quinta-feira, 31 de março de 2011

... é véspera de pouco?

querido diário:
.a. 31 de março militar? pouco sucesso da milicada em democratizar o Brasil (se é que tentaram, e o pior é que acho que sim, até que a sociedade civil deu-se conta de que, com certa dose de aquiescência arroubos nacionalistas, poderia seguir descumprindo a lei do orçamento, id est, afanando.

.b. 31 de março afetivo? poucos versos: depois do mavioso soneto que o Planeta 23 publicou ontem, ágil como a asa da graúna, como o bico do Concorde, como a pororoca das paixões, temos um romântico hai-kai do mesmo autor, o prof. Marcelo Baimler que volta a distuinguir-nos:

SEM TÍTULO 1
Marcelo Baimler
Meu amor é bipolar
Num dia te quero tanto
No outro penso em te matar.

eu ia fazer um hai-kai
para despedir-me
por hoje: aqui vai.
DdAB
p.s.: a capa do livro do Millôr veio d(aqui)! compre-o (livro), pois o Millôr não está à venda.

quarta-feira, 30 de março de 2011

30 de Março: dia de muito...

querido diário:
como facilmente podemos intuir, o dia 30 de março, em sua repetição histórica e insofismável, é um dos mais importantes da saga da humanidade, este povo astronauta. pelo menos há dois ou três anos, esta data passou a adquirir significados que apenas a poesia pode apreender em sua plenitude diáfana.

neste dia 30 do ano de 240 a.C., por exemplo, o Cometa Halley foi fotografado! ou pelo menos há relatos que falam do assunto. em 30/mar/1842, foi feita a primeira cirurgia com anestesia (Sedare Dolorem Opus Divinum Est), o que foi muito importante para, anos depois, começarmos a fazer transplantes de corações, nem todos combalidos pelo Mal de Cupido (também conhecido como Mal de Amor). em 30/mar/1947, minha mãe já estava esperando o descobridor do Planeta 23, diferentemente da mãe de Ryszard Kotla, que o deu à luz precisamente nesta data. aos 30/mar/1974, nasceu TAmislav Butina, jogador de futebol croata, expandindo as regularidades brincalhonas de Moacyr Scliar e os sobrenomes que condicionam destinos. há dois anos, ocorreu o fundamental, o evento consagrador desta data como uma das mais marcantes da humanidade em sua trajetória neste planeta de 24 horas (dizem alguns que quem despende uma hora inteirinha fazendo pilates com o prof. Marcelo Baimler traslada-se para um planeta de 25 horas, ou seja, ganha uma hora extra inteirinha...). a prova da importância da data de hoje é dada pelo seguinte soneto, em que se destaca a rima refinada e o -como disse o colega Carlos Drummond de Andrade- sentimento do mundo.

Soneto n°1
Marcelo Baimler

Na multidão, olhando para o nada
Penso em ti em todo momento
Cercado por muitos, na imensidão desse sentimento
Solidão desenfreada 
 
A solitude faz-me refém
Sem teus encantos, sou ninguém
Se o destino me castigar, e te perder
Não resta nada, apenas morrer

Somente por um momento
Diga que já és minha
E finda este atrós sentimento
 
Por toda eternidade
Vou te seguir, te venerar
Meu anjo, minha divindade
(28.03.11)
 
então vamos comemorar. e esperar por novas contribuições. inclusive um haikai já prometido por meio de um contrato liminar firmado entre o poeta e o blogueiro...
DdAB
p.s.
a ilustração, a flauta mágica, a magia, a frase do Google Images: (aqui).

terça-feira, 29 de março de 2011

Dusek: o menino de rua

querido blog:
quantos meninos de rua você conhece e sabe que toparia trocar sua existência racional pelo conforto de um cachorrinho como o elegante acima? pois, pensando nisto, Eduardo Dusek compôs o rock da cachorra, do qual destaco:

tem muita gente por aí que tá querendo levar uma vida de cão
eu conheço um garotinho que queria ter nascido pastor alemão.

se me desagradam as instituições do mercado, da comunidade e do governo brasileiro, sobra-me otimismo para pensar na evolução da ciência, que ainda será posta 100% a serviço da humanidade, vale dizer, dos desvalidos.
DdAB
p.s.: a fonte da foto é abcz.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Desenvolvimento Sustentável: odeio lixo seco

querido diário:
há muito que sou da campanha "odeio lixo seco", pois sua legenda econômica diz que os papeleiros distribuídos por toda a América do Sul são trabalhadores terceirizados pelas prefeituras de toda a América do Sul. concordo com a legenda, claro, discordo da terceirização, claro, e solidarizo-me com os trabalhadores informais, inclusive com os doentes mentais informais, os viciados informais e tudo o mais que a informalidade trás de atraso. claro que também me solidarizo com a indução de poemas pela contemplação de estrelas a que os trabalhadores sem teto são submetidos pela -disse Stanislaw Ponte Preta- "atual conjuntura".

hoje, até agora, li Zero Hora de modo aleatório, piadinhas daqui, fotinho acolá e noticiazinha bem ali. um caderno cá, outro lá. não vi nenhum erro, já é uma vitória. eles vêm a mim em ondas, como o mar.

Deus, nosso senhor Jesus Cristo, morreu na cruz para nos salvar. ok, ok, não é bem isto, hoje é segunda feira, ontem foi domingo e apenas ante-ontem é que foi sábado, como quer o poema viniciano. seja como for, na p.1 do Segundo Caderno do combativo jornal, lemos uma declaração, que cito o texto verbatim:

Nós estamos só pelo velhinho lá em cima - resume Sidnei.

pensei filosoficamente: "se estamos pelo velhinho ou se não estamos por ele, seja como for, estamos todos na mesma enrascada". talvez também haja gradações no grau em que nos envolvemos na enrascada. outro poeta carioca (besides Vinicius de Moraes), Billy Blanco, disse: "todo mundo é igual quando a vida termina, com a terra por cima e na horizontal". tem gente que finge que não sabe e não consegue adotar um curso de ação que leve a mais desenvolvimento das forças produtivas que se encarregaria de expandir as fronteiras tecnológicas da humanidade e garantir não apenas existência digna, mas principalmente existência digna e longa. viver menos de 1.000 anos é uma baixaria, pois sabemos que o Sol viverá muitos milhares de vezes esta cifra!

pois bem, Sidnei é um dos amigos do finado Ismael. 'seo' (no dizer de José J. Veiga) Ismael gerou um blog. depois de morto. sabe-se lá o que ele gerou em vida. o blog é seuismael.blogspot.com. foi criado pela genial artista Maria Tomaselli (Cirne-Lima). ela comoveu-se com a história de 'seo' Ismael, que foi assassinado por um pedreiro -diz ela, diz o jornal- no dia de natal do ano findo de 2010. ela mesma descobriu que "pedreiro" nada tem a ver com o setor industrial, subsetor da construção civil, mas com usuário de pedras de crack. o usuário matou Ismael porque -penso- não ganhava suas pedras gratuitamente de alguma autoridade sanitária/belevolente suíça, mas precisava usar o mecanismo de mercado no Brasil. o mecanismo de mercado, bem sabemos, não diferencia ética de ótica, malvado de malfadado, etc.. nem sempre o malvado é o malfadado. o fado de Ismael é que é casca grossa.

seus amigos, de fotos estampadas na página que acima refiro, pareceriam seres normais, artistas da geração pé-na-estrada, sei lá. pareceriam com meus professores de segundo grau, pareceriam com meus professores da UFRGS e Oxford, pareceriam com meus colegas da UFRGS, UFSC, PUCRS e Oxford. pareceriam com gente. até -diria eu, emocionado- parecem mesmo. há tempos, numa reunião do Conselho de Justiça e Segurança do Menino Deus, propus que nos dirigíssemos às autoridades e requerêssemos (com liminar, se fosse o caso), reciclagem dos papeleiros. poderíamos substituí-los por burros de carga e a sociedade poderia suborná-los para deixarem-se treinar para uma vida menos thrilling do que à que são submetidos pelas forças do imperialismo internacional e, principalmente, pela hierarquização das prioridades dos políticos.

claro que a reciclagem é moda, tanto é que Zero Hora tem um escorreito caderno às segundas-feiras intitulado  "Nosso Mundo Sustentável". são lascas de árvore que se transformaram em oito páginas, de dezenas de milhares de exemplares. não sou contra a imprensa. não sou contra os mendigos, não sou contra o bem, a verdade e o conhecimento. o que sou contra é a função de utilidade dos políticos que dão peso tão diminuto à componente altruísta. na verdade odeio mais o político egoísta (alfa igual à unidade, ou mesmo alfa a partir de 0,5; tinha que ser majoritariamente altruísta, ou devia escolher a profissão de pedreiro).

tudo isto mistura com a charge da p.2 do cronista Marco Aurélio, que mostra dois santos conversando e comemorando o "Dia do Planeta" e um dizendo ao outro: apagaram as luzes, de sorte que podemos ver com mais acuidade os fogos de artifício (mutatis mutandis). os fogos de artifício seriam a brigada anti-voo líbio. mais adiante, no mesmo Segundo Caderno a que me referi há instantes, vemos na p.3 uma tira de Rekern: três quadrinhos. no primeiro, vê-se a Torre Eiffel e o dístico: "liberté...", no segundo, está o Arco do Triunfo e a "égalité..." e no terceiro, vemos um dos aviões de guerra a serem adquiridos pelo Brasil (ou sei lá) e o dístico: "bombardé!!!". faço meu protesto com mais dois haikais (talvez os primeiros da categoria dos haikais sinaléticos) sem título:

SEM TÍTULO i
felizes dos amigos do seo Ismael que:
.a. ainda estão vivos
.b. ainda vivem no Brasil.

