido diário:

Na página 188 da tradução de Ulysses de Joyce feita por Bernardina da Silveira Pinheiro (ver milhares de postagens aqui no Planeta 23 mesmo), lemos:

Meu Deus, o vestido daquela pobre criança está em frangalhos. Ela parece subnutrida também. Batatas e margarina, margarina e batatas. Depois é que eles sentem. A prova do pudim. Solapa o organismo.

Meu deus, digo lá eu aqui. Tanta coisa. Eu nem pensara inicialmente no vestido mas naquele "a prova do pudim". E agora ao digitar aqui neste Planeta, flagrei-me daquele "depois é que eles sentem".

A prova do pudim. Difícil de traduzir, pois Joyce -bem o sei- estava pensando no ditado inglês "the proof of the pudding is in the eating", que quer dizer "ver para crer". Como abreviar "ver para crer"? "Ver"? "Ver para"? E ainda tem o "seeing is believing". Sabe-se lá, não sou tradutor profissional e se traduzir algo será a média de todas as traduções já feitas e por fazer de volta para o inglês.

E agora o que me parece o fim-da-picada. A pobre criança é faminta, tem 14 irmãos praticamente forçados a nascer por um padre. Diz Joyce:

Um nascimento quase todo ano. Isso faz parte da teologia deles ou o padre não confessará a pobre mulher , não lhe dará a absolvição. Crescei e multiplicai. Onde já se viu uma ideia dessas? Comem tudo de você casa e lar. Eles mesmos não têm família para alimentar. Tudo do bom e do melhor. Suas adegas e despensas.

Ou seja, estamos falando de um tempo de Irlanda miserável, a grande fome de ainda estava na memória e outros episódios de fome também estavam em pauta. O que mais corta meu coração é perceber que, no Brasil contemporâneo, este tipo de coisa ainda acontece. A pobreza, o descaso com a nutrição e a educação, ambos minam o futuro luzidio. Teremos, penso, problemas no mínimo ainda por 100 anos.

DdAB
Imagem daqui.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ulysses: encarceramento na Grécia



Querido diário:

Claramente James Joyce nunca foi encarcerado na Grécia. E nem, presumo, Osman Lins, mas tudo ocorreu como se eles por lá tivessem sido retidos e levado longas conversas das quais teriam resultado as seguintes passagens em seus blogs, digo, seus livros, certos livros.

A. ULYSSES
No capítulo 17 - Ítaca, aquele de perguntas e respostas, página 720, tradução Bernardina, lemos:

O que fez Bloom no fogão?
Ele removeu a caçarola da placa da esquerda, ergueu e levou a chaleira de ferro pra a pia a fim de abrir a bica girando a torneira pra deixar a água correr.

Ela correu?
Sim. Do reservatório Roundwood no condado de Wicklow com uma capacidade cúbica de 2.400 milhões de galões, passando através de um aqueduto subterrâneo de condutos de filtro de canalizações isoladas e duplas construído a um custo inicial de planta de L5 [5 libras] por jarda linear passando por Dargle, Rathdown, Glen of the Downs e Callowhill até o reservatório de 26 acres em Stillorgan, uma distância de 22 milhas estatutárias, e daí, através de um sistema de tanques de descarga, por meio de um declive de 250 pés até a fronteira da cidade na ponte Eustace, parte superior de Leeson Street, embora devido a uma seca prolongada de verão e um suprimento diário de 12,5 milhões de galões a água caíra abaixo das comportas do transbordamento da barragem razão pela qual o fiscal do município e o técnico da usina hidráulica, Sr. Spencer Harry, C.E., por instrução do comitê da usina hidráulica tinha proibido o uso da água municipal par fins outros que não fossem os de consumo (encarando a possibilidade de ter recurso à água não potável dos canais Grand e Royal como em 1893) particularmente como os South Dublin Guardians, apesar de sua ração de 15 galões por dia por pobre fornecida através de um registro de 6 polegadas, ter sido acusada de um desperdício de 20.000 galões por noite pela leitura de seu registro segundo afirmação do agente legal da corporação, Sr. Ignatius Rice, procurador, agindo desse modo em detrimento de uma outra parte do público, auto-suficientes pagadores de impostos, solventes, sãos.

E que digo eu que disse Osman Lins? Diz lá ele na página 133:

Não, Petrarca, teu soneto não é duro bastante para celebrar o aniversário, o segundo, da iníqua morte de Julia, esmagada, cinco meses depois de dar por terminada a sua obra, sob um caminhão GM de cor verde, chassi de oitocentos e oitenta e dois milímetros, eixo dianteiro tipo viga em 1 (capacidade três mil, setecentos e cinquenta quilos), eixo traseiro flutuante dupla redução (capacidade nove mil e trezentos quilos), tanque para cento e quatro litros de óleo diesel, freios a ar, pneus de doze e catorze lonas, carregado, peso bruto total vinte e dois mil e quinhentos quilos.

Como será que o Osman iria falar sobre isto? Teria lido Ulysses? Ter-lhe-ia ficado no inconsciente esta passagem de Bloom filosofando sobre a água? A escassez de água que hoje já é uma consciência total planetária, clamando pelo governo mundial?

DdAB

Referências
LINS, Osman. A Rainha dos Cárceres da Grécia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
JOYCE, James. Ulisses. Rio de Janeiro: Alfaguarra/Objetiva, 2007. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

Postagens neste blog sobre o último livro do autor de "Avalovara": 
uma e outra.

Pedi "joyce e osman" e vieram estas (aqui) coordenadas, com duas lindas crianças.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Imaginação pela Duplicação


Querido diário:

No outro dia, estávamos em um restaurante gramadense quando eu trouxe à discussão o fato de que não havia mais de uma ou duas mesas com pessoas negras. Fiquei falando no argumento que há anos esgrimiu-me o prof. Adalmir Marquetti, na defesa enfática da legislação das cotas raciais brasileiras. Eu, que tinha minhas tibiezas por não ter pensado o suficiente no tema, acedi ao argumento. Inclusive por lembrar de uma tirada de aula de meu professor de pós-graduação em economia, o americano David Garlow, no ano de 1975: comparou o racismo americano com o número de negros que ele viu em torno do pós-graduação em economia da Ufrgs: em três turmas, nunca viu nem o rastro. Era verdade e apenas na quarta turma é que parece ter surgido o primeiro e depois houve outros, mas sempre em proporção enormemente inferior à dos negros na população nacional ou local.

Claro que a proporcionalidade absoluta é tão inviável quanto o viés sistemático contra a maioria sub-representada. Não seria desejável que em tudo quanto é dimensão da vida nacional se repetisse a composição etária. Mas tampouco deveriam ocorrer divergências marcantes em certos segmentos da vida nacional:

.a. não deveria ter sistematicamente mais negros do que brancos nas prisões
.b. idem, idem, entre desempregados
.c. idem, idem, entre doentes
.d. e por aí vai.

E aí o assunto do bar esquentou (pudera, com a lareira ligada...) e eu decidi viajar na história de "se o Brasil tivesse dobrado de tamanho desde 2005". Então comecei a falar algo na linha que segue.

Primeiro, o leitor do Planeta 23 que o examina agora teria a sua frente não um mas dois computadores. Estaria lendo não uma postagem, mas duas, enfim, seria dois e não um... Então decidi refrear esta sanha duplicadora e estabelecer algumas mediações que nos são de todo convenientes. Primeiro, sugeri que o que deveria dobrar não era a população, mas o PIB. Como sabemos, se este crescimento rastejante a que assistimos há 30 ou 40 anos criasse vergonha e passasse a ser 7,12% a.a., teríamos a tão ansiada duplicação. Por exemplo, a estrada Porto Alegre-Gramado teria quatro pistas, etc.

Então, se não dobrasse a população, a disponibilidade de bens e serviços por habitante duplicaria, a produtividade do sistema teria duplicado. Digamos que fosse 100, então ele passaria a 200. E nem precisaria duplicar proporcionalmente, fazendo-se algo até inversamente proporcional à atual participação individual na renda. Explico-me, os 1% atualmente mais ricos ficariam com apenas, digamos 0,001% do aumento, ou 101. E os outros 99% ficariam com estes 99,999%. E assim por diante.

Mas tem algo interessante:

.a. se duplicou a quantidade de computadores
.b. e de postagens,
.c. então teria que haver outra pessoa fazendo a segunda postagem que simultaneamente a esta o leitor estaria examinando

E isto significaria que, se voltássemos ao exemplo de dupla renda mas trabalho uno, então eu é que estaria fazendo apenas a metade de uma postagem e a que agora se lê seria em co-autoria.

Ou seja, todos trabalharíamos apenas a metade do que o fazemos para alcançar os 100% de aumento, quer dizer, a produtividade de nosso trabalho é que teria duplicado. E claro que isto acontece com eleição, com seleção, mas especialmente com educação!

