domingo, 30 de junho de 2013

O Governo e o Bom Cidadão: a gota dágua

Querido diário:
Não foi o governo que chamou os bons cidadãos para a rua. Ainda assim, ao sentirem-se abandonados pelos governantes, estes saíram em protesto e atraíram os mesmos bandidos que sempre lhes deterioram a qualidade de vida.

Ou seja, por querermos evitar quebra-quebras, cabe-nos constituir governos decentes em que a criminalidade seja reduzida pela atuação de um sistema judiciário decente (do policial de quarteirão ao juiz decententemente remunerados).

DdAB
Imagem daqui.

sábado, 29 de junho de 2013

20 Dias de Indignação

Querido diário:
Vou citar trechos de dois artigos saídos hoje no caderno Cultura de Zero Hora. O primeiro é do famoso antropólogo, cientista político, escritor, professor da UERJ, o sr. Luiz Eduardo Soares. E o segundo é do sr. Marcus Vinicius Martins Antunes, professor de direito constitucional da PUCRS. O primeiro se intitula "Indignação Furiosa" e o segundo, "Os 20 Dias que Abalaram o Brasil". Ergo, já está explicadinho o título desta postagem.

Antes de citá-los, anoto para consumo próprio e de terceiros um recorte que não estava presente em minhas cogitações nestes tumultuados dias brasileiros, e que vi citado neste lufa-lufa de papeis e imagens que têm-me caído aos olhos. Disse alguém que a sra. Dilma foi incapaz de articular-se para cumprir duas importantes promessas de sua campanha e registradas em seu discurso de posse:
.a. a reforma política
.b. a reforma tributária
(Lembrar o trio de Roberto Pereira da Rocha, aqui).
Parece óbvio que, neste aspecto, o governo é um fracasso, o que não o impede, naturalmente, de procurar redimir-se, o que, naturalmente, é difícil. O que seria de esperar era que, desde sempre, o governo e os deputados (com suas assessorias milionárias) há muito tempo já tivessem apresentado projetos de lei decentes (por contraste àqueles do dia do índio e dando nomes a estradas e assemelhados) com estas reformas, e especialmente a grande omissão das ruas, imprensa e tudo o mais: a reforma do judiciário. Serem todos eles colhidos de surpresa em suas vidas é a maior prova do descalabro.

Mas vejamos.

Primeiro, p.4-5, destaco trechos do artigo de Soares:

[...] Observe-se que nesta lista de problemas há munição ampla o suficiente para atingir a todos, à direita e à esquerda. O colapso da representação política significa o divórcio entre o Estado e a sociedade.
[...] E o país diante da necessidade de reinventar a política.
[...] Não se trata de justificar a violência, mas de entender suas raízes e, sobretudo, de explicar por que a massa considera hipócrita o foco da mídia na ação dos assim chamados 'vândalos'. Antes das manifestações, não havia ordem e normalidade, mas vandalismo continuado praticado por aparelhos do Estado contra muitos, nas periferias. Brasil afora. Falta de equidade no tratamento por parte do Estado e da mídia. A ordem tida como natural antes da eclosão das manifestações não era menos destrutiva do que a desordem promovida por alguns manifestantes.
[...] 
A proposta presidencial sobre reforma política sem dúvida dialoga com o eixo dos protestos, isto é, focaliza o colapso da representação. Entretanto, só fará sentido se mostrar-se capaz de quebrar os mecanismos em curso. Isso não guarda relação clara para a maioria dos manifestantes com sistema eleitoral - distrital, simples ou misto, ou proporcional-, voto em lista, financiamento de campanha etc. O que poderia conversar com as ruas seria uma proposição radical, que sepultasse a representação política como carreira e negócio. Eis um exemplo: para o parlamento, eleições a cada dois anos com apenas uma reeleição, candidaturas avulsas da sociedade seriam possíveis, salários dos deputados seriam iguais aos dos professores, cada um teria três assessores, nada de carro oficial, verba de gabinete ou aposentadoria por oito anos de trabalho, dinheiro para campanha apenas aquele doado por cidadãos (tendo 500 reais como teto - sobre os recursos deveria haver lena transparência com informação em tempo real via internet), nada de tempo na TV, que virou moeda (utilize a internet quem quiser e puder mobilizar sua rede). Eleitos seriam os mais votados, sem os coeficientes partidários eas coligações. Para o Senado, não haveria suplente, os mandatos seriam de quatro anos sem reeleição e as condições seriam as mesmas dos deputados. Para o executivo, apenas um mandato de cinco anos e regras específicas. Enfim, uma transformação realmente profunda poderia sensibilizar a maioria da sociedade e reconectá-la à representação.

Cara, gente, bicho! E, na p.6, o professor de direito constitucional:

[...] O governo, em seus cálculos, tem de incluir o fato de que a crise de representação pode, na cabeça das multidões, não estar apena no poder Legislativo, mas também no Executivo. É provável que o governo tenha concebido às pressas, o anúncio da constituinte e do plebiscito com a intenção de canalizar e domesticar um pouco a movimentação das ruas.

Tá bem na cara que, além do título e inspiração para a busca da imagem, meus parágrafos de abertura da postagem têm a ver com as reflexões que fiz a partir destes materiais. E fique bem claro: nenhum deles falou em reforma do judiciário, dos clamores das massas/multidões (como disseram) contra a falta de justiça, contra a impunidade.

DdAB
P.S.: não sei bem que imagem é esta, o que dizem as legendas (aqui, que parece um blog desativado, mas interessante). Provavelmente vemos a ligação de John Reed com a Revolução Russa. Bandeiras vermelhas.

P.S.S.: Premonição: olha meu comentário aos dois benévolos comentários aqui.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Que é Mesmo Esquerda?

Querido diário:
O Movimento Direitos Urbanos foi-me indicado poucos dias atrás. Hoje dei uma olhada no site (aqui) e chamou-me a atenção o artigo:

A esquerda do novo tempo: os diferentes matizes do vermelho.
Érico Andrade, professor de filosofia da UFPE


Destaco um parágrafo por me parecer muito inspirado e ter bastante a ver com a forma como me insiro neste mundo contemporâneo. Digo-me igualitarista, por entender que é apenas numa sociedade de igualdade que se poderá observar a verdadeira mobilidade (baseada em talentos individuais e não necessariamente em sucesso mercantil):

Se é possível uma unidade das esquerdas hoje, ela dificilmente estará numa unidade partidária, presa à lógica da reprodução do poder e aos interesses muitas vezes obscuros que a acompanha, mas no reconhecimento de que por mais diversas que sejam as bandeiras, elas apontam para uma mesma direção, à esquerda. Elas se opõem a todas as formas de assimetria sociais instituídas de modo unilateral; sejam essas assimetrias oriundas das diferenças entre gêneros, espécies, raças, modais, orientação sexual e statos sociais. Quando essas diferenças reconhecem no combate a essas assimetrias um elo em comum, é possível falar de algo mais subversivo.DdAB
Imagem: aqui. Será que este patrocínio é bem-vindo pelos autores?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Achei! ("ao transformar a natureza...")

Querido diário:
Nem sempre encontro o que procuro nos livros que já li e esqueci. Por exemplo, volta e meia falo que Marx disse que "o homem é o único animal que, ao transformar a natureza, transforma sua própria natureza". Pois bem, não que eu tenha procurado isto no Capital, volume I. Mas li (não sei se registrei por aqui, que a memória é mais curta do que a obra de Piero Sraffa) o livro de David Harvey:

Título: Para entender O capital
Título Original: A companion to Marx's Capital
Subtítulo: Livro I
Autor(a): David Harvey
Prefácio: Orelha: Marcio Pochmann
Tradutor(a): Rubens Enderle
Páginas: 335
Ano de publicação: 2013
ISBN: 978-85-7559-322-6
Preço: R$ 49,00

Pois simplesmente na p.114 do livro diz "Agindo sobre a natureza..." e vem toda a frase que citei acima e cito volta e meia, só que com a redação ligeiramente modificada. Ao ler o livro de David Harvey, também fiquei pensando em Groismann, Popper e Fernandez (ver aquiaqui). Na realidade, não consigo me desvencilhar da relevância da dialética. Não sei, claro, se dialética e método dialético querem dizer a mesma coisa e, menos ainda, materialismo dialético. David Harvey dá algumas explicações sobre estas coisas e, em muito boa parte de seu trabalho, vemos a relevância.

Dos autores que li modernamente (menos de 10 anos), destaca-se Carlos Roberto Cirne-Lima e seu livro "Dialética para principiantes", que tem uma capacidade de esgotar-se fenomenal. Para ele, da tese e da antítese, surge uma síntese, algo mais elevado, mais nobre. Há mais tempo, durante a moda, li alguns dos marxistas analíticos. Estes dizem que o relevante de Marx são as "descobertas substantivas" e não o método, que seria o mesmo para tudo.

E como é que eu ligo Platão e Popper? Parece que o que Marx chama de método de exposição e que David Harvey faz chover em cima em todo seu livro é o que Popper e Fernandez chamariam de imaginação criativa do cientista. Como é que se dá a centelha das hipóteses científicas? Talvez, ouso sugerir, seja mesmo ao se pensar na coisa em si (quem sou eu para usar esta expressão?) e em seu oposto-contrário (e não o contrditório, do qual -diz-nos Cirne- não sai nada). Nunca me canso de citar o ensaio "O Artesanato Intelectual", de Carl Wright-Mills, em que ele fala bem, entre outros aspectos, este de olhar a coisa (por exemplo, a classe trabalhadora) e pensar em seu oposto (digamos, a classe capitalista).

