quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A Volta do Conceito de "Alienado"


Querido diário:

Pensando nas eleições de 2018, fiquei imaginando o auê em torno da candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da república. Pensei em muitos amigos e parentes que veem com simpatia tal projeto, tal projeto de poder, tal projeto de transformação da sociedade. Essa turma não está satisfeita com o que estamos presenciando. Mas insatisfeitos também estamos milhares de outros que nem queremos pensar em Bolsonaro e, a caro custo, pensamos em alternativas à esquerda do centro do espectro político. Aliás, novamente precisaríamos definir centro no Brasil/2018. Certamente Bolsonaro não é de centro.

Eu myself, quando penso nas candidaturas de Lula, Ciro Gomes, Fernando Haddad e Manuela d'Ávila, fico muito próximo àquela condição que me aproxima de meu copo de cachaça. E, depois do terceiro ou quarto copo, fico imaginando que precisamos mesmo é criar um novo partido político. Aliás o termo "novo" já caiu na malha-fina. Há anos pensei no "Partido Zero", cuja legenda será "Partir do Zero", um partido com a sensata proposição troskista de fazermos uma revolução e a tornarmos permanente.

Minha questão central neste mundo de preocupações com o futuro mais distante que meu horizonte de vida, fiquei a indagar-me o que leva um indivíduo a considerar com seriedade a possibilidade de sagrar como política de estado um programa de ação governamental que discrimine minorias ou que deseje subjugar maiorias? Então ocorreu-me o termo alienado: quem é alienado não está nem aí para as repercussões da candidatura de Bolsonaro nem sobre si nem sobre seus descendentes.

E como fazer uma revolução permanente nos dias que correm? Não vejo outra saída: ela estará ligada aos projetos de educação de adultos, valendo a legenda da lapela do blog:

.a três horas de ginástica por dia
.b três horas de trabalho social por dia
.c três horas de leitura por dia.

Pois nessas três horas de leitura, de educação continuada, a parte da filosofia contemplará um dos milhares de livros que já li ou lerei sobre o tema (lembra que me declaro especialista em 'introdução à filosofia'?). Pois não é que comecei a ler

LAW, Stephen (c.2011) Filosofia; guia ilustrado Zahar. Rio de Janeiro: Zahar.

Li um tantinho e cheguei numa grande e preciosa pérola na página 15:

[... As] crenças [filosóficas] podem ter grande impacto sobre nossas vidas diárias. Alguém que acredite que moralidade não é mais que uma preferência subjetiva pode acabar se comportando de modo muito diferente de alguém que considere que ser errado matar ou roubar é uma questão objetiva. Há também um aspecto filosófico em muitos debates morais e políticos contemporâneos. Questões sobre aborto, direito dos animais, guerra, liberdade de expressão têm todas uma importante dimensão filosófica.

Então consegui firmar algum princípio: alienado é quem não acha nada, mas também é quem não pensa nas consequências do que acha sobre

. a liberdade (não matar, em pena de morte, não reduzir a liberdade dos outros por meio do roubo)
. a origem de classe, gênero, raça, credo
. a desigualdade
. a justiça
. a moral e a ética

Naturalmente, aquelas três horas de aula por dia que considero fundamentais para a construção da sociedade ideal terão uma fração dedicada ao estudo da introdução à filosofia. Este livro do mr. Law certamente é uma peça fundamental, ainda que haja dezenas de outros. Na verdade, para quem possui apenas alguns rudimentos do estudo desta área e que desejam aprofundar-se, meu livro recomendado é

NAGEL, Thomas (2007) Uma breve introdução à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

Os dois que seguem li-os o primeiro de trás para frente e o outro de frente para trás:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires (2009) Filosofando; introdução à filosofia. 4ed. São Paulo: Moderna.

COTRIM, Gilberto e FERNANDES, Mirna (2010). Fundamentos de filosofia. São Paulo: Saraiva. [Saraiva? Saraivíssima, a mesma de nossos conhecidos livros de metodologia e técnicas de pesquisa e de teoria dos jogos].

E tem mais um que se encontra na estante de minha especialidade:

FEITOSA, Charles (2005) Explicando a filosofia com arte. Rio de Janeiro: Ediouro.

E quem não estuda filosofia introdutória pode evitar a alienação? Claro que pode, basta sentir compaixão pelos menos aquinhoados, solidariedade com o outro ser humano, bondade para com os animais. Pode-se ser, por exemplo, bondoso e tratar "hombres y perros" a coices? Ou pode-se praticar atos de bondade apenas no âmago da família? Já referi que meus amados Hargreaves-Heap e associados (no livro sobre teoria da escolha) dizem que os ladrões são bons em honra, mas péssimos em justiça. Em certo futuro, falarei mais sobre altruísmo e egoísmo. Ok?

DdAB
P.S. O sr. Law tem seu capítulo final denominado "Quem é Quem na Filosofia", muito interessante para orientar um plano de leitura para quem deseja se aprofundar (que não é meu caso, hehehe).

P.S.S. A linda (se bem a entendo) imagem que nos encima veio daqui: http://sitevolts.com.br/2017/11/15/dia-mundial-da-filosofia-com-programacao-especial-em-sao-luis/.

