domingo, 31 de julho de 2011

Preconceito Caligráfico

querido blog:
depois daqueles dias difíceis em que parecia que o Brasil viria abaixo por causa daquele endiabrado livro que recomendava uma lavagem ideológica em quem escreve corretamente (olha, que nem disse, acompanhando Machado de Assis, "quem escreve correto"), chegou a hora de mudarmos o foco. parece que para cada imbecilidade que alguém articula, seguem-se milhões de imbecis que acham que aquela sim é que será -diria a plebe rude- a salvação da lavoura.

pois agora começa-se a dizer que os tempos modernos vão prescindir de que as crianças aprendam a escrever, pois o computador escreverá por elas. ou seja, que a caligrafia está condenada aos infernos, ao lado das bengalas e charretes. só falta, agora, milhões de abobados começarem a dizer que, realmente, nunca mais, desde primeiro de janeiro de 2000, usamos bengalas ou andamos de charretes. haverá bengalas per omina secula e charretes idem. o que provavelmente poderá deixar de existir serão pessoas que necessitarão ser amparadas por bengalas, pois a medicina permitirá qualquer cego voar, que não dizer de andar sem bengalas. e andar com ou sem charretes, charretes por diversão e as charriots of fire que, parece, andariam nos espaços siderais.

claro que o livro de papel está com seus dias contados. claro que a digitação em teclados de computador e seus sucedâneos, nem todos devidamente catalogados em 2011, está com seus dedos contados. e claro que todo mundo precisará de seus 10 dedos para fazer milhares de coisas, inclusive, digitar e escrever. lembro-me dos velhos cursos de educação à distância (ensino por correspondência do Instituto Universal Brasileiro): quem escreve pode desenhar.

pois bem, na sociedade do futuro, todos seremos esportistas e artistas, além -como informei ontem- cientistas. artistas? claro, também seremos músicos, também deveremos saber escrever não apenas letras, mas também notas musicais. claro que deveremos ter uma caligrafia decente, claro que hoje o preconceito caligráfico é mesmo em primeiro lugar contra os analfabetos, a afasia gráfica. em segundo lugar, há preconceito caligráfico contra os produtores de garranchos. ainda assim, podemos ver, pelos garranchos, quem é culto e quem não é: nem todo garrancho é de quem mal sabe empunhar um lápis (objeto efêmero) ou sucedâneo (inimaginável por enquanto). tem que educar a letra da mesma forma que tem que educar o desenho e a grafia das notas musicais. tem que acabar com a desigualdade neste tipo de talento que, hoje, está mais próximo dos filhos dos ricos do que dos filhos dos pobres. tem que acabar com os pobres. tem que dar-lhes um chá de dinheiro!

então parece óbvio (como li no Asterix no Egito): quem desenha pode escrever!!!
DdAB

sábado, 30 de julho de 2011

Proibição de Empregos

querido blog:
ontem, falei que tem gente que pensa que um bom imposto sobre a exportação de bens ou serviços é o canal. e tem gente que acha que essa gente é maluca. mas também tem gente que não gosta que os outros trabalhem. ou melhor, eu simpatizo com a ideia do lazer absoluto, com a renda básica que permita ao indivíduo escolher o ócio (?) por toda sua vida. e que o mercado de trabalho atraia pessoas altamente motivadas, detentoras de enormes habilidades que lhes garanta enorme produtividade. os Midas modernos, os midas do amanhã.

e tem gente que não gosta que os outros trabalhem aos domingos. e tem gente que, obrigada a trabalhar no domingo, se queixa. e tem gente que adoraria trabalhar nos finais de semana, por exemplo, estudantes que poderiam, assim, dedicar-se em tempo integral à faina escolar. este negócio de ficar proibindo o trabalho em dias dá dor de cabeça. a mim, deu em Paris, que naquele tempo não abria os supermercados às segundas-feiras de manhã. então fui levado a comprar das lojinhas de marroquinos e paquistaneses. nada contra as etnias, mas contra os preços de prêmio que eles cobram precisamente para abrir suas lojas em momentos de fechamento dos supermercados. lucros extraordinários baseados em barreira legal.

e tem a questão da confusão entre emprego e renda. é evidente que ninguém precisa estar empregado para receber rendimentos. sempre gosto de exemplificar com os filhos dos casais ricos e os pais deles mesmos... filho não trabalha, não é mesmo? nem bisavô de rico, não é mesmo? e haverá emprego no futuro? acho que apenas de cientista, algo assim, fora os de esportistas e artistas. e todos contemplando as estrelas!
DdAB

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Mesoeconomia: primeira aplicação

querido diário:
se tu abrires a p.131 do livro:


BÊRN I, Duilio de Avila & LAUTERT, Vladimir (2011) MESOECONOMIA: lições de contabilidade social; a mensuração do esforço produtivo da sociedade. Porto Alegre: Bookman.
propagandeado no site: http://www.grupoa.com.br/site/exatas-sociais-e-aplicadas/2/96/0/4853/4854/0/mesoeconomia-licoes-de-contabilidade-social.aspx.

e com a seguinte postagem por aqui:


e depois, no dia 09/julho/2011:

então chegarás à 

Tabela 4.4 - Matriz de contabilidade social de seis blocos e 11 contas. Lizarb, ano I (bilhões de laeres).

enigmática para alguns e perfeitamente aceitável para quem já acompanhou o Prefácio e principalmente o capítulo 3 (Dimensões) do consagrado livro. o capítulo 4 (MaCS e MIP), como sabemos, além do Vlado e de mim, tem a principal autoria em Eduardo Grijó, coadjuvado também por Vania Alberton e Ubaldino Conceição. sem entrar em maiores detalhes sobre os enigmas, posso dizer que "Lizarb" nada mais é do que o Brasil, cujo "z' foi retirado do nome da república pelos gramáticos do Dr. Getúlio Vargas, metidos a comandar a vida civil. mas as cifras não são 100% brasileiras, embora tenham enormes parecenças com o ano de 2002, e saíram da dissertação de mestrado de Eduardo Grijó.

segue-se necessariamente que decidi fazer um exerciozinho com ela, para dar uma mostra de quão absurdas são as políticas públicas brasileiras, embaladas na mais absoluta incompreesão do funcionamento de uma economia. lógico que os responsáveis pelo irresponsável pensar dos governantes são os próprios economistas. por macabro que seja, os economistas são formados com os currículos universitários estabelecidos pelos próprios governantes. ou seja, uns formam os outros que levarão os primeiros a erros grotescos. por exemplo, um economista que defende um imposto indireto sobre alguma coisa que não é bem de demérito está jogando a favor das hostes da desigualdade. o clube dos igualitaristas tem uma campanha: imposto? vi: vá direto!

refiro-me, por exemplo, ao fato de que o leite de soja gaúcho paga um ICMS de 25%, como diz às folhas tantas, a Zero Hora de hoje. pois bem, peguei a MaCS acima referida e vi que naquele Lizarb daquele ano, os impostos indiretos líquidos de subsídios responde por 12% do valor adicionado (ou seja, produto, renda ou despesa têm 12% comprometidos com os II-Su, que entram na mensuração do produto interno bruto a preços de consumidor, quando mensurado pela ótica do produto).

além disto, a receita do governo conta com mais 10% de impostos diretos, das mais variadas naturezas. lembremos que estamos em Lizarb, a terra da iniquidade. pois fiz um exercício contrafactual: acabamos com os impostos indiretos e com os subsídios, ou seja, com os tributos que são distorcivos sobre o sistema de preços da economia, impostos que forçam certa alocação de recursos, a qual altera os coeficientes de insumo-produto. lá na p.150, vemos a equação de preços do modelo, em sua forma elementar:
p = v^T x B,
onde p é o vetor de preços que, no caso, tem três elementos (agropecuária, indústria e serviços)), v^T é o vetor (em forma de linha) dos coeficientes de insumos primários por unidade de valor da produção e B é a matriz inversa de Leontief. (lá no livro, tá tudo explicadinho, tintim por tintim).

pois bem. se todos os impostos indiretos líquidos de subsídios fosem exterminados, talvez até nem fosse legal, pois não se pagaria imposto sobre o consumo de cigarro ou de cachaça. e o governo central, que -na Tabela 4.4 já tem um déficitzinho, aumentá-lo-ia, a menos que elevasse os impostos diretos. claro que estes não distorcem o sistema de preços.

então: acaba com os II-Su e tem uma queda nos preços setoriais de [0,9363 0,8719 0,9108], o que oferece um deflator impícito do PIB de 0,8937, ou seja, uma queda de preços com relação à situação original de quase 11%.

DdAB
ops: quer ouvir "Al di là"? e ver a fonte dos copos de leite acima? clica aqui. só que, pelo que entendo, é em uma língua estranha. acho que não é indo-européia (finlandês ou húngaro...)...

