quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ordem Alfabética

Querido diário:
Recebi a seguinte e estranha mensagem de um ser intraespacial:

Primeiro, segundo terceiros, na quarta(-feira), a quinta faz o sexto leilão.

Pensei: devo estar ficando louco. Isto parece filosofia de político brasileiro. Ainda tive tempo de indagar o que é "quinta" e a resposta foi: grande propriedade rústica com casa de habitação. Foi daí que entendi um dos sinônimos do congresso nacional contemporâneo: quinta dos infernos.

DdAB

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Providências para a Previdência

Querido diário:
Meu título beira o lugar comum, tanto quanto há bobeira na cabeça de uma boa parte da malta. Os acionistas do Planeta 23 sabem que odeio a ideologia de que o mundo entrará em caos em resposta ao envelhecimento da população. Descontados os palpites neo-malthusianos de uma turma que não consegue conceber o projeto humano como dando certo e, nesta linha, de estagnação tecnológica, expansão do estrago ambiental, tem ainda uma turma que acha que o primeiro teorema do PIB é bafo ("o PIB abarca 100% do PIB"). Que o problema distributivo não tem saída, pois as frações em que o PIB se distribui são mais eternas do que os prótons de hidrogênio.

Segue-se logicamente que no dia 17/out/2013, li -em um consultório médico- trechos de uma entrevista que Herr Walter Laqueur, "historiador alemão naturalizado americano", deu naquelas páginas amarelas de um exemplar do início de 2012. Na p.18, arranquei os cabelos ao ler que "[a]s pessoas vivem mais e a parcela da população economicamente ativa diminui, o que explica em parte o fato de o sistema de bem-estar social ser cada vez menos viável."

Obviamente empinei um copo (cheio até à borda) de cachaça. Supondo que o PIB siga crescendo e sempre representando 100% de si mesmo, que o PIB per capita siga crescendo mais do que a população, não vejo como mantermos o atual sistema de financiamento do estado de bem-estar social. O que vejo é o contrário: muita desigualdade gera desconforto social e até guerra civil. A menos que as regras da distribuição do PIB sejam modificadas.

E digo agora a mais estonteante de todas as verdades (hipóteses) que já apresentei neste Planeta 23. Ou já disse? O fato é que já faz muito tempo que penso nisto. Tendo em mente os cinco quadrantes de uma matriz de contabilidade social, tal como expressa no afamado livro "Mesoeconomia; lições de contabilidade social" (aqui), observamos (no caso compacto) cinco cifras:

.a. o montante de transações intersetoriais (produtores e produtores),
.b., .c. e .d. o valor adicionado mensurado por meio de suas três óticas: produto, renda e despesa e
.e. o montante de transações interinstitucionais (famílias e governo, famílias e famílias)

E o que digo é que a marcha civilizatória ocorre no sentido de hiearquizar estas três cifras da seguinte maneira:

.a. < .b., .c., .d. < .e.

ou seja, cada vez usam-se menos insumos para gerar qualquer unidade de produto, e cada vez as transações interinstitucionais tornam-se mais substantivas, até maiores do que o afamado PIB.

E, de birra, ainda temos por aí um libelo contra o endeusamento do setor industrial: o bom mesmo é produzir sem insumos, logo a encrenca vai aos serviços (e que o próprio valor adicionado dá lugar a transferências e impostos diretos). Muito técnico? Leia o livro!

DdAB
A imagem veio daqui.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Hoje a Política, Amanhã o Dilúvio

Querido diário:
Acho que fazer um bom jornal é mais difícil do que fazer um arranha-céu. (Frase de Le Corbisier relativamente à feitura de uma boa cadeira, hehehe). Leio Zero Hora diariamente, um jornal que está longe de permitir sentarmo-nos sobre ele. A agenda dele nem de longe arranha o que eu gostaria de ver noticiado diariamente, internacional, Latino-América, nacional, local. E devo admitir que fazer o jornal da segunda-feira é complicado: as coisas não acontecem no fim-de-semana.

Mas as notícias aparecem de qualquer jeito. Talvez desenvolvimentos da semana que findou tenham trazido uma notícia que os governantes (deputados e outras criaturas desprezíveis) vão fazer uma emenda constitucional proibindo que os resultados das pesquisas de opinião sobre intenção de voto sejam divulgados a 15 dias das eleições.

Que posso dizer? Sem noção! Só bebendo! Ladrões!

DdAB
Imagem: aqui.

sábado, 26 de outubro de 2013

La Salle n'est pas propre

Querido diário:
Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Esta imagem saquei-a da Travessa La Salle, esquina com Rua Botafogo, de Porto Alegre - América do Sul (CEP 90130-120). Parece evidente: um pinta estirado, distante (enquanto pôde, centímetros de distância) do lixo, algum dele compartilhado prandialmente pelas pombas. Era cerca de meio dia de 23/out/2013, no horário brasileiro de verão.

Mas o tal dito da equivalência entre imagens e palavras não diz tudo: à esquerda de quem olha a cena, na outra esquina, há uma edificação nova, mais uma casa da Confeitaria Quero Mais (aqui). Naturalmente, um  ambiente de limpeza como o da confeitaria não combina com aquela lixarada que o departamento municipal de limpeza urbana de Porto Alegre deposita (ou deixa depositado) regularmente no local. Inclusive o lixo humano. A miséria inspira-me a alma, com este:

Hai-Kai ao Prefeito:
Lixo humano é
Lixo desumano:
Lixo Urbano.