SEM TÍTULO ii
infelizes dos amigos do seo Ismael que:
.a. ainda estão vivos
.b. ainda vivem no Brasil.
DdAB
p.s.: por puro acaso, indaguei a um menino de rua a diferença entre "chop" e "cut". ele respondeu que " 'chop' é quando tu toma chope e 'cut' é quando tu mata um gato". na língua do "p", pensei que Pedro Pedreiro é proposta do passado, no pretérito perfeito, em particular.
p.s.s.: a imagem saiu d(aqui) e parece que não era bem a intenção deles ilustrar uma postagem como a minha. como sabemos, a contabilidade social estuda o desempenho da sociedade humana nas dimensões econômica, sócio-demográfica e ambiental. voto pela colocação em primeiro plano da reciclagem humana, depois é que viria a ambiental. e, claro, estamos mal, ainda que, também Vinicius disse: "e no entanto é preciso cantar".

sábado, 26 de março de 2011

Grande Moreno e os Neologismos

querido diário:
diário é um chumaço de papel onde se escreve diariamente. logo, to be true, não és meu diário. mais que isto, não és um diário em português, pois -se o fosses- não portarias os dizeres "to be true", sabidamente letras que formam palavras em línguas alienígenas. qual a probabilidade de "to be true" tornar-se expressão contemporânea ao português, como

álcool, banana, canguru, chocolate, elefante, fax, fubetol, gay, hotel, jazz, jeans, microfone, ninja, planeta, rádio, sauna, táxi, teatro, telefone, tigre, vídeo, violino, xerox, ioga e zoom

que estão listadas no artigo de hoje de Zero Hora (p.7), em seu Caderno Cultura, intitulado "O tsunami", tendo por autor o prof. Cláudio Moreno, sob o título geral de "O Prazer das Palavras". sou fã (tinha fã acima? ou seria melhor dizer "sou fond", italizadinho). claro que sua listagem é incompleta e talvez ninguém possa completá-la, pois há vocábulos que são usados por grupos tão especializados, seitas tão secretas, que ninguém jamais rastreará o que quer que seja, inclusive palavras importadas partindo deles/as. por exemplo, se falamos em banana, devemos lembrar também batata. se já incorporamos "fã", devemos incorporar, incontinenti, fãzoca, e assim por diante.

a rason d'être de falarmos em tsunami é óbvia por um lado: acontecimento do mês. e de outro é o moto escolhido por Moreno para falar coisas que fascinam em sua coluna. ele refere um

[...] dr. Castro Lopes, homem de letras que chegou a gozar de certa notoriedade no final do século XIX. Defensor fanático de uma causa equivocada -ele se opunha à 'invasão' de vocábulos estrangeiros-, este filólogo diletante acabou se tornando um personagem cômico, que muito fez rir Machado de Assis [...]. [...] Estavam em sua lista negra: abajur (lucivelo), piquenique (convescote), turista (ludâmbulo), engrenagem (entrosagem), feérico (fádico), de 'fada'), drenar (haurinxugar),massagem (premagem), engomar (telisar, de 'tela'+'alisar'), golpe de Estado (legicídio social), greve (operinsurreição, insurreição de operários), chalé, (castelete).(negritos e itálicos removidos por mim)

Moreno também fala da invocação de Castro Lopes com "avalanche", querendo substituí-la por "ruminol" ou "alude". O "ruminal" merece mais, citado por Moreno: ru do latim ruere, correr precipitadamente, o que me lembrou de "run", simplesmente correr; ni, de nix, nivis, neve e mol, de moles, massa, ergo: "uma massa de neve que se precipita." depois ainda fala em fiorde, iceberb.

questiono-me se "aiceberg" e "tsunâmi" não seriam as melhores grafias para os icebergues e tsunamis. questiono-me rindo, na verdade, pois evoco o sr. Américo Pisca-Pisca, milenar reformador da natureza de Monteiro Lobato e do dep. Aldo Rebello, ambos invocados, os três, com Castro Lima, com os dizeres do povo. ainda não sei se o povo sabe que iceberg é aisberg ou aiceberg, essas tecnicalidades. a solução é que o país gaste mais em educação e não exigir que deixemos sem deletar a macacada que quer reformar a natureza ou apropriar-se de uma parte ilegítima desta. (n.b.: esta do "deletar" aprendi-a com uma professora em artiguinho publicado no boletim da Associação dos Professores da PUCRS, há priscos anos).

em outro ambiente, alertarei para a necessidade de diferenciarmos termos técnicos de neologismos. quem não diferencia se diferencia (na ignorância alheia ao academicismo). e devemos cuidar, pois tem o caso do walk-man, inventado, se bem lembro, por Akio Morita e estranho para o gramático da língua inglesa: walking-man? he-listener? walking-person?

mais ainda: este dr. Castro Lopes me rapou os trocos. não sei se Moreno diz, na verdade, que ele é que invetou este troço de "convescote", que eu sempre pensei ser um arcaísmo daqueles tempos, Joaquim Manoel de Macedo, o próprio Machado de Assis, sei lá. em compensação, parece que o "ludopédio" de que ouvi falar como termo esdrúxulo parece que tem mesmo o tipo de preocupação que levou a inventar o "ludâmbulo" para substituir "tourist".
DdAB
ps.: à propos este troço de "fã", o Aurelião discorda de mim: "do inglês americano, fan, forma reduzida de fanatic, 'fanático'." mas o Cambridge diz: "[ before noun ] having a great liking for someone or something". sou mais este "fond" do que "fanatic".
p.s.s.: a imagem internacional saiu d(aqui).

sexta-feira, 25 de março de 2011

Convenções e Incentivos Materiais

querido blog:
um tipo muito encontradiço de incentivo é o tapinha nas costas, no linguajar brasileiro. diferentemente do "coça minhas costas que eu coço as tuas", o tapinha nas costas não diz respeito a incentivos materiais. ele é, naturalmente, uma prova de apreço e até de agradecimento, mas -desacompanhado de incentivos materiais- representa apenas a prova de apreço, uma prova sem preço.

estas profundas reflexões sobre filosofia política foram feitas por mim mesmo ao deparar-me com um papelzinho que talvez eu mesmo tenha grafado (a letra me não é estranha) e que dizia: conventions are even more important than material incentives. presumo que isto seja inglês. presumo que o leitor arguto terá -como convenção em sua mente- que itálico significa citação em língua estrangeira. agora, se é inglês de primeira classe, pode ser que esta frase tenha mesmo saído de minhas lembranças da leitura do livro de microeconomia de Samuel Bowles, o livro da mais estratosférica importância que jamais li. ou melhor, que li.

em outras palavras, eu andava dizendo com muita frequência que os incentivos materiais movem montanhas, que a lei da gravidade é mais secundária do que a lei da oferta e procura para a explicação de ações humanas, especialmente -se me não torno óbvio- os serviços de transportes aéreos e todo o ministério da aeronáutica. não precisamos ser argutos para entender que a lei da oferta e procura existe do jeito como a conhecemos precisamente porque ela tem pré-requisitos. um deles é -evidente- a lei da gravidade (não fosse ela, não precisaríamos de aviões, sei lá). e o outro é o elenco de convenções criadas e aperfeiçoadas pelos macacos e seus descententes, até chegar nos avós de Darwin e, momentos depois, em meus próprios avós. not to speak of yours. (e, por convenção, este "yours" tem "s"?; diga lá, meu senhor do bonfim).

tudo isto evoca-me as cinco funções da ciência, não é mesmo? e quais são elas?
:: descrição (descrever)
:: compreensão (compreender)
:: explicação (explicar)
:: previsão (prever)
:: recomendação (recomendar).

claro que isto faria apenas sentido num contexto muito mais amplo, iniciando-se mais estritamente com uma boa definição de ciência. hoje -filosofo- a maior parte das incompreensões sobre o "método científico" têm mais a ver com "científico" do que com "método". em particular, em que a descrição do aniversário da avó da primeira macaca teria de científico? ou, por outra, que aspectos da descrição dessa efeméride poderiam catalogar-se nos vetustos anais da ciência? e quem teria tido a ideia de chamá-los de vetustos?


