sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Hai-Kai n.6 e sua Trova

Querido diário:
Seguem as criativíssimas trovas que tenho feito com os hai-kais do genial Millôr Fernandes e seu livro abaixo referenciado.

Millôr:
MORTA NO CHÃO
A SOMBRA
É UMA COMPARAÇÃO

Planeta 23
É uma comparação:
A sombra do gato
Traz sapato na mão.

DdAB
Fonte do hai-kai: Millôr (HAI-KAIS, da L&PM, de Porto Alegre, adquirido por mim aos 10/out/2009. Fonte da foto do gato e sapato unidos para sempre: aqui.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

CIE e ISI: não é por aqui

Querido diário:
Torno-me siglativo: ISI é bilíngue - industrialização por substituição de exportações, ou import substitution industrialization, ou até industrialisation. E CIE é crescimento induzido pelas exportações, export led growth. Claro que haverá milhares de outros "estilos" de crescimento econômico, como "dar saída aos excedentes" e "diversificação das exportações", para não falar da ampla variação de possibilidades em torno da economia fechada, que será a bola da vez da Argentina.

O problema com o Brasil é que ele não utiliza nenhum destes, pois tem crescimento rastejante, especialmente nos últimos dois anos. Ou seja, pode ter estilo, mas não tem crescimento (ainda que -sou o primeiro a festejar- não tenha tido enormes quedas no PIB mesmo nos anos aziagos). Claro que a crise mundial contribui para reter as taxas nesses níveis rastejantes, mas a demanda interna, contabilizada como fonte fundamental do crescimento ao longo dos últimos 60 anos, não cresce tanto quanto poderia, por razões várias.

Para mim, a principal causa da estagnação dos últimos 30 anos é mesmo a baixa qualidade do capital humano incorporado à mão-de-obra nacional. Terra de analfabeto quem sabe numerar até dez já tá eleito vereador ou ganha CC, se não exagero. Mas, sob a perspectiva da economia aberta, há dois pontos interessantes a referir.

O primeiro até já foi referido por mim na postagem daqui, ainda que muito superficialmente. Trata-se da citação de Akio Morita, o executivo da Sonny falecido em 1999 (aqui), no livro "Made in Japan", que veio -penso- a inspirar até o título do famoso "Made in Brazil", da dupla IEI/UFRJ-Unicamp. Pois lá digo que lá disse Morita: "nenhuma empresa pode ser competitiva externamente se não o for internamente". Assim, no Brasil, por exemplo, a Natura decidiu expandir-se no mercado francês, pois é lá que se aprende a fazer perfume!

Este é o maior breve que já vi contra a economia fechada. Numa economia fechada, não se vive no mundo contemporâneo, não se reserva mercado para a empresa nacional pela simples razão de que esta é incapaz de dar respostas adequadas à elevação do consumo per capita. Ver exemplo da Somália, cuja renda per capita é de U$ 600 (PPC). Ou seja, importar é o maior teste que recebe a empresa local contra a ineficiência. E, claro, não estamos falando em dumping (como o chinês, por exemplo). Ou seja, não pode vender no exterior mais barato do que vende em casa. E não pode vender em casa por um preço que nem sequer paga o custo de produção. Sob o ponto de vista internacional, não pode fazer dumping social, ou seja, países com direitos sociais e ambientais amplos não podem ser declarados iguais a países que nem respeitam o meio ambiente nem garantem direitos de férias, feriados, jornadas cada vez mais curtas a seus trabalhadores.

O segundo ponto a falar sobre a economia aberta retornou-me à mente em resposta a minha amada visita a Maringá. Lá, conversando com o prof. Gilberto Fraga (aqui), chegamos ao artigo

BALASSA, Béla (1964) Industrial development in an open economy: the case of Norway. Oxford Economic Papers. V.21 n.3 Nov. p.344-359. [Acessível no Periódicos/CAPES amplo]

O prof. Balassa fez um lindo estudo mostrando a mudança estrutural experimentada pela economia norueguesa depois da Segunda Guerra Mundial. Ele tinha em mente, entre outros aspectos, comparar a estratégia nórdica com a da substituição de importações latino-americana. Era tudo o que eu queria, pois aquele negócio que tenho argumentado de que houve "industrialização precoce" no Brasil, particularmente a partir dos anos 1950, com incentivos à industria nacional (nacional? Caterpillar? Volkswagen, Bosch?), distorceu os preços relativos de todos os cantos da economia. Mesmo admitindo outras importantes explicações para a descomunal distribuição da renda do Brasil, não é difícil entendermos que o fetichismo industrializante deixou de lado o culto à formação do capital humano.

Pois bem, então era óbvio que os salários rastejantes da economia brasileira contrastassem com as quuase-rendas tanto de capitalistas (e não falo de pro-labores) e principalmente do principado de funcionários públicos e, como tal, políticos. Então vejamos uma citação direta de Balassa (p.355):

The shift towards products with a high labour skill requirement is explained by the wage situation in Norway and the high educational level of the Norwegian labour force. As a result of the high productivity attained in the production of primary goods and internediate products at lower levels of transformation, wages reached levels approximating those of the major European countries. Correspondingly, industries relying to a large extent on unskilled and semi-skilled labour grew at a relatively slow rate (textiles, clothing, aod footwear) or even experienced a decline in output (lheather and leather producs), and the share of imports in the domestic consumption of these producs increaded substantially. In turn, the high educatonal level of the labour force permitted a rapid expansion in skill-intensive industries, such as engeneering and electrical machinery.

Olha só a situação atual de alguns países, em que destaco daqui a própria Noruega:

Claro que desigualdade per se não implicaria má educação, mas a verità é que não consigo imaginar um país mais igualitário e menos educado. O flagrante com o indicador do acesso ao crédito é fenomenal. E aquela relação entre a renda/consumo entre os 10% mais pobres e os 10% mais ricos?

Obviamente, não sabemos bem tudo o que esperar da abertura da economia brasileira. O que sabemos amargamente é que haverá formidáveis distorções que hoje levam o Brasil a ter precisamente o mesmo crescimento econômico rastejante e a mesma desigualdade característicos dos cantinhos mais aquecidos do inferno.

DdAB
P.S.: fora Janós, só conheço dois nomes de homem em húmgaro: Béla e Tibor. Haverá mais?
P..S.: imagem daqui. E parece que o que capturei foi a Finlândia...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Economistas: Dilma, Dudu e Diversionistas

Querido diário:
Costumo dizer que a afirmação de que a presidenta Dilma foi minha bolsista não é uma deslavada mentira. Nem todas as proposições não coincidentes com deslavadas mentiras são verdades, claro. Seja como for, trabalhando na Fundação de Economia e Estatística no mesmo período, não é difícil entender que houve alguma relação profissional entre nós. E, como tal, que Dilma é economista. E digo mais, que fez cursos na Unicamp que não se restringem ao curso de mestrado nos meados da década de 1970. E daí?

Daí que li na Carta Capital datada de depois de amanhã, lá na p.30:

A indústria é importante para articular os demais setores, ela tem um poder de inovação que se espraia pela economia, ela é decisiva para nós, que precisamos aumentar a nossa taxa de investimento [...].

Frase de Dilma Rouseff, presidenta da república. Como tal, política profissional. Economista? Bem, não duvido que ela seja uma das mulheres mais preparadas do Brasil de todos os tempos. E daí? Daí que qualquer setor é importante para articular os demais setores, a menos que se trate de economias de enclave. E daí? Daí que tanto a indústria como muitos dos demais setores da economia comungam desta notável capacidade de lançar inovações pelo resto da economia, ou seja, os demais setores, que -de qualquer modo- articulam-se de várias formas, comprando e vendendo insumos. Por fim, qualquer setor é decisivo para quem quer elevar a taxa de investimento.

No caso, como os chineses descobriram há décadas, a melhor maneira de fazê-lo é investir na construção: edifícios, pontes, túneis, fábricas. Em resumo: em que mesmo é que a indústria se diferencia, digamos, da plantação de suco de laranja? (Epa!). Indo mais diretamente ao ponto, vamos trocar a expressão "indústria" pela "educação" lá no discurso da presidenta:



A educação é importante para articular os demais setores, ela tem um poder de inovação que se espraia pela economia, ela é decisiva para nós, que precisamos aumentar a nossa taxa de investimento [...].