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Férias Remuneradas: as dos juízes são tribém

querido blog:
na p.6 de Zero Hora de hoje tem uma notinha mancheteada com: "Juízes defendem férias de 60 dias". comecei a pensar: enfim, um exemplo de altruísmo da parte daquela macacada, que ganha R$ 30 mil mensais e -rimei- quer mais! ledo engano, quase rima paupérrima: era férias para eles themselves. A Associação dos Juízes Federais do Brasil diz que a questão de ganharem o mesmo e trabalharem mais (335 dias por ano, exceto os feriados), como os demais mortais, "foi posta de uma maneira por demais simplista e destoante como o que pensa a ampla maioria dos juízes brasileiros." e isto que nem apitam jogos de futebol!

estamento: ou muito me engano ou este é um dos estamentos mais prejudiciais à condução do Brasil à pré-contemplação perfunctória da sociedade igualitária. quer servir o povo, meu chapa? então vai ser juiz de futebol, que "juiz de direito" tá casca grossa.
DdAB
a imagem veio daqui e não tem nada ver com o tema, não é, meu?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Aeroporto de Porto Alegre Congestionado: é gestionado?

querido blog:
dias atrás um ente querido (não confundir com uma anta querida...) ficou preso fora do avião que deveria levá-lo ao espaço sublunar próximo, permitir-lhe sair do avião em outras coordenadas e seguir seu curso normal de vida. ficando preso fora do avião, não viajou. ficou preso no aeroporto, não viajou. nem viajou na maionaise ao, desconsolado, dizer-me que achava que por um punhadinho de dólares, dispor-se-ia a deixar a chave de seu carro em mãos hábeis que avocariam a si o problema do estacionamento. como em milhares de lugares por este Brasil afora, que o negócio de flanelinhas oficiais tornou-se big business. mas não no Aeroporto de Porto Alegre.

pois não é que ficou claro? a anta querida não é tão querida, mas até mais anta do que os di ante iros de burros. o que me traz a postar como economia política é uma espécie de vocação congênita da brasilidade para pensar em soluções não igualitárias, pretensamente "de esquerda". no caso, o caso é o seguinte. se o preço do estacionamento no aeroporto de Porto Alegre fosse elevado substancialmente, teríamos racionamento por preço, a melhor forma de racionar já inventada para conviver na sociedade justa. (bens públicos e de mérito devem receber tratamento especial, é óbvio). (principalmente porque John Rawls fala em uma distribuição inicial que garanta o acesso a uma cesta de consumo básica).

como? lucros escorchantes? que fazer com a receita polpuda dados os lucros extraordinários que a escassez de espaço de estacionamento provocaria? muito simples: cobra imposto de renda da pessoa jurídica sobre tal montante de $$$. para tristeza geral, porém, é mais fácil de identificar este montante do que cobrar imposto de renda, expressão tida por perigosa pela macacada da direita e pela da esquerda. asnos e burros?

e que fazer com os coitadinhos dos rapazes que seguirem levando suas viaturas ao aeroporto? cobrar, claro. o preço raciona de forma impessoal. e que fazer com os que não estão dispostos a pagar? dá-lhe ônibus em maior quantidade ("executivos"), maior facilidade, baixa o preço do táxi em corridas para e de lá, essas coisas.

e qual é a solução que os governantes estão pensando em aplicar? fazer um edifício que custará -diz a p.24 de Zero Hora- R$ 50 milhões. supondo que não haja corrupção (ou até supondo corrupção, não importa), este é um dinheirinho que poderia criar pilhas de empregos, digamos, 1.000 manobristas, ganhando R$ 1.000 cada por 50 meses, não é? e nestes 50 meses, se fossem 10 mil carros por dia, cobrando R$ 32 de cada um, já faria novamente este fundo de R$ 50 milhões, todo mundo feliz, a sociedade mais igualitária. todo mundo feliz? claro que os políticos ficar-se-iam roendo de ciúme.
DdAB
pois esta imagem parece refletir o que ocorre em todos os horários de pico no afamado aeroporto.

terça-feira, 26 de julho de 2011

E Se Fosse Sociedade Igualitária?

querido diário:
decidi fazer uma reflexão sobre dois dramas que avassalaram a parte do mundo que meu jornal cobre. na verdade, avancei sobre outro jornal, que tem duas fotos chocantíssimas da ainda viva Amy Whinehouse. na primeira, braços nus, ela aparece até com certo sobrepeso, se o papel permite dizer isto. na segunda, vê-se um palito decadente, os braços cheios de tatuagens esdrúxulas e outras mais convencionais. a figura absolutamente insofismável da decadência humana.

o contraste desta postura física da agora finada Amy é marcante com o do norueguês Anders Behring Breivik, sabe-se lá como pronunciar. ele até dá uns ares de Bruce Willis, um olhar ferino, carregado dentro de um -sei lá- camburão. ao invés de matar-se antes, durante e no imediato assassinato de quase 100 pessoas, ele se mantém vivo, tentando transmitir sua mensagem delirante ao mundo.

quando vi estas duas tragédias, uma auto-inflingida e a outra perpetrada contra jovens inocentes, fiquei pensando que minha constante recorrência aos países nórdicos como exemplos de vida pacífica precisava de qualificações. começo dizendo que a desigualdade no Brasil é tanta que a maior parte dos crimes que por aqui ocorrem (inclusive uma tragédia de igual qualidade, mas -felizmente- menor quantidade, do Rio de Janeiro). não vacilei em atribuir o assassinato de crianças pelo sr. Wellington ao descaso com sua pessoa, respeito humano para com um desvalido, por parte do governo carioca. pareceu-me, na ocasião, que o rapaz pedia ajuda, desesperado, o que o levou a gradativamente perder o juízo. houvesse -argumentava eu- mais atenção, mais cuidados básicos de saúde, ele teria sido resgatado em tempo de não infernizar a vida de  ninguém (nem a sua) e, menos ainda, destruir vidinhas.

acredito que a tragédia pessoal de Amy Whinehouse tenha a ver com a desigualdade. no caso, uma visão perversa e aviso de alerta, pois -no caso- "os ricos" é que se auto-inflingiram uma derrota. não sei se não é impossível pensarmos que, houvesse lá no Reino Unido, os mesmos cuidados básicos de saúde que estou reclamando para o Rio de Janeiro, talvez até aqueles que foram cortados nos últimos 20 ou 30 anos pela virada neoliberal tatcherita, os impulsos autodestrutivos da garota poderiam ter sido não apenas diagnosticados, mas recebido um tratamento compatível.

por contraste, de tudo o que li sobre psicologia e discuti com especialistas amigos, comecei a classificar o mal do mundo como de responsabilidade de dois tipos: os psicopatas e os narcisistas. não sou hábil o suficiente para enquadrar o norueguês num caso ou no outro (e quem sabe, a classificação é tripartite?). mas digo, com pesar, que mesmo na sociedade igualitária (lá a deles ou até em situações ainda mais igualitárias), haverá espaço para a loucura individual.

haverá espaço para fugas da normalidade, para a vivência do inferno na Terra. são bilhões de pessoas, nem todas geradas em condições normais de temperatura e pressão. o que de trágico há na perspectiva de ocorrência de futuros eventos como esta tristeza nórdica é que a sociedade não se dispõe a abrir mão de tanta liberdade que garantisse a repressão a todos os crimes. a natureza humana contempla este tipo de possibilidade malévola. a saída, o nirvana está em mudá-la: gerações e gerações convivendo com a abundância poderão gerar o homem novo, o homem selecionado para viver em paz com seus irmãos e com as estrelas.

DdAB
ops: a imagem de hoje não precisa dizer de onde veio, não é mesmo?

domingo, 24 de julho de 2011

Clara intenção com mau prospecto

querido blog:
não sei se por incúria de Noreena Hertz ou meu desleixo, não lembrava de seu nome. não posso dizer o mesmo de Naomi Klein, de quem andei ouvindo/lendo há poucos dias e que, na Wikipedia tem uma daquelas carinhas de desalento que caracterizou a personagem Sara no esfuzilante filme "De Volta ao Futuro", ou outro daqueles negócios do Schwartzeneger. dizem no site de Hertz que ela é mais centro-esquerda do que Klein. e na p.12 de Zero Hora de hoje, nos Artigos, o jornalista e publicitário Alfredo Fedrizzi escreveu um artigo sobre Hertz: "Uma nova forma de capitalismo". já fiquei de orelha em pé.

desde que comecei a prezar mais a liberdade do que qualquer outro atributo humano e vê-la contemplada de maneira avassaladora na definição de John Rawls de sociedade justa (o primeiro item avassalador: todos terão direito à maior liberdade compatível com a dos demais). desde que comecei realmente processar o que queriam dizer os desmandos da União Soviética (e os de hoje nos países remanescentes daquele tipo de projeto de engenharia social). desde que, em resumo, comecei a contestar este tipo de abordagem para os problemas de escolha social, passei a indagar-me se sou de direita, centro ou esquerda. no outro dia, citei Agostinho Neto, que achava estar ocupando a posição correta, por ser acusado de esquerdista pela direita e de direitista pela esquerda. muito engenhoso.

em certa medida, também, perdi a esperança de ter uma qualificação adequada. não apenas nesta seara política, mas sobretudo na apreensão que faço da melhor ciência econômica. prezo a concepção de uma tríade: mercado-estado-comunidade. e prezo a noção (não necessariamente importante) de que o estado deve encarregar-se da provisão e praticamente nada da produção de bens públicos e de mérito. e desprezo a noção do "estado produtor". [parênteses acolchetados: não nego, pode-se entender, a importância das políticas públicas, que poderiam ser retiradas pela via da democracia parlamentar ou da democracia direta]. prisões? que tal cadeias para quatro-cinco indivíduos, dando emprego para outros dois ou três? julgamentos? que tal cortes de arbitragem administradas por cidadãos de reputação ilibada? desvios agatunados? que tal internamento dos doentes em pequenos hospitais? isto seria política pública. e nada impediria que o "setor privado" fizesse enormes prisões, qualificando-se para hospedar o povo agatunado, em resposta a requisitos sociais diversos dos da promoção da sociedade igualitária? exércitos? polícia? que tal contratar a moçada que poderia dedicar-se a este trabalho durante três horas diárias, dedicando mais três para sua cultura física e outras três para o cultivo da mente?

e se a mega-prisão e a mega empresa produtora de macarrão ou caminhão der lucros extraordinários (definidos como os lucros empilhados acima dos sinalizados pelo custo de oportunidade socialmente determinado)? cobra imposto de renda! e se o sucessor do dr. Pitangui ou do sr. Ronaldinho tiverem rendimentos invejáveis (epa, o modelo também resiste à cláusula "sem inveja")? tasca imposto de renda. aquela democracia (direta ou representativa) pode determinar os limites das alíquotas, dependendo de seu grau de aversão à desigualdade.