DdAB
p.s. a imagem veio d(aqui). achei-a -divertida, ainda que ligeira inexatidão (eu mesmo -sem maiores reflexões topológicas- vacilaria entre escolher a porta "ortogonal" ou a "acutângulo") e viés para o "politicamente incorreto"- ao procurar no G-Images termos do título da postagem. eu mesmo estabeleci uma convenção de não usar palavrão neste blog e entendo que falar no ângulo de escape do xixi é um dos biversals, de que temos falado Umberto Eco e eu, é mais humano do que a sentença de Terêncio.
p.s.s.: preciso esclarecer -para não passarem desapercebidas- que há piadinhas contidas no primeiro peésse.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Democracia no Brasil: Morre Liz Taylor

querido diário:
o ministro Fux (undécimo e recém nomeado para o poder judiciário), nos pênaltis, restaurou a democracia! como é que poderia uma cáfila de neguinhos serem ladrões e estarem cumprindo mandatos parlamentares eletivos e outra -de igual ou maior porte- malta ter sido eleita pelo Povo (com "p" maiúsculo, por ironia relativamente aos mandantes e solidariedade aos desvalidos) e impedida de ganhar seu "salário" regulamentar compatível com suas atividades. uma vez que desespero não desempata partida de futebol, tento aprumar-me e lançar à blogosfera algo mais construtivo do que simples lamentos.

consideremos os rígidos critérios para nomeação de uma advogado para a sinecura ministerial: reputação ilibada, destacado saber jurídico, exemplar história de vida (privada e pública), essas letras mortas. quando começa muito empate nas votações, uns 5/11 ou 6/11, sugiro o seguinte procedimento para levantar o empate (o equivalente dos pênaltis do ludopédio). chama-se o diretor da Casa da Moeda, instando-o a portar consigo a moeda perfeita. roga-se-lhe que a lance desenviesadamente. se der cara, ganha o 5/11, se der coroa, ganha o 6/11.

em outras palavras, onde falha o saber jurídico, que entre em ação a lei da distribuição qui-quadrado e outras aparentadas. agora, aparentemente todos os juízes são de acordo que seus colegas políticos deveriam ater-se à lei do orçamento. então por que não se a cumpre? por tudo isto, fiz mais um haikai:


FICHA LIMPA
sou pelo cumprimento
nem podia deixar de ser
da lei do orçamento.

be however it may, tanto ou mais do que a validação dos votos em neguinhos que a impresnsa batizou de "ficha suja", e que eu sempre intitulei de "chapa branca", quem verdadeiramente chocou-me hoje ao ler Zero Hora, foi a morte de Eliçabete Alfaiate (tradução não-revista). agora não lembro se Ricardo Furtado (idem) -por quem nutri indisfarçado ciúme- era apenas Oxford ou -sublime delírio divino- também St.Peter's.

nesta linha, preocupadíssimo com o passamento de minha atriz dileta, olhei mais detalhadamente o Caderno de Cultura de Zero Hora. mas, ao invés de alegrar-me, fiquei arrepiado com alguns dos lugares comuns que li, relativamente ao fato. no primeiro deles, fala-se do filme "Assim Caminha a Humanidade". fala-se da "figadal rivalidade" de Rock Hudson "com o ex-empregado Jett (James Dean), rapaz que enriqueceu após descobrir poços de petróleo. Rivalidade esta que tem como combustível a permanente tensão erótica entre Leslie e Jett." esta do petróleo e o combustível é de fazer chorar. mas não paremos por aí...

na mesma página, fala-se direto: "Ao se apagar a luz dos olhos violetas de Elizabeth Taylor, boa parte do brilho da época de ouro de Hollywood também se extinguiu". este é um lugar comum mais comum do que o anterior. o anterior relembra-me do estilo inesquecível de Lourdette Hertel. por puro acaso, vi Liza Minelli falando algo parecido, tipo "Hollywood perdeu parte de si", sei lá.

agora, nem todo o lugar comum é mal-visto por pessoas de fino trato. por exemplo, no caderno principal, p.14, há uma manchete noticiando que o endiabrado deputado Índio da Costa, que era do Partido Democrata/ático (?) e candidato derrotado, com José Serra, à vice-presidência da república do combalido (epa, os lugares comuns me assolam...) país. diz a chamada: "Mais um na Tribo". e a manchete: "Índio da Costa irá para partido de Kassab". será que nem todo lugar comum é lugar comum? será que o partido de Kassab baila com o "Demo" como se baila na tribo?
DdAB
p.s.: a foto, que capturei do Google Images com "pescara cesare battisti", parece ser uma casa da Via Cesare Battisti, em Pescara. ou não é e não lembro mais de nada. obliteração anti-democrática é o nome científico do mal que me aflige por ver tantos meninos de rua no Brasil e os réprobos ganhando R$ 30.000 ou mais. por que evoquei aquela via em que transitei há um ano? porque prevejo que o próximo voto do dr. Fux será a extradição do xará do advogado italiano, também italiano, mas apenas este sitiado no território brasileiro.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Profecias Ex Post: Belluzzo e a Decadência Americana

querido diário:
por razões imaginárias, apenas hoje é que vim a ler o artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, na p.29 da Carta Capital da semana passada. o título é "Obama não leu Roosevelt". disse que disse: "só 'ter medo do próprio medo'." esfingéticos. os três, e não me ponho atrás...

o que me deixou de orelha em pé foi o seguinte trecho:

É ingênuo imaginar que as omissões e recuos de Obama são apenas produto de uma personalidade frágil. A explicação é fácil demais para ser verdadeira. As vacilações do presidente exprimem, na verdade, o enfraquecimento das bases sociais do Partido Democrata. A desindustrialização promovida pela 'deslocalização'  da grande empresa suscitou não só a destruição em massa dos empegos nas fábricas, como também reduziu as oportunidades de ocupação nos serviços ligados ao dinamismo industrial. Aumentou o número de empregados precários em serviços de baixa remuneração. A queda dos rendimentos dos 90% inferiores da escala de distribuição de renda nos últimos 30 anos - o que inclui o declínio da classe média americana - não é novidade para ninguém. A desorientação do Partido Democrata não é um fenômeno recente. Há que lembrar o papel de Bill Clinton e de seus colaboradores, Lawrence Summers e Thimoty Geithner, na 'batalha' pela desregulamentação financeira que culminou, em 1999, com a promulgação da Lei Gramm-Leach-Bliley. A lei abriu as porteiras para as façanhas dos espertalhões e sabidos do mercado financeiro, legitimado pelo esoterismo de modelos pseudocientíficos de precifivação de riscos, sob o manto protetor das agências de avaliação da qualidade dos ativos.

fiquei pensando em retórica e lógica. parece até que me acomete aquele divertido mal-estar de Hargreaves-Heap & Varouvakis em seu livro de introdução à teoria dos jogos ("nosso descontentamento ainda é maior porque nem sabemos bem o que nos incomoda no argumento do outro", em citação e tradução livres). eu acho que Obama é um fracasso. uma personalidadae frágil ajudou o fracasso.

as bases sociais do partido dos democratas não foram corroídas a ponto de ele ter feito uma votação absolutamente extraordinária para os padrões americanos. todo o descontentamento dos fracassos distributivos (leia-se emprego. e também gastos públicos progressivos. e também tributação regressiva) não se devem aos democratas, pelo menos não nos últimos 10 anos, Bush. este é o nome. a reconcentração da renda, a desregulamentação financeira é um fracasso de Bush e antecedentes. os modelos pseudocientíticos podem ter sido responsáveis precisamente pela vitória de Obama.

algo está mal-explicado para mim. como é que pode o povo ("o povo"?) ter cambiado de lado tão rapidamente? como é que pode o presidente americano ter-se contido em fazer o programa que a que se propôs nas eleições. seu manifesto eleitoral foi ao lixo. como é que pode? acho que nem Belluzzo nem eu sabemos, para citar apenas dois.
DdAB

foto maravilhosa do maravilhoso blog lennoniano. por aparoximação a Belluzzo, detive-me em Beluno.

terça-feira, 22 de março de 2011

Tarso, Cadafe e o Tráfego Aéreo

querido diário:
vemos já na capa de Zero Hora de hoje uma notícia alvissareira. o bacharel em direito, sr. Flávio Vaz Neto, que fora nomeado dirigente do departamento de trânsito durante um período em que houve acentuadas falcatruas, inclusive algumas envolvendo o digníssimo deputado (reeleito) Otávio Germano, foi preso (o Flávio) e, durante o período de xilindró ou de inquérito policial destinado a investigar ladroagem, requereu sua aposentadoria e a teve concedida. se bem lembro, a chefe da repartição da qual Flávio estava licenciado teria sido sua subordinada ou mesmo funcionária em outra circunstância. ou seja, in dubio, pro reo, pensei eu que pensaria, caso estivesse no cargo dela. mas, dado que, no xilindró, não se pode dar expediente como funcionário estadual, ele não estaria -seguiria meu raciocínio- trabalhando. por mais vigoroso que fosse seu estipêndio, nada melhor do que oficializar o ócio por meio de uma merecida aposentadoria. mas não era merecida, pois funcionário na cadeia é preso e não funcionário, não é mesmo? seja como for, a companheira chefe da procuradoria geral do estado não pensou assim. nem todos os pensadores, retifico, são companheiros...

se bem lembro, quando fiz o concurso público para a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, tive que ler a lei que rege as relações de trabalho com o funcionário público. e lembro de ter lido que, se o trabalhador cair em cana, ele perde seus estipêndios, até sair do xilindró. e teria que ser, claro, até ser inocentado. não se pode, claro, deixar dentro do quadro ativo dos funcionários neguinho que tem processo pendente na justiça. isto é o que acaba de acontecer com outros rapazes da tramoia dos fiscais eletrônicos de velocidade automotiva. para nada referir ao tráfego aéreo...

disse Juca Chaves há 50 anos: "qualquer ladrão é patente nacional". depois do período de altas patentes, seguimos desalentados. o povo, que já morreu, nasceu e morreu novamente e agora pena pelas ruas, desvalido, sem apoio oficial para nada, nem as merendas de Sapiranga foram devolvidas a quem as deveria tragar.

pensei tudo isto e achei que poderia ser mal interpretado, decidindo dizer que os nomes reais são apenas ficção. ou seja, o Brasil é um país ficcional. tanto o é que o governo da república declara-se pela paz e achou estranho que a macacada européia-americana fique bombardeando as tropas de Cadafe que, por seu turno, estava bombardeando as tropas (no sentido bovino, pilhas de cabeças) de seu povo. meu mal-estar com estas questões mundanas é indisfarçável. odeio ser assaltado. odeio ver outros assaltados. sempre que houver alguém cuja liberdade foi restringida por qualquer que seja a razão (claro que o ficcional Flávio não conta, nem a chefa que lhe abriu a sinecura), o conceito rawlsiano de sociedade justa faz-me também viver no ambiente alheio à justiça. cada menino de rua é um grau de liberdade a menos em minha própria liberdade. cada menina de rua grávida já conta como dois graus a menos. e assim por diante.

