terça-feira, 14 de novembro de 2017

A Frente do Brasil


Querido diário:

Antigamente muitas análises sobre a situação política, econômica, sanitária, cultural, esportiva, educacional, e por aí vai, do Brasil culminava com a frase: "É por isso que o Brasil não vai pra frente". Os militares, avassaladoramente, tomaram conta e inventaram aquela do "Brasil: ame-o ou deixe-o", em impecável tradução daquele "America: love it or leave it". Estavam ainda recalcados com a gozação da turma do Pasquim com o Roberto Campos sendo traduzido por Bob Fields e o próprio nome do país (República dos Estados Unidos do Brasil) convertido em Brasil dos Estados Unidos. Grosseiro como quê, este love-it-or-leave-it ainda tinha aquela viagem do "este é o país que vai pra frente". E claro a turma redarguiu dizendo que, à frente, havia o precipício.

Pois nos dias que correm, parece óbvio que podemos seguir exclamando "é por isso que o Brasil não vai pra frente". Também pudera. O que temos visto, o que temos ouvido, o que temos lido.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

IstoÉrra

Querido diário:

Sabemos que leio o jornal Zero Herra e a revista Capital dos Carta com regularidade. O que não leio, aliás, fui assinante e há 20 anos deixei de fazê-lo, é a revista IstoÉ, por sua linha editorial de direita e de pornografia. Declarei-a morta. Mas hoje-ontem caiu-me às mãos o número 2.499, de 8 de novembro corrente, um -para mim- revival. Li um artigo do -para mim- também finado Bolívar Lamounier, páginas 22 e 23. O indigitado sociólogo usa o título "Raízes Históricas da Criminalidade" para uma arenga sobre a origem e males do descaramento brasileiro. Ao invés de reclamar da desigualdade referendada pela economia de empregos no sistema judiciário (policiais e juízes, ascensoristas e cozinheiros), ele incrimina o "narcotráfico", como observamos em suas frases finais:

[...] Polícias mal pagas, mal armadas e porosas à corrupção enfrentam os exércitos privados do narcotráfico. Armamento pesado e a droga entram facilmente por nossas fronteiras. E vivemos na ilusão de combater a oferta sem combater a procura. Não queremos entender que o consumo sem restrições perpetua o mercado que interessa ao crime organizado.

Um amontoado de lugares-comuns e um erro lógico: temos ilusão de combater a oferta ou combatemos a oferta? Temos, combatemos? Claro que eu não tenho nada a ver com isto, pois minha solução é a criação de muito mais emprego no sistema judiciário, ou reprimindo crimes (combatendo...) ou atraindo criminosos de chinelo sujo (contrastando com os de colarinho branco). E esta faceta de incriminar as vítimas, só mesmo partindo para puxar um fumo...

Mas isto seria suficiente para recriminar a revista IstoÉ, tachando-a de IstoÉrra? Pois temos erro gordo na colocação de crase numa notícia da página 25 que até me parece do bem (IstoÉrra fazendo o bem? só pode ser erro, hehehe):

TRANSPORTE
LA LA UBER
Inspirados em cena do filme "La La Land", motoristas do Uber manifestaram-se em São Paulo. Exigiam que parlamentares e governo os deixem ganhar a vida em paz, trabalhando. O Senado foi sensível à (sic) tal apelo e aos eventuais votos de 17 milhões de usuários: aboliu, entre outros pontos, a obrigatoriedade de autorização das prefeituras para os carros circularem. 

Não é o fim-do-mundo? Não seria o começo depormos o vampiresco presidente e começarmos políticas públicas voltadas a coibir a desigualdade por meio de gasto social regressivo, tributação progressiva e pilhas de empregos nos setores produtores de bens públicos e de mérito?

DdAB
P.S.: Há um ano, escrevi o texto que segue no Facebook. Hoje ele, o algoritmo, ofereceu-me "a lembrança": Maníaco, serei maníaco? All of a sudden, como diria Frank Sinatra, veio-me à cabeça esta canção que eu associava ao Sinatra brasileiro, nomeadamente, Nelson Gonçalves ("dentre as manias que eu tenho, uma é gostar de você"). Por tudo isto, fiquei pensando em machismo: como é que amar uma mulher é mania? Mas fiquei surpreso ao dar-me conta de quem tem essas manias (de amar homem) é Dolores Duran.
P.S.S. e a imagem é de lá do Facebook mesmo.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Previdência: um jornalismo de última


Querido diário:

Todos sabemos que, em 1964, havia em Porto Alegre um jornal chamado de "Última Hora", de extração esquerdista, ainda que com formato nanico (se a memória não trai). E que foi empastelado pelos esbirros da nascente ditadura militar de apoios políticos (DMAP). E que, não mais que poucos dias depois, foi "encampada" por empresários locais. E passou a chamar-se "Zero Hora", mantendo o formato nanico que vemos até os dias que correm.

E por quê, logo hoje, tacho-a "de última"? Três considerações contraditórias:

.a diz o jornal na p.22 do editorial: "As urnas deveriam punir quem joga para a torcida e adota a confortável e populista condição de negar o inegável: que o Brasil precisa se atualizar em termos previdenciários." Parece óbvio que deveria mesmo, inclusive contemplando recursos para garantir a entrada tardia dos jovens no mercado de trabalho (bolsas de estudos, por exemplo) e a saída precoce (promoção de ano sabático, aposentadoria). E muito mais coisas para dar-lhe à reforma um caráter de modernidade e lutar de alguma forma contra aquele índice de Gini da concentração da renda de mais de 0,5, que não dá no jeito de baixar substantivamente. A sociedade é desigual e um governo inflado por sabe-se lá que íncubo não quer mudar. O mundo mudou e o trabalho não é mais aquela brastemp. Sem trabalho, não há produção, lógico. Mas com o trabalho de alguns força-se o desemprego de muitos. Não há saída: a economia de mão-de-obra é o mais admirável traço do capitalismo, contrastando com sua incompetência distributiva. Esta é apoiada, adivinha por quem?, por Zero Herra.

.b na página 23, na coluna "RBS Brasília", a responsável interina pelo espaço, nomeadamente, Silvana Pires, tem na primeira nota o título "Recolocar a reforma nos trilhos", evocando, lá para o fim da nota, dizeres do sr. (Fora Temer), ao assumir o cargo da presidenta Dilma. Fala-se na tentativa de reduzir o escopo da reforma proposta por esse cara e seus asseclas. Mas não se fala naquelas questões que referi. Não lhes observamos coragem para falar seriamente em reforma da previdência, em dar uma resposta com um mínimo de decência para os problemas de emprego e desigualdade vividos pelo Brasil de que sou testemunha há mais de 50 anos. Há uns 20, caiu-me a ficha de que estamos mesmo condenados ao subdesenvolvimento. Também pudera, com estas elites e com nossa incapacidade de angariar votos para deputados e executivistas que nos liberem a implementação de programas igualitaristas.

.c mas, na página 12, a primeira matéria da coluna de Rosane de Oliveira, intitulada "O que emperra a reforma da previdência", estupefatos, lemos:
[...]
   Soa como piada falar em combate aos privilégios quando os afetados serão os trabalhadores do setor privado, que majoritariamente se aposentam com o salário mínimo. Pouquíssimos conseguem alcançar o teto de cerca de R$ 5 mil. Proporcionalmente, o grande rombo da previdência está no setor público, que terá regras iguais, mas a proposta de reforma já nasceu com exceções que minam a credibilidade. Os militares, por exemplo.

Em resumo, a reforma proposta pelo governo e apoiada pelo jornal é um arremedo e a colunista, embora tenha acertado o prego, caprichou mesmo foi na ferradura, pois invoca o exemplo dos militares, mas não fala no estamento em geral: políticos, juízes, policiais de alto coturno.


DdAB
P.S. Ouvi dizer que a criança da foto lá de cima está providenciando sua carteira do trabalho, a fim de alcançar o sonho do primeiro emprego. Se não é loiro de olho azul, é um privilegiado de mesmo porte.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Evolução do Conceito de Valor Adicionado


Querido diário:

De que conceito estamos falando? Essencialmente do conceito de valor adicionado. E que é valor adicionado? É o que resulta do esforço produtivo de uma sociedade em determinado período, ou seja, o que a sociedade acrescentou a uma constelação de recursos já existentes no período anterior ao que estamos nos referindo. E que recursos pré-existentes seriam esses? Sementes, máquinas, equipamentos, prédios e instalações.