Meu orientador (aqui) dizia que devemos pensar:

.a. o que fortalece a classe capitalista
.b. o que enfraquece a classe trabalhadora.

Acho que isto é uma média entre SWOT e dialética, não é, não?

DdAB
P.S. das 21h55min de 4/ago/2015. Consideremos o livro
ITOH, Makoto (1988) The basic theory of capitalism; the forms and substance of the capitalist economy. London: Macmillan.
Na página 110, ele diz, citando Marx (isto é, ele diz que Marx diz na página 283 do volume 1 d'O Capital na edição Penguin):

Labour is, first of all, a process between man and nature, a process by which man, through his own actions, mediates, regulates and controls the metabolism between himself and nature. He confronts the materials of nature as a force of nature. He sets in motion the natural forces which belong to his own body, his arms, legs, head and hands, in order to appropriate the materials of nature in a form adapted to his own needs. Through this movement he acts upon external nature and changes it, and in this way he simultaneously changes his own nature.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Duas Teses Importantes: Corrupção e Ironia

Querido diário:
A primeira tese é que, nunca como hoje em dia, os políticos roubaram tanto. A segunda é que eles roubam hoje em dia o mesmo que sempre roubaram.

E a terceira (contrabando) é que a imprensa tem algum papel na ordenação das coisas, mas -além de incompetente- é distraída: faz o fuzuê e esquece. Por exemplo, o caso do Wellington (aqui) é o tipo de situação que só ocorre porque os "vândalos" e "neo-nazistas" não têm acesso a uma rede de proteção social. Ou seja, não são justiçados como cidadãos, são "elementos" de segunda classe, semi-analfabetos, violentos, enfim, perigosos para todos, o poder e o cidadão comum.

DdAB

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Reformar o Judiciário!



Querido diário:
Qual será a questão que envolve todas as demais questões? Aprendi com o prof. Harambos Simionidis que é a reforma do judiciário. Que é a existência de um poder judiciário competente, não viesado a favor ou contra ninguém (por exemplo, o viés da justiça criminal contra o pobre e o da justiça do trabalho contra o capitalista), célere e abrangente.

Uma justiça eficiente (no caso do Brasil, há milhonários também na "justiça eleitoral") não permitiria que candidatos se elejam fazendo promessas mirabolantes que, naturalmente, não teriam qualquer chance de serem cumpridas.
DdAB
P.S. Minhas observações sobre o fechamento do judiciário e contratação pelo poder executivo de uma empresa júnior suíça associada a alguma faculdade de direito, a fim de substituí-lo devem ser vistas menos como manifestação de irreverência e muito mais como desespero.

sábado, 22 de junho de 2013

A Violência e a Arruaça

Querido diário:
Não falei? Aquele anticlímax no discurso da Dilma. A Zero Hora aproveitou e colocou em suas garrafais:

Não vamos transigir com a violência e a arruaça.

Eu, claro, fico pensando: estes radicais ainda podem salvar o Brasil. Se tivéssemos tido, desde há 30 anos, como disseram cartazes dos manifestantes, o padrão FIFA na educação, na segurança pública (todo o sistema judiciário, do guarda de trânsito ao juiz de direito), não haveria arruaça (?). E não há maior violência do que vivermos atrás de grades, de medo de nossos concidadãos, de medo das autoridades, de medo de roubarem tudo, inclusive nossas vidas.

DdAB
Imagem: aqui. Naturalmente o vereador Claudilson Pezão nada sabe sobre logrolling. Isto, naturalmente, não impede que o Brasil seja esta casa de maus hábitos.

E minha campanha é:
Reformar o Judiciário!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Dilma sobre as Manifestações

Querido diário:
Há quase três horas, vi o pronunciamento na TV da presidenta. Simplesmente achei que ficou o mal-estar, aquela inteligência brilhante que costumo elogiar saiu para o lugar comum. Dando muito mais importância do que merecem para os atos de vandalismo. O vandalismo, volto a insistir, é bom para deixar bem claro aos governantes bem intencionados os limites da sociedade desigual, desonesta, desmotivada, deseducada. Uma tragédia.

O que eu esperava era que a Dilma fizesse uma promessa à população com um pacote de medidas  legislativas a encaminhar ao Congresso Nacional. Aquelas coisas que volta e meia conversamos. Agora, minha agenda origina-se de uma reflexão de Roberto Pereira da Rocha:

.a. reforma política
.b. reforma tributária
.c. reforma administrativa.

Claro que aqui tudo é contemplado, praticamente tudo. Mas, por brevidade, acho bom considerar. Em particular, destaco na reforma administrativa a reforma do poder judiciário. E, em tudo, a concepção de um sistema judiciário, que abarca juízes e carcereiros, enfermeiros e programadores de computador.

DdAB

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Briga: Manifestações x Institucionalização

Querido diário:
Agora, depois de alguns dias da estupefação geral com o poder das manifestações que hoje percolam o Brasil, há tentativas de envolver participantes (líderes e outros menos), tornando-os "de bem". Na capa de Zero Hora de hoje, há18 fotos com lindos dizeres:

.1. Povo que não tem (virtude) Vinagre acaba por ser escravo.
.2. Que país é este.
.3. Chega de privilegiar uma minoria elitizada.
.4. Quanto mais calado, mais roubado. Vem prá rua. Primavera brasileira.
.5. A aula hoje é aqui. O tema? Cidadania.
.6. Sexo é amor. Sacanagem é [R$] 2,95.
.7. Sr. governador: cadê o respeito e o fair play?
.8. Uma cidade muda não muda. Vem prá luta, vem!
.9. [Um coração vermelho]
.10 Vem prá rua!
.11. Desculpe o transtorno, estamos mudando o país.
.12 Protesto não é crime.
.13 Educação é direito e não privilégio. Xô, corrupção.
.14 Rosas não são armas.
.15 Hoje é um bom dia para lutar pelos seus direitos.
.16 Verás que um filho teu não foge à luta.
.17 Sem violência.
.18 O dia vai raiar sem lhe pedir licença.

O segundo editorial ("A crítica aos partidos") tem bem sua nota paternalista: "[...] Um dos cartazes exibidos em Porto Alegre, na última manifestação, tinha uma mensagem contundente: 'No Estado democrático existem apenas duas classes de políticos, os suspeitos de corrupção e os corruptos'. Trata-se de uma generalização exagerada, mas que reflete a visão da garotada sobre nossos representantes nos governos e nos parlamentos." Não poderia ser diferente: "a garotada", "nossos representantes". Definitivamente, não estou representado nem na política nem na imprensa!

E haverá mais paternal conselho do que da jornalista Rosane de Oliveira (p.250? "O Brasil, diferentemente da maioria dos países europeus, não enfrenta maiores problemas de desemprego, mas poderá enfrentá-los se as empresas começarem a reduzir investimentos por conta da crise."

As p.46-47 do mesmíssimo jornal deixam claras algumas fontes das manifestações. Casos de polícia, casos de arrepiar. Casos de falência absoluta, estrondosa e insofismável do aparato judiciário nacional. Um policial que teria sido assaltado passa a ser dado como suspeito. Outros Dois homens ameaçaram um cidadão de 48 anos em Passo Fundo. Finalmente, para acabar de concluir: numa rua próxima a minha casa, uma mulher foi assassinada por um homem (e seu parceiro) que, aparentemte, estavam mesmo querendo matar o companheiro da mulher (Angelica Emília Vieira dos Santos, 23 anos). Diz o jornal: "Na correria logo após os primeiros disparos, o companheiro de Angelica correu té a Avenida Azenha. Ela tentou se abrigar em um terreno no qual funcionam oficinas automotivas e foi perseguida por um dos criminosos, que fez pelo menos três disparos. Um tiro atingiu a mulher, que morreu na hora."

Parece que todas as ações violentas que estão ocorrendo hoje nas manifestações não são nada se as compararmos à violência que perpassa a vida nacional há várias décadas. A desigualdade? Claro: desigualdade significa poucos policiais, poucos juízes, poucos professores, poucos assistentes sociais. Pouco emprego decente. É o início e o final do rastilho de pólvora em que se transformou a sociedade brasileira em, digamos, 50 anos.

DdAB
Imagem: aqui.
P.S. Penso que, se pudesse, Zero Hora faria um cartaz: "Não queimem nossos veículos, não hostilizem nossos repórteres", claro que atendendo ao profundo ódio que muitos têm contra o poder e bom-mocismo deste órgão de imprensa (rádios, TVs, jornais) e construção civil...

terça-feira, 18 de junho de 2013

O Crime e as Manifestações Vermelhas

Querido diário:
No domingo (aqui), falei das manifestações que vêm ocorrendo no Brasil. Medroso, cheguei a cogitar de estar frente a um teatro montado pela Zero Hora em meu benefício, que tudo seria apenas uma orquestração de ações da imprensa, magnificando o ocorrido, a fim de elevar a insatisfação contra o governo. Claro que tal insatisfação estaria representando um sentimento da direita. E destaquei como um representante das interpretações de direita a um advogado  muito do sofista, o sr. Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr. 

