segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cadeia Alimentar: predadores na cadeia



Querido diário:
Espremida pelo feriado e pelo domingo, esta segunda-feira promete. Quem tem a paciência de esperar, poderá fazer a melhor refeição amanhã, dia do trabalho. Em certo sentido, retenho a doutrinação marxista, no sentido de que o que dá valor às mercadorias é o trabalho. Eu quase ia dizendo "trabalho humano", mas o adjetivo não é necessário. Por definição, uma abelha não trabalha, ainda que os frutos de seu -digamos- esforço sejam-nos úteis.

Creio que nem todos entendemos a importância da quarta seção do capítulo 1 d'O Capital, de Karl Henrich Marx. O título, se a memória ajuda, é "O Fetichismo das Mercadorias e seu Segredo." Parece-me que ambos -fetichismo e segredo- dizem respeito à mesma questão: na sociedade capitalista (eu reescreveria 'nas economias monetárias'), a aparência aponta para a troca de mercadorias entre pessoas, quando a essência das trocas é precisamente a troca de horas de trabalho. Seria esta a razão e a importância de começarmos estudando "O Capital" com "A Mercadoria", capítulo em que é exposta a teoria do valor (trabalho).

Se é mesmo que apenas o trabalho cria valor, então o capitalista (que não trabalha) posta-se no supremo da cadeia alimentar. Mas, ainda mais predadores do que os predadores superiores são os predadores dos predadores superiores, ou seja, os políticos brasileiros contemporâneos. É inconcebível que os homens de boa vontade de uma sociedade como a brasileira contemporânea possam ficar impassíveis ante as revelações da desfaçatez dos envolvidos com o escândalo do senador Demóstenes de Tal e seu amigo Carlos Cachoeira.

No dia em que um desses predadores for para a cadeia, teremos a redenção nacional. Agora, o problema é que quando falo em "políticos", estou inserindo nesta cadeia também os juízes, os responsáveis pelo cumprimento dos contratos na sociedade, os responsáveis pela instauração e preservação da moralidade. E aí é que estamos predados!

DdAB
Imagem aqui. tem lá uma bela postagem sobre "política" e "politicagem".

domingo, 29 de abril de 2012

É Outro Domingo de Amenidades


Querido Blog:
Hoje é domingo de novas amenidades. No outro dia, respondi -com inusitado refinamento- um questionário que campeei na Internet (aqui). Hoje faço a postagem de algo assemelhado, sugerindo que as respostas abaixo sejam modificadas para caber nas palavras cruzadas acima (por exemplo, a '40' teria resposta em alemão 'gut'):



01 - Que horas são? -Domingo, dominguinho, domingão.

02 - Nome? Planeta 23 (nome artístico).

03 - Quantidade de velas no teu último aniversário? prá que que tu que sabê isso?
 
04 - Tatuagens? Há três tatus (de pele, de toca e de nariz.

06 - Piercings? Sou mais um feijãozinho com paio e couvezinha mineira.

07 - Já foi à África? Europa, Ásia, América, Oceania e Antártida.
08 - Já ficou bêbado? Nunca, exceto exceções.

09 - Já chorou por alguém? cara, prá que que tu qué sabê isto? Já.

10 - Já esteve envolvido em algum acidente de carro? Nunca, pois jamais confessaria. E, nos milhares de casos, os barbeiros foram os outros.

11 - Peixe ou carne? Peixe ou carne. Mas a próxima encarnação reserva-me o vegetarianismo, o que muito admiro nos que praticam já nesta.

12 - Música preferida? She is a raibow, mais 26 dos Stones e umas 27 dos Beatles, fora umas 27 de Chick Corea e outras 27 (ou mais) do Penguin Cafe Orchestra.

13 - Cerveja ou Champanhe? Cerveja ou champanhe? Que você quer dizer com isto? Nâo haverá mundo para a cachaça ou o leite?

14 - Metade cheio ou Metade vazio? Se a metade cheia é a superior, aceito-a como preferida; se -ao contrário- a metade vazia é que não é inferior, prefiro-a do mesmo jeito.

15 - Lençóis de cama lisos ou estampados? Lisos ou estampados, o que importa não é tanto onde se dorme, mas com quem se o faz.

16 - Tem filme preferido? "As rosas não falam", ainda que me pareça que isto não é um filme...

17 - Coca-Cola simples ou com gelo? simples ou com gelo, o que importa é que não provoquemos degelo nas camadas polares, pois há apenas duas para todo o planeta.

18 - De que pessoa recebeu esse e-mail? presumo que de pessoa viva. Ou não?

19 - Quem dos teus amigos vive mais longe? Viver no além-túmolo é viver? Temos quase pronta a teoria dos neutrinos selecionados, para resgatá-los, bem como a todos os demais entes e incidentes queridos.

20 - Melhor amigo? O cão.

21 - Melhor amiga? Acoa.

22 - Quem você acha que vai responder a esse e-mail mais rápido? A resposta a esta pergunta, muito sábia, by the way, já está dada e dela não discordo. Se discordância tenho, talvez possamos associar à qualidade da própria pergunta...
23 - Quantas vezes você deixa tocar o telefone antes de atender? Antigamente eu deixava tocar 3.146 vezes, mas nunca passou de 10 ou 20 e paravam. Agora, prefiro contar até 3,14 e, se não conseguir passar do 3, então atender.

24 - Qual a figura do seu mouse-pad? Mouse? Pad? Em que sentido você está usando estas duas palavras? E que faz entre elas o traço de união?

25 - Pior sentimento do mundo? Vontade de repetir a sobremesa e a mãe da gente dizer que tem que deixar para os outros.

26 - Melhor sentimento do mundo? Vontade de repetir a sobremesa e a mãe da gente dizer que os outros que jejuem.

27 - O que uma pessoa não pode ter para ficar com você? Em que sentido você está usando a expressão "não pode" e em que sentido entrou na frase a expressão "ficar" e, principalmente, a expressão "com você"?

28 - Qual o primeiro pensamento ao acordar? "Amanhã, vai ser outro dia, hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão; a minha gente hoje anda falando de lado e olhando prô chão. Você que inventou este estado, inventou de inventar toda a escuridão, você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. E eu pergunto a você como vai-se esconder da enorme euforia? Como vai proibir [esqueci o resto]".

29 - Qual o último pensamento antes de dormir? "Vai passar nesta avenida o samba popular, cada paralelepípedo da velha cidade esta noite vai-se arrepiar ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sambaram sob nossos pés, que aqui passaram nossos ancestrais. Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras como penitentes erguendo estranhas catedrais. E um dia afinal tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia, que se chamava carnaval, ô vai passar, ô vai passá [voz de falsete:] vai passá! Palmas à ala dos barões famintos etc." Sem esquecer o outro rapaz [Mr. Raul Seixas] que dizia: "um palhaço que come lixo". Pode-se lá conceber um país destes, meu senhor do bonfim?

30 - Se pudesse ser outra pessoa, quem seria? Se eu pudesse mesmo, seria a mítica figura da avó do Badanha (not to speak of Badanha himself).

31 - O que você nunca tira? Este sorrizinho de mofa que deixa mofada qualquer cerveja.

32 - O que você tem de baixo da cama? Cama (é uma bicama).

33 - Qual a pessoa que talvez não te responda? Se alguém não responder é porque tem um peso na cacunda. Ou na consciência. Ou na academia (voltou para casa cansado).
 
34 - Aquele que com certeza vai te responder? O certo mesmo era "vai te" ou "vai-te"?

35 - Quem gostaria que te respondesse? A avó do Badanha, se é que tal figura mítica realmente existe, ela e seu dileto neto.

36 - Uma frase: "Eu me atiro nos teus braços feito burro no azevém" (gaúcho da fronteira).
37 - Qual livro você está lendo? Não estou lendo livro nenhum, pois estou respondendo um questionário muito maneiro. A última coisa que li foi: Qual livro você está lendo? Não estou lendo livro nenhum, pois estou respondendo um questionário muito maneiro. A última coisa que li foi: Qual livro você está lendo? Não estou lendo livro nenhum, pois estou respondendo um questionário muito maneiro. A última coisa que li foi: Qual livro você está lendo? Não estou lendo livro nenhum, pois estou respondendo um questionário muito maneiro. A última coisa que li foi: [...]”. E parei. Agora não leio nada. Lerei em breve a 39.