Então podemos dizer numa equação aquilo que descrevemos no parágrafo anterior:

VAdic = f(Sementes, máquinas, equipamentos, prédios, instalações, vetor)
e agora acrescentamos o recurso "vetor", para dizer que há outra lista de recursos que não fomos capazes de identificar no presente momento, por razões de ignorância pura, enfado, etc. Tal é o caso de combustíveis, ou incomensurabilidade. Ou

VA = f(S, m, E, P, I, V)

fica um tanto mais reduzido, mas mais apavorante para uma turminha. Mas as variáveis S, m, E, P, I e V estão todas encapsuladas pelo valor da produção, em cujo bojo também podemos contemplar os salários, os lucros, os impostos. Ou, na economia simples, pela diferença entre a colheita e as sementes, algo assim. E escrevemos:

VA = g(VP)

Mas VP, por conter M, E, P, I e V, deixou em aberto o principal elemento, sem o qual as sementes não saem dos sacos, as máquinas permanecem desligadas. Ou seja, aqueles salários anteriormente listados são absolutamente fundamentais para coordenar e motivar os trabalhadores a alugarem sua capacidade de trabalho.


(ou seja, a medição feita por suas três óticas de cálculo, nomeadamente, produto P, renda Y e despesa D).

Em 31 de março de 1988, escrevi em meu diário:

Quem organiza o mundo não podem ser os trabalhadores e sim os moradores.


Neste caso, o valor adicionado não é uma conquista metafísica dos trabalhadores, mas uma realização concreta dos moradores (trabalhadores, cônjuges, filhos, parentes aquartelados, achegos, visitantes).

Em 2006 fiz um artigo para a revista do departamento de economia da UFSC falando que a luta de classes deve ser substituída pela luta entre instituições.

Neste outro caso, eu me referia ao bloco B33 (das transferências interinstitucionais colocadas em evidência pela matriz de contabilidade social), que tende a superar em magnitude tanto as transações interindustriais quanto o valor adicionado (P = Y = D).

Depois fiz a correlação entre renda per capita e população, dando um r^2 = 0,6 na postagem de 23.nov.2012

O princípio de tudo é a constatação de que

M * V = P * Q ou = P * Y (a renda, isto é, para nós, Q = Y)

Esta equação informa que, quando V = P = 1, então M = Q = Y, ou seja, o valor gerado na sociedade em uma unidade de tempo é precisamente o montante monetário (um um múltiplo que capture também o escambo, o trabalho doméstico, e outros fenômenos cuja participação (proporção) no todo não varia substantivamente entre períodos.

Moral da história: costumo dizer que o valor da produção é uma função do trabalho (VP = f[Emprego]), mas o valor adicionado é uma função do valor da produção (VA = g[VP)]) e, assim, apenas indiretamente é uma função do emprego, isto é, do trabalho socialmente necessário. E que ganhamos com a eliminação dessa transitividade do valor da produção sobre o emprego para chegar no valor adicionado? Ganhamos que torna-se mais claro que o valor adicionado é uma função da sociedade, mensurada, como o fiz, pelo tamanho da população.

E quais as consequências normativas deste tipo de raciocínio? Essencialmente aquelas capturadas pelo conceito de sociedade justa criado por David Harvey: todos terão direito a uma fração do excedente gerado em determinado período, independentemente de tê-lo produzido (produzido no sentido da função de produção que diz que VP = f(Emprego)).

DdAB
Em setembro de 2017, a partir do site da Revista Circus, vim a conhecer a Modern Monetary Theory. que me parece suficientemente interessante a ponto de requerer further investigation. Pelo que li até agora, intuo que ela, aquerenciada ao keynesianismo, dá papel proeminente para a oferta monetária, nosso M,

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Traços de uma Biografia Literária


Querido diário:


Eu e Shakespeare: pouco ou nada sei. Mas tenho uma história. Minha irmã mais velha, com seus 23 anos, fazia-se acompanhar deste humilde criado de meus leitores lá com seus 15. A família voltava de seus dois anos de Jaguari, após o olímpico retorno da estada de quatro anos em Campo Grande do Matto Grosso. Quando ela abandonava seus aposentos e a casa que nos abrigava, eu fazia incursões em seu quarto, sua escrivaninha, seus armários. Pois foi uma destas invasões que deparei-me com o livro "Cimbelino. Péricles", de um certo Chaquespeare, como vim a pronunciar, para receber consequências hoje chamadas de bullying. Era em português, não o li. Nunca li Shakespeare, to be true. Na verdade, há anos, li os "Contos de Shakespeare", de editores um casal britânico, de nomes varridos pelo tempo. E sei decor aquele O Romeo, Romeo, wherefore art thou Romeo?, pulando para o famoso "What's in a name?". Mas sei muito sobre ele, pois a negadinha não cessa de citá-lo. E tem Woody Allen com uma filmagem sui generis do Sonho de uma Noite de Verão. E várias outras obras me chegam, também por citações e comentários. Hamlet? Romeo? Sei que nada sei... Sei que é um vexame, sei que morrerei com ele...

Érico foi selecionado por mim para ser um de meus amados. E o foi durante um bom tempo. Mas digamos que desde 2008 tenho lido-o com regularidade. Selecionei-o como leitura/s de outono. Retomei-lhe a leitura em 2001, quando de minha visita aos Estados Unidos. Por que o fiz? É que, no final da adolescência, eu lia muito depois da aula na biblioteca do Colégio Júlio de Caudilhos. E vai-de-cá, vai-de-lá, caiu-me na fuça o "Gato Preto em Campo de Neve", não que não me tivessem caído outros, como os da Coleção Catavento, da Editora do Globo. Pois decidi reler o "Gato Preto...". E, tendo-o feito em 2001, decidi ler o "A Volta do Gato Preto". 

E decidi reler "O Senhor Embaixador". E tomei o primeiro ciclo e li quase todo: "Clarissa" (Clarissa em POA), "Música ao Longe" (Clarissa e Vasco, as preliminares), "Caminhos Cruzados" (Fernanda e Noel) e "Um Lugar ao Sol" (Clarissa e Vasco, Fernanda e Noel). Aí acabou o ciclo da Clarissa e entrou a história de Eugênio e Olívia, Érico conseguiu desprender-se daquela literatura inicial. Era o "Olhai os Lírios do Campo". Desprendeu-se, è vero, mas -no finalzito do "Um Lugar ao Sol"- deixou um laço para o seguinte:

   Fernanda lembrava-se vagamente duma parábola que o rev. Bell vivia a citar, a propósito dos homens cobiçosos que só cuidavam de guardar dinheiro: 'Considerai os lírios do campo'. Eles não se preocupavam com roupas e andavam mais bem-vestidos que o rei Salomão. Salomão - pensou Fernanda -, Salomão. Não paguei a última prestação dos móveis. Diabo!

Talvez Érico estivesse a viver sofrimentos atrozes por abandonar aquela turminha dos romances iniciais. Tanto é que, no "Olhai os Lírios do Campo" regressa um personagem interessante, rimando com médico e fumante, o dr. Seixas que segue, altaneiro, o mesmíssimo doutor aparecido amplamente em "Um Lugar ao Sol":

   -Bom - fez Fernanda. -Deixem ela dormir agora quanto tempo quiser. Se as dores voltarem, botem mais gelo. Hoje o doutor Seixas vem ver seu Orozimbo: a gente aproveita e pede pra ele receitar alguma coisa.

