quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Hai Kai n. 88


Querido diário:

Tivesse eu postado um hai-kai por ano, nem haveria tantos no livro de Millôr com quem mantenho esta trova. Ou seja, se fosse 88/365 é a fração do que eu poderia ter feito: quase 25%. A verdade verídica é que nem todos os 88 são fruto de minhas reflexões e da diligência da editora L&PM em 2014. A diligência dela, sob o ponto de vista de meu livro, acabou na "primavera de 2007". E eu já postei hai-kais em anos anteriores, a partir de 8 de novembro de 2012.

Tornei-me aritmeticamente filosófico, pois é certo que andei mais de 25% do tempo que me foi dado viver sobre a Terra (verso de Brecht, se bem lembro). O hai-kai de MILLÔR rola com os seguintes contornos:

CONTEMPLAR NA AREIA
A OBRA-PRIMA
QUE PASSEIA.

Responde o Planeta 23:

Quem passeia na avenida
E olha os lados distraído
Traz sua vida em peias.

Confesso ter escrito este hai-kai trovadístico há mais tempo e não lembro o que tinha em mente. Ele, claro, fala por si mesmo: passeando na avenida, o povo distraído não tem condições de tornar-se política, econômica e socialmente livre. Depois disto, houve uma boa meia dúzia de infrações às regras dos torneios de trova escorreitos. Àquele "que passeia" emendei com "quem passeia". Aquela "avenida" é uma inteligentíssima (alheia às trovas escorreitas) referência à Avenida Atlântica, ou melhor, à Avenida Vieira Souto. Nesta última, ou por perto, é que morava Millôr. Estes "lados distraído/s" foi inspirado em Sylvio Caldas ("tu pisavas nos astros distraída..."). Por fim, vida é aquela encrenca físico-químico-biológica que bem conhecemos. Finalmente, "em peias" quer dizer "acorrentado", o que -de sua parte- evoca aquela do "mas acorrentado ninguém pode amar" que acabei de ouvir em 2014 no show "Elis, a Musical". Título grandioso para encerrar o ano. Conclamo a todos os leitores a praticar um "só bebendo", desta vez um champanha -como se diz por aqui- brúti.

DdAB
A imagem é daqui e evocou o finalzinho da postagem em que digo que "tu pisavas nos astros, distraída". Não é uma beleza termos um povo que anda distraído, em peias?

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Vida, Liberdade e Propriedade


Querido diário:


No outro dia, estive discutindo os quatro direitos fundamentais cogitados por John Locke: vida, saúde, liberdade e propriedade. Parecem óbvios: como posso viver sem vida (e confortavelmente sem comida e, ergo, saúde? Como posso viver livremente sem que todos sejamos livres, como posso ser livre vendo escravos a meu redor? E como posso despir-me de propriedades e ainda manter-me vivo e livre? Escravos pagam impostos? E para que pagar impostos, para sustentar os sinecuristas do governo e seus asseclas?

Parece que a questão localiza-se por este lado: nada há a reclamar da vida nem da liberdade. Até devemos adjetivar a primeira: vida digna, vida feliz, vida plena de significado (à la Maslow). E devemos qualificar a segunda, mais ou menos na linha de que nos fala John Rawls: a maior liberdade compatível com a dos demais. A escravidão é incompatível tanto com a liberdade do escravo quanto com a de seu proprietário. Escravidão não pode! Aliás, nem servidão, pois o servo não tem o direito de ir-e-vir, para não falar de outras baixezas.

Se bem leio comentadores, a retomada na ênfase que se dá à propriedade privada tem origem no pensamento de Ayn Rand, ou seja, uma liberal de direita que confronta as posições da filosofia econômica e mesmo da filosofia política que entendo e absorvi. E nem sei se a coroa leu John Locke (coisa que, aliás, nunca fiz mais que diagonar).

Como bem sabemos, vejo o mundo alicerçado naquele tripé do mercado-estado-comunidade. Reconheço e aceito a existência de falhas no funcionamento de cada um deles. Dada a existência do duo estado-comunidade, entendo que é a eles que se as fraquezas do mercado devem ser delegadas (por exemplo, a provisão dos bens públicos pela comunidade ou a regulamentação dos monopólios pelo estado). E ainda mais, sigo a máxima da "substituição do governo dos homens pela administração das coisas". Ou seja, numa sociedade de um futuro longínquo, vejo as necessidades humanas debeladas por meio da ação de máquinas, praticamente despidas de conteúdo de trabalho humano e, como tal, sem estado e sem mercado.

Sobre a propriedade privada e a tributação, a questão é escorreita: é preciso haver um estado para prover bens públicos (segurança pública, ar puro, essas coisas). E alguém precisa financiá-lo. E este alguém só pode ser a população do país (ou mundial, no caso do governo mundial, né?). E aí pode haver impostos diretos ou indiretos. E sobre a propriedade. Trata-se de uma questão normativa cuja solução é encaminhada pelo processo político. No Brasil, o fim-da-picada acompanha desde o descobrimento os menos aquinhoados. A tributação, tal como emergiu -para não falar de milhares de anos atrás- da constituição de 1988, é escandalosamente regressiva. E não há sinais de que isto venha a mudar nos próximos tempos. {E aliás a encrenca é tão grande que seria necessário um programa de reconversão progressiva desenrolando-se no tempo por uns 20 anos}.

É bem verdade que estou aceitando um desafio (vou levar anos para vencê-lo) de ler o livro de Robert Nozik (Anarchy, state and utopia), que dizem ser avassalador no papel de condutor do pensamento anti-estatizante e elogioso ao princípio da intangibilidade da propriedade privada. Vou pagar para ver, mas duvido que ele remova minha ideologia de proteção aos menos aquinhoados e consagrar as virtudes da sociedade igualitária.

DdAB
Imagem aqui. Por não-sei-quê busquei a imagem para ilustrar-nos com "Ayn Rand" e veio esta pérola do pensamento lá de cima. Evocou-me "a maior liberdade possível compatível com a dos demais", ou seja, John Rawls (e eles ambos que não me ouçam).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Meninos de Rua, Música e Orçamento


Querido diário:

O crítico musical e professor Celso Loureiro Chaves escreveu no Segundo Caderno de Zero Hora de hoje (página 3) um artigo intitulado "Novidades". Seu ponto de vista é interessante, parcialmente interessante, convenhamos. Há uma preocupação pertinente com as obras inacabadas entra-governo e sai-governo. Então, ele pede a conclusão de duas obras associadas às artes e cultura e que não se invente nada para afugentar os recursos destas duas obviedades inconclusas.

Disse-me no outro dia o colega Ariel Garcez que este problema das obras inacabadas tem a ver com a leviandade com que se conduz o orçamento público no Brasil. Não há mais orçamentos pluri-anuais (e nem anuais, devo aduzir), o que permite que a continuidade das obras seja apenas um desejo, realizando-se apenas em poucos casos.

Celso Loureiro Chaves sugere que dois projetos sejam iniciado/concluído: o Teatro da OSPA e o Teatro São Pedro. Outros projetos megalômanos, como a expansão da rede metroviária e uma faraônica ponte sobre o Rio Guaíba, deveriam aguardar na prancheta. Achei seu ponto bem assestado. E voltaram-me à mente dois, ou melhor, três conceitos que costumo dizer devem ser ensinados no primeiro dia de aula de estudantes de economia e que lhes seja assestado um breve, de sorte a que eles não caiam no olvido.

.a. custo social

.b. versus custo privado

.c. custo de oportunidade.

Primeiro, precisamos saber a diferença entre o custo social e o privado criado pelo subsídio governamental à cultura e à arte. De alguma forma, os montadores da lei do orçamento deverão ter uma ideia, medida em termos de vidas futuras, da submissão dos interesses dos meninos de rua ao, digamos, bel canto. Eu, que neste caso sempre aponto para um mercado ausente, não pude conter-me e pensei no caso de um seguro a ser feito pelo futuro governador (e, no devido tempo, ex-governador) para evitar que a tetra-neta de sua tetra-neta seja assassinada por um menino de rua mais taludo.

Segundo, o custo de oportunidade já está implícito no que falei acima: a vida daquela futura infanta vale quantos trinados num daqueles palcos. A análise de custo-benefício ajudaria a negadinha que fez o orçamento público estadual ou que dele venha a valer-se para administrar a postar-se mais consentaneamente neste contexto.

DdAB
Imagem daqui. Como sabemos (e a Wikipedia confirma), Sarah Bernhardt foi considerada a mais divida de todas as divinas atrizes de todos os tempos, tendo tido a má sorte de cantar no Rio de Janeiro em 1905, caído em cena e quebrado a perna que veio, anos mais tarde, a ser amputada. Qual o custo de oportunidade dessa viagenzita ao então chamado Brazil?

domingo, 28 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 87


Querido diário:

Nas trovas que entretenho com Millôr Fernandes, a de número 87 diz:

MILLÔR:

INDITOSA
AO VENTO
A ÁRVORE NERVOSA

Planeta 23:

A árvore nervosa
Busca novo refrigério
Na terra generosa.