parece óbvio que um exército que usa aviões para bombardear seu povo armado é estranho. parece óbvio que um povo armado contra um governo também é estranho. parece óbvio que "dois bicudos não se beijam". parece óbvio que a Corte Internacional de Haia é que deve tomar conta de tudo. parece óbvio que o Brasil deveria olhar para seus próprios meninos de rua, antes de querer participar do grand monde dessa macacada. parece óbvio que também a China tem lá seus probleminhas que precisariam ser resolvidos por alguém de virtudes morais e intelectuais mais avantajadas do que aquelas lideranças que não vacilam em reprimir com severidada cadafiana qualquer "assomo de la cabeça". parece óbvio que, "no entanto é preciso cantar"! na outra canção, neguinho disse "you might as well jump!".

não bastasse, no outro dia mostrei meu escabelamento frente à notícia de que a reforma política começou preocupando-se com a duração dos mandatos e a reeleição de cargos do poder executivo. parece óbvio que apenas ontem é que vim a saber que a iniciativa desta nova mudança institucional, tão aplaudida pelo povo, dado o espantoso número de reeleições, foi orquestrada pelo macróbio Itamar Assumpção, digo, Itamar Franco, o homem do topete, o homem que galgou a presidência da república por ter sido apaniguado com a carona de vice-presidente do caçador de marajás, monsieur Fernanddo Collor de Mello. parece óbvio que, se queremos repetição de letras em uma palavra, podemos falarem occipital, essas coisas.
DdAB
p.s.: a imagem veio d(aqui). desnecessário dizer que vejo com muita ironia a designação contemporânea de "companheiro" à macacada que fica mais de oito anos no poder. inclusive deputados e vereadores!

domingo, 20 de março de 2011

Arafá, Cadafe e o Governo Mundial

querido blog:
hoje é domingo. quem não sabe que é dia de fumar cachimbo? quem não sabe que hoje não mais se fuma cachimbo ou cigarros de papel? pensei em postar algo na linha da política, pois o mar não anda para peixe, ou vice-versa. quem não sabe que eu já andei falando nesta biunivocidade entre mares e peixes muitas vezes. o que não falo (o de que não falo...) é que é necessário manter um olho no mar e outro no peixe, ou melhor, um no gato e outro no peixe. seja como for, hoje segue sendo domingo e este parágrafo não merece classificação em "Economia Política" nem -talvez- em "Escritos". mas deixe-me forçar uma recuperação.

agora, cheiraríamos mais a "Escritos", se disséssemos que a grafia de Arafá e Cadafe que usei acima e agora repito, para o bem da língua portuguesa, foi-me inspirada pela crônica da semana que agora finda, já em pleno outono, -não é isto?-, de Luis Fernando Veríssimo na p.2 da sempre Zero Hora. ele brincava que o problema com a Líbia. mas passemos à "Economia Política".

parece não haver no Planeta 24 (ou seja, na Terra) situação terrível que se prolonga há mais tempo do que o drama Israel-Palestina. para não falar em terrorismo de parte-a-parte, devemos deixar claro um corte divisório entre "ética" e "tirania" que diz respeito a massacre (ou até agressões mais brandas) a populações civis. como não havia, em certos momentos, estado palestino, não poderíamos falar que este agredia populações civis -digamos- de israelitas. simetricamente, ainda que nunca houvesse sido dito |(nunca?) que determinados atos beligerantes serviriam como retaliação, civis pagaram a conta de divergências que não têm diretamente a ver com seus interesses cotidianos. quero dizer: um indivíduo tem o direito à vida e, como tal, a um espaço tridimensional em que deposite seu corpo e mais áreas circundantes que lhe permitam mover-se, como as bactérias de seguda geração.

em muitos momentos o estado de Israel desviou o curso de populações civis com bombardeios. penso que alegadamente eram direcionados a alvos militares. são dois povos, não quero justificar o bombardeio de quem quer que seja. sou pela Da Paz! e tampouco justifico os atos de violência de cidadãos palestinos contra civis israelenses. mas o que me fez associar Arafá com Cadafe foi uma declaração que li, atribuída ao primeiro, condenando o "terrorismo" e dizendo que é inconcebível que se bombardeiem populações civis. eu acrescento: é o fim-da-picada.

sobre Cadafe, o que posso dizer é que sua capacidade de discernimento em encontrar chefes militares que se mantêm leal a ele neste contexto simplesmente clama pela condenação do estado líbio. é inconcebível que um chefe militar não se sensibilize à perspectiva da eclosão de uma guerra civil. não pode, é inconcebível, que um exército reproduza o famoso massacre de São Petersburgo. não pode! tem que negociar. sou Da Paz! Arafá está coberto de razão! não pode agredir populações civis. governantes, em minha opinião, carregam genes de ladrões, como bem sabemos. como tal, têm extraordinária facilidade de desenvolver uma moléstia chamada de psicopatia.

para afastar ladrões e psicopatas da política hoje, mais que nunca, o que se torna claro é o arcaímo institucional ilustrado pelos estados nacionais, todos devendo ser reproduzidos pelo governo mundial. este, além da substituição das redes criminosas hoje em vigor (armas, drogas, escravas brancas, e por aí vai), deverá encarregar-se de atividades extra-nacionais, como a macroeconomia internacional, o meio-ambiente e a criação de capital humano! o começo desta ação, especialmente direcionada para a criação de capital humano e produção de amenidades ambientais é a renda básica universal.
DdAB
p.s.: no wonder, minha pesquis de imagens no Google não deu nada para "arafá + cadafe". vejamos "governo mundial". deu (aqui).

sábado, 19 de março de 2011

Sonetos Zero, Haikais Um. E Mais.

querido diário:
a propósito da repercussão do soneto de sua autoria que dei ao conhecimento público e das demais reflexões que andei fazendo juntamente com o prof. Marcelo Baimler sobre o tema, o capitão Adalberto de Avila envia-me o seguinte haikai:

QUEDA DE CAVACO
o cavalheiro,
caindo emplena neve,
encantos teve

haverá semelhança entre um soneto e um haikai, artes em que, podemos bem ver, A.de.A. é bem versado e prosa? ele argumenta que há: o compromisso com uma forma rígida. no primeiro caso, os 14 versos com número de sílabas variáveis (entre sonetos) e rimas (facultativas, dos diferentes tipos já catalogados e outros que o professor Marcelo ainda indicará) e os três versos do haikai (originalmente com cinco, sete e cinco sílabas). adita que o desafio ao poeta é expressar suas emoções dentro desta "camisa de força", desta "máquina de arrancar alegria ao futuro", numa visível referência a Maiakowski. eu não posso deixar de notar que também ajudam a aproximar um e outro o fascínio do rompimento com a forma rígida e o tratamento poético que pode ser dado à rebeldia assim nascida.

neste clima foi que o prof. Marcelo Baimler prometeu-me (para divulgar neste Planeta 23) um soneto de sua paternidade (ainda em composição) em que haverá rimas de ... (deixemos que ele mesmo nos diga o que lhe enrijece as rimas, já que seus movimentos pilatianos são leves como a asa da graúna e suaves como favos de mel...).

a Wikipedia (ver) diz que Afrânio Peixoto introduziu o haikai no Brasil. para mim, quem o fez foi Millôr Fernandes. leio-o desde os anos 1950s, quando aprendi a ler. no caso, foi -talvez, espero- a mais tenra forma de demostração de bom-gosto que o menino fez. eu sabia que estava lendo algo solene naquelas páginas de humor lá da revista "O Cruzeiro", no mais, um tanto estranha...

Jorge Luis Borges tem incursões no mundo oriental. ele fala em "tankas", esclarecendo que são poemas japoneses de estrofes rigidamente formadas por cinco versos, respectivamente, de 5-7-5-7-7 sílabas cada. preocupado com a métrica, vemos na p.465 do v.2 de suas Obras Completas/Emecé:

No haber caído,
como otros de misangre,
en la batalla.
Ser en la vana noche
el que cuenta las sílabas.

esta auto-referência do poema a sua álgebra é -muito me parece- pós-moderna em escopo e intenção. o mesmo Borges também brinda-nos com 17 haikais (grafando "haiku") nas p.333-4 do v.3. trata-se da reimpressão, nas Obras Completas, do livro "La Cifra", de 1981. lá vai, segura ele aí:

I
Algo me han dicho
la tarde y la montaña.
Ya lo he perdido.

II
La vasta noche
no es ahora otra cosa
que una fragancia.

III
?Es o no es
el sueño que olvidé
antes del alba?

IV
Callan las cuerdas.
La música sabía
lo que yo siento.

V
Hoy no me alegran
los almendros del huerto.
Son tu recuerdo.


VI
Oscuramente
libros, láminas, llaves
siguen mi suerte.

VII
Desde aquel día
no he movido las piezas
en el tablero.

VIII
En el desierto
acontece la aurora.
Alguien lo sabe.

IX
La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

X
El hombre ha muerto.
La barba no lo sabe.
Crecen las uñas.

XI
Ésta es la mano
que alguna vez tocaba
tu cabellera.

XII

Bajo el alero
el espejo no copia
más que la luna.

XIII
Bajo la luna
la sombra que se alarga
es una sola.

XIV

?Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?

XV
La luna nueva
Ella también la mira
desde otro puerto.

XVI

Lejos un trino.
El ruiseñor no sabe
que te consuela.