Economista por economista, assinatura por assinatura, eu assino com mais desenvoltura é esta frase com “educação”. E, no outro dia, ainda deixei claro o que entendo por educação: assistentes sociais, dentistas, guardas, faxineiros, cozinheiros, todos devidamente investidos de roupas, equipamentos, instalações. Agora precisamos decidir: quem é que pode contribuir mais aceleradamente para o crescimento, fazer a apologia da indústria ou a da educação? Parece óbvio que trator educado não transforma menino de rua em colheita, mas menino de rua educado transforma trator em colheita, sim senhor.

Não bastasse esta encrenca que agora arrumei logo com a presidenta da república, fui para o jornal Zero Hora (p.25). Economista diz cada uma:

Economistas alertam para o risco de 2013 piorar o prognóstico para a economia, caso o governo não mude o foco da política de crescimento – centrada no aumento do consumo – passando a incentivar mais o investimento e melhorar a produtividade.

Uma vez que os autores desta frase não são alheios à ciência econômica – caso o fossem, o conselho federal não lhes daria o diploma, não é isto? – somos forçados a crer que há uma enorme falta de seriedade nos jornais, que publicam qualquer coisa. Se antes me queixei da presidenta da república, do fato de que ela esgrimiu uma frase que não resiste à troca de uma simples palavra, agora queixo-me de que estes “economistas” não sabem o be-a-bá da contabilidade social. Aliás, nem é bem isto, não sabem o be-a-bá dos modelos elementares da determinação da renda do primeiro semestre da faculdade. Lá já aprendemos que tanto o consumo autônomo quanto o investimento autônomo, ambos, são capazes de movimentar a economia de seu nível de equilíbrio. Aumenta um ou outro, aumenta o outro, compreendeu?


Quero dizer: se o consumo em cachaça aumenta em R$ 1,00, a renda aumentará precisamente em R$ 1,00. Quem não entende isto nada sabe nem de Keynes, nem de Leontief nem de que-mais-seu-eu? Por outro lado, se todos nos devotarmos ao consumo desenfreado de cachaça por, digamos, 30 anos seguidos, neste caso, o investimento estará sacrificado e o crescimento de logo prazo, comprometido.


DdAB
P.S.: ainda não li, mas quem é que resiste ao título que relaciona Johnny Depp e o postulado da racionalidade? Tou indo prá lá agora mesmo, prô Bípede Pensante, vambora?

domingo, 25 de novembro de 2012

Mais Economês. Logo no Domingo?

Querido diário:
Estou vivendo novo ímpeto de esclarecer o tipo de erro em que incide quem acha que cada R$ 1,00 gerado na indústria vale mais do que o correspondente R$ 1,00 que emergiu da agricultura. Dito assim, parece que ninguém concorda, não é mesmo? Mas olha os disfarces que se colocam no discurso e se chega a pensar que os defensores da desigualdade estão cobertos de razão. Em particular, fala-se que a indústria tem maiores linkages do que a agricultura, o que pode ser contingentemente verdadeiro, e nada significa. Óbvio: valor adicionado não é valor da produção (ou oferta total), não é mesmo? Se a oferta total cresce, digamos 10% na indústria e 5% na agricultura, isto não implica necessariamente que o valor adicionado (produto) em uma será maior do que o da outra. Tem que olhar para o consumo intermediário.

Nesta linha é que muito aprendi com as coisas que li de Ulrich Köhli:

KOHLI, U. A gross national product function and the derived demand for imports and supply of exports. Canadian Journal of Economics, v. 11, n. 2, p. 167‑182, 1978.

KOHLI, U. GDP Growth accounting: a national income function approach. Review of Income and Wealth, v. 49, n.1, p. 23‑34, 2003.

KOHLI, U. Growth accounting in the open economy: parametric and nonparametric estimates. Journal of  Economic and Social Measurement, v. 16, p. 125‑136, 1990.

Aprendi que, para gerar o PIB, precisa-se de capital e trabalho: PIB = P(K, L). E inventei que, para se apropriar da renda, a família deve ter homens ou mulheres brancos ou negros, educados ou não, essas coisas, para endereçar ao mercado de trabalho. E incorporei as tradicionais funções de demanda para explicar como a mesma cifra do valor adicionado vai ser absorvida na forma de demanda final.

Por tudo isto é que tive a coragem de dizer o que referi ontem, nomeadamente, que VA = g(OT), ou seja, o valor adicionado depende do nível de oferta total. Também mostrei o caso óbvio em que, obedecendo a equação quantitativa da moeda, chegamos a ver que M = Y, ou a oferta de moeda que gira apenas uma vez por ano entre o comprador e o vendedor, numa economia de preços estáveis é precisamente o que se necessita para alocar toda a renda, ou o produto, ou a despesa, ou seja, o valor adicionado!

E por que posso dizer que VA = g(OT)? Digo que é a intensidade da vida econômica que explica o nível do valor adicionado. Ordem gera mais progresso do que desordem. Boas instituições, respeito a contratos, seriedade na política, essas coisas, também. E também disse que esta parte da crescente importância das relações interinstitucionais revela-se na relação do total de transferências relativamente ao valor adicionado e também ao próprio montante de relações interindustriais.

DdAB


sábado, 24 de novembro de 2012

Indústria, Lucros e Investimento

Querido diário:
Este título mais parece a apologia do pensamento estruturalista das antigas. Mas uso-o apenas para deixar claro que estamos falando nas três óticas de cálculo do valor adicionado:

Produto - gerado na agricultura, indústria e serviços.

Renda - apropriada como remuneração dos empregados (salários), remuneração dos serviços do capital (lucros) [e impostos indiretos líquidos de subsídios, na mensuração do Handbook da ONU contemporâneo].

Despesa - absorvida como consumo das famílias, consumo do governo, investimento (e variação de estoques) e saldo do balanço de transações correntes (exportação menos importação de bens e serviços, exceto serviços dos fatores).

O que teria a indústria de melhor sobre a agricultura? Dá uma olhadinha na tabela a sesguir, com alguns países selecionados. Parte dos BRICs e os anglo-saxões:



É muito provável que os dados desses cinco países tenham as cifras do emprego total (remunerado e não remunerado), como garanto ser o caso do Brasil. Por isto, talvez, é que a produtividade da agricultura no Brasil não é maior do que a média da economia: US$ 6,0 mil/PPC para US$ 21,9. Seria interessante ver a produtividade da agricultura exclusiva do "setor moderno". A China e a Índia não mostram quadro muito diverso do brasileiro, no sentido de que a produtividade do setor primário é muito menor. Mas passamos aos países capitalistas avançados: Alemanha e EUA. Então chegamos a uma observação interessante: a produtividade da agricultura é significativamente maior do que a da indústria e a dos serviços. Isto serve para dizer que a indústria é "pior"? Hehehe!

E os lucros? Insistir que lucro é "melhor" que salário é mostrar uma visão da modelística paupérrima (útil lá em seu tempo, quem sabe?) de dizer que "trabalhador não poupa". Claro que trabalhador poupa, mas o pior ainda é que "poupança não é renda" (se supusermos que os fatores não poupam, isto é, se eles transferem integralmente o produto que ganham às instituições). Qualquer pessoa que olhe a equação (contábil) de definição da renda vai constatar (ver a definição dada acima, adotada pelo IBGE).

Então nos resta o investimento. Claro que investimento é que faz crescer a capacidade produtiva e chave do crescimento de meu tão festejado valor adicionado (e se cresce a renda então necessariamente cresceram exatamente nas mesmas cifras o produto e a despesa, e assim por diante...). Mas o investimento não precisa ser feito na indústria, os bens de capital não precisam ser nacionais, essas coisas. Por que proteger os automóveis e deixar na rua da amargura os brasileirinhos? Claro que isto não é economia política, mas política cotidiana.
 


DdAB
O cachorrão da direita estará ameaçando ou revelando um segredo ao da esquerda?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Maringá: amigos, amigos; indústria à parte

Querido diário:
Ontem e ante-ontem foram dias de glória para mim. Segui no tema da crítica à "reprimarização", que redundou na crítica à própria "desindustrialização precoce", chegando ao ponto de falar em "industrialização precoce". Tudo começou há muito tempo (estava eu em Pescara, no início de 2010), mas uma postagem específica que tem a ver diretamente com o tema, e à qual seguiram-se várias outras, está aqui. A base de dados é a mesma que produzi a partir do trabalho de Guilhoto  (aqui), ainda no tempo em que o ano de 2009 não era disponível. Ou seja, meu período de estudo foi 2000-2008. O primeiro evento público ocorreu no IPEA, conforme a postagem a que remeti acima. Depois, a convite do prof. Adalmir Marquetti, falei na FEE e depois, a convite da profa. Brena Fernandez, falei na UFSC.