DdAB
Imagem de uma terra generosa com foto extraordinária está originalmente postada aqui.

sábado, 27 de dezembro de 2014

O Julgamento da Juíza: a vida imita a arte


Querido diário:

Sabem meus acompanhantes a opinião que formei sobre a eficiência do funcionamento do sistema judiciário brasileiro (do juiz do supremo tribunal ao porteiro do necrotério). O menor de meus pontos de objeção é que o estamento jurídico, por ganhar R$ 36 mil mensais, é suspeito para julgar uma população cuja renda per capita é de R$ 2 mil.

E quem sou eu para julgar todo um sistema? E para julgar uma juíza? No caso da juíza, julgá-la com apenas uma sentença (ou que nome tenha lá o expediente) de 50 palavras? Julgue-me o leitor do blog. Ela sentença está na capa de Zero Hora de hoje. Cito verbatim:

verifico que, como se cuida de homidício,
infração material que deixa
vestígios e, como inexiste qualquer prova
idônea que efetivamente demonstre a 
materialidade do delito, já que a autoridade 
policial não acostou ao expediente o atestado 
de óbito da vítima, na forma 
do art. 158 do CPP, 
inviável a homologação

Acho a juíza um tanto quanto como direi. E o delegado que não provou que a mulher estava mesmo morta? Mulher? Como sei isto? Delegado? Juíza? Jornal? Solipsismo? Sigamos Occam, ficando com a hipótese mais simples: a mulher foi mesmo morta por um motorista, ou melhor, não há saída, foi lançada de uma moto por um automóvel conduzido por um homem. A moto, que não respirava, permaneceu neste estado, a mulher, que o fazia, cessou de fazê-lo. Morreu? Como saber, como provar? Só mesmo alegando a veracidade das possibilidades literárias do evento (cito de memória).

.a. Moreira da Silva canta um samba de breque de acordo com o qual, a certa altura, "havia um cheiro de cadáver se espalhando". Ou seja, se havia cheiro, diria até mesmo David Hume, provavelmente havia um cadáver do qual o cheiro exalava.

.b. Mais assertivo, numa das novelas de Campos de Carvalho, nosso herói (que, se não me engano, a certa altura, mudou o nome e passou a chamar-se Ruy Barbo) encontra um cadáver à beira do Sena (ou que rio fosse lá o que margeava aquele "hotel"), e tenta vendê-lo, creio que a uma faculdade de medicina. O recepcionista pede um atestado de óbito, ao que redargúi nosso Ruy Barbo: "não é necessário, pois o homem está morto mesmo".

DdAB
Imagem daqui, recortada por mim. A juíza que, aparentemente não pensa ser deus, não sentiu o cheiro do cadáver, como a garota da imagem que selecionei ao pedir o verso da canção do Kid Morangueira.

P.S. Adendo de 31/dez/2014. Ainda no outro dia, olhei o código de processo penal de que nos fala a juíza que não sentiu o cheiro do cadáver (e se o tivesse sentido?). Diz esta iluminura da cultura brasileira o seguinte:

CAPÍTULO II
DO EXAME DO CORPO DE DELITO, E DAS PERÍCIAS EM GERAL
Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.
Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 1o Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 2o Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 3o Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos e indicação de assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 4o O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo juiz e após a conclusão dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta decisão. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 5o Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, quanto à perícia: (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
I – requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para responderem a quesitos, desde que o mandado de intimação e os quesitos ou questões a serem esclarecidas sejam encaminhados com antecedência mínima de 10 (dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo complementar; (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
II – indicar assistentes técnicos que poderão apresentar pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz ou ser inquiridos em audiência. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 6o Havendo requerimento das partes, o material probatório que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for impossível a sua conservação. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 7o Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de um assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
abcz

Pois bem: quem se dá o trabalho de ler tudo isto? Eu li e a conclusão é mesmo que a juíza é estranha e mais ainda, o sistema judiciário, que se vale de tal tipo de texto, só serve mesmo para nos incentivar a usar uma das exclamações cachoeirenses deste Planeta 23: só bebendo! Pois não é que me pareceu que a juíza não leu o artigo 159 e seu parágrafo primeiro. Ou foi o delegado? Ou a juíza estava de mal com o delegado e não pôde dialogar com ele para que a justiça fosse promovida, ou seja, para que, na ausência do perito, pintassem os dois diplomados, etc.? E fiquei a imaginar que ocorreria se o delegado escondesse o cadáver, dada a ausência do perito, o que evitaria a aquiescência do perito relativamente à morte do cadáver?

E, dado o adiantado da hora, acho que o negócio é mesmo beber champanha e esperar um 2015 menos avaro em matéria de promoção da sociedade igualitária.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Providence, Petrobrás e a Previdência


Querido diário:

O jornal de hoje (página 11) tem uma notícia informando que a cidade de Providence, nos Estados Unidos, também começou um processo contra a Petrobrás, que -com suas fraudes- tê-la-ia feito perder dinheiro. E será que a cidade americana, ao comprar ações da empresa estatal brasileira não teria pago propinas aos corretores? Nunca saberemos, a menos que abram um processo destinado a investigar as conjeturas do Planeta 23.

E que me chama a atenção? Algo engraçado a respeito destas medidas judiciais. Por um lado, se os processos cíveis servirem para desmoralizar ainda mais a combalida empresa, menos valor terão suas ações. Por outro lado, poderia algum grupo interessado em adquirir a fábrica brasileira de sinecuras desejar mesmo ver enormes perdas patrimoniais associadas ao mercado acionário e, com elas, passar a controlar a companhia. Pelo sim, pelo não, o que eu acho mesmo é que há arautos do envolvimento do governo no domínio econômico, mas não na distribuição de alimentos (restaurantes populares ou cantinas escolares) mas de gasolina e álcool combustível.

Nestes cândidos tempos de fim-de-ano e a religiosidade sazonal, nada como invocar a divina providência para tomar previdente previdência sobre nosso 2015.

DdAB
Imagem: aqui. Aquilo ali foi "homem ao mar" ou "homens de azar"?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 86


Querido diário:

Nesta noite natalina, registro que MILLÔR disse:

VIDA RURAL, SENHOR,
É VER VACAS
NA TEVÊ EM COR.

E o Planeta 23 falou:

Na TV em cor
Viviane vive
Seu novo ardor.

DdAB
Imagem daqui.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 85


Querido diário:

MILLÔR FERNANDES fez o seguinte hai-kai:

E EU AQUI
RELENDO UM LIVRO
QUE NUNCA LI.

O Planeta 23 trovou, natalinamente, com

Um livro que nunca li
Disse coisas por terceiros.}
Mentiras? Não conferi.

DdAB
Imagem daqui.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 84


Querido diário:

No hai-kai n. 84, MILLÔR diz:

NÃO QUESTIONE
POR QUE O CARACOL
CARREGA O TROMBONE.

Planeta 23:

Carrega um trombone!
Tuas costas quentes
Vão ver um ciclone.

DdAB
Imagem daqui.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tempos Natalinos na Política


Querido diário:

A semana que começa e será intermediada pelo feriado de natal levou-me às seguintes reflexões.

Primeiro, sou favorável às eleições defasadas entre prefeitos e presidentes, vereadores e deputados (sou a favor de fecharem-se os estados e o senado, sem -portanto- governadores e senadores). Sendo favorável a duas eleições por quadriênio, também entendo que serão formados dois governos a cada dois anos, o municipal e o outro. A questão é a definição decente de formar governos.

A impressão que tenho de reflexões prévias a estas é que formar governo significa lotear a administração pública direta e indireta entre "a companheirada". Ou seja, pessoas descredenciadas para a obtenção de empregos decentes e que se envolvem na política na condição de sinecuristas (rent-seekers). E por quê não mudo de ideia? Por causa da notinha que já transcreverei da página 35 de Zero Hora de hoje, na coluna RBS Brasília, da jornalista Carolina Bahia:

A FILA ANDA
Enquanto o PT nacional faz o inventário dos cargos de segundo escalão, o partido no Estado organiza prioridades para as indicações em 2015. Chefe da Casa Civil do governo Tarso Genro, Carlos Pestana [sic do negrito] está entre os primeiros da lista.

Claro que este tipo de notícia dá como estabelecido que este tipo de -chamemo-lo assim- clientelismo está arraigado na política. A contrariedade da jornalista não aparece aqui, mas estou certo de que ela não apoia estes arroubos carguistas do PT, ainda que espose uma posição de direita em sua concepção geral de funcionamento da sociedade (se a tanto chega).

E qual é a alternativa? Partidos decentes, poder judiciário decente, programas partidários, coalizões partidárias em torno de pontos programáticos, essas coisas. Sobretudo obrigatoriedade de cursos de teoria da escolha pública para todos os brasileiros!