tudo isto poderia ser chamado de "uma nova forma de capitalismo". e até acho que com mais propriedade do que aquele negócio que Fedrizzi atribui a Hertz. diz lá ele:

Ela diz que existem condições para uma nova forma de capitalismo, o coop-capitalismo, que escolheu valores como a cooperação, colaboração e coordenação, onde o individualismo desenfreado vai ficando para trás."

e ele diz outras coisas que ajudam-me a alegar não ter gostado nem do artigo dele nem deste tipo de brincadeira de mudar o nome das coisas, pensando em, com isto, mudar o mundo. este negócio de coop-capitalismo é tão estapafúrdio quanto chamar a China de socialista ou de capitalista liberal. a verdade verídica é que as expressões capitalismo cooperativo, capitalismo liberal, capitalismo estatal, capitalismo explorador, capitalismo do norte da Europa, capitalismo sindical, ou o que venhamos a inventar tem no substantivo a palavra "capitalismo". como tal, ele tem sua lei fundalental, sua lei necessária absoluta, o substantivo "concorrência". no dia em que acabar a concorrência como traço fundamental, babaus!, acabou é o capitalismo.

por um lado, tenho feito a piadinha de que o capitalismo acabou há mais de 15 dias, o que -como posso renová-la ad nauseam- permite-me ir repetindo-a ad infinitum. por outro lado, é óbvio que uma formação econômico-social não é algo de que se possa fotografar o dia da mudança. a ânsia de marcarmos nossa presença é que leva a querermos mudar o nome das coisas. por exemplo, um desastrado governante passou a chamar o BNDE de BNDES, outro forçou-nos a dizer CIC, proibindo o CPF, um terceiro mudou -este foi sutilíssimo- Petrobrás para Petrobras. são loucos, deviam ser internados.

mais modestamente, proponho que sigamos chamando de capitalismo este negócio que vemos funcionar, lá fora, com razoável eficiência, sujeito a crises sistemáticas, que a teoria econômica tem ajudado a debelar, com tendência a incidir em custos sociais menores. e que façamos reformas no lado que precisa:
.a. a transformação do governo dos homens na administração das coisas
.b. a provisão de bens públicos e meritórios para a sociedade, para sua articulação econômica, para -portanto- seus agentes (os entes que agem) que assumem a posição de produtores (e,g., pontes, estradas, um banco dos bancos, uma agência reguladora terceirizada da sonegação fiscal e outras agências reguladoras das agências reguladoras, e por aí vai), fatores de produção (eg., escolas, hospitais, museus, clubes, e por aí vai) e instituições (aumentar a receita dos pobres, reduzir a dos ricos)
.c. adoção em todos os níveis de orçamentação universal: receita via impostos  progressivos/diretos e despesa via gastos regressivos.

DdAB
imagem: de onde me veio este claro enigma, ou seja, CDA?

sábado, 23 de julho de 2011

Mais Problemas: agora é o da honestidade

querido blog:
quando chegou a hora de elegerem o novo presidente da república, os militares -dizem- deram algumas instruções a um programa de computador, a fim de ele escanear em seus arquivos um general honesto, patriota, essas coisas. dizk o computador, atarantado, não conseguiu nada interessante, mas veio com o nome "Ernesto". claro que associaram com Geisel, que -segundo Veja- caracterizou-se por um comando firme. o analista do computador indagou-lhe a motivação para indicar o General Ernesto Geisel e o computador disse tratar-se da maior aproximação possível dos requisitos -honesto, patriota, quatro estrelas, aquelas coisas: ernesto. assim seguiu a república. o Gini subindo e o PIB também. e muitos seguiram esperando a reversão do crescimento rastejante e da desigualdade flamejante.

nos dias que correm, salta aos olhos o descaramento generalizado da classe política e seus acólitos que acham nada haver de mais natural do que a roubalheira. esse negócio da prisidenta Dilma querer a moralidade, para salvar -pelo menos- a Copa do Mundo está pegando tri-mal. até o estulto (isto é ofensa?) governador Tarso Genro, especializado em ratas, anda defendendo um dirigente associado com o ministério cercado por ladrões. nem acho que valha a pena ir no jornal buscar os nomes. o que talvez seja necessário é mudar alguma coisa dos estatutos do MAL* (o movimento pela anistia aos ladrões estrela). ou seja, talvez possamos começar a lidar com alguma restrição à impunidade absoluta que, pelo que vemos, é mesmo um anseio generalizado da classe política. esta sim, voltada ao mal. em outras palavras, o mal substantivo confronta o MAL* sigla. mas, por apriximação, sem clamar pela volta dos militares, podemos chegar ao país honesto.

DdAB
esta imagem é de cá. não sei bem se a Veja é lá de 1977, algo assim. naquele ano, quando começaram as greves que culminaram por levar ao Governo Dilma (ou seja, a sagração de Lula como líder sindical), houve conjunção: boa política com bom futebol. o Coríntia foi campeão e as greves mostraram que havia ainda vida no corpo da política.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Hiperbolóides transcendentais


querido diário:
achei que todos poderíamos beneficiar-nos em ter para consulta imediata. trata-se de uma lição de matemática aplicada à economia do desenvolvimento: qual a taxa de juros que faz com que um montante qualquer dobre em 10 anos. trata-se de uma equação complexa:

Cn = C1 x (1 + i)^n,

ou o PIB do ano final é igual ao PIB do ano inicial multiplicado por um fator de capitalização, i é a taxa de juros e n é o número de períodos. uma vez que C1 e Cn são fixados em 2 (isto é os 100 originais e mais 100 de crescimento divididos por 100), nossa equação requer pares ordenados de i e n. aqui estão eles:

i n
0,0600   11,8960
0,0700   10,2450
0,0710   10,1050
0,0720   9,9700
0,0730   9,8380
0,0740   9,7090
0,0750   9,5840
0,0760   9,4630
0,0770   9,3440
0,0780   9,2290
0,0790   9,1160
0,0800   9,0060
0,0800   9,0060
0,0900   8,0430




quer dobrar em 12 anos? cresça a 6% ao ano. quer dobrar em 10? cresça a 7,2% a.a. quer dobrar em sete? não seja chinês, não é?

DdAB
imagem da bonança segundo o gospelnews or whatever: aqui.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Filmes Legendados e a Guerra Civil Brasileira Contemporânea

querido diário:
dizk, no Brasil, 56% das pessoas preferem filmes dublados, pois ouvir as personagens falarem uma língua estrangeira e ter que ler a traduç~´ao nas legendas é um suplício maior do que o que o afamado Prometeu acorrentado submeteu o pobre abutre: condenou-o a uma desagradável tarefa por todos os tempos. aliás, a maioria, não iria ler o que acabo de digitar, não sabe o que é "prometeu acorrentado" e promete seguir sem saber. a maioria, dizem a capa e as p.4-5 do Segundo Caderno de ZH de hoje, atribui-se "ao maior acesso da classe C à TV por assinatura". chegamos lá: culpa dos presidentes FHC e Lula, que impediram o PIB de crescer mais de 56%$ em seus governos e que não entenderam que o Brasil tá na guerra civil. e que soldado civilizado tem que ser alfabetizado. é o momento azado ou esarei errado?
DdAB

p.s.: será que entendi bem? procurei "classe C" no Google e recebi esta vista interior: aqui. parece que este luxurious vehicle não tem muito a ver com a classe C.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Bordieu: Escolha Racional x Escolha Condicionada

querido diário:
mexe que remexe (isto é, mexe daqui, remexe dali) e cheguei no verbete de Pierre Bordieu na Wikipedia.  eu até andava achando que ele era um prosélito da teoria da escolha racional, mas nunca o estudei, ainda que o tenha visto citado em meu amado Bowles (Microeconomics; behavior, institutions, evolution). por puro azar, ou melhor, falta de tempo, deixarei tudo no original.

sobre a eterna questão da relação entre crenças e desejos e, ao que me parece, também da relação entre traços genéticos humanos e a vida societária, Boudon parece-me chegar a algumas ideias interessantes.

primeiro:

[Taste] functions as a sort of social orientation, a ‘sense of one’s place,’ guiding the occupants of a given…social space towards the social positions adjusted to their properties, and towards the practices or goods which befit the occupants of that position.” Thus, different modes of acquisition yield differences in the nature of preferences.

ou seja, começa pegando pesado sobre questões relevantes de nossa vida: somos o que somos porque nos induziram a assim sê-lo. e será que eu não queria que meus bisnetos sejam diferentes? não poderia induzi-los a sê-lo? será que eu quero que meus bisnetos só falem de futebol e pagode? que posso fazer para evitá-lo? ok, mas será que quero que o filho da filha do zelador do edifício ao lado do meu também fale em pagode e futebol? que posso fazer para ajudá-lo a educar seu espírito e pensar mais em, digamos, tênis (jogado por ele) e Beethoven? eu me sinto preso a certas restrições a minhas liberdades, que não dizer de minha ideologia, especialmente, minha conformidade com a fração do excedente que me foi dado consumir. quando comparo meu padrão de consumo com aquele de outras pessoas, indago-me se não podemos melhorá-lo e, simultaneamente, melhorar o de todos? e qual seria o padrão de consumo adequado para descrever uma sociedade rica e igualitária do início do terceiro milênio? por que acho que o conceito de sociedade justa de John Rawls e o instituto da renda básica universl são os canais condutores de uma vida mais exitosa?

e mais:

Bourdieu himself believes class distinction and preferences are “most marked in the ordinary choices of everyday existence, such as furniture, clothing, or cooking, which are particularly revealing of deep-rooted and long-standing dispositions because, lying outside the scope of the educational system, they have to be confronted, as it were, by naked taste.”