Pois é da UFSC que se origina minha viagem a Maringá, onde vi e revi (a Fafá!!!) amigos e onde recebi diferentes reações (todas muito fraternas e interessadas) a minha -quem sabe até iracunda?- investida contra o conhecimento estabelecido, de origem cepalina, kaldoriana, sei lá, que endeusa a indústria como a celestial fábrica de maná que todos desejamos no terreiro lá de casa. A profa. Marcela Albuquerque (UEM) e o prof. Sílvio Cário (UFSC), intrigados com minha fala, pensaram que poderíamos fazer um debate -ele e eu- em Maringá, integrando-nos à 27a. Semana do Economista da Universidade Estadual de Maringá. No final das operações logísticas, o prof. Sílvio ficou impossibilitado de ir e eu tornei-me monopolista da noite. Ou melhor, estivemos monopolizando a noite myself, centenas de professores do Departamento de Economia (e asssemelhados) e milhões de alunos de várias carreiras daquela instituição. 

Meu principal anfitrião foi o prof. Gilberto Fraga, coadjuvado pelo prof. Julierme Tonin, culminando com a adesão da profa. Márcia Istake. Podia estar mais feliz? Ela, Márcia, professora de contabilidade social, ainda abriu-me espaço para falar em sua aula. Anunciei-lhe que faria uma tentativa de desmoralizar o modelo do fluxo circular da renda "dos antigos", fazendo o elogio do "moderno". O primeiro, como sabemos, recebeu de mim o epíteto de "movimento pendular", pois o negócio oscila entre famílias e empresas ao longo de uma linha reta. O segundo, mais sábio, refinado e nobre, assesta-se sobre três pontos (produto, renda e despesa, ou produtores, fatores e instituições), o que determina um plano, base sobre a qual assenta o movimento circular tão ambicionado por Frank Knight, Joseph Schumpeter, essa turma toda.

Deu para capturar tudo isto na figura lá de cima? Tá aqui com mais recortes:

Aquela foto ali, gravatinha verde, foi capturada no momento em que eu dava uma entrevista à jornalista Ana Paula, na quarta-feira, um calor dos diabos quando nos postávamos ao ar livre. E o texto está aqui, para quem não quiser ir lá (no site deles acima registrado).

A 27ª Semana do Economista da UEM, transferida de setembro para novembro, será encerrada com a palestra A Indústria Brasileira e o Cenário Econômico Mundial, nesta quarta-feira (21), a partir das 19h30, na Câmara Municipal [foi transferida para o Auditório Ney Marques, da 'faculdade de economia']. O tema será explorado pelo consultor Duílio de Ávila Berni, que foi professor nas universidades federais de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, e da PUC/RS.

No evento desta noite, o professor vai falar sobre a política protecionista brasileira, que vem priorizando a produção de bens como automóveis e computadores, sem perceber que a produção primária, de soja, por exemplo, vem utilizando alta tecnologia desenvolvida no país, além de demandar o aquecimento de setores como os da química e dos implementos agrícolas. “Se a política econômica brasileira pensasse em produzir o que a natureza lhe permite, aproveitando a insolação, o clima etc., talvez pudesse ter alcançado o nível de renda per capita dos países do primeiro mundo e poderia comprar computadores de produtores que vendem barato para aumentar o capital humano, oferecendo educação aos brasileirinhos”, disse em entrevista à UEM-FM.

O tema central da Semana de Economia é O Brasil e o Cenário Econômico Mundial, promovido pelo Departamento de Economia, Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas, Centro Acadêmico de Economia e PET Economia da UEM.


Tomara que eu tenha falado mesmo isto de "brasileirinhos"! Minha obsessão por estudar todos os ângulos que me ocorrem sobre a distribuição da renda muito cedo fez-me chegar a eles, os meninos e meninas de rua, mas não apenas eles, os capitães da areia amadescos, portanto, quase 100 anos de incúria desde que o fenômeno foi enquadrado. Em outras postagens (a primeira tá aqui), falei em "retransportização". Não foi Robert Barro que disse o que segue? "Once you begin to think about that, your soul does not allow your mind to thing of anything else".

Claro que não foi, né? Ele disse algo parecido, eu é que inventei este negócio que, espichado, vira: assim que começas a pensar nas questões distributivas, estás espichando teu olhar para os pobres, os desvalidos. E assim que o fizeres, verás, no Brasil, uma importante parcela da população jogada nas ruas, com aquiescência de prefeitos de milhares de prefeituras neste território. Todas estas imagens provocam dor, mas nada é mais revoltante do que ver crianças jogadas, literalmente, na rua da amargura. Claro que estou falando muito mais do que na "economia normativa". Claro que estou falando até em poesia, pois "alma" e "mente" são sinônimas de, no caso, "coração" e "razão".

A compreensão que alcancei com todos esses meus anos de estudo da "distribuição" e da contribuição setorial para montar determinados perfis distributivos tem duas componentes:

.A. conceitual:
O que interessa não é quem fabrica o computador e o trator, mas como eles são engajados no processo de produção. Eles podem ser produzidos localmente e exportados, o que lhes dá baixíssimo "efeito multiplicador". Por contraste, eles podem ser produzidos externamente e empinados na produção local, criando valor adicionado localmente. Valor adicionado não quer dizer "produto", claro, não apenas produto, mas também renda e despesa.

Obviamente valor adicionado (VA) é

VA = OT - CI,
(OT é a oferta total da economia e CI é seu consumo intermediário)

ou melhor, isto é o produto (com consumo intermediário comprado pelos produtores) ou a despesa (com consumo intermediário vendido pelos produtores), numa equação contábil (e cadê a renda, meu senhor do bonfim?; eu acho que ela tá na mão do presidente do banco central, o que é óbvio se cada cédula circula apenas uma vez por ano, ou seja, V=1 e se o nível de preços é constante, ou seja, P=1, o que faz M = Y, não é isto?). Mas sugiro que existe uma equação de comportamento (não alheia a Verdoorn ou Kaldor) segundo a qual

VA = f(OT),

e esta equação teria todos aqueles requisitos tradicionais, capturada por uma funçãozinha potência (ou outra mais refinada), mas com rendimentos decrescentes (VA = a × OT^b, com b < 1). A verità é que nunca pensei muito na econometria deste negócio todo. Quem sabe um dia consigo uma promessa dos profs. Gilberto e Márcia de mexermos nestas coisas em paineis mundiais, sei lá???

Em outras palavras, nas economias monetárias, o "valor" gerado pela sociedade (eu disse "pela sociedade", o que contempla os tais brasileirinhos, os brasileiros e os brasileirões, além de estrangeiros, e outras montanhas de ingredientes humanos e materiais que ninguém saberá determinar) responde a uma dimensão econômica da vida societária e que é contabilizada em termos de preços de mercado. Ou seja, estamos mesmo falando em "economias monetárias" e não em qualquer outro tipo de sociedade.

Se eu insisto no ponto de que, em fazendo parte da sociedade, o menino de rua, o engenheiro desempregado e seus pares, nomeadamente, o menino de palácio faustoso e o engenheiro de emprego invejável, ambos os três (ver mais besteirol aqui), contribuem para a OT e, como tal, para o VA, então estou negando qualquer protagonismo qualitativo a qualquer um deles. Então tu pode imaginá o protagonismo qualitativo que eu reservo para a indústria, ou a indústria de transformação, ou a indústria metal-mecânica, ou até algum segmento dela que exiba elevado coeficiente de correlação com a taxa de crescimento da economia, um troço destes. Claro que isto só pode ser rematada tolice daqueles que tentaram importar para o Brasil aqueles tipos de ideias de modelagem de economias fechadas, como a inglesa (de antanho) e a americana até de hoje mesmo Ok, vamos ao ponto empírico mais frontalmente.