DdAB
A imagem é daqui e estar-me-ei inclinando a aceitar o convite para a ceia, se vier. Sob o ponto de vista político, o que podemos dizer é que há fome de cargos.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Os Menos Aquinhoados


Querido diário:

Parece que inicia-se neste domingo ou -melhor ainda- mañana o tempo da solidariedade natalina. Eu mesmo, que fico rindo da cara do prefeito em deixar tanta gente na rua (e devo admitir que o número de crianças desvalidas reduziu-se significativamente), tomo-me de amor pela humanidade e fico pensando nos menos aquinhoados. Ontem, ao circular do Menino Deus ao Centro de Porto Alegre, vi umas dez ou 20 pessoas em condição de alto risco. Ou dormiam pelo chão ou mendigavam estipêndios natalinos (ou de outra natureza).

E aí fiquei pensando em quanta gente presta solidariedade (de diversas maneiras, cada um com a/s sua/s) aos menos aquinhoados. Minha atitude com relação a eles é desejar sua extinção, ou seja, intervenções por parte da sociedade organizada de sorte a reduzir os diferenciais no nível de consumo entre os menos e os mais aquinhoados. E sobrevieram-me duas questões:

.a. e que tal solidariedade com os mais aquinhoados?
.b. e que tal quem é que deveria fazer tais intervenções?

A solidariedade com os mais aquinhoados também deve ser defendida. Ou melhor, devemos ser solidários com todos os seres humanos, mais ou menos aquinhoados. O quinhão não deve ser o critério demarcatório da solidariedade. Mas o ponto não é a ausência de solidariedade com os mais aquinhoados, por exemplo, devemos rejeitar a ideia de rico batendo na mulher (do rico), mulher do rico batendo na criança (do rico), rico ser assaltado, rico ter seu neto assassinado por outro ser humano de maior ou menor quinhão. A lista é infindável. Inclusive o recurso retórico que muito usei em sala de aula: quanto pagarias para alguém que evitasse que teu bisneto seja assassinado por um menino de rua? O bisneto ainda não existe, nem seu virtual assassino. É que o bisavô já foi vítima de tão contingente sina. Vivendo e aprendendo.

E que negócio é este de "quinhão"? Parece óbvio que estamos falando da distribuição da renda. Olha o aurelião:

Quinhão: a parte de um todo que cabe a cada um dos indivíduos pelos quais se divide; partilha, cota. E também figuradamente, sorte, destino, fado. É os dois, mano! Eu falo na parte do todo chamado de valor adicionado mensurado pela ótica da renda. E aliás, falo mais que isto, pois também penso nesta questão de transações interinstitucionais, como é o caso da cobrança de imposto de renda e do pagamento de pensão a trabalhador acidentado. Em outras palavras, estou falando essencialmente da magnitude da receita (renda mais transferências) das famílias.

Passemos à pergunta sobre quem deveria fazer as intervenções que levariam a que se prestasse solidariedade aos menos aquinhoados? Isto é, que reduzisse os diferenciais de consumo entre estes e seus antípodas sociais? Já se observam ações das famílias: pai sustenta filho, filho sustenta pai, amigo (Engels) sustenta amigo (Marx), e por aí vai. Este tipo de ação pode expandir-se -e o faz- com as organizações não governamentais, com esmolas de indivíduo a indivíduo, com tudo isto.

E fica ainda espaço para a ação benemerente do setor privado: oferecer bolsas de estudo a jovens, dar almoço a outros, ajudar de várias outras maneiras. E o setor público?

O lado alegre da ajuda que o setor público pode dar é o do gasto: gastar na provisão de bens públicos e meritórios, o que significa desviar recursos da produção de bens regulares (digamos, cuecas) e bens de demérito (não escondamos, crack) e inseri-los na estrutura da demanda final. Mas não é apenas isto. Ainda assim, a polêmica é acesa.

E que mais, além daquilo que não era apenas isto? É a tributação, que pode ser sobre o PIB (impostos indiretos líquidos de subsídios) ou sobre a receita (imposto de renda e mesmo impostos sobre a transmissão de bens inter-vivos ou heranças). Neste caso, então, é que há mais rejeição das sociedades em geral e da brasileira contemporânea em particular. Por exemplo, duvido que algum jornalista (de respeito ou não) discorde das diversas indicações de que o Brasil é um país de desigualdade revoltante. Mas duvido que exista unanimidade quanto à necessidade de se mudar a estrutura tributária nacional, transformando a receita em preponderantemente derivada dos impostos diretos, o de renda e o de transmissão. E até o imposto sobre a riqueza. No caso, por exemplo, dos senhores delatores do petrolão, não deveriam eles pagar imposto sobre a riqueza que depositaram em bancos nacionais e estrangeiros? E sobre casas, apartamentos e fábricas que adquiriram aqui ou lá adiante?

Mas tem mais coisa contra a tributação: tem gente que acha que um dos direitos fundamentais da pessoa é seu patrimônio, seja ele herdado, seja adquirido via troca voluntária. Costumo dizer orgulhar-me da propriedade privada de meu corpo e de minha escova de dentes. Mas não vejo com a mesma ênfase, como dogma, o fato de que minha receita possa eximir-se de pagar imposto de renda, ou que meu patrimônio, na hora das doações ou herança, deva ficar isento de um óbulo que seria revertido em benefício de políticos corruptos ou, especialmente da turma dos menos aquinhoados.

Admito que haja até partidos políticos defendendo a propriedade absoluta, inclusive sobre ativos afanados pela geração anterior e que fazem parte do patrimônio tradicional da família tradicional. E acho uma inominável sandice que os menos aquinhoados não votem no partido redistribucionista. Agora achei: a sociedade igualitária conflitará vez que outra com o ideal absoluto da propriedade privada sobre a renda ou o patrimônio. E como obter maioria parlamentar? Education, education, education. Como levar a negadinha a "descobrir seus objetivos na vida e lutar por eles" ou ainda "apropriar-se do patrimônio cultural da humanidade" sem educação, sem saber ler, sem saber escrever, sem capacidade de apropriar-se de um vocabulário que lhe dê tal domínio de conceitos e habilidade para jogar com eles? Como encerrar esta postagem?

DdAB
Imagem daqui. Disse um carinha de meu conhecimento que "no capitalismo, tudo vira mercadoria". Esta linda reprodução da sentença famosa de Nelson Mandella foi apropriada por aquele grupo Laureate que prevê o futuro dizendo "aqui para sempre" naquela bolinha do canto inferior esquerdo. O que não sei é se a mercadoria está aqui para sempre ou se é a educação ou ainda a Laureate.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Relações Institucionais Brasileiras


Querido diário:

Não existe qualquer singularidade brasileira quando se fala de pouca-vergonha. Desta parte, "não existe pecado do lado de baixo do equador". De outra parte, não devemos esquecer que, no resto do mundo, os recortes não são substancialmente diferentes. Ontem reclamei da incompetência do poder judiciário. Hoje reclamo da desfaçatez dos réus. E não estou falando em réus do caso do roubo das merendas escolares, da soda cáustica adicionada ao leite, os selos da assembleia legislativa estadual (só fechando!).

Falo deste espetáculo circense denominado petrolão. O jornal de hoje na página 10 fala na lista dos 28 políticos denunciados por um daqueles gangsters que declaradamente saqueou/saquearam a Petrobrás. Lá naquele livro de contabilidade social, nomeadamente,

BÊRN I, Duilio de Avila & LAUTERT, Vladimir (2011) MESOECONOMIA: lições de contabilidade social; a mensuração do esforço produtivo da sociedade. Porto Alegre: Bookman.

dizemos que as organizações econômicas podem ser agrupadas em três unidades: produtores, (locatários dos) fatores e instituições. Aqui, no que segue, as instituições são sinônimas de organizações, de arranjos mantidos entre os componentes de uma sociedade humana (humana?). Neste mundo, as relações são institucionais, mesmo as relações entre produtores e representantes das famílias. Fábulas, contos apólogos.

Na página 10 de Zero Hora de hoje, listam-se 28 políticos cujos nomes foram denunciados pelo delator, engenheiro Paulo Roberto Costa. O Rio Grande do Sul teve a honra de figurar uma vez. O jornal diz o "contraponto" do acusado. Destaco nosso premiado e alguns outros institucionalistas.

JOSÉ OTÁVIO GERMANO (PP/RS): "admitiu que teve dois encontros com Costa para assuntos 'institucionais'". Ele também esteve envolvido no caso do Detran (aqui), declarando-se inocente da acusação de ter ajudado a afanar R$ 40 milhões por terem usados provas colhidas ilegalmente. Ele, entre uma acusação e outra, entre uma instituição e outra, vai levando sua vidinha. Só ele envolveu-se em assuntos institucionais?

LUIZ FERNANDO FARIA (PP/MG): "ressaltou que os contatos mantidos com Costa se deram 'exclusivamente por dever de ofício' para o 'tratamento de questões institucionais'". Só ele?

MÁRIO NEGROMONTE (PP/ministro): "em nota, repudiou a citação de seu nome pelo ex-diretor e disse que só tratou com Costa de 'assuntos institucionais'". Só ele?

PEDRO CORREA (PP/PE): "a defesa afirmou que ele cumpre pena no regime semiaberto por ter sido condenado no mensalão e está incomunicável, não podendo se manifestar". Este, felizmente, não declarou-se institucionalista.