"O Resto é Silêncio", segundo o próprio Érico, é uma frase de Shakespeare e cuja inserção não lembro agora. O que temos no prefácio deste livro solteiro, isto é, sem continuação e sem ser continuidade, é nova chamada, no prefácio, à próxima grande obra, uma negadinha que o acompanhará por vários anos, como o fizeram Fernanda, Clarissa e sua turma:

   Para que se tenha uma ideia de como ao tempo em que escrevi O Resto é Silêncio eu já estava sendo solicitado por outros tema,s, basta prestar-se atenção às reflexões de Tônio Santiago nas últimas páginas do volume, quando, no teatro, ele contempla a platéia e pensa nos primeiros povoadores do Rio Grande do Sul, nas suas lutas com os índios, as feras e os castelhanos;. na solidão das fazendas e ranchos perdidos nos escampados; nas mulheres de olhos tristes a esperaram os maridos que tinham ido para a guerra ou para a áspera faina do campo; nos invernos de minuano, nas madrugadas de geada, nas soalheiras de verão e na glória das primaveras; nas lendas que iam surgindo nos matos, nas canhadas, nos socavões da serra, nos aldeamentos dos índios e nas missões; nas povoações que surgiam e nas antigas que cresciam, transformando-se em cidades; nos imigrantes europeus e nas povoações que eles criaram e assim por diante, até aquele momento ali no teatro, onde, numa espécie de milagrosa soma, se via aquela rica diversidade de tipos humanos, nomes e almas.


Um assunto puxa outro. Já vou falar, precisando antecipar essa nova dupla de livros independentes, "O Sr. Embaixador" e "Incidente em Antares". Achei agora por bem, ao transcrever as reflexões de Érico sobre os antecedentes de "O Tempo e o Vento", citar também o que ele diz sobre a criação de "Incidente em Antares". Na verdade, é a prefaciadora Maria da Glória Bordini que cita uma entrevista dada por Érico Veríssimo "aos jornalistas gaúchos Ney Gastal e Susana Przybylski, em 1971":

Dia oito de maio de 1970. Andava caminhando com minha mulher pelas colinas do Alto Petrópolis quando a ideia [de uma greve de coveiros em Nova York] me voltou com tanta força que comecei a trabalhar nela mentalmente [...] Quando cheguei à esquina da Carlos Gomes com a Protásio Alves, o livro já estava estruturado. E o título me veio como que soprado pela brisa daquele belo outono.

E já que Érico falou em "minha mulher" na entrevista, evoquei que ele a designou como "Mariana" lá naquele "Gato Preto em Campo de Neve". E parece que a encrenca, a citação, uma puxa outra, e não acabaria por aqui, pois eu precisaria dizer que "Adeus, Mariana" é o nome da tradicional canção de Pedro Raymundo e por que Mariana faz parte de meu lexicon.

DdAB

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu, Pedro Fonseca e a Desindustrialização


Querido diário:

Como é sabido, o burro sempre vem na frente (da carroça e sua preciosa carga...). Então, pelo eco, o segundão é o prof. Pedro Cézar Dutra Fonseca, que só não foi meu professor, pois não aceitou dar-me aulas particulares, eis que o conheço desde 1979. E agora? Ainda falta falar em desindustrialização, outra tripulante da carroça que, com galhardia, propus-me a puxar.

É que ele, Pedro, tem um artigo sobre ela, a desindustrialização. Publicou-o em sua já tradicional e quinzenal coluna em Zero Hora. O trabalho de hoje ocupa o canto superior esquerdo da página 18. Intitulando-se "Indústria em Marcha a Ré", comenta o fato de que a indústria brasileira teve sua participação no PIB mergulhando de 32% para 10%. O autor lamenta que

[...] mudança estrutural de tal vulto seja negligenciada tanto pelos sucessivos governos quanto nos debates, inclusive por associações empresariais. Há quem considere o fato normal, pois no mundo inteiro se verificaria tal tendência. O chavão é que a economia do futuro é a dos serviços, como se estes não dependessem de bens industriais intensivos em alta tecnologia e pudessem ocorrer sem inovação e maior produtividade no setor industrial. 

Essa encrenca de tendência mundial não é bem assim: interessa-nos falar nos países ricos, pois ninguém aguenta pensar em Angola (e a extração de minerais, o petróleo), esses paisecos de baixíssimo desenvolvimento institucional. Aliás, chamar o que está ocorrendo no Brasil de "desindustrialização" (ignorando o termo "precoce", como aliás foi o caso da própria industrialização brasileira: precoce, pois a participação do setor no PIB não era compatível com igual fenômeno dos países originalmente industrializados com seu grau de renda per capita muito maior que o de cá). Pois bem, já contei na literatura que costumo compulsar mais de 250 milhões de conceitos de desindustrialização, eu mesmo sendo responsável por uns 1.000. Mas atenho-me, neste tipo de discussão, ao conceito de Bob Rowthorn e John Wells:

.a o PIB setorial cresce (o brasileiro o fez)
.b o emprego cai (o brasileiro caiu de forma super dramática)
.c a participação no comércio exterior aumenta (mas mas mas o brasileiro mergulhou no abismo, como vemos nas cifras citadas no artigo: de 2,6% do comércio mundial em 1980 para 1,4% "hoje").

Essa encrenca de chavão esdrúxulo não é bem assim: não é assim que o Brasil alcançará virtudes econômicas no futuro. Mas os serviços de fato reservam importante recompensa para quem neles aposta. Não, talvez, o que o prof. Pedro está mentalizando. Queremos educação, saúde e segurança, os dois primeiros classificados de bens semi-públicos (com incontestes méritos atribuídos a eles) e o segundo claramente um bem público puro (portanto, sem possibilidade de exclusão dos consumidores, uma vez prestado, não podendo ser racionado e, principalmente, não podendo excluir ninguém de seu consumo).

Indo aos detalhes: claro que os serviços de refrigeração doméstica de alimentos requer a prestação do serviço de uma frigidaire (no dizer gaúcho do refrigerador). Mas não se encontra no décimo primeiro mandamento das leis digitadas por Moisés que o refrigerador precisa ser made in Brazil. Ou que o computador, ou que o avião a jato, ou que a bomba atômica... E, cá entre nós, não se precisa de grandes tecnologias para produzir domesticamente um refrigerador. Aliás, nem para processar dejetos urbanos, na forma de lixo ou esgoto.

Ok, mas dei um salto quântico: agora estamos falando da indústria, especificamente, os serviços industriais de utilidade pública. Como falar em robótica ou indústria 4.0 quando o Brasil não dá conta nem de prover esgotos para toda sua população? Metade ainda não é servida pelo serviço. E o lixo urbano? O governo promoveu uma terceirização paralela, delegando a trabalhadores informais e precaríssimos a coleta de parte substantiva dele lixo.

Qual é o problema de irmos comprando essa ideia de que é melhor produzirmos refrigeradores em detrimento da produção de escolas e seu uso para prestar serviços educacionais? Gosto de meu chope gelado, bem admito, mas detesto ser servido por um serviçal semi-analfabeto. Gosto de ir ao banheiro depois das drummondianas 11 rodas de chope. E aí já me defronto novamente com o problema da falta de mão de obra: um banheiro que é uma banheira, com frequentes entupimentos e vazamentos. Cá entre nós: produzir bisturis atômicos quando não produzimos boas manilhas? Querer que nosso garçonzinho analfabeto torne-se programador de máquinas da indústria 4.0... Só bebendo...

Mas tem mais:

   Mais dramático é pensar que se está depreciando o esforço que foi feito por mais de uma geração, principalmente entre 1930 e 1980, inclusive o trabalho incessante de homens como Euvaldo Lodi, Roberto Simonsen, Rômulo de Almeida e Oziris Silva em prol do sonho de um país com alto patamar de industrialização e liderança tecnológica.

Aqui estamos quase no fim do artigo e de meu tema. E faço este parágrafo rimar com aquela citação lá de cima, quando o autor fala em "sucessivos governos". Cá entre nós, um governo que produz aviões a jato, como o brasileiro já o fez, mas não provê serviços de esgoto, educação, segurança, saúde, aquelas coisas dos bens públicos ou de mérito só pode ser considerado uma excrescência erguida à margem dos interesses da sociedade. Creio que a maior prova do erro estratosférico dos rapazes citados por Pedro Dutra Fonseca e por ele mesmo himself é que não entenderam que não adianta industrializar com enormes subsídios governamentais e deixar a negadinha ao deus-dará em matéria de educação, moradia, alimentação, uma série de bens e serviços que não caem do céu. E que surgirão ainda menos da terra, se os recursos terráqueos forem usados para atendimento de um enclave populacional. Quer uma economia de massas? Pois crie bens e serviços que atenderão às massas.

Quer uma sociedade igualitária? Tribute os ricos e dê o dinheiro para os pobres na forma de renda básica e de outros gastos governamentais que gerem capital humano!

