segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Pedofilia e Paralaxe


Querido diário:

Às 12h25min de 8 de dezembro corrente, Moisés Mendes publicou em seu mural do Facebook a seguinte nota:

Não me convidem para o linchamento público de quem tem o direito elementar da defesa em democracias e sociedades ditas (ainda) civilizadas. Que o golpe e o fascismo não nos brutalizem e não nos igualem às hienas que tentam nos cercar.

Ao ler Moisés, 'de  vereda' fiquei sem saber exatamente de que se tratava. Linchamentos públicos são prática de todo dia nos dias que correm. No caso, ao ler os comentários de seus infindáveis admiradores, tornou-se claro para mim que falavam de um caso de acusação de pedofilia feito pela mãe de uma garota de seis anos de idade a um cidadão que viajava ao lado da menina num voo entre Guarulhos e Porto Alegre.

E como vim a saber qual era o tema, a acusação, a mãe, a menina, o bebê de colo, o acusado, o marido da mãe que não está claro se entrou ou não entrou na história, mas que estava no avião juntamente com uma sobrinha? Ela, sempre ela, a inefável Zero Hora a quem, por precisamente razões deste tipo, volta e meia cognomino de Zero Herra, Zero Hurra e Zero Burra. Depois da nota do Moisés e a identificação do incidente, não consegui deixar de pensar nele e decidi escrever esta postagem.

A mãe acusou, o cara foi enquadrado, condenado, já perdeu o emprego (demitido de um CC na prefeitura), passou a usar tornozeleira eletrônica. Descontada uma propaganda, o cerne da página 22
(edição da quinta-feira passada, 7 de dezembro) é tomado pela notícia de minha Zero Burra. O jornalista que assina essa encrenca é Marcelo Kervalt (marcelo.kervalt@zerohora.com.br), que fala em Lei 217-A, bicho! Fico a indagar-me que tipo de jornalismo este profissional está praticando ao encaminhar para publicação um caso destes contornos. Cá entre nós, há milhares de possibilidades que não foram exploradas para dar algum grau de isenção ao texto que li e reli. Mas o problema não reside apenas na qualidade da seleção feita pelo jornalista, pois presumo que pelo menos o editor da seção "Notícias" ou o que seja, deve ter lido o que ele escreveu e não achou que fosse muita mirra para pouca missa. Cá entre nós, o incidente que tem milhares de possibilidades de erro de avaliação.

Estamos chegando num ponto complicado: não quero negar que o sr. Fulano de Tal, representado pelo advogado Raul Linhares, seja o que quer lá que seja, mas também acho sensato negar muito crédito à hipótese de que ele é pedófilo, cachaceiro, estelionatário, o que seja. Quero dizer, este senhor foi acusado e condenado com base no depoimento de uma senhora que diz ter "percebido a mão de um homem sobre a coxa de sua filha de seis anos", num momento em que "as luzes internas do avião estavam baixas". Viu? As luzes estavam baixas? O homem é pedófilo? Viu-lhe os olhos abertos? A mulher é que foi vítima de paralaxe?

Os antecedentes do homem não apontam nenhuma infração que leve quem quer que seja de boa índole a considerá-lo pedófilo. Olha a página 22:

O homem, natural do Rio de Janeiro, mas morador de Porto Alegre, tem 49 anos e trabalhou como professor de português em escolas da capital gaúcha. Até ontem, exercia função em cargo comissionado (CC) na Secretaria de Cultura de Porto Alegre.

Até aquele momento, um cidadão pacífico que viajava pacificamente. Talvez a polícia tenha esclarecido alguma coisa para referendar a acusação da mãe. Ou o jornal omitiu-nos informação ou a polícia tem capacidade de inferência extraordinária e, apenas com esses dados, percebeu que se trata mesmo de um "elemento feroz e nocivo ao bem-estar comum", como diz lá o Chico Buarque. Mas a matéria do jornal não dá pistas. A primeira questão que me ocorre, já que a mãe terá visto a mão na coxa, é se era a palma ou seu lado oposto. Acho que bolinar com o lado oposto à palma é menos erótico que otherwise. Mas este indício importa especialmente apenas se for associado a outros e até mais comprometedores indícios. Outro indício que nos falta para avaliar a qualidade literária da notícia, de seu autor e editor, é quanto tempo a mão (se é que caiu, se é que não houve paralaxe, se é que -mesmo sem paralaxe- o escurinho do avião não prejudicou a mãe) permaneceu na coxa da menina.