.B. empírico:
Os dados de Guilhoto a que me referi acima mostram que
.a. o setor serviços é o maior da economia brasileira há muito tempo,
.b. por isto mesmo ele é a maior fonte do crescimento econômico do país,
.c. tendo reduzido o protecionismo a partir dos anos 1990 (eu disse "reduzindo", pois estamos a estratosférica distância do protótipo de economia aberta), a mudança estrutural do Brasil conduziu para maior participação do setor primário (como já anunciava o prof. Laércio Barbosa bem naqueles anos), mas não perda de participação dos serviços, ou seja, quem entregou pontos percentuais foi mesmo a indústria de transformação,
.d. não houve grande dinamismo na economia global nestes nove anos (usando o deflator do PIB do IBGE),
.e. havia alguns setores igualitários, mas que -sozinhos- não podem ser invocados para rezar a missa,
.f. o grau de flexibilidade da economia brasileira até elevou-se (de acordo com o conceito que usei para medir esta dimensão do desempenho de um sistema econômico).

Concluo olimpicamente dizendo que o que importa é o consumo e não a produção. E que, nesta linha, ligando consumo e produção, importa mais a formação de capital humano (ou seja, meter o menino de rua na aula de inglês e o engenheiro desempregado no doutorado) do que de capital físico (qual seria mesmo a diferença, sob o ponto de vista do grão de soja, em ser semeado num buraco cavado por um trator coreano ou um Caterpillar made in São Paulo? E digo mais: o estancamento da economia brasileira dos últimos 30 anos se deve precisamente a sua incapacidade de elevar substancialmente a produtividade. E como elevaria com tanta ineficiência no gerenciamento que a sociedade brasileira dá a seus recursos humanos?

DdABa
p.s.: às 1h59min de 27/nov/2012, retifiquei uma frase do terceiro parágrafo, deixando mais claro que a iniciativa de "desmoralizar" o velho modelo do fluxo circular da renda é minha e não de minha anfitriã ou seus alunos.

P.S.S. E, às 20h23min de 26/jul/2015, domingo, desejo corrigir aquela equação lá de cima dizendo que

VA = f(OT)
ou seja, o valor adicionado é função da oferta total

por

VA = g(Pop)
ou seja, o valor adicionado é função da sociedade, ou melhor, da população. Aqui mostrei um cálculo elementar do coeficiente de determinação entre essas variáveis em um cross section mundial do ano de 2014 (e aproximados) e encontrei o animador número de 0,61 para 181 países. Para quem não sabe, as variações na população explicam 61% das variações no valor adicionado. Claro que não temos aí uma prova, mas não conseguimos negá-la. Entusiasmado, já acrescentei que então somos forçados a concluir que a sociedade é que causa o valor adicionado.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Hai-kai da p.11 e sua trova...

Querido diário:
Seguimos com os hai-kais sequenciais:

Millôr:

UMA AQUARELA;
GAIVOTAS
SITIAM A BELA


Planeta 23:

Sitiam a bela
o rapaz da ópera
e a girl da gavota.

DdAB
P.S.: estamos na p.11 do livro da L&PM. Faltam 112!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Imposto de Renda Progressivo (nos EUA...)

Querido diário:
Vão-se mais de 10 anos que olhei umas matérias interessantes sobre alíquotas do imposto de renda nos EUA (mutatis mutandis, chegamos hoje aqui). Faço um resumo:
.a. o imposto de renda foi implantado em 1862,
.b. cinco anos depois, uma alíquota única foi estabelecida,
.c. tudo revogado em 1892,
.d. lei do imposto de renda em 1894,
.e. suprema corte cancela tudo, pois não estariam fazendo rateio entre os estados,
.f. em 1913, emenda constitucional autoriza o governo (congresso) a instituir e coletar o imposto,
.g. depois de 1913 (quando?), ainda era imposto de alíquota única, passando a alíquota escalonada,
.h. em 1916, a alíquota (máxima?) era de 13%,
.i. em 1917, inseriu-se uma alíquota máxima de 67%,
.j. em 1924, a alíquota máxima foi reduzida para 43%,
.k. em 1926, voltou a baixar, chegando a 25%,
.l. em 1932, voltou a elevar-se a alíquota máxima de 25% para 63%,
.m. em 1935, a alíquota subiu para 79%,
.n. em 1941, foi a 81%,
.o. em 1942, subiu para 88%,
.p. em 1944, chegou ao máximo de 94%,
.q. em 1945, a alíquota máxima baixou para 91%,
.r. em 1950, caiu para 84,4%,
.s. em 1951, voltou a subir para 92%,
.t. em 1964, caiu para 70%,
.u. em 1981, a alíquota voltou a cair, alcançando 50%,
.v. em 1986, caiu para 33%,
.w. em 1993, foi para 39,2%.

No Brasil, chegamos a 50% no tempo dos governos militares, tendo-se reduzido para os 27,5% que se paga na atualidade.
DdAB
Imagem veio daqui. O interessante é que fala-se em desindustrializaçaõ. Eu acho que o desmantelamento do imposto de renda é mais pernicioso do que a quebradeira daquela foto lá de cima. Tenho dito: o problema não foi a "desindustrialização precoce" dos anos recentes, mas a "industrialização precoce" dos anos 1950s. E tem mais: os dados das contas nacionais, contando o emprego remunerado e o não remunerado, mostram que estamos frente ao Novo Milagre Econômico Brasileiro, pois, desde 2000, o emprego, a produção e a produtividade crescem monotonamente (duplo sentido: não cai nunca e a taxas rastejantes...).

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Traga seu Cigarro Elétrico

Querido diário:
Ao ler o jornal de hoje, retirei de contexto possível sentença empalmada pelas palavras que usei no título desta postagem. Lá dizia-se mais coisa: sobre a saga Crepúsculo e Robert Pattinson, nomes e gentes que me são pouco familiares. Diz o jornal que ele:

A cada pergunta, traga seu cigarro elétrico, passa as mãos nos cabelos e, então, responde.
-Dizem que esta versão elétrica faz menos mal. Espero - brinca.

Já ouvira, pouco familiarmente, falar em Crepúsculo. Mas cigarro elétrico, nunca de núncaras. Já ouvi até falar em cigarros que deixam neguinho elétrico, mas ele itself ser elétrico já é outra metade.

Aqui tem um mundo inteiro envolvido no blim-blim-blim do cigarro elétrico. E aqui, no Crepúsculo. Fiquei a indagar-me minha verdadeira idade e meus interesses culturais. Parece que, ainda que permaneça vivo, andei perdendo o pé, dada minha ojeriza a filmes de terror e assemelhados.

DdAB
Imagem: Wikipedia. Segue-se logicamente que o cigarro elétrico tem até acionável acoplável ao computadorável.

domingo, 18 de novembro de 2012

Mais Hai-Kais com Trovas

Querido diário:
Como já falei outras vezes, hoje é domingo. Então vejamos

Millôr (na p.10)

NO AI
DO RECÉM NASCIDO
A COVA DO PAI

Planeta 23:

A cova do pai
da mãe, dos avós, veem altaneiras
as árvores.


Mariana (ver aqui):

As árvores
são bem
cuidadas por nós.

Ou seja, rolou mais confusão: agora peguei a trova com o final do Millôr e preparei-me para levar o haicai da Mariana a trovar comigo. Pueril?

DdAB
Imagem daqui.
P.S. meu hai-kai original era:
A cova do pai
Já mostra ao nascer
Prá onde o filho vai.

sábado, 17 de novembro de 2012

A Necessidade da Contingência

Querido diário:
O que parece relevante para todos os casos empíricos razoáveis não é pensarmos que o universo é contingente, mas necessário, o que nos deixa mais modestos com a razoável hipótese de que quem é contingente mesmo somos nós próprios, os seres vivos.

É difícil pensarmos em coisas que não tiveram princípio nem terão fim. Mesmo nossas abstrações de uma linha reta, o conjunto de frases diferentes passíveis de serem formuladas por um ser humano (para não falar num papagaio ou sinapses) ou o inesgotável amor que jorra, digamos, de uma mãe para sua/s cria/s, é/são por si só contingente/s. Não fosse eu, estas frases não teriam sido escritas. Se as procuro no Google, não dá nada, parecem mesmo ser únicas, até este ponto aqui.