P.S.S.S. O site do El País (aqui) publicou este resumo opinativo do próprio Jair Bolsonaro:

Mas, quem é e quais são as opiniões de Jair Bolsonaro, esse homem que pode vir a governar o Brasil a partir de 1° de janeiro de 2019? Deixemos que ele mesmo exponha alguns tostões do seu pensamento.
Democracia
- “Se fosse eleito, não há a menor dúvida, daria golpe no mesmo dia. Já que é o presidente que manda, faz logo uma ditadura”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
- “Através do voto, não vai se mudar nada neste país. Só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil marginais”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
Impostos
- “Bobos somos nós, que estamos pagando impostos. Inclusive, conselho meu, e eu faço: Eu sonego tudo o que for possível. Se eu puder não pagar imposto, eu não pago”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
- “Quem hoje em dia e no passado nunca se indignou com a sua carga tributária? Hoje o povo, como um todo, só não sonega o que não pode. Eu, representando o povo, desabafei naquele momento isso”. (11/01/2018 – Folha de S. Paulo)
Mulheres
- “Tudo que as bichas têm a oferecer, as mulheres têm e é melhor”. (04-04-2011, Programa CQC, TV Bandeirantes)
- “Eu tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas. Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? ‘Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade...’ Quem que vai pagar a conta? O empregador. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano. Por isso que o cara paga menos para a mulher!". (10-12-2014, Rádio Gaúcha / Zero Hora)
- “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. (03-04-2017 – Clube Hebraica, Rio de Janeiro)
- “O dinheiro do auxílio-moradia eu usava para comer gente”. (11-01-2018, Folha de S. Paulo)
Afrodescendentes
- “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Acho que nem pra procriar ele serve mais”. (03-04-2017 – Clube Hebraica, Rio de Janeiro)
Cotas raciais
- “Sou contra as cotas raciais, porque todos nós somos iguais perante à lei. A Constituição diz que o acesso ao terceiro grau é pelo mérito. E não existe esse negócio de política afirmativa não. Quem usa cota, no meu entender, está assinando embaixo que é incompetente. Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. (04-04-2012 – Programa CQC, TV Bandeirantes)
Tortura
– “Eu sou favorável à tortura”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
- “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, o pavor de Dilma Rousseff (...) o meu voto é sim pelo impeachment” (17-04-2016 – Votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O coronel em questão é conhecido por ser um dos maiores torturadores da época da ditadura militar)
- “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. (08-07-2016 - Programa Pânico, Rádio Jovem Pan FM)
Questão de gênero
- “P: Tem algum homossexual na família? R: Graças a Deus, não. Eu desconheço. Se tivesse, nem quero pensar”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
- “P: O que pensa sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo? R: Eu sou contra. Não posso admitir abrir a porta do meu apartamento e topar com um casal gay se despedindo com beijo na boca, e meu filho assistindo a isso”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
- “P: O que você faria se tivesse um filho gay? R: Isso nem passa pela minha cabeça, porque eu dei uma boa educação. Fui um pai presente, então não corro esse risco”. (04-04-2011 – Programa CQC, TV Bandeirantes)
Pena de morte
- “Eu sou favorável à pena de morte”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
- “Acho que o fuzilamento é uma coisa até honrosa para certas pessoas”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
Segurança pública
- “Eu acho que a polícia brasileira tinha que matar é mais. Violência se combate com violência”. (05-10-2015 – Vídeo)
- “Policial que não mata, não é policial”. (27-11-2017, O Globo)
Se for presidente
- “Se eu um dia tiver o mandato de presidente, o pessoal da Anistia Internacional não vai mais interferir na vida interna do nosso país”. (05-10-2015 - Vídeo)
- “Para ministro da Educação vai ser convidado um general que já tenha um comando de colégio militar ou um civil que queira realmente botar ordem na casa. Botar um ponto final na ideologia de gênero, na questão de doutrinação na escola”. (20-03-2017 – Programa The Noite, SBT)
- “Se eu chegar lá, não vai ter dinheiro pra ONG. Esses inúteis vão ter que trabalhar. No que depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”. (03-04-2017 – Clube Hebraica, Rio de Janeiro)
- “Colocaria vários militares nos ministérios. O militar, até pela sua formação, você dá uma ordem pra ele, ele cumpre ou retorna e diz porque não pode cumpri-la. A gente precisa de hierarquia e disciplina para alcançarmos a ordem e o progresso”. (10-06-2017 – Show Tube)

abcz

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

William Baumol (e a indústria e ainda myself)

Querido diário:

Um Pouco de História.
No dia 8 de julho, fiz 70 anos e, no dia, 8 de julho de 1986, li no jornal Zero Hora (sempre ela...) uma crônica de Luis Fernando Veríssimo falando na recente morte de Jorge Luis Borges (14 de junho) e de um grande instrumentista americano de jazz, cujo nome agora me foge. Disse o cronista que os dois eventos passaram despercebidos por causa da copa do mundo. Venceu a Argentina, 3x2 sobre a Alemanha, na cidade do México.

Pois no 5 de maio passado, falei novamente no aniversário do nascimento de Karl Marx, desta vez, comemorando o 199o [em outras palavras, no dia cinco de maio vindouro, o negão fará 200 anos]. Por vias estranhas, apenas no 12 de julho é que vim a saber que, um dia antes, ou seja, no 4 de maio de 2017, faleceu William Baumol (pron. Bomól).

William Jack Baumol
Pelo que andei lendo desde então, Baumol escreveu 30 livros e mais de 500 artigos em revistas técnicas. Amo-o e admiro-o, mesmo tendo lido não mais de 10 itens. E sempre destaquei e destacarei:

Primeiro:
Macroeconomics of Unbalanced Growth: The Anatomy of Urban Crisis. American Economic Review. V. 57 n. 3 (Jun. 1967) pp. 415-426.

Segundo: 
Entrepreneurship: Productive, Unproductive, and Destructive. Journal of Political Economy. V. 98 n. 5, Part 1 (Oct. 1990) p. 893-921.

E tem mais pilhas sobre produtividade, maximização das vendas, microeconomia e pesquisa operacional, contestabilidade, sabe-se lá que minha memória está escondendo, além do tal jazzista...