tá vendo? somos treinados para sermos do jeito que somos e, aparentemente, nossa única saída é a educação. e uma educação que não hierarquize os indivíduos pela sua marca de nascença. como fazer isto? já andei postando. as melhores escolas encontram-se mais próximas das casas dos ricos. é óbvio que professor prefere lecionar a pessoas cheirosas e o melhor professor ganhará as melhores escolas. pois isto deve ser destruído: os professores e as escolas devem ser distribuídos aleatoriamente. e mais: os alunos também deverão deslocar-se para ter aulas em outros ambientes, que não os exclusivos da proximidade de suas casas. a educação tem que revolucionar o mundo, desde que o mundo a revolucione. e estou falando em revolução em dois sentidos: o sentido das pessoas de boa vontade que a revolucionarão e o sentido das reformas democráticas que conduzirão ao socialismo (e depois, muito depois, vamos tentar definir esta joça).


e ainda outra:
Pierre Bourdieu developed a theory of the action, around the concept of habitus, which exerted a considerable influence in the social sciences. This theory seeks to show that social agents develop strategies which are adapted to the needs of the social worlds that they inhabit. These strategies are unconscious and act on the level of a bodily logic.
ok, ok. mudo um pouco de assunto. falo de formalização. claro que esta sentença: "os agentes sociais desenvolvem estratégias adaptadas às necessidades do mundo social que habitam". claro que isto pode ser testado, com alguns cuidados. iniciamos formalizando: E = f(N), onde E são as estratégicas e N são as necessidades: as necessidades explicam as estratégias. falta apenas mensurar uma e outra. talvez acrescentar mais variáveis explicativas, essas coisas com que os teóricos devem preocupar-se. agora, já é interessante recebermos algumas dicas lá dele sobre o rumo que devemos dar a nossas preocupações. no caso, explicar a mudança social.

segue o monsieur:
Symbolic violence is fundamentally the imposition of categories of thought and perception upon dominated social agents who then take the social order to be just. It is the incorporation of unconscious structures that tend to perpetuate the structures of action of the dominant. The dominated then take their position to be "right." Symbolic violence is in some senses much more powerful than physical violence in that it is embedded in the very modes of action and structures of cognition of individuals, and imposes the specter of legitimacy of the social order.

e meu maior medo é já ter sucumbido há muito tempo à violência simbólica e estar escrevendo coisas que seriam inevitáveis. ou melhor, que as coisas que inevitavelmente tenho escrito podem ter sido ditadas por meia dúzia de pedaços de polenta que andei ingerindo lá nos tempos em que morávamos em Bento Gonçalves (cujo nome foi cambiado por um abobado de Cruzinha para Colônia Dona Isabel e nem sei mais o quê, culminando com o nome do belicoso general farroupilha. eu fora da guerra. sou pela paz. sou Da Paz!


mas aí vem:

Bourdieu fiercely opposed Rational Choice Theory as grounded in a misunderstanding of how social agents operate. Social agents do not, according to Bourdieu, continuously calculate according to explicit rational and economic criteria. Rather, social agents operate according to an implicit practical logic—a practical sense—and bodily dispositions. Social agents act according to their "feel for the game" (the "feel" being, roughly, habitus, and the "game" being the field).

creio que, se formalizarmos, chegaremos à mesma coisa:
.a. na escolha racional, deve-se pensar que os indivíduo agem "como se" fossem racionais, quer o sejam quer não.
.b. o que esta lógica prática implícita que o que ele critica é a mesma coisa: escolha racional, com certos contornos. entendeste? se é verdade que o agentes social opera (toma suas decisões) de acordo com alguma lógica prática implícita, com este "feel of the game" que me cheira a "aparato institucional", parece que ele age racionalmente, talvez caracterizando esta racionalidade restringida que, por exemplo, faz com que os indivíduos que comeram polenta na infância terão uma propensão a odiar garrafas de vinho de custo superior a R$ 45. ou entendi tudo errado ou o carinha da Wikipedia é que me deu a visão errada. ou ambas as coisas. ou uma terceira coisa que ainda não modelada nem aqui nem na Cochinchina (que também mudou de nome).
DdAB
ilustração: daqui. quer muita formalização? então assina a carteira do trabalho da negadinha...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Dialética, senso comum e sociedade igualitária

querido blog:
coçando a cabeça com o garfo, o que é um signo de preocupação, o menino de rua de que volta e meia falo -all of a sudden, como lá diz ele- citou-me (de memória) a p.207  do celebérrimo  livro de Cirne-Lima que leva por título "Dialética para Principiantes". ele, claro, principiou dizendo que "principiantes" são seres contingentes e que o que é mesmo necessário é o conhecimento que os retirará desta condição. "inclusive" -ponderou ele- "não se é principiante em algo que não mais se estuda". anuí, pois, no caso, "foi-se principiante".

nessa página, pude confirmar após ter-lhe pago um cachorro quente, o que aqui fraseio em suas frases sobre a dialética ou o que alguns estouvados chamam de método dialético: 

“Entre os Direitos do Homem estão, em pé de igualdade, o Direito de ser tratado como um cidadão igual aos outros Cidadãos, bem como o Direito de, em tudo que não afetar a Cidadania, ser Diferente. Tanto Identidade como Diferença pertencem aos Direitos Básicos de cada ser humano. A igualdade equalitária de ser Cidadão igual a todos os outros Cidadãos e a liberdade de poder ser desigual dos outros em todo o resto, eis a conciliação de ideias contrárias que funciona aqui como síntese.”
pois daí é que se originou minha surpresa. ele aduziu:

"Aí me lembrei disso:" (fechando estes dois pontos, ele referiu-se ao seguinte trecho da Oração aos Moços de Ruy Barbosa)

"A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real".

triunfante na linha da argumentação de que nada há de muito especial que mereça ser protegido pelo conceito de dialética, ele disse-me que o trecho (que me soube parecido mesmo com o de Cirne) vem daquele discurso de paraninfo do Rui Barbosa, ultra-badalado, da década de 1920.  aí chegou minha vez de concluir. disse-lhe apenas: o discurso é bem lindo, apesar de "santarrão" (hahaha - exclamou ele. ele, elezinho, que ainda não fizera a primeira comunhão, nem o batismo, nem o alfabeto, não se conteve e adorou essa!) demais para o meu gosto.

parece-me que, de fato, eles estão querendo dizer mais ou menos a mesma coisa. o que não sei se fica claro é que este troço todo deve inserir-se no conceito de sociedade justa de John Rawls:. para o filósofo americano, na sociedade justa, a deisiguldade será administrada de maneira a beneficiar os menos favorecidos. no outro dia, falei novamente do absurdo do judiciário mudar a lei do orçamento. com tratameantos médicos. na hora não me dei conta e depois fiz um p.s. dizendo que o problema é que eles infringem bem esta regra rawlsiana). 

comovido com meu argumento, o menino de rua aduziu que, em sua opinião, e na de Raymundo Magalhães Jùnior, Ruy Barbosa era mesmo ladrão. fiquei sem saber se isto é apenas rima ou um chunk (palavra, novamente, do novo inglês que ele está inventando) de itabirito.
DdAB
imagem: aqui.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Leituras Biográficas

querido blog:
quando falo em leituras, falo -ipso facto- em minha biografia. não recordo se nasci já sabendo ler, o fato é que tenho um livro do bebê praticamente todo preenchido. também tenho boletins escolares dando notas superiores às de aprovação em "Linguagem", "Português" e até "Metodologia". um dos gêneros literários de que gosto, by the way, é a biografia. e muito aprendi sobre os grandes gênios da humanidade lendo-lhes as biografias. para não ir muito longe, volto a 1962 ou 1963, quando li algumas biografias de empresários, cabendo-me destacar por retê-los na memória, os nomes do Visconde de Mauá e de Henry Ford. fiquei muito entusiasmado com ambos e decidi que, como Mauá, eu iria fazer uma fábrica de papel na Amazônia. felizmente, não o fiz, o que não impediu o desmatamento... relativamente a Ford, decidi ser corredor de automóveis, o que -em certa medida- colidiu com os sucessos de Emerson Fittipaldi e me fez ver que aquela não era mesmo minha praia.

mas quero falar em "leituras biográficas" em outro sentido, mas outro, no sentido de que a tangente entre o assunto do parágrafo anterior e o deste não é nula, ou seja, se é que se trata de retas, são -definitivamente- retas que se interceptam em algum ponto anterior ao infinito. ou seja, no ponto de interseção, esconde-se um verdadeiro Aleph, o ponto que reúne todos os demais pontos do universo, no caso livros... explico-me: entre minhas leituras formadoras, encontram-se também biografias. para não aprofundar-me (mas sem tampouco querer abreviar-me), falarei de três delas:

.a. Monteiro Lobato
.b. Isaac Deutscher
.c. Giovanni Arrighi.

entre o primeiro e o último (claro que não é "último" naquele sentido desagradável da finalidade da vida...) passaram-se, digamos 40 anos. hoje, para mim, "veinte años no es nada" e nem 40... seja como for, trabalhei "com carteira assinada" 41, ou seja, poderia ter lido tudo novamente... agora trabalho sem carteira assinada... e em breve lerei "A Casa Assassinada" se me não faço trocadilhesco no estilo de l'art pour l'art.

pois bem, a primeira obra sistemática que li na vida tinha eu 11-12 anos, morava em Campo Grande do Matto Grosso e muito me eletrizou: praticamente toda a obra infantil de Monteiro Lobato, começando com as "Reinações de Narizinho" e chegando, se bem lembro, a "Os 12 Trabalhos de Hércules". Ou era "O Minotauro"? deixarei pendente esta questão, pois há outra ainda mais intrigante. já referi que furei a leitura de um dos volumes, cujo nome agora me foge -ou seja, não li e não gravei- e que não tenho intenção de sanar a lacuna, pois o que li preencheu-me de tal maneira que até hoje lembro com carinho e até hoje rende frutos pelo humor, pela informação e pelo que segue no próximo parágrafo.