DdAB
Procurando no Google Images as palavras do título, encontrei aqui esta linda e simbólica imagem. J. Wilson é -no site- José Wilson. Por contraste ao Brasil dos ladrões de dinheiros das estradas, há o Brasil que dá certo, com gente como ele dirigindo sobre as que se tornaram realidade.

domingo, 25 de maio de 2014

Ulysses: meus cinco exemplares em ação


Querido diário:

Quanto mais olho minhas cinco edições do "Ulysses" e meus já alongados comentários aqui neste blog, mais doido fico. Tem tanto detalhe em suas mil páginas e milhares de palavras que talvez eu mesmo precise de milhões de vidas para poder apreender tudo o que se passa. Sem falar em minha cândida teoria de que aquilo tudo não é mais do que um rascunhão de James Joyce que a azáfama impediu de transformar-se em dez romances menores. Como foi o caso de suas outras obras que, ao que parece, também couberam dentro do monumental Odisseu.

Em compensação, às vezes divirto-me até no folhear inconsequente, buscando, como consequência, alguma singularidade, algum paralelismo, alguma simetria. Hoje, precisamente hoje (e por que não seria em algum dia de meu calendário?), selecionei uma passagem que me parece remeter a uma endless regression. Como sabemos, a que mais me alegra é aquela do autor de "Alegria, alegria", falando elsewhere em avesso do avesso do avesso do avesso, ad infinitum.

Em compensação, agora estamos no capítulo 17 Ítaca (para os que o marcaram assim). É aquele do sistema de perguntas e respostas que alguns atribuem ao estilo "catecismo" do ensino dos jesuítas que alguns atribuem à própria vida de Joyce, que foi educado numa das instituições presididas por essa turma. Vejamos as cinco traduções.

Diz Antonio Houaiss na página 820:

Quais, reduzidos à sua mais simples forma recíproca, eram os pensamentos de Bloom sobre os pensamentos de Stephen sobre Bloom e os pensamentos de Bloom sobre os pensamentos de Stephen sobre os pensamentos de Bloom sobre Stephen?
Ele pensava que ele pensava que ele era judeu enquanto ele sabia que ele sabia que ele sabia que não era.

E a Bernardina, na p. 731:
Quais, reduzidos à sua forma recíproca mais simples, eram os pensamentos de Bloom sobre os pensamentos de Stephen a respeito de Bloom e sobre os pensamentos de Stephen sobre os pensamentos de Bloom a respeito de Stephen?
Ele pensou que ele pensava que ele era um judeu enquanto ele sabia que ele sabia que ele sabia que não era.

Galindo, p. 964:
Quais, reduzidas a sua mais simples forma recíproca, eram as ideias de Bloom a respeito das ideias de Stephen a respeito de Bloom e as ideias de Bloom a respeito das ideias de Stephen a respeito das ideias de Booom a respeito de Stephen?
Ele achava que ele achava que ele era judeu enquanto que ele sabia que ele sabia que ele sabia que ele não era.

O Argentino, p. 628:
?Quales eran, reducidos a su forma recíproca más simple, los pensamientos de Bloom sobre los pensamientos de Esteban respecto a Boom y los pensamientos de Bloom sobre los pensamientos de Esteban respecto a los pensamientos de Bloom respecto a Esteban?
Él pensaba que él pensaba que él era judío mientras que él sabía que él sabía que él sabía que no lo era.

O par de espanhóis, p. 779:
?Quales eran, reducidos a su más simple forma recíproca, los pensamientos de Bloom sobre los pensamientos de Stephen sobre Bloom y sobre los pensamientos de Stephen sobre los pensamientos de Bloom sobre Stephen?
Pensaba que él pensaba que era judío en tanto que él sabia que él sabia que él sabia que no lo era.

Pararei aqui, esperando comprar os outros milhares de exemplares das traduções em milhares de línguas vivas, mortas, a enterrar (a língua e os demais órgãos dos corpos do corpo político) e a digitalizar. Creio que para entender esta encrenca, apenas usando aqueles simbolozitos da profa. Brena do Quadro 2.6 da página 36 do vibrante livro:

BERNI, Duilio de Avila e FERNANDEZ, Brena Paula Magno (2014) Teoria dos jogos; crenças, desejos, escolhas. São Paulo: Saraiva.

E quem quiser saber mais sobre endless regression, a indução reversa, pode consultar a seção 5.2.2 do citado e vibrante livro.

DdAB
P.S.: veja só: gosto mais da Bernardina em geral, especialmente porque seus parágrafos são separadinhos por um bruta espação, mas aquela crase no "à sua" que ela  e o Houaiss botam (e até Machado de Assis o faz aqui e ali) não se vê na tradução de Galindo, o que me leva a consagrá-lo como o melhor tradução do trecho que intuo seja "What, reduced to its simplest reciprocal form...". E isto me dá novo programa de trabalho para os próximos 999 anos: usar estas cinco (e comprar a terceira em espanhol) traduções e criar um novo Ulysses em inglês! A verdade é que parece injusto que possam existir infinitos tradutores e, como tal, um número ligeiramente maior que infinito de traduções (pois algumas iriam, juro, coincidir tintim por tintim, mas vários malandrões iriam publicar uma tradução/reversão e, insatisfeitos, voltariam ao tema, fazendo outra e mais outra...) e que haja apenas um James Joyce, digo, uma versão considerada a verdadeira, a definitiva, a infinitiva.
P.S.S.: generalizando, parece impossível dizer qual a melhor tradução. Talvez com uma amostra de tamanho maior do que estes trechos destes cinco tradutores...
P.S.S.S.: como sabemos, um dia ainda vou à Espanha e lá me compro a terceira (segunda) tradução.
P.S.S.S.S.: minha santa memória diz-me que, no primeiro semestre de 1969, estudei "Introdução à Metodologia Científica" que era do primeiro semestre da faculdade com o prof. José Fraga Fachel e que lá aprendi que "termo é a expressão verbal de uma ideia". E "pensamento é a articulação feita entre ideias". Lembro? Ou lembro que lembro? Ou lembro que lembro que lembro? Ou o quê?

sábado, 24 de maio de 2014

O Melhor Amigo do Amigo do Cão


Querido diário:

Faço reflexões caninas. Começo com uma piadinha: dizem que o cão é o melhor amigo do homem, ao passo que o melhor amigo do cão é outro cachorro. Para aqueles que dizem que o lobo é o lobo do homem, este pensamento é um achado. Felizmente, vinculei-me para sempre àqueles experimentos de laboratório que sustentam que dois terços da população é altruísta e apenas um terço parte para o egoísmo...

Cão e cachorro: quem é depreciativo? Aqui postei sobre o livro El hombre que amava a los perros, do cubano Leonardo Padura. Suas traduções brasileira (o homem que amava os cachorros) e portuguesa (o homem que gostava de cães) mostra o mal-entendido. Afinal, quem seria depreciativo, o cão ou o cachorro? Parece que nenhum, ao passo que a própria palavra cachorro tem dois significados:

.a. benévolo: este amigo me é fiel como um cão.

.b. malévolo: este sem-vergonha é um cachorro.

Pois não contente com estas filosofias, dei uma lida, dias atrás, no velho S. Bernardo (1934, após Caetés e antes de Angústia) do velho Graciliano Ramos. Paulo Honório já está totalmente aclimatado à fazenda S. Bernardo, mas com uma relação pontiaguda com o vizinho Mendonça (que viria, na página 40 desta edição Record, a receber "um tiro na costela mindinha e bateu as botas ali mesmo na estrada, perto de Bom-Sucesso." Paulo Honório estava a defender-se de sina assemelhada, que vemos anunciar-se na mesma página 40:

Quando ia terminando [estudos no Aprendizado Agrícola da Satiba] ouvi pisadas em redor da casa. Levantei-me e olhei pela fresta. Lá estava um tipo dando estalos com os dedos, enganando o Tubarão [como sabemos, no Nordeste, cachorro deve ter nome de peixe para não ser picado por cobras, e na Vidas Secas temos a Baleia...]. Reparando, julguei reconhecer o freguês carrancudo que tinha entrado na sala do Mendonça. Abandonei a espreita e chamei Casimiro Lopes, que me substituiu. Deitei-me pensando em mestre Caetano e na pedreira. Marretas, alavancas, aço para broca, pólvora, estopim.
-Gente de lá, murmurou Casimiro Lopes balançando o punho da rede.
-Com certeza.

Ao ler esta passagem, voltou-me ao pensamento outra, assemelhada, de Adolfo Bioy Casares, nas Historias Fantásticas, página 66 (edição La Nación de 2005), num conto de arrepiar, em que cães tornam-se vigilantes de uma casa onde acontecem cenas de arrepiar:

La noche estaba oscura: por más que anduve no lo encontré [a Oribe]. No tengo miedo a los perros; en casa, quando era chico, siempre había algún perro, y sé tratarlos.