RENAN CALHEIROS (PMDB/AL): "afirmou, por meio de nota, que as relações que manteve 'com todos os diretores da estatal nunca ultrapassaram os limites institucionais'". Pode?

SÉRGIO CABRAL (PMDB/governador): "repudiou a menção a seu nome e afirmou que sua relação com Costa sempre foi institucional."

TIÃO VIANA (PT/governador): "em nota, disse que 'não conhece e nunca teve qualquer tipo de relação' com Costa e que 'qualquer ilação' será tratada 'pelas vias judiciais'". Só isto?

VANDER LOUBET (PT/MS): "em nota, frisou que não teve qualquer relação 'institucional, política ou de outra natureza' com Costa e colocou-se à disposição da Justiça".

Só isto? Nem 28 institucionalistas em todo o Brasil? Urge o fechamento do poder judiciário e sua substituição por um contrato emergencial com a empresa júnior de alguma faculdade de direito de algum país amigo e civilizado!

DdAB
A imagem veio daqui.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

"De Alma Lavada" (e consciência difusa)


Querido diário:

Hoje aconteceu uma e tanto. Finalmente, hoje de tarde, ouvi rádio no carro, como tenho referido, a Pampa de Porto Alegre. O "âncora" do programa revelou conhecer a senadora e jornalista Ana Amélia Lemos há 30 anos e também confessou não tê-la visto nos últimos vários anos. E anunciou que ela deve estar "de alma lavada" com a decisão do procurador-geral da república, o sr. Rodrigo Janot. Este estudou o inicialmente e disse que a senadora não praticou nenhum crime ao omitir de sua declaração de bens para a justiça eleitoral (nem sei quando, se agora ou por ocasião da eleição para o senado) uma "fazenda que tinha em sociedade com o marido, o falecido ex-senador Octávio Cardoso."

E de onde veio este "inicialmente"? Da página 18 do jornal Zero Hora de hoje, coluna de Rosane de Oliveira. Diz ela:

DE ALMA LAVADA
   Veio do procurador-geral da república, Rodrigo Janot, o presente que a senadora Ana Amélia Lemos (PP) mais queria ganhar no Natal: uma declaração cabal de que ela não cometeu qualquer ilícito ao não declarar entre seus bens, a fazenda que tinha em sociedade com o marido, o falecido ex-senador Octávio Cardoso.
   Janot determinou o arquivamento da representação movida contra a senadora durante a campanha por Luiz Gambim e outros sindicalistas. O procurador escreveu que não houve qualquer irregularidade, muito menos crime de omissão ou declaração falsa para fins eleitorais.

Eu fiquei pensando que difusão de consciência é esta que exige que o candidato a cargo eletivo -agatunado ou não- declare seus bens antes da eleição. E que a senadora -representante do estado do Rio Grande do Sul no congresso nacional e candidata derrotada ao governo do estado- não cometeu qualquer ilícito ao não declarar a tal fazenda. Claro que minha consciência difusa não sabia exatamente o que quer dizer ilícito. Ela -consciência- induziu-me a olhar o aurelião e lá encontrei: "não lícito; proibido pela lei; injurídico, ilegítimo; contrário à moral e/ou ao direito." Então a questão está na ausência de irregularidade. Irregularidade? Diz o tio: "qualidade de irregular; falta de regularidade; procedimento, ação ou situação irregular."

Minha consciência difusa fica a indagar-me se é ou não obrigatório ao candidato declarar seu patrimônio antes de concorrer ao cargo público. Ela já era detentora de um (senadora). Com isto estaria isenta de novas declarações, atualizações patrimoniais? Não seria o caso de que o próprio procurador-geral deveria enviar um e-mail à senadora sugerindo que, nas próximas oportunidades, ela não esqueça de registrar patrimônio?

Tenho dito que o poder judiciário deve ser fechado e buscar-se uma empresa júnior europeia a fim de administrar a justiça no Brasil. O procurador-geral é, se bem entendo, do executivo. E isto me permite aclarar, para fins de hoje, o que às vezes por aqui refiro: não é propriamente o "poder judiciário" que causa o mal, mas o "sistema judiciário", o que contempla também o agente de polícia que baixa pancada na turma. O sr. Janot, esse, meu chapa, francamente!

DdAB
A imagem veio daqui. Publico-a, reproduzo-a, para ilustrar o que não me parece jornalismo de primeira linha (meu blog, aliás, não é muito jornalístico e certamente não é de primeira linha...): uma foto que deixa mal aquela folha de papel que causou tamanho mal-estar na presidenta.

P.S. E será que o fato de eu chamar minha ex-estagiária de presidenta é puxa-saquismo? Acredito que não, ao contrário, mostra minha finesse como leitor da colunista social Célia Ribeiro. Disse-me ela (e a seus milhares de leitores) que aquele negócio de palóti ou palóci deveria ser deixado a critério do ex-ministro dizer como gostaria de ver seu nome pronunciado. Penso que, se a velhinha alçou-se ao cargo de primeira mulher na presidência, ela teria direito legal de ver-se chamada como o que bem entende. Bem entendo que o conjunto de "como bem quer" é {Presidente, Presidenta}. Ou não é?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 83


Querido diário:

Na linha dos hai-kais, temos o seguinte de MILLÔR:

NA VIDA, O GOZADO
É QUE NEM O PALHAÇO
É ENGRAÇADO.

Planeta 23:

É engraçado
Saber que engraças
Só desgraçados.

DdAB
Imagem: parece que veio daqui.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Descobertas x Invenções


Querido diário:
Olha aqui o que eu escrevi em um desses não-sei-quando na última folha (em branco) do livro "Escolha de Sophia":

Descoberta e invenção representam-se por duas irmãs siamesas que resultam do funcionamento do cérebro humano. No devido tempo, descobriu-se a América e a tabela periódica dos elementos. Inventou-se a televisão e, depois do mito, a ciência.

E iria falar ainda mais sobre o tema, talvez desdobrar esta relação entre ciência e mito e, principalmente a relação entre ciência e tecnologia. E também entre invenção e inovação. Mas, como disse Carlos Drummond de Andrade, isto era antigamente, isto é, outrora (aqui). E agora? No maravilhoso livro daqui:

BÊRNI, D. d. A. & FERNANDEZ, B. P. M. (Org.) (2012) Métodos e técnicas de pesquisa; modelando as ciências empresariais. São Paulo: Saraiva.

Pois lá dizemos o que segue:

Para além de suas consequências pragmáticas e econômicas, a ciência foi responsável por transformações profundas, que vieram a moldar o moderno senso de realidade. A atmosfera científico-tecnológica que hoje impera é tão ostensivamente presente em todos os aspectos cotidianos que é bastante difícil tomar consciência do modo como essa cosmovisão impacta sobre a maneira de o homem encarar e se posicionar perante a natureza, a sociedade e, em última instância, ante a própria vida. Por exemplo, quando se toma conhecimento de alguma nova descoberta científica, não é incomum uma difusa sensação de “inevitabilidade”. O próprio vocábulo “des-cobrir” — tirar a cobertura, revelar algo que já existia e que estava oculto — remete a tal sensação. A ciência “descobre” coisas, ao passo que outras atividades, também tipicamente humanas, como as artes, a música e a literatura, inventam, criam, ou seja, dão existência a algo que antes não havia.1 Assim, não parece um absurdo pensar que, se William Shakespeare (1564-1616) tivesse falecido ainda menino, o mundo jamais teria conhecido Hamlet. Usando o mesmo exercício de imaginação, porém, caso Isaac Newton (1642-1727) tivesse sofrido o mesmo infortúnio, parece aceitável a ideia de que, mais cedo ou mais tarde, outro cientista viria em seu lugar, e fatalmente as leis de Newton hoje teriam apenas outro nome. Essa sensação de “inevitabilidade” relacionada às descobertas científicas e, em consequência, ao próprio desenrolar futuro da ciência faz parte da herança cultural moderna da humanidade e, enquanto tal, possui uma história que pode ser resgatada.

E daí? Daí que a educação é tudo e a ditadura não é nada!

DdAB
Imagem da linda postagem do lindo site daqui.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Hierarquia Remuneratória Brasileira 2014-2015


Querido diário:

Em verdadeiro êxtase com minha nacionalidade, vi hoje no jornal que os deputados estaduais (não esquecer que favoreço a extinção dos estados e, com eles, os deputados estaduais e o senado) estão na reta finalíssima para aprovar um aumento de seus "salários" (como diz o jornal lá na página 8) para a próxima legislatura, isto é, 2015-2018. O único aspecto positivo é que, em 2018, haverá outra copa do mundo...