Claro que não havia nem um documento. Aí procurei "É difícil pensarmos em coisas que não tiveram princípio nem terão fim." Tampouco achei algo. Agora verei, algo mais afinado com os políticos: "É difícil pensarmos." Agora tudo mudou: 55.600 entradas! Parece a média de mais ou menos 10 políticos por município brasileiro.

Mas, se o universo não teve início e nem terá fim, que diabos acontecerá comigo que, aparentemente, tive início e também terei um fim? Parece que a única saída sensata é lermos a postagem "Viver em Planetas é Perigoso".

O que não sei se deixei bem claro por lá é se teremos possibilidades concretas de resgatar todos os pensamentos de todos os seres que viveram em todos os tempos, antes da viagem ao cerne do buraco negro. Se o fiz, talvez também tenha deixado claro que, dependentes de matéria, podemos dizer, alternativamente, dependentes de energia. No final das contas, estamos falando mesmo de matéria-energia ao mesmo tempo que em espaço-tempo. Parece mais óbvio que somos dependentes do espaço "eu existo" e do tempo "passado, presente, futuro". Em resumo, "aqui e agora".

Então a tarefa torna-se menos desafiante para as mentes hoje disponíveis no planeta. Haverá, possivdelmente, outras dimensões, outras coordenadas, outras métricas, outras infinitudes em diferentes buracos negros. Mas em todos, haverá algo. Então nosso desafio, ou melhor, o desafio secular, o desafio milenar, daqueles que nos hão de salvar, de nos resgatar, de nos exumar é muito menos letal, ainda que estratosfericamente formidável.

Em outras palavras, os seres vivos são contingentes. Ao mesmo tempo, a vida, ou variantes assemelhadas que responderiam por outros nomes -totalmente desconhecidas até o presente momento-, como tal, deixa de ser contingente. Neste ambiente de universo infinito, transcendendo tudo o que conhecemos, desde heliocentrismo até buracos negros e big-bang, não há razão para evitarmos de falar em "pluralidade dos mundos habitados". E talvez nem para negarmos que os produtos da mente (id est, os pensamentos) são tão materiais e transmissíveis como o som emitido pela boca ou -lá vem poesia- as carícias transmitidas pela mão.

DdAB
Imagem: aqui, um blog bem interessante, em tempos interessantes, mas trancado há um ano.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

É Pouco Pé para Tanto Tiro!

Querido diário:
Nem quero falar nas rebeliões de criminosos comandadas por criminosos encarcerados. Claro, se eles têm direito a telefone celular, aparentemente a sociedade (suciedad, lá dos tempos de Quino) não lhes está retirando a capacidade decisória em temas importantes. Tal é o caso de comandar crimes no outer world. Não quis falar? Falei?

Mas quero falar é de outro tiro no pé, mais sutil. Diz a p.14 de meu jornal numa notinha "Temporários. Gestante não pode ser demitida". E que o superior tribunal do trabalho (R$ 30 mil per capita)

"[...] modificou, no mês passado, o entendimento nas súmulas 244 e 378, estendendo o direito à estabilidade no emprego aos contratos temporários, no caso dos empregados que sofram acidente de trabalho e de empregadas gestantes."

Pronto! Considerando que o supremo tribunal não tem a menor ideia do que outer world, eles nunca ouviram falar na lei da oferta e procura. Se tivessem ouvido, ou contratado assessores (eu toparia esses R$ 30 mil, cá entre nós) que a conhecem, entenderiam que esta medida estará elevando o custo relativo da mão de obra feminina para trabalhadoras temporárias em idade fértil. Elevação de salário, jura esta lei -mais insinuante do que a lei da gravidade-, implica redução do volume empregado. Onde vai estourar?

.a. menos trabalhadoras em idade fértil,
.b. menos mulheres (pois é difícil saber quem é mesmo que está em idade fértil).

Era para proteger a gestante? Então vai complicar a vida de gestantes (evidência óbvia do estado uterino), de não gestantes (não é impossível a concepção durante o período do trabalho). Era para melhorar o funcionamento do mercado de trabalho? Claro que não. Era demagogia? Claro que era. Era prova da falta de personalidade dos juízes, que estavam "modificando entendimentos", mesmo ganhando R$ 30 mil por mês!

Claro que mecanismos institucionais de incentivo ou penalização para certas atividades são mais que necessárias na sociedade pós estado da natureza hobbesiano. Os mais afamados são os impostos e os subsídios (que são parte integrante da definição de PIB), também cabendo às transferências interinstitucionais parte do recado na formação da receita das famílias. Então, se um país como a Nigéria ou o Brasil desejam incentivar o crescimento populacional, o melhor mesmo é criar mecanismos que não interfiram no funcionamento do mercado de trabalho. Por exemplo, dá bolsa-gestante. Agora, cá entre nós, ficar incentivando crescimento demográfico num ambiente em que faltam creches, oportunidades educacionais, estradas, e tudo o mais, é mais tiro no próprio pé, é comer pimenta em excesso!

DdAB
Imagem: aqui.
P.S.: com o congresso da ABRASCO (saúde pública, saúde coletiva) em Porto Alegre, vim a entender que esses desatinos de juízes ficarem dizendo qual medicamento o SUS deve pagar aos brasileiros chama-se de "judicialização da saúde". Dado o nome, parece-me óbvio que a saída é sempre a mesma: no orçamento universal, as autoridades responsáveis estabelecerão os itens que serão atendidos para todos. À medida que a medicina/farmacologia e a renda nacional avança/m, estes itens devem ir aumentando. Agora, juiz definir isto é uma incompreensão pueril do quer dizer sobre "saúde, direito de todos, dever do estado". Todos são iguais perante a lei, isto não significa que todos temos direito a tratamento para os rins. Mas que, digamos, o tratamento de lábio leporino deve anteceder, para todos os necessitados, o tratamento de cirurgia estética de redução, digamos, do tamanho do nariz. Eu disse "estética" e não "funcional", pois nariz que não inala terá prioridade até sobre este blim-blim-blim de lábio leporino. Apendicite terá preferência sobre câncer, e assim por diante!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Hai-Kai com trova n.3

Querido diário:
Situation: complication. Neste caso, segue o hai-kai da p.9, que é o terceiro.

Millôr:

EXÓTICO,
O XALE DA VELHA
NA JOVEM É APOTEÓTICO.

Planeta 23:

Na jovem é apoteótico
o corte vertical,
a saia, e coisa e tal.

DdAB

Imagem daqui.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Os Juízes, o Meritíssimo e a Juíza

Querido diário:
Hoje, o jornal ZH está fervilhante, em matéria de juizadas. A manchete só poderia virar piada. E, depois da comédia, a tragédia.

Vejamos:

.a. manchete: Juízes querem reajuste automático de salários. Magistrados e defensores públicos do Estado apresentaram projeto para ganhar reajuste sempre que for elevado o subsídio dos ministros do STF. Comentário: os ministros do STF, by the way, são aqueles que, em breve, estarão ganhando R$ 30 mil por mês, fora os "subsídios", ou seja, as verbas contabilizadas em outras contas, todas benévolas à elevação do índice de Gini.

.b. piada: antes de ler o primeiro caderno, com esta manchete, li o segundo caderno, em que se exibem as piadas. Nem sempre as leio, nem sempre, quase nunca, leio todas. Hoje a última da página tem Thaves, aquele do Ernst e Frank: é o Ernst como réu e o Frank como advogado, ou vice-versa. Ao fundo, em diagonal (no plano?), um juiz, com cara de contrafeito, dedinhos tamborilando em sua vetusta mesa. Diz um deles (não o juiz, claro): "Meritíssimo, se a acusação de 'falar a verdade ao poder' for retirada, meu cliente vai se declarar culpado da ofensa menos grave de 'questionar a autoridade'." Só bebendo. Mas bebida mesmo requer é o seguinte.

.c. de volta ao primeiro caderno, li um artigo assinado. Por Maria Angélica Carrard Benites, juíza federal substituta, Vara do Juizado Federal Previdenciário de Passo Fundo, p.14, ao lado dos editoriais do dia.

Começa o artigo:
Na iniciativa privada, o profissional que luta pelo incremento de sua remuneração logo obtém o título de empreendedor.

Eu: Parece-me que se confunde "profissional" com "empresário". E "remuneração", menos sério, com lucro. Daí qualquer analogia com os juízes começar já complicada.