DdAB
P.S. A imagem da foto lá de riba veio daqui. Neguinho, para tacar fogo no mato, não precisa de escola, não é mesmo? Só dá pra ver que é pós-cabralino por causa do boné, do cinto e da bermuda.
P.S.S. Que é indústria 4.0? É a que não é nem 1.0, nem 2.0, nem 3.0. Pois voltemos: a indústria que agora, por piada, estou chamando de 1.0 é a tradicional indústria forjadora da revolução industrial na Inglaterra e daí se generalizando, inclusive no subúrbio tipo Brasil. É a revolução da incorporação à fábrica, à indústria têxtil, da geração de energia por meio do vapor gerado a partir do carvão de pedra, tipo 1780. E a 2.0? É a do final do século XIX, especialmente nos Estados Unidos, mas também fortemente na Europa, da geração de energia a partir do motor a explosão e do motor elétrico. Gerou-se o automóvel e o refrigerador. E a 3.0 é a chamada revolução da informática que alguns datam a 1973, por razões ainda a serem amplamente divulgadas e aceitas. E que é a quatro ponto zero? Diz-se hoje das novas tentativas de incorporação de mais e mais tecnologia informacional dentro da fábrica. Esta deve ser avaliada de acordo com o modelo alemão, que prevê a produção de automóveis e refrigeradores praticamente com zero trabalho, ergo, pronta para aniquilar o modelo chinês, que -cá entre nós- foi quem aniquilou o modelo do fordismo.
P.S.S.S. Quando se clama por mais organização, por inveja aos alemães que fizeram aquele 7x1 fraudulentamente, pois criaram dezenas de escolinhas de futebol em todo seu território, penso que deveríamos começar com escolas, enrustindo nelas e não o contrário, escolinhas de futebol.
P.S.S.S.S. Claro que minha visão do que faz a renda crescer é a população (lembrar aquele VAdic = f(População) da postagem de 18 de setembro (aqui)? Esta visão não chega a contrariar aquela que diz que o valor da produção (ou mesmo a oferta total) é função do uso dos fatores de produção, trabalho qualificado e não-qualificado, capital físico, capital humano e capital social, além das matérias primas). Mas minha visão daquele VAdic = f(População) tem a vantagem de mais facilmente substituir a variável explicativa População por, por exemplo, demanda efetiva, demanda agregada. Com isto, chegamos a Keynes e, o que dá na mesma coisa, a Marx e Engels. Keynes tem seu modelo popularizado com o dístico "quem manda é a demanda". Para Marx, o produto que não dá seu salto mortal, ou seja, o produto que não é vendido, não pode nem mesmo ser chamado de mercadoria. E, se nada viesse a ser vendido nunca, o que aconteceria seria o colapso da sociedade capitalista. Em outras palavras, se garantimos o salto mortal (absorção pela demanda final), então também estamos garantindo a geração e a apropriação do valor adicionado.
P.S.S.S.S.S. E ainda tenho mais registros:
.a crescimento eterno por meio do setor serviços: transportes (lua de mel nos anéis de Saturno) e saúde (alcançar 1 bilhão de anos de idade, para começar)
.b a impressão em 3D: ela sim, mais que a indústria 4.0, é a verdadeira ameaça ao emprego, mas a salvação. Basta dizer que haverá moradores de plataformas espaciais que serão impressas e colocadas em outras órbitas espaciais.
.c o lag tecnológico do Brasil pode virar virtude, pois poderemos viver com o prazo do esgotamento das patentes de atraso: ou seja, quando vencer a patente da produção, digamos, de um iPad, metemos a criatividade dos capitalistas brasileiros a construí-lo, sem pagamento de royalties.
.d mas nem tudo são flores: ou melhor, no dia em que o deserto do Sahara for domesticado, as flores chilenas e até a soja mato-grossense estarão ameaçadas em suas exportações para a Europa.
P.S.S.S.S.S.S. Pra não dizer que meu artigo teve custo zero:
fora o título.

sábado, 14 de outubro de 2017

A Gilmar Agir Mal é Legal


Querido diário:

Que posso dizer daquele vexame dos juízes do supremo relativamente àquela encrenca do Eunício de Oliveira sobre proteção aos senadores processados por roubo? Primeiro que foi vergonhoso os senadores do PT defenderem a "autonomia do senado". Segundo que também vergonhoso foi aqueles juízes terem duas opiniões equivalentes, com aquele 6x5. Terceiro que tenho recomendado a extinção dos estados e, com ele, as assembleias legislativas e o senado. Quarto, também recomendo a extinção do poder judiciário, delegando a uma empresa júnior finlandesa a administração de todo sistema judiciário brasileiro, do guarda de rua ao rapaz que serve cafezinho aos doutos do latinório e, lógico, também estes.
Militar, não, muito obrigado. E o Gilmar? Não está citado no longo artigo que reproduzo no rodapé. Retirei-o de uma dica do mural de Ingrid Schneider e rastreado por Sérgio Saraiva.
DdAB
A imagem veio de De Tremura do próprio Facebook. E tem este demolidor artigo aqui retirado do TheIntercept em português, que me foi indicado por uma postagem de Ingrid Schneider e comentário de Sérgio Saraiva:

ESFERA DE INFLUÊNCIA: COMO OS LIBERTÁRIOS AMERICANOS ESTÃO REINVENTANDO A POLÍTICA LATINO-AMERICANA
Lee Fang
PARA ALEJANDRO CHAFUEN, a reunião desta primavera no Brick Hotel, em Buenos Aires, foi tanto uma volta para casa quanto uma volta olímpica. Chafuen, um esguio argentino-americano, passou a vida adulta se dedicando a combater os movimentos sociais e governos de esquerda das Américas do Sul e Central, substituindo-os por uma versão pró-empresariado do libertarianismo.

Ele lutou sozinho durante décadas, mas isso está mudando. Chafuen estava rodeado de amigos no Latin America Liberty Forum 2017. Essa reunião internacional de ativistas libertários foi patrocinada pela Atlas Economic Research Foundation, uma organização sem fins lucrativos conhecida como Atlas Network (Rede Atlas), que Chafuen dirige desde 1991. No Brick Hotel, ele festejou as vitórias recentes; seus anos de trabalho estavam começando a render frutos – graças às circunstâncias políticas e econômicas e à rede de ativistas que Chafuen se esforçou tanto para criar.

Nos últimos 10 anos, os governos de esquerda usaram “dinheiro para comprar votos, para redistribuir”, diz Chaufen, confortavelmente sentado no saguão do hotel. Mas a recente queda do preço das commodities, aliada a escândalos de corrupção, proporcionou uma oportunidade de ação para os grupos da Atlas Network. “Surgiu uma abertura – uma crise – e uma demanda por mudanças, e nós tínhamos pessoas treinadas para pressionar por certas políticas”, observa Chafuen, parafraseando o falecido Milton Friedman. “No nosso caso, preferimos soluções privadas aos problemas públicos”, acrescenta.

Chafuen cita diversos líderes ligados à Atlas que conseguiram ganhar notoriedade: ministros do governo conservador argentino, senadores bolivianos e líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudaram a derrubar a presidente Dilma Rousseff – um exemplo vivo dos frutos do trabalho da rede Atlas, que Chafuen testemunhou em primeira mão.

Estive nas manifestações no Brasil e pensei: ‘Nossa, aquele cara tinha uns 17 anos quando o conheci, e agora está ali no trio elétrico liderando o protesto. Incrível!’”, diz, empolgado. É a mesma animação de membros da Atlas quando o encontram em Buenos Aires; a tietagem é constante no saguão do hotel. Para muitos deles, Chafuen é uma mistura de mentor, patrocinador fiscal e verdadeiro símbolo da luta por um novo paradigma político em seus países.