38 - Uma saudade? Sim.

39 - Uma característica tua: sou um verdadeiro dromedário, para quem assim pensa, por oposição aos que pensam que sou camelo e outros, ainda, que pensam que quero passar-me de pato a ganso, fora as fugas como burro quando foge, lealdade canina e tudo o mais. Ainda prefiro, no matter what you do, característica tua a característi cadela.

40 - Você tem rubrica? (ver a linha abaixo)
DdAB

p.s.: não posso deixar de registrar o seguinte trecho de um artigo da p.18 de Zero Hora de hoje, assinado pela sra. Cláudia Costin, secretária da educação do Rio de Janeiro. faço-o na linha das postagens que falaram em desindustrialização e deseducação, desindustrialização e retransportização e assemelhadas. Lá vai o trecho que segue a referência a cifras magérrimas sobre o desempenho do vital setor (sem falar na saúde, etc.):

Quais são nossas tarefas neste contexto? Em primeiro lugar, estabelecer um currículo nacional claro, que deve ser adotado em todo o país e complementado com conteúdos regionais. Alfabetizar as crianças aos seis anos, como fazem as boas escolas privadas, e, nos três primeiros anos, concentrar-se em ensino da língua e de matemática. Investir no professor, valorizando-o, capacitando-o e dando-lhe instrumentos paa o processo de ensino. Manter um bom sistema de reforço escolar, voltado às crianças com mais dificuldade em aprender. Adequar a educação a cada fase do desenvolvimento da criança e do adolescente e evitar excesso de disciplinas com carga horária diminuta, fenômeno que assola o Ensino Médio.

sábado, 28 de abril de 2012

Retransportização: montando a agenda


Querido diário:
Bem sabemos que existe um fetiche de natureza fisiocrática no Brasil aclamando o apoio governamental à indústria instalada dentro das fronteiras nacionais. "Dentro das fronteiras nacionais" quer dizer que aqui dentro tem pilhas de empresas estrangeiras e estas cada vez mais são saudadas por diferentes atores como sendo o que se dizia antigamente 'a salvação da lavoura'. Não se via que a lavoura, para ser salva mesmo, precisa de gente: tratoristas, laboratoristas, transportistas e tudo o mais.

É tão descalibrada esta peroração a favor da industrialização que não se ouve uma condenação importante ao mito de que haverá problemas seríssimos na previdência social, se a população tiver a ousadia de envelhecer, se a galera da meia-idade recusar-se a morrer com brevidade. O modelo alternativo consiste em cultivar políticas governamentais voltadas à produção de bens públicos e bens de mérito. Neste caso, inserem-se os serviços de educação e saúde. E também os de transportes.

Andei falando em retransportização (aqui), um neologismo bastante maneiro destinado a mostrar que a indústria pode ver a reboque da expansão na demanda final. De sua parte, esta deve ser orientada pelas necessidades da população, por contraste ao pensamento convencional e outro tanto heterodoxo (não confundir com o neo-heterodoxo). Teleologia: elevação do consumo per capita, alisando-o ao longo do tempo e reduzindo seu desvio padrão. Etiologia: políticas públicas endereçadas à produção de capital humano e social. Etologia: tínhamos que estudar o comportamento animalesco dos rapazes que querem indústria, por acharem que é nela que repousam os sistemas nacionais de inovação.

É evidente que, na retransportização, dever-se-á avaliar adequadamente a diferença entre o custo social e o custo privado na oferta de viagens (passgeiros e cargas) ferroviárias. Não condeno, ao contrário, a tributação pesada sobre o transporte rodoviário! Além disto, deve-se calcular com precisão o preço do atual sistema de transportes nacional no que diz respeito às vidas humanas dos tripulantes dos veículos e dos transeuntes de todas as idades.

Estamos no primeiro dia de um feriadão. Vejamos o que dirão os jornais da próxima quarta-feira.

DdAB
Imagem daqui. Se bem entendi, trata-se de um trem fabricado no município de Barbalha.

p.s.: Aditado às 17h09min de 28/abr/2012:
Há duas versões do material que originou várias postagens nos últimos tempos, todas embaladas na apresentação que fiz do trabalho sobre "reprimarização e desindustrialização" num seminário que apresentei no IPEA, Brasília aos 12/mar/2012.Ambas encontram-se no site da America Estudos e Projetos Internacionais:

.a. versão alongada:http://www.americaconsultoria.com.br/site/arquivos/280412_074528primario_contemporaneo.pdf

.b. versão resumida:

http://www.americaconsultoria.com.br/site/arquivos/280412_075633duilio_e_joal.pdf

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os Branquelos e a Justiça


Querido Diário:
No outro dia (aqui), postei uma mensagem sobre o peso da cor no Brasil. Inspirei-me em matéria do Boletim da APUFSC. Não é que hoje, ao abrir a caixa postal, vejo outro número do mesmo boletim, com outra matéria que me chamou a atenção: "Ser da cor branca é fator de risco no Brasil" (aqui). Se era mesmo verdade que ser de cor negra também é fator de risco, então escuta. Não pude deixar de lembrar uma frase que ouvi na TV há alguns anos: "Do jeito que eles [os políticos] falam, parece que é o povo que está errado no Brasil." E parece-me que tudo é uma questão de injustiça, do desvão da sociedade justa em que a comunidade brasileira abrigou-se. E claro que tem a questão da causa da causa discutida por lá.

O articulista, professor aposentado Renato Antonio Rabuske, também se refere ao artigo que naquele dia comentei. E traz contra-exemplos relacionados a discriminação feita sobre brancos. Ele tem uma boa frase afirmando que existe apenas uma raça humana. A rigor, não gosto do tom, mas tenho dois comentários:

.a. a verdadeira discriminação é criada pela falta de oportunidades e esta é enviesada contra os pobres; dependendo da classe social que observamos, haverá mais racismo (contra negros), mas a discriminação (residencial) é modelada exemplarmente há uns bons 30 anos.

.b. há anos li na revista Economist que a verdadeira discriminação é natural: obesidade, idade, estatura, gênero. Isto embasbacou-me, especialmente, porque a revista diz que, já que -de ordinário- não se pode corrigir isto, segue-se logicamente que não faz sentido corrigir nenhum outro viés deste tipo.

Naturalmente, odeio a discriminação, todas as discriminações. Naturalmente, apoio as quotas de ingresso nas universidades e nos concursos. Já falei sobre isto: sempre que alguém se manifesta contra as quotas, devemos solicitar uma contagem de pessoas presentes - quantos negros. É batata! Nos ambientes frequentados majoritariamente pelos brancos, há -se tanto- minorias negras.  O problema é que estes ambientes refletem apenas poder econômico que tem um viés contra minorias. No caso, a minoria majoritária, pois entre pardos e negros (denominações do IBGE) encontra-se o brasileiro mediano.

DdAB
A imagem é daqui, onde há uma crônica divertidamente dolorosa (ou, como por lá se diria, dolorosamente divertida). Lá, um gato malvadão come o passarinho da cor branca, cujo corpo -nos tempos de baixa entropia- posou para a foto.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mau Tempo em Floripa: um seminário


querido diário:
como sabe quem acompanha os deslocamentos de meu corpo, estou em Floripa, cidade que adoro e que, ao caminhar pelo campus da universidade e suas cercanias, lembrei de quanto desejei vir aqui morar e, ao ter que partir, o quanto lamentei. nestes dois dias que por aqui passei/estou passando, ontem apresentei um seminário sobre aquelas encrencas da "Reprimarização e Desindustrialização: uma revisão crítica". como sabe o leitor acompanhante do show bizz, também apresentou-se na cidade e em horário parcialmente coincidente com o de meu seminário o s(i)r. Paul McCartney, um dos quatro beatles de outrora e hoje exemplar cidadão britânico.

ainda não indaguei se houve mais gente no show dele ou em meu seminário. talvez nunca venha a saber o resultado desta competição a que não me lancei, porque não sou bobo, ainda que possa padecer da neurose da autoestima superestimada.