Só um gênio pode escrever com tanta simplicidade e humor. Naquele "macroeconomics of the urbgan crisis", um dos mais engajados e lindos de seus artigos, o argumento é de uma engrenagem perfeita:
.a a produtividade do trabalho cresce mais na produção de bens do que na dos serviços
.b  preços e produtividade variam inversamente.
.c logo o preço dos serviços caem menos que os dos bens industriais, implicando que os preços relativos deixam os serviços mais caros
.d tudo pronto para a piada: como é que os serviços podem ter sua produtividade do trabalho crescendo, se não é sensato transformarmos um quinteto de cordas em um quarteto?...

Aí veio o livro que não li e que já está na lista:

The Cost Disease: why computers get cheaper and health care doesn't, 2012. (Com associados).

Antes de ler, veio-me à cabeça aquela viajação que costumo fazer sobre o efeito excel. Como sabemos, o efeito excel dá conta do fato de que os porto-alegrenses geram valor adicionado na criação de cavalos, outros animais, pêssegos, laranjas e outra pilha de produtos agrícolas. Mas, olhando o PIB da cidade, vemos que a participação da agricultura no total é nula, ou 0,0% (mas, se fôssemos ao final da planilha, poderíamos ver algo como 0,0004%). Seja como for, a produção primária é negligível se comparada aos demais setores. E isto já dá um calor na preocupação com o estancamento da produtividade de um quinteto de cordas...

O Dinheiro
Uma teoria do crescimento econômico estritamente monetária diz que, uma vez que

M = PIB (equação quantitativa da moeda, quando o nível de preços é unitário e a velocidade de circulação da moeda também o é),

então o PIB aumentará sempre que o estoque de moeda M aumentar dentro de certos limites dados pela capacidade instalada na economia. Então esse aumento de M, esse delta-M, é colocado em disputa por parte dos produtores, fatores e instituições e seu grau de sucesso é que vai determinar os preços relativos.

O Crescimento Ilimitado
Mas haverá setores que não serão condenados ao efeito excel, pelo menos, não tão cedo, como 

.a a saúde e a luta pela vida eterna
.b os transportes e a luta por luas de mel nos anéis de Saturno.

Mas existe outro setor que pode levar-nos a pensar que o efeito excel tomará conta de tudo o mais. E isto seria visível na matriz de contabilidade social. Temos aqui uma delas:

Nesta matriz simplificada, temos o registro das contas das três grandes organizações econômicas: os produtores, os fatores de produção e as instituições. As linhas representam vendas ou entrada de recursos, por contraste às colunas que registram os débitos ou saídas de recursos. Deste modo, a célula c11 mostra o valor de 600, significando que os produtores vendem insumos intermediários nesse valor a si mesmos. Se a desdobrássemos, como fizemos na tabela que ilustra esta postagem, veríamos, por exemplo, que não são os mesmos produtores que vendem, mas, digamos, uma indústria é que vende refrigeradores para um hotel. Na confluência entre produtores (final da primeira linha, antes do total) com as instituições (última coluna, antes do total), vemos que os produtores vendem refrigeradores agora não mais a outros produtores mas diretamente aos consumidores finais, pois estes são reunidos sob o título de instituições.

Esta matriz também nos mostra nas células c13 (que recém examinamos), c21 e c32 as três óticas de cálculo do valor adicionado, portanto todas exibem o valor de 1.000. A célula 21 mostra venda dos fatores aos produtores, o que configura a ótica do produto do valor adicionado: os produtores pagaram os fatores precisamente para contribuírem à formação do PIB. A célula 32 mostra a ótica da renda, que é o aluguel que os fatores de produção -que os receberam dos produtores- remetem às instituições, que são suas proprietárias. Por fim, a ótica da despesa é vista na célula c13, e está informando como as instituições usam esse dinheiro que recebem de seus integrantes que o buscou no mercado de fatores de produção.

Números arbitrários criados por mim mesmo há algumas décadas, eles não mostram a hierarquia que considero será a derradeira e talvez até removendo a importância crucial que esta matriz tem nos dias de hoje. Na tabela que reproduzi, vemos que o valor adicionado (PIB = renda = despesa) de 1.000 é maior que o valor dos insumos intermediários de 600 (ou seja, as relações intersetoriais). Este, de sua parte, também é maior que os 200 que vemos na célula c33, que dá conta das relações interinstitucionais. Faltou-me inspiração para elevar aqueles 200, digamos, para 1.200, que é o que estou afirmando: estas transações é que se farão soberanas quantitativamente: as transferências interinstitucionais, dinheirinho que o pai dá ao filho, dinheiro que o governo dá aos aposentados, dinheiro que os ricaços dão ao governo na forma de imposto de renda.

A Composição do Infinito
E daí? Daí que naqueles tempos por vir, as finanças serão uma espécie de grande cassino, às vezes direcionando parte de seus ganhos ao lado real da economia. Na verdade, não podemos nem pensar que enormes soberanias do setor financeiro implicarão geração de muito valor adicionado ou muito emprego. Pelo jeito, os computadores farão tudo, tudinho. O que estou antecipando é que haverá estas enormes transações, turbinando (como dizem...) as transações interinstitucionais. Uma espécie de transformação do quinteto em uma orquestra.

Então entendo que as finanças crescem pois:

.a cada vez farão mais seguros, seguros de viagens espaciais, seguros de vidas longas, seguros de tudo, seguros de Kenneth Arrow designados por seguros generalizados, quando, por exemplo, eu farei um seguro para defender-me de algum processo que a negadinha que adora a indústria queira fazer para calar-me a boca. Seguros de falha de seguros, seguros de sucesso de seguros, tudo. Muito dinheiro. Criando pouca renda e pouco emprego, mas gerando enorme bem-estar, pois naquele mundo melífluo viveremos eternamente, viajaremos para seca-e-meca e não seremos abalados por qualquer contratempo.