Com isto, lembrei-me que eu também sabia tratá-los, mas esqueci e hoje, portanto, lhes tenho medo. Como também ao ciumentão Paulo Honório e, de quebra, aos próprios contos fantásticos.

DdAB
Imagem aqui.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pobreza, Miséria e Fome: visão de Flávio Comim


Querido diário:

Este mundo da "economia social" tem lá seus recortes heterodoxos, alguma boa base de senso comum e outros disparates. Primeiro, não entendi ainda como é que as palavras "view" ou "approach" ou outras que me fogem no momento podem servir para substituir "theory" ou mesmo mais modestamente "model". Será que a heterodoxia (não esqueçamos que tenho me declarado, mesmo deixando pronomes soltos na locução verbal, neo-heterodoxo, talvez por isto mesmo) não gosta de teoria? Seria que teria que haver-se com Karl Popper, com a moderna filosofia da ciência? Seria que teria que dar mais atenção à construção de modelos?

Em compensação, eu estava deixando passar sem comentários por aqui o artigo

Sem miséria, mas com fome
Flávio Comim (Professor da Faculdade de Economia da UFRGS)
Zero Hora, 15 de maio de 2014, página 23.

que passo a comentar. Comentar ambos, o artigo e o autor. O autor é um dos mais respeitados economistas gaúchos, tendo-se envolvido, desde suas origens acadêmicas (doutorado na University of Cambridge, etc.), nas revisões da economia do bem-estar, do utilitarismo e mesmo da contabilidade social. Ele é o primeiro editor de um livro citado na Stanford Encyclopedia of Philosophy (henceforth, digo eu, SPE), no verbete sobre a abordagem das capacitações (tem dúvidas? escreva à autora Ingrid Robeyns <i.a.m.robeyns@uu.nl>). Ei-lo:

Comim, F., M. Qizilbash and S. Alkire (eds.), 2008, The Capability Approach. Concepts, Measures and Applications, Cambridge: Cambridge University Press.

Para mim, se isto não é o paraíso, certamente, é o caminho para que lá se chegue... Como se verá abaixo, um auxiliar do paraíso é ser citado na Wikipedia. E, na brasileira, procurei e faltaram-me os verbetes para "abordagem das capacitações" e "escala brasileira de insegurança alimentar". Como referi, não sou especialista nesta "economia social", o que me impediu até de receber ajuda dos que o são, pois -hehehe- não a pedi, hehehe. Para isto é que existem as enciclopédias e, quando lhes faltam verbetes, temos é que completá-los. Temos, tendes, têm. Pelo menos, poderíamos (poderíeis, poderiam) traduzir a encrenca que está em inglês, se não a da SEP, pelo menos a da Wikipedia (aqui).

Na Wikipedia:
The capability approach (also referred to as the capabilities approach) is an economic theory conceived in the 1980s as an approach to welfare economics.[1] In this approach, Amartya Sen brings together a range of ideas that were hitherto excluded from (or inadequately formulated in) traditional approaches to the economics of welfare. The core focus of the capability approach is on what individuals are able to do (i.e., capable of).

Na SPE:
The capability approach is a theoretical framework that entails two core normative claims: first, the claim that the freedom to achieve well-being is of primary moral importance, and second, that freedom to achieve well-being is to be understood in terms of people's capabilities, that is, their real opportunities to do and be what they have reason to value. The approach has been developed in a variety of more specific normative theories, such as (partial) theories of social justice or accounts of development ethics. It has also led to a new and highly interdisciplinary literature in the social sciences resulting in new statistics and social indicators, and to a new policy paradigm which is mainly used in development studies, the so-called ‘human development approach’.

This entry will be limited to an explication of the capability approach from a philosophical point of view. Readers who are interested in a discussion of the capability approach from the perspective of the social sciences are referred to Comim, Qizilbash and Alkire (eds., 2008), Deneulin (ed., 2009) and Kuklys (2005). For a brief overview of how the approach has been applied in practice, see Robeyns (2006). For a comprehensive introduction to the human development approach, see Fukuda-Parr (2003) and Fukuda-Parr and Kumar (eds., 2009).

No Planeta 23:
Os comentários ao artigo de Comim (que, não esquecerei jamais, foi um dos melhores alunos de "Introdução à Economia" (e tudo o mais) que tive em meus 31 anos de ensino. Bom professor é assim mesmo: em poucos anos, torna-se discípulo de seus alunos!).

Primeiro: ele recorda que o governo define como pobre o neguinho que ganha menos de R$ 70 por mês. Eu evoquei (minha memória) imediatamente que o dr. Castor de Andrade (aqui) nunca deu gorgeta de menos de R$ 100 (a preços dos anos 1990). Ou seja, qualquer flanelinha, garçom, ascensorista que tenha cruzado com o benévolo bicheiro uma vez por mês já estaria fora da definição governamental. O erro foi de Castor de Andrade em promover a justiça social ou foi burrada do governo em mostrar-se sem noção ao falar em R$ 70 mensais?

Segundo: a renda média dos entrevistados na pesquisa que orientou o artigo era de R$ 626 para o indivíduo e R$ 1.178 para a família. Aqui tem, diria o Gato Félix, dente de coelho. Principalmente porque não sabemos qual é o índice de Gini. E tem dente de hipopótamo, pois diz o artigo que 41% dos entrevistados recebem R$ 66 mensais no programa Bolsa Família. Parece-me que, para receber este maravilhoso estipêndio (que agudamente contrasta com os dos juízes e deputados, mesmo antes do aumento que tem-se anunciado no jornal), neguinho (ou neguinha) deve declarar-se desempregado. 41% de desempregados? Talvez um pouco menos, sei lá. Mas então o Gini seria importante para avaliarmos a variância da renda em torno dessa média de R$ 1.178 para uma família.

Terceiro: minha conclusão de 41% de desemprego está errada, pois Comim diz textualmente: "Seguindo nossas estatísticas oficiais, há poucos pobres extremos nos nossos entrevistados". Talvez aquele "nossos" da sentença queiram dizer, com ironia, os do governo (claro que, portanto, não são minhas). Mas eu não diria haver poucos pobres naquela região em qualquer caso.

Quarto: descontando algum viés amostral incidido pela pesquisa (qual era sua margem de erro? um ou dois a cada 100 pesquisas?), já tenho duas explicações para os achados da pesquisa. Primeiro, é ridículo levar a sério uma definição de pobreza de quem ganha menos do que R$ 70. Segundo, só pode ser esta escala brasileira de insegurança alimentar. Fora o que poderia ser ilustrado com a foto abaixo: será que naquela vila moram cidadãos de classe média? Vejamos o que diz a absolutamente última sentença do final do livro (exceto as 650 páginas de apêndices):

BERN I, Duilio de Avila & LAUTERT, Vladimir (2011) Mesoeconomia: lições de contabilidade social; a mensuração do esforço produtivo da sociedade. Porto Alegre: Bookman.

Dois pontos:

Não podemos esquecer que a contabilidade social incumbe‑se de medir variáveis postadas em modelos meso e macroeconômicos. Eba!, encontramos uma saída: em vez de reclamarmos das métricas econômicas, podemos pulverizar os queixumes para a modelagem em todas as áreas, inclusive os moldes de confecção de vestuário... Epa!, estamos indo muito longe, precisamos de uma forte chamada ao bom senso. Ora, disse Henri Theil (1971): “Modelos? Use‑os, mas nunca acredite neles!”. Ou seja, permitamos aos modelos ajudarem‑nos a replicar nosso bom senso, mas nunca substituí‑lo. Como epílogo, depois de tudo o que foi dito e feito, cremos ter ajudado o leitor aplicado a aguçar um sem número de intuições sobre as mais diversas áreas de espraiamento da ciência econômica, contribuindo para seu credenciamento ao exercício, em nível mais robusto e rebuscado, de seu bom senso. Por isso somos enfáticos: o modelo contradiz a teoria? Fique com a teoria. A teoria contradiz seu bom senso? Fique com o último, pois, afinal, dos últimos de cada geração é que nascerão os primeiros da seguinte.

Sigo no quarto parágrafo. Ora, este negócio de, em média, a família ganhar R$ 1178, e não ter água encanada e passar fome, só mesmo se pensarmos que houve enorme erro na educação de tantos anos que foram investidos em minha capacidade de intuição. Falei em variância, concentração da renda na vila e viés amostral. E também em problemas (?) com aquela escala de insegurança alimentar.