dada a espantosa interpenetração de temas, vou deixar esta postagem (que recende a besteirol, vida pessoal e até economia política) sem marcador algum.

no que diz respeito à economia política, tentei deixar clara minha mensagem derivada do paper sobre a reprimarização e desindustrialização que fiz em co-autoria com Joal de Azambuja Rosa. parece incontroverso que há duas dominâncias na economia brasileira: uma é a escala da demanda final. e a outra é a soberania do setor serviços na transformação do impulso originado na demanda final (exportação ou economia doméstica) em crescimento.

nosso resultado mais substantivo é que o período 2000-2008, com todas as boas e más lembranças que poderemos reter sobre ele, tinha como grupo de setores dominante uma combinação que levava a um nível médio de dinamismo e nível alto de igualitarismo. e que este grupo expandiu sua participação tanto na economia exportadora quanto na economia doméstica. bom, né?
DdAB

terça-feira, 24 de abril de 2012

Friedman, a Entropia e o Inacessível Óbvio


Querido diário:
Esta postagem não é totalmente esotérica, inclusive pelo motivo exotérico de carregar o conceito de entropia, um dos mais difíceis com que já me defrontei. Pudera, eu mesmo vivo um processo comandado por ela. ou melhor, no curto prazo, exerço o poder de reduzi-la localmente, mas globalmente no longo prazo ela será vencedora. Na mesma linha de complicação, luto há anos com outras demonstrações difíceis, como a do teorema do ponto fixo, a do teorema da impossibilidade de Arrow e o teorema minimax de von Neumann. Ok.

Comecemos com duas ideias geniais de Milton Friedman que me levaram a admirá-lo e admirar-me com a humanidade: como pode neguinho sacar estas obviedades e apoiar a ditadura de Pinochet.

Primeira ideia: se existe uma taxa de desemprego que aumenta a inflação e outra que a reduz, então deve existir uma terceira taxa que mantém o desemprego em sua taxa atual. parece tão simples, especialmente depois de enunciado desta maneira.

A segunda ideia é: se quem ganha bem paga imposto de renda, então quem ganha mal deve receber imposto de renda. Como ele diria: as simple as that. E este raciocínio é o precursor do projeto da renda básica a que eu aderi, assim que vim a entender do que se trata: justiça distributiva.

Pois bem: comecemos a evadir-nos do marcador "Economia Política". Então passemos ao marcador "Escritos". Parece que "entropia" quer dizer um negócio de "quanto menos energia, menos movimento e, como tal, mais estabilidade desordenada". Por outro lado, sabe-se que a entropia está aumentando desde o Big Bang. Então pode-se conjeturar, como o faz Roger Penrose (ver) que, antes do momento zero, a entropia era ainda menor do que no Big Bang. ok. finis Africae.

DdAB

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Indústria e os Serviços

querido blog:
A "Carta Capital" da próxima quarta-feira (n.694) tem um suplemento da Economist com "reportagem especial sobre Indústria e Inovação". O título geral fala em "Uma terceira revolução industrial", o que não se me faz entender 100%, pois eu pensara que a Terceira Revolução Industrial eclodira nos anos 1970, com a dupla biotecnologia e informática. E minha base é um agora velho artigo de Paulo Tigre, que resenha enorme bibliografia about.

Tem muita coisa interessante. A primeira, que já é uma realidade, é a impressão em 3D, que comentei amplamente aqui. na revista, o máximo é o depoimento do autor da matéria informando que ganhou de presente (feito na hora da visita) um martelo com cabo imitando madeira, tudo impresso na hora. É a hora da manufatura aditiva, como está traduzido na revista da família Carta. Vejamos algumas frases e alguns comentários:

.a. Conforme a matufatura se digitaliza, ela vai transformar-se até ficar irreconhecível

.b. Já foram feitas muitas pesquisas para mostrar que a manufatura é boa para a economia, mas nos últimos anos alguns economistas argumentaram que não há nada especial em fazer coisas e que a indústria de serviços pode ser tão produtiva e inovadora quanto. São pessoas e empresas, e não países, que desenham, fabricam e vendem produtos, e há bons e maus empregos tanto na manufatura quanto nos serviços. Mas, na média, os trabalhadores na manufatura realmente ganham mais [...].

.c. A manufatura responde por apenas perto de 11% do PIB americano, mas é responsável por 68% do gasto doméstico em pesquisa e desenvolvimento.

:: claro que isto não pode ser verdade: quem faz P&D não é a "transformação", mas os serviços. E é claro que a "fábrica" está cheia de serviços, como os de limpeza e os de contabilidade. Se o IBGE lá deles classifica tudo como "transformação" (e, óbvio, ele o faz), estamos frente a um erro de classificação e não de uma lei divina declaratória da importância do setor secundário.

.d. Apesar da rápida ascensão da China, os Estados Unidos continuam uma formidável potência fabril. Hoje, sua produção manufatureira em termos de dólares é aproximadamente a mesma da China, mas eles conseguem isso com apenas 10% da força de trabalho empregada pela China [...].

E olha esta:

.e. O chão das fábricas hoje costuma parecer deserto, enquanto os blocos de escritórios vizinhos estão repletos de projetistas, especialistas em TI, contabilistas, especialistas em logística, pessoal de marketing, gerentes de relacionamento com clientes, cozinheiros e faxeineiros, todos contribuindo de várias maneiras para a fábrica. E fora dos portões, muitas outras pessoas envolvidas em diferentes ocupações que ajudam a supri-la. A definição deemprego manufatureiro está ficando cada vez mais nebulosa.

Não falei?

.f. E alguns avanços na manufatura que estão sendo gestados vão reduzir ainda mais o número de pessoal necessário.

:: tá na cara que o que deve mudar é o entendimento do que é um emprego no século XXI e que a corrida pelos ganhos de produtividade não pode cessar por questões distributivas. O arranjo distributivo deve ter outro caráter, a fim de não impedir o crescimento ainda mais astronômico da produtividade do trabalho. Obviamente, mais trabalho significa menos lazer. E, claro, menos renda - o que é outra coisa - significa menos consumo. O novo arranjo distributivo deverá ser um mecanismo "renda básica universal", só que com um valor decente. Já falei que com R$ 1000 mensais para cada brasileiro em idade ativa vão-se menos de 40% do PIB.

.g. Na Universidade de Warwick, no Reino Unido, uma sala com telas gigantes de alta definição é usada como uma câmara de realidade virtual para simular produtos em desenvolvimento, como automóveis, em três dimensões. [...] As imagens geradas atualmente com o protótipo digital são tão boas que costumam ser usadas para produzir folhetos e anúncios de tevê antes mesmo que um carro novo seja fabricado [...].

Agora vem algo para fazer os neo-desenvolvimentistas patrícios pensarem no que é mesmo que estão querendo que o governo financie para uma indústria de maciça presença do capital estrangeiro:

.h. Alguns empreendimentos de uso intensivo de mão de obra agora estão se deslocando das regiões costeiras para o interior da China, onde os custos são menores, embora a infraestrutura não seja das melhores. Várias firmas, especialmente as que fazem roupas e calçados, fizeram as malas e s mudaram para Bangladesh, Camboja, Indonésia e Vietnã.

.i. [...] alguns empregos estão retornando para os países desenvolvidos. Com os custos dos salários chineses subindo, a melhora da produtividade nos Estados Unidos pode ajudar a mexer na balança, especialmente quando as empresas americanas estão investindo mais em automação. [...] A ideia agora está sendo estendida para a repatriação de instalações manufatureiras para os países ricos. Isto também evita que as empresas ponham todos os seus ovos na mesma cesta. Uma série de desastres naturais nos últimos anos mostrou que cadeias de fornecedores muito enxutas podem romper-se com muita facilidade.

:: Por aqui mora a importância do conceito de flexibilidade de um parque industrial. Lembro do exemplo dos triticultores de São Borja. Eles garantem que podem produzir a quantidade requerida de trigo, desde que bem pagos. Nâo paga a pena, não produzem.