.b gambling, ou seja, apostas (na bolsa de valores, apostas nos jogos de cricket, de futebol, de saber qual guri atravessará a rua antes do outro, jogo de poker e outros milhares de jogos e situações de futuro indeterminado). Isto também vai dar muito dinheiro e, como tal, muita transferência de rendimentos entre instituições.

Baumol previu que este tipo de sociedade estagnaria, depois reviu sua posição e entendeu que também o setor serviços gerará extraordinários ganhos de produtividade, como será o caso quando todos os serviços médicos forem prestados por robôs, quando nossas naves espaciais e escovas de dentes forem produzidas por impressoras em 3D, quando as sentenças judiciais (raras, pois os seguros generalizados cobrirão a maior parte das demandas) também forem prolatadas (hehehe) por robôs. Nesse momento, Porto Alegre seguirá produzindo pêssegos e cavalos, São Paulo -sei lá- seguirá produzindo automóveis Volkswagen, o mundo fará computadores, etc., etc., mas nada disto empanará o valor das transações da célula c33. Naquele dia, se persistirmos em querer alcançar a indústria de quarta geração antes de termos lançado bases sólidas para nossos esgotos, o que veremos será mesmo um país de pigmeus olhando para o alto, mas com os pés no barro...

DdAB

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Eita, Ano Novo, eita, Ana Mélia

Querido diário:

Eu tinha jurado que em 2018 seria menos cáustico em minhas análises da economia política brasileira. A jura não resistiu a uma leitura de Zero Hora, que publica tanta coisa... Na página 19 do exemplar de hoje -artigos assinados-, vemos o título "Ninguém está acima da lei", de autoria de Ana Amélia Lemos, senadora do PP-RS. Pepê, eita! A senadora está falando, claro, no julgamento em segunda instância a que o processo que acusa Lula de ser dono de um apartamento que lhe teria sido dado por uma empreiteira. O presidente veio a ser declarado culpado pelo já afamado juiz Sérgio Moro, da Operação Lava-Jato e de -não menos preocupantes- alegados antecedentes criminais também bastante merecedores de cautela. Ana Amélia. Obviamente, o título do artigo e o tema são eloquentes, ela quer argumentar, quer ensinar-nos a pensar. E aí é que reside o problema. Ela herself não sabe pensar, não domina as regras da lógica, levando a contradição a expressar-se em menos de dois parágrafos:

Um deles:
É inaceitável [...] que, face  esse julgamento, o Judiciário seja agora desafiado com ameaças veladas ou explícitas por manifestações dos outros poderes ou pelos aliados do réu."

No outro:
A Lava-Jato, pelo notável trabalho desenvolvido até aqui, é uma das poucas unanimidades no Brasil!

Que dizer? É inaceitável mesmo, hahahaha. In dúbio, pró réo, pode ser que o substantivo feminino plural "unanimidades" tenha mudado de significado desde que o aprendi há alguns anos. É inaceitável mesmo que a argumentação da senadora seja mais curta que fibra do algodão americano...

DdAB
Imagem: digitei "papagaio do pirata" no Google Images. Veio-me a figura simpática que nos encima. Pensei que surgiria algo mais 'falante' sobre as virtudes etológicas da senadora. Não veio, conformei-me com a simpatia do bichinho.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Três gringos: Maria do Rosário, Adriana Franciosi e myself


Querido diário:

Li em um mural do Facebook uma diatribe (dizem que são centenas) contra a deputada Maria do Rosário por ter sido assaltada ontem em Porto Alegre. E vi o maior contraveneno possível na postagem de Adriana Franciosi no mesmo local:

Uma pequena informação para quem está vibrando com o fato da deputada Maria do Rosário ter sido assaltada e seu carro levado. Acho que todos sabem que Rosário defende os direitos humanos, e que no Brasil para alguns direitos humanos é defender bandido. Bom mas aí vamos dar uma olhadinha nos projetos que a deputada aprovou no congresso e vê aí se você acha que ela merece essa perseguição?
-Aumentou a pena para crimes de lesão corporal e homicídio contra policiais.
-Também tornou crime hediondo o assassinato de mulheres motivado por questão de gênero.
-Garantiu escuta protegida para crianças vítimas ou testemunhas de violência
-Ainda presidiu CPI que investiga as redes de exploração da prostituição infantil no Brasil.
E o que mais impressiona é o fato de alguns grupos no Brasil acreditarem que deixando os presídios assim como depósito de gente é uma forma de vingança. Pois o resultado desse tipo de presídio a Bangu é controle da bandidagem via grupos que comandam de dentro das cadeias o crime. É sujeito que entra por pequenos delitos e sai PHd em crimes maiores. Ou seja, defender presídios mais descentes e com mais segurança não é defender a bandidagem, mas sim a própria sociedade. A perseguição a Maria do Rosário que foi Ministra dos Direitos Humanos faz parte dessa coisa jeca e mentirosa de Jair Bolsonaro, que aliás fala, fala em segurança mas não aprovou um mísero projeto enquanto deputado. Aliás a deputada ganhou na justiça a ação que moveu contra Bolsonaro por este lhe dizer que ela por ser feia não merecia ser estuprada. O nível de Bolsonaro é uma cloaca fétida sem fim. Vc pode até não gostar de Maria do Rosário e seu partido, mas respeitem a mulher que defende crianças de abusos,que defende mulheres vítimas de violência, que defende até policiais com projetos que de fato punem quem comete crime contra os mesmos. Tem gente que faz, outros é só blábláblá para pessoas raivosas e que pouco desejam transformar o Brasil.