Pois ontem acrescentei a minhas fontes de informação alguns momentos de TV. Mal entrei no canal 36, vi a cronista Rosane de Oliveira reclamando que não há jeito de esses manifestantes fazerem o que ela gostaria. Depois, vi alguns instantes do programa Conversas Cruzadas (nesse mesmo 36). Simplesmente lá estava aquele bel. Sebastião. Aquele recurso das ambulâncias ele não pôde deixar sossegado e voltou a usar. Só que desta vez também estava no programa um dos jovens (nome lá divulgado mas que não retive) participantes de um dos grupos que as lideram. Paixão Jr. falou no caso das ambulâncias, o jovem indômito desmentiu-o, afirmando que sempre que as ambulâncias se aproximam da passeata, esta abre espaço para o deslocamento do veículo. Fiquei de cara!

A direita, meu chapa, não é bolinho. No canal 40, vi mais um tratamento conservador, buscando -no meu sub-reptício jeito de pensar as sub-repticiedades da natureza humana- associar alguns nomes de pessoas identificadas nas manifestações de véspera em Brasília com os cargos que ocupam no governo federal. Não que o governo federal me pareça merecer defesa pelo que quer que seja (exceto a bolsa família), mas parece óbvio que incriminar o governo pela presença de funcionários públicos nas passeatas é rugir à direita. A direita não dá colher: as manifestações são criminosas, pois há gente violenta envolvida.

Claro que em minha maneira de ver, as manifestações são bastante pacíficas, tanto é que ainda não começaram a atacar os políticos! As palavras de ordem para o caso seriam:

.a. acabar com os CCs
.b. acabar com a segunda reeleição para qualquer cargo público
.c. deixar claro que o Brasil não quer políticos profissionais!

Para concluir, quero citar três manifestações de opinião (página 10 de Zero Hora) que deixam-me de orelha em pé e que provam que as manifestações estão cobertas de razão:

.a. Dilma Rousseff - Presidente do Brasil:
As manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem.

.b. Renan Calheiros - Presidente do Congresso [na verdade, do Senado Federal, que -como sabemos- deveria ser fechado, pois os estados também deveriam ser fechados]:
Compreendi a legitimidade da manifestação e disse que o Congresso se guiaria pelos protestos para aperfeiçoar a agenda. Protestos são legítimos e devemos fazer a leitura correta. Esse é o desafio.

.c. Luiz Inácio Lula a Silva - Ex-presidente:
Ninguém em sã consciência pode ser contra manifestações da sociedade civil, porque a democracia não é um pacto de silêncio, mas a sociedade em movimentação em busca de novas conquistas. Não existe problema que não tenha solução. A única certeza é que o movimento social e as reivindicações não são coisa de polícia, mas, sim, de mesa de negociação.

É claro que as manifestações violentas ocorrem precisamente porque temos governantes como esses três. 

A Dilma foi abduzida pela maneira tradicional de se fazer política, comprando as alianças que lhe dão maioria para algumas iniciativas e minoria para outras tantas. A Dilma não fala em reforma de nada, tirou o time, as propostas de reforma política, reforma tributária, reforma do judiciário, estas coisas estão prá lá de no fundo da gaveta.

O Calheiros, ele próprio, já foi objeto de manifestações, homenageando sua cara de pau, depois daqueles escândalos que o removeram da presidência do senado e que voltou a ele, com a conivência da Dilma, do Sarney, e de todos os agatunados do país.

O Lula quer que as redes sociais sentem à mesa para negociar.

O Planeta 23 quer apenas que essa turma caia fora!

DdAB
Imagem daqui. Fala-se em "contra a violência e contra a corrupção". Estou com eles! Defino como violência a vergonheira de políticos ganharem R$ 30 mil e os meninos de rua ganharem tiros e pontapés. Defino como corrupção eles ganharem R$ 30 mil e quererem aumentos, fora as propinas!

P.S. (acrescentado às 21h24min de 20/jun/2013): no jornal ZH de hoje tem uma entrevista com o jovem a que me referi acima, por ter desmentido o bel. Sebastião: Lucas Maróstica. Tá aqui a entrevista (aqui):

O rosto mais visível dos protestos em Porto Alegre, com aparições quase diárias em ZH, Rádio Gaúcha, RBS TV e TVCom, é um estudante de Ciências Sociais que assume sem rodeios sua ligação partidária. Lucas Maróstica, 22 anos, é filiado ao PSOL, trabalha para a bancada do partido na Câmara de Porto Alegre e integra o Coletivo Juntos.

Coordenador do Juntos pelo Direito de Amar, que atua contra a homofobia, Lucas nasceu em Serafina Correia, mas cresceu em Guaporé.

Aos 18, veio para Porto Alegre, fez vestibular na PUC e lá descobriu a política estudantil. Depois, passou na UFRGS e concluiu que não quer ser jornalista: sua vocação é ser professor. Foi na luta política que conheceu a vereadora Fernanda Melchionna, com quem trabalha hoje.

Ontem, na Redação de ZH, ele falou por mais de uma hora. Leia a síntese da entrevista.

Zero Hora – Quais são as questões centrais nos protestos?

Lucas Maróstica – O povo quer que o dinheiro público seja investido em questões sociais. Há um desperdício muito grande desse dinheiro. Se o governo tivesse o empenho que está tendo com o dinheiro da Copa para as áreas sociais, muitos dos problemas talvez fossem resolvidos no país. A gente não vê esse esforço. Esse é um anseio geral da população, uma indignação que está batendo.

ZH – Vocês se preocupam com o fato de o excesso de causas acabar deixando os protestos sem foco?

Lucas – Temos muito essa preocupação. Primeiro, é um movimento das massas ocuparem as ruas e, como isso não acontecia há muitos anos, cada um faz a sua pauta. Então, 40, 50, 100, 200, não sabemos quantas são. A tendência é de que, agora que saiu o primeiro levante, as coisas se esclareçam. Nós, do Juntos, vamos trabalhar a nível nacional para construir determinados eixos. Eixo 1, redução da passagem em todo o país. Eixo 2, contra a criminalização dos movimentos sociais. Eixo 3, que os gastos investidos na Copa sejam investidos nas áreas sociais.

ZH – É impossível falar desse eixo dos movimentos sociais sem abordar os atos de vandalismo, com queima de ônibus e lixeiras e depredação de prédios. Como vocês avaliam esses atos?

Lucas – Há vários elementos que fazem com que essas coisas aconteçam. O primeiro, é a ação violenta da polícia. Teve um ato em que estávamos entre 100, 150 pessoas, e era um ato de estudantes do Ensino Médio. A gente chegou na frente da prefeitura e fomos recebidos a cassetada, spray de pimenta.

ZH – A queima de ônibus e de lixeiras, a depredação da revenda de motos, vocês não repudiam esses atos?

Lucas – Em São Paulo, cantaram a seguinte palavra de ordem: “Ah, que coincidência, sem polícia, sem violência”.

ZH – Mas não teve polícia em frente à prefeitura e queimaram até uma van.

Lucas – Em São Paulo, é outro caso, tem outras questões envolvidas. Não vou entrar na questão de quem está praticando isso, mas acho o seguinte: a pessoa não tem acesso a serviços básicos, saúde e educação. Essas pessoas ficam tão isoladas, tão desamparadas do poder público, de ações sociais, que cria-se uma revolta grande, que às vezes é canalizada para esse tipo de ação.

ZH – Por que o repúdio à mídia?

Lucas – A capa que a ZH fez quando teve o primeiro ato na prefeitura foi lamentável. Foi uma capa extremamente mentirosa, colocou todos como baderneiros, vândalos.

ZH – Mas os veículos do Grupo RBS têm dado amplo espaço aos protestos.

Lucas – Acho que, a partir da análise de que começaram uma cobertura extremamente equivocada, se abriu mais espaço. A mídia estava deslocada da realidade. Ela sabia que a população estava ao nosso lado. A gente tem uma aceitação muito grande, temos um espaço que é merecido, a partir de trabalhar com veículos de comunicação, mas, tem reportagens, análises que são equivocadas.

ZH – Você não se incomoda de ver um ônibus queimando?

Lucas – O que não é normal é empresa roubar R$ 72 milhões dos cofres públicos, governos roubando da população sem parar, bilhões sendo investidos em iniciativa privada, como o Itaquerão, enquanto educação e saúde são um caos. Isso é que é absurdo, isso que não dá para engolir. Essa é a resposta do movimento em relação aos atos.

ZH – Então, para vocês, a palavra vandalismo não existe nas manifestações?

Lucas – Olha, chamamos de vandalismo as ações que os governos têm promovido contra a população.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Bobagens Econômicas

Querido diário:
Lá o Leonardo Monastério tem seu "Prêmio Eço", conferido a quem diz destrambelhos econômicos. Hoje ofereço uma menção honrosa a Cláudio Benabucci, com o artigo "O Estopim das Crises. Desigualdade. Quando o 1% mais rico concentra 25% da renda, explode a 'bomba atômica econômica', diz o Nobel Joseph Stiglitz", que se lê nas p.50-52 de uma Carta Capital velhinha, datada de 12 de junho de 2013, recebida uns dias antes, mas apenas neste glorioso fim-de-semana nublado e às vezes chuvado é que foi processada.