uns 10 anos depois (até menos...), vi um carinha na TV (já rolava a ditadura militar) dizendo que "Monteiro Lobato é o comunismo para crianças". acho que era mesmo, pois talvez por lá é que residam meus primeiros grãozinhos de igualitarismo. Tia Nastácia era igual a Dona Benta, Pedrinho, igual a Narizinho e ambos iguais ao Saci e à Emília. no outro dia, li -contrafeito- que uns dromedários acham que Monteiro Lobato era politicamente incorreto, o que me fez pensar sobre o Q.I. destes strange animals e o próprio conceito de politicamente correto, que se deixa capturar por irresponsáveis com tanta facilidade, talvez apenas inferior à do PT pelos ladrões.

antes de Monteiro Lobato, lera algumas obras também importantes (para a idade): "Tarzan e os Homens Macacos", "Amar, Verbo Intransitivo" (que li escondido) e anos depois vim a relembrar, ao ver um filme, com -se bem lembro- Júlia Lemmertz, se é que existe. parece-me que por essa época comprei meu primeiro livro com meu dinheiro. não lembro o nome. no final da adolescência, lembro de ter adquirido outro, com meu dinheiro: "Mobby Dick". até hoje não entendo por que diabos a baleia voltou e detonou de vez o barco. mas evoco o gato que voltou da briga (vencedor) e baixou mais uns petelecos no gato vencido. e apenas aí é que foi embora, altaneiro. finalmente, antes -pode algo finalizar antes?- ganhei de presente do Major Bergo um belíssimo livro de contos de fadas, não sei se apenas de Grimm, Andersen, aquela maravilhosa turma.

pois bem. terei lido outras coisas entre Monteiro Lobato e a biografia de Leon Trotsky, escrita por Isaac Deutscher. o fato é que devo ter passado um bom tempo lendo-a, pois é uma coleção de três alentados volumes. lembro de que já estudava economia e gostava muito mais e assim a aprendia do que lia do que aquilo que rolava naquela faculdade em que havia, pelo menos um, alcaguete da ditadura. aprendi não apenas coisas sobre a revolução russa, a história da Europa e muito mais detalhes. o que -talvez- tenha sido a herança mais importante pode ser o estilo de argumentar (hoje reluto de chamar de "dialética", pois senti o mesmo fascínio num possível item .d. da lista acima, ao ler a biografia de Allan Greenspan, que de "dialético" deve ter pouco ou nada...). assim, esta foi a segunda grande obra sistemática que li e, certo ponto de vista, mais circunspecto, a primeira. eu, que queria ser economista e não sabia bem que diabos de profissão era esta, comecei a intuir algumas coisas que realmente vieram a se confirmar uns 10 anos depois de já graduado. e claro que houve pilhas de outras coisas que não têm a ver diretamente com minha formação nas ciências sociais, mas que reputo de importantíssimas para minha formação ponto. (sobre "ponto", ver abcz).

entre Deutscher e Arrighi passaram-se três décadas. li Arrighi em 1996, creio que no próprio ano de lançamento no Brasil (o que não é muito meu hábito, por distração ou falta de interesse). falo de "O Longo Século XX", em que fui apresentado à "teoria da história" de Fernand Braudel. por influência, li -emprestado de Carmen Gelinski- um resumo que o próprio Braudel fez em conferências nos Estados Unidos. o livro de Arrighi, claro, vai muito mais longe, pois partiu de torso de um gigante. e talvez até deva relê-lo -ao Arrighi- para lembrar bem tudo o que ele fez de bem por mim.

isto não nega que eu tenha lido outras grandes obras. para citar as mais téncicas, posso falar em Wassili Leontief e Richard Stone. e, para concluir, já que falei nesta dupla, não posso deixar de mencionar pilhas (tudo o que pude) das obras de meu finado orientador, Andrew Glyn. e há menos de cinco anos, o tão celebrado por mim, livro de microeconomia de Samuel Bowles.

DdAB
imagem (que editei, retirei dela a sra. Camila Parker-Bowles; nem ela, nem eu -portanto- podemos ser confundidos com muares): daqui.

domingo, 17 de julho de 2011

Outra do Papagaio (digo, da turma do judiciário)

querido blog:
o papagaio massarocado da imagem nada tem a ver com a piada que vou narrar. ela tem a ver com a quarta turma do tribunal regional federal da quarta região, que enquadrou a lei do orçamento no desvão da legalidade. pode? claro!

consta que uma senhora sofreu um acidente de carro (falha do governo, claro, que autorizou a ocorrência do imprevisto...) em 2005 (falha dos deuses que deixaram o tempo correr desenfreadamente, desde então) e tornou-se paraplégica, pois fraturou a medula. como sabemos, resolve-se o problema com reabilitação e medicação, tudo explicadinho na p.27 de Zero Hora de hoje, bem acima dos anúncios fúnebres. também, como sabemos (ou apenas lemos), os procedientos de reabilitação "compreendem fisioterapia, hidroterapia, musculação, enfermagem e psicoterapia."

até aí, tudo triste. a piada ocorre, claro, porque a juíza Sílvia Goraieb lascou: "não há condições de deixar a pessoa exposta à própria sorte, porque quando se consegue marcar consulta, leva mais de um ano." pensei: só ela? por que prioridade a ela? solidariedade feminina? mania de perfeição? os meninos de rua, juro, beneficiar-se-iam de psicoterapia, hidroterapia e musculação, pelo menos, desde que -claro- pudessem ver diminuída sua verminose, sua barriga dágua, sua fome e seu analfabetismo. a questão da escolha social que se coloca é o trancão dado ao problema de hierarquização de prioridades pela dra. Sílvia.

na hora de fazer o orçamento é que os representantes legais deveriam estabelecer recursos para atender às necessidades de acesso à saúde. como é que a juíza pôde decretar que esta indigitada mulher tem mais necessidade do que o menino de rua? e os demais carentes de psicoterapia ou hidroterapia? só porque ela tem um causídico sacador das tibiezas de uma sociedade que:
.a. nem tem orçamento decente
.b. nem, portanto, o faz obedecer a princípios razoáveis de universalização. como definir as necessidades a serem universalizadas? obviamente, com o conceito de Abraham Maslow. e comp pagar? obviamente com o imposto de renda progressivo. claro que, com isto, estaríamos caindo perigosamente numa sociedade igualitária. a piada é pensarmos que há justiça neste país. começa que o acidente ocorreu há há mais de seis anos, morosidade. segue que a juíza emocionou-se com a situação de tragédia da velhinha (idade inferida...), mas deu de barato que não há problemas ainda mais severos a serem consertados.

o pobre menino de rua, claro, exibe todas as condições para ser deixado à própria sorte, não é mesmo?
DdAB
p.s. autêntico: algumas horas após e menos de um dia de fazer a postagem, dei-me conta de que repeti o tema várias vezes. aí pensei em que é que esta postagem inova. talvez nada, resmunguei, um tanto desalentado. mas dei-me conta de que nunca me dera conta de que este problema de sentenças judiciais altererem as prioridades da lei (inócua???) do orçamento público é uma afronta ao segundo item do segundo item do conceito rawlsiano de sociedade justa: se houver desigualdade (prioridade na fila), esta deve atender aos menos favorecidos. ou seja, a morte à lombriga deve ter preferência a pontes de safena. é doloroso pensar assim: só tem lugar para mais um no barco. quem será o escolhido? os médicos (os juízes jamais...) falam em QALY - quality adjusted life years: anos de vida ajustados pela qualidade. no caso, o menino de rua deve ter uma enorme vantagem sobre macróbios, não é mesmo?

sábado, 16 de julho de 2011

Mistérios da Visão Humana: de Salviano a Severiana

querido blog:
não que Salviano falasse diretamente, suas elipses eram famosas. e ponto. e ponto, dizia ele. com frequência assim se expressava: entendi que aqui é ponto, andei e andei, cheguei e ponto. fui, voltei, capitulei, venci e ponto. tudo terminava com ponto. ele chegou até a falar em ponto mortal, o que significava o último ponto a ser pingado na história do indivíduo, da espécie e de tudo o mais. nem que ele falasse exageradamente, era contido, e ponto...

por solitário, talvez, Salviano não compartilhou com ninguém a angústia que sentia em, aos 39 anos e meio de idade, perceber que não mais conseguia ler o pit 9 de suas projeções nas telas também projetdas. vivia, claro, daqui a um milhão de anos. viverá, se não é erro de temporalização. por nostalgia de tempos que nunca foram seus, usava, desde essas anomalias óticas, óculos, com os de seus ancestrais do ano 2011. também, como eles, usava detergente caseiro (uma fortuna, nos tempos de Salviano), uma relíquia produzida com impressão em 3D, com o qual, uma vez por dia, higienizava os óculos.

sempre que o fazia, lançava um jato do precioso líquido sobre uma das lentes (óculos queriam dizer: para os dois olhos, e ponto). fazia o mesmo para a outra. começava a esfregar o anverso de uma delas e percebia que invariavelmente, seu verso também se ensaboava. repetia o procediemnto para a segunda lente e, da mesma forma, o anverso umedecia-se com o detergente. nunca entendeu bem o que fazia o líquido percolar o meio vítreo. até que encontrou Severiana, por quem se apaixonou numa tarde artificial, dessas com que setou a nave em que vivia. Severiana sorriu-lhe da tela de sua própria nave e não se foram mais de 10 anos para que conseguissem estabelecer uma ponte de terconite entre as duas naves, o que permitiu o contato imediato de primeiro grau.

afinidades esgrimidas, diferenças esmerilhadas, foram-se, ao sabor do momento e da paixão, a horizontes infinitos, quase que literalmente. num daqueles dias em que compartilhavam o ato de acordar, Salviano começou a higienizar suas lentes, que tanto agradarem a Severiana que esta o observava com carinhos em todos seus sentidos. sem nenhuma intenção de resolver mistérios milenares, Severiana comentou: "não é engraçado que este líquido com que limpas os óculos miscigenam-se entre teus dedos e parecem percolar o próprio vidro?"