Um dia, um rapaz sem noção disse que essas pessoas devem ser deixadas na rua, pois têm direito de ir e vir. Chamei-lhe (em termos candentes) a atenção para o raso conteúdo lógico de sua assertiva: direito de ir e vir não é direito de ficar, menos ainda ficar deitado, para não falar em ficar deitado à beira do lixo. As pombas, pelo que pude observar, encontram-se ao abrigo da lei, pois nenhuma estava parada.

Fiquei tão chocado com a falta de educação do departamento de limpeza e seus acólitos, inclusive o prefeito que fiz um novo hai-kai:

Sem título:
Cumpre nos preocuparmos
com a falta de educação
do prefeito e seus ermão.

DdAB

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Autoridades

Querido diário:
A p.46 de Zero Hora de 22/out/2013 (coluna 'Almanaque Gaúcho') informa a seguinte e preocupante "Piada do Dia":

Um amigo conta para o outro:
-Na minha casa tem um quadro de um cacho de uvas tão bem pintado que os pássaros chegam a vir bicá-lo.
[E o outro diz, como uma resposta:]
-Pois eu tenho um melhor. Representa um cão tão perfeito que as autoridades me obrigaram a vaciná-lo.

Eu fiquei pensando no fim-da-picada, como tem lei e regulamento absurdo no Brasil. E certamente esta é uma das razões da superioridade moral dos sem-noção. Talvez seja precisamente esta a razão de, nestas plagas, haver mais ladrões per capita do que em qualquer outra quadratura do universo expandido!

DdAB
Achei a piada no Google/Images, que remeteu para este site aqui. E aquele indicado no rodapé da piada é estranho, hoje anunciando que está à venda. Sobre vendas oportunistas (e não digo nada sobre este caso), parece que foi o próprio Obama que não pôde usar algo tipo um www.obama.com, pois já estava ocupado. E eu pensei (mas não disse a ele) que deveria existir um domínio tipo www.obama.pol, que não seria dominado por dominadores, ou seja, os políticos.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Dormitório e suas Filiais

Querido diário:

Estávamos em plena av. Borges de Medeiros, em Porto Alegre. Como sabemos, mais adiante, do outro lado da rua (talvez em ambos, que circulo apenas na esquerda, quem desce), há o afamado Viaduto Otávio Rocha. Nele, a matriz do "Dormitório Borges de Medeiros" tem sua sede. São uma boa meia dúzia de colchões ocupadas por trabalhadores precários ou mesmo indivíduos precários, numa cidade de prefeitos precários e CCs abundantes.

Esta pessoa, sentada em seu colchãozinho, em plenas 10h00 da manhã é um sinal de que todo anda a descontento na administração da cidade, do país e do planeta.

DdAB

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Declaração da Av. Independência

Querido diário:

A Avenida Independência, em Porto Alegre, já abrigou lindas casas. Dizem-me que eram as casas dos pecuaristas gaúchos dos anos 1930. Todas (quase) foram demolidas pelo BNH ou seus acólitos, dando lugar a disgramados edifícios. Pois não é que, há dias, eu por lá circulava on foot e vi a imagem que nos encima? Capturei-lhe a alma, com meu telefoninho de meio salário mínimo.

Não tive coragem de abordar o rapaz e cheirar-lhe a boca, a fim de constatar se estava apenas bêbado ou o quê. Ele parecia confortável naquela posição. De frente, eu bati a foto, observando que transeuntes sem cabeça (que vomitam fogo pelas ventas?) davam-nos as costas... Quem não ficou no lado confortável da cidadania fui eu mesmo. E, claro, incriminei o prefeito Fortunatti, que deveria zelar pelas ruas da cidade, inclusive tentando o impeachment do governador e do (no caso, da) presidente da república, não é mesmo?

DdAB
P.S. o marcador oficial desta postagem é Lixo Urbano, mas também lhe cabem algumas drágeas de Besteirol, não é mesmo?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Função de Produção de Leontief Aplicada

Querido diário:
Como sabemos, a função de produção de Leontief é um instrumento de apoio teórico ao modelo de insumo-produto. Parece até que já andei lendo que não foi Leontief o primeiro a lançar mão dela, mas certamente ele é o primeiro que a colocou na matriz de insumo-produto. Para quaisquer dois insumos, digamos que na função de produção do produto x, temos:

x = f(K, L)
ou
x = min(K/k, L/l)

onde K e L são os insumos de capital e trabalho e k e l são os coeficientes fixos. Se k = l = 1, ocorre o seguinte, com o que normalizaríamos as unidades de medida do capital e do trabalho:

x = min(K, L)

Se por exemplo K = 5 e L = 7, o nível mínimo de produção será de 5 unidades. Se K = 5 e L = 25, idem. Se K = 5 e L = 4, a produção será de 4 unidades. E assim por diante.

E que aconteceu na página 4 do jornalzinho Apufsc Sindical deste mês de outubro? Denuncia-se que o Hospital Universitário da UFSC tem 90 leitos fechados, digamos, K e por quê? Pois L é muito baixo. O neoliberalismo ou o que seja não quer renovar os quadros do hospital, pois parece que é proibido pensar em cobrar imposto de renda para resolver os problemas de alocação do gasto público de caráter redistributivo, no Brasil. Aqui Leontief morreria de ódio, embora ficasse satisfeito por ver seu aparato teórico permitir-nos perceber que há muita pouca vergonha na sociedade brasileira contemporânea. Ou tu acha que ele ia dar moleza para esta sociedade escalafobética?