Eu pensara haver desmoralizado completamente aquelas ideias de que a propensão marginal dos pobres, sendo menor do que a dos ricos, impede redistribuições em favor dos primeiros, se queremos dinamismo, se queremos crescimento econômico. Meus argumentos:

.a. a sociedade não é dividida apenas em pobres e ricos. Digamos que o mais pobre ganhe D$ 1 e o mais rico ganhe D$ 100. Segue-se logicamente que pode haver um pobre ganhando D$ 2 e um rico recebendo D$ 99. E assim por diante, para não falar no pobre de D$ 1,1 e no rico de D$ 99,9. Interessam para este argumento três indivíduos, nem pobres, nem ricos, digamos que os que ganham D$ 49, 50 e 51. Então, se a linha divisória entre pobres e ricos é mesmo esses utópicos D$ 50, quando há redistribuições dos ricos aos pobres, o de D$ 51 molha a mão do de D$ 49. Neste caso, a propensão a consumir deste rico e deste pobre não é substancialmente diferente. Mais ainda, se o rico, que ficou pobre, passou a consumir marginalmente mais, ele vai compensar o nouveau riche que, naturalmente, passará a consumir marginalmente menos. Isto significa que, na média, o que uns ganham compensa o que outros perdem.

.b. nos primeiros anos de minha carreira docente, eu impingia a bobagem tradicional aos pobres alunos, apostatando este negócio precisamente ao mergulhar (para ensinar) no modelo IS-LM. E isto me levou à segunda crítica desta xaropada. Agora passamos a olhar apenas o mercado de bens. Nele a condição de equilíbrio é que a renda (o produto, na verdade) é igual à despesa. Ou seja, estamos falando da igualdade entre duas das três óticas de cálculo do valor adicionado (e o produto ficou escondidinho ali entre parênteses).

Temos:
Y = C + I (a oferta de bens, ou melhor, a renda é igual à despesa, que se divide em consumo e investimento, pois não temos governo G nesta encrenca, nem setor externo X-exportações e M-importações; se tivéssemos, a equação seria Y = C + I + G + (X - M) (sem variação de estoques...)).
I = Io (o investimento não depende da renda; um dia, um aluno escreveu na prova I = 0 + 1 x Io e ganhou 10).
C = co + c1 x Y (o consumo tem uma componente autônoma e outra induzida pela renda, sendo que este fator de indução, nosso c1, chama-se de propensão marginal a consumir e, como acabo de argumentar, não deve responder muito escandalosamente a redistribuições de renda).

Desse modelo de três equações e três incógnitas (Y, C e I), montamos a equação reduzida do modelo da qual extrairemos o multiplicador:
Y = co + c1 x Y + Io
Y - c1 x Y = co + Io
Y x (1 - c1) = co + Io
Y = (co + Io) / (1 - c1).

Como sabemos, o multiplicador da equação reduzida de um modelo é obtido por meio do cálculo da derivada parcial da/s variável/is dependente com relação à independente (na verdade, não é bem assim este negócio de "como sabemos", pois só sabe isto quem estudou cálculo diferencial). Seja como for, o multiplicador da última das equações que acabamos de listar diz-nos de quanto varia a renda se o investimento varia de uma unidade. E a resposta é

dY/dI = k = 1/(1 - c1).

Ou seja, tomamos a propensão marginal a consumir c1, subtraímo-la da unidade e calculamos o inverso. Por exemplo, se a propensão marginal a consumir é 0,75 (ou seja, cada D$1 de aumento no investimento, a renda deve elevar-se em D$ 4, a fim de que o equilíbrio entre a oferta-renda e a demanda-despesa seja restaurado; se não se elevar, não restaura o equilíbrio, não é mesmo?).

Uma coisa que não é dita nos livros grandiloquentes é que exatamente o mesmo fenômeno acontece no caso do gasto autônomo co elevar-se nos mesmos D$ 1. Ou seja, a derivada dY/dco também é k.

Retomando: meus alunos eram obrigados a declarar terem entendido que este negócio é um modelo cuja interpretação não sugere que, quanto maior a propensão marginal a consumir, melhor para a economia, ao contrário. Quanto maior o valor do multiplicador, pior para a economia: é necessário maior crescimento da renda, a fim de que se restaure o equilíbrio. E isto não é bom. Mais fácil é retomar o equilíbrio, digamos, com um gasto de D$ 1 do que com o de D$ 1.000.000, não é isto?

Pois bem: não que eu já tenha dado aulas a algum prêmio nobel de economia, ao contrário. Em meus tempos gordos já assisti à aula de um ou outro deles. Lembro num encontro da ANPEC numa cidade serrana do Rio de Janeiro de ter visto Richard Stone. E vi, em Oxford, o futuro nobel Amartya Sen.

Em compensação, duvido que Stiglitz tenha dito o que este Cláudio Benabucci sugeriu. Diz o comentador, usando símbolos diferentes dos que usei anteriormente (tudo citadinho verbatim):

   O teorema de Stiglitz sobre 'distribuição e multiplicador' pode ser sintetizado na seguinte definição: se a má distribuição da riqueza acentua a desigualdade, então a propensão marginal ao consumo (C) diminui e o Índice de Gini (G) aumenta, o que provoca a diminuição do valor do multiplicador econômico, com base na fórmula > ml = 1/(1 - C)k(1/1-G).
   A elite econômica mundial, dessa forma, fica sem argumentos. Tudo indica que a equação de Stiglitz representa o ataque mais formidável até agora lançado aos já vacilantes fundamentos da economia mainstream. Pelo menos na batalha teórica. [...]

Que posso balbuciar?
.a. pedir que meu leitor acredite que eu acredito que ml quer dizer multiplicador, C quer dizer propensão marginal a consumir, G quer dizer índice de Gini e k retém o caráter de bíblico mistério. E tem mais, aquele 1/1 só pode dar 1, não é mesmo?
.b. maldizer minha sorte que decidi ler veículos da imprensa do porte daqueles que me caem na mão. Neste caso, a Carta Capital deixa-me louco, pois considero-a mais a meu lado do que a afamada Zero Herra. Talvez eu devesse passar a chamar esta Carta Capital de Capital dos Carta, que é de Mino Carta a chefatura do negócio.
.c. tenho boas razões para crer que a desigualdade não é benévola ao crescimento econômico, mas minha crença está baseada em argumentos mais sofisticados do que este modelinho elementar de determinação da renda usado para preparar o aluno para estudar algo ligeiramente mais realístico.
.d. em particular, o irrealismo deste diabo de modelo de primeira aula (no final do semestre o aluno já deverá tê-lo deixado para trás) vai ser corrigido com a possibilidade de que o investimento não seja autônomo, mas dependa da taxa de juros, que o inibirá. E que a taxa de juros também depende da demanda por moeda (e a afeta, claro, pois se x=f(y), então y=g(x), né?). Isto é, podemos pensar que variações na demanda por moeda implicarão variações em pilhas de coisas, inclusive a taxa de juros, o que fará o investimento também reagir.

[Acrescentado às 21h14min de 3/ju/2013: e, quando falamos em variações na demanda por moeda, muito provavelmente também estaremos mexendo no nível geral de preços. Deste modo, há dois fatores inibindo a ação daquele multiplicador lá de cima: os juros e os preços].
DdAB

Imagem: Uma vez que Joseph Stiglitz conhece muito mais teoria econômica do que eu, prefiro pensar que quem conhece menos é mesmo o Cláudio Benabucci, que terá entendido tudo de acordo com o modelo nada-a-ver. Tal é o caso do dodo da imagem de hoje, que não tem nada a ver com isto, mas foi obtido aqui.

domingo, 16 de junho de 2013

A Ferro e Fogo: as mobilizações de cores vermelhas

Querido diário:
(postagem longa)

A bola da vez são as mobilizações iniciadas pela internet e potencializada pelos aumentos dos bilhetes de viagens urbanas de ônibus. Parece que estamos falando de várias capitais do Brasil. E parece que há gente descontente a ponto de sair de casa e encarar os riscos de participar de uma mobilização. E parece que há participantes organizados (PSTU, PSOL, que mais sei eu?).

O mundo é estranho: durante os tempos da ditadura de Castelo Branco e outros homens brancos, Sérgio Cabral era da "patota" do -como eles mesmos diziam- hebdomadário Pasquim. Ele faz parte desse arranjo escalafobético estranho e brasileiro: para melhorar a estrutura urbana de várias cidades brasileiras, precisávamos promover a copa do mundo de futebol. Sem copa do mundo, não haveria vontade nacional? Sem copa do mundo, não haveria propinas. Sem propinas, não haveria política do estilo contemporâneo brasileiro.

Sem voto facultativo e distrital e sem parlamentarismo, não haverá salvação para o Brasil contemporâneo. A choldra (em breve falarei mais do livro de Vianna Moog sobre Eça de Queiroz) escolhe maus políticos por não ter educação por ter maus políticos que sabem que eleitores educados tomariam decisões muito mais lisas do que elegendo ladrões. Ladrões, políticos, choldra, eleitores: estas são as variáveis básicas das mobilizações contemporâneas.

Primeiro: não sei se estamos falando de um evento autêntico, autenticamente importante, merecendo a generalização que farei em seguida (just in case...). Ou se estamos frente a uma dessas invenções da imprensa que leva uns a repercutirem a notícia de outros e daqui a pouco todo mundo fala de um evento que torna-se importante na imprensa. Mas que não se distingue em amplitude e profundidade de milhares de outros que ocorrem cotidianamente no Brasil.