Salviano olhou para Severiana como quem vê a salvação da humanidade. lembrou-se de uma planilha eletrônica que seus antepassados desenharam, com este peculiar e pretencioso nome. riu-se de si para si. e serviu-se de outra taça de champanha, ponto.
DdAB
ops: não é natal, precipitei-me... mas este presépio pareceu-me produzido naquela nave de que fala-se na postagem acima. ponto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Doutorado em Engenharia de Negócios

querido blog:
nos tempos em que eu era professor titular (quer dizer, não estava nem na reserva, nem aposentado), fiz propostas de melhorar o curso de graduação em várias universidades, todas derrotadas. esclareço: todas as universidades e todas as propostas. não exagero, não é exagero, talvez seja radicalismo, mas ser radical não é, repito, ser exagerado.

derrotado em menos reuniões plenárias encontra-se meu curso de doutorado em engenharia de negócios. cansado de ver M.B.A.s em várias instâncias acadêmicas (ciências & técnicas), achei que o melhor mesmo era pularmos para o D.E.N., ou seja, o doutorado em engenharia de negócios. a proposta essencial era tomar um menino de rua, dar-lhe uma bolsa de estudos e começar a desasná-lo. o teste de classificação e o de titulação requereriam uma prova (cada um deles) manuscrita, versando sobre conhecimentos gerais. em três horas de duração, poderia ser feita em casa, desde que jurada a honestidade e trazida a bibliografia em anexo.

além disto, haveria possibilidade de realização do curso virtualmente. na prova, o exame de caligrafia seria anexo, isto é, se não dá de ler não dá de corrigir... o pagamento seria feito pelo Tesouro Nacional, seria uma forma de evitar que o menino de rua vivesse na rua, sendo que ele passaria a ser chamado de menino de aula, ainda que pudesse viver em outros alojamentos, caracterizados por cortinados diversos do céu de anil.

as disciplinas seriam:
.a. no ciclo básico: caligrafia, quatro operações, ditongos, essas coisas. e também: como estudar. e também como dominar impulsos, em particular, o impulso de valorizar mais o lazer do que o estudo.
.b. educação terminal: português, inglês, matemática, geografia, ciências naturais, ciências sociais (inclusive a história e a psicologia).
.c. educação sustentacional (que dá emprego): como fazer planos de negócios, matriz de insumo-produto da empresa, sistemas de informações gerenciais.

tudo foi derrotado. vamos relançá-lo?
DdAB
imagem

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Prisões: sete solturas

querido diário:
Zero Hora segue, na p. , falando em presos que são soltos milhares de vezes e voltam do semi-aberto ao mini-aberto e depois ao fechado (por 24h) e novamente ao semi-aberto, mini-aberto, adal-berto, e por aí vai... procurei no Google apenas: "soltura" e não demorei para achar o site que originou a imagem acima: abcz: Carlos Verdial. linda, linda. não sei se me atrevo a sugerir algo interpretativo: o ser que parece um cavalo, ainda que parecendo andar dentro de um arco, está solto do chão. há um mar próximo (mar?) e parece que a presença deste meio marítimo deu uns ares de unicórnio ao corpo cavalar. que digo? só sei que nada sei.

nada sei? lendo Zero Hora, tudo se sabe, não é mesmo? neste caso, devo admitir que sei que ela -ZH- rdelegou para a p.44 (Seção "Polícia") a notícia de que o sr.Felipe Guilherme Francke, de 27 anos, foi retirado da condição de foragido do Presídio Estadual de Novo Hamburgo, vítima da sétima captura que lhe impingiua 4a. DP. olhei a lata dele e deduzi: não fosse o fato de que os juízes ganham R$ 30mil mensais, teríamos um sistema judiciário decente neste país e, como tal, o Felipão já teria seu emprego de garçom ou economista, duas profissões que eu mesmo exerci com zelo e entendi que não requerem maiores práticas ou habilidades.

Felipe Guilherme estava foragido desde o dia 17 de junho, ou seja, quando o rapaz do outro dia, evadido por 16 vezes em 11 anos, deixara-se capturar. fiquei pensando: por que não leio diariamente a lista de foragidos? por que não leio diariamente a lista dos juízes que deixam um rapaz, depois de 15 evasões, sair pela 17a. vez do xilindró. e fiquei pensando na lista dos políticos ladrões (hoje, ontem, parece que milhares de beneficiários com a desvalidação da lei da ficha limpa tomaram posse; alguns deles vão aposentar-se como deputados antes que a lei passe a vigorar, alguns deles vão morrer de velhos antes que o convênio de assistência jurídica com a empresa júnior da Suíça entre em ação e bote toda esta macacada na cadeia).

os suíços, presumo, conhecem a teoria dos jogos e entenderão que este negócio de prende-solta-remunera-dá-férias-de-quatro-meses do Brasil é um jogo dinâmico: os juízes vivem em férias, logo não podem julgar duas vezes o mesmo réu, acusado, sei lá. então eles não se "fragam" de que poderiam exercer um papel mais paternal, se não no dia-a-dia de trabalho, mas com relação aos "legisladores", ajudando-os a formarem leis mais afinadas com a cidadania suíça, claro. e menos, digamos, etrusca, eritréia ou etiópia. entende?

o que é mesmo que estou pleiteando? um salário que selecione juízes decentes, ou seja, se neguinho está mesmo preocupado em maximizar seus ganhos, ele que procure outra profissão, menos exigente em termos de sacrifícios em prol da cidadania, id est, pagar menos de R$ 30 mil por mês. e outro salário que selecione garçons, motoristas, economistas e juízes decentes, pagando-lhes uma cifra econometricamente encontrável que os desvie do caminho do crime. digamos que sejam R$ 3.000 mensais a salvar o Felipe do assalto. que lhe demos viaturas decentes, bandejas decentes ou togas decentes, ou giz decente, se quiser ser mesmo economista.
DdAB

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Escalada Histórica: história da montagem de bibliografias

querido diário:
andei envolvendo-me com os blim-blim-blins da pesquisa bibliográfica, se é que ainda não estou até mais envolvido. vou pesquisar imagens para ilustrar o que te sobra hoje. é pesquisa documental do mesmo jeito. como esta é a postagem guardada n.750 (três quartos de milheiro, festiva, portanto), vou buscar apenas o número 750, que pode dar sorte, pois -como sabemos- 7+5+1^0=13, um número que, em certas culturas, denota sorte. o envolvimento diz respeito ao livro "Técnicas de pesquisa em economia; transformando curiosidade em conhecimento", cuja edição pintou há 10 anos, sob a bandeira "Saraiva" e agora tenho, além dos autores, a co-organizadora profa. Brena Fernandez, o que me honra e assusta!

como escalar as montanhas de informação?, indaga alguém que não dará a resposta... a verdade é que a pesquisa bibliográfica representa uma das tarefas mais importantes do treinamento do cientista, qualquer, e em particular o cientista social, como alguns de nós acham ser o caso do economista. eu mesmo, andei fazendo galhofa para cima de um colega de antanho, atribuindo-lhe (mentirosamente) a frase "a ciência econômica é o ramo da programação linear que abcz". ele, felizmente, nunca ouviu falar nisto, hehehe.

ao levar o pesquisador a conhecer a produção intelectual de seus pares, ela constitui-se num pré-requisito indispensável para evitar a duplicaçao de estusos sobre o mesmo ponto, ao mesmo tempo em que permite a decolagem já numa cota mais elevada. (decolagem ou escalagem?) mas tenho a impressão que, nos Estados Unidos e em outros países civilizados, a pesquisa bibliográfica nem mesmo é feita pelo principal pesquisador, que a delegaria a bibliotecários e seus auxiliares de pesquisa, estudantes de dotorado e such and such. sucessivos aperfeiçoamentos permitirão que programas de inteligência artificial façam tudo sozinhos, desde que estejam ao par dos desenvolvimentos da vida do pesquisador, o que não lhe requererá mais do que um telefoninho ou até um relógio de pulso. (para não falar em implantes numa costela ou outra.

um método de realização do trabalho é começar a levantar artigos de periódicos correntes. mas qual seria a bibliteca provinciana a dispor da coleção completa de mais de dois ou três periódicos? claro que, hoje em dia, todo mundo está fazendo editoração eletrônica. mas que dizer de revistas de 20 anos atrás? e 21? e 22? e por aí vai! desolação. a Biblioteca da University of Austin - Texas é muito mais eficiente do que muita biblioteca paulista sobre assuntos paulistanos, para não falar do próspero município de Alegrete, hehehe.

seja como for, com sorte, os períódicos CAPES e outras manhas eletrônicas permitirão que montemos a visão geral do tema, inclusive com referências a livros. de artigos brasileiros antigos, tenho notícia de um índice geral (de priscas eras) da Revista Brasileira de Estatística, parece que um da Revista Brasileira de Economia e uma uns 10 anos da finada Literatura Econômica (Suplemento Bibliográfico n1), que foi uma publicação do IPEA, encerrada precisamente devido ao fato de que era interessante (teoria da grande conspiração que me foi revelada em detalhes que não posso informar). em resumo, se a própria revista acabou, que dizer do suplemento bibliográfico número dois. hehehe.