O advogado do funcionário público diz "Não houve nenhum tipo de ato libidinoso ou prática com conotação sexual [...]." Pois digamos que houvesse, que a mãe da criança estivesse realmente relatando a verdade dos fatos, não seria o caso de mudar a criança de lugar, de tentar certificar-se de que não estava ocorrendo um mal-entendido. Especialmente, não seria o caso de pensar no princípio da gradação das penas? Não pode dar pena de morte para quem rouba em supermercado, não é isto? Em particular, o homem teve sua vida patrolada com base num depoimento que o jornal leva-me a crer tratar-se de exagero da mãe da criança.

Então andamos mais para o final da notícia:

Segundo a assessoria de imprensa da Justiça Federal, o homem foi solto por possuir bons antecedentes, ter residência e emprego fixos, além de não ter passagens policiais. Mesmo assim, terá que cumprir série de medidas como uso da tornozeleira eletrônica, comparecimento periódico na Justiça, recolhimento noturno e aos finais de semana e proibição de viajar sem prévia autorização.

In dubio pro reo. Não quero dizer que a mãe da menina devesse postar-se contra a filha. Quero dizer que o jornalista, que o editor, que a polícia e que o judiciário é que deveriam pensar um pouco mais antes de condená-lo a ser chamado de  suspeito. Este país é uma bagunça, o sistema judiciário é uma das vergonhas nacionais, e eu acho que o grande vilão destas plagas é mesmo a desigualdade que por aqui grassa há 517 anos, a fechar 518 a 21 de abril de 2018. Repito a conclamação do Moisés:

Que o golpe e o fascismo não nos brutalizem e não nos igualem às hienas que tentam nos cercar.

DdAB
P.S. Em 20 de março de 2009, fiz uma postagem com tema assemelhado. Um rapaz foi acusado de roubar uma picanha do supermercado Carrefour (aqui). Dei uma olhada naquele longo calvário e percebi que não me caíra a ficha que aquela encrenca não é notícia digna de um jornal. Essa Zero Herra tem cada uma...

P.S.S. Aqui está a notícia inteira.
NOTÍCIAS | SEGURANÇA
Homem é detido por suspeita de abusar de criança. 
CASO TERIA ACONTECIDO no trajeto Guarulhos-Porto Alegre. Suspeito foi solto ontem à tarde.
Marcelo Kervalt
marcelo.kervalt@zerohora.com.br
Às 3h30min de segunda-feira partiu do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, o voo que levava uma família mato-grossense para passar férias em Gramado, na Serra. Na metade do caminho entre a cidade paulista e Porto Alegre, quando as luzes internas do avião estavam baixas, uma mãe diz ter percebido a mão de um homem sobre a coxa de sua filha de seis anos.
   O suspeito foi preso em flagrante por estupro de vulnerável, crime configurado por conjunção carnal ou prática de outro ato libidinoso com menor de 14 anos, conforme a Lei 217-A. A detenção durou até por volta das 18h20min de ontem, quando o homem foi solto, mediante uso de tornozeleira eletrônica, pela Justiça Federal.
   O homem, natural do Rio de Janeiro, mas morador de Porto Alegre, tem 49 anos e trabalhou como professor de português em escolas da capital gaúcha. Até ontem, exercia função em cargo comissionado (CC) na Secretaria de Cultura de Porto Alegre. 
   -Empurrei ele e perguntei o que estava fazendo. Ele se fez de desentendido, dizendo que não sabia o que estava acontecendo.
   A mulher afirma que estava sentada na poltrona do corredor com o filho de dois anos no colo. ao lado, no assento central, dormia sua filha. Na janela, estava o suspeito:
   -Ele parecia uma pessoa muito séria. Passou por nós quieto e sentou. Não falou nada. Depois dormi, e quando acordei vi ele com a mão na coxa da minha filha. Não foi uma mão que caiu, porque ele estava bem acordado.
   A mãe alertou a tripulação sobre o fato que afirma ter testemunhado. Chegando ao Rio Grande do Sul, o comandante pediu que os passageiros permanecessem em seus lugares. Apenas a família -mãe filha, filho, pai e uma sobrinha do casal- foi retirada da aeronave para prestar depoimento por volta das 5h. Em seguida, os demais passageiros foram liberados, e o homem, acompanhado, até a Superintendência da PF em Porto Alegre, onde também prestou depoimento e ficou detido.
   -É inadmissível, lastimável. Não sei qual palavra usar para descrever minha tristeza. Me sinto mal por ter deixado ela do lado de um homem desses. A partir de hoje, vou tomar outras medidas para protegê-la. Ficamos até o meio-dia na Polícia Federal. Nossa filha não sabia o que estava acontecendo e imaginou que tínhamos feito algo de errado e que seríamos presos - afirma a mãe.
HOUVE UM MAL-ENTENDIDO, ALEGA ADVOGADO
   O advogado do suspeito, Raul Linhares, argumenta que o caso não passa de uma confusão.
   -Não houve nenhum tipo de ato libidinoso ou prática com conotação sexual - garante.
   Ainda na tarde de ontem, a prefeitura da Capital informou, em nota, a demissão do suspeito:
   "A prefeitura de Porto Alegre comunica a exoneração do servidor preso pela Polícia Federal na madrugada da segunda-feira."
   Segundo a assessoria de imprensa da Justiça Federal, o homem foi solto por possuir bons antecedentes, ter residência e emprego fixos, além de não ter passagens policiais. Mesmo assim, terá que cumprir série de medidas como uso da tornozeleira eletrônica, comparecimento periódico na Justiça, recolhimento noturno e aos finais de semana e proibição de viajar sem prévia autorização.
   -Conseguimos a soltura no sentido de esclarecimento da situação. Houve um mal-entendido. Uma situação que não foi bem compreendida - argumentou Linhares.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Segredo do Desenvolvimento Econômico: Bill Easterly