.j. Os fabricantes de painéis solares estão encarando as dificuldades, muitas vezes perdendo dinheiro, em antecipação ao enorme mercado que surgirá quando os painéis solares alcançarem 'paridade de rede' - isto é, a capacidade de igualar os combustíveis fósseis no fornecimento para as redes naconais sem subsídios. [...] a China poderá alcançar a paridade de rede dentro de três ou quatro anos. [...] Painéis solares que possam custar entre 40 e 75 centavos por watt devem garantir a paridade de rede nos Estados Unidos.

:: digamos que sejam 10 (ou 20, o fato é que vai rolar). Parece que começa a chegar a hora de entender que os combustíveis fósseis estão com os dias contados, ou melhor, a importância estragética deles é que está maus. Claro que muitos brasileiros saúdam o Pré-Sal como possibilidade de afirmação do capitalismo de estado. E claro que estão enganados, pois valeria mais a pena que o governo produzisse redes de educação e não redes de abastecimento de automóveis. Ergo o Brasil deve acordar e pensar que as dádivas presentes (soja tropical e minério de ferro, além do petróleo) não são conquistas eternas. A solução é qualificar a população para produzir serviços e consumir bens e serviços.

.k. Mas a manufatura ainda vai precisar das pessoas, mesmo que não seja dentro das próprias fábricas. [...] Os robôs industriais estão ficando melhores na montagem, mas eles são caros e necessitam de especialistas humanos para configurá-los (que custam mais caro que os robôs).

:: ou seja, o serviço associado ao funcionamento do robô vale mais do que o produto do robô.

.l. Mas a próxima geração de robôs será diferente. Eles não apenas serão mais baratos e fáceis de configurar como vão trabalhar com as pessoas em vez de substituí-las. Eles vão buscar e carregar peças, segurar coisas, escolher instrumentos, ordenar itens, limpar e tornar-se úteis em uma infinidade de outras formas.

:: É evidente que vai chegar o dia em que a produtividade do trabalho serã tão intensa que um trabalhador comandará milhares de robôs como este. Ele mesmo, durante a maior parte de sua vida, e todos os colegas de quem ele "roubou o emprego", dedicar-se-á ao cultivo do corpo e do espírito, isto é, ao não-trabalho, isto é, ao lazer!

Sigo: Parece que a indústria está virando serviços. E o primeiro mandamento dos serviços qualificados é "education, education, education". Parece-me que o problema mesmo é que o capitalismo é divertido. Ele corre pelos ganhos crescentes de produtividade e os ganhos crescentes de produtividade são transmitidos aos trabalhadores, gerando menos subsunção real. Epa, epa, voltou-me o jargão, hehehe.


DdAB
Imagem daqui. Olhei bem olhadinho. É maravilhoso. A imagem parece Millôr, Kandinsky, Zé dos Anzois? sabe-se lá.

domingo, 22 de abril de 2012

Amenidades Dominicais



querido diário:
olhava daqui e dali e achei o site a que se chega clicando aqui. costumo dizer que, em Paris, sei falar francês. a prova que sei poderia ser dada ao responder o questionário abaixo. dei uma passada e relutei. vi que há pilhas de palavras que não sabem a meu saber. vou fazer um exercício com o Google Tradutor de meu aliado. tentarei responder, usarei o marcador "Vida Pessoal" e culminarei assinando 'Dondo". nota bene: serão 41 questões.

1. Votre mot préféré
 L'humilité
:: paz [isto é plágio do Aurelião que tem por default (olha o francês disfarçado de inglês) este nome].

2. Le mot que vous détestez
 Le pouvoir
:: o poder (gostei da resposta!).

3. Votre drogue favorite
 Les sourires de mes enfants
:: o sorriso de minha netinha.

4. Le son, le bruit que vous aimez
 Le clapotis des vagues
:: não sabia o que é 'clapotis'. olha, achei 'lapidação'; suspeito não ter entendido bem: lapidação das ondas? vamos ao Google. pasmaceira das ondas? parecem vagas...

5. Le son, le bruit que vous détestez 
 Le crépitement d'une mitrailleuse
:: bate estaca (je ne parle pas de la musique/discoteque).

6. Votre juron, gros mot ou blasphème favori 
 Nom d'une pipe !
:: pronto: não sei o que é 'juron'. agora o Google Tradutor faz mais sentido: juramento. juro nunca dizer palavrão.

7. Homme ou femme pour illustrer un nouveau billet de banque 
 Coluche 
:: e vem mais: presumo que Coluche seja homem ou mulher. presumo. que diz o Tradutor? confirma. é Coluche mesmo. e eu? um menino de rua, selecionado em concurso nacional e com direito a passar 365 dias na Disneilândia, como prêmio pela sorte.

8. Le métier que vous n’auriez pas aimé faire 
 Travailler dans un abattoir
:: também gostei desta de abjurar os assassinatos de animais.

9. La plante, l’arbre ou l’animal dans lequel vous aimeriez être réincarné
 Du chiendent 
:: não eram os cainguangues que tinham o ciclo: gente, formiga e anta? depois da queda, eu quereria ser anta, neste caso. já tive amigos que amavam tamanduás e outros, antes da política, amavam tucanos. se não desse para ser anta, eu tentaria reencarnar num cachorro de classe média.

10. Si Dieu existe, qu’aimeriez-vous, après votre mort, l’entendre vous dire
 Ma foi, va, je te pardonne
:: qual é minha parte neste latifúndio? [ver o finalzinho da postagem de 20/abr/2012].

11. Le principal trait de mon caractère
 Chiante
:: rebeldia (eu não sabia que 'chiante' é 'chatice').

12. La qualité que je préfère chez un homme
 Le respect
:: solidariedade.

13. La qualité que je préfère chez une femme 
 Le naturel
:: solidariedade.

14. Ce que j'apprécie le plus chez mes amis
 La franchise
:: solidariedade.

15. Mon principal défaut
 (voir page 1)
:: não saber mais francês.

16. Mon occupation préférée
 Pianoter sur mon ordi
:: agora complicou: pianoter? ordi? arranhar meu computador. o Tradutor é sabido, pois penso que 'ordi' é um coloquial para 'ordinateur'. e nunca esquecerei do texto de Umberto Eco: il computer da scrivere, apresentando a geringonça. e tem traço na internet bem aqui. parece que eu li o folhetinho tamanho livrinho de catecismo em algum ponto ou momento de ma vie.

17. Mon rêve de bonheur
 Liberté, égalité, fraternité
:: meu também! e acho que de John Rawls também, dado o conceito que ele criou para sociedade justa: 1. liberdade; 2. cargos públicos abertos a todos; 3. igualdade no longo prazo.

18. Quel serait mon plus grand malheur
 Ne plus être maître de mes pensées.
 :: acho que o meu também. talvez pior ainda: pensar e não gostar do que penso.

19. Ce que je voudrais être
 Une faiseuse de miracle
:: um poeta que prepare uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. tá reconhecendo o Drummond?

20. Le pays où je désirerais vivre
 Celui là n'est pas si mal
:: garota evasiva? eu queria viver na República da Terra. pulando para o outro lado do Canal da Mancha, eu queria uma brotherhood of men.

21. La couleur que je préfère
 Toutes ont quelque chose à dire
:: cor de arco-íris.

22. La fleur que j'aime
 La passiflore
:: eu é a camélia (ou melhor, o dr. Alzheimer impediu-me de lembrar a outra, parecida).

23. L'oiseau que je préfère
 Titi
:: sabiá (se é que 'titi' não é sabiá, que não tem no Tradutor).

24. Mes auteurs favoris en prose
 Racine, Kafka, J.P Sartres, Bazin
:: Machado, Graciliano, Norman Mailer, Phillip Roth. e omiti milhares de outros. era apenas 4?

25. Mes poètes préférés
 Baudelaire, Hugo, Prévert
:: Shakespeare, Bocagge, Florbela Espanca, Drummond (quase esqueço...). só 4?

26. Mes héros dans la fiction
 Docteur Mamour (Grey's Anatomie)
:: o professor Pangloss (de Voltaire)

27. Mes héroînes favorites dans la fiction
 Juliette Binoche
:: Elisa (de Bernard Shaw). 

28. Mes compositeurs préférés
 Mozart
:: moi aussi.

29. Mes peintres favoris
 Dali
:: serei mais francês que os franceses? Cézanne! ok, vamos aos demais: Caravaggio. Francis Bacon. Portinari.