Quinto: preciso dizer que não defendo o governo, mas parece que Flávio Comim o ataca. Eu sinto certo mal-estar com as coisas do governo que nem sei o que dizer. E de onde se originará o mal-estar dele? É invocado com aqueles R$ 70 de definição de pobreza? Ou com o salário mínimo vigente neste país que abriga, no estilo de moradia abaixo retratado, uma pilha enorme de gente decente, bichos e parasitas. Por isto mesmo, fico sem palavras ao ler, lá dentro do penúltimo parágrafo:

Mas o que  isso [essas coisas e mais que as que não citei] significa? Significa que a política pública contra a pobreza extrema, focada em valores monetários, constrói uma política sem lastro conceitual, na qual pessoas consideradas 'sem miséria' pelas estatísticas oficiais podem na prática ainda viver sob a pressão de conseguir o alimento no seu dia a dia.

Sexto: de repente o artigo tornou-se uma espécie de diatribe contra a ideia de "dar dinheiro para os pobres". E isto me parece realmente o fim-da-picada. Aquilo de "uma política sem lastro conceitual" também me parece uma arremetida contra o abutre, deixando as correntes a tolher os movimentos de Prometeu (aqui). Pois eu diria o seguinte: meu lastro conceitual (como o é o de todos os neo-heterodoxos) é a teoria que explica a escolha do consumidor que referi diagonalmente acima (preços e renda).

Se forem mantidas constantes todas as demais condições, no caso,

.a. o nível de educação da negadinha,
.b. a qualidade do esgoto de suas casas,
.c.  os preços dos alimentos nos locais em que eles costumam comprar,
.d. a relação entre traficantes e fornecedores de serviços sociais,
.e. a futura proibição do tráfego de carroças de tração humana ou animal,
.f. e tudo, tudo, tudo o que mais seja,

então, ao elevar-se a bolsa família para, digamos, R$ 1.000, a negadinha iria comprar mais comida. Se fosse criada a renda básica de cidadania de, digamos, R$ 5.000, então as carroças de cavalos chumbregas e carrinhos de papeleiros seriam pulverizados das ruas da cidade. E seus condutores passariam a fazer rolezinhos pelos shopping centers, restaurantes, consultórios médicos, salões de barbeiros, alfaiatarias, de toda a região metropolitana, não é mesmo?

Notate bene: Estes R$ 5.000 nem precisavam ser dados in cash, bastando que o país começasse a trilhar (pois nunca trilhou antes) o caminho da decência, com o governo cobrando imposto de renda (progressivo) e gastando na provisão de bens públicos e meritórios (regressivos).

DdAB
P.S. naturalmente falo do "capability approach" (aqui) e, de quebra, na "resource based view" (aqui).
P.S.S. Aurelião, na quarta acepção, fala em "opiniões sistematizadas", o que me parece abstrato o suficiente para abarcar qualquer tentativa de explicação para o que quer que seja. Por exemplo, minha teoria é que o Brasil vencerá a Copa do Mundo. E outra, minha teoria é que esta cerejeira que vejo da janela de meu palácio dará aeronaves na próxima primavera. E outra: se o preço cai, a gente compra mais. E ainda outra: mesmo que o preço permaneça constante, se eu ficar mais rico, comprarei mais daquela encrenca que agora me parecerá mais barata.
P.S.S.S.: a foto lá de cima é da Wikipedia, no verbete Poverty (aqui), com habitações da Indonésia. E (aqui) na brasileira. A brasileira também ilustra a pobreza com fotos de favelas da Indonésia, Índia. E tem algo sobre Paris. Nada sobre Porto Alegre, Brasília ou Sampa. Segue-se uma imagenzinha da pobreza em Porto Alegre, vista por todos nós que vamos ver os jogos do Grêmio ou simplesmente aqueles que desejam dar o pira daqui (aqui). E aqui:
Não sei se é bairrismo (avesso ao avesso), mas a foto de Jacarta é mais bonita! Meu punctum era a poça dágua até que o vim a substituir por um ser arqueado, mais próximo da primeira casinha branca e a poça proper.

P.S.S.S. Aos 1/jun/2014, escrevo: Ver comentário de Flávio Comim que o programa reproduz ali adiante. Ele anuncia uma postagem inteira devotada a discutir minhas razões:
http://liesbigliesstatisticscomim.blogspot.com.br/2014/05/sem-miseria-mas-com-pobreza-uma.html

Tá aqui o artigo aqui anunciado:
http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2014/05/15/artigo-sem-miseria-mas-com-fome/comment-page-1/?topo=13%2C1%2C1%2C%2C%2C13. Diz aí, Comim:

Em uma pesquisa inédita feita por professores e alunos dos departamentos de Economia da UFRGS e da PUC e do Instituto de Psicologia da UFRGS, em parceria com o Diário Gaúcho, foram entrevistadas 555 pessoas vivendo em bairros em situação de vulnerabilidade social na cidade de Porto Alegre. Dessas, 63% foram mulheres, na média com 40 anos e seis anos de estudo.
No Brasil, o governo define como pobre extremo quem tem menos de R$ 70 por mês. Assim, olhando apenas para a renda média das pessoas entrevistadas, de R$ 626, ou para a renda média de suas famílias, de R$ 1.178, não acharíamos que elas vivem com dificuldades essenciais, mesmo levando em conta que 41% das pessoas entrevistadas recebem o Bolsa Família (valor médio de R$ 66). Seguindo nossas estatísticas oficiais, há poucos pobres extremos nos nossos entrevistados.
No entanto, quando olhamos para como as pessoas vivem, entramos em outra realidade. Quase metade das pessoas entrevistadas vive em moradias que não são de alvenaria acabada, quase dois em 10 não têm água da rede pública e seis em 10 trabalham sem carteira assinada. Ao aplicarmos a Ebia (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), verificamos que quase oito em 10 pessoas sofrem algum tipo de insegurança alimentar, um número surpreendente (quase quatro em 10) tem insegurança alimentar do tipo grave. Mas o que isso significa? Significa que a política pública contra a pobreza extrema, focada em valores monetários, constrói uma política sem lastro conceitual, na qual pessoas consideradas “sem miséria” pelas estatísticas oficiais podem na prática ainda viver sobre a pressão de conseguir o alimento no seu dia a dia.
Foi perguntado às pessoas o que elas fariam se tivessem R$ 70 a mais ou a menos por mês. A resposta? Comprariam mais ou menos alimentos. Assim, o mundo da pobreza extrema nas regiões vulneráveis de Porto Alegre parece ser ainda o mundo onde o alimento diário é incerto. Precisamos ter estatísticas que reflitam concretamente as dificuldades por que as pessoas passam, sob pena de vivermos em um país “sem miséria” no qual as pessoas ainda passem fome.

http://liesbigliesstatisticscomim.blogspot.com.br/2014/05/sem-miseria-mas-com-pobreza-uma.html

 P.S.S.S. Mais um adendo, desta feita, inserido em 19/maio/2015: achei por bem reproduzir aqui o texto do antigo blog de Flávio Comim (aqui). Aquele 30 de maio dele é de 2014.

Nunca gostei tanto de críticas que recebi quando do meu querido professor Duílio de Avila Bêrni, que em seu blog Planeta 23 (http://19duilio47.blogspot.com.br/2014/05/pobreza-miseria-e-fome.html) comentou o artigo que escrevi em pesquisa realizada com meus queridos colegas Sabino Porto, Izete Bagolin e James Ferreira para a Zero Hora (http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2014/05/15/artigo-sem-miseria-mas-com-fome/comment-page-1/?topo=13%2C1%2C1%2C%2C%2C13).

Não podia simplesmente deixar uma nota de agradecimento no blog do Professor Duílio pois ele foi o professor que mais me influenciou durante a minha graduação. Lembro muito que gostava demais das aulas do Otávio Conceição, das palestras do Pedro Fonseca, assim como das aulas de tantos outros. Mas foi o Duílio que inspirou não somente em mim, mas em toda nossa turma, uma postura e uma ética de competência na economia, uma visão pluralista (foi com ele que eu aprendi o significado de 'marginal' em economia e também o de 'mais valia', aprendendo a respeitar boas teorias e a diversidade de opiniões). Ele era um professor de economia muito exigente e ir bem na matéria dele fazia qualquer um amar a disciplina -que foi o que aconteceu comigo. Devo sim muito ao Duílio, assim como devo a Juan Moldau e ao Eduardo Giannetti (meus professores da época de USP) e a Gay Meeks, Geoff Harcourt e a Amartya Sen (mestres da época de Cambridge) grande parte do meu entendimento em economia. (Claro, isso pode não significar muito, eles podem ter ensinado e eu posso não ter aprendido bem!) Assim, com todo o respeito e consideração do mundo, tento responder a algumas críticas que ele fez ao artigo.