Pois então. Cheguei a ver um comentário de um indivíduo que fala no roubo de um "luxuoso carro importado", quando acabara de ler no jornal Zero Hora tratar-se de um C3-Citröen.
DdAB

sábado, 23 de dezembro de 2017

Igualdade e Social-Democracia para 2018


Querido diário:
Veremos adiante um artigo publicado pelo caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo no distante julho de 2016, alcançando meus olhos em 24 de abril de 2017, tinha muita coisa para me levar a pensar. Ele fala muita coisa que mereceria alongadas discussões, mas me atenho a dois pontos que -aliás- um é dele e o outro é meu. O que é de Celso Rocha de Barros está aqui:

Para ter chances em 2018, esquerda precisa encarar a economia.
Por Celso Rocha de Barros
Disponível em: http://www.aldeianago.com.br/artigos/59-economia/13255-para-ter-chances-em-2018-esquerda-precisa-encarar-a-economia-por-celso-rocha-de-barros.
Acesso em: 24/abr/2017.

A prioridade da esquerda deve ser redistribuir renda e construir um Estado de bem-estar social, duas discussões em que os economistas (enquanto tais) só têm direito de aparecer para dizer como fazer melhor o que a política e a moral já tiverem decidido fazer.
Uma vez estabelecido esse princípio geral, é também necessário reconhecer que, historicamente, houve uma afinidade eletiva entre a esquerda e escolas de economia mais propensas a recomendar a intervenção do Estado na economia. A esquerda, afinal, já defende a intervenção do Estado na redistribuição de bens e oportunidades. Há um grau de ceticismo comum em relação aos resultados do funcionamento do livre-mercado que aproxima os defensores da redistribuição aos defensores da intervenção estatal.

E que tenho a dizer? Primeiro: que me dói perceber que conheço vários economistas (e pouca gente alheia a esta profissão, exceto montes de epidemiologistas), uma boa meia-dúzia deles que carrega, no escudo heterodoxo, boa parte das pechas levantadas por Rocha de Barros. Não me atrevo a dizer que os economistas tornaram-se anti-economicistas, mas cabe-nos refletir sobre este trecho:

O marxismo soviético era baseado na ideia de que o desenvolvimento econômico determina a evolução das estruturas políticas e ideológicas. A reação a esse dogma, seja por pós-marxistas, seja por marxistas ‘ocidentais’, tomou a forma de diversas reafirmações da importância do político, da cultura e do imaginário, do corpo, enfim, de tudo que havia sido excluído da estreita visão de mundo dos manuais de marxismo.

Tacho parte: importância do político, da cultura, do imaginário, do corpo. Agora quero dizer: menos política e mais economia. Não em tudo, claro, mas num programa de esquerda para oferecer às massas um roteiro de governabilidade.

Na nova esquerda em que me insiro, é preciso refletir sobre o segundo parágrafo que citei anteriormente. Qual é o grau de intervenção na economia por parte desse estado que, além dela, também deve-se preocupar com o político, a cultura, o imaginário e o corpo? Hoje tenho bem clara a tríade mercado-estado-comunidade. Também tenho clara boa parte das lições da teoria da escolha pública e da teoria da escolha social. Quero “produtores independentes livremente associados”, o que me leva a querer um certo conceito de estado mínimo, claro. Qual estado mínimo? Aquele da provisão (e não necessariamente produção) de bens públicos e de mérito. E as atuais empresas estatais? Resolvo com a formação de um fundo nacional de desenvolvimento, garantindo a cada brasileiro nascido ou a nascer um conjunto de 100 ações que poderão ser alugadas, mas nunca vendidas nem cedidas como herança.

Concluindo aquele “primeiro” lá de cima – saber economia. Então digo, com certo sorrizinho de mofa que a estabilização requer o estudo da moderna macroeconomia e esta inicia, no primeiro semestre (ou segundo…) da faculdade com o domínio do modelo IS-LM. Estamos falando no equilíbrio geral macroeconômico, uma ficção que serve precisamente para tornar real a implantação simultânea (e quando não foi assim?) de medidas de política econômica. Tem economistas a quem estou endereçando esta crítica política (e, claro, de minha facção de economistas de esquerda) que nem mesmo aceitam a relevância do conceito de equilíbrio, que dizer de geral e que dizer de macroeconômico? Só pensando nestes termos é que teremos alguma chance de garantir que a mudança seja ancorada no controle do quinteto inflação, desemprego, taxa de juros, taxa de câmbio, déficit público.

Segundo momento do que tenho a dizer. Agora quero falar sobre redistribuição da renda e construção de um estado de bem-estar social. Estamos falando de políticas públicas, sem mesmo tangenciar a caridade pública, ou seja, as transferências de renda entre famílias, como o donativo do filho ao pai desamparado ou o que faz a família rica ao motorista da limusine aposentado no ano que ora finda. Tampouco faço pouco da redistribuição funcional, ou seja, considero palatável e condutor do igualitarismo e da social-democracia que milhares de empresas paguem “participação nos lucros” a seus trabalhadores. Isto, claro, melhora a distribuição pessoal (no sentido de menos desigualdade) e muda também a funcional (maior participação dos trabalhadores no PIB).

Falando no governo e olhando o lado “negativo”, o lado em que o governo retira dinheiro dos ricos. Há três mecanismos: imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza da pessoa física, imposto sobre transmissão de bens dentro da família e imposto sobre grandes fortunas (dada a espantosa desigualdade na distribuição das fortunas, escandalosamente maior que a da renda, parece que aqui reside alguma medida de impacto). E que fazer com este dinheiro? Financiar o programa tipicamente social-democrata: gasto público em educação, saúde, previdência, assistência habitacional, tutto quello, já referi: bens públicos e de mérito. Tem mais: políticas salarial (salário mínimo, renda básica universal) e políticas monetárias (oferta de crédito para viabilizar novas empresas).


É preciso tomarmos cuidado para que as candidaturas politicamente hostis não roubem este programa social-democrata. Eu mesmo preciso tomar cuidado para que Rocha de Barros não se torne um oximoro orientando meu pensamento: rocha de barro?