30. Mes héros dans la vie réelle
 Ceux qui sauvent des vies sans compter
:: acho que também adoto esta resposta.

31. Mes héroînes dans l'histoire
 Jeanne D'arc
:: cara, o patriarcado é fogo: acho que apenas individualizo mulheres importantes (na política) a partir do século XX.

32. Mes noms favoris
 Désiré
:: Cecília.

33. Ce que je déteste par dessus-tout
 L'intolérance
:: o dogmatismo.

34. Personnage historique que je méprise le plus
 Ce grand fada à la moustache à l'origine des chambres à gaz 
:: falhei em 'méprise' e 'fada'. o Tradutor disse-me que 'fada' é 'fada'. o Google sugere que fada é 'fée'. minha conclusão: não entendi lhufas nem bulhufas (palavra ausente do Aurelião). mas o Dicionário Informal matou esta, pois consigna ambas, nem sempre no sentido a que me habituei a usar.

35. Le fait militaire que j'admire le plus
 Joker (a garota acima veio daqui).
:: tampouco entendi, neste caso a resposta é que me botou para jambrar. 

36. La réforme que j'estime le plus
 La loi sur l'I.V.G
 :: a reforma eleitoral, instituindo o voto voluntário, o voto distrital e o parlamentarismo.

37. Le don de la nature que je voudrais avoir
 Lire dans les pensées des autres
:: voz de trovão, para acordar os homens. e voz de brisinha, para adormecer as crianças.

38. Comment j'aimerais mourir
 Vite fait, bien fait
:: no por do Sol, ou seja, quando o Sol acabar (ou depois).

39. Etat présent de mon esprit
 On a vu pire
:: é preciso arrancar alegria ao futuro (Maiakowski).

40. Fautes qui m'inspirent le plus d'indulgence
 Les fautes de français
:: é falta? é culpa? a ignorância motivada pela falta de oportunidade de aprender (e.g., meninos de rua).

41. Ma devise
 Vouloir, c'est pouvoir
:: quer mudar o mundo? pergunte-me como.

Dondo
p.s.: imagem lá de cima: miss Joker.
p.s.s.: outro dia, apresento o questionário que preenchi no início da adolescência, hehehe. e parece que este conceito de joker não é 100% afinado com o meu.
p.s.s.s.: no outro dia, escrevi que adjetivo não modifica advérbio. inventei o negócio de que Machado de Assis teria dito "melhor cheirar", ou seja, cheirar super bem. pois hoje, reminescente do capítulo sobre o Encilhamento (p.1171-2, ver adiante), cheguei no capítulo LIII / De Confidências, de Esaú e Jacó (p.1144-7 da edição de 2008 da Nova Aguilar, cita na 1145). diz Machado: "[...] tirou um dos relatórios para ser melhor visto." ok, ok, quase cheguei lá, pois não é bem isto.

sábado, 21 de abril de 2012

JUROS DA POUPANÇA: quem são os amigos do povo


querido diário:
a capa de meu jornal de hoje saúda o futuro com a seguinte manchete:

Redução do juro acelara debate sobre regras da poupança
Corte na taxa básica pressiona o governo a diminuir o rendimento da caderneta para que não fique acima dos fundos de renda fixa, provocando fuga de aplicadores

eu pensei direto: quem são os amigos do povo? na p.14, há algumas respostas que reduzem o conjunto de amigos do povo, por meio da exclusão de alguns nomes. primeiro, dizem que "Entre os economistas, a opinião é uníssona: para cortar mais os juros, o governo terá de mexer na poupança." autor da frase? bíblico mistério. se eu grito contra, seguiria o "uníssino"? será tão grande o cordão dos puxa-sacos que nem me ouvem? mas tem mais: "O problema é que os investidores tendem a tirar seus recursos de investimentos atrelados ao juro básico - hoje 9% ao ano - para ganhar mais com a poupança."

E agora vem mais:

Estudo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostra que, com a Selic atual, só investimentos de longo prazo com taxa de administração inferior a 1% rendem mais do que a caderneta.  [ZH comeu a vírgula entre "Finanças" e "Administração"?]

E vem o pior:

O governo não tem escolha. Se não mexer na poupança, traqvará o crescimento do país e a queda de juros - avalia Miguel Oliveira, vice-presidente da Anefac.

o Milton, além de defender seus interesses, aparelhado numa sociedade entre a galera que ganha a vida precisamente no mundo das finanças, é da galera que veste-se da teoria macroeconômica de que é a poupança que determina o crescimento econômico. claro que isto é um mal-entendido, pois a macroeconomia, neste caso, é composta pelas empresas que exercem a demanda por bens de capital. e, na teoria da empresa, parece que todo mundo já concorda que quem explica o investimento é o lucro e não o juro. no outro dia, já falei que baixar o juro pode sinalizar para que o lucro baixe. mas nem sei se referi que o mais provável mesmo é que o juro baixo induza apenas a lucros mais altos tanto nas finanças quanto na empresa privada. parece que agora começa a ficar claro que tipo de transferência de renda, da renda avalizada e de seu crescimento, os amigos do povo estão pensando em implementar.

mas não me refiro apenas à caderneta de poupança, a mais simples aplicação inventada pelos governos militares (claro que inspirados em economistas civis). parece óbvio que um freio para a cobiça dos executivos financeiros consiste em estabelecer-se um patamar decente para a definição de poupança popular. nunca pensei nisto, mas por que não começarmos com uma adivinhação de R$ 49.999?

mas o verdadeiro problema ao qual me refiro é que nenhum dos amigos do povo -executivos e governantes- falou que os juros da caderneta de poupança servem para financiar o pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço que já emergiu da ditadura pagando 3% a seus suarentos depositantes. naturalmente aquele projeto do tempo antigo de que os trabalhadores poderiam criar um partido que se pautaria por um programa social-democrata (ou socialista?) foi sepultado há muito tempo. hoje a raposa é que cuida do galinheiro.

tinha gente que falava que a divisão entre esquerda e direita acabara não me lembro em que ano. este tipo de diagnóstico ajudou-me a perder o pejo e anunciar que o capitalismo acabou há mais de 15 dias. mas o que vemos é nitidamente um conflito entre rentistas e a instituição "famílias pobres". por que os amigos do povo não se deram conta de que também poderiam lançar um olhar de preocupação sobre aqueles 3% do FGTS?

DdAB
p.s.: uma vez que o subtítulo da postagem de hoje é a cópia de um folheto assinado por Lênin, nada melhor do que vê-lo na imagem lá de cima. ou ele sempre respondeu errado ou foram as más companhias, o tabagismo, quem arruinou tudo, não é mesmo?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O MAL*, o Mala e o M'alão


querido diário:
inspirado pela postagem do B.P., selecionei este "luz no início do túnel", retirado daqui, uma linda postagem de cor e arte, uma overdose, como se diz por lá. no blog "Despenteadas", fala-se em cores. no Bípede Pensante, fala-se em ciência e - diria eu por aqui mesmo - o conceito de verdade, como uma miragem, apenas capturável - fugidiamente - por parte de nossos sentidos. claro que não estamos falando em verdades triangulares (seus vértices determinam um plano, sei lá).

sinto-me particularmente tocado principalmente pela imagem acima: não precisamos acreditar que haverá luz no fim do túnel. podemos começar a criá-la, muito antes de nele entrarmos. essencialmente, esta é a mensagem do MAL*, o Movimento pela Anistia aos Ladrões Estrela. como sabemos, o MAL* nutre-se de uma contradição venenosa. primeiro: seu fundador e único integrante defende o preceito de que a impunidade é a mãe do crime. ao mesmo tempo (segundo) sustenta que estas querelas que, muitas vezes, nada mais são do que vinganças pessoais, devem dar lugar a comportamentos mais consentâneos por parte dos auto-intitulados homens públicos, como é o caso dos vereadores e juízes. terceiro (nada a ver): desde "essencialmente" até "juízes", eu fizera tudo como uma frase única. ao ver que superaram a indefectível marca de quatro linhas, rompi-a e inventei essa moda de "primeiro" e "segundo". juro que o prof. Conrado (ver link ao lado) apoiaria. pois bem, encerra-se o parágrafo do MAL*.