Por que falamos em 'abordagem' da capacitação e não em 'teoria' ou 'modelo'? Bom, o prof Amartya Sen, que criou o termo, fala em 'abordagem' pois ela está estruturada em torno de princípios que podem ser aplicados e combinados de modo diferente no mundo real, pois este é complexo. Uma teoria por necessidade precisa 'congelar' o mundo real e nos ajuda a entender as situações que analisamos por semelhança (ou por capacidade preditiva, como argumentaria Friedman, 1953). A ideia de abordagem é que munido de seus instrumentos podemos construir diferentes teorias adaptadas a nossos contextos.

O prof Duílio, pergunta "se foi burrada do governo em mostrar-se sem noção ao falar em R$70 reais"? Eu não diria 'sem noção'. Na verdade o governo sabia muito bem o que queria. Ao diminuir a linha de pobreza extrema de aproximadamente 1/4 do salário mínimo para 1/8 o governo procurou ter uma estratégia que incluísse mais pessoas e ficasse em torno do mesmo custo do programa Bolsa Família, ao redor de 0.5% do PIB. Utilizou para isso um arremedo de conceito, que chamou de 'pobreza político-administrativa', ou seja, a ideia de estipular uma meta que poderia honrar, mas sem base teórica.

Na pesquisa que fizemos não atacamos, como o Prof Duílio sugere, o governo. Na verdade nem o governo nem a política de transferência condicionada do governo. O que atacamos foi a medida utilizada. Atacamos um conceito de pobreza extrema que nem reflete parâmetros de pobreza absoluta nem pobreza relativa. Isso é o que queremos dizer quando afirmamos que não há 'lastro conceitual'. O problema é que a pobreza é antes de tudo um conceito normativo, sobre uma condição que consideramos inaceitável. Como tal, deve refletir um estado de 'mal-estar' social ou individual. Mas os R$ 70 não refletem isso. De fato, não refletem nada.

O que fizemos não foi um estudo ambicioso. Entrevistamos, em parceria com o Diário Gaúcho, pessoas que vivem em algumas áreas muito vulneráveis de Porto Alegre. Ao aplicar a EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar) apenas queríamos ver se as pessoas que tem renda acima dessa linha fictícia de R$70 passam necessidades ou não. E vimos que sim, muito.

Nossa base teórica é a abordagem das capacitações do prof Amartya Sen que tem como um de seus pilares o argumento de que "recursos são indicadores imperfeitos de bem-estar". Vemos assim que o que importa são os fins e não apenas os meios usados para o desenvolvimento. Pode bem ser que ao ter mais dinheiro, como sugere o prof Duílio, as pessoas comprem mais comida, mas também pode ser que comprem menos, se usarem o dinheiro para outras coisas, pois vários outros fatores afetam a conversão do dinheiro em nutrição, saúde, educação, etc.

Testamos nossos resultados estatisticamente. Apenas aceitamos o que era econometricamente robusto. Não conhecemos bem a estrutura dos erros para imaginar que deixamos nenhuma variável omitida que pudesse viesar as estimativas. As variâncias são baixas. Mas vamos calcular o índice de Gini, da distribuição da pobreza entre os pobres, como sugerido por ele, obrigado. Não tivemos a pretensão de fazer inferências de nosso estudo com 555 pessoas para toda a cidade, mesmo que isso fosse possível. Preferimos apenas chamar atenção para o problema de que entrevistamos pessoas que são oficialmente classificadas 'sem miséria' mas que passam fome.

Grande mestre Duílio, ainda temos muito que aprender, mas queremos apenas lutar por um país onde a realidade seja entendida como ela é. Não somos contra o governo, nem contra ninguém. Queremos apenas um país onde os mais pobres não vivam tão indignamente e sofram tantas humilhações. Obrigado pelas suas palavras generosas e também pelas suas palavras duras.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A Copa do Mundo: sinais animadores

Querido diário:

No dia 18, fiz uma postagem evocando poemas de Carlos Drummond de Andrade elogiosos quanto à Copa do Mundo. E contrastei com algumas visões hoje correntes no Brasil que desejam evitar o uso político de uma vitória da seleção auri-verde. O futebol, como sabemos, não me atrai tanto quanto atraem-me, por exemplo, o pirão ou as meias de algodão. Mas certamente parece-me mais interessante espairecermos sob uma câmera focando os rapazes esperneando sobre o gramado do que vermos assaltos filmados por câmeras de segurança postadas país afora, país que jogou fora o conceito de sistema judiciário eficiente. Paga bem aos juízes e delegados e leva pouco!

Ok. Em compensação, Lelé Guerra, uma sorridente garota (que Zero Hora agora coloca a foto dos autores dos artigos assinados, escreveu "A Copa do Mundo é Nossa", publicado na p. 27 no dia 19 de maio que passou, ou seja, um diazinho depois de minha postagem e, juro, independente dela.  Seu título, mais que nada, evocou-me a canção que se ouve do YouTube ao clicar ali em cima. É a taça do mundo, é a Copa Jules Rimet, que foi roubada. Não falei que o sistema judiciário é une vraie horreur?

Que diz Lelé Guerra? Que é a 20a. copa do mundo. E eu lembro que, li há pouco, o Brasil é o único país que participou de todas: todas, todinhas, as 20. Não é pouco para que possamos orgulhar-nos de ser o país do futebol. Mas não seria melhor sermos o país, digamos, da mandioca, da tecnologia desta maravilhosa cultura que alimenta gente, bicho e máquinas? Seria, claro, mas por que também não retermos o título de jogadores de bola? Apoio o aboio, ou melhor, apóio o coro dos entusiastas com a copa do mundo.

Indaga-nos retoricamente Lelé Guerra:

Será que realmente a Copa é culpada pela falta de investimento em hospitais e escolas? O dinheiro gasto poderia ser investido nesses setores. Poderia mesmo? Se a Copa fosse em qualquer outro país do mundo, as coisas seriam diferentes por aqui? 

Esse mantra do uso alternativo dos recursos erguido em estandarte por uma turma de manifestantes é realmente idiota, pois o uso que foi dado a parte deles, é certo, foi o superfaturamento em obras. E, se não fosse a copa, o roubo seguiria, pois o problema é que não há justiça, não há lei, não há lei do orçamento.

Estou com Lelé: vamos dar um olé!

DdAB
P.S. Ontem, um visitante a minha casa (dono de automóvel) teve o carro roubado enquanto por aqui charlávamos. Tem justiça? Ele nem foi à polícia, dizendo que não desejava perder tempo, pois todos sabemos que o Menino Deus é um bairro dominado por assaltantes e outros tipos de políticos.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Se a Boitempo Lesse Meu Blog...


Querido diário:

Aqui já falei sobre

HARVEY, David (2013) Para entender o capital; Livro I. São Paulo: Boitempo. Tradução de Rubens Enderle [o mesmo tradutor da nova versão de O Capital].

E hoje faço uma série de sugestões sobre erros ou inconveniências do trabalho do sr. Rubens Enderle e dos esforçados trabalhadores e dirigentes da própria Boitempo. Com efeito, o que segue são sugestões (que alcançam O Capital, que não li a edição da Boitempo, mas lerei em breve) que centram-se aqui mesmo. Refiro-me ao "mais valor", uma tradução inovadora, mas dificilmente justificável, dada a tradição em torno de mais-valia. Indago-me o que levaria um tradutor de uma obra já consagrada em português selecionar um neologismo de sua lavra. Neologismo? Claro, se olharmos com cuidado a imagem acima, veremos que o afamado VOLP (vocabulário ortográfico da língua portuguesa) responde a minha pergunta: tem aí "mais-valor"? Ao que ele replica: "Nenhuma palavra encontrada na pesquisa". É ou não é um neologismo do sr. Rubens?

Dito isto, faço o mais exaltado elogio ao trabalho da tradução. Suas soluções mostram-se elegantíssimas e as notas de rodapé poderiam servir de base a um ensaio. É a melhor tradução que já li em português, do nível de Ben Fowkes, da Pelican. Mas que mais-valor é uma casca grossíssima, lá isto insofismavelmente é. Mais-valor, claro, tem muito menos valor do que mais-valia (que tem no VOLP)!