DdAB
Imagem: aqui.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O IBPT e as Mordomias Para-Governamentais

Querido diário:
Sempre que ouvia o tal Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação dizer que a carga tributária do Brasil é elevadíssima, ficava de orelha em pé, pois isto rima com má fé. Ou seja, achava que havia algo errado nestas cifras. Não que eu ache que a carga tributária deva ter algum teto ditado por regras de ouro macroeconômicas, ao contrário. Depois que entendi que a Malásia tinha/tem um coeficiente de exportações pelo PIB de 104%, passei a entender que não existem números ótimos para este tipo de variável. Também no caso dos impostos, penso que nada requer de modo absoluto que estes devam ser inferiores a 100% do PIB, nem inferiores a 1.000% do PIB.

Claro que uma sociedade que escolher (eu disse 'escolher') ter uma política tributária escalafobética pode ter impostos indiretos líquidos de subsídios. Sabemos que a renda interna a preços de consumidor (Y) é um troço mais ou menos assim:

Y = RE + EOB + II - Su,

onde, além de Y, RE é a remuneração dos empregados, EOB é o excedente operacional bruto, II são os impostos indiretos e Su são os subsídios. Como exemplo, consideremos o caso em que a remuneração dos empregados é de 1, o excedente operacional também e os impostos indiretos também e os subsídios são de 2. Então o PIB é, claro, 1. E os impostos indiretos são 100% do PIB, não é mesmo?

No outro dia, comprei umas garrafas de cachaça oslt no supermercado pagando a quantia de R$ 76,23. Vi, abismado, que de minha sagrada receita familiar foram retirados R$ 22,05 ou 28,93% pelo malvadão do governo, que faz sabe-se lá o que com esta dinheirama. Eu e mais uma turma pagamos, diz-nos a fonte deste cálculo, de acordo com a própria nota fiscal do supermercado que tem o mau hábito de ser assaltado (dias atrás, quatro rapazes encapuçados o fizeram e fugiram, segundo testemunhas, para um baile de funk), um trilhão de reais em impostos no ano passado, uns 36% do PIB. Bem mais do que eu achei naquele exemplo vagabundinho.

Fiquei pensando: quanto é que o sr. Zaffari paga ao IBPT para ter em sua nota fiscal estas cifras (22,05 e 28,93) e, como sempre, por que não contrataram o departamento tribuário do Planeta 23 para fazer estes cálculos? Pensei em seguida: quem é rent-seeker não é bem este blog...

Já falei antes neste blog (falei?) que a metodologia destes caras deveria ter algo de errado, algo denunciante de sua ideologia e de sua má fé, ou melhor, de sua escalavrada campanha pelo estado mínimo, ou tributação zero, sei lá. Nos estatutos do Planeta 23, há um artigo que garante que o bom mesmo é termos impostos indiretos incidindo apenas sobre os bens de demérito, nunca com o objetivo de elevar a receita, ou o que seja, mas com a intenção de reduzir-lhes o consumo! E que a tributação verdadeira deve ser baseada no imposto de renda sobre os ganhos da pessoa física (progressivo) e também da pessoa jurídica (proporcional).

E qual seria o erro fundamental que eu intuía? Seria e é o erro de inserirem as taxas (coleta de lixo, etc.) no cálculo deste coeficiente (segundo eles, nem o IBGE nem o governo omitem este negócio de seus cálculos, erro grosseiro, pois se é para calcular a "participação do governo", devemos incluir a petrobrás, o banco do brasil e milhares de outras sinecuras). Hoje vi lá naquele link deles estas coisas:

.a. incluem mesmo as taxas e as contribuições (taxa paga serviço, logo não é bem "governo")
.b. incluem as contribuições de previdência e o FGTS como impostos (a academia insere na remuneração dos empregados)
.c. não descontam do montante arrecadado o total dos subsídios devolvidos às empresas (que deveriam incidir nem tanto sobre os amigos do rei mas sobre os bens de mérito de produção mercantil) [e acrescento as transferências e gastos da previdência].

Meu ponto: os impostos indiretos são muito altos no Brasil e deveriam ser substituídos pelos impostos diretos, como é o caso dos países capitalistas avançados. A tributação não dá nenhum sinal de alcançar algum valor crítico. Se, por exemplo, passássemos a tributar apenas os bens de demérito e elevássemos o imposto de renda para 50% do PIB, poderíamos contratar aquelas empresas juniores de  centros acadêmicos de reputadas universidades europeias e expandir a ação do governo especialmente na provisão de bens público (segurança) e de mérito (educação).

Infelizmente, o estrago é tão grande que nem dá para pensar em decência tributária em menos, digamos, de 20 anos. No outro dia, já referi que o trio juros-câmbio-salários está requerendo uma modificação substantiva que deverá acompanhar a gradativa eliminação dos impostos indiretos da estrutura produtiva nacional.

DdAB
P.S: o IBPT entrou na boca de vender serviços que talvez seus lobistas mesmo é que tenham mandado criar, ou seja, ingressou no clube dos sinecuristas, se é que jã não o fizera antes.