Querido diário:
Não lembro bem onde li que Joan Robinson falou que Pirandello tem um personagem (que nunca achei em carne e osso) parece que no livro "O Falecido Matia Pascal" que falava tudo o que seu ouvinte pensava serem ideias originais do próprio ouvinte. Passou-se o mesmo comigo com relação a William Easterly: eu ia lendo e pensando: mas não fui eu mesmo que percebi estas regularidades? Também tem muita coisa a ver sobre uma de minhas melhores leituras dos últimos tempos, a dupla Acemoglu e Robinson.  Sobre Easterly já falei nele aqui.

No seu excelente "The Elusive Quest for Growth", William Easterly não consegue chegar a nenhuma receita mágica para o enriquecimento dos países, mas dedica um capítulo inteiro a ações induzidas por governos que foram capazes, ao longo da história, de enterrar o crescimento. São elas: inflação alta, altos ágios no mercado paralelo de câmbio, altos déficits de orçamento, juros reais fortemente negativos, restrições ao livre comércio, burocracia excessiva e serviços públicos inadequados. Qual minha fonte? O amigo do amigo do amigo, originando-se aqui.

Claro que fico pensando no que acontece aos países que têm:

.a. inflação rastejante
.b. taxa de câmbio próxima do equilíbrio
.c. orçamento razoavelmente equilibrado
.d. juros próximos à taxa de lucro da economia (eles ligeiramente menores que ela)
.e. comércio internacional razoavelmente livre
.f. reduzida burocracia
.g. serviços públicos de boa qualidade.

Será que tudo isto poderia ser resumido em "boas instituições"?

DdAB
A imagem é daqui: 1024px-Easterly's_Daguerreotype_Gallery,_St._Louis,_1851. É o que de melhor achei para homenagear o velho Easterly.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Liberdade e Propriedade


Querido diário:

Em tempos em que um juiz emite uma liminar (ou algo parecido) contra a punição de quem faz apologia da tortura, da misoginia, da discriminação a pobres, negros e outros grupamentos humanos, chegou a hora de pensarmos um pouco mais sobre o significado de liberdade.

Eu ia citar um ponto específico retirado da página 267 de

ALCHIN, Nicholas (2003) Theory of knowledge. London: Hodder Murray.

já referido algumas outras  vezes neste blog.

A página tem como cabeçalho Human Rights, inscrevendo-se no capítulo Politics.

O livro é platônico, ou seja, cheio de perguntas deixadas, a maior parte delas, sem resposta. Assim a entrada ao capítulo encaminha três delas:

A. Quais são seus direitos humanos? Você deveria ter direito a:

. vida
. alimentos e água
. emprego
. moradia
. trabalho interessante
. igualdade (equality)
. pensar o que bem entende
. férias periódicas
. possuir um automóvel
. ter filhos
. educação
. liberdade (liberty)
. distância (freedom) da tortura
. distância (freedom) da discriminação
. propriedade da própria pessoa
. viver onde quiser
. educação universitária
. possuir um aparelho de TV
. cuidados médicos adequados
. decidir sobre a educação dos filhos.

B. What other rights do you have?
Fiquei sem resposta.

C. Are these rights unanbiguous? Are they universal? Are they absolute?
Parece óbvio que qualquer destes direitos requer alguém ou alguma coisa que os garanta. Por exemplo, de que vale dizer-se que todos temos direito a uma vida digna num país de roubos desabotinados como o Brasil?

Entro lá pelo meio do primeiro paragrafão:

Of course, in reality there may be a great deal of disagreement over rights. Robert Nozick, for example, thinks that the right to property and freedom over-rides other moral claims, but many people strongly disagree, and this highlights the constructed nature of rights. What should we pick as our fundamental rights?