DdAB

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

FEE, PIB e Governo Sartori


Querido diário:

O governo Sartori é uma desgraça, um governo de Q. I. de jegues, que, aliás, foram sacrificados por motivos torpes. Seus Q.I.s, dos governantes, também. Parece que o RGS é um estado que os escolhe a dedo, de sorte a nunca melhorar, a nunca perder as quatro patas cravadas na mais intensa mediocridade e amadorismo. O governo Sartori intenta acabar com fundações de relevo para lidar com frações delegáveis da administração pública. E não entende que as "frações delegáveis" não são todas. Há por certo, falhas de governo no mundo das três dimensões lá de fora. E há, talvez ainda mais severas, quando estamos falando de políticas informacionais ou ambientais, quando elas são delegadas às demais instâncias de agregação das preferências societárias, nomeadamente, o mercado e a comunidade. Não fosse um governo de Q.I. reduzido, saberíamos quais são os economistas de maior porte do rame-rame da profissão no estado, os economistas pró-mercado que se fazem ouvir pela equipe, coordenada (?) por intelectuais do porte do sr. Carlos Búrigo, secretário do planejamento. A própria secretaria que ele, imagino que contra a vontade, chefia, tem profissionais modernos que bem -se fossem ouvidos- poderiam dizer algo sobre as tarefas governamentais indelegáveis.

Por mais nobre que seja a delegação de funções à comunidade ("produtores independentes livremente associados"), há limites dados pela comparação da famosa dupla compre-ou-faça. Para os versados na teoria econômica moderna, Ronald Coase, aquelas coisas, usar o mercado tem um custo, o custo de mercado, como disse o velhinho lá nos anos 1930, hoje atendendo pelo título de custos de transação. Quer dizer, se compro um espumante para dar de presente, preciso certificar-me que o produto não chegará deteriorado às mãos do destinatário. E o vendedor haverá de preocupar-se com as cédulas de dinheiro que lhe carreio às mãos. Ambos incidimos em custos precisamente por usar o mercado.

Pois então. O governo acha que pode delegar ao setor privado o cálculo do PIB, pois anuncia que fechará a FEE, respeitável instituição "de economia e estatística" tida como auxiliar da secretaria de planejamento, e já volta o mr. Búrigo. Nada é mais simples que calcular o PIB: remuneração dos empregados mais excedente operacional bruto mais impostos indiretos menos subsídios. Então que ele calcule, pega a remuneração dos empregados, ok, e por aí vai. Mas como imputar (epa, imputar, saberá lá aquela macacada o que é isto?), por exemplo, o valor adicionado à economia pelo tráfico de drogas ilegais, o valor de um assassinato, o gasto de combate à poluição ambiental precisamente devida à necessidade de reciclar o lixo lá da casa dele? E como dar conta dos lucros operados no "caixa 2"? E a sonegação de impostos não contabilizados nem na folha de pagamentos nem nos lucros "retidos"?

Saberá ele, o Búrigo, que o valor adicionado tem três óticas de cálculo, que as três são encapsuladas numa matriz de contabilidade social e que, se não se calculasse o PIB (visão dos produtores), mas calculasse a renda (visão dos locatários dos fatores) ou a despesa (visão das instituições), daria tudo na mesma? E saberá ele que todo mundo calcula as três óticas, a fim de lidar com as incongruências informacionais? Resultado: precisa-se de um aparato inteiro de estatísticas sobre o produto, a renda e a despesa, a fim de dar coerência ao sistema. Precisa-se de fazer estimativas para todo o estado, determinar as compras e vendas de e para outros estados, as transações com o exterior, as rendas de, digamos, paraibanos, que por aqui labutam e que são remetidas à Paraíba ou a Santa Catarina, sei lá... Saberá Búrigo e sua trupe que, além do PIB estadual (anual e trimestral, global e setorial, nominal e real), calcula-se o PIB municipal (global e setorial)? E luta-se para fechar o ciclo com os componentes da renda e os demais da despesa? Especialmente quanto menor o grau de agregação destas estatísticas, mais complicado torna-se divulgá-las sem  quebrar a confidencialidade -para fins estatísticos- que o informante individual merece, requer e tem garantida.

E saberá ele aquilo dali do outro parágrafo de PIB real exige mais montanhas de cálculos? E com estes cálculos passa-se a contar com o cálculo da inflação estadual? E saberá ele que, contando com boas estimativas do PIB (produto) e despesa interna bruta setoriais, estamos a um passo da montagem da matriz de insumo-produto (que a FEE faz periodicamente)? E, com a matriz de insumo-produto, estamos a um passo da matriz de contabilidade social, que a FEE terá em seus planos de expansão da base de dados)? E saberá ele que este conjunto

.a contas do produto, da renda e da despesa
.b matriz de insumo-produto
.c matriz de contabilidade social

monta-se uma base de dados invejável capaz de fortalecer o grau de crença nas informações alcançadas individualmente em cada metodologia para sua obtenção? Saberá? Mais provável é encontrarmos porcos com asas.

Pois é: tem que ter profissionais tratando disto, que se especializam, que estudam este objeto. E tem que ser do governo, da administração direta ou indireta? Primeiro, uma vez que tive o hoje sabidamente honroso cargo de fazer parte da primeira equipe que se encarregou destes cálculos na FEE, acho óbvio que ela deve ser mantida, nunca deveria ter-se cogitado de fechá-la. Segundo, o presidente do IBGE insurgiu-se contra o amadorismo da decisão do governo Sartori. Olha aqui a Zero Hora, página 16, a cronista Marta Sfredo:

   Conforme o IBGE, a posição [da negativa do IBGE em compartilhar sua base de dados com uma firma de consultoria] tem origem no fato de que o presidente tinha a mesma informação da coluna: a de que o núcleo relacionado ao PIB migraria para a Secretaria de Planejamento, mantendo as informações na esfera pública.
   Ainda segundo o instituto, não há precedente no país de levantamento feito por terceirizado.