Vejamos:
Ao magistrado, por sua vez, imputa-se a ideia de que suas necessárias equidade, sabedoria, abdicação, humildade retiram-lhe a faculdade de lutar, não pelo incremento, mas pela preservação de sua remuneração - aviltada, há seis anos, pela insuficiência e, posteriormente, ausência de reajuste.


Eu: equidade? com o salário mínimo de R$ 600? Abdicação de quê? Humildade, ganhando R$ 30 mil? C'est magnifique. Preservação de sua remuneração? Real ou nominal? Se real, qual o deflator? E afinal não queremos todos menos desigualdade? Quer reajustes, reajustes e reajustes.

Parece que tem o seguinte:

[...] prestação célere e eficiente realizada cotidianamente pelos magistrados federais e trabalhistas em todo o país.

Pensei: nada dos magistrados estaduais? E toda a negadinha atrelada ao sistema judiciário, que está fazendo água em cachos? Já pulei cada coisa de arrepiar o carpim. Mas também tem:

[...] o sucateamento das carreiras da magistratura já está levando bons profissionais para outras bandas, deixando como legado um Poder Judiciário enfraquecido, despido de sua melhor definição, que é a independência.

Ora veja, estão ficando os dependentes? Ou é o estamento que se preocupa com as festanças de fim-de-ano e percebeu que a restrição orçamentária vale para qualquer chefe/chefa de família, para qualquer um que contribua para o orçamento doméstico. Talvez com exceção de Bill Gates, ou mesmo para ele?

Conclusão fulminante:

A forma como a magistratura vem sendo tratada pela sociedade, pelos poderes Executivo e Legislativo, é o próprio gol contra; contra os legítimos interesses de todos os cidadãos.

Insisto no ponto. Mesmo daqueles que ganham R$ 600 e são julgados pela turma do estamento que ganha 50 vezes mais que eles? Só bebendo, meu chapa, só bebendo. E vou começar agora mesmo. Mas não é daquelas cachacinhas que valem uma merreca. Vou para algo de mais pedigree!

DdAB

Em plena temporada de kai-kais, não resisti:
HAI-KAI DO ÃO-ÃO-ÃO
Não é com indexação
Que o nascido para ladrão
Julgará com o coração.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Cravo e a Ferradura: a vez de Érico

Querido diário:
Queria saber minha posição no caso de um contrafactual de eu não ser eu myself mas afro-brasileiro. Este negócio de racismo nos textos dos escritores. Brancos, by the way, como é o caso de Graciliano, Monteiro Lobato e Érico Veríssimo, como brinquei na postagem daqui. Lá era a frase lobatiana: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão."

Claro que eu preciso dar uma olhada nos escritores negros, como variável de controle. Uma vez que eu não escolhia meus autores pelo critério da cor da pele, nem sei se alguns deles são negros ou brancos. Parece-me que Assis Valente era negro, parece-me que Lima Barreto era negro. Ou pardos. Devo checar cores da pele, antes de embarafustar-me pelas obras em busca de expressões assemelhadas à lobatiana. Ou seja, eles serão variáveis de controle para tirarmos a limpo este negócio de racismo fora do tempo. James Baldwin era negro, garanto, então precisamos ver se seu "Numa Terra Estranha" tem expressões depreciativas. E se elas emigraram do livro em inglês (que não li) ao em português (por racismo do tradutor, veja-se lá onde este teatro de absurdo pode levá...).

Que tal então esta de Érico Veríssimo? É o dr. Rodrigo, que já nasceu -I presume- politicamente incorreto, pensando, na terceira pessoa da narração do autor:

[Rodrigo n]ão é muito homem de cigarro de palha, mas neste momento até um cachimbo de barro de qualquer negra velha lhe saberia bem.

(O Arquipélago, v.I, Companhia das Letras, p.248)

Ok, ok. mas tem o lado engajado de Érico, que deve ser louvado. E estou bem certo de que este tipo de "racismo" não deve ser contestado.

Como Rodrigo [Chiru] está beirando os sessenta.
-E em matéria de política?
Chiru encolhe os ombros.
-Estou desiludido com este negócio todo. Nâo vale a pena a gente se meter.
-Estás errado. Se os homens de bem não se metem, os cafajestes tomam conta do governo.


É casca grossa! Parece que tomaram mesmo. Neste mundo de politicamente incorreto, que podemos criticar naquele pessoal que desejava uma política seriamente correta?

DdAB
P.S.: e esta da nega do cabelo duro?

domingo, 11 de novembro de 2012

Brasil, Educação, Obama Bicampeão

Querido diário:
Há quase uma semana, dei umas olhadas no Washington Post, a fim de atualizar-me sobre os resultados da eleição americana. Quando cheguei na festa, já estavam disponíveis o discurso de despedida de Mitt Romney e o de festejo de Barack Obama. Disse Machado de Assis que "ao derrotado, a casca das batatas (para não falar o trágico destino que lhes caberia na linha quinqueana)", de sorte que fico com o mal-dito "ao vencedor, as batatas". Ou seja, vi o vídeo de Obama. Dada a desfaçatez dos governantes brasileiros no que diz respeito a seus discursos de campanha sobre educação, destaquei:


Queremos que nossas crianças frequentem as melhores escolas com os melhores professores.

Tradução minha. Original de Barack Obama, está claro? Relembro: não acompanhei com muito interesse as eleições americanas. Fi-lo, filo, meu Deus?, em medida um pouco maior no que diz respeito às eleições municipais do Brasil. Depois de ter ouvido comentadores dizerem que cristalizou-se um quadro de pluripartidarismo aus Brasilien, fiquei feliz. De repente, surgirá algum partido decente, ou seja, algum dos existentes torna-se decente, substituindo as atuais lideranças. Ou dá-se uma reforma dentro de um ou dois destes líderes. A esperança é a última que morre.

Estou certo de que Obama deixou claro que melhores escolas nutridas por melhores professores significa não ter enturmações, não ter aula em containers (pronúncia maravilhosa de Obama) não contestar judicialmente o direito do governo federal fixar um salário mínimo de incentivo ao ingresso dos jovens na carreira do magistério. Em outras palavras, não é impossível que os americanos abjurem governos do tipo Yeda ou Tarso. Nâo é invejável?


Claro que não foi ele que disse estas coisas fora da frase que pesquei, nem -by the way (pronúncia horrível)- eu! Quem diz é o bom-senso universal!

DdAB
Imagem: do blog da Secretaria de Educação de Solonópole. Solonópole? Ainda mais estranho do que ideias quinqueanas, de Kinkash Borba.
P.S.: meu encantamento com Obama extinguiu-se há anos. Por ironia, momentos antes de fazer esta postagem, li no jornal que ele acaba de recusar-se a aceitar o encaminhamento de proposta palestina de inserir este povo (nação) como membro não oficial da ONU, um troço destes.
P.S.S.: como disse o zelador de meu prédio, o sr. Paulo, "é um misancê e tanto".

A Matemática, é matemático

Querido diário:
O jornal (ZH) de ontem exibe uma notícia confrangedora. Se tem gente que não sabe português, que dizer da negadinha que não sabe matemática? Já escrevi que matemática se escreve em português, na tentativa de facilitar a vida do neurótico pelas quatro operações e operações sequelantes. A pergunta era: "Quem tem medo da matemática?" E já fui logo respondendo: eu, eu, eu. Aí, dada minha modéstia, veio a esperança: "Para combater e prevenir". Combater os medos pretéritos (ou o presente?) e, certamente, preverir os medos futuros! Fiquei feliz!

Segue o box do "Para combater e prevenir" com quatro loci (era o plural de locus, em latim, remember?). Evadindo-me das críticas de poltrão quantitativo na condição de aluno, passei a recordar algumas desilusões de minha vida de 31 anos de magister. O récord, parece-me, foi de um rapaz saudável que confundia "cinquenta e seis" com "sessenta e seis", pode? Fatoração, multiplicação, "passar para o outro lado", e outras coisas bem ginasianas, so to say.

Então, que deve fazer o professor?

Deve trazer a matemática para o dia a dia com exemplos que façam parte do cotidiano dos alunos. Usar jogos, analogias, metáforas e tecnologias.