começa-se, na segunda fase, a identificar palavras chaves nos artigos. será então um número expressivo o de artigos localizados, mas liminarmente descartados. no processo também poderão ocorrer alguns acréscimos, devidos ao puro acaso ou também devidos a lacunas nos critérios de peneiragem, que -deste modo- seriam sanados "automaticamente". claro que haverá tmabém um erro tipo dois: alguns artigos relevantes não contêm as palavras chave destinadas a identificá-los como da área que estamos pesquisando.

o trabalho encerra com um pente fino. pente fino em tudo e principalmente o voto de que, se pudermos, vamos investir mais em biblioteconomia, para que as futuras gerações (digo, apenas aquela fração ínfica que gosta de estudar) não padeçam o que seus ascendentes profissionais passaram. eu fora, que andei vivendo dentro de duas belas bibliotecas: a do Instituto de Economia e Estatística de Oxford e a da London School of Economics & Political Science.
DdAB
a imagem veio daqui. procurei apenas "750", número da postagem. vieram apenas motocicletas. mudei para "750 livros" e capturei a TV enlivrada acima entre as primeiras imagens. checa aí, sô.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Prisões, Xilindró e Zero Hora

querido blog:
como sabemos, Zero Hora é o jornal que leio diariamente. prisão é um termo equívoco: um significado é xilindró, o outro é um mandado que retira alguém do regime de liberdade. quem leu Zero Hora de hoje ficou embasbacado com a chamada logo abaixo do signo de R$ 2,00, que é o preço do jornal: "Impunidade. Homem é preso 16 vezes em nove anos. Condenado cinco vezes por furto e roubo, Marcelo Felipe foi capturado um mês depois de fugir da cadeia. Páginas 4 e 5." fui lá. uma das primeiras coisas que li no jornal.

teria dito Karl Popper: já inventei meu mito explicativo (teria?). indaguei-me que diabos teria feito de mal o sistema judiciário brasileiro que autorizou este récord. os governantes, segui pensando, nestes nove anos (desde a primeira escaramuça, prisão em flagrante, levou-o ao xilindró por menos de 24 horas, em 29/maio/2002), não houve um juíz, um assistente social, um brigadiano, um governador ou prefeito, um agente que age em nome do povo, para conseguir alguma ação sobre o sistema de incentivos do pobre homem que o subornasse a lançar-se aos sendeiros do bem? nestes nove anos, houve milhares de eleições, milhares de denúncias de corrupção, milhares de incidentes mostrando a absoluta falência do sistema político-institucional brasileiro e ninguém teve a coragem de clamar por um convênio com uma universidade suíça para mandar sua empresa júnior administrar este sistema no Brasil?

pelo menos isto houve: eu. alguns disseram que eu sou radical pois -prosseguiram- não precisaríamos de estudantes universitários, bastando um convênio com algum grêmio estudantil de primeiro grau. não tenho opinião definitiva a respeito. mas tenho comoção ao ver a foto de Marcelo Felipe, de 29 anos, nada o diferenciando de um cidadão respeitável, nada daquele olhar sublime de Osama Bin Laden, nada daquele olhar oblíquo de Capitu, nada daquele olhar amedrontador dos óculos do Marechal da Costa e Silva ou do Coronel Brilhante Ulstra (dias atrás, vim a saber que ele negou ter torturado o ex-ministro Pérsio Arida, contrariando o Ph.D.).

Zero Hora, claramente um jornal de direita, não consegue entender que o problema com este tipo de desmandos do sistema judiciário é a manifestação esperadíssima de um estilo de sociedade, acalentada por ela, em que a "livre iniciativa" deve ser respeitada com poucos feriados para os trabalhadores, poucos encargos sociais para a previdência e o cada-um-por-sizismo na condução das políticas públicas, tamanho do estado mínimo, poucos impostos.

tudo isto é o antônimo da sociedade igualitária. na sociedade igualitária, haveria um juiz com salários decentes julgando o Marcelo Felipe lá em 2002 e condenando-o a um treinamento de alguns meses em algum albergue para jovens adultos, auxiliando-o a vencer as vicissitudes de uma vida que iniciava a busca da maturidade sem, possivelmente, muito treinamento deixado para ele pelas gerações anteriores. também haveria um assistente social decente que enturmaria nele, como observamos nos filmes americanos, e o ajudaria a escalar esses tempos bicudos. um psicólogo, para ajudá-lo a encontrar a si mesmo, como o fez Cliford Beers e o fizeram tantos outros destemperados. um dentista, que quem come açúcar vai haver-se com cáries, um preparador físico, um músico, um professor de matemática, outro que o ensinaria a fazer um plano de negócio, firmando-o definitivamente no sendeiro do bem.

agora, pareço redundante: a causa da causa destes atropelos vividos pelo sr. Marcelo Felipe e por tantos de nós outros que costumamos ser assaltados, ter as casas invadidas, and so one, é que não há ação pública numa sociedade em que todo político é ladrão, em que os juízes ganham R$ 30 mil mensais e que o deputado ganha uma cifra que não vou revelar aqui, pois pareceria provocação. o que eu digo sempre é que, se pudéssemos fazer um seguro no momento do nascimento do Marcelo Felipe, garantindo-lhe uma existência digna, digamos, por R$ 1.000 por mês, a partir de sua maioridade (aos 21 anos, não era isto?), juro que ele se declararia subornado e passaria a esgrimir, digamos, um esporte, ou algum outro elemento do conjunto (língua estrangeira, esporte, instrumento musical). ao invés de roubar o que pode, ele iria encantar-nos com seus poemas, braçadas e canções. e estaria dando sua quota para a manutenção da sociedade igualitária.
DdAB
imagem: aqui.
p.s.: agora é a Itália que vai falir. não era o caso de requererem que os italianos se entendam lá com seu imposto de renda e salvem novamente seu estado?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

As Colas e as Escolas

querido blog:
há dois tipos de sistemas escolares: aqueles em que a frequência é obrigatória e os que favorecem o absenteísmo escolar. no caso do Brasil, o sistema é misto.

há gente cujos pais obrigam a irem à escola. deixar de estudar só morto... mas há outras gentes, a maioria, a rigor, que não está nem aí para os pais e, de sua parte, os pais não estão nem aí para elas. isto significa que o absenteísmo escolar é extremamente valorizado socialmente. como não poderia deixar de ser, os prefeitos de 5 mil municípios brasileiros associam-se ao segundo tipo de pais e deixam seus filhos (claro que "seus" quer dizer os dos segundos tipos de pais) ao relento, à rua da amargura, à rua do analfabetismo. cheirando cola. aos que diziam que "quem não cola não sai da escola", torna-se claro que "quem cheira cola jamais entrará para a escola", que não lá dizer de sair dela!

no caso do Brasil, o sistema é misto, ou seja, há pais que zelam também pelo bem estar dos filhos apenas em tempos parcial. isto tem uma implicação importante: já que a realidade do sistema misto é inarredável, conclui-se que a classificação acima é falha, durou pouco, nem uma postagem inteirinha...

mas conclusão ainda mais séria e circunspecta, que nem depende do que está dito acima, é que a legitimidade de pensarmos num futuro dourado para o Gigante Adormecido é casca grossa.
DdAB
imagem do site que dá o que pensar: aqui.
p.s. claro que este negócio também podia obedecer ao marcador "economia política", não é?

domingo, 10 de julho de 2011

Mesoeconomia: quantas?

querido diário:
no outro dia, na verdade, na sexta-feira de noite, vim a descobrir o artigo:

PESSALI, Huáscar & DALTO, Fabiano (2010) A mesoeconomia do desenvolvimento econômico: o papel das instituições. Nova Economia. v. 20 jan-abr. p.11-37. baixar aqui.

fiquei impressionado. agora mesmo, no Google, apenas com "mesoeconomia", vejo a listagem de 7.650 entradas. talvez depois que eu publicar esta, passemos a 7.651... vejamos, contemos. vejamos agora "mesoeconomics". tem 16.300 e até verbete na Wikipedia. andei lendo-o há tempos. cheguei a comprar o livro de Kwang Ng. se a pronúncia é ene-gê, digo: nada a ver. é um livro de algum tipo de macro até mais para ortodoxo do que para menos. mas é alidado. aliado de quem? de quem está tentando abrir um espaço entre a micro e a macro para acomodar algum tipo de conhecimento que foge um pouco aos tradicionais manuais de micro e macro, especialmente os de níve avançado. Kreps, por exemplo, fala que seu livro é de "micro neoclássica", o que discordo. e Blanchard fala em "ciência da macroeconomia", o que me parece exagero. é que alguns têm visto estas bifurcações didáticas e metodológicas como ditames celestes. nunca esquecerei que Robert Crouch, num livro agora fora de moda no estudo da macro, falava algo do tipo: "a ciência econômica não é um ente esquisofrênico: quando falamos em macro, não podemos esquecer que há um mundo micro e quando falamos no mundo micro, não podemos esquecer que ele existe como tal precisamente porque é amparado por um mundo macro. e vice-versa e o contrário do vice-versa. e o avesso do avesso. e o avesso do avesso do avesso do avesso. parece média harmônica... (tu já achou esta piadinha no livro de mesoeconomia da Bookman?).

pois a primeira pergunta que fiz ao começar a fazer perguntas sobre o artigo de Pessali & Dalto foi: "mesoeconomia do desenvolvimento econômico, é?" e quais são as demais mesoeconomias? a da economia internacional? a do crescimento econômico? a dos números índices? já postei o que dizem as p.67-72 do livro:

A mesoeconomia representa uma dimensão intermediária entre as tradicionais micro e macroeconomia, buscando cobrir o espaço que as separa, ou seja, tentando dar respostas tanto à questão da agregação das variáveis quanto à das suposições utilizadas para a construção de suas proposições explicativas. Ao fazê‑lo, a mesoeconomia pode buscar explicações a uma enorme gama de fenômenos que não são abrigados pelos corpos teóricos da micro e da macroeconomia.