XVII

La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.


também com seriedade, Érico Veríssimo dedicou-se ao tema. em seu "O Senhor Embaixador", de 1965, que cito a partir da cópia de 1997 da Editora Globo (São Paulo). temos

PRIMAVERA (página 42)
Libélulas? Qual!

Flores de cerejeira
Ao vento de abril.

INVERNO (página 110)
Na alva neve,
A rígida mancha azul
Da ave morta. 

SERVIÇO CONSULAR (página 187)
Com cartas brancas,
O senhor cônsul solta
Pombos de papel

VERÃO (página 250)
Moscardo verde
Fruta madura no chão...
Ó mel da vida!


SEM TÍTULO (página 286)
Gota de orvalho 
Na corola dum lírio:
Jóia do tempo.

OUTONO (página 314)
Bosque de cobre,
Borboleta amarela,
Esquilo fulvo.

JARDINEIRO INSENSATO (página 392)
Passou a vida
A cultivar sem saber
A flor da morte.


neste clima, comecei a procurar outros "would-be" haikais. não demorei e achei o que segue (com título de minha autoria, na página 203 de "O Senhor Embaixador"). em  outras palavras, não era um haikai, mas eu é que assim o fiz:

SAIR DO GABINETE
[...] não devo ser pessimista [...].
Estou vivo e com fome.
E o sol ainda brilha.

então achei que a democratização do haikai é uma necessidade para quem não os consegue fazer "from scratch". minha primeira investida deu-se no livro "A Cidade e as Serras", de Eça de Queiroz, que comecei a ler ainda em Lisboa e ainda não terminei os 100% (a modéstia impediu-me de dar um título): 

SEM TÍTULO
Com que brilho e inspiração copiosa
Três carneiros retoçavam de pijama
Extasiados com o montão de telegramas.

onde? ver as páginas 139, 176 e 49 da edição Livros do Brasil, de Lisboa, de 2010. um tanto nonsense, admito. um tanto Adalberto de Avila, se ele me perdoa a alusão oblíqua. um tanto perto do nosocômio. em outras palavras:

SEM TÍTULO
um tanto nonsense
um tanto nosso A.de.A.
um tanto nosocômio.
DdAB

não contente -mas mais circunspecto- segui, altaneiro. uma vez que pretendo, assim que terminar de ler as aventuras de Jacinto de Thormes, passar ao intrigante "Correspondência de Fradique Mendes", Resomnia, de Lisboa, de circa 1988. na leitura de contato,campeei o seguinte haikai, a que aditei (odiosas) mutilações: 

SEM TÍTULO
Cheia de rugas, cheia de saudade, [...]
Doces srões do céu, entre as estrelas!... [...]
A minha intimidade [...] começou.

trata-se do terceiro verso da primeira estrofe do poema "A Velhinha" (p.7), do segundo da terceira estrofe de "Serenata de Satã às Estrelas" (p.9 e um tanto "Simpathy for the Devil", you know where from...). não é impossível que Adalberto de Avila tenha-se inspirado (ou mesmo plagiado) o haikai "Inverno", de Érico Veríssimo. mas não devemos assustar-nos, pois o próprio verso "da ave morta" tem 3.220 entradas no Google.

quer mais democracia do que citação a comentadores deste blog? veja então o haikai de Guilherme de Almeida (que teria sido o grande divulgador do haikai no Brasil) no site http://pt.scribd.com/doc/47422227/Boa-Companhia-Haicais. dois pontos:

PACAEMBU
Chuva e sol. Repara
Nas giestas atrás das frestas
Das persianas claras.
DdAB
imagem copiada de http://psvsite.com/cronicas/.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eventos do Dia

querido diário:
hoje é um dia muito especial, como demonstra a imagem acima. trata-se da aula de "pilates" de que participei há menos de uma hora. o prof. Marcelo, a Cíntia, o Hervê e myself todos movimentando o corpo, ele dando o exemplo, o povo unido seguindo-o (ver site).

o dia é especial por duas razões.

a razão que me faz marcar a postagem com "Economia Política" é que ia fazer uma viagem sobre os dias perdidos na vida econômica de um país. em geral, os países civilizados contabilizam os dias de greve, os dias perdidos com greves. no Brasil, decidi começar a contabilizar os dias perdidos com iniciativas que afastam o mundo do socialismo, da sociedade igualitária, do que quer que seja de interessante. aproximam-no dos tsunamis, da corrupção e dos políticos de qualidade comprometida por apodrecimento moral. refiro-me tanto ao novo escândalo do estado do Rio Grande do Sul, este ninho de corrupção e vergonha. agora temos outros ladrões, associados a um carimbadíssimo, ganhando R$ 3 milhões com mexe-mexe na licitação de equipamentos de fiscalização no trânsito. no wonder este mata mais que bala de carabina, que veneno estricnina, que peixeira de baiano e que qualquer das doenças convencionalmente catalogadas pela O.M.S. era apenas isto? claro que não: o senado federal (devia ser fechado, como o estado do Rio Grande do Sul e os demais estados) já aprovou um projeto de lei que volta a discutir os mandatos parlamentares: se pode reeleição, no caso, não pode. cidadãos do porte moral de um Luiz Henrique e outros odeiam a ideia das reeleições. ou seja, querem mandatos de cinco anos sem direito à reeleição. só bebendo.

ok. o dia é especial não por causa destas querelas anti-democráticas. é muito especial porque, entre os bailarinos da aula de "pilates" de hoje, havia um pas-de-deux de aniversariantes. como sabemos, praticamente todo mundo nasceu no dia 18 de março (Hervê e Cíntia, amigos pessoais, daí o marcador de "Vida Pessoal". e eu fiquei muito feliz de ser tio de uma garota distante desta turma. e -dado o enorme diferencial de performance nos exercícios e sobretudo o ano de nascimento- poderia declarar-me tio dos demais aniversariantes e do próprio professor. para não falar de relação avoenga dessa turma...
DdAB

quinta-feira, 17 de março de 2011

Abaixo o Desemprego

querido diário:
por que precisamos urgentemente da criação do "Serviço Municipal" e da "Brigada Ambiental Mundial"? na verdade, trata-se da mesma coisa, ambos propõem-se a arregimentar, dentre os indivíduos que recebem a renda básica universal e não são convocados pelo mercado de trabalho para ampliarem seus ganhos, os interessados em fazer trabalho comunitário de promoção de amenidades urbanas ou conservação de áreas rurais públicas. precisava definir melhor estes dois grupamentos de ocupações. um dia o farei indeed.

é preciso criar um colchão amortecedor do desemprego do setor privado. é inconcebível que, em pleno século XXI -depois de termos vencido a escravidão, no século XIX e a discriminação eleitoral contra a mulher, no século XX- mantenha-se o fantasma do desemprego para desestabilizar a família trabalhadora. o desemprego é uma chaga que atinge a todos da casa, menores, maiores, idosos, aposentados, estudantes, tudo, todos. o desemprego é uma chaga. além da questão igualitarista, há outros fatores apontando para a urgência da implantação da Brigada Ambiental Mundial:

.a. descolar o emprego da obtenção da cesta básica da cidadania: o nivelamento do consumo per capita das famílias é o maior antídoto contra a guerra civil.

.b. criar "spectacular awards" para o trabalhador que permanece empregado, permitindo-lhe descolar-se do padrão de consumo do cidadão médio (mas não em excesso, por causa da guerra civil).

.c. preservar o trabalhador desempregado convencional da degradação que acompanha o desemprego: além do desalento, a obsolescência de hábitos de disciplina e atualização de conhecimentos.

.d. descolar o grupo de t rabalhadores do setor produtivity enhancer do restante do emprego (não pode fazê-lo da população por causa da guerra civil) é a única chance de elevar de tal maneira a produtividade, de sorte a ampliar a renda per capita com cada vez menos emprego.
DdAB
p.s.: retirei a imagem ziraldiana que nos ilustra d(aqui).

quarta-feira, 16 de março de 2011

Camonianas e Outro Luis

querido diário:
tomado pelo espírito poético do sr. Adalberto de Avila (um parente afastado), decido postar mais dois poemas, desta vez com mais pedigree. ontem, falei em rimas paupérrimas, mas hoje desejo:

.a. falar de poemas que não parecem de quem os fez, mas de pósteros
.b. falar dos tipos de rimas que já cataloguei nestes anos de combate às trevas.

eu falava em rimas paupérrimas, como falei que falara. mas as rimas são: ricas e pobres. eu é que inventei a categoria das paupérrimas, que é quando não há rima. mas anteriormente, eu mesmo havia classificado as paupérrimas como aquelas em que se faz a palavra rimar consigo mesma.

então o soneto camoniano que rima "arder" com "arder":

Os olhos onde o casto amor ardia
Ledo de se ver neles abrasado
O rosto, onde com lustre desusado
Purpúrea rosa sobre neve ardia.

O cabelo, que inveja ao sol fazia
Porque fazia o seu menos dourado
A branca mão, o corpo bem talhado
Tudo aqui se reduz a terra fria.

Perfeita formosura em tenra idade
Qual flor que antecipada foi colhida
Manchada está da mão da morte dura.

Como não morre amor de piedade?
Não dela, que se foi à clara vida
Mas de si, que ficou em noite escura.

na classificação de ontem, este é um soneto do tipo
[1-2-2-1]   [1-2-2-1]   [3-4-5]   [3-4-5]

de sua parte, este soneto não parece de Fernando Pessoa? se você disser que não parece, que tal recitar todos os sonetos de todos os autores de língua portuguesa, exceto o de ontem, de autoria de Adalberto de Avila?