Deste trechinho, voltei à página 181, quando ele fala no "paradigma moderno", contemplando:

Humans are random evolutionary accidents.
Humankind is one of a billion biological species.
There is no God.
There is no purpose to life.
There is no path to truth.

É pra ser radical? Então pensei que o meu paradigma é:

Seres humanos não passam de acidentes evolucionários (minha tradução livre)
A humanidade é gregária
A humanidade preza a liberdade
A humanidade é proprietária
A humanidade não gosta de desigualdade.

Então refazemos a página 267: repensemos o que o autor diz de Nozick, como se o próprio Nozick, em trabalhos posteriores àquele "Anarquia, estado e utopia" não tivesse relativizado essa ideia central de absoluta liberdade e propriedade.

Pois então. Para refazê-la, pensemos em meus três princípios finais: liberdade, propriedade e igualdade. Parece que retiro uma importante lição de precedência (lexicografia, na linguagem de John Rawls): o direito à liberdade deve anteceder o direito à propriedade, pois -caso não o fizesse- poderíamos pensar que -na linha do Nozick citado- um legítimo proprietário de escravos não poderia ser acusado de vedar-lhes o acesso à liberdade. Ademais, se é pra ser todo mundo igual ou todos seremos escravos (de quem? uns dos outros?) ou todos seremos libertos. E até sou proibido de vender-me como escravo. E tu também!

DdAB

sábado, 2 de dezembro de 2017

O Jogo do Honesto


Querido diário:

Comecei o título deste artigo usando o adjetivo masculino singular "honesto". Singular, eis a chave, uma vez que parece haver poucos honestos, especialmente na política, objeto de minha incursão à economia política do Brasil contemporâneo. A corrupção não é de hoje e o povo, piadista como ele só, já acusou esta escassez quando da eleição -lá por seus pares- do general Ernesto Geisel à presidência da república em 15 de janeiro de 1974. Diz a piada que -homens de seu tempo- os militares tentaram resolver o impasse do excesso de candidatos à sucessão do general Emílio Garrastazu Médici, pedindo a um algoritmo que, desta vez, apontasse um general honesto. O computador -segue a lenda- pensou, pensou e informou: "honesto não tem, mas por aproximação temos um Ernesto". Aqui entre nós, tornemo-nos circunspectos: primeiramente fora Temer!

Os tempos mudaram. Mudanças cosméticas, é verdade, pois o principal problema brasileiro, a desigualdade, esconde-se nas mais variadas fímbrias da vida nacional. Na presente fase e as instituições que nela funcionam, não há como deixar de referir que a própria desigualdade é endossada pela impunidade. Um sistema judiciário de baixa eficiência é um poderoso aliado da desigualdade na medida que, por exemplo, não exige do poder executivo a criação de condições para todas as crianças frequentarem escolas de qualidade, não oferece segurança pública em níveis adequados, não garante (nem entende o que significa) um sistema de saúde realmente universal, não pune políticos que mentem em suas promessas eleitorais, e por aí segue a saga.

A impunidade, como sabemos, é alcançada pelo estabelecimento de um preço baixíssimo para a demanda por crimes. Sendo esta demanda exercida pelos desonestos, o preço baixo induz ao consumo de alta quantidade de ilícitos. Já estamos com dois itens: a desigualdade e a impunidade. Mas rapidamente cumpre-nos acrescentar uma terceira e poderosa aliada no Brasil: a leniência, a lentidão da justiça, o que provocou uma relação entre processos pendentes e população realmente escandalosa: para os 200 milhões de brasileiros, há 100 milhões de processos transitando pelos escaninhos das repartições da administração da justiça. Como evitar de comemorar que, em média, cada brasileiro ou está processando outro ou sendo processado por ele?

No congresso nacional, as posições de representantes do povo já vêm diretamente associadas à cultura da impunidade, pois são dezenas os deputados e senadores cuja motivação para permanecerem na política é o foro especial que a representação lhes oferece e, com ele, a criminalização de suas ações apenas após filtro imposto pelo poder judiciário. A atual composição das duas casas é de 513 deputados e 81 senadores. Deste total de 594 representantes do povo e das terras há 238 "sendo investigados", como aponta Isabella Macedo em artigo de 27 de julho no site http://congressoemfoco.uol.com.br. São centenas de inquéritos, quase alcançando galhardamente a média de apenas meio processo por brasileiro. Em outras palavras, dado o tamanho da amostra (e a possível impunidade/ignorância sobre crimes de muitos deles) um político exercendo cargos eletivos pratica ações que são mais suspeitas de criminosas que a média da população brasileira. Mau sinal... Esta escandalosa convivência com a impunidade dos parlamentares é um trágico exemplo voltado a conduzir nossa reflexão sobre a herança que a atual geração deixará para seus pósteros.