quem é o Mala? claro que hoje 20/abr/2012 o mala de plantão é o senador Demóstenes, orador brilhante, pena que agatunado. aliás, não havia o silogismo Barbaquá sustentanto que, formalmente, todo político é ladrão?

e o M'alâo? é o título afetivo que acabo de criar para o Mensalão, o escândalo que perecolou a administração pública brasileira durante o governo Lula. o sr. Marcos Valério, eu que nem de política recebo $$$, sei-lhe o nome, dados familiares e até patrimoniais. e que vive bem acima da média da renda per capita brasileira. não sei se é culpado. o ponto é que o julgamento nunca aparece, pois envolve interesses muito superiores ao vigente hoje no conceito de sociedade justa brasileiro.

e a Comissão da Verdade? em minha maneira de ver, o mesmo tipo de revanchismo, o mesmo tipo desastrado de tentar reduzir a impunidade. não se consegue andar no rumo da sociedade justa com o atual estado de educação e centralização do poder governamental (executivo, legislativo, judiciário) no Brasil. quer a verdade? comece a coletar opiniões dos meninos de rua, das empregadas domésticas, dos motoristas de ônibus, dos moto-boys. para que indagar aos militares? para que indagar aos rapazes dos cargos em Comissão? quer acabar com o trabalho infantil? aja diferente, pressione os políticos a agirem com decência. como já andei pensando (à la Márcio Moreira Alves): abrace a política - sufoque um político.

em outras palavras, voltando a falar de mensalão. estamos a seis meses da apossentadoria do ministro Ayres Britto (conforme a p.12 de ZH de hoje). neste interregno, ele vai presidir o tribunal do qual faz parte. juro que, de sequela por este sacrifício, ainda leva a F.G. para  túmulo, se não a deixar para algum filho adotivo, como dizem ter feito o General Emílio Garrastazu Médici, que aparentemente adotou a neta. eu até pensei em me adotar, mas dizem que "a juventude não é transmitida por herança".  pois festeja-se que o ministro Ayres Britto prometeu julgar o processo do Malão, digo, do Mensalão.

primeiro, vi que tenho um ponto de vista um tanto divergente dele. ele diz do judiciário:

É o poder que evita o desgoverno, o desmando e o descontrole eventual dos outros dois [, ergo] não pode, ele mesmo, se desgovernar, se descontrolar.

nesta linha, minha divergência é que o poder judiciário deveria ser extinto e contratada uma empresa júnior vinculada a alguma faculdade de direito de alguma universidade europeia.

segundo seguindo daquele primeiro, diz o jornal que

Será um mandato curto, mas com um objetivo bem definido: julgar o processo do mensalão. [...] Ao tomar posse ontem como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Brito não poupou referências aos últimos escândalos da esfera política.

terceiro, não achei evidência - na curta matéria - a sentença dele que permita dizer que o Mensalão será mesmo julgado. mas achei o que o jornal chama de "menções holísticas". ao mesmo tempo, não tentei achar o texto integral do discurso (esta é uma das diferenças entre os conteúdos de um blog, da investigação de um jornalista, ou a análise acadêmica). uma vez que tenho razões para supor que também faço parte de um todo, achei engraçadinhas:

.a. [...] o 'terceiro olho, o único que não é visto, mas justamente o que pode ver tudo.'

.b. [Meus pais] [s]ão ícones desta minha vida terrena e de outras que ainda terei, porquanto aprendi com eles dois que o nada não pode ser o derradeiro anfitrião de tudo.

num passado remoto, eu criara a escola do holismo parcial. agora penso: uma coisa é certa - se participo do todo e tudo se transforma então meus restos serão transformados, ou seja, nunca serão extintos. mas bate-me um friozinho na espinha: e se, mesmo participando de tudo, nem tudo se transforma? faço parte da mesma espécia que Demóstenes?, que Ayres Britto?, que Goethe, que Aristóteles, que Rorty?

DdAB
p.s.: parece que a galera não se dá conta de que o problema é o governo: devemos substituí-lo pela administração das coisas!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Mais um Juiz Aposentado por Ser Criminoso


querido diário:
há meio ano (ver aqui), falei em juízes complicados, quiproquós, aposentadorias para os criminosos. tinha um juíz numa cidade gaúcha cuja inicial é Q ou T ou alguma das 24 letras restantes do novo alfabeto da língua portuguesa que foi comprovado como 171. fez pinturas e bordados até que foi cassado. lembro de ter calculado o preço do crime para ele. foi aposentado compulsoriamente com proventos proporcionais aos vencimentos da ativa. e passou a ganhar, se não calunio, R$ 2.500 mensais.

pois não é que hoje o jornal é mais específico sobre outro crime que tem pena assemelhada? diz lá a p.3:

CASTIGO? - O Tribunal de Justiça de Pernambuco afastou, na semana passada, o juiz Adeildo Lemos de Sá Cruz, da 7a. Vara Criminal de Recife. Segundo servidores, o magistrado abusava de palavrões, ameaçava funcionários com uma arma e dava tarefas sem relação com o tribunal, como lavar seu carro. A punição: Cruz foi aposentado compulsoriamente.

pois é. digamos que seus estipêndios já estivessem na casa dos R$ 10.000 mensais (ou seja, estou usando números ridículos para atenuar minha tibieza nas quatro operações. e que ele tivesse 3 anos e meio de serviço. então iria aposentar-se com 10% do valor de sua remuneração. ou seja, R$ 1000, mais ou menos a renda per capita nacional. tenho dois pontos:

.a. eu queria que a renda básica fosse precisamente este valor! mas dizem que não tem dinheiro, pois precisam pagar os juízes, os deputados, os vereadores, os senadores, os governadores, os vice-prefeitos, os Cargos em Comissão.

.b. não acho que os governantes devam ser um eco da imprensa: apenas repercutir o que ela denuncia, pensando em ganhar alguma manchetezinha no dia seguinte. o que acho é que deveria existir alguém da sociedade civil tentando organizar o sistema legislativo do país, de sorte a acabar com este tipo de farra.

DdAB
imagem: da Wikipedia. eu pensara que o 171 era um produto brasileiro e vemo-lo no progressista estado americano de Illinois. quem diria?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Gerando Emprego e Renda


querido diário:
sempre que me dizem que tal ou qual projeto "gerará emprego e renda", digo para mim mesmo: de onde surgiu a ideologia de valorizar as regras distributivas da sociedade capitalista em que -weberianamente, não é isto?- uma classe se apropria do excedente e a outra dos ganhos deixados ao trabalho (e alguns falam em pagamento dos trabalhadores e o resto é dos residual claimants). minha resposta é: difícil de saber, o fato é que se argumenta neste sentido com frequência. eu argumento, com base na teoria que desenvolvi sobre o comportamento de seres humanos: renda é bom, emprego é mau.

ok, ok. posso fazer mediações. a mais cruel delas é a boutade atribuída à finada economista britânica, mrs. Joan Robinson: é melhor ser explorado do que não ser explorado. claro que isto é apenas válido para os casos em que "não ser explorado" significa que não se ganhará renda. mas também sempre insisto que os filhotes dos ricos e os ricos velhos não trabalham e ganham boa renda. e por que me preocupo tanto com os extremos etários dos ricos? porque minha missão é entender, sob todos os ângulos, a desigualdade na sociedade. muitas delas se devem a talentos intrínsecos aos indivíduos e muitas outras se devem apenas ao fato de terem tido sorte ou azar de nascer pobre ou rico, negro ou branco, e assim por diante. entendo que a desigualdade é um fardo e responsável pela maioria das mazelas sociais planetárias contemporâneas.

ontem no jornal que leio regularmente, falava-se em três cifras interessantes. a cidade de Santa Maria está doida para receber uma fábrica de caminhões chinesa. investimento de R$ 70 milhões e geração de 500 empregos diretos. (fiquei pensando: de repente, o filho de um futuro trabalhador me contrata para umas aulas particulares e já estou na lista dos empregos indiretos, não é mesmo?). mas aí fiquei comparando esses R$ 70 milhões com os R$ 10,23 milhões que serão repassados pelo Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura para "o desenvolvimento de novos projetos para o setor".