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
se tão contrário a si é o mesmo amor

naturalmente, agora estamos defrontando-nos com outro parecido, denominadamente:
[1-2-2-1]   [1-2-2-1]   [3-4-3]   [4-3-4],
não é isto?

pois bem. postagem confusa. já não sabemos se a rima pobre é rimar "feijão" com "pão". parece que sim, mas a dúvida verdadeira parece associar-se à paupérrima. talvez devamos chamar de paupérrima a que rima a palavra consigo mesma e super-paupér-rima a que não rima nada, como "tamanco" e "estrela". apropriadamente, ao falar em "estrela" lembro dos famosos versos de Jorge Mautner, lá no "Maracatu Atômico". ele rimou "estrelas" com "comê-las". achei lindo. o que não me parece lindo são estes cogumelos atômicos que voltam a tomar conta do Planeta 24 (ou seja, da Terra).


prosseguindo, vejamos outro autor de pedigree fazendo lá suas rimas -agora batizadas- de paupérrimas. estamos no poema "Arte Poética", primeira e segunda estrofes (e é tudo assim):

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro rio,
saber que nos perdemos com el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otros sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

pois este carinha é Jorge Luis Borges. além das paupérrimas, JLB ensina-nos que podemos rimar a palavra com outra palavra que a abriga. por exemplo, "briga" e "abriga", "anos" com "ensina-nos" e por aí vai. no caso concreto da realidade tangível, podemos ver o poema "Sherlock Holmes" (disponível num papelzinho). são 12 estrofes de quatro versos cada. a quinta estrofe deixa-se ler como:


No tiene relaciones, pero no lo abandona
la devoción del otro, que fue su evangelista
y que de sus milagros ha dejado la lista.
Vive de un modo cómodo: en tercera persona.

e, na sétima, temos:

(Omnia sunt plena Jovis. De análoga manera
diremos de aquel justo que da nombre a los versos
que su inconstantesombra recorre los diversos
dominios en que ha sido parcelada la esfera.)

ok?
DdAB

p.s.: fonte dos sonetos: papelzinho dobrado que me passou um menino de rua, um dia destes.
p.p.s.: a linda imagem que espero não tenha signos desagradáveis ocultos veio de: http://www.astormentas.com/PT/multimedia/Lu%C3%ADs%20de%20Cam%C3%B5es.

terça-feira, 15 de março de 2011

Soneto do Dois De Dois

querido blog:

tornei-me poético. do melhor jeito que posso. emocionei-me com um número finito de telefonemas que hoje vim a receber. isto que o dia não está nesta parte do planeta nem há 12 horas. seja como for, arrisco-me, inclusive a receber acusações de plágio, pois
.a. este original de Adalberto de Avila -precisamente por ser original- ainda não fora divulgado
.b. esta de "luas surgirem no formato de tamancos" (sic) é casca grossa, e publico
seja como for, dou a público, a certo e especial público:

Soneto do Dois De Dois
Adalberto de Avila

Lá vem a Lua surgindo
Redonda como um tamanco.
Se não me deres um beijo
Eu te digo um desaforo.

A la veca vica voca.
Voca voca. Voca vuca,
Que não te falo de vaca,
Pois a goiabada em curva

Me fez tontear feito ferro.
Eu, que não uso gumex,
E de boi têm-me chamado.

E esta luta ao luar
Com minha nova bicicleta?
Quase vou panela adentro.

desnecessário dizer que poderei enfrentar problemas por causa da divulgação deste tipo de arte. arrisquemos. sigamos. garbosos. glabros. além disto, um soneto intitulado "dois e dois" pode receber interpretações matematicamente erradas. afinal, dois e dois são "2 + 2"? ou "2 * 2"? ou "2^2"? que tal "64" (no caso, um velhinho de sessenta, com sua velinha sentado durante quatro anos). ou algo ainda pior: algo encontradiço na tradição de soneteiros como Jorge Luis Borges (e, hopefully, outros), fazendo o que chamamos (we, the people) de rima paupérrrima, pois nada rima. em outras palavras, há 14 palavras completamente assonantes entre si. nomeadamente, surgindo, tamanco, beijo, desaforo, voca, vuca, vaca, curva, ferro, gumex, chamado, luar, bicicleta e adentro. adeus.
DdAB
p.s. achei que o melhor mesmo para uma postagem deste calibre (quilate) seria ilustrá-la com algo totalmente meu: uma foto. e vou aproveitando para esclarecer aquela velinha chamejante: ontem cumprimentei o econ. Daniel Simões Coelho (aqui) por seu aniversário. acender as velas já é profissão. Zé Quéti?

segunda-feira, 14 de março de 2011

Dinheiro: nem o tsunami segura

querido diário:
está na moda agora falar de dinheiro. por causa do filme. muitos têm-se referido ao filme como se fosse a salvação do projeto humano. muitos referem-se ao capitalismo como o condutor à débacle humana. muitos se referem ao tsunami como o responsável pela débacle japonesa.

eu lamento profundamente a tragédia que se abateu sobre a turma de São Lourenço do Sul, da Líbia e do Japão. além de tragédias de menores dimensões que se abateram sobre bilhões de pessoas por ests dias (milhões destas jamais serão noticiadas, nem mesmo notadas pelas próprias vítimas; disse Elis Regina: "não vive, apenas aguenta").

o que me chama a atenção neste momento é a necessidade de compararmos as perdas inflingidas à sociedade japonesa por causa desse desastre natural (disse o menino de rua: "viver em planeta é fumeta") com as provocadas em meio mundo (até mais que 0,5) pela tragédia de agosto/setembro de 2008. e pela de 1987 no próprio Japão. tragédias financeiras destróem mais valor do que tsunamis.

a solução, como vou tentar convencer about um menino de rua, é a securitização do planeta.
DdAB
a ilustração de hoje não é Rothko II, mas http://detudoblogue.blogspot.com/.

sábado, 12 de março de 2011

Imposto de Renda x CPMF: Dilma no Planeta 23

querido blog:
em resposta às recentes postagens do Planeta 23, a p.17 de Zero Hora de hoje informa que

Dilma aproveitou [a postagem?] para informar que estuda novas faixas de contribuição do IR. Ou seja, tentar reduzir o IR de trabalhadores que ganham menos e elevar o pagamento de quem têm renda mais elevada. O governo não deu, porém, detalhes de como pode ser feita a mudança.

ok, ok, não era bem isto. nenhuma delas - o jornal ou o trator - referiram-se a este blog. ao contrário, eu é que me refiro a eles. e quero saber como é que Zero Hora vai noticiar a encrenca que começa a ser criada com a nota dos generais sobre a lei que quer zerar a anistia. parada dura. voto na Dilma, mas sempre disse que este negócio de revanchismo é bom para a Argentina. o Brasil deveria era dar revanche aos meninos de rua e à Lei do Orçamento. o "constitucionalismo" ("constituinte", plebiscitos monarquia x república, porte de armas") tem levado apenas à breca.
DdAB
a imagem de hoje selecionei-a com "dilma, dilma, dilma" em http://www.faxaju.com.br/viz_conteudo.asp?id=104111.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Águas vão rolar

querido diário:
este título é mais bíblico do que carnavalesco. de minha parte, desgosto de ambos. devemos lembrar que sou da campanha "Ateus, saiam do armário". dentro de alguns anos, vou comemorar meio século de adesão. ainda assim, preferiria ser designado como agnóstico, como pragmático. o melhor mesmo é não problematizar este tipo de questão para o qual a humanidade ainda está despreparada sobre a busca de respostas consentâneas.

refiro-me à fúria das águas que caíram sobre o sul do estado mais meridional do Brasil, como se orgulham alguns. e subiram sobre a Ilha do Sol Nascente, como bafejam outros. vi algumas cenas na televisão e achei-as absolutamente chocantes. o mundo está louco, diria a bíblia. deu a louca no mundo, diriam os carnavalescos.

a moral da história para mim é a valorização da legenda de uma canção que vou encomendar a um menino de rua um dia destes: nada mais difícil do que a vida em planetas. o que eu queria era poder cantar para eles mais do que Carlos Drummond de Andrade: eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.
DdAB
p.s. não darei a fonte da imagem de hoje, capturada -como praticamente sempre- do Mr. Google Images Man, mas editada de maneira devastadora por mim. fica o desafio para algum comentador adivinhar o que é e de onde veio. a busca foi operada com "editora ganges".

quinta-feira, 10 de março de 2011

Taxistas e Papeleiros

querido diário:
o transporte urbano de passageiros de Porto Alegre, cidade onde meus pés estão plantados, no presente momento, conta com dois agentes de primeira importância. além deles há outros que também são muito importantes, até mais. por exemplo, os motoqueiros, a tele-entrega, que ajuda a destruir algum resquício civilizatório que resta à rapaziada.

o primeiro dos dois agentes de primeira importância são os taxistas, motoristas profissionais. hoje deparei-me com dois, muito peculiares. o primeiro do primeiro do primeiro, sei lá, era um velho de baixo nível de formação cultural. falava coisas interessantes: férias em Laguna, Floripa e Camboriú. disse-me ter sido,anteriormente, motorista de caminhão. indaguei-lhe onde foi seu "mais longe". ele respondeu que foi Manaus. que foi Belém do Pará, que foi o Chile. fiquei a imaginar-me em seu lugar. um andarilho com carteira do trabalho assinada. só carteira do trabalho não me agrada, ao mesmo tempo em que só andarilho tampouco...