Segundo: se é mesmo que estamos frente a um momento de desencanto generalizado com as condições presentes da política brasileira (ladroagem, salários milionários, escárnio judiciário), minha parca informação e pobre capacidade de recuperação levam-me a pensar que a insatisfação no Brasil nunca chegou ao nível em que estava, digamos, durante o governo Collor. O povo estava mesmo cansado de ladrões e da inflação.

Terceiro: ladroagem parece que é um axioma, ou seja, evidente por si mesma. Basta olhar a dupla palhaçada de haver lei mandando publicar os salários dos funcionários públicos e também de vermos cifras astronômicas! Descontados os spectacular awards lá do velho Joseph Alois Schumpeter, o Planeta 23 não concebe sociedade decente que vive com um índice de Gini de mais de 0,3 e com um leque salarial de mais de dez vezes.

Quarto: inflação e baixo crescimento. A inflação parece revigorar-se, talvez tangida principalmente precisamente pelo problema da falta de crescimento robusto. Este, por seu turno, parece associado à incapacidade da economia de aumentar a eficiência com que usa seus recursos, ou seja, aumentos de produtividade. Não cresce a produtividade: poucos choques significativamente positivos do lado da oferta. Cresce a inflação: torna-se ainda mais difícil calcular rentabilidades e, como tal, mobilizar um projeto virtuoso de crescimento econômico dinâmico e até redução do número de horas trabalhadas na economia. Como tal, as regras distributivas é que precisam acomodar-se para dividir o excedente cada vez maior por meio de critérios cada vez mais inclusivos. Até chegarmos àquela situação falada por Martin Bronfenbrenner e os maximalistas: ninguém trabalhará mais de dois ou três anos durante todo seu curso de vida.

Quinto: a capa de Zero Hora de ontem, em segundo plano, fala das mobilizações:

Protestos
O risco do aumento da violência nas ruas
Ampliação de alvos e danos na Capital abre discussão sobre rumos das mobilizações.

-> Ação da PM de São Paulo é investigada

Cláudia Laitano
Quebra-quebra atrasa debate

Rosane de Oliveira
Causa certa com método errado

Páginas 2, 4, 5, 8 e 12.

Então vejamos.

Página 2: Cláudia Laitano (notei apenas hoje que ela oferece, além do e-mail (claudia.laitano@zerohora.com.br), um endereço do tuíter (@ladilait). Este, vindo eu da chamada feita pela capa com aquela pulga atrás da orelha, soou-me como um Lady Leite, sei lá. Une chose de la noblesse qui s'oblige a condenar qualquer desvio mais sério para o vermelho. Se é que é desvio sério, repito, se é que não estamos apenas vendo uma orquestração, digamos, para que o governo brasileiro seja entregue a outros ladrões, no caso, ladrões defensores de outras contas bancárias, comungando com os atuais o mesmo apreço pelo patrimonialismo e salários escalafobéticos.

Então tem aquela de que o quebra-quebra atrasa o debate, como -talvez- no caso da Revolução Francesa e da chamada Primavera Árabe. E os planos da turma da Inconfidência Mineira. E milhares de outras situações modificadas na base da violência que serviram para conduzir a humanidade a mais conquistas institucionais, melhorias institucionais, garantia de mais direitos humanos. E no artigo tem a chamada "A violência é sempre caótica, incontrolável, anticivilizatória" que deixou-me a rir, rir, rir. É mesmo? Qual a fonte? Qual a evidência? Não é, claro, o caos que vemos nos filmes do Poderoso Chefão: uma organização de dar inveja à CIA e ao FBI, para não falar no ódio que muitos brasileiros nutrem pelos governantes de R$ 30.000.

Página 4: duas páginas de reportagem não assinada. Encabeça-a a reprodução de declarações de seis nomes e sobrenomes (Rejane Azevedo, Adair Dolzan, Carlos Tadeu Rosa, Bibiana B.S., José Augusto Rocha e Rafael Schwartz) que tem um admirável ponto em comum: condenar pelo menos um aspecto das manifestações. Na reportagem, claro que há condenações às atitudes escabeladas da polícia  e, como tal, do aparato repressivo organizado pelos atuais governantes do Brasil. Dizer -não que o jornal tenha dito- que a polícia de São Paulo é mais violenta porque trata-se de um governo do PSDB é tão baixo nível como dizer que quem está afundando o Brasil é o PT. São 30 anos, 40 anos, talvez 513, de descalabros escabelados. Tem gente que até abre algum espaço para a violência.

De minha parte, entendo um movimento deste tipo como povoado por pessoas das mais diferentes formações culturais e psicológicas. Como tal, haverá, digamos, um espectro estendendo-se da direita à esquerda. E haverá "direitistas" que só caminham vagarosamente nas manifestações, sem gritar, sem portar cartazes. E "esquerdistas" que gritam, lançam impropérios e tacam fogo na vitrine da loja, no conteiner do lixo e no carro da polícia. A violência do protesto é que ele mostra insatisfação não apenas contra o aumento do preço dos bilhetes de ônibus mas contra todo o status quo brasileiro contemporâneo. Há muita ineficiência especialmente do sistema judiciário (telefones privados dos ocupantes dos presídios, julgamentos comprados em diferentes cortes, essas coisas). Tem milhões de vetores de forças que resultam nas manifestações. Boa parte destes é de esquerda. Se fosse apenas direita, teríamos... Zero Hora. Por puro acaso (página 9), "um dos carros da empresa" foi detonado. Era ódio às multinacionais que produzem veículos no Brasil? Era ódio do grupo jornalístico de direita? Era um militante desempregado?

Página 12 Aqui temos a coluna Página 10, da cronista política Rosane de Oliveira (rosane.oliveira@zerohora.com.br e @rosaneoliveira). O título é: "Protestos sim, violência não". Diz Oliveira que "Nelci Muttes disse uma frase definitiva para a repórter Geórgia Santos, da Rádio Gaúcha, ontem à tarde: -As pessoas que se escondem atrás de uma máscara, que cobrem o rosto, não são verdeiros homens, são uns covardes." E diz mais a Página 10: "Vale para os homens e vale para as meninas que tmabém usam toucas ninja nos protestos e depredam patrimônio público e privado: são covardes, escondidos atrás de uma máscara." O Planeta 23, estupefato, indaga: "Máscara só vale para o carnaval? Ou também para a política? Filmou, reprimiu, então mascarou, né, meu chapa?".

Página 13. De brinde, já que não está anunciado na capa, a página 13 tem um "Debate: Protestos de Rua", com dois artigos assinados. Esquerda e direita. A esquerda, por meio do doutor em educação pela UFRGS, sr. Jorge Barcellos, diz em seu parágrafo conclusivo

É claro que não queremos a violência, mas o problema justamente é saber aquilo que queremos. O espírito destes movimentos é de revolta e não de revolução, são movimentos de fúria autêntica sem um programa de mudança sociopolítica. A maioria de seus participantes rejeita a violência, mas há ali em seu interior aqueles que seguem praticando-a, produto da descrença na classe política à direita e à esquerda. Movimentos sem programa se tornam histéricos e o que vemos no dia seguinte é a repetição do dia anterior, o que leva a um estado de emergência permanente e o risco da suspensão da democracia política. Cmo dizia Gandhi, os manifestasntes só foram violentos porque 'querem dar um basta ao modo como as coisas funcionam' (Zizek), mas oq ue significa sua violência quando comparada à exercida pelo Estado que afirma existir liberdade mas não tolera a 'liberdade de rebelião'? [Verbatim]

Em geral, gosto da abordagem, que me parece mais à esquerda, ela mesma. Claro que a violência não é boa e claro que, na condição de caso extremo, ela se justifica por si só: havia algo incomodando tanto que não foi possível chegar ao diálogo (lembrar Anatol Rapoport e o próprio título do livro: lutas, jogos e debates). Não se trata de um jogo nem de um debate. Não dava mais para dialogar com a classe política, os representantes eleitos fraudaram de tal maneira as expectativas daquele grupo e de milhares de outros que não foram (desalentados e outros) que também há milhares de apoiadores. Sou pela paz! Mas não nego que haja gente que ajuda o planeta a avançar precisamente por ocupar o caminho da violência. Não gosto. Sou pela paz. Mas apoio, dou apoio e gostaria de participar, gostaria de deixar claro aos governantes que esses 20 ou 30 anos de marasmo institucional deixaram o Brasil precisamente na mesma condição de início: um país subdesenvolvido.

E aí tem a voz da direita, o advogado Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr. diz "Destaco um detalhe: muitos manifestantes estão encapuzados. O que isto significa? Significa que precisam esconder seus rostos porque sabem que estão fazendo algo errado, ilícito ou reprovável. E é sabido e ressabido que a justa reivindicação não precisa de disfarces ou anonimatos." É? Nem na Revolução Francesa? E mais: "Pergunto por oportuno: se uma manifestação pública interromper o trânsito, impedindo que uma ambulância com um paciente grave chegue ao hospital e ocasione o óbito do doente, serão os manifestantes responsabilizados pela morte?" E eu pergunto: e se a grávida não tiver o dinheirinho para pagar o bilhete de transporte ou o ingresso na maternidade? Que diabos de critério é este do trânsito? Não seria também errado construir nas diagonais das ruas? No lugar geométrico de todos os pontos que convergem ao hospital e derrubar as casas, a fim de acelerar e deslocamento das ambulâncias? Cada uma! Ainda assim, há algo de uma dúvida razoável na argumentação: "A questão é que talvez os veículos tradicionais de participação política (partidos políticos) estejam superados pelas novas formas de direta manifestação democrática (internet e redes sociais)."