P.S.S.: a visão do IBPT é meramente jurídica e os economistas que se baseiam nela, a fim de fazerem lá suas análises econômicas são é uns jurisconsultos, ou o que o valha.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Ser e o Tempo

Querido diário:
Nosso Planeta 23 conhece há muitos anos o prof. Enéas de Souza, também conhecido internacionalmente: filósofo, crítico de cinema, economista, dirigente governamental e psicanalista. Citei-o mais de uma vez em meus escritos, referindo uma pequena fração das lições que recebi em nossa lida cotidiana, ambos exercendo a condição de economistas. Quando ele ingressou na Fundação de Economia e Estatística, eu por lá já andava (e trabalhava), destacando a linda convivência com o agora finado prof. Fernando Rocha. Este conhecia Enéas Costa de Souza mais proximamente do que eu, por aqueles tempos. E Fernando não teve dúvida em dizer-nos: "Ele representa para a futuro da FEE aquilo que Ruy Carlos Ostermann representa para o futebol." Estava certo Fernando. Estava certo Enéas em perceber que poderia contribuir substantivamente para fazer da FEE uma respeitada instituição.

Recebendo pedidos de indicar como se deve iniciar o estudo de filosofia, ele dizia: "Inicia com o que tens em mãos. Tua leitura vai levar-te a indagar outras questões e estas é que orientarão tua nova leitura." Segue-se logicamente que a p.5 do jornal Zero Hora de tem uma entrevista com ele: simplesmente, ele tornou-se também ator de cinema, transformando-se em " O personagem de 'Os Filmes Estão Vivos' ".

Diz o jornal, na chamada para a matéria, uma entrevista que valeria a pena ser reproduzida e aprendida como cânone para qualquer programa de estudo:

Economista, Enéas de Souza é uma referência da crítica de cinema. O personagem de Os Filmes Estão Vivos voltou a Paris, cidade em que foi rodado o curta gaúcho, no fim de setembro. De lá, enviou respostas a nove temas cinéfilos propostos por ZH, expandindo conceitos desenvolvidos no filme de Fabiano de Souza e Milton do Prado. [...]

Seria ele o ser? O Ser? Fiquei a indagar-me de onde ele tira tempo para tanta atividade. E tentei, com base na entrevista (que reproduzo lá embaixo) encabeçada pelo trecho acima, fazer uma estimativa. Pois bem, ele fala em:

Alain Resnais, Alan Badiou, Bruno Dument, Cinema de Pernambuco, Cinema gaúcho, Claude Simon, Claudio Assis, Eduardo Coutinho, Federico Fellini, Fernand Léger, François Truffaut, Fritz Lang, Hanna Arendt, Ingmar Bergmann, Jacques Chabrol, Jacques Deleuze, Jean Luc Goddard, Jean Luc Nancy, Jean Paul Sartre, Jesse Valadão (Boca do Lixo), João Moreira Salles, José Padilha, Mehdi Belhaj Kacem, Kleber Mendonça Filho, Luchino Visconti, Luiz Fernando Carvalho , Manoel de Oliveira, Margareth von Trotta, Marguerite Duras, Marguerite Duras (filme), Maurice Merleau-Ponty, Michel Foucault, Miguel Gomes, Pedro Costa, Phillipe Garrel,  René Clément, Rivette, Robbie-Grillet, Roberto Rosselini, Rohmer, Sócrates, Stephen Spielberg, Tarsila do Amaral, Walter Salles, Zé do Caixão.

Em muitos destes nomes nunca ouvi falar. Kacem, por exemplo, eu não sabia nem que tinha prenome. Então voltei a perguntar-me o que devo ler para entender as trajetórias do cinema moderno, e não apenas dele, mas de tudo o mais, todas as trajetórias de qualquer móvel (tudo se move, não é mesmo?). Esta lista seria um bom começo. Então voltei: e quanto tempo o Enéas levou lendo/vendo tudo isto? Pensei em duas horas por filme, duas horas por livro, duas horas para Tarsila do Amaral. Resultado: 45 nomes, 90 horas. Só isto? E pensei que para ser Enéas torna-se necessário muito mais tempo.

DdAB
Fonte da imagem lá de cima: aqui.
Fonte da entrevista: aqui.

Aqui tá a entrevista:

Confira as respostas de Enéas, que foram enviadas por e-mail:

1. Uma descoberta recente que vale a pena.

"A renovação do cinema brasileiro, com alguns belos cineastas: José Padilha, Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Walter Salles, Luiz Fernando Carvalho, Claudio Assis, Kleber Mendonça Filho. Eles recuperam o extraordinário nível do Cinema Novo. O cinema brasileiro tem uma envergadura excepcional. Veja o caminho do documentário: fomos nós que o puxamos recentemente, do ponto de vista mundial. Ao mesmo tempo, o cinema brasileiro tem falado de forma crítica e permanente sobre a realidade brasileira."
2. Um cineasta que estamos vendo mal.
"Não estamos vendo bem o cinema português. É verdade que o (diretor) Miguel Gomes encontrou, com Tabu (2012), uma bela acolhida. Mas Pedro Costa (de Juventude em Marcha) é desconhecido, ou quase isso, dos críticos e, sobretudo, do público."
3. Um cineasta que, ao contrário, é festejado indevidamente.
"Não digo a crítica, mas o público gosta demais de Spielberg. Seu Lincoln (2012) é desinteressante. Até Daniel Day-Lewis está sem brilho, ele que é um ator de recursos fantásticos."

4. Uma descoberta que os cinéfilos brasileiros deveriam fazer.
"Vou ser quase obscuro, mas existe um filme de Marguerite Duras, India Song (1975), que é extraordinário, sobretudo pela hegemonia do som e da palavra sobre a imagem. Trata-se, de algum modo, de uma continuação de Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais: o que eu chamei um dia de ‘cinema-literatura’ vai o mais longe possível."