Registro alguns reparos (sabendo que, infelizmente, minhas observações não foi constante, nem talvez exaustiva). É possível que partes delas já tenham sido detectadas por outros leitores diligentes. Para garantir que a duplicação é melhor do que a omissão, listo-as a seguir sempre com relação a meu Pelican:

.a. traduzir surplus por mais-valor rompe com a tradição da literatura de economia política em português. O autor respeitou a "acumulação primitiva", ainda que fale episodicamente (p.239) em acumulação originária (ver Sweezy no clássico "Teoria do Desenvolvimento Capitalista"). Na p.92, torna-se claro que é surplus value é um termo técnico, não se baseia em senso-comum da mesma forma que excedente. A grafia D - M - D + deltaD é complicante, por isto o D' de Marx é mais didático e tem por trás a tradição matemática de representar por um ' (til) a primeira derivada de uma função e até falar em deltaM pode sempre substituir por D' - D ou se quiser por d ponto. E escrever D-M deixa a notação pesada e desnecessariamente complicada, pois deveria ser D - M.

p. 26: pela clareza, trocar a vírgula por "aparece", repetindo o termo recém usado
p.26: coisa - thing : o melhor é bem ou serviço objeto? serviço é objeto? (coisa está na tradução de Rômulo de Almeida aos Princípios de Economia, de Marshall na metade do século XX)
p. 27 : prescindindo - abstraindo
p. 32 pode acrescentar "e do trabalho abstrato"?
p. 38: "experiência" não é Smith e os alfinetes?
p. 43 - eventualmente - peca no falso cognato, p. 77: é "finalmente"
p. 44 - escravagista - termo já condenado, ainda que esteja no VOLP
p. 46 : para - rumo. E o Zur Kritik é Para? ou Rumo?
p. 70 - antiética - antitética (e tem outra vez o mesmo erro)
p. 77 - Pluto - Plutão (Pluto, para nós, é o cachorro do Pato Donald, não é?)
p. 82 sofre - experimenta (este é um maneirismo do velho prof. Alfredo Steinbruck, que dizia que quem sofre é o torcedor do Grêmio...)
p. 84 - o tradutor trocou o David Harvey pela segunda edição em alemão. E o Pelican de onde é?
p. 91 - whig - pedante
p. 106 têm - tem (o velho erro do Word que não sei como é que vai parar em um editor profissional)
p. 110 - despela - esfola
p. 122 tem um por cada - corrige-se com "cada mercadoria recebeu do capitalista o devido valor"
p. 129 é destruir mesmo? não seria melhor anular? mas não aniquilar, que isto não combina com o "recusando trabalhar com eles."
p. 130 tem mais-valia (mais  valor!) como mv, quando a praxe é m (mv até confunde com a multiplicação de m por v, sem conteúdo conceitual relevante, por exemplo, se v é medido em horas de trabalho para um trabalhador, m x v é a massa de mais valia. Aliás, na p. 164 passa a usar a expressão m/v, esquecendo que fizera antes mv por m...
p. 139 na citação tem a repetição "mais amplo mais amplo" que não me parece intencional
p. 147 na citação, depois de "uma uniformidade tão militar", tem uma vírgula.
p. 148: Eckart não tem h?
p. 158 tem um Eward Heath para Edward Heath, o ministro britânico dos anos 1970
p. 159 fala em taxa de mais-valor, quando na p. 131 definira como taxa de exploração (aliás, mais usual). Também fala em uma equação que pode ser um erro do original americano: massa de mais-valor sendo dada pela taxa de mais-valor multiplicada pelo número de trabalhadores empregados; neste caso, m = (mv/v) x L, o que só é verdade se v e L forem medidos na mesma unidade, ou horas de trabalho. Tá confuso.
p. 164: fala em "problema de parasitismo" (free-rider problem), concluindo o terceiro parágrafo com "Qual é o incentivo individual para fazê-lo?" A literatura contemporânea (teoria dos jogos, teoria da escolha pública) fala em "problema do incentivo" e não em "problema de parasitismo". Se é preciso traduzir "free-rider", o que se faz com frequência, fala-se em "caroneiro", mesmo ou "carona". Os economistas de outra geração falavam (sem referir-se a esta literatura) como sinecuristas aos que ganhavam os lobistas e outros detentores de benesses públicas. Também se fala em alguns segmentos de parasitismo, mas, cá entre nós...
p. 167 na citação do final da página fala em "novo método de produção", mas depois, em "novo modo de produção", usando a expressão modo de produção de modo equívoco.
p. 183, na citação fala em estados de La Plata: não seria "estados do Prata", ou do rio da Prata, ou ainda a Argentina e o Uruguay?
p. 185 tem um eco: "Eles estão tão" que poderia ser "Estão eles tão" ou Eles encontram-se tão"
p. 204: a expressão "muito pouco" é uma contradição em termos... e no final tem "reduzidoenquanto", sem espaço
p. 224: na citação "É característico...", fala em "mistérios", quando devia falar em "ofício" ou "profissão" ou "ocupação". 
p. 241: tem um "estranhado" por "alienado", que é mais usual na literatura brasileira
p. 247: fala em "miserável e o capitalista", quando "miser" (em inglês) é "avarento" e não miserável. Caiu o tradutor em outro falso cognato.
p. 257 fala em "bens e meios de produção", quando me parece deveria dizer "bens de subsistência e meios de produção"
p. 266: tem trades unions, quando deveria ser trade unions
p. 267 tem um "extratos", quando deveria ser "estratos". E também tem uma vírgula errada: "integral ou que,". E também fala em "trabalhadores desmotivados", quando hoje no Brasil se fala em "trabalhadores desalentados"
p. 295: fala em "bens públicos"; será que é assim em inglês? Public good não é um termo que serve para educação, no jargão econômico atual, embora seja até mais para esgoto do que para água. E educação é um bem semi-público ou também um "bem de mérito", como o é a saúde (e não falo da saúde pública, cuja promoção volta a ser um 'bem público'.
p. 308: fala  em "jornal"; se é assim em inglês, no português deve aparecer como "revista".

Espero que esta listinha não desmotive o leitor do blog que ainda não comprou o livro de David Harvey a fazê-lo. Stanislaw Ponte Preta dizia que, quando duas coristas conseguissem levantar a perna ao mesmo tempo, nasceria o moderno balé brasileiro. Não sei se já o fez. Eu digo que, quando surgir uma editora realmente profissional no Brasil, deveremos festejar efusivamente. Se bem que, se puder, que compre em inglês! Pelo folclore: há anos adquiri em português o livro "Sexo, drogas e a economia", aqui, de Diane Coyle, com tradução de fazer chorar assinada por Aulyde Soares Rodrigues (ver minha diatribe aqui). Por exemplo, mesmo não tendo lido o original, juro que este falava em "English speakers", o que gerou em português um estupefaciente "oradores ingleses". Algumas destas do sr. Rubens até que lembram este desmazelo! E o livro de Diane Coyle é que não merecia estas injustiças, pois é bastante interessante. Pudera, a autora é tanto PhD em economia quanto jornalista, o que a faz escrever bem e certo!

DdAB
Revisões acentuadas às 10h43min de 20/maio/2014.

domingo, 18 de maio de 2014

Copa do Mundo de Drummond


Querido diário:

Fico abismado ao perceber que tem muita gente que acha que a Copa do Mundo deve levar o Brasil à derrota. Que acha que o governo errou ao promover a copa do mundo no Brasil, que o governo é ladrão. Ou melhor, o governo é ladrão e incompetente, mas tem muito mais gente que acha que devemos ganhar a taça. O que mais me deixa abismado é que muita gente que é contra o governo não se dá conta de que estamos falando do governo, o mesmo, o mesmíssimo desde, desde que comecei a contar, ou seja, 1947, Dutra, Getúlio, Café Filho, e por aí vai. Sem ilusões, eu já denunciava há quase quatro anos a chapa Serra-Dilma, prevendo que nenhum deles, ao chegar ao poder, iria promover as verdadeiras reformas necessárias pela brasilidade.

Em 1970, era assim, era pior, havia ditadura. Em meu livro de poesias completas de Carlos Drummond de Andrade, nas páginas 673 a 675, tem um poema chamado "Copa do Mundo de 70" e a primeira parte (I/Meu coração no México) tem a data de 9 de junho de 1970. E originalmente foi publicada no livro Versiprosa. Como também o foi o que segue-lhe o verso final.

COPA DO MUNDO DE 70
I / MEU CORAÇÃO NO MÉXICO
Meu coração não joga nem conhece
as artes de jogar. Bate distante
da bola nos estádios, que alucina
o torcedor, escravo de seu clube.
Vive comigo, e em mim, os meus cuidados.
Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:
Que é de meu coração? Está no México,
voou certeiro, sem me consultar,
instalou-se, discreto, num cantinho
qualquer, entre bandeiras tremulantes,
microfones, charangas, ovações,
e de repente, sem que eu mesmo saiba
como ficou assim, ele se exalta
e vira coração de torcedor,
torce, retorce e se distorce todo,
grita: Brasil! Com fúria e com amor.

II / MOMENTO FELIZ
Com o arremesso das feras
e o cálculo das formigas
a Seleção avança
negaceia
recua
envolve.
É longe e em mim.
Sou o estádio de Jalisco, triturado
de chuteiras, a grama sofredora
a bola mosqueada e caprichosa.
Assistir? Não assisto. Estou jogando.
No baralho de gestos, na maranha
na contusão da coxa
na dor do gol perdido
na volta do relógio e na linha de sombra
que vai crescendo e esse tento não vem
ou vem mas é contrário... e se renova
em lesta lesma de replay.
Eu não merecia ser varado
por esse tiro frouxo sem destino.
Meus onze atletas
são onze meninos fustigados
por um deus fútil que comanda a sorte.
É preciso lutar contra o deus fútil,
fazer tudo de novo: formiguinha
rasgando seu caminho na espessura
do cimento do muro.