Obviamente, o povo revoltado assusta até mais que o revolucionário, para usar a categorização do sr. Barcellos. E a questão é como converter esse descontentamento em força realmente capaz de transformar as instituições sem atropelos. A questão é como convencer os poderosos de que eles estão colocando em risco muitas vidas, muito patrimônio humano, social e econômico. Mas qual seria o incentivo para um deputado, um governante qualquer, passar a trilhar o sendeiro do bem? Qual a probabilidade de que gente como a petista Dilma ou o socialista Campos possam liderar uma importante facção do espectro político, de sorte a granjearem apoio parlamentar e civil que lhes permita conduzir as reformas democráticas que conduzam ao socialismo, ainda sem defini-lo. Mas bem sabemos quais são as reformas democráticas, por exemplo:
.a. retornar a idade máxima de aposentadoria dos atuais 75 anos para os antigos 70 anos (e até 60, por que não?; a renda não subiu 3,5% a.a. desde 1968?)
.b. gastar em educação seriamente, sem atropelos ou arremedos
.c. ler atentamente as postagens deste blog e tirar delas um programa de trabalho decente (por exemplo, o voto distrital facultativo).

DdAB
Imagem: daqui.
Claro que não estamos falando de assaltos a bancos ou rebeliões nas prisões controladas por traficantes de drogas. Mas de desobediência civil. Veja o que diz nosso Bípede Pensante (aqui).
P.S.: acrescentei isto às 18h23min de 24/jun/2013: parece que as mobilizações vermelhas têm boas agendas, inclusive aquelas duas que postei aqui.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O Planeta e o Planeta 23

Querido diário:
Volta e meia, falo da realidade local e com a mesma frequência da realidade brasileira. Não usei a expressão "realidade estadual", pois nego-a insistentemente. Tanto é que sou a favor da eliminação dos estados e, a reboque desta medida saneadora, a extinção dos deputados estaduais e dos senadores. Seja como for, não sou alheio ao que acontece no mundo, mais ou menos guiado pelos diligentes jornalistas que produzem a Zero Hora e a Carta Capital. Volta e meia, chega-me informação originária de outras fontes, nenhuma delas, devo lamentar, atendendo a 100% de minhas ambições de manter-me a par d'O que vai pelo mundo.

Lendo algo que não recordo, havia uma notícia interessante. Como não achei a fonte, fui ao Google, digitando "Putin Iran Israel" e a notícia estava aqui (nem li tudo). Fiquei pensando: parece mesmo sensato: um país não poderia ficar metendo a mão com as mulheres, com outros países, com religiosos de outras paróquias. Disse Vladimir Putin (o homem que assume os cargos, alternados, de presidente e primeiro ministro da Rússia) que o Iran não pode ficar ameaçando destruir Israel. Eu achei que o mundo está melhor nas mãos dessa macacada depois de ler isto do que antes. Mas, para fechar o arquivo, acho que o estado nacional também deveria ser abolido, a exemplo do que prego para o estado regional...

DdAB
E a imagem do aeroplano piano piano é daqui.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tarso e a Educação

Querido diário:
Para os leitores internacionais, Tarso Genro é o governador do Rio Grande do Sul. Presumo que ele não saiba inglês, pois não leva a sério a figura de estilo criada por Tony Blair para dar o devido lugar à educação nas políticas públicas do Reino Unido:

Education, education, education.

Eu, como não sou 100% versado em prosa do português brasileiro, e o que é pior em ABNT, não sei se o segundo e o terceiro "educatons" da fala do ex-ocupante da Downing Street têm a inicial maiúscula.

O fato é que o dr. Tarso Genro não tem a educação em conta maiúscula, tem-na  bem minusculazinha, desmusculadinha. Naturalmente, sua mente experimentará um corte radical, ao sair do governo, quando voltará a dar discursos louvando a educação.

DdAB
Imagem daqui. Ao clicar, veremos uma postagem que me agrada: pau no governo que fez uma lei imbecil, proibindo os neologismos ditos estrangeirismos. Faltou educação à negadinha que não consegue incorporar novas palavras a seu palavrório.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Hai-Kai n.28

Querido diário:
Vejamos mais um daqueles hai-kais feitos em forma de trova, seria feito -digo- se Millôr dançasse comigo num desses centros de tradição gaúcha que viceja pelo Brasil afora.

Disse Millôr:

FIQUEI BOM DA VISTA!
DEPRESSA,
UM OCULISTA!

Planeta 23:
Depressa, um oculista
que cobre a prazo,
mas cuide à vista.

DdAB
Imagem daqui.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Povos Astronautas: repercussões


Querido diário:
Há pouco estive olhando umas postagens velhas deste very blog. A certa altura, vi a primeira das que acima aparecem, especificamente aquela que fala dos 73 mil livros. Uma das mumunhas governamentais, digo eu, na minha iracunda irreverência com as coisas deste desditado país. Fico a indagar-me se tudo o que cito sem mencionar a autoria de terceiros é recebido por meus leitores como sendo realmente de autoria de quem.

Para mim é óbvio que, sempre que eu citar esta encrenca de povos astronautas, estarei referindo-me a leituras antigas (e às vezes atualizadas, como releituras) da série Perry Rohdan. No caso, foi lá mesmíssimo que aprendi a falar nos povos astronautas. Acho o conceito interessante: todos os terráqueos somos, e -além de nós- haverá outros povos astronautas a serem encontrados ou a nos encontrarem.

Há pouco, encontrei 138 documentos no Google, precisamente os primeiros sendo reproduzidos na imagem do dia.
DdAB

domingo, 9 de junho de 2013

Curiosidade Futebolística

Querido diário:
O prof. Adalmir Marquetti mostrou-me a tabela que nos encima, que é uma verdadeira pintura. Vemos, desde o título, a relação entre dívida e número de torcedores nos grandes clubes brasileiros.

Eis o comentário feito por ele:

A tabela mostra, para os grandes clubes brasileiros, a relação entre a torcida total e por estado e a dívida para 2012. O ranking da dívida por torcedor é: Botafogo, Fluminense, Coritiba, Atlético Mineiro, Vasco, Santos, Internacional, Grêmio, Atlético Paranaense, Flamengo, Cruzeiro, São Paulo, Palmeiras e Corinthians. O ranking da dívida por torcedor do próprio estado é: Botafogo, Fluminense, Vasco, Atlético Mineiro, Flamengo, Coritiba, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético Paranaense, São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro e Corinthians. Os times cariocas são os mais endividados, ao passo que os paulistas possuem o menor endividamento por torcedor. Aproximadamente 48% dos torcedores apoiam times de outros estados, o Flamengo e o Vasco são os grandes beneficiados.

Nos follow ups dos comentários, tornou-se claro que quem manda na TV também manda no futebol, leia-se Rede Globo de Televisão.

DdAB

sábado, 8 de junho de 2013

Handbook of Latin American Studies

Querido diário:
Haverá milhares de handbooks e uma fração expressiva deles concernentes aos estudos latino-americanos. Este blog, por exemplo, é um deles, ou melhor, é um estudo latino-americano, a realidade social vista por um latino-americano sediado em Porto Alegre e com mergulhos nos ares de outras terras terráqueas.

A Latin American, Portuguese, and Spanish Division da Library of Congress dos Estados Unidos da América publica -bienal- um destes handbooks que usei amplamente (o pertinente às Social Sciences) quando ganhava a vida como pesquisador. Naturalmente, o acesso a ele era mais fácil em, digamos, Londres do que, digamos, Porto Alegre. Preparando minha tese doutoral, usei amplamente as referências lá exibidas sobre o Brazil (como sabemos, a grafia oficial utilizada na primeira constituição republicana, os Estados Unidos do Brazil).

Segue-se logicamente que graduei-me em economia em 1972 e, em 1973, foi publicado o volume 35. Se é bienal e se é 35, segue-se logicamente que a publicação pode ser que possa existir há 70 anos, naquele tempo. E agora, nem se fala: quase 100 anos! Pode? Claro que pode, o que não pode é o Brasil sofrer de subdesenvolvimento e pensar que este negócio de BRICs é algo que o coloca ao lado da China e da Índia, com aquelas taxas de crescimento estratosféricas.