5. Uma cinematografia ou uma época/escola que vale a pena se prestar mais atenção.
"O cinema francês pós-Nouvelle Vague, de Phillipe Garrel a Bruno Dumont. Ficamos tomados demasiado tempo pelo brilho de Godard, Truf­faut, Resnais, Rohmer, Rivette, Chabrol. E a renovação veio com muitos bons cineastas, como o (Olivier) Assayas."

6. Um cineasta ou um filme que você gostaria de debater num eventual volume 2 de Os Filmes Estão Vivos.
"A ideia do Fabiano e do Milton foi não discutir autores consagrados. Todavia, existem inúmeros cineastas que dinamizaram o cinema. Diria Hitch­cock, Fritz Lang, Bergman, Manoel de Oliveira, Pedro Costa, Rosselini, Fellini, Visconti, Joseph Losey, toda a Nouvelle Vague etc. E, claro, a fertilidade histórica do cinema brasileiro, desde as chanchadas, os filmes da Boca do Lixo, o Zé do Caixão, os documentários, o atual cinema de Pernambuco e o nosso próprio cinema gaúcho."

7. Algo que os cinemas de Paris têm e que Porto Alegre poderia ter.
"Não dá para comparar Paris com qualquer outra cidade. Na França, o cinema faz parte do pensamento. Qualquer filósofo (Badiou, Deleuze, Foucault, Clément Rosset, Merleau-Ponty, Sartre, Jean Luc Nancy, Kacem etc.) falou ou fala sobre cinema. Romancistas como Claude Simon, Marguerite Duras, Robbe-Grillet: todos filmaram para não só desenvolver cinematurgias, mas para destacar o tema da palavra e da imagem. Os artistas plásticos idem. Lembre-se o Ballet Mécanique (1924), de Fernand Léger, mestre de Tarsila Amaral. Ou seja, o cinema está na veia da cultura da França. É essa presença da temática da imagem na cultura contemporânea que estamos precisando adquirir. E isso não se dá sem uma efetiva política de cultura para o Brasil. Essa política começa quando pudermos juntar cultura e educação."

8. O impacto de novidades tecnológicas (Imax, 3D) na cinefilia.
"O mundo vai mudar profundamente com as novas tecnologias, embora as coisas ainda não estejam claras. O que se pode dizer é que o cinema comercial está tentando prolongar a sociedade do espetáculo com as novas magias disponíveis. Na verdade, hoje, o cinemão está perturbado com alguns fatos: as cópias piratas, o YouTube, o cinema experimental, os games. Uma coisa é certa: o cinema deixou de ser a arte popular do mundo. Não quer dizer que ele vai desaparecer. Mas vai assumir um papel semelhante ao que o teatro e ópera tiveram quando surgiu o cinema. Daí a necessidade de o cinema comercial produzir cada vez mais espetáculos para ver se a fantasia da imagem continua a capturar espectadores. A questão passa a ser como a sociedade vai se desvincular da banalização da cultura e absorver tanto a cultura clássica como a cultura digital, inclusive os 'games de autor', para dar um novo sentido ao mundo que está chegando."

9. Um ciclo de filmes que a Capital ainda não viu e bem poderia ver.
"Teria uma lista enorme. Até mesmo os que já foram feitos deveriam ser repetidos, aperfeiçoados. A cultura é ver, escrever, pensar, discutir em conjunto, desenvolver permanente. Não é um adorno. É algo exterior à minha subjetividade, tem a ver com conviver com os outros. Ela é o incêndio e a iluminação da vida, mesmo contra a maioria equivocada do momento. Margareta Von Trotta mostrou isso em Hannah Arendt(2012). Só a cultura permite que a sociedade mude pela coragem de pensar como um dia Sócrates enfrentou Atenas, e Hannah Arendt, o Sócrates contemporâneo, enfrentou a tempestade resultante do julgamento de Eichmann. Os ciclos de cinema deveriam integrar o corpo da cultura de um país.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Pedra Roubada

Querido diário:
Na foto que nos ilumina, o marcador Lixo Urbano recebe hoje mais um importante acréscimo. Em algum momento, esta pedra foi roubada, uma vez que portava algo de valioso: uma placa que sabe-se lá o que dizia. Ela se encontra na rótula em que um papa rezou uma missa em Porto Alegre há alguns lustros. O problema não é com a rapaziada que roubou a pedra, mas com a rapaziada que não cria empregos que:
.a. reprimam os ladrões
.b. deem oportunidade a quem está no rouba-não-rouba, de sorte a escolherem o não-rouba.
Em ambos os casos, saberíamos o que os sinais da enigmática placa significam.
DdAB

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cachorrada


Querido diário:
Canoas é o progressista (cresce a população) município conurbado com Porto Alegre, onde resido, ou seja, resido em Porto Alegre, hehehe. Em gestão anterior, o prefeito da progressista comuna foi amplamente citado no caso de corrupção protagonizado pela Ulbra, Universidade Luterana do Brasil. Em compensação, o Informe Especial da p.3 de Zero Hora de hoje diz:

No osso
   Entre as ações da prefeitura de Canoas para combater o problema dos animais de rua na cidade está a contratação de uma empresa que realizará a castração de 2 mil cães até o final do ano.
   Para 2014, a previsão é de 3 mil.