fiquei pensando no capitalismo (China?) mundial, no financiamento do investimento, nas prioridades especialmente do dinheiro do governo. quanto dinheiro do governo irá para este negócio de Santa Maria? e para a cachaça, digo, o vinho, sabidamente, um bem de demérito. e o caminhão? não seria melhor termos investimentos na retransportização? e concluí a sessão pensando em quem é que estabelece estas prioridades. como é que sabem que a parte que me toca deve ser-me devolvida em copos de vinho ou em transporte rodoviário? modestamente, termino balbuciando: claro que não sabem. mas acham que gerar renda e emprego é um jargão interessante de ser usado para esconder precisamente este ponto: as prioridades na alocação dos recursos públicos no Brasil são um caso de polícia. e, como tal, como falta dinheiro, não há polícia mesmo...
DdAB
imagem: aqui. é um ponto gov, né? nunca me convidaram para este tipo de "public relations".

terça-feira, 17 de abril de 2012

Não Entendo Espanhol



querido diário:
sigo lendo "Historias Fantásticas", de Adolfo Bioy Casares. Buenos Aires: La Nación, 2005 (dado, na ficha catalográfica, como Emecé). quem sabe espanhol e que Emecê e La Nación são de Buenos Aires e que, em Buenos Aires, publica-se em prioritariamente em espanhol (falo 'prioritariamente' para o caso de a presidenta de lá ainda não ter proibido outras línguas importadas, hehehe), quem sabe espanhol, repito, mesmo sem a referência bibliográfica, sabe que "Historias" é espanhol (castelhano) e "Histórias" é português (este termo com que os brasleiros designam a língua que falam). pois bem. estou lendo e não estou entendendo nada. darei dois exemplos.

na p.66, o narrador do conto (um tal A.B.C., talvez seja o próprio Bioy, não quero parecer sutil) diz:

A las diez y quarto [, Oribe] salió del hotel. Declaró que iba a caminar, para pensar en un poema que estava escribiendo. Hacía tanto frio, que eso era una loucura desmedida, aun para Oribe. No le creí; no lo contesté; lo dejé salir. Partió lúgubremente, como a cumplir un horrible compromisso. Después sali yo.

comentário: lá no Blog Bípede Pensante (link ao lado), a autora já nos falou que não há qualquer problema com a frases deste tipo. e diria que meu claudicante entendimento se deve ao fato de que não levei a sério suas aulas de lógica. Mesmo para Oribe isto era uma loucura. E daí? Ninguém disse que o narrador disse que ele não seria tão ou mais louco do que Oribe, não é mesmo? seja como for, trôpego que fiquei, não estaria disposto nem a ir até a geladeira, que me secaram também os lábios. foi um descuido do autor do conto? concluamos esta demonstração com a passagem da p.68:

Todo eso era una afectada exageración, una desagradable exageración; pero lo repito porque expressa con bastante fidelidad lo que podía sentirse al entrar en la casa.

pensei: minha única saída é, além de mostrar meu gosto literário e fazer comentários sutis ao que leio, é meter aqui também o marcador Besteirol. sem ofensas, claro, ao A.B.C., mas tampouco comprometendo a criatividade literária expressa no marcador Escritos deste Planeta 23.

DdAB
bela imagem do velho Bioy, um jovem, comparado com Borges. a visita ao site é obrigatória. para quem entende espanhol, a entrevista é encantadora.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

30 Graus ao Sul (21) : Ricardo e a indústria


querido diário:
é a fama, é a lama. Tom? ando só? Engenheiros do Hawaii? claro que, com Tom Jobim (nome de aeroporto) e os Engenheiros (nome de CD), e milhares de colegas que compartilham minhas posições, não posso dizer andar só. tenho amigos e apoiadores selecionados, sempre foi assim, desde o Grupo Escolar Rio de Janeiro, ou melhor, o Jardim da Infância Ignácio Montanha. tenho amigos de quem divirjo aqui e ali, embora saibamos ser "do bem". e tenho desafetos também escolhidos, pois não sou de compartilhar com a mediocridade/falta-de-honestidade. ainda que não cultive apontamentos sobre a "história do erro humano", nada me impede de pensar em meus próprios erros de opinião e afeto. sou carioca, sou gaúcho, sou de esquerda, sou igualitarista. gosto dos argentinos, gosto do conto "El Sur".

tenho o Sul 21 entre meus links amados. por distração no dia 9/abr/2012, não vi que terei figurado em meu próprio blog com a chamada para ler o blog lá deles. por razões que a psicanálise ajudaria a explicar, apenas ontem passeei por lá e vi alguns comentários à notícia da Folha de São Paulo já longamente comentada por aqui mesmo. é a fama, é a lama.

então, ainda emocionado, lá escrevi (e tenho guardadinhos os comentários dos que me antecederam), dois pontos:

amigos:
é a fama! primeira vez na vida que venho aqui para comentar matéria sobre mim. que digo? digo mais em meu blog, claro. mas aqui deixo registrado que há duas maneiras de mexer com os preços:
.a. get the prices right
.b. get the prices wrong.
e meu argumento é que, no Brasil, a ideologia industrializante criou um sistema de preços de tal maneira enviesada que, em menos de 10 ou 20 anos, gerou uma das piores distribuições pessoais da renda do mundo.
ligar produção e distribuição está na raiz da economia política.
DdAB

e sigo aqui. quero dizer mais, relembrando coisas em que venho pensando desde o seminário que apresentei no IPEA. as crescentes referências à causa causans. todo fenômeno terá lá sua causa. que terá sua causa, que terá sua causa, ab ovo. tenho dito que poucos economistas políticos realmente enxergam esta coisa que Chico de Oliveira em seu maravilhoso (devo reler com urgência, está na agenda) "Crítica da Razão Dualista" registra. analisando o "Milagre Brasileiro", ele conduziu-me a aprender a expressão latina cui bono. ou seja, a quem interessava o crescimento econômico verificado pela economia brasileira entre os anos de 1967 e, talvez, 1978.

por um lado, temos aquela literatura da Curva de Kuznets com que lidei pessalmente (sozinho e acompanhado). parece óbvio que o Brasil, nos cross sections mundiais, encontra-se completamente deslocado da curva. este país tem muito mais desigualdade para o nível de renda médio dos demais países assemelhados. um outlier.

em outras palavras, a relação entre crescimento e desigualdade só pode ser:

.a. inexistente
.b. paralismo
.c. simetria.

esta curva lá do velho Kuznets fala em oposição no trecho inicial e depois complentaridade. países pobres seriam desiguais e, ao enriquecerem, tornar-se-iam mais igualitários.  por contraste a esta relação inversa, cada vez há mais evidência (um fragmento ínfimo listado na bibliografia do paper lido no seminário) de que a relação é de complementaridade (i. e., a relação é direta). aprendi este tipo de percepção com o famoso paper de Fernando Fajnzylber, sobre as "caixas vazias da América Latina". argumenta o autor nascido no Chile que ninguém (em especial, os grandes Argentina, Brasil e México) alcançou o box virtuoso da combinação entre crescimento e igualdade. ou seja, houve um quadrante vazio na América Latina. e acho que até agora ele não foi preenchido. (Chile: 0,52 em 2009; Brasil, 0,51 em 2012; mas já tivemos in Brazil computados até 0,6 e mais, nos tempos da inflação). e hoje tem o famoso Wilkinson e Picket.

segundo lado: aquele negócio de "cui bono, quem se beneficia". é garantido que, quando o índice Gini aumenta entre dois anos e as curvas não se interceptam, pode-se emitir um julgamento de valor inequívoco sobre as perdas de bem-estar da sociedade em que ele foi medido. quero dizer que, com todo progresso dos últimos, digamos 60 anos, e do índice de Gini de 1960 (id est, 0,49) nunca mais ter sido alcançado, nunca retornamos a menos desigualdade do que nesse ano intermediário entre a Copa do Mundo da Suécia (Pelé) e a do Chile (Garrincha) propriamente dito. mas não é impossível que todos tenhamos melhorado. a fome, parece, desvaneceu-se desde o Primeiro Governo Lula. e parece mesmo que há sinais de melhoria geral (mas quem garante, de qualquer jeito?) curvas que não se interceptam é uma coisa e curvas estimadas que têm parâmetros bem determinadinhos é outra e ainda sempre haverá outliers aqui e ali. seja como for, eu aceito que todo mundo tenha-se beneficiado do progresso econômico brasileiro dos últimos 100 anos.