Torna-se claro: a inguenorância dos próceres locais não faz mal apenas ao cotidiano sul-riograndense, mas desmoraliza uma terra avassalada por sucessivos e incompetentes arranjos políticos.

DdAB
P.S. a imagem que nos encima recolhi-a do Google Images ao digitar "governo sartori uma piada". Aí pensei estar lendo "nhoque", ao invés de "choque" e achei apropriado, principalmente depois de ter ouvido que as novas gastronomias estão fazendo também nhoques de banana. Como essa macacada me parece não apenas gostar mas também ser um avantajado núcleo de bananas, achei tudo nos trinques.
P.S.S. Já referi a composição do PIB. Repito e amplio:
Produto interno bruto a preços de consumidor:
PIB = remuneração dos empregados mais excedente operacional bruto mais impostos indiretos líquidos de subsídios.
Renda interna bruta:
Renda das famílias mais renda do governo mais renda líquida das empresas de comércio exterior mais poupança dos trabalhadores mais poupança dos capitalistas.
Despesa interna bruta:
Consumo das famílias mais consumo do governo mais exportações líquidas de exportações mais investimento das empresas domésticas.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Pedofilia e Paralaxe


Querido diário:

Às 12h25min de 8 de dezembro corrente, Moisés Mendes publicou em seu mural do Facebook a seguinte nota:

Não me convidem para o linchamento público de quem tem o direito elementar da defesa em democracias e sociedades ditas (ainda) civilizadas. Que o golpe e o fascismo não nos brutalizem e não nos igualem às hienas que tentam nos cercar.

Ao ler Moisés, 'de  vereda' fiquei sem saber exatamente de que se tratava. Linchamentos públicos são prática de todo dia nos dias que correm. No caso, ao ler os comentários de seus infindáveis admiradores, tornou-se claro para mim que falavam de um caso de acusação de pedofilia feito pela mãe de uma garota de seis anos de idade a um cidadão que viajava ao lado da menina num voo entre Guarulhos e Porto Alegre.

E como vim a saber qual era o tema, a acusação, a mãe, a menina, o bebê de colo, o acusado, o marido da mãe que não está claro se entrou ou não entrou na história, mas que estava no avião juntamente com uma sobrinha? Ela, sempre ela, a inefável Zero Hora a quem, por precisamente razões deste tipo, volta e meia cognomino de Zero Herra, Zero Hurra e Zero Burra. Depois da nota do Moisés e a identificação do incidente, não consegui deixar de pensar nele e decidi escrever esta postagem.

A mãe acusou, o cara foi enquadrado, condenado, já perdeu o emprego (demitido de um CC na prefeitura), passou a usar tornozeleira eletrônica. Descontada uma propaganda, o cerne da página 22
(edição da quinta-feira passada, 7 de dezembro) é tomado pela notícia de minha Zero Burra. O jornalista que assina essa encrenca é Marcelo Kervalt (marcelo.kervalt@zerohora.com.br), que fala em Lei 217-A, bicho! Fico a indagar-me que tipo de jornalismo este profissional está praticando ao encaminhar para publicação um caso destes contornos. Cá entre nós, há milhares de possibilidades que não foram exploradas para dar algum grau de isenção ao texto que li e reli. Mas o problema não reside apenas na qualidade da seleção feita pelo jornalista, pois presumo que pelo menos o editor da seção "Notícias" ou o que seja, deve ter lido o que ele escreveu e não achou que fosse muita mirra para pouca missa. Cá entre nós, o incidente que tem milhares de possibilidades de erro de avaliação.

Estamos chegando num ponto complicado: não quero negar que o sr. Fulano de Tal, representado pelo advogado Raul Linhares, seja o que quer lá que seja, mas também acho sensato negar muito crédito à hipótese de que ele é pedófilo, cachaceiro, estelionatário, o que seja. Quero dizer, este senhor foi acusado e condenado com base no depoimento de uma senhora que diz ter "percebido a mão de um homem sobre a coxa de sua filha de seis anos", num momento em que "as luzes internas do avião estavam baixas". Viu? As luzes estavam baixas? O homem é pedófilo? Viu-lhe os olhos abertos? A mulher é que foi vítima de paralaxe?

Os antecedentes do homem não apontam nenhuma infração que leve quem quer que seja de boa índole a considerá-lo pedófilo. Olha a página 22:

O homem, natural do Rio de Janeiro, mas morador de Porto Alegre, tem 49 anos e trabalhou como professor de português em escolas da capital gaúcha. Até ontem, exercia função em cargo comissionado (CC) na Secretaria de Cultura de Porto Alegre.

Até aquele momento, um cidadão pacífico que viajava pacificamente. Talvez a polícia tenha esclarecido alguma coisa para referendar a acusação da mãe. Ou o jornal omitiu-nos informação ou a polícia tem capacidade de inferência extraordinária e, apenas com esses dados, percebeu que se trata mesmo de um "elemento feroz e nocivo ao bem-estar comum", como diz lá o Chico Buarque. Mas a matéria do jornal não dá pistas. A primeira questão que me ocorre, já que a mãe terá visto a mão na coxa, é se era a palma ou seu lado oposto. Acho que bolinar com o lado oposto à palma é menos erótico que otherwise. Mas este indício importa especialmente apenas se for associado a outros e até mais comprometedores indícios. Outro indício que nos falta para avaliar a qualidade literária da notícia, de seu autor e editor, é quanto tempo a mão (se é que caiu, se é que não houve paralaxe, se é que -mesmo sem paralaxe- o escurinho do avião não prejudicou a mãe) permaneceu na coxa da menina.