ainda faltaram as definições de micro e macro lá do livro. mas, mesmo sem lermos o que por lá é dito, aqui podemos inferir. primeiro, a micro é a das variáveis desagregadas, preço do livro, grau de monopólio na indústria do CD, ao passo que a macro é a das variáveis agregadas: preço de todos os bens forma o nível geral de preços, etc. segundo, esse negócio das suposições. na micro, pressupomos que não há inflação ou deflação, por exemplo, quando queremos explicar como se formam os preços relativos. na macro, supomos que estes preços relativos estão fixos, quando queremos explicar o crescimento econômico.

quais seria a enorme gama de fenômenos que não estão abrigados pelos corpos teóricos da micro ou da macro? Pessali & Dalto deram um: o desenvolvimento econômico. quer mais um? a economia da tecnologia. e outro? a influência da estrutura dos instrumentos financeiros sobre a oferta monetária. outro? diga lá, leia o artigo, leia o livro! as palavras chave do artigo são: instituições, desenvolvimento; desenvolvimento econômico, mudança institucional, falhas de mercado. para o JEL, ele é: D02 e O12. o livro tem na ficha catalográfica: 1. Economia. 2. Mesoeconomia. 3. Desenvolvimento econômico. esta é a primeira e notável coincidência, principalmente se aceitarmos que eu não lera o artigo nesses anos todos (na verdade, agora seria no máximo um ano e meio, desde a publicação, ainda que -como sabemos- conheço os autores e poderia ter-me beneficiado de uma leitura de seu eventual texto para discussão; esta especulação é interessante: se tivesse lido, como isto iria afetar meu papel no próprio livro da Bookman?).

ainda com relação ao título, tentando delimitar os contornos da mesoeconomia, eu diria que podemos começar a cercá-lo por meio das três organizações (instituições) econômicas fundamentais: produtores, locatários dos fatores e instituições. ou seja, instituição se torna um termo inserido no que quer-se definir. na verdade, a confusão é menos séria. Pessali & Dalto dão maravilhosas definições de instituições, no sentido que o livro dá para organizações. o livro inspirou-se em Simon (citado por Pessali & Dalto), que fala mais em "organizações" e menos em "instituições". então como é que os "produtores" não são micro nem macro? ora, aqui estamos falando das variáveis agregadas (macro) mas setoriais (micro) ou seja, em média, meso... e os locatários dos fatores? dá-se o mesmo: há locatários de fatores locando os serviços que os fatores prestam a produtores da agropecuária, da indústria extrativa mineral, da indústria de transformação de minerais não metálicos, e assim por diante. isto não é bem micro e menos ainda é macro. e as instituições? as famílias não são "macro", que estuda o consumo agregado. nem são "micro", que estuda os agentes individuais. quais as demais instituições? o governo, as empresas que exportam o produto doméstico e as empresas domésticas (não se nega que haja empresas estrangeiras enrustidas no ambiente doméstico) que compram bens de capital e os investem na expansão de sua capacidade produtiva.

mas não é apenas isto: a mesoeconomia busca cercar as interações entre estas três organizações por meio do exame de três mercados:

.a. quando produtores interagem com locatários dos fatores, estamos falando em mercado de fatores (famílias oferecem e produtores -sabedores que há demanda- contratam),
.b. quando produtores interagem com as instituições, estamos falando no mercado do produto (produtores oferecem e instituições compram)
.c. quando instituições interagem com os locatários dos fatores, estamos falando no mercado de arranjos institucionais (inclusive os monetários), (instituições oferecem os serviços dos fatores a seus integrantes que os alocam das próprias famílias que os alugam aos produtores.

ou seja, tudo explicadinho em termos de oferta e demanda: de bens e serviços, de serviços dos fatores e de arranjos institucionais. tudo explicadinho em torno do conceito de equilíbrio, pois -como bem sabemos- ontem as compras foram identicamente iguais às vendas. tudo explicadinho em termos de não termos tudo explicadinho: não incluímos precipuamente em nosso pensamento (mas incluímos nota no livro...) os bens públicos, os serviços dos fatores usados domesticamente e os arranjos institucionais não vislumbrados apenas no fluxo circular da renda, por exemplo, os ritos comunitários.

em outras palavras, uma das palavras chave de Pessali & Dalto é "falhas de mercado". pois elas estão bem aí: não fossem elas, não precisaria de produção de bens públicos, por exemplo. e eu não precisaria ter feito metade do parágrafo acima.

essa pilha de identidades contábeis de que falei tem abrigo numa pilha de matrizes tratadas no livro e que devem ser -pensamos nós- precisamente instrumentos de análise mesoeconômica:

.a. matriz de contabilidade social (onde vemos o redesenho do fluxo circular da renda, para dar abrigo ao mercado de arranjos institucionais)
.b. a matriz de insumo-produto, para dar conta das ligações setoriais da economia e que relaciona os setores produtores e os produtos que eles produzem
.c. a matriz de contabilidade social ambiental, para dar conta da dimensão demográfica da avaliação do bem-estar social e do desempenho do sistema econômico em da do período.
.d. a matriz de fontes e usos de fundos, que relaciona setores financeiros e os instrumentos que estes utilizam.
.e. a matriz de insumo-produto da empresa (o que já seria mais microeconômico, não fosse a possibilidade de, a partir dela, fazermos as análises da absorção de tecnologia por parte da empresa não usando nada mais refinado do que a função de produção de Leontief).

ok, ok: cheguei no pulo das identidades contábeis (compras === vendas) a relações comportamentais, o que faz com que demos significado empírico aos coeficientes da função de produção de Leontief). mas a mesoeconomia não é apenas isto, pois ela também se preocupa em mensurar o bem-estar social, por exemplo, com o estudo da distribuição primária da renda (para os clássicos, salários e lucros) e o mecanismo de transferência dos locatários dos fatores e do governo para as famílias e demais instituições (agora chamando pelo nome keynesiano: governo, investimento e exportações líquidas de importações).

mensurando não apenas o produto agregado, mas também o produto setorial, a mesoeconomia diferencia-se da macro, pois permite avaliarmos as "fontes do crescimento econômico" inseridas no marco da função de produção de Leontief e da chamada matriz expandida trabalhada por Richard Stone a partir da matriz de contabilidade social.

não digo que tenhamos atendido a um pedido que Pessali & Dalto teriam feito em, digamos, janeiro/2010, quando eles disseram à p.13 que

"Ao contrário das tradicionais áreas de macro e microeconomia, essa mesoeconomia não conseguiu ainda ser colocada num livro-texto."

è vero! mas não tenho dúvida de que o livro da Bookman tirou pena! ele se declara um manual de contabilidade social, mas deixou tão para trás a simples noção do equilíbrio ex post entre compras e vendas, recheou-se tanto de relações comportamentais, que pode bem conter conteúdos para retirarmos umas 200 páginas com o suco daquilo que podemos chamar de mesoeconomia. na verdade, os três capítulos iniciais bem que poderiam ser chamados de "introdução à mesoeconomia", o que atenderia, talvez, boa parte dos anseios de Pessali & Dalto. mas devo admitir (sem qualquer pesar) que faltariam mais umas boas 100 páginas na segunda parte, para dar conta de muitos detalhes assinalados pelos autores da UFPR.
DdAB
p.s.: ainda falarei mais, muito mais, sobre o livro, é óbvio. e sobre a relação dele com o artigo de Pessali & Dalto.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mesoeconomia: questionando os leitores

querido diário:
tu já leu? tu, amado diário, já leste o livro cuja miniatura comestível contemplamos acima? tu, doce blog, sabes o que é um autógrafo reverso? pois explico: quando um autor de meu porte conclui a organização de um livro que lhe tomou tantos anos de vida, ele faz uma sessão para amigos/as (nem todos, claro, falhas técnicas impedem que a lista seja do tamanho ideal, obedecendo apenas ao tamanho humano, como disse Millôr, atendendo aos anseios do momento e da paixão) que -eles próprios- autografarão um exemplar do livro a ser retido como evocação de todos esses tempos, desde a letra inicial até o ponto final.

pois bem, expliquei o bolo. falta explicar o título da postagem. é que eu fiz, em 2005, uma lista com inúmeras questões de orientação da leitura do que era então a quimera, o futuro livro de mesoeconomia. pois então vamos lá. o capítulo 1 (Parte I) se chama "A Divisão do Trabalho na Sociedade". sua primeira seção chama-se "A Atividade Econômica da Sociedade Humana". e as perguntas são as seguintes:



1.1 A ATIVIDADE ECONÔMICA DA SOCIEDADE HUMANA
1. Qual a relação entre consciência humana e o processo civilizatório?
2. Qual o elemento responsável pelo aumento da disponibilidade de bens e serviços para o atendimento das necessidades humanas?
3. Que são bens? Que são serviços? Que são mercadorias?
4. Qual a relação entre necessidades humanas, ações, processos, estruturas e sistemas?
5. Qual a diferença entre o indivíduo e o cidadão?
6. Qual a relação entre os direitos de propriedade e a organização econômica da sociedade?
7. Qual a relação entre as necessidades humanas e o montante destas que será debelado?
8. Quais as três questões fundamentais com que se defronta qualquer sistema econômico?
9. Quais os três polos em torno dos quais se organiza a vida econômica da sociedade?
10. Comente: “Os conteúdos qualitativos da resposta às três questões fundamentais, vale dizer, a composição do produto e a definição de seus destinatários, também dependem da articulação entre a natureza das preferências dos agentes e da forma como estas preferências vêm a ser comunicadas entre produtores, proprietários dos fatores produtivos e as instituições que lhes dão guarida”.
11. Como a humanidade, ao longo de sua história, respondeu às três questões fundamentais?

já leu? compreendeu? respondeu?
DdAB