Em cifras, quanto vão ganhar? Os estaduais, R$ 26,9 mil. E os federais? R$ 35,9 mil. E o salário mínimo nacional? Tá na página 24 do carimbadíssimo jornal: R$ 724 (será que não estou errado?). Em compensação, veja-se o que segue:

Com o valor do bolsa família as famílias conseguem comprar material escolar, comida e até mesmo outras coisas para seus filhos, e esse beneficio visa não deixar as famílias passarem necessidades. O valor do beneficio do Bolsa Família varia entre R$32 podendo chegar a R$306 e somente os responsáveis pelo programa que calculam qual será o valor do seu beneficio, por isso não podemos te passar um valor único.
(fonte: aqui)

É nada mais nada menos que um escárnio. O que me deixa contristado (e eu já ia dizendo 'constipado', com o nariz fechado, a recusar-se a cheirar esta distorção) é perceber que ainda há gente que precisa ser "convencida" de que a bolsa família é um gasto que leva muita gente a evadir-se de trabalhar. Penso nas condições de uma senhora ganhando R$ 32 e vivendo a la macana. E mesmo os R$ 306. O rompimento com a hipocrisia de quem pensa haver empregos dignos para todos é fazer valer a lei da renda básica. E fixar seus estipêndios em, no mínimo, aquele mínimo de R$ 724.

O tema é velho: vários estamentos governamentais apropriam-se da renda nacional em escala absolutamente incompatível com a renda per capita do país e do próprio salário mínimo. O salário mínimo é uma vergonha. E tem razão quem clama contra a bolsa família em valor ridículo. Devemos acabar com ela, mas criar a renda básica da cidadania para todos!

DdAB
Imagem daqui. Pedi "a la macana" e veio o que vemos lá no topo.
P.S. Olha este cálculo: 724 x 12 x 90.000.000 / 4.840.000.000.000 = 16%. Quer dizer: se cada um dos 90 milhões de brasileiros em idade ativa ganha R$ 724 mensais no ano (salário mínimo de 2014) em que o PIB foi de R$ 4,8 trilhões (como foi em 2013), então gastam-se apenas 16,2% da renda nacional. E a implantação preferencial da renda básica pode começar com grotões interioranos, com rendimentos do trabalho, com doentes, etc. Ou seja, nem se precisa gastar estes 16,2% instantaneamente. Só não se faz porque não se quer. "Se"? Políticos, claro.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os Balcões e as Ilusões


Querido diário:

Tenho visto nos meios de comunicação a que tenho acesso a escancarada barganha dos governos estadual e federal sobre o loteamento da administração pública aos partidos políticos, secretaria prá cá, ministério para lá. A desfaçatez já é tanta que fico imaginando que daqui a 50 anos, este negócio -este balcão de negócios- será considerado normal: assim como os países decentes têm coalizões partidárias para disputar eleições, o Brasil tem um festival de negociações "pelo tempo de TV". E depois as secretarias e ministérios é que se ajeitem.

O instituto do governo paralelo deveria corrigir estas distorções na maneira de fazer "a boa política". E, claro, o voto voluntário e distrital. E, ainda mais claro, muito mais coisa.

O que me deixa mais contristado é a previsão que faço sobre o "otherwise". Não tenho ilusões, quero dizer, se não fosse Sartori o ungido ao governo estadual, se não fosse a Dilma a alcançar a presidência da república. Aqui seria absolutamente igual, exceto os "aliados". Lá seria absolutamente igual, exceto os "aliados". Ou seja, mudariam as ferraduras, mas os cravos permaneceriam sendo exatamente os mesmos.

DdAB
p.s. Eppur si muove. Quero dizer, ontem andei de automóvel pela cidade e havia coisas funcionando: leitos de rua não totalmente esburacados, todos os semáforos funcionando, não vi ninguém sendo espancado ou assaltado, não presenciei batidas de carros nem motoristas exaltados. Somos felizes de qualquer jeito!
Imagem: aqui.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 82


Querido diário:

MILLÔR:

BRILHA A LUA.
ENTRE UM RAIO E OUTRO
A VIDA É TUA.

Planeta 23:

A vida é tua,
mediana e móvel
na extrema dura.

DdAB
Imagem: Estremadura, cidade de Garrovillas de Alconétar, retirada da Wikipedia, obedecendo ao Creative Commons.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 81


Querido diário:

No hai-kai n. 81, temos;

MILLÔR

HESITO, MARIA
ME MATO, OU RASGO
TUA FOTOGRAFIA?

Planeta 23

Tua fotografia
No arco da velha,
Maria, Maria.

DdAB
Imagem aqui.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Tom Jones e suas Irmãs


Querido diário:

(Se você ainda não leu
McEWAN, Ian. O Jardim de Cimento. Companhia das Letras/de Bolso,
que comprei na Sapere Aude!, então não leia esta postagem, a menos que seja um estraga-prazer de si mesmo/a...)

É difícil explicar tudo, mas o delegado conseguiu montar um certo quebra-cabeça muito útil aos jurados. Jones não era Jones, mas John, ou -melhor ainda-, Jack. Nada de Jack Jones, apenas Jack.

Em seu depoimento juramentado, Sue informou aos jurados nada saber sobre cães e que sua mãe sempre esteve residindo em uma caixa, depois da morte natural. E acrescentou, com um olharzinho à socapa, que considerava direito adquirido da família reter sua mãe na guarita que lhe fora designada, quando a oficialidade negou guarida para tratamento justo.

Então havia Sue, havia Jack e então havia Tão, então havia tantarantantão, digo, então havia Tom. Ok, ok, Sue era irmã de Jack que era irmão de Tom. Seguiu-se logicamente -logicamente?- que os três eram irmãos de Julie. Fixa-se o título da postagem: Tom e Jack eram irmãos de Sue e Julie. Isto estaria garantido, disse um dos jurados, empinando uma xícara de chá, só que preenchida até a metade com cachaça. Parecia a todos que ele bebia chá e, na verdade, o que ele fazia era dar pequenos goles na canha. Não fossem as gargalhadas extemporâneas que ele dava, ninguém desconfiaria de nada. Ele, como não se dava conta de seu próprio cacarejar, achava que tudo estava no melhor dos mundos, em especial, aquele julgamento era muito divertido. E instou seus pares a seguirem com o julgamento do caso do saco de cimento.

Em outras palavras, as irmãs de Tom Jones nada têm a ver com o filme de título assemelhado produzido por Woody Allen, o sucessor do Mágico de Oz. As irmãs de cá, bem sabemos, eram a Sue e a Julie. As dele lá eram, se bem lembro, Lee e Holly. O quarteto de cá, bem o sabemos!

Quando o juizado de menores pediu o depoimento a Tom sobre o ocorrido naquele fim-de-tarde, a defesa invocou que uma criança de dois anos e meio de idade não pode falar. Mas Tom desmentiu-a dizendo que Jack matou um cachorro que se alojara dentro do forno do fogão a gás e o enterrou no mesmo caixote em que jazia sua mãe. A esposa do cachorro gritou furiosa: "Mentira, mentira, pois Jones [era o nome do cachorro] nunca dormiu uma noite fora de casa, como posso provar facilmente".

O delegado Wyatt Earp indagou como é que ela podia provar uma coisa destas. Ela não titubeou e informou que autorizava seu marido a empinar apenas duas doses de Jack Daniels por noite e, poderia ser medido facilmente, havia apenas uma dose a menos na garrafa. Earp anuiu e disse não mais desconfiar desta versão, que passava a alardear como a versão verdadeira. Mas, astuto que era, indagou retoricamente: "Então quem era o cachorro?". Todos consideraram a pergunta verdadeira e não mais se deixaram evadir do tema central. Afinal Julie era ou não a própria mãe de Tom e do cachorro?

Esta, ao ser indagada por um cliente do McDonalds, por meio de uma liminar, limitou-se a plantar uma bananeira. Vendo isto, os policiais, apressadamente descidos dos carros de sinetes azuis, invadiram a casa, imobilizando o cachorro. Vendo aquela facilidade em lidar com seres irracionais, um dos policiais, já de olho lúbrico voltado a ela, pediu-lhe aulas particulares de tai-chi-chuan. Julie ficou de pensar.

DdAB
Imagem daqui.
P.S. do dia seguinte: esqueci de falar, como planejara, em Tom Jones cantor e no "Tom Jones" de Henry Fieding.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Hai-kai n. 80


Querido diário:

Disse Millôr Fernandes no hai-kai n. 80 da página 86 do livro da L&PM Editora:

MILLÔR (portanto...)

A ALEGRIA
É TODA FEITA
DE MELANCOLIA

Planeta 23 trova com:

De melancolia
encheu-se a fogueira
que tão longe ardia.

DdAB
Imagem daqui. Pedi ao Google "melancolia" e ele deu-me este gato.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Meritocracia e Emprego


Querido diário:

Falando no mercado de trabalho, não sou completamente contrário às gratificações funcionais por desempenho. Sou um tanto... Penso que este tipo de destaque para os "melhores" deixa os "bons" e os "normais", de sua parte, bastante insatisfeitos. Tenho em certa medida alguma experiência pessoal com este tipo de sentimento, ou sentido por mim ou percebido existir em terceiros. E tenho como "base teórica" a teoria da Eficiência-X de Harvey Leibenstein: existe uma folga organizacional em tudo que é organização, pois -digo eu- "ninguém dá duro o tempo inteiro", nem o dono.

É bem verdade que ver incompetentes serem premiados deixa qualquer um chateado, exceto os incompetentes que, também, se tornam objeto do ódio dos melhores, dos bons e dos médios.