o segundo do primeiro do primeiro -não era isto?- era jovem, parecia ter mais educação, também polido, respeitoso, amigável. disse-me que não iria chover até domingo. enganou-se: chove copiosamente em Porto Alegre, no Menino Deus. já sei que em Higienópolis, faz tempo seco, mas já choveu pilhas.

o segundo do segundo, sei lá, são os papeleiros. venho obserando-os. venho pensando na hipocrisia e incompetência dos políticos brasileiros. na lei que criaram proibindo a circulação de carroças daqui a uns seis anos. nas medidas que estão adotando para que esta lei tenha alguma chance de funcionar. na probabilidade que associo ao sucesso das medidas. zero.

todos os motoristas de Porto Alegre são responsáveis -coletivamente, by the way- pelo caos do trânsito, pelos atropelamentos, pelo desrespeito ao pedestre, ao motorista, aos motoqueiros, aos carroceiros, aos cofres públicos, sei lá. claro que o trânsito é um caos por causa dos motoristas. mas a causa da causa, o que faz com que os motoristas sejam maus motoristas é a omissão do poder público. é a omissão da comunidade que não consegue expressar-se de maneira tocante. o conceito de banda podre pode ajudar-nos a pensar nas soluções que, vim a entender, passa pela democracia participativa. há uma banda podre no governo e há uma banda podre na comunidade. isto significa que haverá bandas sadias em ambos, governo e comunidade.

esta é que deve associar-se para pleitear melhores dias para as gerações futuras.
DdAB
a simpática foto (que modifiquei) veio de http://tamancolargo.blogspot.com/2007_09_01_archive.html.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Venha de onde Vier

querido diário:
ao datilografar estas letras, ouço "Cinderela", um bolero antigo. o primeiro verso veio-me à mente hoje ao ler minha praticamente indefectível Zero Hora. página 11. acabo de ouvir Ângela Maria: "e o meu príncipe encantado vai chegar". e depois uns "la-la-ri-ri" ou assemelhado. oba, acabou! volto a Zero Hora. nesta página 11, há uma chamada à matéria sobre mais dinheirinho para a saúde brasileira: Venha de onde vier, chegue de onde chegar...

o ministro da saúde, sr. Alexandre Padilha, foi radical:

Os recursos têm de vir nem que seja da Lua, de Marte, do pré-sal, de onde quer que venha. Mas tem que ter recursos crescentes para a saúde.

aparentemente ele estava dando continuidade a minha postagem de ontem, quando clamei por mais imposto de renda, iniciando a partir dos vencimentos superiores a R$ 5.000 mensais, alcançando a escalafobética (mas adequada) alíquota de 99,99% para rendimentos acima de R$ 30.000 mensais. afinal queremos mais mortes de crianças ou menos, mais acidentes de trânsito ou menos, mais analfabetismo ou menos, mais doentes ou menos? se tudo corresse direitinho, talvez nem precisássemos de tantos recursos para a saúde. as mortes do trânsito não gastariam em ambulâncias e salas de emergência, as hospitalizações por drogas não tomariam leitos hospitalares, seriam anuladas por tratamentos ambulatoriais. e assim por diante.

o conceito de justiça fiscal do Alexandre é que me deixa de orelha em pé. e, digamos, se os recursos viessem de um supermercado (refrigerado) de venda de órgãos humanos, essas coisas? eu sugeriria a ele retomar suas notas do curso de teoria da escolha pública que ele certamente terá feito, para ingressar na política, e pensasse no orçamento público como instrumento de alocação de recursos. com isto, nem precisaria preocupar-se com os recursos para a saúde, quem o faria seria a câmara legislativa.

na p.11, o segundo editorial de Zero Hora também complementa minha postagem de ontem. este fala em "menos de meia centena de privilegiados" que recebem do governo estadual cifras superiores ao máximo estabelecido em lei. eu não falei ontem, talvez nem tenha espaço para isto, mas este negócio de "irretubilidade de vencimentos" está mal contado, pois proventos da aposentadoria do delegado da Susepe não são "vencimentos" e sim "proventos da aposentadoria". quem não trabalha não ganha "remuneração dos empregados". a contabilidade nacional sempre apontou caminhos revolucionários!

de sua parte, o governador Tarso Genro garrou de sugerir que podemos estabelecer rendimento máximo para os funcionários públicos de apenas R$ 17.000 mensais. o salário mínimo -remember?- será de R$ 545 mil, divididos por 1.000, claro.

esta camarilha, este grupo de apaniguados insensíveis não consegue entender que o que lhes cai da boca é o que falta para educar a macacada que, sôfrega, brinca o carnaval.
DdAB
quer ouvir a "Cinderela", com Ângela Maria? se a reposta for (sim), clique (aqui). para ver a fonte da imagem acima, clique aqui.

terça-feira, 8 de março de 2011

Rothko (segunda postagem do dia)

querido diário:
temos a mesma imagem de Rothko (aqui) em diferentes tamanhos, com o explícito fim de dimensionar as distorções. um amador amando Rothko, as artes plásticas, a frase que acabo de ler: uma obra de arte é quando eu olho e vejo que o autor queria dizer alguma coisa (such & such) para mim.
Primeiro:

Segundo:
 
Terceiro:
quarto:
vemos que tudo muda. como não poderia deixar de ser. simplesmente porque os acontecimentos se sucedem. ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio. na verdade, ninguém se banha, porque ninguém consegue fazer nada sozinho. não fosse o produtor do rio, ou de meu calção, ou da toalha, ou da refeição que fiz há dois dias e ajudou-me a chegar à praia hoje, não fosse o trabalho social, nada disto, eu não apenas ainda seria macaco, se tanto, como também estaria eximido de tomar banhos, o que -convenhamos- agradaria a muita gente.
DdAB
e ainda:
Mark Rothko
Red, Orange, Tan, and Purple,
1949
Oil on canvas 84 1/2 x 68 1/2 inches (214.5 x 174 cm)
Private collection
©1999 Kate Rothko Prizel & Christopher Rothko / Artists Rights Society (ARS), New York.
retirado de: http://www.abstract-art.com/abstraction/l2_grnfthrs_fldr/g051_rothko.html. 

Mulher, Desigualdade e Privilégios

querido diário:
sendo hoje o Dia Internacional da Mulher, não é ocioso indagarmo-nos por que não tem o dia internacional do homem? lembro da piada de alguns amigos: criaram o MOLHO (movimento pela liberação do homem), complementando os movimentos pela libertação da mulher. claro que, como piada, é válido, ao passo que o progresso, a maior conquista do feminismo, será alcançada no dia em que não mais se comemorar o dia da mulher. todos os dias serão dias de igualdade.

a desigualdade sexual (de gênero, seguindo a ideia de Simone de Beauvoir que não se nasce mulher (sexo), mas é-se tornada mulher (cultura)) faz-se acompanhar de milhares de outras desigualdades na vida planetária contemporânea. raça (etnia), credo, nacionalidade, e por aí vai. para mim, a mais gritante desigualdade é a econômica, dado meu viés de economista e sentida preocupação em tentar explicar o que puder potencializando a dimensão econômica. não que a considere sempre num nível mais alto, mas apenas que esta é a sina dos economistas. (que, muitas vezes, pensam ser políticos ou curandeiros; eu mesmo, para não ser tachado de político, declaro-me reformador). por que mulher ganha sistematicamente menos rendimentos do que homem para o exercício das mesmas funções? pela mesma razão que negros ganham menos que brancos. e assim por diante.

mas a desigualdade que quero referir é aquela que se verifica entre os estipêndios de um aposentado (máximo de R$ 3.800 mensais, aproximadamente) e um policial (R$ 52.600 mensais, conforme a capa da Zero Hora de hoje). do aposentado, fica a ironia que deve ser descontada sua contribuição para a previdência. ou seja, uma vez que ele já é aposentado, a contribuição não é para a previdência. do "aposentado da Susepe", devem ser feitos descontos, inclusive o do imposto de renda, que ele alcançará rapidamente a alíquota de 27,5%. quer fazê-lo ganhar apenas R$ 3.800 mensais? pois -ceteris paribus- aplica a alíquota média de 92,8%.

na "Página 10" publicada na página 8 desta mesmíssima Zero Hora a jornalista Rosane de Oliveira anuncia, como não poderíamos deixar de esperar, a atuação parlamentar de outra mulher vinculada estreitamente a Zero Hora, a recém eleita senadora Ana Amélia Lemos, ex-representante de Zero Hora em Brasília. agora representa o estado do Rio Grande do Sul. recomendando a extinção -como o faço- do estado do Rio Grande do Sul (e dos demais estados brasileiros), ipso facto estou recomendando o final do emprego de senador e, não é por estar no Dia Internacional da Mulher, da senadora. mulheres. mulheres na política, mulheres no jornalismo político.

diferentemente dos estados, do senado e do poder judiciário, nada tenho contra a existência de Zero Hora e, se -vez que outra- a chamo de Zero Herra é pelo desagrado com que percebo seu viés em faror da -dir-se-ia antigamente- classe dominante. em minha opinião, Rosane, Ana, myself e o apaniguado da Susepe que ganha seus R$ 52,700 (ok, ok, exagero meu, eram apenas R$ 52.6000) deveríamos defrontar-nos com tabelas  de desconto do imposto de renda mais sinalizadoras da sociedade igualitária do que a que vigora atualmente.