Nâo pude deixar de reprimir um sorriso de mofa, pois aquela parte do "parte do cotidiano dos alunos" pareceu-me piada de mau gosto. Sempre me pareceu que "os alunos" é uma abstração ainda mais eivada de erros do que "o aluno médio". Parece mesmo que, por descuido, um dia -antes da aula- enchi a cara e lá, ao ouvir um atropelo a uma pergunta que fiz -destas de bar-, disse-lhes: "vocês não estudam". Muitos disseram: "e você bebe". Mas não foram todos, ou seja, nem todos diagnosticaram meu nível etílico. Ou seja, em um tribunal brasileiro, eu passaria por sóbrio, ou até assombrado, mas nunca como pinguço.

Pois bem:
.a. a matemática já está no dia a dia há muito tempo, ou melhor, o dia a dia é impenetrável à matemática, que é -ela própria- um construto del cerebro humano. E até do cerebro de lobos e hienas, para não falar em formigas e bactérias. Mas aí é que reside a questão central: isomorfismo é, no dizer do velho Aurelião, a "[...c]orrespondência biunívoca entre os elementos de dois grupos que preserva as operações de ambos." Segue-se logicamente que haverá pilhas e pilhas de correspondências entre o ato de nos espreguiçarmos, ao sair da cama, e o de fazê-lo, já na sala de aula, quando pinta sujeira.

.b. os exemplos do cotidiano dos alunos requerem que definamos "alunos". Em geral, numa sala de aula, existe certa homogeneidade entre os alunos: o aluno modal tem 20 dedos, dois olhos, não mora em casa de pau-a-pique, toma banho de mangueira, o pai tem um automóvel Gordini, a mãe usa esmalte Coty, a avó usa insulina, a bisavó faz bola de meia, o trisavô é um imigrado, sabe-se lá. É, parece que "o aluno" é uma espantosa abstração, o que implica que -no primeiro dia de aula- dever-se-ia ensinar-lhe o conceito de infinito, de universos finitos e infinitos. Ou, ao contrário, entender que, para longas caminhadas, pequenos passos e começar ensinando mesmo o be-a-bá, ou seja, o afamado 1 gordini + 1 gordini = 2 gordinis.

.c. e isto de "[...u]sar jogos, analogias, metáforas e tecnologias"? Será que eu estrago tudo se indagar "quais, meu senhor do bonfim?"

O que me parece sensato mesmo é fazermos como o trisavô importado do aluno médio definido no item .b., que estudou em seu país de origem: as gerações anteriores definiram que haveria aulas (ver Aurelião), que haveria múltiplas origens genéticas nelas presentes e considerar que haveria um plano de vários anos para ministrar conteúdos interessantes. No caso, nunca ensinar multiplicação antes da adição. Se fosse para inverter a ordem de exposição destas duas operações, far-se-ia necessário buscar evidência de que haveria benefícios nesta transposição. Pode ser que o erro de todos os milhares de professores e alunos que aprenderam primeiro somar e depois multiplicar tenha sido não aprender primeiro a subtrair e depois dividir, sabe-se lá. Parece que não!

Jà cheguei a pensar que o ensino da matemática deveria ser reservado a maiores de 80 anos de idade, o que ainda me daria alguns anos de folga antes de ingressar na -assim chamada- idade da tortura.
DdAB
Imagem aqui.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Dupla número Dois

Querido diário:
Seguem os hai-kais (Millôr, o sério; DdAB, o brincalhão). Agora chegamos à p.8 do livro de 2006 da L&PM:

Ele:

PROMETER
E NÃO CUMPRIR:
TAÍ VIVER.

Nóis aqui:

Taí viver:
Ver e ouvir,
pensar e fazer.


DdAB
Imagem aqui.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Hai-Kai e a Trova

Querido diário:
A postagem de ontem bombou, isto é, recebeu um número extraordinário de acessos. Decidi mostrar um hai-kai de minha própria autoria. Já mostrara outros, em outros tempos. Mas este é diferente.

Em 1957, segundo diz no prefácio do livro, Millôr Fernandes começou a escrever seus hai-kais na seção O Pif Paf da Vida que entretinha na revista O Cruzeiro. Pois é precisamente daqueles instantes que eu, em torno de meus 10-12 anos de idade, vim a conhecê-lo, nos tempos de Matto Grosso. Parece que eu me sentia um verdadeiro portento intelectual, pois gostava daquelas coisas, embora de conhecimento profundo eu tivesse apenas a literatura infantil de Monteiro Lobato (e, claro, o Macaco Sabido, além de outras pérolas).

Pois bem: sempre gostei dos hai-kais, que aprendi a apreciar com ele. Hà dois ou três anos, adquiri o livro que a L&PM publicou em 2007. Depois que publiquei o hai-kai de Mariana, peguei o livro de Millôr e vi que eu tivera o atrevimento. Peguei o primeiro (e alguns outros) hai-kais do livro e emendei outro com o último verso. Como as trovas gauchescas que também conheço desde a infância.

Millôr:

OLHA,
ENTRE UM PINGO E OUTRO
A CHUVA NÃO MOLHA.

Planeta 23:

Se a chuva não molha,
é o pingo de cima
que fez a escolha.

DdAB
P.S. imagem aqui.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sobre Crianças e seus Jardins

Querido diário:
Hoje inicia um novo marcador: "Vasto Mundo". Nada é mais drummondiano, nada é mais poético. Trata-se de uma seleção de haicais produzidos por alunos da Escola Municipal de Alvorada, orientados pela profa. Tânia Giesta. Muitos têm ilustrações, como a de hoje.

Por todo jardim
um exército em fila:
rosas vermelhas.

Haicai e ilustração de Mariana (4a. série do primeiro grau), feito em 24/set/2012.

Assino cá eu:
DdAB

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Torres de 105 Andares


Querido diário:
Na p. 3 do jornal de hoje, fala-se de um edifício de 105 andares que levou 26 anos para ser construído na Coréia do Norte. Diz a ZH que a revista Esquire tachou a obra como (cito, cito) "horrivelmente feia, até para padrões comunistas".

Primeiro, 26 anos? Quatro andares por ano, em média? É coisa de louco, mas o que impressiona mesmo são os 105 andares. Eles podem? Para que serve? É uma catedral gótica disfarçada? Meter esta montanha de excedente econômico no "investimento" em construção, aparentemente, não é para eles, que têm um PIB per capita bastante combalido.

A Coreia do Norte é a primeira (ou Cuba é que é a primeira) dinastia comunista, levando-me a pensar como é que fui cair naquela esparrela de achar que o esperanto, digo, o socialismo, teria alguma chance de "disciplinar" a humanidade, a fim de tornar-se uma espécia cooperativa. Por outro lado, quando ouvi o trio lá de cima há 40 anos achei os versos bem achadinhos.

DdAB

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Estado de Israel e o Prefeito de Porto Alegre


Querido diário:
Esta foto de telefone é da Praça Estado de Israel, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Foi retirada ontem, no final do feriadão. Será que os vizinhos que descartaram, por exemplo, aquela cadeira preguiçosa escondida pelas cores da lata do lixo são bons cidadãos? E eu, que fotografei e não recolhi, o lixo para minha casa, esperando a segunda-feira para reciclá-lo?

Eu não fiz isto, pois este não é um equilíbrio auto-referendado, não é mesmo? E o prefeito, que ainda está comemorando sua reeleição, ele não deve recolher este tipo de atropelo dos maus cidadãos e multá-los?

DdAB

domingo, 4 de novembro de 2012

Casar-se-ão Martina e Pedro?

Querido diário:
"Casar-se-ão" é a forma que o prof. Conrado diz estar caminhando para o túmulo naquilo que formou o português brasileiro. Deixando de lado o túmulo, pensemos em nascimentos. Os nascimentos de Martina Mazzochi Teixeira (30/out/2012) e Pedro Cipriani Amoretty Souza (31/out/2012), para mim, crianças desconhecidas. Já que não sou parteiro, como é que vim a saber que eles nasceram, eles existem?

Vi comunicações de seus nascimentos na p.17 de meu jornalzinho de leitura diária (ou quase). E que chamou-me a atenção? É que ambos têm as comunicações do nascimento feitas por parentes de duas ou três gerações, mas até aí, tudo ok. Então chegando onde queremos (ou melhor, onde não queremos): em ambos os casos, as comunicações estão inscritas em uma moldura vermelha e ambas têm o distintivo do Sport Club Internacional, fundado em 1909.