mas o problema não é este. para mim, o problema é a desigualdade, é o inferno que se vive no Brasil contemporâneo e que, em minha maneira de ver, não passa de reflexo da enorme desigualdade. por exemplo, está na minha cabeça a série de reportagens e repercussões de Zero Hora sobre o Presídio Central de Porto Alegre. que seria sociedade igualitária? é sabido que há mais pobres criminosos alojados no Central e elsewhere do que ricos. isto é desigualdade, por que o pobre deveria ser intrinsecamente mais criminoso do que o rico? mas não é apenas isto. o fato de que não há assistentes sociais, dentistas e outros cuidadores para aquela galera não apenas priva os rapazes do crime de tratamento decente (para não falar em regeneração). os responsáveis pela alocação de recursos da sociedade e, em particular, do orçamento do estado também estão negando os empregos de assistente social, de dentista, de encanador, de colchooeiro e dezenas de outros a uma negadinha que, desempregada, pode bem cair no crime, no vício ou na rua da amargura. (e, ainda pior, políticos, hehehe).

sigo no segundo lado. parece óbvio que é preciso gastar em educação. a falta de educação é, em boa medida, o que faz um país e indivíduos particulares pobres. mais educação melhora a vida de todo mundo. melhor educação torna a sociedade mais igualitária, pois -com boas condições- haverá assistentes sociais e dentistas nas escolas. e também haverá computadores e ônibus.

parece óbvio que, se o povo fosse melhor educado, ele não votaria em uma galera que hoje se encastela no poder do estado, muito Cargo em Comissão e muita Roubalheira. e qual a causa de existir um povo ser mal-educado? claro que é falta de prioridade à educação. e a causa da causa da causa da causa? parece que tem a ver com este debate novamente em voga no Brasil de que é dever do estado viabilizar o capitalismo brasileiro.

ainda sigo no segundo lado. parece óbvio que isto é verdade, mas aí é que entro com este negócio de causa última (e sabemos que sempre será a penúltima, até o Big Bang, que também será lá a penúltima com relação a algo que ainda não é bem identificado). parece que a única maneira de mexer com este círculo de horrores é a mudança na forma com que os defensores das políticas públicas veem o que é realmente importante:

.a. é promover a indústria de computadores para ter computadores na escola?
.b. é promover a escola para ter indústria de computadores?

DdAB
p.s.: resposta certa do Planeta 23: .b.
p.s.s.: e que David Ricardo tem a ver com isto? tudo a ver. ver as postagens de Oskar Lange de umas semanas atrás. existirá uma ciência que estuda a distribuição dos frutos do trabalho coletivo. esta ciência permitiu-nos saber que existe esta relação entre preços e distribuição da renda. no caso do Brasil, é evidente que a renda é concentrada. ergo é evidente que os preços são distorcidos. e quem os distorce? o maior responsável (e está longe de ser único) é a política do governo e sua acompanhante ladroagem.
p.s.s.s.: suco: o suco é que os economistas ajudam a preservar a ideologia de que é importante fazer o computador para dá-lo à escola. e devemos tentar mudá-la (los) para entender que, ao gastar na escola, mexe-se também na produção de computadores, mas principalmente, na de assistentes sociais e zeladores, de professorinhas e motoristas (que, de qualquer jeito, acabarão por comprar computadores para seus pimpolhos). e computadores podem ser importados, ao passo que as professorinhas devem ser made in Brazil. e qual a tarefa dos amigos do povo? tentar mudar esta ideologia.

domingo, 15 de abril de 2012

Vésper Desponta


querido diário:
é cedo, mas é certo que Vésper despontará, afinal há regularidades mundanas capturadas por meus sentidos. tenho uma pergunta para humanos e bichos, mas tenho a certeza de que, se alguém responder, será o prof. Conrado. tudo começou num versinho que me veio à cabeça:

abrem-se flores, Vésper desponta, cantam os anjos ave Maria. 

o que é isto? depois de rápida pesquisa no Google, vi pilhas de referências: poema de Fagundes Varela, progressista município do RGS. o que essa galera, mistura de gringo com autóctones, têm a ver com o poeta de Rio Claro?

mas daí fiz as seguintes e importantes ponderações (em rimas) ao refinado professor Conrado:

.a. vespertino é de manhã? as flores abrem-se de manhã, mas Vênus nasce à tardinha; e

.b. já que estamos no assunto: estival é um adjetivo para verão.  e veranil? e outono é outonal?, inverno é hibernal? e primavera é primaveril?

foi este o cerne do teor da mensagem. depois de lê-la, pensei que, se me fosse dado um CC para refazer o afamado poema, eu reescreveria este/s verso/s como "no convento, era uma cheirosa tarde primaveril". pode? da mensagem  conradiana editei algumas coisinhas. respondeu o preclaro professor [que, gentilíssimo, tomou a liberdade de não dar bola para minhas vírgulas e ce-cedírgulas]:

"abrem-se as flores, Vésper desponta, cantam os anjos ave Maria"

As flores, de fato, se abrem de manhã, mas é possível pensar que também se abram quando chega a primavera, não? Ora, se isso é verdade, pouco nos importará a hora do dia. Resgatamos, assim, a verossimilhança do poema.

Vespertino vem de vésper (lat. Vesper = Vênus). Ora, esse planeta, que a olho nu parece uma estrela (tanto que lhe chamamos também "estrela da tarde") se mostra à tardinha. Daí dizermos 'vespertino" ou "vesperal" para mencionar o que se dá à tarde. Também "véspera(s)" tem essa origem, embora, por alguma razão, seu sentido mais conhecido se refira àquilo que se realiza no dia anterior ou nos dias anteriores a certo dia de referência.

Para verão os adjetivos são "estival" e "estivo"; para outono, "outonal", "autunal" e "outoniço"; para inverno, "hibernal", "hibernoso", "hiemal", "invernoso".

 e que direi eu? que muito aprendo com ele! que ele tem um dos poucos marcadores de meu blog.
DdAB
p.s. e como melhor ilustrar esta aula? com a imagem capturada em abcz. e que diria ele deste "melhor ilustrar". uma colega dele diz que o adjetivo melhor não tem o direito legal de modificar o verbo ilustrar, pois quem modifica verbo é advérbio. diria? ela não diria que melhor é, neste caso, advérbio, como parece que -diz ela- seu irmão encontrou algo na linha de "melhor cheirar" no Próprio Machado de Assis.

p.s.s. e que tem a ver prato de verduras com o prof. Conrado? tem que, na condição de abstêmio, ele pode cometer as maiores loucuras, inclusive fornindo-se de verdes mares, digo, o Rio Guaíba está tomado por algas, esverdeando-o. mas, no caso, seriam apenas verdes saladas, pois verdes mares leva a confusão com Castro Alves (o nome, obviamente, de um município, pois com cinco mil municípios e milhares de vereadores, não haverá poeta que fique sem sua homenagem). não era ele?

p.s.s.s. e de onde tirei que há gringos em Fagundes Varela? o sr. Aurelião diz que 'gringo' vem do espanhol 'griego'. eu ouvira dizer que vem dos mexicanos xingando os americanos: 'green go' [green uniforms: go back home, you expropriative devils!]. mas, para nós, abitantes do Rio Grande do Sul, homens com o agá que faltou acolá, quer dizer 'italiano' ou 'de origem'. tão estranhos são os gaúchos que 'vesperal', no município de Clark Gable, oslt, já designou sessão matutina de cinema. de sua parte, o Uébster -que, se não é melhor do que o Aurelião, sê-lo-á muito mais grosso- não chega até o grego, e não reluta em dizer que é uma burundanga originária do espanhol. ok, ok, ele não fala em burundanga, o que me veio do Leonel Vallandro (Editora do Globo, 1954). de sua parte, para burundanga, o Aurelião fala em palavreado confuso; algaravia, mistura de coisas imprestáveis; mixórdia; confusão, embrulhada, trapalhada; cozinhado malfeito, ou sujo e repugnante. e até mezinhas empregadas na feitiçaria.