todo esse pessoal que ganha mais do que os invejáveis R$ 30.000 dos juízes deveria defrontar-se com uma tabela progressiva do imposto de renda. para promover a sociedade justa. para tirar o menino de rua da boca do lixo. Ana Amélia Lemos, interessada em expandir o bem-estar dos aposentados, acaba -diz Rosane de Oliveira (ibidem)- de submeter ao senado federal um projeto de lei que isenta os aposentados da previdência (isto é, o povo de, no máximo, R$ 3.800) mensais. vou escrever-lhe (se é que seu e-mail já consta das nominatas da Internet senatorial) e sugerir que faça uma emenda ao projeto, expandindo esta isenção para todos os recebedores de menos de R$ 5.000. como sabemos, esta quantia é a renda familiar de, digamos, um motorista de táxi e uma assistente legislativa. e que a arecadação do temido imposto seja compensada, para experimentar um aumento de 10%, com elevação das alíquotas incidentes sobre os ganhos superiores a esta variável de corte. supondo que um juiz devesse ganhar o mesmo que um professor  doutor PhD americano (corrigido pela renda per capita, conforme comentário aqui escrito), teríamos o ganho de, digamos, R$ 12.000 e, como tal, a alíquota média de 60%. e o policial caíria dos iniclamente calculados 92,8% para apenas 76,8%.
DdAB
a ilustração veio de:http://www.coladaweb.com/sociologia/desigualdades-sociais-e-as-classes.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Carnaval, desengano

querido diário:
serão dobrões de ouro naquela máscara? mel? achei-a em primeiríssimo lugar ao procurar o título desta postagem. é linda. o site é instigante, com a portada de hoje mostrando milhares de fotos de Che Guevara. mas não era isto o que eu queria, pois estou usando o marcador "Escritos". quero por-me literário e citar os -então- dois gigantes da música popular brasileira. eu, que hoje ouço rock dos anos 70-80 na Baimler-FM, jazz e chamber music na Accuradio e a Rádio da Universidade/UFRGS. tudo em Porto Alegre. a Baimler transmite do Planeta Terra, o mesmo acontecendo com as demais, ainda que eu saiba que a Accuradio, além disto, localiza-se mais especificamente em Chicago.seja como for, o fato concreto é que foi Chico Buarque, numa canção que disse:


"carnaval, desengano. essa morena me deixou sonhando. " se fosse em lunfardo, creio que ele tinha em mente dizer "sonhano". de sua parte, Caetano Velloso, como li há anos, em uma "Veja", disse que o carnaval no Brasil mexe com todo mundo: os que pulam e os que descansam. uns o buscan e outros fogem dele.

de minha parte, o que aconteceu é que fui sedentário. fiquei em casa. aproveito a Porto Alegre dos anos 70, talvez, com boa parte da população voluntariamente exilada.
DdAB
fonte da imagen: http://www.estouprocurandooquefazer.com/.

domingo, 6 de março de 2011

PIBs, PIBINHOS e PIBÕES: Lula x FHC

querido blog:
não sou muito bom, como sabes, em artes gráficas. seja como for, tenho ouvido falar, e minha Zero Hora publicou nas p.4-5 de sexta-feira cifras do PIB, desde 1984. o IPEA tem-nas desde 1900. peguei-as, guardei-as e processei os dados dos períodos FHC e Lula. coloquei-nos na figura que nos ilustra hoje.

este apelido de PIBÃO é inesperado. parece-me que foi o ministro da Fazenda de Lula-Dilma que lançou esta moda. anteriormente, lembro-me de ter-lhe visto atribuída a expressão "bombar", para descrever alguma dessas façanhas que os governantes atribuem, periodicamente, à economia brasileira. parece que, sob este ponto de vista estrito, o governo Lula foi mais pródigo. em seu governo, produziram-se 27% a mais do que no governo anterior (18,7 contra 23,7 trilhões de reais em bens e serviços de uso final). em todos esses 16 anos, a tabela mostra o crescimento de 57%.

claro que crescer 57% é melhor até do que crescer só 56%. mas, se a economia tivesse crescido a 7,12% a.a. (o que caracterizou surtos industriais da Nova Ásia por anos e anos a fio), no último ano do primeiro mandato de Lula, teríamos dobrado o montange gerado no primeiro ano de FHC. e agora, no final do primeiro ano de Dilma, estaríamos alcançando três vezes o PIB daquele 1995.

tudo em termos exponenciais. mas, pensando linearmente em 2011, podemos pensar coisas assim: ao invés de estar postando em um blog, eu o faria em três. ao invés de ter um computador, eu teria três, ao invés de ter almoçado simplesmente, eu teria comido três pratos. digamos que eu não quisesse três automóveis (pois já tinha um em 1995), neste caso, eu poderia ter viajado mais, digamos, para Bonito e o Rio São Francisco. ok, ok, digamos que a distribuição tivesse me beneficiado apenas em 57% e que o restante fosse direcionado para os 70% mais pobres do país (que, calculo, andam abocanhando apenas 15-20% do consumo nacional). então eles poderiam jogar suas crianças em aulas de inglês, clarinete e tênis. como o fazemos -a maioria de nós- com nossos próprios rebentos.

associo-me à burguesia nestas considerações, embora reconheça que não é dado àqueles que vivem de "remuneração dos empregados", exceto pró-labore, serem chamados de burguesia. ainda assim, penso que, se nossa renda tivesse alcançado a de Portugal, com a distribuição portuguesa (o Gini de 0,36, não era isto?), ainda assim, eu poderia ter sido subornado para votar em algum Partido Igualitarista.
DdAB

sábado, 5 de março de 2011

What a Difference an "A" Makes...

querido blog:
a profa Denise publicou um artigo na página de artigos da Zero Hora de hoje, o que me levou a escrever-lhe coisas que edito e aqui deposito. jogo-as no marcador "Economia Política", pois acho que estamos vendo uma queda de braço com este troço de chamarmos Dilma de "a presidenta". tem neguinho (diria herself) que reluta em aceitar que ela tem direito legal de escolher a forma de tratamento. as eleições ajudaram a ver quem tem razão. mais ainda, se havia dúvida sobre o que vai dominar (ver abaixo), parece que com a ajuda presidencial teremos inclinação das futuras gerações, das futuras presidentas, para a forma feminina.

disse-lhe ter gostado de sua posição de tratar Dilma de "a presidenta", coisa que o próprio jornal que abrigou o artigo não faz. aliás, pouco tempo atrás, outro colunista, "abordando questões linguísticas, que são de sua área", o prof. Cláudio Moreno, comentou o assunto, dizendo:

.a. as duas formas, presidente-presidenta, são corretas gramaticalmente
.b. em sua opinião, o povo irá inclinar-se de maneira absoluta para, neste caso, a presidenta.

no dia em que a presidenta Dilma pediu às famílias que chamassem as filhas e lhes dissessem da importância do que estava ocorrendo, para a vida feminina, para a vida brasileira, lembrei do artigo do prof. Moreno e pensei que, com o que víamos, o incentivo para que o povo brasileiro optasse pela forma "presidenta" ganhava uma poderosa aliada, designadamente, a futura fala presidencial. já vi (observador assistemático que sou) as revistas 'Carta Capital" e "Época" usarem o tratamento "a presidenta", ao passo que lamento que "Zero Hora" ainda não o faça (mas vou comemorar o dia em que esta começar a fazê-lo e aposto que isto acontecerá, digamos, cercado por uma circunstância festiva).


além de Moreno, evoquei outra controvérsia similar que contornou a pronúncia correta do nome do então ministro da fazenda, o dr. Antonio Palocci. frações da imprensa falavam em "palóssi", ao passo que ele - dizem- referia-se a si mesmo como "palóti". algum/a cronista social informou-me que o certo é chamar a pessoa da forma como ela prefere. ou seja, a primeira pessoa deve persignar-se à forma como a segunda pessoa gramatical quer ser endereçada. se, no caso, a primeira mandatária da nação deseja ser reconhecida como presidenta, parece mais sensato coroarmos-lhe os 60 milhões de votos também designando-a pela forma feminina.

se não me alongo, este "a presidenta" já é uma tradição gaúcha. na condição de economista, posso invocar dois exemplos ligados à Fundação de Economia e Estatística. primeiro, a profa. Wrana Panizzi, que veio a ser reitora da UFRGS, intitulava-se "a presidenta". anos depois, veio a ocupar o mesmo cargo a economista Dilma Vana Rousseff Linhares, que também assim se intitulava. da FEE, como sabemos, Dilma "foi promovida" para secretária estadual das Minas e Energia. e seguiu em frente. Wrana, antes de ser reitora, fez uma bisonha campanha para deputada estadual -se bem lembro- pelo PMDB fustigando colegas de profissão (políticos) de maneira desastrada, radicalizando pela direita. foi casca!

por outro lado, precisei comentar outro ponto, também do artigo. e acho que estou discutindo questões de palavras. creio que tanto a autora como eu defendemos a sociedade justa, no sentido de John Rawls. mas acho que divergimos na compreensão do termo "igualdade". quando, por exemplo, a lei diz que todos são iguais perante ela, o que se está afirmando é precisamente a igualdade na diversidade: homens e mulheres, paulistas e maranhenses, baixinhos e galalaus. mais ainda, quando a lei garante uma assistência básica em saúde, ela não está dizendo que todos deveremos submeter-nos a tratamento, por exemplo, para moléstias renais, mas amparo contra quaisquer moléstias. por fim, a matemática ajuda a delimitar a diferença entre "igualdade" e "identidade". na identidade, o lado esquerdo da equação é precisamente o mesmo do lado direito, ao passo que, na igualdade, existe apenas um subconjunto de valores (chamados de solução ou 'zero') que faz com que esta identididade se verifique.
DdAB
a imagem que selecionei foi alcançada em (aqui), pois pedi precisamente o título do verso da canção.