Então crescem os homens. Cada um
é toda a luta, sério. E é todo arte.
Uma geometria astuciosa
aérea, musical, de corpos sábios
a se entenderem, membros polifônicos
de um corpo só, belo e suado. Rio,
rio de dor feliz, recompensada
com Tostão a criar e Jair terminando
a fecunda jogada.

E gooooooooool na garganta florida
rouca exausta, gol no peito meu aberto
gol na minha rua nos terraços
nos bares nas bandeiras nos morteiros
gol
na girandolarrugem das girândolas gol
na chuva de papeizinhos celebrando
por conta própria no ar: cada papel,
riso de dança distribuído
pelo país inteiro em festa de abraçar
e beijar e cantar
é gol legal é gol natal é gol de mel e sol.

Ninguém me prende mais, jogo por mil
jogo em Pele o sempre rei republicano
o povo feito atleta na poesia
do jogo mágico.
Sou Rivelino, a lâmina do nome
cobrando, fina, a falta.
Sou Clodoaldo rima de Everaldo.
Sou Brito e sua viva cabeçada,
com Gérson e Piazza me acrescento
de forças novas. Com orgulho certo
me faço capitão Carlos Alberto.
Félix, defendo e abarco
em meu abraço a bola e salvo o arco.

Como foi que esquentou assim o jogo?
Que energias dobradas afloraram
do banco de reservas interiores?
Um rio passa em mim ou sou o mar atlântico
Passando pela cancha e se espraiando
por toda a minha gente reunida
num só vídeo, infinito, num ser único?

De repente o Brasil ficou unido
contente de existir, trocando a morte
o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste
por um momento puro de grandeza
e afirmação no esporte.
Vencer com honra e graça
com beleza e humildade
é ser maduro e merecer a vida,
ato de criação, ato de amor.
A Zagalo, zagal prudente,
e a seus homens de campo e bastidor
fica devendo a minha gente
este minuto de felicidade.

Pois bem: acabou-se o poema da Copa do Mundo de 1970. Por nostalgia, publico mais dois. Então o segundo é "A Seleção", do mesmo livro Versiprosa, de minha veríssima Poesia Completa, localizando-se às 606-607. E aqui consta a data de 3 de abril de 1966.

A SELEÇÃO
Vai Rildo, não vai Amarildo?
Vão Pelé e, que bom, Mané,
O menino gaúcho Alcino,
perdão: Alcindo e mais D
ino, 
Altair, rima de Oldair,
ecoando na ponta: Ivair,
e na quadra do gol: Valdir.
Fábio, o que não poder faltar,
e também não pode Gilmar.
como, entre os santos dos santos,
o patriarca Djalma Santos,
sem esquecer o Djalma Dias
e, entre mil e uma noites, Dias.
Mas se a Comissão não se zanga,
quero ver, em Britânia, Manga.
É canhoto, e daí? Fefeu
quando chuta, nunca perdeu.
A chance que lhe foi roubada,
desta vez a tenha Parada.
Paraná, invicto guerreiro
para guerrear, como aqui, lá.
Olhando pro chão, Jairzinho
e como joga legalzinho.
Não abro mão de Nado e Zito,
nem fique o Brito por não-dito.
Ditão, é claro, por que não?
e o mineiríssimo Tostão,
o grande Silva, corintiana
glória e mais o áspero Fontana,
Dudu, Edu... e vou juntando
bons nomes ao nome de Orlando,
para chegar até Bellini
em cujas mãos ataca tine.
Célio, Servílio: suaves eles
já completados por Fidelis.

Edson, Deníson, Murilo,
cada um com seu próprio estilo.
Um lugar para Paulo Henrique
enquanto digo a Flávio: fique!
Com Paulo Borges bem na ponta
eu conto, e sei que você conta.
Na lateral, Carlos Alberto
estou certo que vai dar certo.
Acham tampinha Ubirajara?
Valor na se mede por vara.
Até parece de encomenda:
Leônidas, nome que é legenda.
E se Gérson do Botafogo
entra em campo, ganha o jogo.
Não podia esquecer o Lima
e o seu chute de muita estima.
Com tudo isso e mais Rinaldo
e o canarinho de Ziraldo,
quarenta e seis, se conto bem
- um time igual eu nunca vi
em Europa, França e Belém -
que barbada seria o Tri,
hein?


DdAB
P.S. Aqui acabam os três poemas, antes de meu nome, colocado por estas alturas apenas para deixar claro -dialeticamente- que os textos são de Carlos Drummond de Andrade.
P.S.S. A imagem veio daqui.
P.S.S.S. Os textos dos poemas retirei-os daqui, mas inseri pequenas edições, para deixar totalmente de acordo com o livro da Editora Nova Aguilar de 2003. Conferi compulsivamente aquele "gooooooooool" que tem mesmo dez vezes a letra "o". Quem olhar este site verá que praticamente todos os brasileiros já fizeram poemas ou canções falando em futebol, especificamente há milhões também fizeram odes à seleção brasileira.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Como Ficar Rico sem Política


Querido diário:

Parece que é impossível ficar rico sem entrar para a política. Vejamos. Sabemos, seguindo William Baumol, que há dois tipos de talentos empreendedores que devem ser recompensados no mercado com o que Joseph Alois Schumpeter chamava (no livro em inglês que li) de spectacular awards. Baumol falava em talentos produtivos (e.g., Henry Ford, Xuxa) e talentos destrutivos (Fernandinho Beira-Mar, todos os políticos), mas também falava em talentos para rent-seeking, ou ganhos improdutivos, ou ainda, veniagas ou tranquibérnias. Então: em qual tipo está o político? O ladrão certamente na apropriação do tipo veniaga. E alguns mais neutros apenas na reconversão digamos de recursos que poderiam ir para a educação e que eles fazem parar precisamente em suas fazendas, apartamentos, vilas, fábricas, bancos.

A página 27 de Zero Hora de hoje mostra uma tabelinha com o patrimônio das 15 famílias mais ricas do Brasil, de acordo com a revista americana Forbes. Quando vemos que há praticamente apenas famílias de donos da imprensa, de bancos e de construtoras, ficamos estupefatos: é ou não é o governo e suas conexões? A Rede Globo da família Marinho é ou não é o bibelô dos militares? Tem aquele Batista da JBS que me parece ser o empresário schumpeteriano da temporada, inserido na produção de bois, carne e uso dos matagais dos pantanais.

Que posso dizer sobre as chances de alguém ficar rico sem entrar na política, ainda que seja na condição de esbirro? Digo: p = 0, onde p é a probabilidade.
DdAB
P.S.: o prof. Adalmir Marquetti, presidente da FEE, é que chamou-me a atenção para esta regularidade estatística de que os maiores são mesmo imprensa, bancos e construtoras! Afe.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Hai-Kai n. 61


Querido diário:

O hai-kai n. 61 de Millôr é:

MARAVILHAS SEM PAR
A TELEVISÃO
SÓ FALTA NÃO FALAR.

E o Planeta 23:

Só falta calar
o rádio-repórter
sem censurar.

DdAB
P.S. fico a indagar-me o que terá querido dizer o autor do segundo hai-kai: o repórter reportava fatos inconvenientes, mas - ainda assim - despidos da necessidade da censura? Querer-se-ia autocensura? Que se quereria? Que querer-se-ia?
P.S.S.: enfim, uma imagem autêntica de Millôr. Nâo é a ilustração do hai-kai 61, mas tem uma tevezinha lá encima (e aqui).

terça-feira, 13 de maio de 2014

O Livro de Minha Vida

Querido blog:

No tempo antigo, as pessoas pensavam na finitude da vida, pensavam que a morte era o final. Exceto, claro, os bilhões de místicos, de religiosos, que achavam que haveria um sideral encontro com seu criador, Deus, sendo, mesmo, religião, a expressão de re-ligar, voltar a conectar-se. Disto não é fácil entender, mas podemos a perceber que Severiana costumava contar que ouvira de sua tia os dizeres: "quero fechar com chave de ouro o livro de minha vida". Literatices da tia? Panteísmo de Severiana? 

Por como que uma conjunção de pensamentos siderais, Severino divagou, no outro dia, pensando: "Vivi, viverei e finalmente vou me reintegrar à natureza. Como a mãe da personagem interpretada por Anthony Quinn, que seria comido pelos ursos ou vermes. Talvez sobre algo, talvez tenha ficado algo registrado nos neutrinos que serão resgatados, reorganizados e colocando-me novamente em condições de escolher natureza autônoma ou natureza integrada."