O que ocorre no mundo brasileiro contemporâneo é que há mecanismos que não são utilizados para punir os incompetentes, especialmente no setor público (esse pobre abandonado). No setor público inclusive existe o mecanismo de rebaixamento ("reclassificação"). Então:

.a. ser rebaixado
.b. não ser promovido
.c. ser demitido.

Estas punições já são de bom tamanho. A promoção pode representar algum ganho salarial, mesmo sem - como no governo - mudança de cargo.

Quando se fala em flexibilização das leis trabalhistas, tremo dentro de meu pijama, pois penso que vem pau em cima da classe trabalhadora. Uma vez que uma reforma social decente requereria a instituição da renda básica universal no valor de R$ 4.300 mensais (valor do auxílio moradia dos juízes e assemelhados), poderíamos esquecer muitos desses direitos de manutenção do emprego e aquela conversa de investimentos que geram "renda e emprego". Passaríamos a ter os dois subornos: um, de manter-se fora do mercado de trabalho e, outro, de ser atraído para ele.

DdAB
P.S. só que com este auxílio moradia expandido para todos os brasileiros chegaríamos à despesa de R$ 4,6 trilhões, ou seja, praticamente todo o PIB. Esta aritmética tem duas implicações: não dá para iniciar a renda básica da cidadania com este valor e, mais importante, não dá para pagar auxílio moradia para ninguém, já que não é possível pagar para todos!

Imagem: aqui. Peguei este canguru para ilustrar a postagem, pois parece que ele vive uma vida mansa.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Hai Kai n. 79, digo, 78 da página 84


Querido diário:

Depois do hai-kai n. 78, encontrei o n. 79. Ou melhor, enganei-me e chamei o 79 de 78, agora vem o  78 e vou chamá-lo de 79! O de hoje está na página 84 do livro da L&PM. E o de ante-ontem está na página 85. E quando chegarmos nos hai-kais 84 e 85? Que será de mim? E deles? (Torno-me filosófico aos finais de ano).

MILLÔR

NOS DIAS QUOTIDIANOS
É QUE SE PASSAM
OS ANOS.

Planeta 23

Se passam os anos,
Cabe ao leão fazer a trapaça
Do atraque na garça.

DdAB
P.S. Aqui, há novos golpes: iniciar a trova no segundo verso e trocar o pronome por preposição. Ou não?

Imagem daqui. Pedi "garça que se esgarça". A primeira que o Google Images deu foi uma garça em posição de sentido, algo assim. Esta está lá pelo meio e vem de um simpaticíssimo site.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Chimpanzé Carregando Passarinho de Volta ao Ninho

Chimpanzé Dando de Mamar a Passarinho no Alto da Árvore
Chimpanzé Carregando Passarinho para o Ninho no Alto da Árvore

Querido blog:
Bem, parece que é exagero, não se trata de passarinhos. E de onde vêm os passarinhos? No outro dia, fui informado que, em um livro de de Waal, vê-se a foto de um chimpanzé carregando um passarinho de volta ao ninho de onde o infortúnio o projetara. Dei umas olhadas na internet e nada achei. Mas tinha as legendas prontas (rsrsrsrs) e não resisti.

E quando falei isto? Pelo menos na grande noite de 27/nov/2014 -quinta-feira recém ida do mês ido- quando discuti com advogados, psicólogos e outros profissionais associados à mediação de conflitos. E, naturalmente, outra gente, uma boa meia centena.

Essencialmente o que falei foi a adaptação do que poderíamos chamar de minha aula magna de um curso de nível avançado de microeconomia. Pelo lado da teoria da escolha social, eu problematizava a motivação das ações humanas: altruísmo ou egoísmo. E, naqueles ambientes, cheguei à conclusão de que dois terços das ações humanas são altruísticas e apenas um terço é que se determina pelo egoísmo. Se parar de beber, talvez um dia publique aquelas notas, ligeiramente expandidas, num livreco com um título do tipo "Ensaios sobre Dilemas Humanos".

E que disseram? Disseram que o tema da teoria dos jogos é interessante e dizem querer saber mais a respeito. Eu, claro, falava do livro que fiz em coautoria com Brena Fernandez (aqui). E que mais posso dizer? Que é um recorte de bom-tom para o Natal/2014 que este livro seja dado de presente a amigos, amigos secretos e até inimigos!

DdAB
Imagem daqui. E daqui.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 78 (corrigendum: é o 79, da página 85)


Querido diário:

No hai-kai n. 78 do livro de Millôr Fernandes editado pela L&PM, lê-se

AS NUVENS, MEU IRMÃO,
SÃO LEVIANDADES
DA CRIAÇÃO.

Com este mote ("da criação"), o Planeta 23 trovou:

Da criação
A gaivota não é mais
Que outra amostra.

DdAB
Imagem aqui.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Equilíbrio: um conceito de esquerda


Querido diário:

Um radical macroeconômico diz que a macroeconomia é o estudo de três e apenas três agregados econômicos, acrescentando -por redundância- que os agregados macroeconômicos são três e apenas três: produto, emprego e preços. Um macroeconomista mais meio termo acrescenta outros preços e quantidades nos mercados macroeconômicos. E quais são estes mercados? O de bens, o de dinheiro (seu acoplado, o de títulos), o de câmbio (acoplando-se aos mercados de dinheiro e títulos) e o de trabalho (ou os mercados de todos os recursos).

E os mais exaltados ainda consideram outras variáveis, como o consumo e o investimento, índices de confiança do consumidor e da bolsa de valores, grau de utilização da capacidade, e por aí vai..

Uma vez que, ex post, sempre os mercados encerrarão o dia com as vendas igualando as compras, com a oferta igualando a demanda, tivemos "no dia de ontem" um guia para os níveis das variáveis macroeconômicas que poderiam atender aos anseios dos agentes, ou seja, alcançar os níveis que conferem equilíbrio nos montantes planejados por eles. E por que nos interessa conhecer esses níveis planejados? É que, comparando-os com os níveis realizados, estaremos capacitados a entender as tensões existentes nos mercados macroeconômicos e, com sorte, poder alongá-las.

DdAB
Imagem daqui. Penso que aprendi este conceito e nem sei mais se tem figura no livro de microeconomia de Levenson & Solon que li ainda em meus tempos de professor de micro da Unisinos. É tempo!

P.S. no dia 7/dez/2014 andei dando uma editadinhas lá em cima e aqui embaixo.

P.S.S. E que me levou a falar em conceito de esquerda para esta postagem? Primeiro que sou da Paz. Segundo que temo por uma radicalização na política brasileira que, se tudo der certo para os radicalizadores, teremos uma boa gerra civil, como o Líbano, a Irlanda do Norte, a Síria, o Iraque, essa macacada toda. E daí? Terceiro: se levarmos a sério o conceito de equilíbrio ex ante, tenderemos a ajustar uma taxa de câmbio que equilibre o mercado de bens e serviços internacionais (isto é, zerar o balanço de transações correntes). E, com isto, entra em ação a lei do preço único e, com isto, os salários, assim como todos os demais preços da economia, entrarão em linha com os preços e salários internacionais. Quer algo mais à esquerda do que isto?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"Ajuste macroeconômico: de esquerda ou de direita?"

Querido diário:

Como sabemos, volta e meia escrevo para a coluna das opiniões do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Brasil. De vez em quando, eles publicam. Pois hoje rolou o seguinte:

AJUSTE MACROECONÔMICO: DE ESQUERDA OU DE DIREITA?

Dias atrás, Zero Hora falou nas “ideias de (Joaquim) Levy”, o anunciado ministro da fazenda de 2015. Ao lê-las, torna claro haver políticas de estabilização macroeconômicas de direita e de esquerda. Não é difícil diferenciá-las em alguns casos.

Primeiro: Levy diz ser “contrário à política de valorização do salário mínimo adotada atualmente pelo governo, que não leva em consideração avanços na produtividade, e sim o ritmo da economia e da inflação.” Este ajuste é de direita, pois não existe nenhuma lei jurando que o salário deve crescer alinhado com a produtividade. E se não crescer? Se crescer menos, aumenta a participação dos capitalistas ou do governo no PIB. Se crescer mais, aumenta a participação dos trabalhadores. Há algo de errado com isto? A direita acha que sim. O aumento do salário mínimo tem a previsível consequência de reduzir o emprego, mas carrega a enorme virtude de forçar as empresas a fazer crescer a produtividade da fábrica, levando a menores preços. Os arautos do ajuste de direita não veem.

Segundo: “Levy defende benefícios e incentivos concedidos a grupos economicamente semelhantes, desde que ‘transparentes no orçamento público’ e acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho.” Há uma assimetria com a crença de que trabalhador não pode ganhar mais que a produtividade. Tais grupos podem, “desde que acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho”, ganhar benefícios e incentivos. Quais seriam estes “benefícios e incentivos”? Ou se está demarcando a posição de direita?