Ousted Honduras' President Manuel Zelaya, left, looks down inside a car on his way to the airport where he will board a flight to Nicaragua on the outskirts of San Jose, Sunday, June 28, 2009. Soldiers seized Honduras' national palace and sent the President Zelaya into exile in Costa Rica on Sunday, hours before a disputed constitutional referendum. Zelaya, an ally of Venezuelan President Hugo Chavez, said he was victim of a coup. Honduras' Congress sworn in Sunday congressional leader Roberto Micheletti as the country's new President. (AP Photo/Kent Gilbert)
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, à esquerda, dentro de um carro em direção ao aeroporto, onde pegaria um voo para a Nicarágua nos arredores de San José. Domingo, 28 de junho de 2009.Foto: Kent Gilbert/AP

UMA GUINADA À DIREITA está em marcha na política latino-americana, destronando os governos socialistas que foram a marca do continente durante boa parte do século XXI – de Cristina Kirchner, na Argentina, ao defensor da reforma agrária e populista Manuel Zelaya, em Honduras –, que implementaram políticas a favor dos pobres, nacionalizaram empresas e desafiaram a hegemonia dos EUA no continente.
Essa alteração pode parecer apenas parte de um reequilíbrio regional causado pela conjuntura econômica, porém a Atlas Network parece estar sempre presente, tentando influenciar o curso das mudanças políticas.

A história da Atlas Network e seu profundo impacto na ideologia e no poder político nunca foi contada na íntegra. Mas os registros de suas atividades em três continentes, bem como as entrevistas com líderes libertários na América Latina, revelam o alcance de sua influência. A rede libertária, que conseguiu alterar o poder político em diversos países, também é uma extensão tácita da política externa dos EUA – os think tanks associados à Atlas são discretamente financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia – NED), braço crucial do soft power norte-americano.

Embora análises recentes tenham revelado o papel de poderosos bilionários conservadores – como os irmãos Koch – no desenvolvimento de uma versão pró-empresariado do libertarianismo, a Atlas Network – que também é financiada pelas fundações Koch – tem usado métodos criados no mundo desenvolvido, reproduzindo-os em países em desenvolvimento.
A rede é extensa, contando atualmente com parcerias com 450 think tanks em todo o mundo. A Atlas afirma ter gasto mais de US$ 5 milhões com seus parceiros apenas em 2016.

Ao longo dos anos, a Atlas e suas fundações caritativas associadas realizaram centenas de doações para think tanks conservadores e defensores do livre mercado na América Latina, inclusive a rede que apoiou o Movimento Brasil Livre (MBL) e organizações que participaram da ofensiva libertária na Argentina, como a Fundação Pensar, um think tank da Atlas que se incorporou ao partido criado por Mauricio Macri, um homem de negócios e atual presidente do país. Os líderes do MBL e o fundador da Fundação Eléutera – um think tank neoliberal extremamente influente no cenário pós-golpe hondurenho – receberam financiamento da Atlas e fazem parte da nova geração de atores políticos que já passaram pelos seus seminários de treinamento.

A Atlas Network conta com dezenas de think tanks na América Latina, inclusive grupos extremamente ativos no apoio às forças de oposição na Venezuela e ao candidato de centro-direita às eleições presidenciais chilenas, Sebastián Piñera.

EM NENHUM OUTRO LUGAR a estratégia da Atlas foi tão bem sintetizada quanto na recém-formada rede brasileira de think tanks de defesa do livre mercado. Os novos institutos trabalham juntos para fomentar o descontentamento com as políticas socialistas; alguns criam centros acadêmicos enquanto outros treinam ativistas e travam uma guerra constante contra as ideias de esquerda na mídia brasileira.

O esforço para direcionar a raiva da população contra a esquerda rendeu frutos para a direita brasileira no ano passado. Os jovens ativistas do MBL – muitos deles treinados em organização política nos EUA – lideraram um movimento de massa para canalizar a o descontentamento popular com um grande escândalo de corrupção para desestabilizar Dilma Rousseff, uma presidente de centro-esquerda. O escândalo, investigado por uma operação batizada de Lava-Jato, continua tendo desdobramentos, envolvendo líderes de todos os grandes partidos políticos brasileiros, inclusive à direita e centro-direita. Mas o MBL soube usar muito bem as redes sociais para direcionar a maior parte da revolta contra Dilma, exigindo o seu afastamento e o fim das políticas de bem-estar social implementadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

A revolta – que foi comparada ao movimento Tea Party devido ao apoio tácito dos conglomerados industriais locais e a uma nova rede de atores midiáticos de extrema-direita e tendências conspiratórias – conseguiu interromper 13 anos de dominação do PT ao afastar Dilma do cargo por meio de um impeachment em 2016.

O cenário político do qual surgiu o MBL é uma novidade no Brasil. Havia no máximo três think tanks libertários em atividade no país dez anos atrás, segundo Hélio Beltrão, um ex-executivo de um fundo de investimentos de alto risco que agora dirige o Instituto Mises, uma organização sem fins lucrativos que recebeu o nome do filósofo libertário Ludwig von Mises. Ele diz que, com o apoio da Atlas, agora existem cerca de 30 institutos agindo e colaborando entre si no Brasil, como o Estudantes pela Liberdade e o MBL.

É como um time de futebol; a defesa é a academia, e os políticos são os atacantes. E já marcamos alguns gols”, diz Beltrão, referindo-se ao impeachment de Dilma. O meio de campo seria “o pessoal da cultura”, aqueles que formam a opinião pública.

Beltrão explica que a rede de think tanks está pressionando pela privatização dos Correios, que ele descreve como “uma fruta pronta para ser colhida” e que pode conduzir a uma onda de reformas mais abrangentes em favor do livre mercado. Muitos partidos conservadores brasileiros acolheram os ativistas libertários quando estes demonstraram que eram capazes de mobilizar centenas de milhares de pessoas nos protestos contra Dilma, mas ainda não adotaram as teorias da “economia do lado da oferta”.

Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium – outro think tank da Atlas no Brasil – tem uma outra abordagem. “O Brasil tem 17 mil sindicatos pagos com dinheiro público. Um dia de salário por ano vai para os sindicatos, que são completamente controlados pela esquerda”, diz. A única maneira de reverter a tendência socialista seria superá-la no jogo de manobras políticas. “Com a tecnologia, as pessoas poderiam participar diretamente, organizando – no WhatsApp, Facebook e YouTube – uma espécie de manifestação pública de baixo custo”, acrescenta, descrevendo a forma de mobilização de protestos dos libertários contra políticos de esquerda.

Os organizadores das manifestações anti-Dilma produziram uma torrente diária de vídeos no YouTube para ridicularizar o governo do PT e criaram um placar interativo para incentivar os cidadãos a pressionarem seus deputados por votos de apoio ao impeachment.

Schüler notou que, embora o MBL e seu próprio think tank fossem apoiados por associações industriais locais, o sucesso do movimento se devia parcialmente à sua não identificação com partidos políticos tradicionais, em sua maioria vistos com maus olhos pela população. Ele argumenta que a única forma de reformar radicalmente a sociedade e reverter o apoio popular ao Estado de bem-estar social é travar uma guerra cultural permanente para confrontar os intelectuais e a mídia de esquerda.

maxresdefault-1502212171 Fernando Schüler.Foto:captura de tela do YouTube
UM DOS FUNDADORES do Instituto Millenium, o blogueiro Rodrigo Constantino, polariza a política brasileira com uma retórica ultrassectária. Constantino, que já foi chamado de “o Breitbart brasileiro” devido a suas teorias conspiratórias e seus comentários de teor radicalmente direitistas, é presidente do conselho deliberativo de outro think tank da Atlas – o Instituto Liberal. Ele enxerga uma tentativa velada de minar a democracia em cada movimento da esquerda brasileira, do uso da cor vermelha na logomarca da Copa do Mundo ao Bolsa Família, um programa de transferência de renda.

Constantino é considerado o responsável pela popularização de uma narrativa segundo a qual os defensores do PT seriam uma “esquerda caviar”, ricos hipócritas que abraçam o socialismo para se sentirem moralmente superiores, mas que na realidade desprezam as classes trabalhadoras que afirmam representar.

A “breitbartização” do discurso é apenas uma das muitas formas sutis pelas quais a Atlas Network tem influenciado o debate político.

Temos um Estado muito paternalista. É incrível. Há muito controle estatal, e mudar isso é um desafio de longo prazo”, diz Schüler, acresentando que, apesar das vitórias recentes, os libertários ainda têm um longo caminho pela frente no Brasil. Ele gostaria de copiar o modelo de Margaret Thatcher, que se apoiava em uma rede de think tanks libertários para implementar reformas impopulares. “O sistema previdenciário é absurdo, e eu privatizaria toda a educação”, diz Schüler, pondo-se a recitar toda a litania de mudanças que faria na sociedade, do corte do financiamento a sindicatos ao fim do voto obrigatório.