Be however it may, diriam eles lá os redatores deste Handbook, vejamos os parágrafos finais (da p.218) sobre o Gigante Adormecido:

   With Brazil now well into its fifth year of ten percent growth, there is a marked shift in the literature from the earlier concentration on structural inflation and stagnation to the newly perceived concern for the employment and distributional aspects of economic growth. Well reflected are differences of opinion within Brazilian Government and intellectual community, and among economists worldwide, regarding the extent, if any, to which accelerated growth necessarily conflicts with distributional objectives, and the relative priorities of these ends. The long article by Langoni analyzing 1960 and 1970 census data is a particularly important contribution to this debate.
   Another interesting feature of the current batch of articles is the shift of attention from the import-substitution model of earlier years to the present fact of, and future possibilities for, rapid export growth. This, of course, is in response to the very rapid recent growth of Brazilian exports, particularly of manufactures. The aggressive manner in which the Brazilian Government is promoting its exports, on both the supply and demand side, will undoubtedly be reflected in publications reviewed in a later edition of the Handbook.
   The important role of the foreign entrepreneur in Brazilian development continues to be a preoccupation of the literature. The very large inflow of medium-and long-term portfolio capital -as opposed to direct investments- has not yet attracted the analysis it deserves.
   'O Brasil é o país do futuro, y sempre será (Brazil is the land of the future, and always will be)' is an adage thas has long haunted that nation's aspirations to world power status. According to the present Government, 'O futuro já chegou' (the future has already arrived)'. Much of the literature pertaining to Brazil in the rest of this decade will be devoted to evaluating this assertion and its implicatons for its own people and for the hemisphere. Comparisons of the 'Brazilian model' with other development approaches in Latin America and elsewhere are needed and inevitable.

Não há como ficar imune a uma profunda sensação de baixo-astral ao ler estas coisas. Sabemos que os anos 1970s bateram, bem por essa época, na chamada primeira crise do petróleo. A inflação, que caíra a 15% a.a., começou a subir e a indexação começou a percolar toda a economia. Entre 1973 e 2010, o PIB cresceu à taxa de 3,38% a.a. O Milagre Brasileiro ficou por conta da queda na taxa de crescimento demográfico, o que deu certo alento à renda per capita. Mas sua distribuição (da renda, índice de Gini) nunca mais retornou ao nível de 1960 (nem 40 anos depois).

O lado alegre da milicada é que, nunca antes nem depois na história deste país, o imposto de renda foi tão importante na formação da receita tributária nacional. E o lado amargo lá deles e de todos os seus sucessores civis e mistos é que o gasto público manteve-se dedicado à corrupção e distanciado da educação. BRIC? Faz-me rir!

DdAB
P.S.: Os dados macroeconômicos disponíveis em 2013 no site do IPEA levam a 10,8% a.a. E 1970/1980 já tinha baixado para 8,6% a.a. Em minha tese doutoral e no artigo de 1999 publicado na Nova Economia (não disponível na internet), achei que algo parecieo com estes 8,6% a.a., mas para a oferta total (o familiar VBP), nomeadamente, 8,7%. a.a. Esta cifra (e, claro, estes 8,6% a.a.) escondem o fato de que o crescimento do PIB (isto é, VBP-Insumos) cresceu 6,6% a.a., no dizer de Victor Bulmer-Thomas, less of a miracle. Que aconteceu? Naquele período de crescimento robusto (claro que 6,6% é infinitamente melhor do que 3,5%, não é mesmo?), intensificou-se o uso dos insumos. E eu também calculei que a produtividade do trabalho naquele período cresceu apenas 1% a.a. Quer dizer, a pasmaceira é milenar. Muito se louvou a economia brasileira por ter crescido, até certo ponto, mais do que qualquer outro país do mundo durante o século XX. (Este post scriptum foi acrescentado às 20h07min de 9/jun/2013).

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O Meio-Ambiente da Gauchada

Querido diário:
Grande fotógrafo. Eu e o Picture Manager... Esta foto saquei-a há umas três horas, o que pode ser facilmente conferido se checarmos a passagem do navio que vemos, pequenino, à esquerda. É, de cá, Porto Alegre, o Parque Marinha do Brasil, visto da sacada de meu boudoir. É, de lá, a cidade progressista e solerte de Guaíba (deveríamos dizer Guahyba?). Vemos a afamada fábrica de celulose que, volta e meia, lança cheiros nauseabundos para o lado de cá do Rio Guahyba, acertando em cheio em meu, como referi, boudoir. Aquela nuvem de fumo, esfumaçada, sugere que os ventos estavam favoráveis.

E também é favorável ao meio-ambiente o prefeito de Porto Alegre, que tem na p.19 de Zero Hora um artigo assinado, como formador de opinião que é. Ele conclui seu arrazoado, louvando uma promoção de seu próprio governo:

Por tudo isso [esse "tudo isso" não tinha nada a ver com a ilustração que meti acima], olhamos para o futuro, conscientes de que daqui a quatro anos nossa Porto Alegre será um lugar ainda melhor para se viver.

Pensei: novamente as comparações interpessoais de utilidade. Aquela fumaça, aqueles odores periódicos (menos frequentes do que há 20 anos, é verdade), tudo será corrigido, perhaps. O que não casa, e resulta da falta absoluta de coordenação entre as diferentes instâncias do mesmíssimo governo do Brasil, é que estão anunciando com júbilo a criação de emprego e renda com a quadruplicação (ou era apenas triplicação) precisamente daquela fábrica. Teremos, em quatro anos, menos fumaça?

DdAB
P.S. Agora, na hora da publicação desta revolucionária postagem, há uma nuvem de fumaça permitindo-nos ver que aquele braço que saía da chaminé tornou-se esbranquiçado e vertical.
P.S.S. (adicionado às 18h01min de 14/jun/2013): hoje na coluna de Carolina Bahia, da p.15 de Zero Hora, diz-se:
Papel 1
   O ministro Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário) foi convidado para o lançamento da pedra fundamental da expansão da Celulose Riograndense do Estado, em Guaíba. São R$ 5 bilhões em investimentos. Pepe elogiou os desdobramentos sociais do projeto, que atingiria serrarias, plantadores de acácias e apicultores de 70 municípios.
Papel 2
   Um píer será construído no porto de Pelotas para atender à logística da Celulose Riograndense. Segundo o diretor-presidente, Walter Lidio, as barcaças que descem com carregamento de celulose até 
Rio Grande subirão com madeira a partir do porto de Pelotas. São cerca de 40 mil hectares de eucaliptos plantados na região.

Precisa falar algo mais?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Como Salvar o Brasil

Querido diário:
No outro dia, eu menti para um amigo que, se a dra. Dilma me indagasse o que eu faria para salvar o Brasil, eu lhe mentiria o seguinte:

.a. escola universal em dois turnos
.b. ensino universitário diurno
.c. plano ferroviário nacional
.d. plano hidroviário nacional
.e. serviço municipal (um dinheirinho acima da renda básica da cidadania, atraindo a turma para aquelas coisas da cabeça/quieta, coluna/ereta, coração/tranquilo)
.f. reforma agrária
.g. programa de educação de adultos no local de trabalho
.h. programa de ginástica laboral
.i. criação de um eficiente sistema judiciário nacional (do motorista da viatura ao juiz)

Meu amigo mentiu concordar que ela/Dilma também mentiria concordar.

DdAB
A imagem veio daqui.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mais Graça: o que há em um milhão

Querido diário:
Ontem, andei citando longamente o velho Graciliano Ramos (que morreu jovem, pouco mais de 60 anos, by the way). Hoje faço uma citação mais curta, mas também interessante. Seguem em cena o sr. Paulo Honório (pretendente a adquirir a fazenda S.Bernardo) e o sr. Luís Padilha.

Padilha pede emprestados 20 contos de reis a Paulo Honório, pensando em modernizar a fazenda que herdou do velho Salustiano Padilha, seu pai.

   -[...] Quer desembolsar aí uns vinte contos?
   Examinei sorrindo aquele bichinho amarelo, de beiços delgados e dentes podres.
   -Ó Padilha, gracejei, você já fechou cigarros?
   Padilha comprava cigarros feitos.
   -É mais cômodo, concordei, mas é mais caro. Pois, Padilha, se você tivesse fechado cigarros, sabia como é difícil enrolar um milheiro deles. Imagine agora que dá mais trabalho ganhar dez tostões que fechar um cigarro. E um conto de reis tem mil notas de dez tostões. Parece que você ignora isto. Fala em vinte contos assim com essa carinha, como se dinheiro fosse papel sujo. Dinheiro é dinheiro.

Creio já haver registrado aqui ou no site (agora não posso procurar) uma interessante noção de magnitudes econômicas que me deu o prof. Edgard Írio Simm no início dos anos 1970: tentar vender 100 números de uma rifa. Que tal então esta de enrolar milhares de cigarros? 20 contos é casca grossa! Em meus tempos auleiros, eu gostava de indagar aos alunos qual era o valor do PIB do Brasil, quantos quilômetros quadrados tinha/tem Porto Alegre, quantos frangos são abatidos no primeiro, qual a participação do PIB da agropecuária no porto-alegrense.

DdAB
P.S. O Planeta 23 adverte: fumar pode enlamear sua saúde.
P.S.S.: parece que estamos vendo na foto daqui uma enrolação de maconha. E nunca esquecendo o youtube hilário daqui. Colabore com o milhão: visite o site, que há tem 960 mil acessos. Ver no 1min54seg: formidável.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Barganha por S. Bernardo

Querido diário:
Todos sabemos que S. Bernardo (1934) é o segundo romance de Graciliano Ramos? Segundo, pois Caetés (1933) veio antes e Angústia (1936) viria depois. E depois vieram outros que li e não li. Como? Li Vidas Secas (1938), Infância (memórias/1945), Insônia (contos/1947, do qual tenho esta edição mesmo, meu ano de nascimento...) e Memórias do Cárcere (1953). E, claro, ele produziu outras obras que não li.