Terceiro: “Levy afirmou que a recente alta na taxa de juro é ‘positiva na medida em que sinaliza compromisso com a estabilidade de preços’”. O ajuste necessário neste país de políticos de direita e outros da esquerda arcaica requer ação sobre as principais variáveis-síntese macroeconômicas: câmbio, déficit público (impostos regressivos e gasto corrompido), salários e, como resultante, a inflação. Parece óbvio não haver mágica para segurar a inflação. O que se pode fazer é elevar os ganhos dos rentistas _ ajuste de direita _ ou iniciar uma reforma fiscal de vulto, reduzindo os impostos indiretos e elevando o imposto de renda dos mais ricos, ajuste de esquerda.

DdAB
A imagem veio daqui, onde se encontra o artigo, além de publicado no jornal propriamente dito. A grande questão é se me considero revolucionário por trazer este tipo de consideração aos "formadores de opinião" da província do Rio Grande do Sul (um nível de organização político-administrativa do Brasil que recomendo ser extinta, em um projeto de esquerda). Deste modo, com ela ir-se-iam a assembleia legislativa (uma enorme crise de moralidade por dia, praticamente) e o senado da república (uma crise similar por segundo).

p.s. O leitor diligente terá visto que no motor de busca do site consta a expressão enviesada ideologicamente "duilio para ministro da fazenda!", bem assim, com o sublinhadinho com a cor vermelha e com ponto de exclamação!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A Rádio Pampa, Myself e o Governo


Querido diário:

Sabe meu acompanhante neste blog que boa parte dos comentários que por aqui registro inspiram-se nas notícias que leio no jornal Zero Hora, na Carta Capital e, apenas secundariamente, em outras fontes. Às vezes, há notícias -raramente- que ouço no rádio, em geral, quando estou dirigindo pela cidade. Por falar em cidade, dei-me conta de que quase nunca falo naquele tipo de notícia que não chama a atenção ("cachorro morde homem"). Pois bem, hoje parece que tudo andava normalmente pela cidade: ruas com um número razoável de buracos, lixo em quantidade moderada, mendigos, pedintes, um sol quentinho, algumas nuvens, essas coisas bucólicas do quotidiano diferente da turma da Síria.

Voltando ao tema das outras fontes, novamente ouvia a Rádio Pampa (agora em FM, 96,7). Havia um entrevistado, aparentemente um cientista, um engenheiro, muito bem falante. A certa altura, criticava a incúria e assimetria governamental que dá multas discricionárias. Deu como exemplo o fato de que sua família depositara um saco de lixo esperando a coleta, tal não foi feito, o saco foi despedaçado (cães vadios? intelectuais vadios? prefeito vadio?), a prefeitura não veio do mesmo jeito. Aí pensei: precisávamos ter um mecanismo que permitisse que também nós tivéssemos direito de multar a prefeitura. Mal pensei isto, um locutor coadjuvante do programa de Beatriz Fagundes disse precisamente a mesma coisa.

E mais do que em meus próprios pensamentos originais, mergulhei no que poderiam ser os pensamentos do rapaz. E pensei que o problema que este tipo de solução para os problemas da sociedade esbarra no verdadeiro problema brasileiro: a incúria do sistema judiciário nacional. Pudera, ganhando R$ 4 mil de auxílio moradia, os juízes devem passar todo o tempo cuidando da casa.

E como resolver o problema central da vida comunitária brasileira contemporânea. De que adiantaria processarmos a prefeitura por incúria naquela questão do saco de lixo não recolhido até furar e no lixo deixado ficar? Tínhamos que dispor de um sistema judiciário mais célere, de modo que pudéssemos agir contra a incompetência do governo, inclusive juízes, promotores, delegados e exatores. Incompetência governamental? E que dizer da secretaria da receita federal (também salários do clube dos bem-aquinhoados) que nada descobriu sobre enriquecimento ilícito daquela turma da Petrobrás, das empreiteiras, dos tesoureiros dos partidos políticos? Dizer: pau, pau e pau!

DdAB
Imagem daqui.
P.S. Fonte do "pau, pau e pau!" aqui.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Hai-Kai n. 77


Querido diário:

No Hai-Kai n. 77, MILLÔR diz:

PELO PRADO
VAI O TOURO
APOSENTADO.

E o Planeta 23 trovou:

Aposentado
Termina o homem
Seu vero fado.

Então começaram os estrangeirismos nas trovas, não é mesmo?

DdAB
Imagem daqui. Pois olhem onde é que me meti: no próprio site de Millôr. Pedi ao Google Images simplesmente "vai o touro aposentado" e olhei a imagem, achei-a linda, achei que havia arte por lá. E, pimba!, era ele!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Fetiche do Investimento


Querido diário:

No número de 15 dias atrás, a página 40 da Carta Capital tem uma entrevista com David Kupfer, festejado economista da UFRJ. Ele sustenta que o grau de utilização da capacidade instalada na ... (índústria? economia?) é de 81%. Em outras palavras, se for elevado o emprego em certo percentual, ainda há espaço para o uso de mais 19% da capacidade instalada, sem recorrer a horas extras das máquinas, equipamentos, instalações, etc.

Em compensação, a balança comercial brasileira encontra-se no desvão deficitário há uns bons meses/anos. Em compensação, nestes debates modernos sobre desindustrialização, nada se fala na balança de serviços, também deficitária. Nada se fala que a Starbucks internacional poderia ter sido uma empresa brasileira, de tanto café que aqui dá há tanto tempo. Ou, ainda mais romântico, uma rede de cafeterias do clube de cafeicultores do terceiro mundo, como a Colômbia e o Quênia, sócios-fundadores e o Vietnam, sócio novato. Por que não? Pois nada se fala no Brasil sobre educação, capacidade empresarial, formação de empresários, busca de mercados externos. Fala-se, claro, em industrialização, favores aos industriais, tentativas de montar uma burguesia nacional industrial.

Hoje também se fala em reindustrialização como consequência daquilo que se batizou localmente (copiando erroneamente o termo britânico) como desindustrialização. Parece óbvio que o que tem ocorrido com a indústria brasileira é muito mais consequência de fatores externos do que internos. Mas não podemos esquecer os internos, como o câmbio escalafobético, os impostos escalafobéticos ao quadrado, as políticas industriais que ajudaram a montar uma distribuição de renda escalafobética ao cubo. Antes, já falara em deseducação, conceito a que não se dá muita bola. No parágrafo anterior, falo em resservicização, pois há tanta coisa a se ganhar mais dinheiro nos serviços internacionais (viagens, seguros, fretes, assistência técnica, e por aí vai).

Resumo da ópera:

.a. o Brasil não precisa de nem um átomo de investimento para aumentar a produção em pelo menos 25% (sem horas extras das máquinas, apenas atraindo mais trabalhadores ao recesso da fábrica).

.b. ou seja, o PIB cresce no caso de crescerem, além do investimento e independentemente dele quando há capacidade ociosa, o consumo das famílias, o consumo do governo e o saldo do balanço de pagamentos em transações correntes.

Como diz um menino de rua que me engraxa sapatos e tem cheiro de cola de sapateiro: "é por isto que o Brasil não vai pra frente".

DdAB
A imagem daquele cheiroso cafezito veio daqui. Quanto já estaremos pagando em royalties para as lojas já instaladas in Brazil?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A Lei da Oferta e Procura e o Câncer


Querido diário:

O jornal que leio diuturnamente e reputo de direita e se chama Zero Hora, e às vezes escrevo 'Zero Herra' tem um caderno dominical intitulado PrOA, creio que é Porto Alegre de proa, ou seja, de primeira. O Aurelião -by the way- fala em proa como a) a parte anterior da embarcação, b) a frente de qualquer coisa e c) presunção, vaidade, bazófia, jactância, fumaça.

Imagino que a acepção escolhida seja a segunda, não é mesmo? E que há de bom num caderno de alto coturno? Artigos assinados. Em particular, de hoje, página 11, Cristina Bonorino escreve sob o título de "A Volta por Fora". Sabemos, liminarmente, que a volta por fora é mais longa que a volta por dentro (até filosofei a respeito aqui). E quem disse que queremos a volta mais curta? Às vezes queremos mesmo é a volta mais longa, a volta com mais meandros, a volta com mais percalços. E nem sempre mais longa é mais percalços. Então a volta por fora de Bonorino é que, para lidar com o câncer, há lindas perspectivas. O enorme e estrondoso sucesso de hoje no combate à doença milenar (dizia-se ser a doença do século findo) é, já que câncer é reprodução descontrolada de células em uma área do corpo, é impedi-la à reprodução. E qual é a volta por fora? É fortalecer "a ativação da resposta imune", ou seja, faze que o sistema imunológico, que -bem entendo- dá conta de muitos cancerzinhos, liquidando-os, muitas vezes vacila e acaba envolvido na trama malévola. E daí? Bonorino:

No nosso corpo. as células que se dividem mais rápido, depois de um tumor, são as células do sistema imune. Nossas defesas funcionam como um mercado econômico regulado por oferta e demanda. As células imunes se dividem quando temos uma infecção, e voltam ao número normal quando não são mais necessárias. Ao impedir a expansão do câncer, algumas drogas impediam também as nossas defesas.