Mas a única maneira de tornar tudo isso possível, segundo ele, seria a formação de uma rede politicamente engajada de organizações sem fins lucrativos para defender os objetivos libertários. Para Schüler, o modelo atual – uma constelação de think tanks em Washington sustentada por vultosas doações – seria o único caminho para o Brasil.

E é exatamente isso que a Atlas tem se esforçado para fazer. Ela oferece subvenções a novos think tanks e cursos sobre gestão política e relações públicas, patrocina eventos de networking no mundo todo e, nos últimos anos, tem estimulado libertários a tentar influenciar a opinião pública por meio das redes sociais e vídeos online.

Uma competição anual incentiva os membros da Atlas a produzir vídeos que viralizem no YouTube promovendo o laissez-faire e ridicularizando os defensores do Estado de bem-estar social. James O’Keefe, provocador famoso por alfinetar o Partido Democrata americano com vídeos gravados em segredo, foi convidado pela Atlas para ensinar seus métodos. No estado americano do Wisconsin, um grupo de produtores que publicava vídeos na internet para denegrir protestos de professores contra o ataque do governador Scott Walker aos sindicatos do setor público também compartilharam sua experiência nos cursos da Atlas.

Caracas, Distrito Federal, Venezuela, South America
Manifestantes queimam um boneco do presidente Hugo Chávez na Plaza Altamira, em protesto contra o governo. Foto: Lonely Planet Images/Getty Images

EM UMA DE SUAS ÚLTIMAS REALIZAÇÕES, a Atlas influenciou uma das crises políticas e humanitárias mais graves da América Latina: a venezuelana. Documentos obtidos graças ao “Freedom of Information Act” (Lei da Livre Informação, em tradução livre) por simpatizantes do governo venezuelano – bem como certos telegramas do Departamento de Estado dos EUA vazados por Chelsea Manning – revelam uma complexo tentativa do governo americano de usar os think tanks da Atlas em uma campanha para desestabilizar o governo de Hugo Chávez.
Em 1998, a CEDICE Libertad – principal organização afiliada à Atlas em Caracas, capital da Venezuela – já recebia apoio financeiro do Center for International Private Enterprise (Centro para a Empresa Privada Internacional – CIPE). Em uma carta de financiamento do NED, os recursos são descritos como uma ajuda para “a mudança de governo”. O diretor da CEDICE foi um dos signatários do controverso “Decreto Carmona” em apoio ao malsucedido golpe militar contra Chávez em 2002.

Um telegrama de 2006 descrevia a estratégia do embaixador americano, William Brownfield, de financiar organizações politicamente engajadas na Venezuela: “1) Fortalecer instituições democráticas; 2) penetrar na base política de Chávez; 3) dividir o chavismo; 4) proteger negócios vitais para os EUA, e 5) isolar Chávez internacionalmente.”

Na atual crise venezuelana, a CEDICE tem promovido a recente avalanche de protestos contra o presidente Nicolás Maduro, o acossado sucessor de Chávez. A CEDICE está intimamente ligada à figura da oposicionista María Corina Machado, uma das líderes das manifestações em massa contra o governo dos últimos meses. Machado já agradeceu publicamente à Atlas pelo seu trabalho. Em um vídeo enviado ao grupo em 2014, ela diz: “Obrigada à Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.”

Em 2014, a líder opositora María Corina Machado agradeceu à Atlas pelo seu trabalho: “Obrigada à Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.”
NO LATIN AMERICA LIBERTY FORUM, organizado pela Atlas Network em Buenos Aires, jovens líderes compartilham ideias sobre como derrotar o socialismo em todos os lugares, dos debates em campi universitários a mobilizações nacionais a favor de um impeachment.

Em uma das atividades do fórum, “empreendedores” políticos de Peru, República Dominicana e Honduras competem em um formato parecido com o programa Shark Tank, um reality show americano em que novas empresas tentam conquistar ricos e impiedosos investidores. Mas, em vez de buscar financiamento junto a um painel de capitalistas de risco, esses diretores de think tanks tentam vender suas ideias de marketing político para conquistar um prêmio de US$ 5 mil. Em outro encontro, debatem-se estratégias para atrair o apoio do setor industrial às reformas econômicas. Em outra sala, ativistas políticos discutem possíveis argumentos que os “amantes da liberdade” podem usar para combater o crescimento do populismo e “canalizar o sentimento de injustiça de muitos” para atingir os objetivos do livre mercado.

Um jovem líder da Cadal, um think tank de Buenos Aires, deu a ideia de classificar as províncias argentinas de acordo com o que chamou de “índice de liberdade econômica” – levando em conta a carga tributária e regulatória como critérios principais –, o que segundo ela geraria um estímulo para a pressão popular por reformas de livre mercado. Tal ideia é claramente baseada em estratégias similares aplicadas nos EUA, como o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, que classifica os países de acordo com critérios como política tributária e barreiras regulatórias aos negócios.

Os think tanks são tradicionalmente vistos como institutos independentes que tentam desenvolver soluções não convencionais. Mas o modelo da Atlas se preocupa menos com a formulação de novas soluções e mais com o estabelecimento de organizações políticas disfarçadas de instituições acadêmicas, em um esforço para conquistar a adesão do público.

As ideias de livre mercado – redução de impostos sobre os mais ricos; enxugamento do setor público e privatizações; liberalização das regras de comércio e restrições aos sindicatos – sempre tiveram um problema de popularidade. Os defensores dessa corrente de pensamento perceberam que o eleitorado costuma ver essas ideias como uma maneira de favorecer as camadas mais ricas. E reposicionar o libertarianismo econômico como uma ideologia de interesse público exige complexas estratégias de persuasão em massa.

Mas o modelo da Atlas, que está se espalhando rapidamente pela América Latina, baseia-se em um método aperfeiçoado durante décadas de embates nos EUA e no Reino Unido, onde os libertários se esforçaram para conter o avanço do Estado de bem-estar social do pós-guerra.

A base das ideias de Fisher vêm de Friedrich Hayek, um dos pais da defesa do Estado mínimo. Em 1946, depois de ler um resumo do livro seminal de Hayek, O Caminho da Servidão, Fisher quis se encontrar com o economista austríaco em Londres. Segundo seu colega John Blundell, Fisher sugeriu que Hayek entrasse para a política. Mas Hayek se recusou, dizendo que uma abordagem de baixo para cima tinha mais chances de alterar a opinião pública e reformar a sociedade.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, outro ideólogo do livre mercado, Leonard Read, chegava a conclusões parecidas depois de ter dirigido a Câmara de Comércio de Los Angeles, onde batera de frente com o sindicalismo. Para deter o crescimento do Estado de bem-estar social, seria necessária uma ação mais elaborada no sentido de influenciar o debate público sobre os destinos da sociedade, mas sem revelar a ligação de tal estratégia com os interesses do capital.

Fisher animou-se com uma visita à organização recém-fundada por Read, a Foundation for Economic Education (Fundação para a Educação Econômica – FEE), em Nova York, criada para patrocinar e promover as ideias liberais. Nesse encontro, o economista libertário F.A. Harper, que trabalhava na FEE à epoca, orientou Fisher sobre como abrir a sua própria organização sem fins lucrativos no Reino Unido.

Durante a viagem, Fisher e Harper foram à Cornell University para conhecer a última novidade da indústria animal: 15 mil galinhas armazenadas em uma única estrutura. Fisher decidiu levar o invento para o Reino Unido. Sua fábrica, a Buxted Chickens, logo prosperou e trouxe grande fortuna para Fisher. Uma parte dos lucros foi direcionada à realização de outro objetivo surgido durante a viagem a Nova York – em 1955, Fisher funda o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos – IEA).

O IEA ajudou a popularizar os até então obscuros economistas ligados às ideias de Hayek. O instituto era um baluarte de oposição ao crescente Estado de bem-estar social britânico, colocando jornalistas em contato com acadêmicos defensores do livre mercado e disseminando críticas constantes sob a forma de artigos de opinião, entrevistas de rádio e conferências.

A maior parte do financiamento do IEA vinha de empresas privadas, como os gigantes do setor bancário e industrial Barclays e British Petroleum, que contribuíam anualmente. No livro Making Thatcher’s Britain (A Construção da Grã-Bretanha de Thatcher, em tradução livre), dos historiadores Ben Jackson e Robert Saunders, um magnata dos transportes afirma que, assim como as universidades forneciam munição para os sindicatos, o IEA era uma importante fonte de poder de fogo para os empresários.