O Departamento de Etologia do Planeta 23 ficou pensando: os 2 x 10^3 cães operados são presos, emasculados, a nota de empenho é liquidada, o bicho é solto e vai para a rua novamente. No wonder (pensei em inglês mesmo), no ano que vem voltam 3 x 10^3. Em outras palavras, a castração foi fake (pensei em português e verti para o inglês) a bicharada vai ser recapturada, cada papai com meio filhote (em média).

DdAB
P.S. e tem o inteiro filme Mondo Cane no próprio YouTube.

sábado, 12 de outubro de 2013

... E os Trigais Ondulavam

Querido diário:
Duilio. Pronuncia-se "Duílio", exceto para o prof. J. A. F. Alonso, que diz "Duí-lho", um dissílabo. Na pronúncia convencional, penso que, quebrado o ditongo de cá e o de lá, já se vão umas dez ou 20 sílabas. E até houve um tartamudo que ficou mais de um minuto e meio pronunciando meu nome, confundido pela falta do acento no que emana da certidão de nascimento.

Seja como for, talvez o inusitado do nome ou o carisma que emana de seu detentor, o carinho que o mundo exterior vê emanado de minhas tentativas de comunicação, recebi muitas alcunhas: Dudu, Duds, Dui, fora Nego, Neguinho, Maganão, Gaúcho, Galego, e por aí vai. Mas nem todos os apelidos eram benévolos ou de boa paz. Por exemplo, na escola (em dois estados da federação), fui chamado de "Duílio, filho de um putrilho", pois o povo não pronunciava "potrilho", comme il faut. Ou seja, um apelido, por assim dizer, rimado, ainda por cima, o que evoca o chamado que me fazia mamãe para a hora do lanche: Duilio, meu filho.

Nesta linha de variações em torno do nome, naturalmente, falou-se em DuMílho, seguindo-se logicamente o DuTrigo, cereais que, logicamente, têm o coletivo corn, em inglês.

DdAB
Imagem: aqui. Parece que li livro que tem-me gravado na memória este nome. Vi na internet que se trata de uma obra de autoria de L. Romanowski. Se eu o comprasse, na Estante Virtual, ou coisa igual, iria checar se li mesmo ou não, pois -mesmo com o apolacado do nome- parecia-me ser um autor brasileiro, porto-alegrense. Como induzo isto? Recordo que havia uma ou outra cena passada na Rua José do Patrocínio, um tempo que poderia ser os anos 1930 ou 1940.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Táxis: Retorno ao Feudalismo

Querido diário:
Ok, ok, na verdade parece que a verdade é que pode ser verdade que o feudalismo nunca tenha sumido do Brasil. Não apenas defende esta tese um famoso livro de Nelson Werneck Sodré, mas sobretudo os frequentes 'fragas' que o ministério do trabalho dá em fazendas de políticos brasileiros e outros despudorados da iniciativa privada no campo: trabalho escravo.

Mas agora a coisa é diferente: "A president[a] Dilma sancionou a Medida Provisória 615, que, entre outras [providências], assegura aos taxistas passar suas permissões aos familiares." [p.34 de Zero Hora de hoje]. Diz a presidenta, nada falando sobre feudalismo, corporações de ofício, aquelas coisas lá dos antanhos da civilização europeia: "Significa que, quando o taxista falecer, os herdeiros podem sucedê-lo na utilização do táxi, garantindo a manutenção da renda para sua família (...) Não é uma transferência de concessão, é um direito de sucessão." Antes de pensar em mim e em meus descendentes, como referirei em seguida, pensei nos pobres dos taxistas que devem trabalhar até morrer, sem direito a aposentadoria. Em compensação, quando 'falecem', eles deixam um patrimônio de valor variável (dependendo do preço da concessão no mercado negro) a seus pimpolhos. E se o pimpolho for menor de idade? A notícia não chega a tanto detalhe. Quer saber mais? Veja a medida provisória 651.

Da parte do Planeta 23, parece que a resposta é óbvia, na linha daquele "ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade": quero que meu título de PhD seja também cedido a meus descendentes (e, por que não?, ascendentes e amigos diletos e, por que não?, mesmo amigos não diletos) hereditariamente, ad eternum.

DdAB
A inacreditável imagem é daqui, e que também estava na página citada em meu jornal.

P.S.: Por coincidência, vejo a cara de pau dos emuladores desta lei 615 associada a outra notável coincidência que vivi ontem juntamente a um taxista. Disse-me ele que um colega seu foi submetido a uma tentativa assaltado por dois meninos portando uma arma de brinquedo com o formato muito assemelhado a uma arma verdadeira. Mas não tão assemelhado que deixasse de despertar o 'flagra'. O taxista recusou-se a ser assaltado, desarmou-os e fez-lhes uma preleção, recomendando-lhes retornarem à senda do bem (não foi bem isto...). E eu lembrei uma cena de um daqueles filmes antigos de Woody Allen, em que ele é um presidiário e esculpe em sabão uma revólver, calçando os guardas de sua cela ou o que seja até o portão da saída do presídio. Mas, como havia um pátio entre uma e outro, e chovia na noite da tentativa de fuga, o sabão derreteu e, quando chegou no portal da liberdade, o taxista foi flagrado apenas com os dedinhos simulando estar prestes a puxar um gatilho de arma de fogo. Nem chegou a ser desarmado, pois não portava arma, mas foi reconduzido a seu xilindró. Pois bem, a p. 42 do carimbadíssimo jornal noticia que, na Paraíba, um eleitor (presidiário) esculpiu as feições de um agente penitenciário em uma máscara moldada em sabão. Eu fiquei pensando: a máscara foi apreendida antes de ser usada, pois a previsão do tempo para o local anunciava ausência de chuva?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Recuso-me a Ler Heidegger