E onde está o equilíbrio? As células voltam ao equilíbrio quando deixam de ser necessárias. Fiquei pensando: e eu que disse que a lei da oferta e procura é mais imponente que a própria lei da gravidade? Exultei, claro. Mas tem mais. Bonorino:

Nos últimos 10 anos, depois de mais de um século de debate, surgiu o mais revolucionário tratamento antitumoral: a ativação da resposta imune.

Não falei? Mas não é o autoelogio que desejo deixar registrado. Esta analogia de oferta e demanda tem outro paralelo: a política econômica. Se a natureza criou o tumor, teria o homem o óbvio direito universal de mudar a natureza. Não foi para isto que o velho Marx disse que "ao transformar a natureza o homem transforma sua própria natureza"? Isto é política, sem ladrões, claro!

E aí fiquei pensando sobre o que pensam sobre mim os leitores do blog e os ouvintes de minhas perorações na barbearia do bairro. Digo considerar um erro grosseiro dos governantes acharem algum brilho na criação de "política industrial", política voltada ao grande capital, política ainda tosca, pensando (seus formuladores) que poderemos criar uma burguesia nacional vigilante que aproveitará as oportunidades dos prices got wrong pelo governo. Mas eles/ouvintes/leitores terão bem claro que sou a favor de uma política que não carregue o viés nacionalista de acordo com a qual o governo encarregar-se-á da provisão (eu não disse produção) de bens públicos e bens de mérito. Cheguei a sugerir que a provisão pode ir elevando-se na linha das necessidades maslowsianas, chegando-se ao socialismo (epa!) nas estruturas de consumo relevante (e.g., educação, alimentação, vestuário, iatismo). Mas é apenas na provisão desses bens que apoio a política governamental? Claro que não, pois também a apoio nos fronts da redistribuição, do uso da própria política de fixação de impostos indiretos no sentido de diminuir os bens de demérito. E os impostos de renda progressivo e sobre heranças também progressivo fazem parte do pacote.

DdAB
A imagem é daqui. É um fractal ou um avião, um pássaro ou ainda o Super-Homem? Ou apenas um brócoli?

sábado, 29 de novembro de 2014

O Ajuste: grupos economicamente semelhantes


Querido diário:

Ontem li o jornal ZH cedinho e ia direto postar coisas. Não fi-lo porque viajei-me, mas agora voltei-o! Meu comentário seria e é agora sobre a festança organizada em torno da divulgação do trio de responsáveis pela fazenda-banco/central-planejamento, tidos como o cerne dos decisores da área econômica. Joaquim Levy, Alexandre Tombini e Nelson Barbosa.

Meu leitor sabe que há algumas coisas que fazem meu sangue ferver. Primeira, claro, é acharem que a solução de algum problema econômico encontra-se na redução do horizonte de vida da população ou, por menos que seja, dos pobres. Depois, quando se fala que tal ou qual empreendimento "vai gerar emprego e renda". Para ir ficando por aqui, também ferve-me o sangue quando alguns dizem saber qual o desejo d'"os mercados".

No primeiro caso, costumo alardear o primeiro teorema do PIB ("o PIB representa 100% do PIB"), ou seja, o problema das gerações futuras será definir quanto destinar para jovens, trabalhadores e velhos. Não parece uma ideia sensata para o século XXII pensar-se que o "déficit do tesouro" para o pagamento de seres humanos é um problema. Segundo caso: óbvio que todos querem renda e apenas os que não têm acesso a renda do capital é que têm que suar para ganhar seu dinheirinho. Agora, uma empresa que gera alguma renda e montes de emprego é uma irresponsável, improdutiva e destruidora do bem-estar da coletividade. Quer colchão para associar tenuemente renda e emprego? Pois empregue as pessoas no serviço municipal, cuidando de crianças, velhos, fazendo jardins nos canteiros urbanos, essas coisas. Terceiro: os mercados produzem bens regulares (arroz integral), bens de mérito (anestesia, educação) e bens de demérito (cachaça). Agora, mercado não produz bens públicos e nem tampouco bens de mérito em quantidade desejada pela sociedade. Estará errada a sociedade em desejar mais educação ou o mercado em ser incapaz de provê-la? Cada uma (e são três)!

Então ZH na página 12 fala nas "ideias de Levy". Ao lê-las, tornou-se claro para mim que existem ajustes macroeconômicos de direita e de esquerda. E não é difícil identificar uns e outros Vejamos alguns casos.

Primeiro: diz ZH que Levy diz ser "contrário à política de valorização do salário mínimo adotada atualmente pelo governo, que não leva em consideração avanços na produtividade, e sim o ritmo da economia e da inflação." Claramente isto é do ajuste de direita, pois não existe nenhuma lei sagrada que diz que o salário deve crescer alinhado com a produtividade. E se não crescer? Se crescer menos, aumenta a participação dos capitalistas ou do governo na renda. Se crescer mais, aumenta esta participação dos trabalhadores. Há algo de errado com isto? A direita acha que sim. O aumento do salário mínimo tem uma certa desagradável tarefa de reduzir o emprego, mas tem a enorme virtude de forçar as empresas a (despedirem trabalhadores) fazer crescer a produtividade da fábrica. Os arautos do ajuste de direita não veem isto.

Segundo: "Levy defende benefícios e incentivos concedidos a grupos economicamente semelhantes, desde que 'transparentes no orçamento público' e acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho." Essa dos grupos economicamente semelhantes deixou-me a pensar. E aproveitei e pensei na assimetria de achar que trabalhador não pode ganhar mais que a produtividade, mas tais grupos podem, desde que acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho, ganhar benefícios e incentivos. É de direita!

Terceiro: "Levy afirmou que a recente alta na taxa de juro é 'positiva na medida em que sinaliza compromisso com a estabilidade de preços'". Também fiquei pensativo, pois o ajuste necessário neste país de políticos de direita (not to speak of  stealing/robbing habits) e outros da esquerda escalafobética, faz-se necessária a ação sobre as principais variáveis síntese macroeconômicas: câmbio, déficit público (impostos desabotinados e gasto agatunado), salários e, como resultante, a inflação. Parece óbvio que não tem como segurar a inflação. O que se pode fazer é elevar os ganhos dos rentistas -ajuste de direita- ou meter uma reforma fiscal de vulto, metendo imposto de renda nos mais ricos, ajuste de esquerda.

Apoplético, nem vou comentar mais o que li. Nem comentar o que espero para 2015. Só posso saudar minha própria sabedoria ao criar o silogismo modo barbaquá:

Premissa maior: Todo político é ladrão
Premissa menor: Ora, todo ladrão é político
Conclusão: Logo todo político e todo ladrão são farinha do mesmo saco.

DdAB
Imagem aqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Capitalismo Socialista


Querido diário:

É socialista, pois seu índice de desigualdade na distribuição da renda é 0,25 (Gini), um dos três menores do mundo. É capitalista, pois o Gini da distribuição da riqueza é de mais de 0,8, talvez perdendo apenas para alguns países africanos... É a Suécia.

No delicado momento vivido pelo Brasil, é crucial que se entendam os objetivos nacionais mais amplos e que se os discutam amplamente. Respeitando o primeiro princípio da sociedade justa, podemos mudar o que disse John Rawls sobre a liberdade para talvez uma unanimidade sobre um dos objetivos centrais de uma sociedade moderna: garantir a todos a maior qualidade de vida compatível com o dos demais. Considerando que um escravo não desfruta da maior liberdade possível, descarta-se o uso deste “colaborador” para elevar o bem-estar individual.

A visão de que o livre funcionamento do mercado pode levar a sociedade a alcançar o maior bem-estar é minoritária entre os estudiosos do assunto, a maioria deles insistindo na criação de políticas compensatórias por parte do governo. Num país como o Brasil de enorme desigualdade (Gini da renda duas vezes o sueco), falar em governo e em políticas compensatórias leva a que se fale em políticas fiscais e monetárias.

A ação fiscal reside no gasto público e tributação. No primeiro caso, o governo precisa voltar-se à provisão de bens públicos (segurança, saneamento ambiental) e bens meritórios (educação, ginástica), pois os gastos beneficiam mais que proporcionalmente à renda os menos aquinhoados. No caso da política tributária, trata-se de trocar a estrutura da arrecadação, tirando o peso dos impostos indiretos (ICMS, IPI) e carregando nos diretos (renda e patrimônio). Uma política monetária que favorece o igualitarismo é o crédito orientado para pequenos empreendimentos, inclusive com bolsas de estudos voltadas à formação de empreendedores.

Hoje em dia, a evidência empírica tem indicado que os países igualitários têm melhor desempenho do que os menos. Em uma economia dinâmica, há mais empregos, menos assaltos, mais escolas, menos presídios. E até os presídios, na sociedade igualitária têm a vantagem de gerar empregos para o guarda e o zelador, o dentista e o assistente social. Sabe-se como chegar “lá”. O problema brasileiro é que governo e oposição enfrentam-se com tal radicalismo que não conseguem fazer frente única para os verdadeiros temas relevantes.

DdAB
Imagem aqui.