Um portentoso exemplo da vigilância feita pela atual geração quanto às tentativas governamentais de conduzir ao desmantelamento da administração pública pode ser notado, nos dias que correm, pela mobilização de diferentes categorias profissionais de funcionários públicos, bem como de organizações comunitárias como certo número de sindicatos e da igreja, especialmente a católica. Em particular, os funcionários públicos estão dando nova lição de civismo, inclusive deixando claro que o estilo anterior de condução da administração pública majoritariamente por meio de funcionários detentores de cargos em comissão, em detrimento da busca do aperfeiçoamento do profissionalismo dos funcionários de carreira, fadou-se ao fracasso. Mais que nunca, está se mostrando, com galhardia, que a administração pública deve ser democratizada e não aparelhada.

Mas ainda falta um elo importante nessa cadeia de resistência às assacadas de desvalorização do papel do estado e resistência funcional à também grotesca desvalorização do papel dos próprios funcionários públicos. Trata-se do espaço político propriamente, dos agentes diretamente vinculados ao governo, seja na forma de integrantes dos poderes executivo e judiciário, seja no ambiente da atividade parlamentar, dos representantes do povo no congresso nacional.

Evocando o momento explosivo da primeira metade do século XVIII na Europa, surge-nos a inspiração de pensar que também o Brasil iria beneficiar-se de uma "liga dos justos", originalmente crida como uma união entre trabalhadores alemães emigrados. Adaptando-a ao Brasil podemos pensar que os políticos honestos poderão formar um grupamento, na tentativa de montar um bloco parlamentar discursando em prol da honestidade e criando mecanismos legais conducentes a uma reforma administrativa que acabe com a impunidade em geral e a proverbial impunidade garantida aos próprios legisladores das duas casas. Um caucus de mulheres e homens honestos.

Que tipo de consequências vislumbro para tal tipo de iniciativa? Podemos tirar algumas lições da aplicação ao caso de alguns preceitos da teoria dos jogos. Bem sabemos que a teoria dos jogos é um campo de experimentos mentais que podem ser adaptados a muitas situações do mundo corrente, do mundo de homens e bichos, tratando das escolhas estratégicas em que cada jogador se envolve, no ambiente em que sua recompensa depende da escolha do outro jogador. Num jogo dinâmico (ou seja, a escolha de um jogador é  concomitante ou seguida pela de seu correlato, não se esgotando num único encontro), podemos esperar que estratégias de maior sucesso, aos olhos de observadores inteligentes, serão imitadas por estes. No caso, este caucus de que falo repercutirá tão estrondosamente junto à maioria do eleitorado brasileiro que as recompensas associadas à honestidade podem ser entusiasmantes, contribuindo mesmo para a purificação do processo político. Mas há risco de que políticos e outras pessoas desonestas finjam-se de honestos, a fim de "faturar" ao mimetizarem comportamentos honestos. O mais tradicional jogo em que o caroneiro destrói o bem-estar social é o dilema de prisioneiros. Numa postagem feita em meu blog no dia 22 de maio de 2015 (1), faço algumas brincadeiras sobre ele-dilema, mas acredito dar uma boa ideia dos problemas trazidos a certos processos de escolha social precisamente em resposta à falta de coordenação nas escolhas feitas pelos agentes.

Na linha das piadas e fábulas, devemos lembrar que é preciso um aparentado ao gato Farofino (2), de sorte a conseguir levar as boas resoluções dos homens justos à imprensa. Trata-se de buscar motivar os próprios membros do congresso a aderirem a este cluster, sem negligenciar os demais políticos das demais instâncias dos três poderes e da vida civil. Farofino também recomendaria a criação de uma organização voltada à participação de pesquisas encarregadas de atualizar o conhecimento sobre o povo brasileiro, desde seus gostos e preferências quanto ao padrão de consumo que ambicionam até as preferências eleitorais. Por fim, antes de tomar o poder, porquanto com simples ação oposicionista, esse caucus de homens honestos deverá exercitar sua organização e preparação a seu exercício com a construção de um governo paralelo.

Eu mesmo já vou tratar de ir encaminhando o link deste artigo para o dep. Henrique Fontana.

DdAB
(1)  Na fábula de Esopo, os ratos bolaram a solução para controlar o movimento do rato: uma coleira com guiso no pescoço do bichano. A dificuldade na realização do plano foi encontrar um voluntário para fazer o serviço.
(2) Ver: http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/05/paradoxo-de-abilene-e-dilema-de.html.