Segue-se logicamente que, depois de conseguir que o sr. Luís Padilha se endividasse com ele, Paulo Honório exigiu que o proprietário lhe fizesse um preço pela fazenda, eis que as dívidas eram, confessadamente, impagáveis. Seria uma hipoteca de 20 contos de reis (veja só, cassaram o acento dos reais daquele tempo). Seria e foi, mas não foi paga. Então começou a barganha (p.28-30 da edição Record de 2005):

   -Faça preço.
   Para começar, Luís Padilha pediu oitenta contos.
   -Você está maluco! Seu pai dava isto ao Fidélis por cinquenta. E era caro. Hoje o engenho caiu, o gado dos vizinhos rebentou as porteiras, as casas são taperas, o Mendonça vai passando as unhas nos babados...
   Perdi o fôlego. Respirei e ofereci trinta contos. Ele baixou para setenta e mudamos de conversa. Quando tornamos à barganha, subi a trinta e dois. Padilha fez abate para sessenta e cinco e jurou por Deus do céu que era a última palavra. Eu também asseverei que não pingava mais um vintém, porque não valia. Mas lancei trinta e quatro. Padilha, por camaradagem, consentiu em receber sessenta. Discutimos duas horas, repetindo os mesmos embelecos, sem nenhum resultado.
   Resolvi discorrer sobre as minhas viagens ao sertão. Depois, com indiferença, insisti nos trinta e quatro contos e obtive modificação para cinquenta e cinco. Mostrei generosidade: trinta e cinco. Padilha endureceu nos cinquenta e cinco, e eu injuriei-o, declarei que o velho Salustiano tinha deitado fora o dinheiro gasto com ele, no colégio. Avancei a quarenta e afirmei que estava roubando a mim mesmo. Nesse ponto cada um puxou para o seu lado. Finca-pé. Chamei em meu auxílio o Mendonça, que engolia a terra, o oficial de justiça, a avaliação e as custas. O infeliz, apavorado, desceu a quarenta e oito. Arrependi-me de haver arriscado quarenta: não valia, era um roubo. Padilha escorregou a quarenta e cinco. Firmei-me nos quarenta. Em seguida roí a corda:
   -Muito por baixo. Pindaíba.
   Descontado o que ele me devia, o resto seria dividido em letras. Padilha endoideceu: chorou, entregou-se a Deus e desmanchou o que tinha feito. Viesse o advogado, viesse a justiça, viesse a polícia, viesse o diabo. Tomassem tudo. Um fumo para o acordo! Um fumo para a lei!
   -Eu me importo com lei? Um fumo!
   Tinha meios. Ia à tribuna da imprensa, reclamar os seus direitos, protestar contra o esbulho. Afetei comiseração e prometi pagar com dinheiro e com uma casa que possuía na rua. Dez contos. Padilha botou sete contos na casa e quarenta e três em S. Bernardo. Arranquei-lhe mais dois contos: quarenta e dois pela propriedade e oito pela casa. Arengamos ainda meia hora e findamos o ajuste.
   Para evitar arrependimento, levei Padilha para a cidade, vigiei-o durante a noite. No outro dia, cedo,  ele meteu o rabo na ratoeira e assinou a escritura. Deduzi a dívida, os juros, o preço da casa, e entreguei-lhe sete contos quinhentos e cinquenta mil-reis. Não tive remorso.

DdAB

P.S. tornou-se claro que a vida deste romance já experimentou três mudanças na ortografia da língua que se fala no Brasil e ainda se insiste em chamá-la de português, com aqueles delírios infantiloides da Academia Brasileira de Letras?

Imagem: aqui.

sábado, 1 de junho de 2013

Bolsa Família no Lancet x Renda Básica Universal Aqui

Querido diário:
Fontes insuspeitas levaram-me a trazer o seguinte.

The Lancet, Early Online Publication, 15 May 2013
This article can be found in the following collections: Global Health; Public Health; Gastroenterology (Gastrointestinal infections, Paediatric gastroenterology); Infectious Diseases (Gastrointestinal infections); Nutrition & Metabolism (Undernutrition); Paediatrics (Paediatric gastroenterology, Paediatric respiratory medicine, Paediatrics-other); Respiratory Medicine (Paediatric respiratory medicine)

Effect of a conditional cash transfer programme on childhood mortality: a nationwide analysis of Brazilian municipalities

Original Text
Davide Rasella PhD a, Rosana Aquino MD a, Carlos AT Santos PhD a b, Rômulo Paes-Sousa MD c, Prof Mauricio L Barreto MD a d

Summary
Background
In the past 15 years, Brazil has undergone notable social and public health changes, including a large reduction in child mortality. The Bolsa Familia Programme (BFP) is a widespread conditional cash transfer programme, launched in 2003, which transfers cash to poor households (maximum income US$70 per person a month) when they comply with conditions related to health and education. Transfers range from $18 to $175 per month, depending on the income and composition of the family. We aimed to assess the effect of the BFP on deaths of children younger than 5 years (under-5), overall and resulting from specific causes associated with poverty: malnutrition, diarrhoea, and lower respiratory infections.

Methods
The study had a mixed ecological design. It covered the period from 2004—09 and included 2853 (of 5565) municipalities with death and livebirth statistics of adequate quality. We used government sources to calculate all-cause under-5 mortality rates and under-5 mortality rates for selected causes. BFP coverage was classified as low (0·0—17·1%), intermediate (17·2—32·0%), high (>32·0%), or consolidated (>32·0% and target population coverage ≥100% for at least 4 years). We did multivariable regression analyses of panel data with fixed-effects negative binomial models, adjusted for relevant social and economic covariates, and for the effect of the largest primary health-care scheme in the country (Family Health Programme).

Findings
Under-5 mortality rate, overall and resulting from poverty-related causes, decreased as BFP coverage increased. The rate ratios (RR) for the effect of the BFP on overall under-5 mortality rate were 0·94 (95% CI 0·92—0·96) for intermediate coverage, 0·88 (0·85—0·91) for high coverage, and 0·83 (0·79—0·88) for consolidated coverage. The effect of consolidated BFP coverage was highest on under-5 mortality resulting from malnutrition (RR 0·35; 95% CI 0·24—0·50) and diarrhoea (0·47; 0·37—0·61).

Interpretation
A conditional cash transfer programme can greatly contribute to a decrease in childhood mortality overall, and in particular for deaths attributable to poverty-related causes such as malnutrition and diarrhoea, in a large middle-income country such as Brazil.

Parece que, se entendo estas coisas binomiais (qualitativas), a bolsa família é um fator de proteção (por contraste a fatores de risco, por exemplo, o alcoolismo do pai) para a saúde dos felizes petizes.

DdAB

P.S. Estou certo de que os filósofos gregos (Anaximandro de Mileto, aqui e seu sucedâneo da atualidade aqui ) não estarão pensando que estou metendo a mão com eles, hehehe. Mas parece óbvio que, depois de ter lido a postagem de Anaximandro's (aqui), no dizer de algum desenvolvimentista americano (Barro?) que li e esqueci onde (aposentado não precisa citar fonte, não é mesmo?), "once you begin to think about these things, you cannot think of anything else". Só lembro que era um xerox manchado de cafezinho, mas que era em inglês, era. E não cito, claro, literalmente.

P.S.S. No clima de discutir concepções gerais de ação pública, listo facilmente meus poucos e controversos pontos:

.a. renda básica universal é um requisito central de sobrevivência da vida humana planetária no século XXI. No caso do Brasil, se cada cidadão em idade ativa receber R$ 1.000 mensais, vão-se apenas 40% (ou até menos, com a inflação de hoje...) da renda nacional. Em meu modelo, criança não ganha renda básica universal, apenas R$ 1.000 para o pai e outros R$ 1.000 para a mãe. E que uma honrada família de pai, mãe e dois pimpolhos faria com os créditos mensais de R$ 2.000? Parece óbvio: abateria do imposto de renda a cifra de R$ 24.000 a cada ano. E aqueles que se recusarem a trabalhar? Se puderem, levarão seus rebentos à Disneilândia e, talvez, a outros lugares, tudo em prestações.

.b. o governo deve prover bens públicos e bens de mérito em quantidades crescentes (acompanhando a renda per capita do país).

.c. whisky (mais sobre o tema visual, não bebido, encontra-se ao clicar aqui) envelhecido por 13 anos para todos, no devido tempo, também se tornará bem de mérito e, como tal, cada cidadão interessado em encher a cara terá direito a retirar dos depósitos da nave uma quantidade socialmente combinada

.d. muito antes do whisky de 13 anos, haverá outros bens (whisky de 12 anos, etc.) que, crescentemente, serão incorporados à cesta socialmente combinada. E depois dele, seguirão, ad eternum, as inclusões de outros novos bens e serviços.

.e. então, quem vai querer trabalhar com esta renda básica de R$ 1.000? resposta: muita gente. Aliás, poderia até ser mais de R$ 1.000, dependendo dos econometristas do reino (nave) estabelecerem as curvas de oferta e demanda de trabalho, assinalando (determinando) dois pontos críticos: a renda básica (que suborna o cidadão para ficar em casa) e o salário mínimo (que o suborna para sair de casa).

P.S.S.S. também por extraordinária coincidência, cheguei ao que vemos aqui, por meio do site daqui.

Imagem daqui.