O advogado do funcionário público diz "Não houve nenhum tipo de ato libidinoso ou prática com conotação sexual [...]." Pois digamos que houvesse, que a mãe da criança estivesse realmente relatando a verdade dos fatos, não seria o caso de mudar a criança de lugar, de tentar certificar-se de que não estava ocorrendo um mal-entendido. Especialmente, não seria o caso de pensar no princípio da gradação das penas? Não pode dar pena de morte para quem rouba em supermercado, não é isto? Em particular, o homem teve sua vida patrolada com base num depoimento que o jornal leva-me a crer tratar-se de exagero da mãe da criança.

Então andamos mais para o final da notícia:

Segundo a assessoria de imprensa da Justiça Federal, o homem foi solto por possuir bons antecedentes, ter residência e emprego fixos, além de não ter passagens policiais. Mesmo assim, terá que cumprir série de medidas como uso da tornozeleira eletrônica, comparecimento periódico na Justiça, recolhimento noturno e aos finais de semana e proibição de viajar sem prévia autorização.

In dubio pro reo. Não quero dizer que a mãe da menina devesse postar-se contra a filha. Quero dizer que o jornalista, que o editor, que a polícia e que o judiciário é que deveriam pensar um pouco mais antes de condená-lo a ser chamado de  suspeito. Este país é uma bagunça, o sistema judiciário é uma das vergonhas nacionais, e eu acho que o grande vilão destas plagas é mesmo a desigualdade que por aqui grassa há 517 anos, a fechar 518 a 21 de abril de 2018. Repito a conclamação do Moisés:

Que o golpe e o fascismo não nos brutalizem e não nos igualem às hienas que tentam nos cercar.

DdAB
P.S. Em 20 de março de 2009, fiz uma postagem com tema assemelhado. Um rapaz foi acusado de roubar uma picanha do supermercado Carrefour (aqui). Dei uma olhada naquele longo calvário e percebi que não me caíra a ficha que aquela encrenca não é notícia digna de um jornal. Essa Zero Herra tem cada uma...

P.S.S. Aqui está a notícia inteira.
NOTÍCIAS | SEGURANÇA
Homem é detido por suspeita de abusar de criança. 
CASO TERIA ACONTECIDO no trajeto Guarulhos-Porto Alegre. Suspeito foi solto ontem à tarde.
Marcelo Kervalt
marcelo.kervalt@zerohora.com.br
Às 3h30min de segunda-feira partiu do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, o voo que levava uma família mato-grossense para passar férias em Gramado, na Serra. Na metade do caminho entre a cidade paulista e Porto Alegre, quando as luzes internas do avião estavam baixas, uma mãe diz ter percebido a mão de um homem sobre a coxa de sua filha de seis anos.
   O suspeito foi preso em flagrante por estupro de vulnerável, crime configurado por conjunção carnal ou prática de outro ato libidinoso com menor de 14 anos, conforme a Lei 217-A. A detenção durou até por volta das 18h20min de ontem, quando o homem foi solto, mediante uso de tornozeleira eletrônica, pela Justiça Federal.
   O homem, natural do Rio de Janeiro, mas morador de Porto Alegre, tem 49 anos e trabalhou como professor de português em escolas da capital gaúcha. Até ontem, exercia função em cargo comissionado (CC) na Secretaria de Cultura de Porto Alegre. 
   -Empurrei ele e perguntei o que estava fazendo. Ele se fez de desentendido, dizendo que não sabia o que estava acontecendo.
   A mulher afirma que estava sentada na poltrona do corredor com o filho de dois anos no colo. ao lado, no assento central, dormia sua filha. Na janela, estava o suspeito:
   -Ele parecia uma pessoa muito séria. Passou por nós quieto e sentou. Não falou nada. Depois dormi, e quando acordei vi ele com a mão na coxa da minha filha. Não foi uma mão que caiu, porque ele estava bem acordado.
   A mãe alertou a tripulação sobre o fato que afirma ter testemunhado. Chegando ao Rio Grande do Sul, o comandante pediu que os passageiros permanecessem em seus lugares. Apenas a família -mãe filha, filho, pai e uma sobrinha do casal- foi retirada da aeronave para prestar depoimento por volta das 5h. Em seguida, os demais passageiros foram liberados, e o homem, acompanhado, até a Superintendência da PF em Porto Alegre, onde também prestou depoimento e ficou detido.
   -É inadmissível, lastimável. Não sei qual palavra usar para descrever minha tristeza. Me sinto mal por ter deixado ela do lado de um homem desses. A partir de hoje, vou tomar outras medidas para protegê-la. Ficamos até o meio-dia na Polícia Federal. Nossa filha não sabia o que estava acontecendo e imaginou que tínhamos feito algo de errado e que seríamos presos - afirma a mãe.
HOUVE UM MAL-ENTENDIDO, ALEGA ADVOGADO
   O advogado do suspeito, Raul Linhares, argumenta que o caso não passa de uma confusão.
   -Não houve nenhum tipo de ato libidinoso ou prática com conotação sexual - garante.
   Ainda na tarde de ontem, a prefeitura da Capital informou, em nota, a demissão do suspeito:
   "A prefeitura de Porto Alegre comunica a exoneração do servidor preso pela Polícia Federal na madrugada da segunda-feira."
   Segundo a assessoria de imprensa da Justiça Federal, o homem foi solto por possuir bons antecedentes, ter residência e emprego fixos, além de não ter passagens policiais. Mesmo assim, terá que cumprir série de medidas como uso da tornozeleira eletrônica, comparecimento periódico na Justiça, recolhimento noturno e aos finais de semana e proibição de viajar sem prévia autorização.
   -Conseguimos a soltura no sentido de esclarecimento da situação. Houve um mal-entendido. Uma situação que não foi bem compreendida - argumentou Linhares.