P.S. A atriz contratada da foto que nos encima é a srta. Jujuba, pet da srta. Paula de Paris.
P.S.S. A mensagem ao deputado Henrique Fontana saiu assim:
Caro deputado Henrique Fontana:
Escrevi uma longa postagem em meu blog sugerindo a formação de um grupo de políticos honestos, a fim de tentar mover o Brasil de um jogo perverso em competição mais favorável aos interesses dos menos aquinhoados. Termino-a informando que estaria enviando o link para ela a V. Exelência. Ei-lo: http://19duilio47.blogspot.com.br/2017/12/o-jogo-do-honesto.html
E assim vai para o Facebook em instantes.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Meu Mundo em 15 Powerpoints


Querido diário:
No dia 26 de novembro passado, falei num questionário muito peculiar que apresentei no seminário realizado há 10 anos, ou melhor, em 30 de junho de 2008. Hoje falo nos "powers" que mostrei à refinada audiência. Falo:

POWER 1
:: Título: O MERCADO DE TRABALHO DO ECONOMISTA
Nome do economista em evidência: Duilio de Avila Bêrni

POWER 2
“[...] apontou [...], comparou [...], deduziu e concluiu.”
Machado de Assis no conto “Trio em Lá Menor”, história de Maria Regina e seus dois pretendentes (Miranda e Maciel) que, at the end of the day, deixam-na ficar para tia.

POWER 3
Há um vetor que rege “nosso estar no mundo”:
R3 :: realidade realmente real
Ri :: o mundo da realidade imaginada
É neste clima que pretendo ser entendido, ou seja, como é que eu faço ciência. Sei que estou no mundo, mas formo, sobre ele, uma imagem, uma realidade imaginada que terá alguma relação com o mundo de carne-e-osso, a realidade realmente real que me abriga, mas que nada mais respondo sobre ele, que dizer que o entendo.

POWER 4
A. Formação acadêmica
B. Empregos
B.1 Economista
B.2 Professor
C. Breves considerações sobre o estudo feito

POWER 5
Formação acadêmica
.a 1968-1972 - faculdade: curso de economia, leitura de Isaac Deutscher (trilogia sobre Trotsky)
.b 1973 - leitura do livro de introdução à economia de Richard Lipsey (valeu o curso inteiro)
.c 1974 - viagem a Campinas, tornei-me um leitor da revista Pesquisa e Planejamento Econômico
.d 1975 - PPGE-UFRGS. Aprendi estatística e econometria
.e 1978 -Mestrado em Sussex; debriefing da "economia industrial"
.f 1982 - iniciando a carreira de professor de introdução à economia na UFRGS, eu que iniciara a vida de professor com microeconomia na Unisinos. Neste curso de IntrEco usei o "Manual de introdução à economia", dos professores da USP e leituras complementares, destacando aquele artigo de Stephen Hymer sobre Robinson Crusoé e o livrinho de Ernest Mandel de introdução à economia marxista;
.g 1983-88 - lecionando macro e aprendendo sobre funcionamento do mercado de trabalho;
.h 1989-1992 - doutorado em Oxford; biologia evolucionária, economia experimental, economia evolucionária, começo dos estudos de teoria da escolha social e teoria da escolha pública.
.i 2000 - pós-doutorado (rápido) no Latin-American Institute do University College-London.
.j 2006-2007 pós-doutorado (longo) no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim.

POWER 6
INTERRUPÇÃO
NÚMERO Úm (única)
.j 1993 etc.: na linha dos modelos multissetoriais, a serviço da economia do desenvolvimento
:: meus heróis Quesnay e Cantillon; Marx, Walras, Leontief, Stone e Andras Bródy
.k 1994-2006 - segue a modelagem multissetorial, com o novo vigor à Economia de Empresas
.l 2006-7 - pós-doutorado em Berlim e a leitura de cinco livros selecionados que estavam em minha lista há vários anos:
... POTTS, Jason - The new evolutionary microeconomics
... RICKETTS, Martin - The economics of business enterprise
... BOWLES, Samuel - Microeconomics, behavior, institutions and evolution
... RAY, Debraj - Development economics
... BESANKO, David et al. - A economia da estratégia
.m depois de Berlim: Auerbach e Kotlikoff.
.n The Idea of Justice, de Amartya Sen (o melhor livro que já li).

POWER 7
B. Empregos
Economista
:: conjuntura e contas nacionais
:: economia (organização) industrial
:: teoria da decisão
:: a teoria da decisão resultou da questão
- se a ciência econômica é ciência, então preciso saber o que é ciência
:: se é um ramo da ciência social, preciso saber o que é social
:: e vi que é o estudo de sociedades
:: rapidamente fui levado a pensar em outras sociedades animais, como as abelhas, as cobras e os macacos resus.