Deu 2 x 0 para o Internacional x Grêmio, neste grenal infantil. Mas não será possível a Martina ou a Pedro ou a ambos fugirem deste determinismo geográfico e casarem-se, por exemplo, com um corintiano e uma náutica? Ou aeroviários e professores? O que me deixou filosófico nesta manhã dominical foi precisamente ver pela milionésima vez este tipo de manifestação de. De quê? O mundo não se divide em Lennon x McCartney, ou Zinoviev x Kamenev, ou GM e Ford, azul e vermelho. Ou melhor, estas são autênticas divisões no mundo, mas o mundo não é bidimensional, o mundo tem múltipas dimensões: música clássica x música popular, arte x artesanato, economia positiva x economia normativa, todas estas coisas. O que me deixa contrafeito, na verdade, é buscar este tipo de recorte para anunciar nascimentos de crianças.
DdAB
A imagem veio daqui.

sábado, 3 de novembro de 2012

Becos de Servidão e Servidão Eleita

Querido diário:
Hoje meu jornal dá duas notícias estarrecedoras que teriam respostas igualitárias interessantíssimas.

Primeira: a encrenca em que o governo do Rio Grande do Sul entra periodicamente, pois deseja escancarar publicamente seu ódio às professorinhas. Agora cito a p.10:

[o secretário da educação do governo Tarso Genro, prof.] Azevedo [...] fez oposição ferrenha [... às iniciativas federais de mudar a fórmula de reajuste do piso salarial brasileiro para professores], reforçou a postura de defesa do reajuste pelo INPC, que mede a inflação, e empilhou críticas aos formuladores da equação.

Cá entre nós, caradurismo! O lado alegre é que estes governantes, ao invés de recorrer ao supremo tribunal para os acudirem em seus anseios de seguir com sua parte daquela história da causa causans, ou seja, criando um povo educado, teremos uma política educada, deveriam era dar um jeito e pagar. O que não considero um golpe, pois representaria apenas o fim da indexação seria dizer que uma coisa é o salário mínimo dos professores e outra é a escadinha das remunerações na progressão funcional. Simples, para quem tem boa vontade, o que não acontece com os governantes quando o mote é educação.

Mas tem mais. Na p. 25, fala-se que a lei municipal 9.926 de 2006 autorizou  venda de áreas otherwise usadas como becos de servidão, ou seja, caminhos de propriedade privada, mas de uso público. O pior é que

[...] a procuradora-geral adjunta de Patrimônio Público, Urbanismo e Meio Ambiente, Simone Somensi, [diz que] a norma surgiu de demanda da população:

O município recebia muitas reclamações do uso indevido das passagens, pedindo para que fossem fechadas [...]

Naturalmente, digo-o com ironia, o município não recebeu nem um elogio sobre a utilidade pública das passagens. O contraste que faço é com a festa anual do St. John's College de Oxford (onde estudou Tony Blair e eu ganhei um ursinho de pelúcia, como veremos em instantes). O St. John's era dono daquilo que passou a chamar-se Banbury Road, que era um beco de servidão desde tempos imemoriais. Ao ser convertido em rua, de alguma forma, o arranjo autorizou a cidade a fechar a rua uma vez por ano para sediar uma feira destas que têm tiro ao alvo em que atiradores de escol ganham ursinhos de pelúcia (desnecessário dizer que quem acertou o tiro foi minha namorada e não eu...).

Moral da história: não dá para ficar elegendo esta gente que pratica tanto atropelo. Em ambos os casos, cabe a pergunta, já que estamos no latinório do causa causans: cui bono? Só pode ser os integrantes do clube da baixaria.
DdAB
Imagem aqui. Linda, necessário olhar mais o blog.
P.S. das 20h08min: os compradores do beco de servidão disseram que lá havia muito lixo e mendigos. Eu pensei que a solução fosse limpeza urbana e reciclagem de resíduos humanos (enfermeiros, professores de economia). Ou seja, empregos promotores da sociedade igualitária.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Teleologia da Vítima

Querido diário:
Hoje dei-me conta de algo interessante sobre a teleologia de minhas postagens, teleologia, no sentido de finalidade cá delas, quero dizer, finalidade das postagens, o que quero lá delas, agora já sem cacofonias, sobre como causa um furacão.

Creio, com já quase 1.200 postagens, ter falado a essência do que quero dizer. Claro que, como não sabia bem o que era, ou tudo o que era, repeti-me várias vezes. Pode ser que eu tenha dito muito mais coisa, ao mesmo tempo em que dou-me conta de que ainda falta coisa para ser dita e que talvez, mesmo conhecendo uma fração disto, eu não consiga dizer.

Tem duas coisas que, estou certo, falo com frequência, insuflado por motivações diferentes:

.a. mania de meter a culpa no povo; vive muito, dá problema na previdência, vive pouco, baixa o IDH do país, essas coisas. Neste caso, o que vim a entender era aquela questão que os epidemiologistas tratam como a causa da causa, a causa causans latina. Meu maior círculo de causa da causa é que a falta de educação empurra o povo a votar em ladrões e a causa desta lack of education é a falta de empenho dos políticos em privilegiar um projeto educacional de longa duração.

.b. a ideia de Samuel Bowles (e, talvez, milhares de outros) no sentido de estabelecer um tripé institucional da vida societária como a conhecemos: mercado, estado e comunidade. Trata-se de três instâncias importantes para promoverem a agregação das preferências individuais.

Segue-se logicamente que, na hora do pão com manteiga, li o artigo "De onde vêm os políticos", de autoria do juiz federal Fábio Soares Pereira, na p.13 de You-know-what. Belo título! Resposta: da comunidade, da sociedade. O silogismo tipo Barbaquá (que inventei) garante que todo político é ladrão e todo ladrão é político, de certa forma, matando a charada do juiz. É claro que, se os políticos originam-se na comunidade, e esta é que os elege ou forma exércitos para mantê-los no poder, ela é a causa lá deles. Mas parece óbvio que tem muito desmando feito pelo governo (situação e oposição, executivo e legislativo, etc.) que, embora feito por indivíduos de carne-e-osso originários da comunidade que é a causa da causa de suas próprias eleições, de sua incapacidade (talvez apenas falta de vontade) de fazer uma boa reforma do sistema eleitoral, do sistema tributário, do sistema penal e de outros tantos sistemas que se inserem ou no mercado, ou no estado ou na comunidade.

Que mesmo disse o dr. Fábio Soares Pereira? Pego um parágrafo-frase inteirinho, com suas 77 palavras:

'Nós - que muitas vezes furamos filas, instalamos 'gatos' de energia elétrica ou de televisão a cabo, passamos pontos referentes a multas de trânsito para outros motoristas, ficamos com o troco que recebemos por engano, não devolvemos objetos encontrados - praticamos incontáveis condutas que, embora pareçam de menor importância, socialmente insignificantes se comparadas a escândalos como o mensalão ou as máfias das ambulâncias e das merendas escolares, alimentam (com enorme força, se somadas) a indústria da 'vantagem'.

Primeiro, claro, pensei no famoso "nós, cara pálida?" Eu, que me conste, nunca fiz o que o pinta está sugerindo: sou inocente. E será que ele fez mesmo este negócio dos 'gatos' de energia elétrica? Em sua casa da praia? No apartamento citadino?

Ou este "nós" era "eles, o povo"? Uma das trajetórias que escolhi para aliviar as costas do povo que dá um duro desgranido é incriminar não a ele itself mas aos juízes. Será que pode mesmo um indivíduo que ganha 20 ou 30 salários mínimos entender por que o povo faz "gato"? E será que, com meus proventos da aposentadoria eu também posso? O fato é que não sou incumbido de julgar ninguém. Aliás, preciso reconhecer (e o faço, claro) que a educação irá resolver milhares de problemas, mas não todos. É óbvio que há muita coisa a ser tocada em conjunto entre o mercado, o estado e a comunidade. E infelizmente ninguém tem o segredo de todas essas coisas que estão faltando.

O fato é que, no Japão, o tsunami não acabou com a solidariedade. Nos Estados Unidos, o furacão Sandy já protagonizou saques no Brooklyn. A questão que o juiz não tangenciou parece-me ser a estrutura de incentivos criada institucionalmente para levar os agentes a adotares comportamentos cooperativos.

DdAB
Imagem daqui. Belo site, bela causa, belas controvérsias.