Severiana disse apenas: "Se me trouxeres outro bouquet destes, tudo ficará mais que perfeito". Severiano anuiu. Eles passavam a maior parte do tempo distanciados por enormes percursos, mas dispunham em cada nave solitária de sósias do/a outro/a, tripulações de androides homens e mulheres e um "beta", como diziam, que eram suas versões maquinais.

DdAB

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Propaganda: dois casos escabrosos

Querido diário:

Minha sina é ler Zero Hora. Servidão voluntária, se quisermos romantizar. Leio porque a escolhi e a escolhi, pois reconheço apenas lixo em matéria de imprensa no Brasil e, sem enorme exagero, até no mundo. Sou saudoso do velho L'Humanité, se bem entendi o que por aquelas bandas encontrei, hebdomadariamente, se tanto.

Então torna-se claro que as propagandas a que me refiro estão nas páginas 23 e 35. Torna-se? Entorna?

Na página 23, há uma propaganda convencional da loja Gang: "Não vamos torcer pelo Brasil. Estamos mais interessados em torcer por você: brasileiro." Este negócio de que não vamos torcer pelo Brasil levou-me a pensar: eles estão certamente falando da copa do mundo. É uma maldade omitir-se de torcer pelo Brasil do futebol, pois esta é a verdadeira paixão nacional, um vício, pois o ludopédio verdadeiro está abandonado por um vício que é ver aquela turma esperneando ou dando cabeçadas vigorosas em benefício do gol.

Gol, foi gol do negão, foi gol: é a versão brasileira do velho Johnny B. Goode. Mas que os gols do negão celebram-se, como o foram os de Fio Maravilha, lá isto se fazem celebrações, cerebrações. Então: cá entre nós, eu - que defendo a imediata extinção dos estados nacionais mundiais e propugno pela instalação do governo mundial - também não deveria torcer pelo Brasil. Mas ledo engano seria pensar-se deste modo para entender minhas preocupações. Em outras palavras, sou a favor do povo brasileiro e, por isto mesmo, sou a favor da vitória arrasadora do Brasil na Copa do Mundo. Eu, que também amo a Argentina e acho uma baixaria a turma que a/os odeia, queria um 5 x 1 na final contra os amados hermanos. E isto nada tem a ver com guerra: é futebol, é a alegria do povo. E a tristeza de nossos antagonistas em jogos de soma zero.

Mas a Loja Gang, que mais extemporânea defesa do povo brasileiro é esta? Isto não é tudo com relação a esta propaganda. Seguiu-se na página 27 (coluna +Economia):

Marcar presença durante a Copa do Mundo, a Gang levanta a bandeira verde e amarela de maneira diferente e lança hoje uma campanha a favor dos brasileiros. A rede arma a torcida para os 200 milhões de brasileiros que merecem aplausos por fazer do país um vencedor no que realmente importa. É nesse clima que as peças da Agência Bistrô exaltam a realidade e os sentimento dos jovens pelo social e por grandes renovações.

Então se torna mais claro: o ponto de vista não é da Gang mas da Bistrô. Quem é a Bistrô? Aqui. O tom poderia parecer de esquerda festiva ou de alienados. Mas parece, pelo jeito, ser mesmo a propaganda uma grande direita festivamente rançosa. Falar mal da copa do mundo? Nem morta. Quero é a vitória. O Brasil não é o futebol, claro, mas o futebol é a alegria do povo.

Acabou? Não, pois temos a página 35. Temos u'a (!) matéria paga da Hollmann, empresa fundada em 1953, ano prévio à vitória da Alemanha (seleção da...) na copa do mundo realizada naquele país. Por que a Hollmann está na ribalta? Não foi tanto pelo fato de que eu ingeri aqui e ali seus produtos. Mas porque foi flagrada recebendo aquele leite envenenado. O queijo seria envenenado? Como saber? Pelo sim, pelo não, o melhor é "votar com os pés", ou seja, sair fora do reino de uma empresa que ia processar leite envenenado pela primeira vez em sua existência, e não o fez por um motivo comezinho. Não que ela tivesse identificado a fraude, o que me deixaria mais contente quanto aos queijinhos que comi, mas porque, "[...] na manhã de 8 de maio de 2014 [...] as suspeitas levantadas pelo Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul sobre um de seus diretores e um de seus funcionários."

Afinal, suspeita? Envenenou ou não envenenou? Comi queijo sadio ou é isto o que me faz sentir-me estranho? Mas segue a nota de esclarecimento:

Nota de esclarecimento
[...] Temos [...] o mais absoluto comprometimento e interesse no esclarecimento definitivo e justo dos fatos.

Em outras palavras, dada a morosidade deste orgulho nacional que é a administração da justiça, é de esperarmos que eu possa comer queijo envenenado ainda por mais 50 anos, se durar tanto a fraude ou se durar tanto o meu conteúdo material. Só bebendo (mas nunca mais leite, hehehe).

DdAB
p.s.: para saber mais sobre o conceito de jogo de soma zero, leia a página 92 de:
BÊRNI, Duilio de Avila e FERNANDEZ, Brena Paula Magno (2014) Teoria dos jogos; crenças, desejos, escolhas. São Paulo: Saraiva.

domingo, 11 de maio de 2014

A Ficção da Impressão em 3D


Querido diário:

Claro que havia muita gente querendo escrever a história de Severino e Severiana. Alguns anais dos primórdios da inteligência artificial do Terceiro Planeta de Sol registravam a saída de seus bisavós da órbita planetária havia muito, muito muito tempo. Naquele ano de 1248163264, ou seja, um bom milhão e quarto de anos desde que casaram, Severino e Severiana estavam comemorando a impressão da quarta nave a ser tripulada por grupos dos descendentes daqueles migrantes iniciais que decidiram desgarrar-se. Mesmo naqueles tempos de relativa bonança sideral, imprimir uma nave não era tarefa muito fácil, pois a variedade de materiais necessários para usar as melhores tecnologias disponíveis era realmente estonteante. Produzi-los todos em laboratório tomava recursos da própria nave que podiam ser aplicados em outras finalidades, como a preservação e expansão de seu jardim zoológico ou a produção de mais androides a serem incumbidos das mais diversas tarefas e, principalmente, a de comandar todas as demais máquinas, com todo o planejamento de roteiro dos próximos 100 mil anos.

Com aqueles três antecedentes, as tarefas da impressão praticamente começavam a virar rotina: aproximar-se de grandes planetas, lançar sondas tripuladas por androides, despender um ou dois anos analisando os resultados criados pelos programas mais modernos, criar naves de exploração comercial, culminando com a festa de despedida dos, em geral, nubentes. Mas havia dezenas de outras boas razões para outros moradores da nave também tomarem o rumo da aventura espacial, Bina e Dino entre eles. Diziam estes querer trilhar a mesma trajetória de seus antepassados terráqueos com a produção massificada de automóveis com motor a explosão, aproximando-se daquela galáxia também moribunda que abrigou o surgimento daquele tipo de vida, bastante inflexível e, como tal, bastante limitada, se me permito dizê-lo.

Um museu de automóveis com alguns hologramas e muita reprodução convencional de três dimensões, associando-se a um jardim zoológico de milhares de espécimes de vertebrados e invertebrados era um presente dado pelos acompanhantes - liderados por Bina e Dino - às dezenas de recém casados que se associavam à aventura. Falava-se, brincalhonamente, em povoar o espaço, em preencher com descendentes dos humáquinas. Estes, depois de terem abandonado as formas físicas de seus antepassados humanos, decidiram voltar a elas por diletantismo, mais do que por necessidade. Muita discussão estas transformações geravam, todos os envolvidos (e nem todos se envolviam) chamavam os antagonistas de conservadores. Uns diziam que conservador era quem queria imitar os ambientes terráqueos e outros diziam que nada mais poderia ser tão conservador quanto imitar as próprias formas físicas de seres extintos há bilhões de anos.

Todos eram felizes a seu jeito e a controvérsia em geral se resolvia com soluções abrangentes: a maioria usava a forma dos humáquinas, ao passo que praticamente todos frequentavam os ambientes de lazer, como o zoológico, o aquário, as quadras de prática de esportes, inclusive o hipismo, pois todos viviam ciclos circadianos das 24 horas evocativas do Terceiro Planeta de Sol. Convidado por Marina, Marino aceitou o desafio para uma rodada de partidas de squash.

DdAB
p.s. um garçom muito querido indagou-me de onde tirei aquela imagem. como não fui capaz de responder, menti-lhe que poderia ser entendida como uma foto da nave que abrigava aquela grande população futurista. e ele voltou a indagar que aquilo parecia um golfinho em pleno mar azul. e eu voltei a mentir que era ar condensado pelo calorzinho que exalava da nave.