Querido diário:
Ainda mais agora que o filme inspirado na vida de Hannah Arendt (aqui) marcou os 10% ou 20% cinemeiros mais ricos do Brasil (talvez até isto implique um reduzido subconjunto da população - 1 a cada 10 ou 20 - e todos os cinemeiros), é espantoso que um planetinha qualquer (o 23, claro) ache que tudo sabe sobre Martin Heidegger, um colaborador do nazismo (aqui). Mas acho tão descabido recusar-me a lê-los (Arend e Heidegger), especialmente se meu projeto intelectual for tornar-me um filósofo, um estudioso de filosofia, quanto é descabido questionar o plano de ensino criado por um professor, baseado em uma ementa criada por um colegiado de professores.

O aluno, claro, tem o direito de questionar um professor (por exemplo, um gambá, ou um corrupto), mas -dado que o professor tem reputação ilibada, boa formação, essas coisas- parece que questionar seu plano de ensino é que é uma atitude que marca os tempos modernos, ou seja, tempos de desmandos brasileiros. Por mais que não seja outra razão, bem que eu gostaria de viver mais 100 anos, a fim de ver se os jovens da presente geração brasileira vão dizer que em seus tempos é que as coisas eram interessantes, questionando os hábitos e costumes de seus filhos e netos.

Quando, por exemplo, um aluno de economia questiona se deve estudar o monetarismo ou derivadas parciais, o que vejo é a declaração de vagabundagem e preconceito, precisamente aquilo a que a educação se destina, ou seja, deslocá-lo da ignorância ao conhecimento do estado atual do desenvolvimento de uma ciência, no caso a vetusta economia. Frase nova: deslocamento este que tem por objetivo acabar com o preconceito, os estereótipos e os antropocentrismos.

Não ler Hannah Arendt por ser judia ou Martin Heidegger por ser colaboracionista é realmente a consolidação do fim (pois o começo do fim já se consolidou há uns 25 ou 30 anos, só que ainda levou mais tempo para chegar à universidade).

Segue-se logicamente que lemos à p.35 de Zero Hora de hoje a notícia de que um estudante de uma faculdade brasileira (nem interessa dizer se é medicina ou veterinária, ou o que seja) recebeu a incumbência de um de seus professores de escrever um trabalho sobre Marx, Karl Heirich, o judeu alemão (aqui). Ele -aluno- recusou-se a escrever o trabalho. Meno male, se fosse anarquista, mas sua alegação era ser "de direita". Marx de direita? Não, era o aluno. Antes de empinar outro copo de cachaça, pensei: "E eu, que não sou monarquista, e andei estudando o ciclo do couro da economia brasileira, situado em pleno período colonial, quando o Brazil (assim se grafava) era uma das colônias de uma feroz monarquia?" E respondi: a solução é as bebida, mais e não menos.

E não posso deixar de evocar um economista odiado por muita gente por ser liberal, monetarista e ter dado apoio engajado ao governo chileno, sob a batuta do afamado general Pinochet. Suas posições pessoais, bem como sua origem étnica ou cultural não invalidam a identidade M*V = P*Q, não mesmo? E pensei que jogarmos fora a tigela com a sopa, de sorte a nos livrarmos da noz moscada, leva-nos a contestar o carinha que lançou para o debate moderno a questão da renda básica! O raciocínio friedmaniano era simplérrimo: quem ganha bem deve pagar imposto de renda (que liberal, hein?), ergo quem ganha mal deve pagar imposto de renda na menos um, ou seja, ganhar dinheiro do governo.

DdAB
Imagem: belo blog para viajantes aqui. Sobre Marx, já celebrei aqui saber par coeur suas coordenadas vitais fundamentais. Lá na placa diz 1818-1883. Sem bem o 1818: cinco de maio, ou seja, a mnemônica rolou como 05 05 18 18. A data do passamento do Mouro é 1883 (só olhando a wikipedia para saber o dia e mês: 14 03 1883). E como é que eu sabia de cor este 1883? Pois é o ano do famoso artigo de Joseph Bertrand sobre a formação do preço em um duopólio. E sei isto de Bertrand, pois sabia de cor a data do livro de Augustin Cournot: 1838. A data de 14 de março também é facílima de gravar: dia internacional da mulher mais fatorial de 3. E por que fatorial de 3? A resposta parece óbvia: Arendt, Heidegger e Marx. Ou ainda, Cournot, Bertrand e Marx, n'est ce pas?

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Hai-Kai n.35

Querido diário:
Estamos, Millôr e eu, em plena fase de produção/reprodução de hai-kais.

Millôr:
MEU DINHEIRO
VEM TODO
DO MEU TINTEIRO.

Planeta 23:
Do meu tinteiro
Saíram gatos,
Tamborins e pandeiros.

DdAB
Aqui, maneiro,
vemos o tamborim
de um gato brasileiro.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Hai-Kai n.34

Querido diário:

Disse-nos Millôr Fernandes:

A GIRAFA, CALADA,
LÁ DE CIMA VÊ TUDO
E NÃO DIZ NADA.

Segue-se logicamente que diz agora o Planeta 23 itself:

E não dizes nada?
Que, vendo a injustiça,
Deixas as mãos cruzadas?