POWER 8
Ensino
.a Microeconomia :: contratado na Unisinos por João Verle :: 1976
.b Economia Industrial :: n UFSC (estilo cepalino com adaptações) :: 1980
.b Introdução à economia da UFRGS (Verle queria-a para todo iniciante) :: 1982
.c Macroeconomia (e o problema da IS-LM da economia fechada :: 1984
.d Metodologia da ciência econômica :: 1985
.e Contabilidade social e economia do desenvolvimento :: 1993-2007.

POWER 9
Minhas contribuições:
:: somar 0 e multiplicar por 1
Somar zero:
Maximizar U = U(r, s)
s. a Y = ar + bs
Construímos L = U + 0
ou seja, somamos zero a U e nos capacitamos a escrever:
L = U + (Y - ar - bs)
e trabalhamos com os multiplicadores de Lagrange.

POWER 10
Multiplicar por 1:
Temos ainda a multiplicação da taxa de lucro:
P : taxa de lucro (Profit rate)
L/Y : luta de classes (apropriação da produção)
Y/K: relações tecnológicas (apropriação da natureza)
P = L/K = 1 x L/K = Y/Y x L/K = L/Y x Y/K
ou seja, decompusemos P em duas componentes, a participação dos lucros na renda e a relação produto/capital.

POWER 11
Composto resulta da composição dos componentes
C = f(c1, c2, c3, ..., cn-1, cn) = f(ci)
Por exemplo, o composto C para três componentes é:
C = c1⬌c2⬌c3,
onde “duplo ⬌” é uma operação como a adição, multiplicação, exponenciação etc.
:: isto também nos permite ver outras decomposições:
.a aditiva - matriz inversa de Leontief = I + B + B2 + B3 + ...,
onde B é a matriz (I - A).
.b multiplicativa - matriz inversa generalizada do modelo da matriz de contabilidade social M = M3 x M2 x M1, em que M3, M2 e M1 mostram os efeitos inter, intra e extra-grupos de variações na demanda final
... inter-grupos: como é que um aumento, por exemplo, na demanda final do setor química repercute na receita dos fatores e das instituições
... intra-grupos: como é que um aumento na demanda final da química repercute nas vendas dos demais setores econômicos
... extra-grupos e inter-grupos, ou seja, o montante dos efeitos cruzados de um grupo (produtores, fatores ou instituições) sobre outro e sobre si mesmo.

POWER 12
C. Considerações sobre o estudo feito
.a opiniões: cada opinião que emitirmos deve basear-se num conceito criado por nossa cultura econômica, ou seja, temos uma intuição que resulta em nossa opinião, mas devemos fazer a intermediação com conceitos formalizados por meio de equações. Nunca esquecer de usar o passado para enquadrar o fenômeno em equações identidades (ex post). Por exemplo, para mim:
EE + EI = TD
onde EE é a economia evolucionária, EI é a economia industrial e TD é a teoria da decisão que se desdobra em
TD = Ind + Int + Soc
onde Ind é a decisão individual, Int é a decisão iterativa (modelada com a teoria dos jogos) e Soc é a decisão/escolha social
Ok, ok: isto é uma espécie de piadinha (mas, segue ela, de profunda significação filosófica)...

.b será que acabou o emprego nos setores produtivos?
:::: qual a participação das flores, frutas, leite e haras no PIB porto-alegrense? Zereta!
:::: qual a diferença entre o emprego decente (praticamente impossível mesmo nos dias que correm) e o emprego da Brigada Ambiental Mundial?
:::: A MaCS e o modelo completo do fluxo circular da renda
:::: constatação de que 15min é 1% do dia
:::: saber que o número 2 quer dizer que, crescendo a 7,12%, uma economia dobra em 10 anos.

POWER 13
:: contabilidade social x auditoria social
:::: grau de eficiência no uso dos recursos
:::: civilizações tipo II : aquelas em que existe dilema dos prisioneiros
:::: mercado e suas falhas, estado e suas falhas, comunidade e suas falhas
:::: auditorias: ouvidorias, observatórios, conselhos de stakeholders

POWER 14
.a caminho da ruína
:: corrupção do aparato estatal (executivo, legislativo e judiciário) pelo tráfico de drogas
:: escola em turno único
:: universidade eminentemente noturna
:: destruição do aparato governamental com o ideário neo-liberal num país de estrutura comunitária deficiente
:: ufanismo ainda presente: sublime e parceiro versus tosco e bizarro.