Quando a desaceleração econômica e o aumento da inflação dos anos 1970 abalou os fundamentos da sociedade britânica, políticos conservadores começaram a se aproximar do IEA como fonte de uma visão alternativa. O instituto aproveitou a oportunidade e passou a oferecer plataformas para que os políticos pudessem levar os conceitos do livre mercado para a opinião pública. A Atlas Network afirma orgulhosamente que o IEA “estabeleceu as bases intelectuais do que viria a ser a revolução de Thatcher nos anos 1980”. A equipe do instituto escrevia discursos para Margaret Thatcher; fornecia material de campanha na forma de artigos sobre temas como sindicalismo e controle de preços; e rebatia as críticas à Dama de Ferro na mídia inglesa. Em uma carta a Fisher depois de vencer as eleições de 1979, Thatcher afirmou que o IEA havia criado, na opinião pública, “o ambiente propício para a nossa vitória”.

Não há dúvidas de que tivemos um grande avanço na Grã-Bretanha. O IEA, fundado por Antony Fisher, fez toda a diferença”, disse Milton Friedman uma vez. “Ele possibilitou o governo de Margaret Thatcher – não a sua eleição como primeira-ministra, e sim as políticas postas em prática por ela. Da mesma forma, o desenvolvimento desse tipo de pensamento nos EUA possibilitou o a implementação das políticas de Ronald Reagan”, afirmou.

O IEA fechava um ciclo. Hayek havia criado um seleto grupo de economistas defensores do livre mercado chamado Sociedade Mont Pèlerin. Um de seus membros, Ed Feulner, ajudou o fundar o think tank conservador Heritage Foundation, em Washington, inspirando-se no trabalho de Fisher. Outro membro da Sociedade, Ed Crane, fundou o Cato Institute, o mais influente think tank libertário dos Estados Unidos.

EM 1981, Fisher, que havia se mudado para San Francisco, começou a desenvolver a Atlas Economic Research Foundation por sugestão de Hayek. Fisher havia aproveitado o sucesso do IEA para conseguir doações de empresas para seu projeto de criação de uma rede regional de think tanks em Nova York, Canadá, Califórnia e Texas, entre outros. Mas o novo empreendimento de Fisher viria a ter uma dimensão global: uma organização sem fins lucrativos dedicada a levar sua missão adiante por meio da criação de postos avançados do libertarianismo em todos os países do mundo. “Quanto mais institutos existirem no mundo, mais oportunidade teremos para resolver problemas que precisam de uma solução urgente”, declarou.

Fisher começou a levantar fundos junto a empresas com a ajuda de cartas de recomendação de Hayek, Thatcher e Friedman, instando os potenciais doadores a ajudarem a reproduzir o sucesso do IEA através da Atlas. Hayek escreveu que o modelo do IEA “deveria ser usado para criar institutos similares em todo o mundo”. E acrescentou: “Se conseguíssemos financiar essa iniciativa conjunta, seria um dinheiro muito bem gasto.”

A proposta foi enviada para uma lista de executivos importantes, e o dinheiro logo começou a fluir dos cofres das empresas e dos grandes financiadores do Partido Republicano, como Richard Mellon Scaife. Empresas como a Pfizer, Procter & Gamble e Shell ajudaram a financiar a Atlas. Mas a contribuição delas teria que ser secreta para que o projeto pudesse funcionar, acreditava Fisher. “Para influenciar a opinião pública, é necessário evitar qualquer indício de interesses corporativos ou tentativa de doutrinação”, escreveu Fisher na descrição do projeto, acrescentando que o sucesso do IEA estava baseado na percepção pública do caráter acadêmico e imparcial do instituto.

A Atlas cresceu rapidamente. Em 1985, a rede contava com 27 instituições em 17 países, inclusive organizações sem fins lucrativos na Itália, México, Austrália e Peru.

E o timing não podia ser melhor: a expansão internacional da Atlas coincidiu com a política externa agressiva de Ronald Reagan contra governos de esquerda mundo afora.

Embora a Atlas declarasse publicamente que não recebia recursos públicos (Fisher caracterizava as ajudas internacionais como uma forma de “suborno” que distorcia as forças do mercado), há registros da tentativa silenciosa da rede de canalizar dinheiro público para sua lista cada vez maior de parceiros internacionais.

Em 1982, em uma carta da Agência de Comunicação Internacional dos EUA – um pequeno órgão federal destinado a promover os interesses americanos no exterior –, um funcionário do Escritório de Programas do Setor Privado escreveu a Fisher em resposta a um pedido de financiamento federal. O funcionário diz não poder dar dinheiro “diretamente a organizações estrangeiras”, mas que seria possível copatrocinar “conferências ou intercâmbios com organizações” de grupos como a Atlas, e sugere que Fisher envie um projeto. A carta, enviada um ano depois da fundação da Atlas, foi o primeiro indício de que a rede viria a ser uma parceira secreta da política externa norte-americana.

Memorandos e outros documentos de Fisher mostram que, em 1986, a Atlas já havia ajudado a organizar encontros com executivos para tentar direcionar fundos americanos para sua rede de think tanks. Em uma ocasião, um funcionário da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o principal braço de financiamento internacional do governo dos EUA, recomendou que o diretor da filial da Coca-Cola no Panamá colaborasse com a Atlas para a criação de um think tank nos moldes do IEA no país. A Atlas também recebeu fundos da Fundação Nacional para a Democracia (NED), uma organização sem fins lucrativos fundada em 1983 e patrocinada em grande parte pelo Departamento de Estado e a USAID cujo objetivo é fomentar a criação de instituições favoráveis aos EUA nos países em desenvolvimento.

FINANCIADA GENEROSAMENTE por empresas e pelo governo americano, a Atlas deu outro golpe de sorte em 1985 com a chegada de Alejandro Chafuen. Linda Whetstone, filha de Fisher, conta um episódio ocorrido naquele ano, quando um jovem Chafuen, que ainda vivia em Oakland, teria aparecido no escritório da Atlas em San Francisco “disposto a trabalhar de graça”.
Nascido em Buenos Aires, Chafuen vinha do que ele chamava “uma família anti-Peronista”. Embora tenha crescido em uma época de grande agitação na Argentina, Chafuen vivia uma vida relativamente privilegiada, tendo passado a adolescência jogando tênis e sonhando em se tornar atleta profissional.

Ele atribui suas escolhas ideológicas a seu apetite por textos libertários, de Ayn Rand a livretos publicados pela FEE, a organização de Leonard Read que havia inspirado Antony Fisher. Depois de estudar no Grove City College, uma escola de artes profundamente conservadora e cristã no estado americano da Pensilvânia, onde foi presidente do clube de estudantes libertários, Chafuen voltou ao país de nascença. Os militares haviam tomado o poder, alegando estar reagindo a uma suposta ameaça comunista. Milhares de estudantes e ativistas seriam torturados e mortos durante a repressão à oposição de esquerda no período que se seguiu ao golpe de Estado.

Chafuen recorda essa época de maneira mais positiva do que negativa. Ele viria a escrever que os militares haviam sido obrigados a agir para evitar que os comunistas “tomassem o poder no país”. Durante sua carreira como professor, Chafuen diz ter conhecido “totalitários de todo tipo” no mundo acadêmico. Segundo ele, depois do golpe militar seus professores “abrandaram-se”, apesar das diferenças ideológicas entre eles.

Em outros países latino-americanos, o libertarianismo também encontrara uma audiência receptiva nos governos militares. No Chile, depois da derrubada do governo democraticamente eleito de Salvador Allende, os economistas da Sociedade Mont Pèlerin acorreram ao país para preparar profundas reformas liberais, como a privatização de indústrias e da Previdência. Em toda a região, sob a proteção de líderes militares levados ao poder pela força, as políticas econômicas libertárias começaram a se enraizar.

Já o zelo ideológico de Chafuen começou a se manifestar em 1979, quando ele publicou um ensaio para a FEE intitulado “War Without End” (Guerra Sem Fim). Nele, Chafuen descreve horrores do terrorismo de esquerda “como a família Manson, ou, de forma organizada, os guerrilheiros do Oriente Médio, África e América do Sul”. Haveria uma necessidade, segundo ele, de uma reação das “forças da liberdade individual e da propriedade privada”.