DdAB
Imagem: aqui há uma linda família festejante.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Curioso Dialoga c/Profissional

Querido diário:
Dias atrás, fui atraído pela nova postagem do blog Ci vedo dove sono (aqui), uma interessante introdução ao estudo do que ele chama de método interpretativo e que também entendo como o método hermenêutico, do qual, naturalmente, nada mais sei do que as primeiras letras. E, neste ambiente, não posso deixar de falar no método conjetural, ou mais de acordo com o 'autor', o modelo conjetural (o estonteantemente maravilhoso texto de Carlo Ginzburg está aqui).

Seguiu-se logicamente que enviei ao prof. Conrado a seguinte -e ambígua- mensagem:

Ok, ok, a pergunta, se é que tens tempos para nossas 'Conradianas':
.a. nasceu antes de nos mudarmos
.b. nasceu antes de nos mudar
Parece que não era bem isto o que eu queria...
Disse nosso querido professor:

Vejamos agora tuas frases:
a. antes de nos mudarmos
b. antes de nos mudar
Qual delas, é isso?
Depende, irmão! E depende de quem ou que coisa é ou será o sujeito da subordinada, certo? Quem ou o que é que vai mudar a gente (nós)? O objeto, este já sabemos que é "nós", cuja forma acusativa é "nos" (sem acento).
Temos então dois scenarios:
a. antes de ele nos mudar (ele = o destino, o fado, etc.)
b. antes de nós nos mudarmos (de casa, de cidade, etc.)
Diligente como é -ou talvez apenas superestimando-me- ele percebeu que faltava algo de realmente estonteante em minha indagação presente. Voltei à carga, ainda insatisfeito por não ter mais achado a sentença que realmente deixou-me ainda mais estonteante sobre o quê no outro dia eu passara:

Acho que tenho uma questão mais relevante e não lembro de criar um exemplo. Nem li nada que me inspirasse a dar o exemplo verdadeiro. Mas quase:
"Como podem seres efêmeros captarem o que é duradouro?"
Esta frase encontra-se (não anotei a página) no livro "1491. Novas revelações da América antes de Colombo". O tradutor, posso assegurar, é bom. Tem um que outro probleminha que eu mesmo capturei, mas -em geral- podemos dizer que ele sabe português. Eu, claro, acho que este exemplo está errado! E não sei explicar: teria que ter um 'captar' infinitivo pessoal ou impessoal, aquelas coisas...

Benevolamente, desta feita nosso diligente professor disse:

Tua intuição de leitor proficiente e culto, como é o caso de todos os leitores do Planeta 23, está certíssima. Para confirmá-la, é só pôr os elementos na ordem direta; assim:
...seres efêmeros podem captar o que é duradouro...

O plural já está marcado no modal "poder", e não há, portanto, por que marcá-lo novamente no verbo seguinte.
Farejaste uma questão espinhosa da língua portuguesa, que é o infinitivo pessoal ou flexionado, mas aqui não se trata disso; trata-se tão somente de um erro de atenção do revisor, que se deveu, imagino, a estarem os termos da oração fora da ordem direta.


Agradeci a nosso grande mestre e fiquei guardando-me para nova investida, desesperada busca de diálogo com o profissional!
DdAB
Imagem: aqui.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Lógica de Maltratar os Outros

Querido diário:
Estamos no clima da leitura de

1491. Novas revelações das Américas antes de Colombo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

E suas pp. 153-4. Segue-se logicamente que estamos falando de um ambiente em que a discussão ocorre sobre quando é que se pode considerar pacífico que:

.a. a humanidade iniciou sua vida independente (dos macacos) na África, foi-se à Eurásia e de lá pulou para a América,

.b. o famoso Arcebispo Ussher, em 1658, havia datado a idade de criação da Terra como tendo ocorrido no domingo, 23 de outubro de 4004 a. C.:

Entre os primeiros a atacarem diretamente esta questão [o raciocínio de que, se os índios americanos não haviam sido abrigados pela Arca de Noé, então eles não podiam existir ou a história da arca era falsa] estava o educador jesuíta José de Acosta, que passou um quarto de século na Nova Espanha. Toda explicação da origem dos índios, escreveu ele em 1590, 'não pode contradizer a Escritura Sagrada, que ensina claramente que todos os homens descendem de Adão". Como Adão viveu no Oriente Médio, Acosta foi 'obrigado' a concluir que os homens das Índias viajaram da Europa ou da Ásia'. Para que isto fosse possível, as Américas e a Ásia 'tinham de juntar-se em alguma parte'.

Volta e meia eu uso estes 'segue-se logicamente' aqui neste blog. Um nada a ver lógico de chocar a profa. Brena Fernandez (Bípede Pensante, em merecido -mas inquietante- repouso). Mas torna-se logicamente claro que aquele 'obrigado' bem ali é, mais ou menos, nesta linha do 'segue-se logicamente' que nada a ver...

DdAB
Imagem: bom site aqui.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Hai-Kai n.33

Querido diário:
Facilmente podemos ler na p.39 do livro de hai-kais de Millôr Fernandes, publicado pela LP&M:

MILLÔR
A CAVEIRA É BEM RARA
POIS NEM PENSA NEM FALA:
SÓ ENCARA.

E o Planeta 23:
Nem a fala encara
A injustiça avara
Ou o gesto ignaro.

E parece que deixei por isto mesmo. Parece que me deixaram por isto mesmo, o que me ofendeu, pois eu queria ter sido este.

DdAB
Imagem aqui.