.b salvação
:: ou seja, precisamos pensar em inventar um novo Brasil, pois reconstruir o antigo não vale a pena
:: reformas democráticas que conduzam ao socialismo
:: algumas ações para a reconstrução:
:::: voto voluntário
:::: parlamentarismo
:::: voto distrital
:::: orçamento público universal
:::: eliminação de poderes redundantes (Senado, Poder Judiciário e Estados, fazendo apenas federação de municípios)
:::: emprego público: renda básica (substitui o salário mínimo), Serviço Municipal (brigada ambiental mundial)
:::: imposto de renda :: incidência sobre fatores e instituições e apenas nos bens de demérito dos produtores

POWER 15
:::: globalização e internacionalismo :: chegou a hora de resolver o problema de coordenação que impede que o crescimento seja global e a distribuição seja local
:::: geração de valor exclusivamente nas finanças

:: problema da inflação mundial :: ainda não entendo, nada li e pouco pensei a respeito
:: naturalmente, com minha equação do valor, fui levado a crer na relevância dos conceitos de NAIRU e Produto Potencial para orientar a política econômica de curto prazo
:: ou seja, se
MV = PQ
e
1 = V/P
então
Q = M = Y,
mas aí entram as condições NAIRU e Produto Potencial, pois há evidentes ligações entre o desemprego - U e a contração monetária, o que La Salle chamava de “lei de ferro dos salários”
:: e aí pulamos para
M = f(U),
como vemos na condição de equilíbrio geral (dos mercados de bens, monetário e de trabalho) do modelo IS-LM
:: isto significa que precisamos, com a MIP, determinar os canais por meio dos quais os juros penetram o sistema econômico:
.a desejos de antecipação do consumo
.b planos de investimento
.c expansão do crédito para atender a e b
.d encargos da dívida pública
:: e ainda: como é que a taxa de câmbio mesmo de uma economia não lá muito aberta afeta o nível de preços domésticos? como é que – dizem alguns – “a inflação gera doença, mas o câmbio gera morte”.

Então depois disso tudo estampei aquele powerpointezinho que não recebeu o tradicional n. 16, mas dizendo

"Obrigado!"


DdAB

domingo, 26 de novembro de 2017

Um Seminário: falhas de mercado-estado-comunidade


Querido diário:

Aviso aos navegantes: o cerne desta postagem reside no conteúdo da figura que nos encima. 30 de junho de 2008, meu primeiro ano de "aposentado", ou seja, meu primeiro ano após minha saída da PUCRS. A rigor não era bem "aposentado", pois trabalhava furiosamente na organização-autoria do livro de contabilidade social. Ao magnificar a figura, veremos minha viajação naquele período. Segue-se a ela alguma coisa sobre o conteúdo do seminário propriamente dito, informação que postergo para outro dia.

DdAB
Notate bene: lá em cima escrevi "duilio de avila berni economista". Naquele tempo eu era, efetivamente, economista, pois pagava anuidade ao conselho regional de economia, uma vergonha. Agora, se me declarasse economista poderia ser preso, pois -quando me aposentei pelo INSS- alguns anos depois, perdi o registro e com ele perdi o direito de me declarar economista. Depois de peregrinar por alguns títulos, até mesmo o de doutor, passei a declarar-me "professor de economia política". Como sabemos, economia política é a arte de fazer postagens com este "marcador" aqui no blog.

sábado, 25 de novembro de 2017

Tatiana Roque: a salvação


Duas entrevistas de Tatiana Roque

.1 Do jornal eletrônico El Pais - aqui. 8 de agosto de 2017.

.2 Do site IHU da Unisinos - aqui. 21 de agosto de 2017.

Exemplo:

O Bolsa Família foi muito criticado por uma esquerda que só acredita em políticas universais e que não reparou que essa política poderia mudar a configuração de poder na sociedade ao empoderar grupos menos favorecidos, como aconteceu de fato. Em muitos lugares isso, inclusive, estimula o desenvolvimento. Uma proposta que serve para recolocar o debate em relação a isso é a da renda universal. É uma das propostas mais interessantes capazes de reconfigurar essa discussão sobre direitos e garantias. Muita gente na esquerda diz que essa renda não seria desejável porque seria uma forma de diminuir as garantias constitucionais, os direitos da Previdência etc. Mas acho que é o contrário. É uma maneira de recolocar o debate a partir de outro patamar. Mas a esquerda tem certo problema de abraçar essa proposta porque permanece esse fetiche de que os direitos têm que estar associados ao emprego. Há uma insistência nesses projetos, inclusive na política econômica, que visam chegar ao pleno emprego... Mas fica cada vez mais claro que é impossível de se chegar a esse patamar na atualidade, em uma sociedade cada vez mais automatizada e baseada em serviços. Por isso é importante deslocar essa discussão para a renda, não insistir tanto sobre o emprego. Ou seja, pensar que as garantias sociais não necessariamente precisam estar associadas ao emprego formal, em um país onde a maioria dos trabalhos é informal.