Seu entusiasmo atraiu a atenção de muita gente. Em 1980, aos 26 anos, Chafuen foi convidado a se tornar o membro mais jovem da Sociedade Mont Pèlerin. Ele foi até Stanford, tendo a oportunidade de conhecer Read, Hayek e outros expoentes libertários. Cinco anos depois, Chafuen havia se casado com uma americana e estava morando em Oakland. E começou a fazer contato com membros da Mont Pèlerin na área da Baía de San Francisco – como Fisher.

Em toda a região, sob a proteção de líderes militares levados ao poder pela força, as políticas econômicas libertárias começaram a se enraizar.
De acordo com as atas das reuniões do conselho da Atlas, Fisher disse aos colegas que havia feito um pagamento ex gratia no valor de US$ 500 para Chafuen no Natal de 1985, declarando que gostaria de contratar o economista para trabalhar em tempo integral no desenvolvimento dos think tanks da rede na América Latina. No ano seguinte, Chafuen organizou a primeira cúpula de think tanks latino-americanos, na Jamaica.

CHAFUEN COMPREENDERA O MODELO DA ATLAS e trabalhava incansavelmente para expandir a rede, ajudando a criar think tanks na África e na Europa, embora seu foco continuasse sendo a América Latina. Em uma palestra sobre como atrair financiadores, Chafuen afirmou que os doadores não podiam financiar publicamente pesquisas, sob o risco de perda de credibilidade. “A Pfizer não patrocinaria uma pesquisa sobre questões de saúde, e a Exxon não financiaria uma enquete sobre questões ambientais”, observou. Mas os think tanks libertários – como os da Atlas Network –não só poderiam apresentar as mesmas pesquisas sob um manto de credibilidade como também poderiam atrair uma cobertura maior da mídia.

Os jornalistas gostam muito de tudo o que é novo e fácil de noticiar”, disse Chafuen. Segundo ele, a imprensa não tem interesse em citar o pensamento dos filósofos libertários, mas pesquisas produzidas por um think tank são mais facilmente reproduzidas. “E os financiadores veem isso”, acrescenta.

Em 1991, três anos depois da morte de Fisher, Chafuen assumiu a direção da Atlas – e pôs-se a falar sobre o trabalho da Atlas para potenciais doadores. E logo começou a conquistar novos financiadores. A Philip Morris deu repetidas contribuições à Atlas, inclusive uma doação de US$ 50 mil em 1994, revelada anos depois. Documentos mostram que a gigante do tabaco considerava a Atlas uma aliada em disputas jurídicas internacionais.

Mas alguns jornalistas chilenos descobriram que think tanks patrocinados pela Atlas haviam feito pressão por trás dos panos contra a legislação antitabagista sem revelar que estavam sendo financiadas por empresas de tabaco – uma estratégia praticada por think tanks em todo o mundo.

Grandes corporações como ExxonMobil e MasterCard já financiaram a Atlas. Mas o grupo também atrai grandes figuras do libertarianismo, como as fundações do investidor John Templeton e dos irmãos bilionários Charles e David Koch, que cobriam a Atlas e seus parceiros de generosas e frequentes doações.

A habilidade de Chafuen para levantar fundos resultou em um aumento do número de prósperas fundações conservadoras. Ele é membro-fundador do Donors Trust, um discreto fundo orientado ao financiamento de organizações sem fins lucrativos que já transferiu mais de US$ 400 milhões a entidades libertárias, incluindo membros da Atlas Network. Chafuen também é membro do conselho diretor da Chase Foundation of Virginia, outra entidade financiadora da Atlas, fundada por um membro da Sociedade Mont Pèlerin.

Outra grande fonte de dinheiro é o governo americano. A princípio, a Fundação Nacional para a Democracia encontrou dificuldades para criar entidades favoráveis aos interesses americanos no exterior. Gerardo Bongiovanni, presidente da Fundación Libertad, um think tank da Atlas em Rosario, na Argentina, afirmou durante uma palestra de Chafuen que a injeção de capital do Center for International Private Enterprise – parceiro do NED no ramo de subvenções – fora de apenas US$ 1 milhão entre 1985 e 1987. Os think tanks que receberam esse capital inicial logo fecharam as portas, alegando falta de treinamento em gestão, segundo Bongiovanni.

No entanto, a Atlas acabou conseguindo canalizar os fundos que vinham do NED e do CIPE, transformando o dinheiro do contribuinte americano em uma importante fonte de financiamento para uma rede cada vez maior. Os recursos ajudavam a manter think tanks na Europa do Leste, após a queda da União Soviética, e, mais tarde, para promover os interesses dos EUA no Oriente Médio. Entre os beneficiados com dinheiro do CIPE está a CEDICE Libertad, a entidade a que líder opositora venezuelana María Corina Machado fez questão de agradecer.

O assessor da Casa Branca Sebastian Gorka participa de uma entrevista do lado de fora da Ala Oeste da Casa Branca em 9 de junho de 2017 – Washington, EUA. Foto: Chip Somodevilla/Getty Images
NO BRICK HOTEL, em Buenos Aires, Chafuen reflete sobre as três últimas décadas. “Fisher ficaria satisfeito; ele não acreditaria em quanto nossa rede cresceu”, afirma, observando que talvez o fundador da Atlas ficasse surpreso com o atual grau de envolvimento político do grupo.

Chafuen se animou com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. Ele é só elogios para a equipe do presidente. O que não é nenhuma surpresa, pois o governo Trump está cheio de amigos e membros de grupos ligados à Atlas. Sebastian Gorka, o islamofóbico assessor de contraterrorismo de Trump, dirigiu um think tank patrocinado pela Atlas na Hungria. O vice-presidente Mike Pence compareceu a um encontro da Atlas e teceu elogios ao grupo. A secretária de Educação Betsy DeVos trabalhou com Chafuen no Acton Institute, um think tank de Michigan que usa argumentos religiosos a favor das políticas libertárias – e que agora tem uma entidade subsidiária no Brasil, o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista.
Mas talvez a figura mais admirada por Chafuen no governo dos EUA seja Judy Shelton, uma economista e velha companheira da Atlas Network. Depois da vitória de Trump, Shelton foi nomeada presidente da NED. Ela havia sido assessora de Trump durante a campanha e o período de transição. Chafuen fica radiante ao falar sobre o assunto: “E agora tem gente da Atlas na presidência da Fundação Nacional para a Democracia (NED)”, comemora.

Antes de encerrar a entrevista, Chafuen sugere que ainda vem mais por aí: mais think tanks, mais tentativas de derrubar governos de esquerda, e mais pessoas ligadas à Atlas nos cargos mais altos de governos ao redor do mundo. “É um trabalho contínuo”, diz.

Mais tarde, Chafuen compareceu ao jantar de gala do Latin America Liberty Forum. Ao lado de um painel de especialistas da Atlas, ele discutiu a necessidade de reforçar os movimentos de oposição libertária no Equador e na Venezuela.

Danielle Mackey contribuiu na pesquisa para essa matéria.

Tradução: Bernardo Tonasse

Auroria do original em inglês (que não li):
Lee Fang is a journalist with a longstanding interest in how public policy is influenced by organized interest groups and money. He was the first to uncover and detail the role of the billionaire Koch brothers in financing the Tea Party movement. His interviews and research on the Koch brothers have been featured on HBO’s “The Newsroom,” the documentaries “Merchants of Doubt” and “Citizen Koch,” as well as in multiple media outlets. He was an investigative blogger for ThinkProgress(2009-2011) and then a fellow at the Investigative Fund of the Nation Institute and contributing writer for The Nation.

In 2012, he co-founded RepublicReport.org, a blog to cover political corruption that syndicates content with TheNation.com, Salon, National Memo, BillMoyers.com, TruthOut, and other media outlets. His work has been published by VICE, The Baffler, The Boston Globe, the San Francisco Chronicle, The Progressive, NPR, In These Times, and The Huffington Post. His first book, “The Machine: A Field Guide to the Resurgent Right,” published by The New Press, explores how the conservative right rebuilt the Republican Party and its political clout in the aftermath of President Obama’s 2008 election victory. He is based in San Francisco.